ARNÓBIO, O ANTIGO

ARNÓBIO, O ANTIGO

1. ARNOBIO, O ANCIÃO, retórico pagão e um dos apologistas cristãos do século IV, nasceu em Sicca, cidade da África proconsular. Lá, ensinou retórica, por volta do fim do século III, com grande brilho e, tornado cristão, notabilizou-se por seu ardor em defender sua nova fé. Segundo São Jerônimo, Chron., P. L., t. XXVII, col. 675-676, foi um sonho que determinou a conversão de Arnóbio. Seja como for, o bispo de Sicca, por uma prudência demasiado justificada na África, hesitava, apesar das preces do convertido, em recebê-lo na Igreja. Para merecer tal honra e, talvez, a pedido do bispo, Arnóbio não hesitou em publicar seus sete livros contra os pagãos, Adversus gentes, P. L., t. V, col. 713-1290; ele havia, aparentemente, escolhido como alvo o livro bastante recente do neoplatônico Cornélio Labeão.

Não há dúvida de que o Adversus gentes remonta aos dez primeiros anos do século IV. O autor, com efeito, menciona ali, l. IV, c. XXXVI, P. L., t. V, col. 1075, os livros lançados ao fogo; alusão manifesta à perseguição de Diocleciano. A data aproximativa do cristianismo, que contava, segundo o autor, l. I, c. XIII, ibid., col. 735, trezentos anos, conduz-nos à mesma época. Do resto, nada se sabe da vida de Arnóbio; São Jerônimo, loc. cit., situa sua morte em 327.

A vasta obra de Arnóbio é, ao mesmo tempo, uma apologia da religião cristã e um ataque apaixonado contra o politeísmo, sob a forma de antropolatria. Nos dois primeiros livros, o retórico de Sicca, seguindo os passos de São Cipriano e retomando a tese do opúsculo Ad Demetrianum, refuta a velha calúnia dos pagãos de que o cristianismo era responsável por todas as desgraças do império. O terceiro, o quarto e o quinto livros, que formam um todo bem articulado, tomam diretamente como alvo o politeísmo greco-romano; fazem sobressair, primeiramente, sua absurdidade e, depois, sua imoralidade. É impossível não notar, nos capítulos finais do quinto livro, c. XXXII-XLV, a crítica incisiva e mordaz das teorias pelas quais estoicos e neoplatônicos se esforçavam para velar o escândalo dos mitos e idealizar o antigo paganismo. Nos livros sexto e sétimo, Arnóbio flagela impiedosamente os cultos politeístas e vinga os cristãos da falta de templos, sacrifícios e ídolos que a impiedade de seus adversários lhes reprovava.

Contudo, por mais hábeis e vigorosos que sejam os golpes desferidos contra as superstições pagãs, a apologia do cristianismo está repleta de lacunas e erros. Compreende-se facilmente que o escritor não estivesse muito a par de uma doutrina que mal acabara de abraçar. Assim, longe de classificar os deuses do paganismo, supondo que existam, entre os espíritos infernais, Arnóbio faz deles, com os neoplatônicos, potências celestes e como que deuses secundários; de modo que, para lhes contrapor o Deus dos cristãos, Deus o Pai, nomeia-o sempre o primeiro dos deuses ou o Deus supremo, deus princeps, deus summus. Mais de uma vez, notadamente l. II, c. LX, P. L., t. V, col. 906, afirma bem alto a divindade de Jesus Cristo; aconselha, todavia, subordiná-lo ao Deus supremo, como um ser inferior, e sustenta que, em vez de se encarnar, Cristo apenas revestiu e levou sobre si nossa humanidade, l. I, c. LXII, ibid., col. 802. A alma do homem é, a seus olhos, algo intermediário, anceps, mediae qualitatis; tem por autor, não o Deus supremo, mas um dos príncipes de sua corte, um anjo e, talvez, do mais alto escalão e, sem ser imortal por natureza, pode obter de Deus o dom de uma longevidade indefinida, l. II, c. XIX sq., col. 832 sq.

Com uma tintura tão leve e vaga da teologia cristã, Arnóbio não pôde escapar, na parte dogmática de sua obra, da imprecisão e da obscuridade. A prolixidade frequentemente fatigante do retórico africano, a busca exagerada pelo estilo, a pompa e a acumulação de epítetos e sinônimos, tudo concorre para adensar as nuvens e justificar o juízo de São Jerônimo: Arnobius insequalis et nimius, et absque operis sui partitione confusus. Epist., LVIII, ad Paulinum, 10, P. L., t. XXII, col. 585.

O erudito Arnóbio despertou tanto o interesse dos filólogos modernos que o Adversus gentes teve inúmeras edições. A primeira edição é a de Faustus Sabaeus Brixianus, in-fol., Roma, 1513; a mais recente, a de Reifferscheid, Viena, 1875. Le Nourry, Dissert, prima, P. L., t. V, col. 363-714; Orelli, ibid., col. 1291-1296; Kettner, Cornélius Labeo, ein Beitrag zur Quellenkritik des Arnob., Naumbourg, 1877; Leckelt, Ueber des Arnobius Schrift « Adversus nationes » (Progr.), Neisse, 1884; Rohricht, De Clemente Alexandrino Arnobe, Hamburgo, 1893; Freppel, Commode, Paris, 1893, p. 28-63; P. Godet, Arnobe, in Dictionnaire de théologie catholique, t. I, col. 1986-1996. Ver também: P. Monceaux, Hist. lit. de l'Afrique chrét., Paris, 1905, t. III, p. 241-286.

Autor original: P. Godet

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