APROPRIAÇÃO ÀS PESSOAS DA SANTÍSSIMA TRINDADE

APROPRIAÇÃO ÀS PESSOAS DA SANTÍSSIMA TRINDADE

APROPRIAÇÃO {ÀS PESSOAS DA SANTÍSSIMA TRINDADE}. — I. Natureza da apropriação.

1° A apropriação, ἀπὸ τοῦ πρὸς, é um procedimento empregado para tratar das três pessoas divinas. O espírito humano é muito pobre em conceitos próprios concernentes à Trindade, e a linguagem possui poucos termos para expressar as relações mútuas e o caráter íntimo do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Para obviar a tal indigência, a teologia recorre a conceitos, a palavras pelas quais são traduzidos outros objetos, e os aplica por analogia ou por apropriação às pessoas da Santíssima Trindade. Por exemplo, a teologia possui um conhecimento claro e certo das coisas unidas; ela encontra nas criaturas ou entre elas propriedades e relações que possuem certa similitude com os caracteres e as relações das pessoas divinas, e ilumina estes por meio daquelas. Ela remonta da Trindade pela criatura: é o que se chama os vestígios da Trindade na criação. Ver ainda Analogie, col. 1142.

A teologia possui noções numerosas e sólidas sobre a natureza divina, sobre suas propriedades, suas operações imanentes ou exteriores, isto é, sobre o que é comum às três pessoas divinas. Quando ela empresta essas noções para atribuí-las a uma pessoa da Santíssima Trindade com preferência a outra pessoa, ela emprega o que se chama a apropriação. Há, portanto, entre a apropriação e os vestígios esta diferença: que, pelos vestígios, empresta-se do conhecimento do criado, enquanto, pela apropriação, utiliza-se o conhecimento do incriado e da unidade para iluminar a Trindade. Sicut igitur similitudine vestigii vel imaginis in creaturis inventa utimur ad manifestationem divinarum personarum; ita et essentialibus attributis: et hæc manifestatio personarum per essentialia attributa, appropriatio nominatur. S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. xxxix, a. 7.

2° Para bem apreender a natureza da apropriação, é preciso observar que a coisa apropriada a uma pessoa divina não lhe é, contudo, atribuída em propriedade com exclusão das outras pessoas. Por exemplo, quando São Boaventura, In IV Sent., l. I, dist. XXXIV, q. un., Quaracchi, 1882, p. 512, diz que o Pai é poder, o Filho sabedoria, e o Espírito Santo bondade, ele não entende que o poder pertença apenas ao Pai com exclusão do Filho e do Espírito Santo, nem que a sabedoria pertença unicamente ao Filho e a bondade exclusivamente ao Espírito Santo. As qualidades e operações divinas não deixam de ser essenciais e comuns pelo fato de serem apropriadas a uma das pessoas. Cf. S. Leão, Serm., lxxvi, c. ii. P. L., t. LIV, col. 405. Foi por um erro desta natureza que Abelardo reservava o poder ao Pai apenas.

Mas, se é preciso evitar a exclusão das outras pessoas, importa, contudo, admitir uma preferência pela pessoa a quem se atribui a qualidade apropriada. Dizer: Tu solus Sanctus, Tu solus Dominus, Tu solus Altissimus, não é fazer uma apropriação, porque não significa, comparando as outras pessoas e afirmando-o, designar de preferência Santo, Senhor e Altíssimo. Ao contrário, no exemplo citado acima, há uma real apropriação porque, sendo as três pessoas comparadas, o poder é atribuído de preferência ao Pai, a sabedoria ao Filho, a bondade ao Espírito Santo.

Do que precede, pode-se concluir:

1. Que todas as qualidades ou operações essenciais podem servir de matéria a uma apropriação, pois todas possuem sempre um caráter sob o qual se possa, de uma maneira ou de outra, compará-las com uma das pessoas divinas e extrair delas uma semelhança. Cf. Henrique de Gante, Quodl., IV, q. 15; S. Tomás, Summa theologiæ, Ia, q. xxxix, a. 7, 8, onde ele faz servir à apropriação tudo o que concerne ao ser, à unidade, ao poder, à ação da essência divina, isto é, tudo o que tem relação com esta essência. Contudo, deve-se preferir os termos cujas relações mútuas lembram a ordem das três pessoas divinas. São Boaventura, In I Sent., dist. XXXIV, q. un., Quaracchi, 1882, t. I, p. 592, vai até dizer que os únicos nomes utilizáveis na apropriação são aqueles que contêm uma razão de ordem e de origem. Cf. de Régnon, Études de théologie positive sur la sainte Trinité, 3ª série, théories grecques des processions divines, étude XVII, c. ii, a. 2, § 5, Paris, 1898, t. I, p. 291.

2. Que várias qualidades essenciais ou operações naturais podem ser apropriadas a uma única pessoa. Pois, estando as pessoas envolvidas no mistério e podendo ser consideradas sob múltiplos aspectos, não são demasiados vários conceitos apropriados para facilitar a inteligência e distinguir suas faces. Assim, ao Pai são atribuídas a eternidade, o poder, a unidade.

3. Que uma mesma qualidade ou operação pode, por razões diversas, ser apropriada a várias pessoas. Isso decorre do fato de que uma qualidade apropriada a uma pessoa, não lhe sendo atribuída exclusivamente, pode ainda ser referida a outra pessoa sob um aspecto diferente. Assim, "a revelação dos mistérios de Deus" ao homem é atribuída diferentemente ao Filho e ao Espírito Santo. É atribuída ao Filho porque, em sua qualidade de Verbo, de Palavra do Pai, ele parece mais particularmente próprio para manifestar em si e por si a verdade de Deus. É atribuída ao Espírito Santo porque ele representa a bondade comunicativa de Deus e porque a revelação dos mistérios é um ato de terna familiaridade e uma comunicação para o exterior dos segredos divinos. Cf. Scheeben, La dogmatique, trad. Bélet, § 124, n. 1052, Paris, 1880, t. II, p. 705.

— II. As razões de ser da apropriação.

1° O procedimento da apropriação é indispensável. Sem ele, é impossível tratar das coisas da Trindade com detalhe e sucesso. A causa disso está no laconismo do dogma. De fato, o raciocínio pode bem conduzir o espírito humano da natureza criada à natureza criadora e fazê-lo descobrir a existência e algo dos atributos essenciais de Deus; mas, chegado ali, ele se detém; ele é competente sobre a Unidade divina, sobre a Trindade, ele é mudo. Ver Analogie, III, col. 1149. O mistério ultrapassa de modo radical o alcance da razão humana.

Por outro lado, a revelação nos diz, de fato, algo sobre a Santíssima Trindade, mas os pontos fixados pelo dogma, os conceitos que ele fornece, são pouco numerosos e, se nos ativéssemos unicamente às fórmulas definidas ou reveladas, chegaríamos rapidamente ao termo da ciência humana relativa ao Pai, ao Filho ou ao Espírito Santo. Por estas duas razões, era, portanto, de suprema utilidade enriquecer a linguagem teológica concernente à Santíssima Trindade.

A tradição, autorizada pela própria Sagrada Escritura, fê-lo pelos vestígios e pela apropriação.

2° A apropriação não acrescenta apenas aos conhecimentos dogmáticos sobre a Trindade; ela ilumina ainda estes e os precisa. São Tomás diz: "Convém, para uma maior manifestação das coisas da fé, apropriar os atributos essenciais às pessoas divinas. De fato, embora a Trindade das pessoas não possa ser demonstrada pela razão, convém, todavia, explicá-la por coisas mais manifestas. Ora, os atributos essenciais são mais manifestos à nossa razão que as propriedades pessoais, visto que, das criaturas que conhecemos, podemos chegar com certeza ao conhecimento dos atributos essenciais, mas não ao conhecimento das propriedades pessoais... E esta manifestação das pessoas pelos atributos essenciais chama-se apropriação." Sum. theol., Ia, q. xxxix, a. 7.

3° Por fim, em toda comparação, os dois termos comparados iluminam-se mutuamente. Os atributos divinos apropriados, por razão de semelhança, às pessoas divinas, não apenas tornam estas últimas mais bem conhecidas, mas manifestam-se eles mesmos mais claramente pela apropriação e, desse modo, graças a este método de linguagem, a Unidade ilumina a Trindade e a Trindade ilumina a Unidade.

— III. Aplicações da apropriação. Vimos que todos os termos ou conceitos que concernem à essência podem ser utilizados por meio da apropriação. Com efeito, a tradição patrística e teológica apropriou às pessoas divinas os nomes da natureza divina, suas qualidades essenciais e suas operações ad extra.

1° Os nomes. — Ao Pai é apropriado o nome de Deus, ao Filho o nome de Senhor. O nome de Espírito também pode, em certo sentido, ser considerado como apropriado à terceira pessoa. A Sagrada Escritura, quando enumera o Pai e o Filho, acrescenta frequentemente o nome de Deus ao primeiro e o nome de Senhor ao segundo. Benedictus Deus et Pater Domini Nostri Jesu Christi. II Cor., I, 3; cf. I Cor., VIII, 6; XII, 4-6; Ef., IV, 5-6. «É uma doutrina de piedade saber que há apenas um Deus ingênito, o Pai, e um só Senhor gerado, o Filho, o qual é chamado Deus quando se o designa em si mesmo e separadamente, mas é chamado Senhor quando se o nomeia conjuntamente com o Pai; pois a primeira designação convém à sua natureza, a segunda faz ressaltar a unidade de princípio.» Gregório de Nazianzo, Orat., XXV, n. 15, P. G., t. XXXV, col. 1220. Cf. Hilário, De Trinitate, l. VIII, n. 35-37, P. L., t. X, col. 263; Basílio, Epist., VIII, n. 3, P. G., t. XXXII, col. 230; Crisóstomo, In I Cor., homil. xx, n. 3, P. G., t. LXI, col. 161; Teodoreto, In I Cor., VIII, 6, P. G., t. LXXXII, col. 290; Franzelin, De Deo trino, th. XIII, Roma, 1874, p. 216; Ruiz, De Trinitate, q. LXXVIII, sect. IV; João Damasceno, De fide orthodoxa, l. I, c. x, P. G., t. XCIV, col. 839.

O nome de Deus é de tal modo atribuído de preferência ao Pai que este é por vezes chamado não apenas o Deus das criaturas, mas ainda o Deus do Filho. São João, I, 1, diz que o Verbo estava em Deus, isto é, segundo Teofilacto, In h. l., P. G., t. CXXIII, col. 1135, e outros Padres, em Ruiz, ibid., que ele estava no Pai. Cristo diz que o Pai é o seu Deus, Joa., XX, 17, e São Cirilo de Jerusalém, Catech., XI, c. XIX, P. G., t. XXXIII, col. 714, e Santo Hilário, De Trinitate, l. XI, c. XI, P. L., t. X, col. 406, afirmam que Cristo fala aqui como pessoa divina assim como enquanto homem. A liturgia começa e termina as suas orações assim: Per Dominum nostrum Jesum Christum. Cf. Legeay, Les noms du Père et du Fils dans la sainte Écriture, e uma prosa sobre os nomes de Cristo: Alma chorus domini, no missal de Sarum.

— O nome de Espírito aplicado à terceira pessoa convém-lhe propriamente se se entender significar o modo de processão desta pessoa por maneira de sopro e de espiração mútua do Pai e do Filho confundidos na unidade de um mesmo princípio; mas este nome é apenas apropriado, se for tomado no sentido de substância imaterial. Cf. Scheeben, n. 1046; Hurler, De Deo trino, c. III, n. 225, Innsbruck, 1896, t. II, p. 192.

— Tal é o destino desta palavra spiritus: após ter significado inicialmente, em sentido próprio, o vento ou o sopro do ar, serviu logo para designar metaforicamente os espíritos. A metáfora tornou-se rapidamente uma acepção própria, depois, continuando as suas vicissitudes, a palavra, da designação dos espíritos finitos ou do Espírito infinito, tornou-se, por apropriação ou propriamente, conforme os casos, o nome da terceira pessoa divina.

2° Os atributos essenciais. — Sob este tópico, os latinos e os gregos multiplicaram as apropriações. As principais são três:

1. Seguindo a São Hilário, De Trinitate, l. II, c. I, P. L., t. X, col. 51, e Santo Agostinho, De Trinitate, l. VI, c. x, P. L., t. XLII, col. 931, a eternidade é apropriada ao Pai, a beleza ao Filho, a fruição ao Espírito Santo. Aeternitas Patri, species Filio, usus Spiritui Sancto. S. Th., Sum. theol., Ia, q. XXXIX, a. 8. Cf. Alexandre de Hales, Sum. theol., Ia, q. LXVII, membr. I, Veneza, 1576, t. I, p. 160; Alberto Magno, Sum. theol., Ia, q. XLVIII, Lyon, 1651, t. XVII, p. 280; Pedro Lombardo, Sent., l. I, dist. XXXI, c. III, P. L., t. CXCII, col. 601; S. Boaventura, In IV Sent., l. I, dist. XXXI, part. II, a. 1, q. III, Opera, Quaracchi, 1883, t. Ib, p. 543; Henrique de Gante, Sum. theol., Ia, a. 72, q. III, IV, Paris, 1520. A eternidade, pressupondo um ser sem começo e sem princípio, convém ao Pai. A beleza consiste na integridade do ser, na sua harmoniosa proporção e no seu esplendor. Ela convém ao Filho que possui na sua plenitude a natureza do Pai, que é a imagem perfeitamente proporcionada deste, que contém numa ordem harmoniosa as ideias exemplares de todas as criaturas, que, enfim, pela maneira como procede, brilha com o fulgor da luz intelectual. A fruição é legitimamente apropriada ao Espírito Santo, pois implica o desfrute final na posse de um bem. Ora, o Espírito Santo representa a bondade, ele é o dom infinito, ele procede do amor, da fruição mútua do Pai e do Filho — ele é o termo e o fim das procissões divinas.

2. Atribui-se ainda ao Pai a unidade, ao Filho a verdade, ao Espírito Santo a bondade; pois a unidade é o princípio da Trindade; a verdade é a semelhança do conceito com a realidade ou da realidade com o seu exemplar, como o Filho é a similitude infinita do Pai. Finalmente, uma coisa é boa quando é consumada e perfeita, uma pessoa é boa quando é benfazeja e faz irradiar ao seu redor a alegria e a afeição.

Ora, o Espírito Santo é a consumação e a perfeição da Trindade, ele é amor, dom, fonte de benefícios e de alegria. — Cf. Scheeben, n. 1047, trad. Bélet, Paris, 1880.

3. Como a unidade pode ser considerada sob diversos pontos de vista, atribui-se também ao Pai a unidade sem restrição, ao Filho a unidade de igualdade, ao Espírito Santo a unidade de ligação, porque o Pai, assim como a unidade, não pressupõe nada e tem a razão de princípio; porque o Filho procede do Pai em similitude perfeita e na unidade de uma mesma natureza; porque o Espírito Santo é o elo do Pai e do Filho. In Patre unitas, in Filio aequalitas, in Spiritu Sancto unitatis aequalitatisque concordia. Et haec tria unum omnia propter Patrem, aequalia omnia propter Filium, connexa omnia propter Spiritum Sanctum. S. Agostinho, De doctrina christiana, l. I, c. v, P. L., t. XXXIV, col. 21.

3° As operações divinas ad extra. — Distinguem-se, sobre as operações, as causas ou as potências que nelas concorrem, os atos produzidos por estas potências, os efeitos que delas resultam, as relações que se estabelecem entre os efeitos e as suas causas. São outros tantos aspectos dos quais a tradição se inspirou para falar a linguagem da apropriação.

1. A potência, a sabedoria, a bondade revelam-se em toda operação de Deus para o exterior. Ora, a potência é apropriada ao Pai, a sabedoria ao Filho, a bondade ao Espírito Santo. O Pai, com efeito, sendo o princípio e o primeiro na Santíssima Trindade, tem um cunho de semelhança com a potência que é o princípio das ações e que precede estas, bem como os seus efeitos. O Filho, enquanto Verbo, representa a sabedoria do Pai. A bondade que ama e que faz amar convém ao Espírito Santo, o qual é amor. Cf. Ricardo de São Vítor, De Trinitate, IV, c. VIII, P. L., t. CXCVI, col. 979; Ruiz, De Trinitate, disp. LXXXII, sect. IV; S. Tomás, Sum. theol., Ia, q. XXXIX, a. 8; Scheeben, n. 1060. Esta apropriação é outra, pela qual, nas operações, atribui-se ao Pai a potência, pois esta é eficiente; a causalidade exemplar é atribuída ao Filho, pois é ele quem concebe as ideias; a causalidade final pertence ao Espírito Santo, uma vez que ele age pela bondade que ela contém e pelo amor que inspira. Cf. S. Tomás, Sum. theol., I, q. XXXIX, a. 8. Roma, 1897, t. I, p. 183; E. Dubois, loc. cit. — Pelos mesmos motivos, a criação, que implica potência, é apropriada ao Pai; a disposição bem ordenada de todas as coisas ou o governo parece, sobretudo, apropriada ao Filho, cuja sabedoria é o princípio e o termo; os movimentos da criatura têm a sua razão e o seu termo no Espírito Santo. Cf. E. Dubois, loc. cit.

2. A causalidade eterna produz os seus efeitos por meio de uma série de atos substancialmente idênticos, mas distintos e considerados sucessivos pela nossa razão. O primeiro desses atos, a resolução de agir, βούλημα, ponto de partida, é apropriado ao princípio, ao Pai; vem em seguida o plano das operações divinas e a sua execução, δημιουργία; isto convém ao Filho, que é sabedoria na concepção do plano e demiurgo na sua execução; seguem-se, enfim, a conservação e a consumação, ἀπελείωσις, de todas as coisas, as quais são reportadas ao Espírito Santo, que é amor e consumação da santa Trindade. Cf. Scheeben, n. 1000; Franzelin, loc. cit.

3. Os efeitos da ação divina são as substâncias que, sendo na natureza o substrato e o princípio das atividades e das propriedades, são consideradas como produzidas pelo Pai; ao Pai cabem ainda as intervenções milagrosas, onde se manifesta de modo brilhante a onipotência. As substâncias materiais sofrem transformações, as inteligências recebem iluminações, as almas caídas são levantadas, o seu perdão é intercedido. Ao Filho demiurgo, Verbo do Pai e pessoa encarnada, todas estas operações serão reportadas. Por fim, ao Espírito Santo tudo o que aperfeiçoa, tudo o que santifica, tudo o que consuma; a ele, portanto, todo o sobrenatural, a graça, os dons gratuitos, as virtudes.

4. As relações que se estabelecem assim entre as criaturas e o Criador são expressas e apropriadas pelas fórmulas tradicionais seguintes: ἐξ, δι’, ἐν. São Paulo tinha dito: "D'Ele, por Ele e n'Ele são todas as coisas." Rom., xi, 36. Desenvolvendo esta ideia, São Atanásio escreve: "Tudo é feito pelo Pai, por meio do Cristo, no Espírito Santo, πάντα ὑπὸ τοῦ Πατρὸς, διὰ Χριστοῦ ἐν τῷ Πνεύματι. Reconheço, pois, como indivisível a operação do Filho e do Espírito Santo. Mas, porque enlaço assim o ἐξ οὗ, o δι’ οὗ e o ἐν ᾧ, não se segue que tente transformar a Trindade em uma simples unidade." S. Atanásio, Adversus sabellianos, 12, P. G., t. XXVIII, col. 117. — O ἐξ οὗ convém ao Pai, que é princípio e primeiro; o δι’ οὗ, que implica um intermediário, convém ao Filho, e assim Deus faz tudo pelo Filho como por sua mão; o ἐν ᾧ convém ao Espírito Santo como ao termo no qual repousa o amor mútuo do Pai e do Filho e no qual são completadas e aperfeiçoadas todas as coisas. Deve-se entender no mesmo sentido a fórmula: Glória ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo e a fórmula super omnia, per omnia, in omnibus. "Existe, pois, uma Trindade santa e perfeita adorada no Pai, no Filho e no Espírito Santo, sem nada de estranho, sem mistura de coisa exterior, não consistindo em criador e criatura, mas toda ela criadora e demiurga. Ela é toda semelhante a si mesma, indivisível em natureza, idêntica em operação. Pelo Pai, pelo Verbo, no Espírito Santo opera toda coisa. E é assim que na Igreja é pregado um só Deus que é super omnia, per omnia et in omnibus: super omnia, como Pai, princípio e fonte; per omnia, isto é, pelo Verbo; in omnibus, isto é, no Espírito Santo." S. Atanásio, Ad Serapion., c. i, 28, P. G., t. XXVI, col. 595. Cf. S. Tomás, Sum. theol., I, q. XXXIX, a. 8; de Régnon, op. cit., t. I, p. 68; Scheeben, n. 1051.

IV. História da doutrina. Não podemos fazer aqui o histórico de cada uma das formas da apropriação, isto é, de cada um dos nomes essenciais apropriados às pessoas divinas. Este estudo será feito nos artigos consagrados a esses nomes. Descreveremos apenas as origens e os progressos da teoria referente ao próprio método da apropriação.

1° O fundamento desta teoria encontra-se na maneira de falar dos autores inspirados, na maneira de crer e de rezar da Igreja.

1. A Sagrada Escritura, com efeito, sem expor a doutrina da apropriação, parece praticá-la frequentemente. É assim que ela emprega de preferência, como vimos, o nome de Deus, Deus, ao falar do Pai, e o de Senhor, Dominus, por ocasião do Filho. Cf.

Rom., xv, 9; II Cor., i, 3; xi, 31; Ef., i, 3; iv, 6; I Tess., i, 1, 3; iii, 11, 13; II Tess., i, 1, 2; I Ped., i, 3. São Paulo reporta a distribuição dos ministérios na sociedade cristã ao Filho, como ao chefe e à cabeça da Igreja, e a repartição das graças ao Espírito Santo, como ao santificador. "Há diversidade de graças, charismata, mas é o mesmo Espírito; diversidade de ministérios, diakoniai, mas é o mesmo Senhor; diversidade de operações, energematon, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos." I Cor., xii, 4-6. Lemos sobre o que São Tomás observa: "Ex ipso et per ipsum et in ipso sunt omnia, Rom., xi, 36, dicitur propter Patrem, per ipsum propter Filium, in ipso propter Spiritum Sanctum."

2. As fórmulas da fé também fazem apropriações. Os fiéis creem "em Deus, o Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, seu Filho único, Nosso Senhor, por quem tudo foi feito, e no Espírito Santo vivificador que falou pelos profetas". Cf. Denzinger, Enchiridion, n. 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 17, 47; Ginoulhiac, Histoire du dogme catholique, t. VI, c. ix, Paris, 1866, t. II, p. 56.

3. A liturgia, desde a origem, faz repetir aos fiéis a doxologia relatada acima: "Glória ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo." Toda oração católica é marcada por este cunho: ela é oferecida ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo; ela é batizada na Trindade. A missa propriamente dita (missa dos fiéis) é composta apenas por uma série de orações, sempre terminadas pela oração de intercessão do Filho: por Nosso Senhor, pelo Cristo, por ele, com ele, nele é toda glória a Deus Pai, na unidade do Espírito Santo. Cf. H. Marucchi, Éléments d'archéologie chrétienne, Notions générales, p. 327; Dom Fernand Cabrol, Le livre de la prière antique, c. xix, Paris, Poitiers, 1900, p. 262.

Em sua célebre carta a Anfilóquio sobre o Espírito Santo, 3, P. G., t. XXXII, col. 71, São Basílio nos indica qual era, em seu tempo, a extensão e a importância desta doxologia: "Ultimamente, diz ele, eu rezava com o meu povo e empregava como doxologia, ora: ao Pai com o Filho e com o Espírito Santo, meta tou Yiou syn to Pneumati; ora: ao Pai pelo Filho no Espírito Santo, dia tou Yiou en Pneumati. Alguns dos assistentes nos fizeram disso um crime, como se empregássemos fórmulas não somente novas, mas ainda contraditórias. Com o objetivo de lhes ser útil, ou, se forem incuráveis, para a segurança daqueles que os encontram, pedistes-me uma exposição clara tocando na força de cada uma destas palavras." A carta é, pois, consagrada à explicação desta fórmula, cuja gravidade ressalta por isso mesmo. (T. P. de Régnon, op. cit., estudo XIV, c. v, a. 2, Querelle au sujet de l'une doxologie, t. i, p. 120.)

Mais tarde ainda, o ofício da Santíssima Trindade contém alguns agrupamentos que derivam de fórmulas de orações antigas e onde se encontram nem pessoas nem verdadeiras apropriações, por exemplo: Charitas Pater est, gratia Filius, communicatio Spiritus.

A iconografia da apropriação possui um tipo muito expressivo em um sarcófago da Santíssima Trindade descoberto na via Ostiense, nas fundações do cibório do altar de São Paulo Extramuros, e conservado no Museu Lateranense. Três personagens, com barba e os três ostentando o mesmo símbolo da coeternidade das três pessoas adoráveis, procedem à criação de Eva. Na retaguarda do grupo, o Pai de pé, parecendo presidir a obra criadora. Diante do Pai, sentado em um assento de treliça recoberto por uma tapeçaria, o Filho, com o gesto da mão direita levantada, ordenando pela bênção ou pelo comando que Eva saia do lado de Adão. À esquerda do Pai, de pé, o Espírito Santo, olhando para o Pai e o Filho, e com a mão direita pousada sobre a cabeça de Eva, abençoando e completando a obra criadora do Filho. Assim é traduzido, pela escultura, o pensamento de Santo Ireneu: «Para fazer o que ele mesmo havia destinado ao ser, Deus tem também as suas mãos: pois ele tem sempre o Verbo e a Sabedoria, o Filho e o Espírito, pelos quais e nos quais ele fez livre e espontaneamente todas as coisas.» Ireneu, l. V, c. xxxvi, n. 2. Cf. Franzelin, op. cit., p. 221, nota 2; Marucchi, Éléments d'archéologie chrétienne, l. IV, c. VIII, § 1, Roma, 1900, t. I, p. 327.

Ver uma explicação na Roma sotterranea, de Bosio, Roma, 1632, p. 148, uma inscrição posterior à época das Catacumbas que traz: in nomine Fil. et Patris sancti omnipotentis Domini nostri Jesu Paracleti. Lê-se a mesma inscrição em um mármore tosco encontrado em Saint-Taurin d'Évreux. Le Blant, Inscriptions chrétiennes de la Gaule, Paris, 1856, t. I, p. 222.

Os Padres gregos já esboçam a teoria da apropriação em suas linhas principais pelas regras que estabelecem:

1. Distinguem para o emprego dos nomes, em primeiro lugar, as σχέσεις, coisas que estão ao redor de Deus, que lhe concernem, τὰ περὶ Θεόν, e as coisas que estão em Deus, que constituem sua essência, τὰ κατὰ Θεόν. As primeiras são cognoscíveis, as segundas são incognoscíveis em si mesmas e não podem ser conhecidas senão pelas primeiras; em outros termos, Deus só pode ser conhecido pelas relações com Ele.

2. Depois, nas coisas que estão περὶ Θεόν, os Padres distinguem os nomes comuns à divindade e os nomes próprios às pessoas divinas. Estas não têm, cada uma, senão um nome próprio, ἴδιον ὄνομα, κλῆσις, as outras denominações não são senão apelações.

3. As κλήσεις são extraídas da Sagrada Escritura. Graças a elas, descobre-se o caráter próprio de cada pessoa. Gregório de Nazianzo, Oral., xxx, 10, 17, 19, 20, P. G., t. xxxvi, col. 124-129; Orígenes, in Joa., tom. i, 10, 11, 23, P. G., t. xiv, col. 38, 39, 59; S. Atanásio, De decretis Nicænæ synodi, P. G., t. xxv, col. 461; S. Basílio, De Spiritu Sancto, 17, 17, P. G., t. xxxii, col. 145; Gregório de Nissa, Contra Eunomium, l. III, P. G., t. XLV, col. 612; João Damasceno, De fide orthodoxa, l. I, c. xii, P. G., t. xciv, col. 839. — Estas κλήσεις, que não são o nome próprio das pessoas divinas, mas que são, contudo, atribuídas a elas e as fazem melhor conhecidas, são algo próximo dos termos apropriados? O Pe. de Régnon, op. cit., estudo XVII, c. ii, t. I, p. 305; estudo XXV, c. i, t. III, p. 386, vê esta diferença: que a apropriação não ensina nada de novo sobre a pessoa divina e serve apenas para relembrar noções adquiridas; ao contrário, as apelações (κλῆσις) escriturísticas precedem, no espírito dos fiéis, todo trabalho da razão. Aceitam-se primeiro como contendo uma verdade relativa às pessoas. Santo Hilário, De Trinitate, l. II, n.

S. Hilário, De Trinitate, l. III, n. 1, P. L., t. x, col. 50; Santo Agostinho, De Trinitate, l. VI, c. 11, P. L., t. xlii, col. 931; l. VII, c. i, P. L., t. xlii, col. 934, referidos acima como os primeiros autores da teoria pela qual Leão Magno se inspirou, escrevem em seguida isto: «Se quisermos compreender que ela é uma trindade, não poderemos falar sem separar os termos: quum inseparabiliter intelligeretur trinitas, cum si semper inseparabiliter diceretur. Portanto, embora na Trindade exista a divindade imutável, única substância, indivisa em suas operações, unânime em suas vontades, igual em poder, incommutabilis hujus beatæ Trinitatis divinitas una est in substantia, indivisa in opère, æqualis in omnipotentia, par in gloria, contudo a Sagrada Escritura atribui especialmente às pessoas certos nomes e certos fatos, de qua sancta Scriptura sic loquitur ut aut in factis aut in verbis aliquid assignet quod singulis videatur convenire personis; e nisto ela não perturba a fé, mas a instrui, non perturbatur fides catholica, sed docetur, porque a inteligência não separa o que o ouvido distingue, non dividat intellectus quod distinguat auditus. Ao contrário, os fiéis são impedidos assim de errar sobre a Trindade, ut confessio fidelium de Trinitate non erret.» Sermo de Pentecoste, lxxvi, c. iii, P. L., t. liv, col. 405.

A escolástica deu à teoria sua forma atual. Mesmo alguns doutores como Alexandre de Hales, I, q. lxxii, membr. iii, a. 1, Veneza, 1576, t. I, fol. 161; Alberto Magno, I, q. I, membr. I, Lyon, 1651, t. XVII, p. 289; São Boaventura, In IV Sent., l. I, dist. XXIV, q. iii, Opera, Quaracchi, 1883, t. I, p. 592; São Tomás, loc. cit., completaram-na. Até então, atribuíam-se os nomes essenciais às pessoas divinas por causa de uma certa semelhança entre o conteúdo desses nomes essenciais e o próprio de cada pessoa.

Estes autores acrescentaram à apropriação por semelhança a apropriação por dessemelhança, e assim afirmaram que se atribuía ao Pai a potência para evitar a ideia de velhice e de impotência que o nome de pai frequentemente desperta nos humanos; ao Filho, o nome de sabedoria, para repelir a ideia de inexperiência e ignorância que frequentemente ocorre a propósito dos filhos dos homens, etc.

Os hereges, de qualquer modo que diminuíssem a distinção das pessoas ou que a exagerassem a ponto de torná-las pessoas desiguais, não deviam mais considerar como apropriados, mas empregar como próprios às pessoas divinas, os nomes essenciais que lhes são aplicados. Aqueles que a diminuíram, à maneira dos sabelianos, deviam considerar a apropriação como inútil, uma vez que, não sendo as três pessoas divinas distintas senão de nome, é ocioso buscar fórmulas que fizessem ressaltar seu caráter próprio.

O principal e mais direto adversário das apropriações foi Abelardo, que pretendia que não se deve atribuir de preferência e apropriar a potência senão ao Pai, mas reportá-la a Ele como propriedade exclusivamente pessoal e essencial do Pai. Sustentava que o Filho não é de modo algum uma potência, e que o Espírito Santo não tem senão uma certa potência. Da mesma forma que identificava a pessoa do Pai com a potência, identificava a do Filho com a sabedoria, a do Espírito Santo com a bondade: estes atributos não eram então mais apropriados às pessoas divinas, mas lhes eram aplicados como seu próprio caráter pessoal. Ver os artigos de Abelardo condenados pelo concílio de Sens (1141) e por Inocêncio II (16 jul. 1141) prop. 1 e 14. Denzinger, Enchiridion, n. 310, 323. Ver Abelardo. O mesmo erro foi professado por Arnaldo de Bréscia. Ver Otão de Freising, De rébus gestis Friderici I, l. I, c. xlix, no Recueil des historiens des Gaules, Paris, 1869, t. XIII, col. 656.

S. Hilário, De Trinitate, l. III, n. 1, P. L., t. X, col. 50; S. Agostinho, De Trinitate, l. VI, c. i, P. L., t. XLII, col. 931; Richard de Saint-Victor, De Trinitate, l. III, c. i, P. L., t. CXCVI, col. 991; S. Bonaventure, In I Sent., dist. XXXI, q. I, Quaracchi, t. I, p. 543; S. Thomas, Sum. theol., I, q. XXXIV, a. 7, 8; c. gent., l. IV, c. xv; Opéra omnia, Venise, 1744, t. VIII, p. 288 c. sq.; Petau, De trinitate, l. VI, c. VIII, § 5, dans Migne, Theol. cursus completus, t. IV, col. 228-244; Gonet, Clypeus theologiae thomisticae, disp. IX, a. 1, § 1, n. 1, Anvers, 1680, t. I, p. 563; Ruiz, De praedestinatione, disp. I, sect. 2, § 3, n. 5, Lyon, 1636; Wihiac, De Deo uno et trino, disp. 21, § 4, dans H. G. P. L., t. III, p. 181; Ginoulhiac, Histoire du dogme catholique, Paris, 1866, t. II, p. 56; Franzelin, De Deo trino, th. XIII, Rome, 1874, p. 216; Scheeben, La dogmatique, § 124, trad. Bélet, Paris, 1880, t. II, p. 698; Kleutgen, De ipso Deo, n. 887, 1019, 1106, Ratisbonne, 1881, p. 545, 647, 705; Heinrich, Theol. dogm., § 250, Mayence, 1881, t. IV, p. 603; Dubois, De exemplarismo divino, c. VI, § 3, Rome, 1897, p. 41; Paquet, Disputationes theologicae in Summam D. Thomae, De Deo uno et trino, disp. X, q. I, a. 2, Québec, 1895, p. 512; Régnon, Études de théologie positive sur la sainte Trinité, Paris, 1898, t. III, études XVI, XVII, XXVI; Pesch, Praelectiones dogmaticae, t. II, De Deo trino secundum personas, n. 639, Fribourg-en-Brisgau, 1899, p. 331; Kirchenlexikon, Trinität.

Autor original: A. Chollet

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