APÓSTOLOS

APÓSTOLOS

APÓSTOLOS. Aqui, tal como sucede com a apostolicidade, o teólogo não se ocupará senão pouco ou nada da história das doutrinas, nem da história das instituições; não faremos nada da história, por exemplo, da doutrina, nem do que, na medida do dogma, explicará as passagens de São Paulo, ou a exigência do apostolado cristão, ou o que interessa ao apóstolo, na matéria teológica; mas, certamente, o teólogo não toca na teologia, nem mais na da Igreja, mas não na questão das origens e da noção; a constituição e as condições para ser apóstolo. I. O vocábulo e a noção; as condições para ser apóstolo. II. Teorias racionalistas. III.

As origens do apostolado. IV. A missão dos apóstolos. V. As prerrogativas dos apóstolos. VI. Os apóstolos e o depósito da revelação. VII. Os apóstolos e os bispos; carisma. APÓSTOLO (ἀπόστολος), propriamente enviado. O vocábulo ἀπόστολος, nas Bíblias gregas, na Septuaginta, na noção e nas condições, e na noção, não significa uma função. O vocábulo da Septuaginta, 1 Reg., xiv, 6 (sem correspondência, utiliza-se o verbo ἀποστέλλω, mas em outras traduções, cf. F. Vigoureux, La Sainte Bible polyglotte, Paris, 1901, t. II, p. 680; p. 690), é frequente na linguagem eclesiástica, e em Jesus, ora responde ao particípio junto aos doze enviados [aos quais é preciso juntar Matias, escolhido para substituir Judas, e já associado por ele ao Evangelho, Act.

I, 21-22], ora para designar Paulo e Barnabé [Act. XIII, 2-4; XIV, 14], e ora para designar, notadamente, Paulo e Barnabé, e todas as sortes de pregadores, como se diz hoje, itinerantes. Ele é posto na boca de Jesus, em sentido lato, talvez também Luc., XI, 49; mas no Evangelho, São João, XII, 16, nunca diz senão «os doze», «os doze», «os apóstolos». Fora dos Evangelhos e dos Atos, Luc., XI, 49, e a fórmula, o vocábulo apostolus é aplicado ao grupo: Joa. XIII, 16, e empregado por São Paulo para Timóteo, no início de suas duas Epístolas, aos Efésios, aos Coríntios: não o encontramos senão aí, e, no plural, II Cor., XI, 13; I Thess., II, 7, e sem o equivalente, Jud., 17 (e Eph., III, 5).

São Paulo emprega por vezes o vocábulo no sentido preciso em relação àqueles que são apostolorum e apostoli ecclesiarum, vestrorum, gentium: «vossos apóstolos» significa o sentido de enviados da Igreja, Phil., II, 25; cf. Rom., XVI, 7, e é provavelmente para bem indicar os doze que ele fala por vezes dos grandes apóstolos, II Cor., XI, 5, dos apóstolos superiores, II Cor., XII, 11. Finalmente, São Paulo aplica o termo a Nosso Senhor: Heb., III, 1: Joa. XX, 21. Vê-se como em toda parte o vocábulo apóstolo aparece com a noção de envio, missão. II.

Condições para ser apóstolo. — Antes de tudo, o vocábulo, divino sem eleição, é necessário e sem prerrogativas para ser apóstolo (no sentido próprio de Deus ou de Jesus). Abundam os textos que mostram o apostolado como missão imediata. Mas a continuação, o vocábulo, basta? Recordaremos aqui: Marc. III, 13-14; Joa. XVII, 18; XX, 21; I Cor., I, 1; Act., I, 2; IX, 15; XIII, 2; Rom., I, 1, etc. Sobre este ponto, em parte alguma, para ser apóstolo, é necessário ter privilégios do apostolado? Muitos textos parecem exigir, além disso, que se tenha vivido com Jesus durante sua vida pública, ou pelo menos que se tenha visto o Senhor.

É o que parece supor São Marcos, III, 13-14, quando se trata de substituir os apóstolos por alguém dentre aqueles que «conviveram com eles, desde o batismo de João até sua ascensão, para ser testemunha de sua ressurreição». Act., I, 21-22. É o que parece ressaltar das palavras de São João, apresentando seu relato e sua pregação como um testemunho: qui vidit testimonium perhibuit. Joa., XIX, 35; cf. XX, 30; XX, 21: I Joa., I, 1-3. É, enfim, o que trazem as palavras de Nosso Senhor, no mesmo pensamento, quando diz: «Sereis minhas testemunhas». Act., I, 8.

São Paulo: «Não sou eu apóstolo? Não vi eu o Senhor?» I Cor., IX, 1. Segundo esta, Matias, Barnabé, Paulo encontram-se em Act., I, 25-26; IX, 15; XXII, 15; XIII, 2-4. Mas, além disso, ou não, em Act., IX, 13-14; I Cor., IX, 1-2; Gal., I, 1; etc., não se separa, neste ponto, o nome de apóstolos. Todavia, este ponto é mínimo, não seria causa da missão, nem tampouco da de São Barnabé, o teólogo. Ver, a questão é de duas opiniões contraditórias: apostolat de Barnabé, berger et de l'apôtre Barnabas, Der Apostel Barnabas, Tubinga, 1840, p. 3; sq., e as outras teorias do apostolado, Mogúncia, 1840, p. 18; sq. III.

As teorias racionalistas. — Não insistiremos. Quer-se, em medida muito restrita, explicar o apostolado pelo arbítrio ou pela doutrina, e é o que precede. Quer-se, sem uma intenção visível, pregar; por vezes, o deixar, e os outros, aqueles que se sucedem, causam dano, por seu lado, ao ponto de vista dogmático; e, em certos casos, é raro que não seja de alguma visão, ou que seja de algum proveito. Segundo Harnack, Jesus não estatuiu sobre o futuro, não tem, portanto, uma autoridade social. Jesus não concebeu, portanto, o apostolado para pregar a fé em Deus, como uma doutrina, mas como uma missão, manifestada por Jesus Cristo, de chamar, como um pai, como um rei, que ama, e de chamar, e de chamar, e de chamar as almas, e de chamar a todos. Ver Choisy, Précis, p. 14; 1640; 66, 69, cap. i-iv; 75 sq. do livro I; cf. Choisy, Précis, II, c. II, p. 14, conclusões, xiv, xvi, xxi; depois as 50 sq. Pesch agrupou vários dos textos de Harnack, n. 310, nota. Para M. Seufert, Jesus nem teria escolhido os doze; o apostolado seria uma instituição judaizante nascida da luta de Paulo contra os judaizantes. Cf. H. Monnier, na Revue de l'histoire des religions, Paris, 1899, t. xl, p. 448. M. Eric Haupt admite a escolha de doze privilegiados, sobre o testemunho de São Paulo, I Cor., xv, 5; mas, não mais que os setenta e dois discípulos, eles não tinham outra missão senão preparar os caminhos para Jesus; mesmo após a ressurreição, nenhum vestígio de missão, nenhum vestígio de autoridade confiada por Jesus; nada em João ou nos Atos permite reconhecer neles algo além de uma influência moral.

O único encargo confiado aos doze (pela comunidade cristã) é o ministério da pregação; ainda assim, esse encargo não é seu privilégio exclusivo. São Paulo é o primeiro a reclamar autoridade, e a exercê-la; mas o ministério de Paulo difere, em fundo e forma, do dos doze. Paulo, aliás, em sua própria esfera de ação, não reconhece essa autoridade a ninguém mais senão a si mesmo. O título de apóstolo não vem de Jesus, e é preciso entender Luc., vi, 13, como uma interpretação pessoal do escritor. O apóstolo não é concebido como itinerante, senão mais desde o apóstolo, tal como o entende o apóstolo São Paulo, aquele que «viu o Ressuscitado».

Por essência, o apóstolo não tem sucessor, pois o apostolado é um carisma, e os carismas não se transmitem. Donde se segue que a «sucessão apostólica é um mito». Cf. H. Monnier, loc. cit., p. 449 sq. Eis algumas das teorias. Coloquemo-nos em presença dos textos e dos fatos. — III. As origens do apostolado. i. Escolha e preparação dos apóstolos. — Desde os inícios de sua vida pública, vemos Jesus agrupar ao seu redor discípulos escolhidos, que o escutam, que o acompanham, que se tornam sua família. Matth., iv, 18-22; ix, 9; Luc., v, 1-11; Joa., i, 35-51; ii, 2, 11; vi, 27, 28; xi, 12-18.

Entre eles já estão aqueles que serão em breve «os apóstolos», e Jesus mostra de maneira bastante clara suas intenções especiais sobre eles através de algumas palavras, prenhes de seu futuro. A Simão, ao olhar para ele: «Tu te chamarás Cefas.» Joa., i, 41. Aos quatro pescadores de Genesaré: «Segui-me, eu vos farei pescadores de homens.» Matth., iv, 19. Breve, uma nova seleção se opera, separando nitidamente os doze apóstolos do número dos discípulos. Os Sinóticos falam disso em termos que mostram a grandeza da decisão: «Chamou a si os que ele quis, e foram até ele, e constituiu doze para que estivessem com ele e para que os enviasse a pregar.» Marc., III, 13, 14.

São Lucas é mais preciso. Mostra-nos Jesus retirando-se ao monte para orar a Deus e passando a noite em oração; acrescenta: «Quando amanheceu, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos.» Luc., vi, 12, 13; cf. Matth., x, 1, 2. Qual foi a palavra aramaica que Jesus utilizou, não sei; no máximo, pode-se conjeturar. Mas isso não nos informaria muito. Mais instrutiva é a conduta de Jesus para com eles. Daí em diante, viverão na sua familiaridade, Marc., iii, 4; Luc., viii, 1; ouvirão todas as suas instruções, receberão instruções especiais, como amigos para os quais não há segredo, Matth., xiii, 11, 16; Joa., xv, 15; terão exercícios preparatórios, uma missão temporária como prelúdio à missão definitiva.

Matth., x, 1 sq.; Luc., ix, 1, 2. É toda uma educação, conduzida divinamente. Ao formá-los para o presente, ele os prepara para o futuro. Esse reino de Deus que prega, mostra-lho como um grande organismo social, onde o lugar deles está marcado. É uma Igreja que ele edificará sobre a rocha e da qual, com Pedro, eles serão os fundamentos, Matth., xvi, 18, 19; cf. Luc., xx, 31, 32; é uma sociedade onde eles terão todo o poder. Matth., xviii, 16-18. Já lhes mostra com que espírito deverão exercer esse poder: uma mansidão e uma humildade sempre prontas a perdoar, Matth., xviii, 21 sq.; uma dedicação que não vê no governo senão um meio de prestar serviço e fazer o bem.

Joa., xiii, 13-16; Luc., xxii, 24-27. À medida que a paixão se aproxima, as suas instruções tornam-se mais íntimas, Joa., xiii-xvi, e a sua oração mais insistente por eles e por «aqueles que hão de crer pela sua palavra», Joa., xvii, 20; as suas promessas, mais asseguradas. Joa., xv, 33; cf. Luc., xxi, 12-19; Joa., xiv, 26; xvi, 12, 13, etc. Incumbe-os de perpetuar o sacrifício, tal como ele mesmo foi enviado, Luc., xxii, 19; cf. xv, 16; Joa., xvii, 18; o Espírito Santo instruí-los-á sobre tudo e dar-lhes-á testemunho de Jesus para que, por sua vez, eles dêem testemunho, Joa., xiv, 26; xvi, 13; xv, 26, 27; ele estará eternamente com eles. Joa., xiv, 16.

É evidentemente pelos seus cuidados que o grão de mostarda se tornará uma grande árvore, pela sua boca que o Evangelho será pregado até aos confins do mundo. Matth., xxiv, 14; xxvi, 13. Após a ressurreição, tudo se torna ainda mais preciso. Não só reafirma a sua fé, mas completa o desenho do seu plano e prepara-os para a execução. Envia-os como o seu Pai o enviou, e dá-lhes o poder de perdoar e de reter os pecados, Joa., xx, 21-23; fala-lhes do reino de Deus, Act., i, 3; por que, senão para renovar-lhes as instruções, para precisar o que eles tinham compreendido apenas vagamente, para finalmente tomar as últimas disposições práticas?

Após a sua partida, deverão aguardar ainda alguns dias em oração e solidão o Espírito tantas vezes prometido, que completará num momento a obra da sua formação, que Jesus, todo Deus que era, apenas esboçou; mas já sabem que devem ser as testemunhas do seu mestre na Judeia, em Samaria e até ao fim do mundo, Act., i, 8; já receberam a missão solene de ir em nome de Cristo, de instruir todas as nações, de as batizar, de lhes ensinar a guardar os preceitos que Jesus deu aos seus apóstolos para elas; enfim, são os enviados de Jesus, como Jesus é o enviado do seu Pai; a missão deles é a sua missão, e os seus poderes são fundados na sua potência soberana.

Matth., xxviii, 18 sq.; cf. Marc., xvi, 15; Joa., xvii, 18; xx, 21. Eis a origem do apostolado. Vê-se que é inseparável das próprias origens da Igreja. A fundação da Igreja e a missão apostólica não são senão uma: se Jesus é o enviado de Deus, a missão dos apóstolos é divina, divina é a Igreja. 2. O colégio apostólico. — Os apóstolos não são, no pensamento de Jesus, unidades separadas, indivíduos sem outro vínculo entre si a não ser o de estarem agrupados em torno do mesmo mestre, de serem enviados por ele para o pregar por toda a parte.

Existe um colégio apostólico: não há apenas doze apóstolos, eles formam um corpo. A própria natureza da obra que devem fundar bastaria para mostrar a coisa se eles são, evidentemente, um só entre si: não podem fundar uma Igreja senão estando de acordo. Além disso, temos disso testemunhos diretos e expressos. Esta unidade perfeita que Jesus pede para eles na sua última oração, Joa., xvii, 21, é, sem dúvida e acima de tudo, a unidade dos corações, essa caridade que lhes recomenda tão insistentemente no discurso após a ceia.

Joa., xiii, 34; xv, 12, etc. Mas ela implica a unidade exterior e social, a cooperação comum numa mesma obra. Todas as suas instruções, toda a sua maneira de agir com eles mostram claramente que, como apóstolos, eles não são senão um aos seus olhos. É como corpo que recebem o poder de ligar e desligar, Matth., xviii, 18, de consagrar, Luc., xxii, 19; de remir os pecados, instruídos pelo Mestre, como seus amigos, Joa., xv, 15, 10; como seus irmãos, Joa., xx, 17; no que são investidos da sua missão definitiva, Matth., xxviii, 18-20, e que devem esperar a vinda do Espírito Santo, Luc., xxiv, 49; Act., i, 8; são testemunhas solenes, Act., i, 8, 21, 22; Luc., xxiv, 48; Joa., xv, 27; Marc., xvi, 14-18; e encarregados da verdade.

Após a deserção e a morte de Judas, fala-se ainda dos doze, Matth., xx, 24. Se por vezes é distinto, Luc., xxiv, 9, 33; Act., i, 13, 14 (exceção mais aparente em Marc., xvi, 12, e talvez em Joa., xxi, 2; notar que João, no seu Evangelho, nunca diz apóstolos, mas discípulos). O mais expressivo a este respeito é a eleição de Matias no lugar de Judas. Eis como São Pedro a propõe: «É necessário, pois, que, dentre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, desde o batismo de João até ao dia em que nos foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha da sua ressurreição.»

José e Matias são propostos. A assembleia põe-se em oração: «Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra qual destes dois escolheste para ocupar o lugar neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou.» Lança-se a sorte, a sorte cai sobre Matias, e foi eleito para ser associado aos onze apóstolos, Act., i, 21-26. A eleição miraculosa de Paulo e a de Barnabé não poderiam suscitar dificuldades; pois a sua ação é concertada com os apóstolos, tanto quanto a dos apóstolos entre si; e recebem mesmo, ao que parece, uma espécie de ordenação pela imposição das mãos antes de partir para a obra à qual Deus os chama, Gal., i, 1, 15-19; ii, 1-10; Act., ix, 26-28; xi, 22-30; xiii, 2, 3; xv, passim.

O que manifesta ainda melhor, segundo a palavra de São Cipriano, De unitate Ecclesiæ, i, P. L., t. iv, col. 512-516, a unidade do corpo apostólico, é o lugar que é feito a Pedro por Jesus; é o papel que lhe vemos nos Atos e até nesta Epístola aos Gálatas, onde Paulo se gaba de lhe ter resistido face a face. A primazia de Pedro será demonstrada noutro lugar; contentemo-nos, por enquanto, em constatar que os apóstolos formam um grupo em torno de Pedro; e se as palavras de Nosso Senhor significam algo, «Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas», devem fazer entender, pelo menos, que os apóstolos serão um com Pedro e em torno dele.

Se eles são, eles também, fundamentos da Igreja; se eles são, eles também, pastores: não poderiam sê-lo cada um à parte e independentemente uns dos outros; sem isso, onde estaria o rebanho único que deve apascentar São Pedro, ou o edifício único do qual Pedro deve ser o fundamento? Se, por outro lado, tudo nos indica que os apóstolos, como tais, devem ser iguais entre si, feita exceção para São Pedro, que possui títulos tão especiais, não é evidente que é dentro e através da subordinação a Pedro que eles formarão entre si essa unidade corporativa sem a qual não há mais Igreja, já que não há mais uma Igreja para ensinar; 1. para governar; 2. para santificar; 3. para a missão apostólica.

É, portanto, uma missão divina querida por Jesus. Os textos nos mostram os apóstolos antes de tudo como os ministros da palavra. A pregação está na própria ideia de apostolado. Marcos parece já indicá-lo, iii, 14, a missão de teste, prelúdio e figura, tem por objetivo principal a pregação. A confirmação, notadamente após a ressurreição, e a missão solene, Matth., xxviii, 18 sq.; Marc., xvi, 15; Luc., xxiv, 48; Act., i, 8; Joa., xx, 21-23, cf. Joa., xvi, 13, 14, manifestam melhor a intenção divina. Após o Pentecostes, os apóstolos estão sempre preocupados em pregar, Act., ix, 15; vendo a pregação como o seu encargo, «o ministério da palavra», são frequentemente nomeados evangelistas.

Ver para os textos Marc., xvi, 20; Act., iv, 2; v, 42; vi, 2-4; 1 Cor., i, 17; ix, 16; Rom., x, 14-15; II Tim., i, 11; iv, 2; Gal., i, 8; Eph., iv, 11, etc. Mas o que devem ensinar os apóstolos? Antes de tudo, eles devem ensinar Jesus, ser suas testemunhas e notadamente as testemunhas de sua ressurreição, Act., i, 8, 22; ii, 30-32; iii, 15; x, 39-42; xiii, 30; xvii, 31; Joa., xv, 27. Eles devem mostrar em Jesus o mediador único necessário entre Deus e os homens, o fundamento da salvação, Act., iv, 12; xiii, 38; xv, 11; Rom., Gal., passim; 1 Tim., ii, 5, etc.

Eles devem, enfim, promulgar a lei nova e toda a doutrina que Jesus lhes confiou por si mesmo ou pelo Espírito Santo, Matth., xxviii, 20; Gal., i, 8; Col., ii, 8; I Tim., vi, 20; II Tim., ii, 2, etc. Ensinam, portanto, uma doutrina bem precisa, um conjunto de verdades. Qual era essa doutrina em detalhes? É preciso buscá-la nos Atos, nas Epístolas; todo o ensinamento já está lá, não desenvolvido, mas em seu fundo e em germe. E como o que ensinam, os apóstolos o ensinam com autoridade, em nome de Deus, garantindo, aliás, sua missão e seu ensinamento por seus milagres: «Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu», Matth., xviii, 18; Marc., xvi, 15-18; 1 Cor., v, 4; II Cor., x, 5, 6; xiii, 10.

Eis por que aqueles que creem em seu ensinamento, dados por Jesus, são acreditados por ele ao falar em seu nome, cf. I Thess., ii, 13; II Cor., v, 18-20; Marc., xvi, 20; Act., passim; I Jo., ii, 1-5; iv, 20; I Thess., i, 5; II Cor., xii, 12, etc. Os textos que precedem nos mostram já essa autoridade dos apóstolos como uma autoridade infalível. Apenas aquele, com efeito, pode exigir a fé absoluta, apenas sobre a sua palavra, que é infalível. É, de resto, o que indica a promessa de Jesus de estar com eles até o fim dos séculos, Matth., xxviii, 20; de enviar-lhes seu espírito de verdade para instruí-los, Joa., xiv, 16, 17, 26; xv, 26, 27; e para confirmá-los na fé pela fé indefectível de Pedro, Luc., xxii, 32, etc.

E como a Igreja edificada pelos apóstolos seria a coluna e o sustentáculo da verdade, I Tim., iii, 15, se seus fundadores não fossem infalíveis? De outro modo, todo desvio da doutrina apostólica seria um naufrágio na fé, uma blasfêmia, uma heresia, uma resistência à verdade digna de anátema, etc. I Tim., i, 19, 20; cf. vi, 20, 21; II Tim., ii, 14-19, 25; Gal., i, 8, etc. Inútil multiplicar os textos. A infalibilidade dos apóstolos é evidente segundo a sua própria missão; não pode haver dúvida senão para certas questões acessórias (limites dessa infalibilidade, parte que cabia a cada apóstolo, etc.), que em breve terão a sua vez. 2. Missão de governar.

A missão dos apóstolos não é uma simples missão de ensinar, nem seu poder um simples poder de magistério. Jesus os encarrega ainda de governar os fiéis que terão convertido, ele lhes dá autoridade na sociedade que sua pregação irá fundar. Os textos, com efeito, mostram à evidência que Jesus quis fundar uma religião sob forma social, fazer de sua Igreja uma sociedade; e aparece, ao mesmo tempo, que essa sociedade deve ser hierárquica e que os apóstolos dela serão os chefes. A questão será tratada mais longamente no verbete Igreja, aqui bastarão algumas indicações.

O que é o poder das chaves prometido a Pedro, Matth., xvi, 19, senão um poder de jurisdição? O que é essa Igreja que é preciso escutar sob pena de excomunhão, senão uma autoridade social, e o que é o poder dado aos apóstolos de ligar e desligar no céu ao ligar e desligar na terra, Matth., xviii, 17, 18, senão um poder de governar, de fazer leis, de obrigar? O que é o poder de apascentar os cordeiros e as ovelhas confiado a Pedro, Joa., xxi, 15-17; confiado aos apóstolos e aos seus vigários ou sucessores (sob a dependência de Pedro e em união com ele), senão sempre um poder de jurisdição? Eph., iv, 11; cf. I Cor., xii, 28; I Pet., v, 2; Act., xx, 28.

De fato, vemo-los governar, legislar, ordenar, punir, tudo isso em virtude de sua missão, em nome de Deus, Act., xv, 28; cf. xvi, 4; I Cor., xi, 2, 34; v, 3 sq.; II Cor., xiii, 2, 10, etc. Esse poder que eles têm para si mesmos, eles o comunicam aos outros. Epístolas pastorais, passim; Act., xx, 28. Timóteo governa em Éfeso, Tito em Creta, os sucessores de Pedro em Roma, os «anjos das Igrejas» na Ásia; logo se tem por toda parte bispos monarcas que se reclamam dos apóstolos. Ver Apoc., ii e iii; a carta de Clemente aos Coríntios, passim; São Inácio, passim; Irineu, III, c. 1, n. 1; P. G., t. VII, col. 818; Tertuliano, Præscript., passim, etc. — Cf. Pesch, n. 346, 347-355. 3. Missão de santificar.

Com o poder de jurisdição, os apóstolos receberam de Nosso Senhor o poder de ordem, ou poder de santificar ao conferir os sacramentos. Luc., xxii, 19, 20; Joa., xx, 22, 23. Assim, vemo-los batizar, consagrar, ordenar, etc. Act., ii, 38, 41; viii, 17; ix, 6; vi, 3; xiii, 3; I Cor., i, 14, 16; xi, 23 sq.; Col., i, 28; etc. 4. Missão de fundar a Igreja. Tal é, portanto, em resumo, a missão dos apóstolos: pregar, governar, santificar. É a própria missão de Cristo que eles devem continuar, é a sua obra que eles devem realizar.

Em outros termos, eles são seus vigários e seus continuadores para lançar os fundamentos da Igreja, da qual ele mesmo é a pedra angular e da qual ele lhes traçou o plano. Assim, São Paulo nos mostra os primeiros fiéis «edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas», Eph., ii, 20; e é a eles que convêm, antes de tudo, as palavras da Epístola aos Efésios (qualquer que seja, aliás, o sentido preciso das palavras): Et ipse dedit quosdam quidem apostolos, quosdam autem prophetas, alios vero evangelistas, alios autem pastores et doctores ad consummationem sanctorum in opus ministerii, in ædificationem corporis Christi : donec occurramus omnes in unitatem fidei et agnitionis filii Dei, in virum perfectum, in mensuram ætatis plenitudinis Christi, etc. Eph., iv, 11 sq.

A visão de João diz a mesma coisa em duas palavras: «E o muro da cidade tinha doze fundamentos, e sobre eles os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.» Apoc., xxi, 14. — 5. É uma missão divina. Não é aqui o lugar de fazer a demonstração cristã. Lembremos apenas o que dizem a este respeito os apologistas. A própria ideia de tal missão, dizem eles, é divina; ainda mais divina, se é possível dizer, a ideia de confiá-la a tais homens. Jesus quis seriamente realizar a unidade das inteligências e das vontades numa imensa sociedade religiosa, que não teria outros limites senão os da humanidade; ele quis que o reino de Deus aqui na terra se realizasse num reino que fosse terrestre sem ser da terra, que fundisse em um só todas as nações sem destruir nação alguma, que fosse ao mesmo tempo, e de uma maneira inefável, humana e divina: humana sem rebaixar o divino, e divina sem subtrair nada ao livre jogo das forças humanas. Ele quis isso.

E quis que este plano fosse realizado pelos pescadores da Galileia e pelo artesão Saulo de Tarso. E isso foi feito. Eis fatos nos quais os Padres, os apologistas, os cristãos não cessaram de ver o dedo de Deus. Não terão razão? V. Prérogatives des apôtres. — Os apóstolos, como fundadores da Igreja e como primeiros pregadores do Evangelho, como enviados imediatos de Jesus e como enriquecidos com as primícias do Espírito Santo, tiveram certas prerrogativas especiais que lhes eram pessoais como apóstolos e não deviam passar aos seus sucessores.

Estas prerrogativas podem ser chamadas apostólicas, para distingui-las das prerrogativas episcopais que eles deviam transmitir aos bispos que ordenavam. As primeiras eram para um tempo, as outras para toda a duração da Igreja. Ora, a questão das prerrogativas apostólicas dos apóstolos é muito menos clara que a de suas prerrogativas episcopais. Os textos faltam quase completamente, e os teólogos procedem sobretudo por induções e deduções, as quais têm frequentemente algo de um pouco vago ou conjectural. Destacaremos três destas prerrogativas, três que se podem considerar como certas: 1. a confirmação em graça; 2. a infalibilidade pessoal; 3. a jurisdição universal e de plenos poderes. 1.

A confirmação em graça. — Um primeiro privilégio toca à ordem da graça santificante mais do que àquela das graças gratuitas, e diz respeito diretamente mais ao seu bem pessoal do que ao bem da Igreja. É a confirmação em graça. Os teólogos concordam em reconhecer que os apóstolos, após terem recebido o Espírito Santo no Pentecostes, estavam tão investidos deste divino Espírito que praticamente não podiam mais cometer pecado mortal; estende-se mesmo o privilégio ao pecado venial plenamente deliberado. Não creio que se possa provar a coisa por textos diretos e peremptórios (se não talvez para São Paulo); mas conveniências múltiplas, apoiando certos indícios positivos, permitem concluí-la com toda segurança.

A oração de Jesus, as magníficas promessas que ele lhes faz da operação do Espírito Santo neles, a segurança que ele tem de encontrar neles dignas testemunhas, as luzes e a força com que os vemos "batizados" no Pentecostes, o pouco que sabemos pelos Atos da transformação total operada neles pelo Espírito Santo, a ação contínua do Espírito Santo neles, eis os indícios. Seguem as conveniências: o seu lugar eminente na Igreja, da qual um dos caracteres é a santidade; o seu papel de luz do mundo e de sal da terra; a graça das primícias com sua eficácia especial; a necessidade prática do seu ministério.

Estas razões, e outras do mesmo gênero, obrigam-nos a atribuir-lhes a confirmação em graça, e é preciso dizer que este é o pensamento tradicional da Igreja. A infalibilidade pessoal. — O corpo docente da Igreja é infalível, mas o bispo, como tal, não é infalível. Ora, se o corpo docente é infalível, por que o apóstolo, constituído para o magistério supremo da Igreja, não o seria também? O privilégio da infalibilidade pessoal não se atribui aos apóstolos porque eles fossem bispos, pois o magistério de cada bispo não é infalível por si mesmo, mas pela união com o corpo docente.

As razões pelas quais se apoia a infalibilidade pessoal dos apóstolos são, pois, análogas àquelas que provam a infalibilidade da Igreja, mas com uma força especial. Instruídos pelo Cristo e animados pelo Espírito Santo, podiam eles errar? Dispersos através do mundo, sem possibilidade prática de controle e de concerto, seria impossível, sob pena de induzir a Igreja nascente em erro e de romper a unidade da fé, que o ensino de um apóstolo fosse a verdade, e o de outro, por acidente ou acaso, o erro. É preciso, portanto, que todos os apóstolos tenham sido infalíveis individualmente.

É o que o ensino tradicional da Igreja nos mostra: vemos, nos Atos e nas Epístolas, os apóstolos agirem e falarem como mestres infalíveis, excomungando os heréticos, decidindo as questões de doutrina. Os mestres que vêm depois contentam-se com o testemunho de um apóstolo para concluir pela divindade de uma doutrina. Não se deve, aliás, exagerar a extensão desta infalibilidade. Ela era limitada, como a da Igreja, ao ensino autêntico. Assim, vemos São Paulo, na conduta a ter numa circunstância particular (cf. Gal., ii, 11; Paulo e Barnabé em desacordo, Act. xv, 37); Paulo, enfim, ao dirigir suas últimas despedidas, inspirar-se nesses princípios (Act. xx, 25).

Se os apóstolos acreditavam na vinda próxima do Salvador, não se pode dizer nada sobre isso. Se a ensinaram, de viva voz ou por escrito, é outra questão. Os textos não testemunham contra esta doutrina. Pode-se dizer, acerca dos textos evangélicos, que não é sem interesse notar o mesmo caso para uns e outros. Aliás, não nos cabe ocupar aqui com a inerrância dos apóstolos inspirados. Eles tinham jurisdição universal e plenos poderes por onde quer que passassem (disso ainda restam traços em nossos dias com certos enviados do Papa).

Os religiosos, em particular, partiam através do mundo com todo o poder de pregar, de converter. E estes poderes universais não eram limitados a esta ou àquela igreja. Isso é o que vemos nos apóstolos; são os apóstolos aos quais Pedro quer estabelecer como chefe do colégio apostólico, e ele podia e devia remeter-se ao Espírito que animava seus irmãos. Os apóstolos tinham, portanto, uma missão imediata de Deus; posto que isso lhes era necessário, posto que era preciso percorrer o mundo para fundar a Igreja. Assim, é isso que nos mostram os Atos e a história.

O episcopado de nossos dias é, como tal, um poder itinerante: os apóstolos eram delegados apostólicos. O poder dos apóstolos é um poder sem outros limites em seu exercício senão uma dependência íntima que os levava a se concertar e que impedia Paulo de querer construir sobre os fundamentos alheios. Contudo, há uma importância especial dos apóstolos e da revelação: duas questões a destacar.

1° Os apóstolos e o conhecimento da revelação; 2° Os apóstolos e o encerramento da revelação. Os apóstolos receberam de Deus a verdade; eles foram os canais imediatos. E até o momento da morte, e mesmo com comunicações, eles não deviam apenas transmitir o depósito, mas recebiam de Deus, até o seu encerramento, revelações divinas. A revelação só cessou definitivamente no dia da morte do último dos apóstolos, isto é, a partir desse momento, Deus não deve acrescentar mais nada, pela boca de um profeta, ao depósito confiado à Igreja.

No máximo, ao atrair a atenção para algum ponto especial, fornecer a ocasião para destacar uma verdade menos notada até então, contida no depósito. Revelações privadas ajudaram, assim, a esclarecer o dogma da Imaculada Conceição; e não há dúvida de que as revelações feitas à bem-aventurada Margarida Maria serviram para melhor conhecer o Sagrado Coração de Jesus e a própria pessoa do Verbo encarnado sob alguns de seus aspectos mais atraentes; mas nem umas nem outras deram à Igreja verdades que já não estivessem contidas, ao menos implicitamente, no depósito.

Há, portanto, a este respeito, uma grande diferença entre o ensino da Igreja e o dos apóstolos, entre a economia presente e a economia dos tempos apostólicos. Os apóstolos (São Paulo, por exemplo) podiam receber de Deus verdades novas a ensinar; a Igreja já não as recebe. Pois, para falar como o Concílio Vaticano, «o Espírito Santo não foi prometido à Igreja, papa ou bispos, para lhes revelar verdades novas a manifestar, mas para assisti-los na guarda fiel e na exposição exata da revelação transmitida pelos apóstolos.» Constitution Pastor aeternus, c. IV, Denzinger, n. 1679.

Esta é uma verdade que mesmo alguns católicos esquecem por vezes, na questão do cânone das Escrituras, por exemplo, e na da composição de certos livros sagrados, a ponto de não mais estabelecerem diferença entre o desenvolvimento da revelação nos tempos apostólicos e o desenvolvimento subsequente; esquecem que, naquela época, podiam existir novos dados divinos, enquanto que, desde então, todo o desenvolvimento se deve ao trabalho sobre os dados antigos. Basta indicar aqui estas questões. 2. Conhecimento que os apóstolos tinham das verdades da fé.

Qual era esse conhecimento? Muito confuso e imperfeito, como quer Günther, cf. Franzelin, De traditione, th. xxv, n. 3, p. 309, ou muito claro e muito perfeito, como geralmente se ensina? Com as nossas tendências evolucionistas atuais, somos quase todos levados, como por instinto, para a primeira opinião. É, contudo, a segunda que é verdadeira; ela deixa, aliás, campo livre e vasto para a evolução legítima. Cf. Franzelin, De traditione, th. xxiii, scholion, p. 292. É preciso admitir, nos apóstolos, um conhecimento muito perfeito, claro e profundo das verdades da fé.

Instruídos pelo Espírito Santo, destinados a semear pelo mundo a verdade divina da qual deviam viver os fiéis de todos os tempos e de todos os lugares, não se pode supor nem que Deus tenha realizado neles uma obra imperfeita, nem que tenha dado menos àqueles cuja função exigia mais. Podem-se ver, a este respeito, interessantes considerações, cf. Sum. theol., IIa IIae, q. i, a. 3, q. clxxiv, a. 6; cf. sempre São Tomás, q. xciv, a. 1; de que não havia nada de imperfeito na ciência dos apóstolos. Assim, Tertuliano exprime exatamente estas páginas vigorosas: «Os hereges dizem ou que os apóstolos não souberam tudo, ou não quiseram dizer tudo a todos.

Em um caso ou outro, eles questionam a Cristo, que teria enviado apóstolos ou pouco instruídos ou pouco sinceros. E que homem de bom senso poderia acreditar que eles ignorassem algo (relativo à sua missão), eles a quem Cristo estabeleceu mestres... Ele lhes tinha dito, sem dúvida: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos...” Mas, ao acrescentar: “Quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade”, ele mostra que eles nada ignoraram, eles a quem ele promete toda a verdade pelo Espírito da verdade.» Præscript., xxii, P. L., t. ii, col. 36. Basta, aliás, observar.

Vede a pregação dos apóstolos, vede os seus escritos. Que plenitude de conhecimento se revelando, como pode, através das palavras, e criando para si uma expressão, única em profundidade como o pensamento que se trata de exprimir! Sem dúvida, sente-se em São Paulo, perante a Verdade divina que se manifesta a ele, um estremecimento e como o assombro deslumbrado de uma alma que a verdade domina e supera, enquanto que, nos discursos de Jesus, a alma se possui, tal como possui as doutrinas mais altas; mas esse próprio estremecimento mostra a abundância e a intensidade da luz que o inunda.

E como, aliás, teriam os apóstolos dito ou escrito essas palavras divinas que os maiores génios jamais terminarão de sondar, se eles próprios tivessem tido, daquilo que ensinavam, apenas visões parciais e confusas como as de uma criança que aprende o seu catecismo? Os apóstolos não eram instrumentos inertes e inconscientes; eram testemunhas que tinham visto, mestres que sabiam, doutores instruídos por Deus. Não há dúvida de que a luz infusa os tenha feito ver muito mais e muito melhor do que viam Agostinho e Tomás após todas as suas pesquisas, com todo o seu génio.

O que é verdade é que esse conhecimento não era o conhecimento teológico. Era a posse viva e, por assim dizer, o sentido experimental da verdade concreta e real, na sua infinita riqueza; não era o conhecimento dedutivo, analítico, abstrato e puramente especulativo dos teólogos. É o mesmo objeto de um lado e de outro, mas visto diferentemente, possuído diferentemente, tal como é a mesma música que se nota e que se canta, tal como é a mesma flor que vive num jardim e que é descrita num livro de botânica. «Os santos apóstolos, diz Newman, Essai sur le développement, IIe part., c. v, sect. iv, n. 3, p. 191, sabiam sem palavras todas as verdades relativas às altas especulações da teologia, que os controversistas depois deles piedosa e caridosamente reduziram a fórmulas e desenvolveram por argumento.»

Inútil acrescentar que, ao compreender a mesma verdade que nós e compreendendo-a infinitamente melhor, eles a compreendiam com os seus próprios espíritos, banhados noutra atmosfera de ideias e de preocupações, e, por conseguinte, viam-na sob outros ângulos e noutras relações do que nós o fazemos. Nada obriga, pois, a crer que eles pudessem tê-la formulado como São Tomás, nem prever os múltiplos desenvolvimentos que ela deveria tomar nos seus contatos com as heresias, com a filosofia, com as ciências. Cf. Franzelin, De traditione, th. xxiii, scholion, p. 293.

VII. — Os apóstolos e os bispos. Pode-se conceber de duas formas as relações e as funções carismáticas do apostolado com o episcopado. De uma forma mais concreta, olhando o apostolado como a plenitude do poder eclesiástico, do qual os apóstolos, segundo a intenção de Cristo, destacam, por assim dizer, uma parte para fazer o episcopado, do qual se destacará então a simples função sacerdotal; assim parece fazer Pölzl, no artigo Apostel do Kirchenlexikon, 1ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1882, t. I, col. 1109. De uma forma mais analítica, distinguindo nos apóstolos um duplo poder, o de apóstolo e o de bispo.

Talvez haja, no fundo desta diferença, uma conceção algo diferente do poder de ordem e da distinção das ordens; mas podemos aqui negligenciar esta distinção e as suas consequências. Todos admitem que o episcopado é a plenitude do sacerdócio e que, como ordem, os bispos possuem o próprio poder dos apóstolos, indefinidamente transmissível. Deste poder de ordem distingue-se o poder de jurisdição, de modo, contudo, que ambos caminham naturalmente juntos, são ordenados um ao outro e permanecem separados apenas por acidente.

Ora, cada bispo não possui a jurisdição universal e absoluta dos apóstolos: ele tem apenas um poder local e limitado. Em corpo, eles possuem todo o poder, mas in solidum, como explica tão bem São Cipriano; o papa, sozinho, possui-o inteiramente, assim como o possui inteiramente o corpo episcopal unido ao papa; separados, os bispos possuem, cada um, uma parte, sobre tal rebanho, sob tais condições de exercício. Entre os apóstolos, era um bem indiviso; entre os bispos, é um bem dividido. Quando e como se deu esta divisão, que papel nela tiveram as vontades e as circunstâncias humanas?

Questões delicadas e difíceis, aliás mais históricas do que dogmáticas. Mas, apesar das obscuridades de detalhe, as grandes linhas estabeleceram-se rapidamente: os apóstolos instituíam bispos para governar as igrejas em sua ausência, antes ou depois de sua morte notória. Já o Apocalipse e as epístolas pastorais, fim do século I, mostram o episcopado monárquico na Ásia Menor. A epístola de São Clemente, escrita no início do século II, mostra-nos as igrejas compostas por sociedades locais, cada uma das quais tem à sua frente um bispo, vigário e representante de Jesus Cristo.

Um pouco mais tarde, Hegésipo, Irineu e Tertuliano fazem entender em termos muito claros que as igrejas possuem documentos certos, frequentemente listas autênticas, indicando a sucessão de seus bispos desde os apóstolos. Ver, entre outros, Pesch, n. 344 sq. Deve-se, portanto, dizer que os apóstolos são bispos, embora nem todos os bispos sejam apóstolos. O que se explica pela distinção indicada. Há, efetivamente, nos apóstolos uma dupla função, uma ordinária e outra extraordinária: eles são a autoridade na Igreja e são os fundadores da Igreja.

Como autoridade na Igreja, tiveram por sucessores os bispos, aos quais transmitiram, com a ordenação e a missão, seu poder ordinário; como fundadores, ocupam um lugar e possuem prerrogativas à parte. As prerrogativas reencontram-se em parte no papa ou na Igreja universal, no corpo dos bispos a igual título. A esta distinção liga-se uma outra. Pergunta-se, por vezes, se o apostolado é uma função ou um carisma (dom gratuito). É ambos. É um carisma; é uma função ordinária: o que o distingue dos outros carismas. É uma função confiada imediatamente por Jesus Cristo, mas trazendo consigo certos carismas (a infalibilidade, por exemplo): o que a distingue das outras funções.

E se o apostolado fosse uma solução de fundador; o apostolado, como tal, a missão deveria durar, a obra fundada, não. Mas, no apostolado, havia uma autoridade hierárquica; esta devia transmitir-se aos bispos. Que haja, nesta sucessão dos bispos aos apóstolos, nesta transmissão limitada dos poderes apostólicos, no estabelecimento do episcopado monárquico e na atribuição de uma igreja a um bispo, certos pontos obscuros, concede-se sem dificuldade. Mas estas obscuridades não são tais que autorizem o historiador a considerar “como um mito” a sucessão apostólica.

A bibliografia é quase a mesma que para o artigo Apostolicidade. É necessário assinalar as teses sobre a instituição da Igreja em Franzelin, De Ecclesia, e as teses sobre o estabelecimento do magistério, e a distinção com a missão extraordinária destinada a passar aos bispos; na […], na […], na […], etc. Trata-se de bispos e diáconos em vista do […]. Entre os artigos de Dicionário: o artigo Bible, de Vigouroux, t. I, Paris, (com indicações bibliográficas), o artigo Évêque, por M. Vigouroux, ibid., t. II, (com boa bibliografia); no Kirchenlexikon, 2ª ed. por Scheeben, o artigo Apostolat, t. I, col. 1108-1110, Fribourg-en-Brisgau, 1882; sobretudo na Realencyklopädie für protest. Théologie, ed. por K. Schmidt, t. I, 1888, o artigo Apostel (faz apenas recolher os dados bíblicos); no Dictionary of the Bible de Hastings, Edimburgo, t. I, p. 126-130, o artigo Bishop, por Gwatkin, p. 311-318; e p. 801-802, o artigo Church Government, por Gwatkin; na Encyclopaedia biblica de Cheyne, t. I, p. 439-441 (com bibliografia).

Na França, o abade Batiffol, no final das obras citadas, indica os principais artigos e escritos que tratam das origens cristãs: Fouard, Camus, Lesètre, etc., e, por outro lado, Pressensé, Renan, A. Réville. Mas não é o lugar de indicá-los em detalhe, nem os numerosos trabalhos sobre as origens ou sobre o caráter hierárquico da Igreja. Enfim, encontrar-se-á no Theologischer Jahresbericht, de Holtzmann, sob o verbete Apôtres ou Temps apostoliques, a indicação dos principais estudos sobre a questão.

Autor original: J. Bainvel

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