ANJO. — I. Os anjos segundo a Sagrada Escritura. II. Angelologia segundo os Padres. III. Angelologia na Igreja latina desde o tempo dos Padres até São Tomás de Aquino. IV. Angelologia de São Tomás de Aquino e dos escolásticos posteriores. V. Angelologia entre os gregos. VI. Angelologia entre os sírios. VII. Angelologia entre os armênios. VIII. Angelologia entre os averroístas latinos. IX. Angelologia nos concílios. Doutrina da Igreja sobre os anjos.
ANJOS (Os) segundo a Sagrada Escritura. — I. Existência. II. Natureza. III. Estado. IV. Funções. V. Culto.
I. EXISTÊNCIA. — A existência dos anjos é afirmada em toda a Bíblia. Eles são designados já no Gênesis e, no Novo Testamento, pelo seu nome habitual de Malak, mensageiro, que foi traduzido pelo termo grego ἄγγελος, de onde vieram a palavra latina angelus e a palavra francesa ange. Eles recebem por vezes também outros nomes, como filhos de Deus, Jó, I, 6; II, 1; espíritos, Sl. CIII, 6; Heb., I, 14; santos, Dan., VIII, 13; exército dos céus, II Esd., IX, 6. Os anjos são, com efeito, representados pelo Antigo e pelo Novo Testamento como formando uma multidão inumerável. Gên., XXV, 12; XXXII, 2; Dan., VII, 10; Mat., XXVI, 53; Heb., XII, 22; Apoc., V, 11. Os livros anteriores ao cativeiro da Babilônia não designam nenhum anjo pelo seu nome próprio. Os livros inspirados posteriores nos dão a conhecer três: Gabriel, Dan., VIII, 16; IX, 21; Luc., I, 19, 26; Miguel, Dan., X, 13, 21; XII, 1; Jud., 9; Apoc., XII, 7; Rafael, Tob., III, 25, etc. O IV livro de Esdras, o livro de Enoque e o Talmude indicam outros nomes de anjos com os quais não temos de nos ocupar. O pensamento de que os anjos estão divididos em diversas classes ou coros manifesta-se já no Gênesis, onde se trata dos querubins. Gên., III, 24; cf. Êxod., XXV, 22; Ezeq., X, 1-20. Isaías nos fala dos serafins. Is., VI, 2, 6. São Paulo das principados, das potestades, das dominações, Ef., I, 21; Col., I, 16; das virtudes, Ef., I, 21; dos tronos, Col., I, 16; dos arcanjos. I Tess., IV, 15; cf. Jud., 9.
II. NATUREZA. — Os anjos são seres pessoais diferentes de Deus e dos homens. Isso resulta das funções que lhes são atribuídas e das quais nos ocuparemos logo mais.
1° Inferioridade dos anjos vis-à-vis de Deus. — Pretendeu-se que os anjos são divindades de um culto politeísta anterior ao mosaísmo, e que teriam sido rebaixados ao nível de semideuses por consequência do triunfo da ideia monoteísta entre os hebreus. Haag, Théologie biblique, Paris, § 96, p. 339. Mas isso é uma hipótese inteiramente gratuita, fundada em aproximações mais engenhosas do que exatas. Disse-se ainda que, nas aparições mais antigas, a personalidade do anjo que aparece não se distingue daquela de Jeová, de quem se lhe dá o nome. Haag, ibid. Existe aí um problema exegético que será estudado no verbete TEOFANIA; mas o nome de anjo e de Jeová, dado por vezes ao mesmo personagem das teofanias, não prova que se atribuía aos anjos a natureza divina. Em uma multidão de textos muito claros e também antigos, eles são, com efeito, considerados como simples servos do Altíssimo. Ver mais adiante as suas funções. Sem dúvida, o Gênesis não narra expressamente a sua criação como a do homem; mas pode-se crer que essa criação está expressa no primeiro versículo deste livro, onde é dito que Deus criou o céu. Essa interpretação é admitida por Êxod., XX, 11; II Esd., IX, 6, e mais formalmente ainda por Sl. CXLVIII, 2, 5; Dan., III, 57, 58; Col., I, 16. Aliás, o caráter monoteísta do Antigo e do Novo Testamento não saberia se conciliar com uma outra noção dos anjos.
2° Superioridade dos anjos vis-à-vis do homem. — Os anjos aparecem ordinariamente sob uma forma humana e com a veste branca dos sacerdotes. Daniel dá mesmo a Gabriel o nome de homem; mas as circunstâncias dos relatos bíblicos testemunham que se lhes atribui uma natureza outra que a do homem, pois eles habitam o céu, Gên., XXI, 17; XXII, 11; e desaparecem subitamente, Juí., VI, 21; eles possuem uma potência sobre-humana, Gên., XXIV, 7, 40, etc. Alguns textos declaram expressamente que eles são superiores ao homem. Sl. VIII, 6; Heb., I, 7; II, 7; 14.
3° Espiritualidade dos anjos. — Se o Antigo Testamento e o Novo nos representam os anjos sob uma forma humana, eles mostram ao mesmo tempo, por indicações cada vez mais precisas, que esses seres superiores não têm corpo material como o homem. Para não serem expressas por fórmulas filosóficas e abstratas, essas indicações não são menos claras. O anjo que se coloca diante de Balaão é invisível aos olhos do homem enquanto não tiverem sido abertos pelo Senhor. Núm., XXII, 31. O anjo que havia aparecido a Gideão desaparece subitamente, Juí., VI, 21, assim como aquele que anuncia o nascimento de Sansão. Juí., XIII, 20. O anjo Rafael também se desvanece sob o olhar dos dois Tobias. Tob., XII, 19. Os anjos que apareceram a Abraão tinham aceitado a refeição que ele lhes havia preparado segundo os costumes daquela era hospitaleira, Gên., XVIII, 8; mas aquele que se mostra mais tarde a Manué declara que não come de forma alguma, Juí., XIII, 16, e Rafael diz aos dois Tobias que ele não comeu e nem bebeu com eles senão em aparência. Tob., XII, 19.
Nos Evangelhos, respondendo aos saduceus, Jesus diz-lhes que, após a ressurreição, os santos estarão sem esposos e sem esposas e que, sob este aspecto, serão semelhantes aos anjos de Deus. Matth., XXII, 30; Marc., XII, 25; Luc., XX, 35, 36. É bom notar que os saduceus, que interrogavam Jesus nesta circunstância, rejeitavam o que os fariseus admitiam, com uma só e mesma doutrina: a existência dos anjos e a dos espíritos. Act., XXIII, 8. Jesus aprovava, portanto, neste ponto, os fariseus, Matth., XXII, 30; ensinava também a espiritualidade dos anjos. Este ensinamento está formulado em vários outros textos do Novo Testamento que chamam os anjos de espíritos. Luc., X, 20; Hebr., I, 14; Apoc., IV, 5; cf. Act., XXIII, 6, 8. Quis-se, na esteira do livro de Enoque, ver anjos nos filhos de Deus, que, segundo o Gênesis, VI, 2, contraíram com as filhas dos homens uniões de onde nasceram os gigantes. Esta interpretação está em desacordo com a doutrina de Jesus Cristo no Evangelho. Ela não poderia tampouco autorizar-se da concepção dos anjos que nos apresentam o Pentateuco e o livro dos Juízes. Os filhos de Deus, de que aqui se trata, não são, portanto, anjos: são descendentes do virtuoso Seth.
III. ESTADO. — Os anjos são representados nos diversos livros da Bíblia como habitantes do céu, Gen., XXI, 17; XXII, 11; Tob., XII, 20; Matth., XXII, 30; Marc., XII, 25; Hebr., XII, 22; como estando junto ao trono de Deus. Job, I, 6; II, 1; Tob., XII, 15; Luc., I, 19. O livro de Tobias diz que eles se nutrem de um alimento invisível ao homem. Tob., XII, 19. Jesus Cristo assegura que eles veem constantemente a face de seu Pai. Matth., XVIII, 10. Eles possuem, pois, a visão beatífica ou a bem-aventurança celeste.
Este estado de felicidade foi precedido nos bons anjos por um estado de provação? A Escritura ensina-nos equivalentemente, ao falar dos demônios; pois ela nos aprende que eles estariam no número dos bons se não tivessem ofendido a Deus e merecido, por essa falta, serem precipitados no inferno. II Petr., 11, 4; Jude, 6.
Funções. — Os anjos cumprem funções junto a Deus e junto às criaturas.
Funções junto a Deus. — Acabamos de dizer que eles estão no céu. Eles formam a corte do Altíssimo, Is., VI, 1; Tob., XII, 15; I Reg., XXII, 19; Dan., VII, 10; Apoc., I, 6; II, 1. Distinguem-se sete que se mantêm diante dele, ibid., e Gabriel. Luc., I, 19. Mas há milhões de outros que o rodeiam e o servem. Dan., VII, 10; Apoc., V, 11; VI, 11. Eles cantam os seus louvores, Is., VI, 3; Apoc., IV, 8; V, 11, 12; VII, 11; prostram-se com a face em terra para adorá-lo, Apoc., VII, 11; fazem queimar incenso sobre o altar que está diante do seu trono. Apoc., VIII, 3. Imagens sensíveis tomadas ora da corte dos reis do Oriente, ora do culto do templo, para expressar as homenagens que os espíritos bem-aventurados rendem ao Altíssimo.
2° Funções junto às criaturas. — Os anjos são, em relação às criaturas, os executores dos decretos do Todo-Poderoso. Gen., XVI, 7; XIX, 1; XXIV, 7; XXVIII, 12; Num., XXII, 22; Tob., V, 4; XII, 15; Dan., III, 49; VII, 14. Deus serve-se do seu ministério para dar a conhecer as suas vontades, Gen., XXII, 15; Num., XXII, 35; Jud., VI, 12; XIII, 13; III Reg., XIX, 18; IV Reg., I, 3; Zach., I, 9; e para assegurar os sucessos das missões que ele confia aos homens. Gen., XXIV, 7, 40; Exod., XXIII, 20, 23; XXXII, 34; XXXIII, 2. Por seu lado, os homens atribuem frequentemente ao socorro dos anjos os favores que receberam de Deus. Gen., XLVIII, 16; Judith, XIII, 20; Dan., VI, 22; XIV, 35; II Mach., XV, 23. O Antigo Testamento fala de anjos que estão encarregados dos interesses dos diversos povos, Dan., X, 13, 20, em particular de Miguel, o anjo do povo judeu, Dan., X, 21; XII, 1; Jude, 9; o Novo parece dizer que os anjos, sob o comando de Miguel, protegem a Igreja universal, Apoc., XII, 7; e mesmo, segundo uma interpretação, que há um que é encarregado da guarda das igrejas particulares. Apoc., I, 20; II, 1 sq. O Antigo Testamento narrava como os anjos vinham em auxílio aos homens, mesmo considerados individualmente, Tob., III, 25 sq. Os fiéis do Novo Testamento creem que cada homem tem um anjo guardião, Act., XII, 15, e esta crença é ratificada pelo Salvador. Matth., XVIII, 10. Muitos escritores racionalistas admitem que a doutrina dos anjos guardiões deriva do masdeísmo e que teria sido introduzida entre os judeus, na esteira do cativeiro da Babilônia. Mas encontram-se os seus primeiros elementos nos livros mais antigos da Bíblia; pois, do ponto de vista doutrinal, não há diferença entre a história de Agar e a de Tobias. Aliás, a concepção dos anjos ou fravashis é bem diferente no masdeísmo daquela dos anjos na Bíblia. Os fravashis são almas dos mortos que permanecem com os vivos. Os anjos da Bíblia nunca têm nada da natureza humana, e a sua habitação ordinária é o céu. Revue de l’histoire des religions, setembro-outubro, 1899, p. 271, 272. A diversidade destas concepções mostra que a angelologia bíblica não foi emprestada da angelologia do masdeísmo.
Santo Estêvão, Act., VII, 53; VII, 53; e as Epístolas de São Paulo, Gal., III, 19; Hebr., II, 2, atribuem a promulgação da lei mosaica aos anjos.
A Epístola aos Hebreus parte desse fundamento para estabelecer a superioridade da nova lei dada ao mundo por Jesus Cristo. Hebr., I, 1 sq. Ela demonstra ao mesmo tempo, Hebr., I, a superioridade de Cristo, filho de Deus, Hebr., I, 5, sobre os anjos, que são simplesmente servidores, Hebr., I, 14; cf. Matth., IV, 6, 11; XXVI, 53; XXVIII, 2; Luc., IV, 2; Eph., I, 20, 21; Col., II, 18, como desde esse momento tinha sido necessário colocar os cristãos em guarda contra o erro dos gnósticos futuros que deviam fazer de Cristo um éon e atribuir assim a nossa redenção aos anjos. Os santos de Cristo são mesmo apresentados como superiores aos anjos; pois estes serão julgados por eles, I Cor., VI, 3. Segundo São Paulo e São Pedro, não somente a lei cristã não vem dos anjos; ela é ainda ignorada por eles, enquanto não lhes foi manifestada pelas revelações feitas aos homens. Eph., III, 10; I Tim., III, 16; I Petr., I, 12. Eles são no Novo Testamento os mensageiros de Deus. Matth., I, 20; II, 13, 19; Luc., I, 11, 26; II, 9, 13; Act., V, 19; VIII, 26; X, 10; XII, 7; XXVII, 23. Eles foram reconciliados pelo sangue de Cristo. Col., I, 20. Eles têm a missão de assegurar a salvação dos predestinados, Hebr., I, 14; eles combatem o demônio que desejaria perder a Igreja de Cristo, Apoc., XII, 7; eles se rejubilam com a perseverança dos justos e com a conversão dos pecadores, Luc., XV, 7; eles acompanham as almas na outra vida. Luc., XVI, 22. No juízo final, eles serão os ministros de Cristo para separar os bons dos maus. Matth., XIII, 49; XVI, 27; XXIV, 31; Marc., XIII, 38.
V. CULTO DOS ANJOS. — São Paulo coloca os Colossenses em guarda contra o que ele chama a religião dos anjos. Col., II, 18. Esta religião derivava talvez do erro que parece ter igualado os anjos a Cristo, Hebr., I; ela consistia talvez também em render-lhes o culto de adoração que deve ser reservado a Deus e que o anjo do Apocalipse recusa receber de São João, Apoc., XXII, 9, assim como o anjo a quem Manué oferecia outrora um cabrito lhe tinha dito para o oferecer em holocausto ao Senhor. Jud., XIII, 15, 16. Contudo, a Escritura não condena de forma alguma as honras rendidas aos anjos, como ministros de Deus, e as orações que lhes são endereçadas. Jacó reza ao anjo que o protegeu. Gen., XLVIII, 16; cf. Osé., XII, 4. Moisés, Exod., III, 5, e Josué, V, 13, 14, tiram seu calçado por respeito ao anjo do Senhor e o Apocalipse nos representa os anjos que oferecem a Deus as orações dos santos. Apoc., V, 8.
Suarez, Opera omnia, De angelis, t. II, Paris, 1856; Petau, Dogmata theologica, De angelis, t. III, IV, Paris, 1865, 1866; dom Calmet, Dissertation sur les bons et sur les mauvais anges, en tête de son Commentaire sur saint Luc, Paris, 1715, p. XXVII-XLVI; Schwane, Dogmengeschichte: Vornicänische Zeit, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1892, § 7, p. 37 sq.; Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, article Ange, t. I, col. 576 sq. Nós indicaremos entre os autores protestantes e racionalistas: Haag, Théologie biblique, in-4°, Paris, 1870, p. 338, 411, 459, 497; Stapfer, Les idées religieuses en Palestine, in-12, Paris, 1878, p. 51-65.
Autor original: A. Vacant
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor