ANASTÁCIO II (SANTO)

ANASTÁCIO II (SANTO)

Papa, sucessor de São Gelásio, consagrado muito provavelmente em 24 de novembro de 496, morto em novembro de 498 e sepultado em São Pedro no dia 19 do mesmo mês.

Foi no início de seu pontificado que ocorreu a conversão de Clóvis, rei dos Francos. Durante muito tempo, considerou-se autêntica a carta de felicitação ao rei franco posta em circulação sob o nome de Anastácio pelo oratoriano Jérôme Vignier. Julien Havet demonstrou que esta carta, Jaffé, n. 745, não merece mais confiança do que as outras peças do dossiê "descoberto" por Jérôme Vignier.

No momento em que Anastácio subia ao trono de Roma, as querelas desencadeadas no Oriente pelo monofisismo e pelo imperador Zenão ainda duravam. O sucessor de Zenão, o imperador Anastácio (491-518), havia prometido respeitar as decisões do concílio de Calcedônia; mas ele acreditava dever manter, por política, o edital de 482 conhecido sob o nome de Henótico. O papa Anastácio, prevendo as consequências funestas de rupturas prolongadas entre o Oriente e o Ocidente, entabulou negociações com o imperador. Enviou-lhe dois deputados, os bispos Crescônio e Germano, com uma carta conciliante e instruções provavelmente ainda mais conciliantes. A carta pedia que os nomes do patriarca Acácio e dos partidários confessos do cisma fossem riscados dos dípticos. O papa reconhecia, aliás, a validade dos sacramentos conferidos pelos cismáticos, e consentia que os clérigos ordenados por eles conservassem sua situação: illa eos ex nomine Acacii portio lesionis attingat. Quanto aos legados, entraram em contato com os enviados do bispo de Alexandria, que lhes entregou uma apologia. As concessões do papa encontraram uma forte oposição no clero de Roma. A crer nos relatos do Liber pontificalis, muitos clérigos e padres teriam se separado da comunhão de Anastácio por ocasião da chegada a Roma do diácono Fotino de Tessalônica, que o papa teria admitido em sua comunhão apesar de ser um partidário de Acácio. Esses reproches encontraram crédito, uma vez que valeram ao papa Anastácio uma mancha no decreto de Graciano (c. VIII e IX, dist. XIX), como se ele tivesse feito ao imperador concessões contrárias ao seu dever. O fato de uma cisão no clero de Roma parece comprovado; mas não há dúvida de que os adversários de Anastácio foram levados por um excesso de zelo e cegados por uma falsa apreciação das coisas. Sobre o fundo mesmo das questões debatidas entre o Oriente e o Ocidente, Anastácio conserva, em suma, a atitude de seus predecessores. Era natural que Félix III, que teve de combater as pessoas mesmas de Acácio de Constantinopla e dos patriarcas cismáticos de Antioquia e Alexandria, tivesse sido constrangido a mostrar mais vigor e energia que Anastácio, cuja missão era a de curar as feridas. Mas Félix III ele mesmo, assim que teve de tratar com um sucessor de Acácio na sede de Constantinopla, tomou cuidado de não envenenar o cisma mostrando-se demasiado severo com as pessoas. Ele manda a Flavita, bispo de Constantinopla, que ele consente ut eorum quos ordinavit vel baptizavit Acacius, salva confessione catholica, pro caritatis Ecclesiae redintegratione nihil pereat. Jaffé, n. 613; P.L., t. LVIII, col. 974. Todo igual é a linguagem de Gelásio. Jaffé, n. 620. Vê-se o que se deve pensar da pretensa oposição entre a política conciliante de Anastácio e a política intransigente de seus dois predecessores: tese do art. Anastasius no Dictionary of Christian Biography, por W. Smith e H. Wace. Quanto ao bispo de Tessalônica, antigo partidário de Acácio, ele havia se separado dos cismáticos e aceitado e feito ler em sua igreja uma carta do papa Gelásio. Jaffé, n. 746. Anastácio não fez, portanto, senão acentuar as disposições indulgentes já manifestadas por Félix III e por Gelásio. Ele se mostrava assim mais previdente que os círculos intransigentes de sua própria cidade episcopal. Morreu cedo demais para ver o fim do cisma que durou trinta e cinco anos. O consular Festus, enviado do rei Teodorico a Constantinopla, havia se feito forte junto ao imperador para levar Anastácio a assinar o Henótico. Fatos desse gênero devem ter contribuído para os boatos desfavoráveis a Anastácio. Mas nenhum fato atestado permite suspeitar que o papa tenha faltado realmente de energia. Em contrapartida, é tão arriscado atribuir a morte prematura de Anastácio aos agenciamentos de Festus.

Em uma carta aos bispos da Gália, Anastácio exorta-os a combater a falsa doutrina segundo a qual os pais não engendrariam apenas os corpos, mas procriariam também, de alguma forma, as almas de seus filhos. Jaffé, n. 751.

Jaffé, Regesta, t. I, p. 95; Duchesne, Liber pontificalis, Paris, 1886, t. I, p. 258. Além das diversas histórias gerais da Igreja e da Igreja romana, ver: Viani, Vite dei due pontefici S. Gelasio I e S. Anastasio II, Modena, 1880. Sobre a carta a Clóvis, ver Julien Havet, Questions mérovingiennes, na Bibl. de l’École des chartes, t. XLVI, Paris, 1885, ou nas Œuvres, t. I, p. 69, Paris, 1896. Cartas em Thiel, Epistolae Roman. pontif., t. I, Braunsberg, 1868, p. 82, 614.

Autor original: H. Hemmer

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