I. Definição e doutrina. II. Anarquia e coletivismo. III. História do partido anarquista na França. IV. Organização. V. Crítica.
I. DEFINIÇÃO E DOUTRINA. — 1° Definição. — A anarquia pode definir-se como: uma organização da sociedade sem qualquer autoridade religiosa, familiar ou política, onde reina a independência absoluta do indivíduo.
A doutrina fundamental da anarquia consiste, portanto, em conferir ao indivíduo uma liberdade sem entraves, libertando-o de todos os laços sociais e regenerando assim a sociedade pelo triunfo do bom prazer do indivíduo. Eis por que o sistema anarquista se denomina "libertário" e seus partidários "libertários".
2° Doutrina social. — O despotismo, dizem os anarquistas, não é uma forma do Estado; é a sua essência, pois é a personificação da injustiça, da opressão, do monopólio. Por conseguinte, autoridade dinástica ou temporária, eleita ou não eleita, poder obedecido, juízes, policiais, leis respeitadas, tudo isso deve desaparecer. Após essas destruições necessárias, a sociedade futura organizar-se-á espontaneamente, não mais de cima para baixo como no Estado centralizado e capitalista, mas de baixo para cima. Ver-se-ão os indivíduos, seguindo a inclinação de sua natureza, associar-se livremente em comunas independentes; estas agrupar-se-ão em federações de comunas e de regiões e, enfim, em uma grande federação internacional. É assim que a anarquia será organizadora de sua natureza, pois, seguindo uma fórmula paradoxal familiar a Proudhon: "A anarquia é a ordem". Na nova sociedade, a segurança reinará sem que seja preciso recorrer à força pública. Primeiro, a anarquia tornará os homens melhores; depois, formar-se-ão, se for preciso, associações livres de seguro para a proteção das pessoas, como existem atualmente sociedades de seguro contra incêndio, granizo ou acidentes de trabalho. Quanto à segurança externa, se ocorrerem agressões de fora, a população inteira levantar-se-á e, melhor que os exércitos permanentes asservidos sob o jugo da autoridade, a nação armada refutará a invasão.
3° Doutrina econômica. — A produção e a troca das riquezas efetuar-se-ão pela livre iniciativa dos indivíduos. Formar-se-ão associações de ofícios independentes da comuna, que não terão outros poderes que aqueles livremente consentidos pelos membros e pelo tempo que aprouver a cada um. Como o fazem hoje, os indivíduos agrupar-se-ão em sociedades literárias, científicas, industriais, agrícolas, comerciais, sem fazer apelo à constrição do Estado ou à opressão da lei. Para manter nesses grupos a coesão necessária, a natureza social do homem bastará plenamente.
4° Doutrina moral. — O apoio mútuo, tal é o fundamento moral da sociedade transformada pela anarquia. Segundo o ensinamento de J.-J. Rousseau, o homem é naturalmente bom, é a sociedade que o deprava; para se conduzir moralmente, basta-lhe abandonar-se aos seus instintos inatos. Assim, a moral anarquista não tem por princípio nem a vontade de Deus, nem a obrigação de consciência, nem o imperativo categórico, nem o utilitarismo; é uma moral sem obrigação nem sanção. Que o anarquista deixe, portanto, florescer em si a vida sob todas as suas formas, e ele fará o bem por instinto, sem poder fazer de outra maneira. Quanto à sanção, ela desaparecerá como uma instituição inútil e superada. Com efeito, a maioria dos crimes são cometidos contra a propriedade; destruindo a causa, suprime-se o efeito. Por outro lado, a anarquia trará uma diminuição notável na criminalidade. O nivelamento das desigualdades sociais, o apoio mútuo, a solidariedade exercerão sobre os caracteres uma influência profunda e benfazeja. Sem dúvida, haverá sempre homens cruéis, grosseiros, dominadores, vingativos, mas a constrição penal é impotente para reprimir o crime. Em vez de cooperar para o levantamento do culpado, as prisões corrompem e depravam. Toda ideia de vindita e de preservação social sendo descartada, tratar-se-á os criminosos como loucos e, porque é mau encarcerar os loucos, deixar-se-á em liberdade, como em certos vilarejos da Bélgica. Poder-se-á, contudo, aplicar-lhes um tratamento fraterno.
II. ANARCHIE ET COLLECTIVISME. — Porque querem destruir os antigos e tradicionais fundamentos da sociedade e reconstruí-la sobre novas bases, o coletivismo e a anarquia pertencem, um e outro, à doutrina e ao partido socialistas. Todavia, o socialismo anarquista e o socialismo coletivista oferecem diferenças profundas.
1° Do ponto de vista social. — Para este último, o Estado ou a "sociedade socializada" é a providência social benfazeja; para aquele, ao contrário, o Estado é o mal que é preciso suprimir o quanto antes. O objetivo do coletivismo é aniquilar o Estado capitalista em proveito da sociedade, que não se deve confundir com ele. A sociedade coletivista seria a única proprietária, única patroa, única empreendedora de comércio e de indústria; toda empresa privada tornar-se-ia um serviço público, todo rendimento particular uma espécie de salário; a sociedade deveria não somente prover a todas as necessidades sociais econômicas, mas a todas as despesas, à educação das crianças, à manutenção dos velhos. O efeito desse regime autoritário e centralizador seria absorver o indivíduo na coletividade. Os teóricos anarquistas estão tão descontentes com o Estado tal como funciona hoje, mas para reformá-lo colocam-se nos antípodas dos coletivistas: apoiam-se no indivíduo liberto e não na comunidade toda-poderosa.
2° Do ponto de vista econômico. — Expropriar os capitalistas, suprimir as rendas, lucros, interesses, colocar em comum os instrumentos de produção, tudo isso entra no plano dos coletivistas e dos anarquistas, mas quando se trata de organizar o trabalho e a repartição dos produtos na sociedade de amanhã, os dois partidos não se entendem mais. O regime coletivista é um comunismo autoritário onde cada um tem sua vaga marcada, trabalha sob uma regra fortificada pela constrição penal e recebe uma parte proporcional de comida, de vestuário e de abrigo. Sua fórmula seria: "A cada um segundo seu trabalho". A anarquia afeta a forma de comunismo libertário onde cada um trabalha sem constrição, desfruta a seu bel-prazer e toma no monte à sua vontade, segundo suas necessidades. A fórmula seria: "A cada um segundo suas necessidades". Eis, tal como o concebe Kropotkine, o regime do trabalho na sociedade anarquista. Primeiro, a fim de não assustar o camponês, deixar-lhe-á provisoriamente o pedaço de terra que ele cultiva. Mais tarde, quando a anarquia tiver elevado sua mentalidade, ele compreenderá as vantagens do comunismo. Por toda parte, livres agrupamentos de produção organizam-se espontaneamente, fazem face a todas as necessidades, satisfazem a todos os desejos. Mais moeda, pois se volta à forma primitiva de troca em natureza entre grupos, entre cidades e campos. Produz-se não em vista de trazer benefícios a quem quer que seja, mas para fazer viver a sociedade. Como se toma por ponto de partida as necessidades do indivíduo, não haverá nem superprodução, nem crises. No resto, a sociedade futura não conterá preguiçosos. É o trabalho do assalariado que é um labor de escravo; doravante ter-se-á o estímulo do bem-estar e o trabalho, longe de ser uma tarefa abrutecedora, tornar-se-á atraente para todos. Cada um escolherá sua ocupação: o autor comporá seus livros, o artista seus quadros. Quanto aos trabalhos repugnantes: engraxar botas, limpar esgotos, etc., bem, eles serão realizados por máquinas, como nos Estados Unidos. Talvez se encontre algum preguiçoso; então o grupo o convidará a ir trabalhar alhures. Haverá bem também algumas injustiças, Kropotkine nos faz essa concessão, mas elas serão limitadas e, depois, pela anarquia, o homem tornar-se-á não somente livre, mas inteligente, justo e bom.
3° Do ponto de vista da tática. — A questão da tática não separa menos o socialismo anarquista do socialismo coletivista do que a questão de princípio. Para chegar a substituir o Estado capitalista pela "sociedade socialista", o coletivismo pretende empregar os meios que o Estado atual lhe fornece, entre outros o sufrágio universal. O anarquismo quer fazer rápido, combate a sociedade por todos os meios sem exceção e faz apelo à violência.
Seus principais aliados são a bomba e a dinamite; ele nutre o mais profundo desprezo pela ação política e pelo sufrágio universal. O coletivismo aguarda, o anarquismo provoca a explosão da revolução social.
III. HISTÓRIA DO PARTIDO ANARQUISTA NA FRANÇA. — 1° As origens. — Proudhon é, com razão, considerado o pai da anarquia; foi ele, de fato, o primeiro a utilizar a palavra anarquia, ou segundo sua grafia «an-archie», para designar uma organização social sem autoridade pública. Na sociedade capitalista moderna, raciocina Proudhon, o operário não recebe o produto integral de seu trabalho; ele é explorado pelo patrão, que se enriquece às suas custas impondo-lhe um sobretrabalho não remunerado. O operário deveria poder resgatar os produtos de seu trabalho, e isso lhe é impossível. Portanto, para que as trocas possam ser feitas sobre um pé de igualdade, como exige a justiça, é absolutamente necessário que o operário possa trabalhar e trocar seus produtos em total liberdade, e que seja, consequentemente, liberto do jugo intolerável do Estado. Isto significa que é preciso proclamar a anarquia e suprimir o governo. A ordem resultará espontaneamente do livre movimento dos indivíduos libertos dos entraves que lhes impõe o sistema social existente. Inimigo da propriedade privada, que ele chama de «a exploração do fraco pelo forte», Proudhon a substitui pela posse, pouco definida, dos instrumentos de produção. Nos escritos de Proudhon, obscuros, difusos, repletos de paradoxos e contradições, de difícil leitura para os operários, a doutrina anarquista encontra-se submersa nas nuvens da metafísica hegeliana.
É na Alemanha que a ideia deveria emergir e tornar-se popular. Nas duas obras de Hess publicadas em 1843, Philosophie der That e Sozialismus, a anarquia se precisa como um corpo de doutrina distinto. A anarquia, diz ele, é a negação de toda autoridade na vida espiritual e social, na Igreja e no Estado. Na mesma época, Karl Grün declara que, no futuro, cada um trabalhará a seu bel-prazer. A produção e o consumo não serão mais regulados senão pelo bom prazer dos indivíduos. Um grande número de jornais, revistas e folhetos difundem a nova doutrina e lhe suscitam numerosos adeptos no povo e na classe superior. Por volta do mesmo período, um professor de Berlim, Max Stirner, em um livro violento e cínico, Das Einzige und sein Eigenthum, Leipzig, s. d., ensina que o lema do homem livre não é apenas «nem Deus nem Mestre», mas «nem Fé nem Lei». Tudo o que pudermos obter por todos os meios — roubo, assassinato, rapina — consideremo-lo como nossa legítima propriedade.
Todavia, seríamos muito fracos para alcançar sozinhos os objetivos estritamente pessoais que perseguimos; unamo-nos, pois, em associações, sem abdicar, para tanto, de nosso egoísmo, e deixemo-las assim que não pudermos mais tirar proveito delas. As teorias anarquistas contribuíram não pouco para a revolução de 1848; por isso, a reação vitoriosa englobou na mesma repressão o socialismo e o anarquismo.
2° A fundação do partido. — Por volta de 1860, o movimento socialista despertou em todas as partes da Europa e adquiriu logo grande intensidade. É então que o russo Bakunin faz ressurgir a propaganda anarquista. Ele leva ao delírio o ódio à sociedade. Para emancipar a classe trabalhadora, o boletim de voto já não basta; é preciso, doravante, empregar a força, desencadear tudo o que hoje se chama de más paixões, instintos perversos, destruir tudo o que, até o presente, se denominou ordem social. Após a revolução, a sociedade organizar-se-á por si mesma, sob a condição de não aceitar nenhuma ditadura, nem mesmo a dos revolucionários socialistas. Bakunin tornou-se o apóstolo incansável dessas doutrinas subversivas e, em 1868, fundava a Aliança Internacional da Democracia Socialista, na qual seu programa deveria ser adotado integralmente e sem condições. A Aliança era uma federação de associações públicas ligadas por um vínculo secreto à direção de Bakunin; obteve, em pouco tempo, um desenvolvimento enorme, principalmente na Itália e na Espanha.
3° A propaganda pelo fato. — A partir de 1869, reinava na Rússia uma grande agitação. Bakunin enviara a esse país um emissário anarquista, Serge Netschaieff, assassino e vigarista. Em seu Catéchisme révolutionnaire, ele expõe os princípios e o método da anarquia. «O revolucionário — diz ele — rompeu absolutamente, no mais profundo de seu ser, com toda a ordem civil atual, com todo o mundo civilizado, com as leis, os costumes e a moral. Ele é seu adversário implacável. Não conhece senão uma única ciência: a destruição. Estuda a mecânica, a física, a química e talvez a medicina, mas apenas com o objetivo de destruir... Seu desejo será sempre chegar o mais pronta e seguramente possível à destruição das ignóbeis condições sociais. Para ele, tudo o que favorece o triunfo da revolução é legítimo e tudo o que a obstrui é imoral e criminoso.» Há muito os revolucionários preconizavam o assassinato como um meio de defesa, de represália, para suprimir o obstáculo. Netschaieff utiliza o atentado para excitar a atenção do povo, aterrorizar o burguês, advertir o governo. Ele mata por matar. Que as vítimas sejam inocentes e inofensivas, pouco importa. Ele foi o primeiro a introduzir na ação anarquista a propaganda pelo fato, que encheu de horror o mundo civilizado.
4° A anarquia e a Internacional. — Em 1864, Karl Marx havia criado a Associação Internacional dos Trabalhadores, cujo objetivo era unir os proletários de todos os países para reformar a sociedade segundo os princípios socialistas. A Aliança de Bakunin pediu para ingressar na Internacional em 1869, e assim o coletivismo e o anarquismo, enquanto partidos, tiveram um ponto de ligação comum. Tudo dividia os dois chefes, Marx e Bakunin: o caráter, a tática, as doutrinas; por isso a união teve apenas uma duração efêmera. As forças dos dois partidos entraram em luta no congresso de Haia (1872), onde ocorreu a ruptura. Após a cisão, os delegados espanhóis, belgas e do Jura, na sequência de um congresso realizado em Saint-Imier, no cantão de Berna (1872), constituíram uma aliança de socialistas antiautoritários que se desenvolveu sob o nome de «federação romana», depois «jurassiana», sem direção central. Em 1873, em Genebra, realizou-se o sexto congresso geral da Internacional separada dos marxistas; foi então que, pela primeira vez, o nome de anarquia foi dado a um partido autônomo. Na França, a anarquia agrupa-se em torno de dois centros, Paris e Lyon. A guerra entre a França e a Alemanha havia despertado os ódios antigermânicos do eslavo Bakunin e também seus instintos revolucionários. Ele correu a Lyon para lá fundar o comitê central da anarquia e assegurar, por esse meio, a salvação da França. Richard e Cluseret acolheram-no de braços abertos. Em 28 de setembro de 1870, esse comitê abolia o Estado, a justiça, a municipalidade, e seus bandos tentavam apoderar-se da prefeitura. Alguns dias mais tarde, suplicava-se a Bakunin que atravessasse a fronteira. A insurreição parisiense de 18 de março de 1871, cujo programa Bakunin, em sua Lettre à un Français (Œuvres, Paris, 1895), havia esboçado de antemão, foi reivindicada tanto pelos marxistas quanto pelos anarquistas como o primeiro esboço da sociedade futura, a primeira encarnação do sonho humanitário. Do ponto de vista anarquista, a Comuna pode ser considerada como uma gigantesca propaganda pelo fato destinada a atrair a atenção do mundo sobre o destino do quarto Estado.
5° A anarquia na França a partir de 1880.
— Por volta do fim de 1879, o anarquismo recebeu novo vigor sob a direção e o impulso do célebre geógrafo Élisée Reclus e do príncipe russo Pedro Kropotkin. Este último, em numerosos escritos e frequentes conferências, conferiu ao anarquismo um sistema definitivo que foi prontamente admitido por um número considerável de grupos. O partido anarquista francês formou-se na sequência do congresso regional do Leste em 1880, onde o partido operário se havia dividido em duas frações: os sufragistas e os abstencionistas. Contava, a princípio, com poucos aderentes. A legião anarquista não reunia, em 1882, mais do que uma centena de pessoas. Em pouco tempo, graças a uma propaganda ativa, o partido fez progressos consideráveis e não tardou a mostrar a sua vitalidade selvagem através de atentados e tentativas de revolta. É o incêndio por dinamite da igreja de Bois-du-Verne (1882), a explosão do café do teatro de Bellecour pelo companheiro Cyvoct (21 de outubro de 1882), o assassinato de Watrin em Decazeville (26 de janeiro de 1886), a explosão no palácio de justiça de Lyon (1887). Os feitos de Ravachol aterrorizaram Paris durante vários meses (de março a maio de 1892). Depois, a série vermelha de 1894: a bomba de Henry no café Terminus em Paris, o plebiscito de Vaillant na Câmara dos Deputados e, finalmente, o assassinato do presidente Carnot, em Lyon, por Casério (24 de junho de 1894). Nesse momento, Kropotkin e Élisée Reclus acharam por bem protestar contra essas execuções inúteis; era demasiado tarde. Medidas de repressão enérgicas esmagaram o partido anarquista. Este despertou por ocasião do caso Dreyfus. Sébastien Faure, no Journal du Peuple, e Urbain Gohier, em Aurore, conduziram uma violenta campanha contra o exército, a religião e o clero. O camarada Étiévant espancou dois guardas da paz (18 de janeiro de 1898), e cerca de um milhar de libertários, incitados por Sébastien Faure, entregaram ao saque e à profanação a igreja de Saint-Joseph em Paris (20 de agosto de 1899). Era, mais uma vez, a propaganda pelo fato.
IV. CONSTITUIÇÃO DO PARTIDO ANARQUISTA. — Os anarquistas formam um partido independente dos socialistas. No congresso internacional de Zurique (agosto de 1893), foram excluídos por uma vasta maioria. O congresso dos socialistas alemães de Hamburgo (1897) e o congresso internacional dos socialistas de Londres (1897) mantiveram e ratificaram essa decisão. Seita pouco centralizada, o anarquismo deixa livre cada organismo local para conduzir a seu bel-prazer a propaganda e a agitação. Os companheiros reúnem-se nos seus pequenos grupos de estudos sociais, aos quais gostam de dar nomes de melodramas: La Torche de Belleville, La Panthère des Batignolles, Les Gonzes poilus du Point-du-Jour, Le Drapeau noir (Charonne), Les amis de Ravachol (Saint-Chamont), Les Sangliers de la Marne (Châlons). Os camaradas libertários reúnem-se no estabelecimento do negociante de vinhos em serões familiares, onde se canta e se declamam poesias revolucionárias contra o patriotismo, a religião, os burgueses, os proprietários. Ravachol é objeto de um culto laico. Ao lado da propaganda sedentária, existem os trimardeurs (de trimard, estrada grande) que vão de cidade em cidade semear a boa nova. Estes grupos correspondem entre si por intermédio da imprensa anarquista. A primeira folha anarquista, La Révolte, foi publicada primeiramente em Lyon, em 1880, mas foi logo transferida para a Suíça. Tratava-se de uma folha semanal redigida pelos dois grandes chefes, Kropotkin e Reclus. Em 1885, na sequência do atentado anarquista de Berna contra o palácio federal, regressou à França e teve como redator principal Jean Grave, um dos publicistas mais fecundos da literatura anarquista. La Révolte é um jornal filosófico, com ares literários, que se dirige à classe culta. Le Père Peinard é escrito para os operários e as pessoas do povo. Redigida por Émile Pouget, antigo empregado de uma grande loja de Paris, esta folha grosseira fala ao povo a língua do povo, a gíria das oficinas, sopra o ódio contra a religião, a família, o exército, a sociedade, e incita de maneira cínica ao crime e à revolta. Publica também caricaturas, imagens alucinantes — por vezes não desprovidas de talento — que gravam na imaginação popular as lições de moral libertária.
Ao anarquismo liga-se uma terceira folha, L’Endehors, revista semanal fundada em 1891 por Zo d'Axa (pseudónimo de Galland). L’Endehors reúne uma plêiade de «anarquistas de letras» ou «decadentes», tais como O. Mirbeau, Lazare, Hamon, que exercitam as suas penas a defender as doutrinas mais subversivas. Estes escritores, embriagados de individualismo, encaram a sociedade como um teatro do qual são espetadores desinteressados e do qual recebem impressões. Fazendo profissão de se colocarem fora de qualquer regra, de qualquer convenção social, de qualquer teoria — até mesmo a anarquista —, só conhecem o eu. «Que importam as vítimas, dizia Jean Tailhade, se o gesto é belo!» Os anarquistas de letras ligam-se à teoria egoísta de Stirner e, sobretudo, a Nietzsche, o anarquista aristocrático que reserva apenas ao homem superior, ao super-homem, Uebermensch, o privilégio de se libertar de qualquer regra e de qualquer lei. M. Maurice Barrès, em Sous l’œil des barbares, Paris, 1890, descreveu minuciosamente esta psicologia do anarquista de letras. O seu homem livre, o seu «inimigo das leis», pretende fazer do mundo a sua presa, não mais material, mas ideal, e desfrutar das façanhas anarquistas como se de um espetáculo neroniano se tratasse. É uma nova forma de diletantismo.
A imprensa anarquista conta catorze jornais de língua francesa (embora nem todos apareçam em França), dois jornais de língua inglesa (um em Londres e um em Nova Iorque), três de língua alemã, dez de língua italiana, quatro em espanhol, um em hebreu, dois em português, um em checo, um em holandês.
V. Crítica. — 1º Em relação à religião, o anarquismo é a destruição de toda a ideia religiosa; para ele, Deus, a alma, a providência, a vida futura, não passam de quimeras. Os principais artigos do credo anarquista — a supressão de toda a autoridade divina e humana, o aniquilamento da família monogâmica e estável, do direito de propriedade privada, a reabilitação do roubo e do assassinato — são outros tantos erros condenados em várias ocasiões pelos soberanos pontífices e, em particular, por Pio IX e Leão XIII.
2º A moral anarquista, que em última análise se reduz a esta fórmula: «Faze o que quiseres», está em contradição manifesta com os dados da consciência. Dominando o tumulto das paixões e a luta dos interesses egoístas, a lei do dever ressoa no mais íntimo do nosso ser. Há ações que devemos evitar, outras que devemos praticar; é um fato de consciência. Apesar das teorias libertárias, os maus instintos, a violência, o ódio, a cobiça, o amor ao mal são no homem realidades, constatadas por uma observação quotidiana. O tesouro dos conhecimentos humanos aumenta incessantemente, o campo da ciência alarga-se, a civilização material está em progresso contínuo e, contudo, a moralidade ou, melhor dizendo, a imoralidade do homem permanece estacionária. Não serão as declamações vazias dos companheiros do anarquismo que mudarão esta lei histórica.
3º A teoria social. — A teoria social dos anarquistas doutrinários filosóficos ou revolucionários militantes baseia-se no dogma fundamental da bondade natural do homem, alterada apenas pela organização social. É aí que reside o paradoxo monstruoso, o otimismo ilusório de J.-J. Rousseau. Impressionados com as misérias que existem na sociedade atual, os teóricos do anarquismo não querem encontrar a causa nas falhas da natureza humana, nas faltas do livre-arbítrio. Para tornar o homem melhor, não basta destruir o Estado e a sociedade.
Quantos males não provêm nem da desigualdade das condições, nem da repartição das riquezas! Não, a natureza humana não mudará sob a influência dos folhetos de Élisée Reclus ou da bomba de Henry. Querer fundar uma sociedade sem lei, sem autoridade, sem justiça, sem força coercitiva, dando-lhe como base única a livre associação, é uma utopia louca. Na verdade, como assegurar, nesta sociedade futura, o respeito ao direito, à liberdade, aos contratos? O direito do mais forte, o triunfo da violência, tornar-se-ão logo a norma desta sociedade, e o paraíso anarquista será um antro de bandidos, de ladrões e de assassinos.
4° Na ordem econômica. — O regime da anarquia não é menos irrealizável. É preciso uma fé robusta para crer que a produção, o câmbio, o preço dos gêneros irão organizar-se espontaneamente. Como a concorrência dos grupos seria mais eficaz do que a concorrência dos indivíduos sob o regime da propriedade privada? Abandonar a produção a associações submetidas ao capricho individual é uma quimera colossal. Sem o freio da autoridade, sem o estimulante do interesse pessoal, a associação de produção reduz-se a uma poeira incoerente e inerte. Ademais, a sociedade cooperativa de produção supõe um nível intelectual e moral superior à média ordinária entre os trabalhadores; ela exige a submissão a uma regra, a uma autoridade forte e respeitada. Para cumprir essas condições, a anarquia deveria renunciar aos seus princípios ou mudar a natureza humana.
5° A propaganda pelo fato é uma consequência lógica da doutrina anarquista: o indivíduo afirma pela ação a sua soberania absoluta, o seu direito de revolta sem limites. É também o triunfo da besta, o reino da ferocidade animal. Aliás, a propaganda pelo fato não é apenas uma manifestação inepta e monstruosa de selvageria animal; ela é, ainda, perfeitamente inútil ao objetivo que os anarquistas se propõem. Não devem eles considerar também o fato das represálias exercidas pelo poder e reclamadas pela sociedade justamente aterrorizada? A história da anarquia na Áustria, na Itália, na Espanha, na França, nos Estados Unidos, mostra que a propaganda pelo fato, longe de favorecer o desenvolvimento da anarquia, a esmagou sob o peso terrível da repressão a qualquer custo.
6° Causas do anarquismo. — Pode-se perguntar como um sistema tão quimérico, antinatural e antissocial como é a anarquia pôde nascer e arregimentar adeptos. Basta observar que a anarquia foi uma reação natural contra o coletivismo, uma extensão lógica do individualismo liberal. Ao socialismo coletivista, que confisca os direitos do cidadão em proveito da sociedade socializada, o anarquismo respondeu com uma declaração de guerra contra a sociedade e com a reivindicação da plena independência do indivíduo. Pela boca de H. Spencer, o individualismo liberal declarava o Estado um "incômodo" necessário e reduzia o seu papel ao do gendarme encarregado da ordem interior e exterior: em nome da liberdade individual, o libertário destrói o "incômodo", ele suprime o gendarme em nome da liberdade do indivíduo.
A anarquia nas ideias foi o fruto natural de uma ciência sem Deus, sem moral, que tentou destruir, sem substituir, as tradicionais regras de conduta da humanidade. Na sociedade atual, o anarquismo revolucionário encontrou um terreno de cultura admiravelmente propício: o luxo insolente de uns roçando a miséria sórdida de outros, as classes populares pervertidas pela educação ateia, exasperadas por uma instrução mal adaptada à luta pela vida — que faz gerações de desclassificados —, a atmosfera voluptuosa das grandes cidades, a paixão desenfreada pelo dinheiro, o deus do dia, a corrupção fascinante da imprensa, do romance, do teatro, os escândalos da Bolsa e do parlamento; eis o esterco onde nasceu e onde se desenvolveu o cogumelo venenoso da anarquia.
BIBLIOGRAPHIE: On trouve une bibliographie très complète, principalement des ouvrages anarchistes, dans Nettlau, Bibliographie de l’anarchie, Paris, 1897; Proudhon, Qu’est-ce que la propriété? La création de l’ordre, Paris, 1851; Ranc, dans Encyclopédie générale, art. Anarchie; Herbert Spencer, L’individu contre l’État, Paris, 1888, introduction du volume; A. Plea, For Liberty, Londres, 1892; Benj. R. Tucker, Instead of a book... A fragmentary exposition of philosophical anarchism, New-York, 1893; Victor Yarros, Anarchism : what it is, and what it is not. Arena, Boston, avril 1893; Max Stirner, Der Einzige und sein Eigenthum, Leipzig, s. d.; Michel Bakounine, La Commune de Paris et la notion de l’État, Dieu et l’État, s. d.; Michel Bakounine, Œuvres, Paris, 1895; Pierre Kropotkine, Paroles d’un révolté, préface d’Élisée Reclus, s. d.; La conquête du pain, préface d’Élisée Reclus, Paris, 1893; La loi et l’autorité. L’anarchie dans l’évolution socialiste. Esprit de révolte. Les prisons, brochures, s. d.; La morale anarchiste, Paris, 1899; Élisée Reclus, Evolution et révolution, Paris, 1896; L’Evolution. La révolution et l’idéal anarchique, Paris, 1898; Jean Grave, La Société mourante et l’anarchie, Paris, 1893; La Société future, Paris, 1895; Ch. Malato, Philosophie de l’anarchie, Paris, 1889; Procès des anarchistes de Lyon, 1883; La revue La Plume, numéro du 1er mai 1893, consacré à l’anarchisme; Muller, Enquête sur les menées anarchistes en Suisse, Berne, 1885; Schaak, Anarchy and anarchists, Chicago, 1887; J. Garin, Anarchie et anarchistes, 1888; Handwörterbuch der Staatswissenschaften, de Conrad, art. Anarchism, par G. Adler; A. Von Waltershausen, Der moderne Socialismus in den Vereinigten Staaten von America, Berlin, 1890; Richard T. Ely, The Labor movement in America, Londres, 1890; French and german socialism in modern times, Londres, 1884; Thomas Kirkup, A history of socialism, Londres, 1892; Winterer, Le socialisme contemporain, Paris, 1894; A. Bérard, Les hommes et les théories de l’anarchie, dans les Archives d’anthropologie criminelle, 15 novembre 1892; G. Tarde, Foules et sectes au point de vue criminel, dans la Revue des Deux Mondes, 15 novembre 1892; Flor O’Squarr, Les coulisses de l’anarchie, Paris, 1892; Félix Dubois, Le péril anarchiste, Paris, 1894; R. Garraud, L’anarchie et la répression, Paris, 1895; Hamon, Psychologie de l’anarchie socialiste, Paris, 1895; Albert Delacour, Les lettres de noblesse de l’anarchie, Paris, 1899.
Autor original: C. Antoine
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor