I. Noção. II. Moralidade. III. Diferença com as cruzes, medalhas, imagens e relíquias portadas pelos católicos.
I. Noção. — «Chamam-se amuletos, diz Bergier, Dictionnaire de théologie, Lille, 1844, t. I, p. 99, certos remédios supersticiosos que se porta sobre si ou que se prende ao pescoço, para se preservar de alguma doença ou de algum perigo.»
Este gênero de superstição provém diretamente do paganismo. Era, com efeito, a crença comum entre os povos antigos, e ainda o é nas nações pagãs de nosso tempo, que os encantadores, feiticeiros e magos podem, por palavras ou sinais, lançar malefícios, isto é, causar doenças e outros danos, algumas vezes a morte, às pessoas a quem resolveram prejudicar. Protege-se contra esses malefícios por outros sinais ou objetos preservadores — pedaços de pedra, de osso, de metal, de pergaminho, de toda substância e de toda forma — que se porta consigo. Esses objetos eram chamados pelos gregos φυλακτήρια (phylacteria), ou preservativos; pelos latinos, amolimenta ou amoleta, de onde o termo francês amulette, que parece derivar do verbo amoliri, afastar. Os orientais empregam no mesmo sentido a palavra talismã. E os fetiches dos negros africanos seriam outra coisa? Ver de Mirville, Des esprits et de leurs manifestations, Paris, 1863, t. III, p. 247 sq.
De origem pagã, esta superstição persistiu nas sociedades cristãs. Constatamos que os Padres da Igreja tiveram frequentemente que repreender os fiéis sobre este ponto. Ver Thiers, Traité des superstitions, Paris, 1704, t. I, p. 327 sq. E sabemos por são Tomás, Sum. theol., IIa IIae, q. XCVI, a. 4, que no século XIII existia ainda o costume seguinte, já condenado por são João Crisóstomo: escrevia-se sobre fragmentos de pergaminho, de chumbo ou de estanho, palavras do Evangelho, e esses objetos, suspensos ao pescoço, eram tidos como preservadores daquele que os portava contra doenças e outros perigos. Encontram-se, até o século XVIII, nos concílios provinciais e nos estatutos sinodais de muitas dioceses, defesas e condenações do uso de amuletos. Thiers, op. cit., t. I, p. 337. É, portanto, sinal de que este uso não tinha desaparecido completamente. E poderíamos dizer que não resta mais traço dele em nossos dias? «Sobre este ponto, escreve Bergier, loc. cit., os homens, em todos os tempos e em todos os lugares, levaram a fraqueza e a credulidade a um excesso incrível.»
II. Moralidade. — A superstição dos amuletos se vincula, segundo os casos, ou à magia, ou à vã observância. Há magia quando aquele que porta amuletos entende, com isso, fazer apelo à assistência do demônio e se ligar de alguma sorte a ele para obter sua defesa. Há vã observância quando, sem querer se ligar ao demônio, sem pensar mesmo na sua intervenção, empregam-se esses objetos e esses sinais ineficazes por si mesmos para obter resultados evidentemente desproporcionados com o meio empregado, como a cura de uma doença ou a proteção contra um perigo grave e iminente.
Ora, de acordo com a opinião comum dos teólogos, a magia e a vã observância são, uma e outra, pecados mortais por sua natureza. Marc, Institutiones morales, n. 567, 572, Roma, 1889, t. I, p. 393-395. Mas entre as duas devemos fazer esta diferença: a invocação do mau espírito é formal e explícita na magia; por isso, não se pode quase desculpar ou atenuar este pecado sob pretexto de ignorância. Ao contrário, o recurso ao demônio não é senão implícito no caso da vã observância. O meio empregado não pode produzir por si mesmo o efeito desejado; para que este efeito seja produzido, é necessária uma intervenção preternatural. Aí está a invocação implícita do demônio. Mas o homem do povo não se dá conta, ordinariamente, cremos nós, desta invocação implícita; ele age por ignorância e não acredita estar cometendo um ato de irreligião. Acontecerá, portanto, que seu pecado, considerado subjetivamente, não será senão venial; talvez mesmo não haja pecado formal algum. S. Liguori, Theologia moralis, l. II, n. 15, Paris, 1878, t. III, p. 16; Didiot, Vertu de religion, Paris e Lille, 1899, p. 487.
Pode-se ver no Traité des superstitions de J.-B. Thiers, t. I, p. 329-337, numerosas condenações proferidas pela autoridade eclesiástica contra o uso dos amuletos. Que nos baste relatar aqui o cânon 61 do concílio de Constantinopla in Trullo (706): «Sejam também excomungados durante seis anos, sexennii canoni subjiciantur, aqueles que são chamados caçadores de nuvens, encantadores, fornecedores de amuletos, amuletorum prebitores, adivinhos. E se persistirem em suas faltas, que sejam expulsos para sempre da Igreja, como os santos cânones ordenam.» Hardouin, Acta conciliorum, Paris, 1714, t. III, col. 1689.
III. DIFERENÇA COM AS CRUZES, MEDALHAS, IMAGENS E RELÍQUIAS PORTADAS PELOS CATÓLICOS. — Os protestantes taxaram de vã observância o costume dos católicos de portar consigo objetos bentos, cruzes, medalhas, imagens, relíquias, agnus Dei, etc. Tudo isso, segundo eles, é, sob uma forma nova sancionada pela Igreja romana, a superstição dos amuletos. Ver Jaugey, Dictionnaire apologétique, art. Superstition, Paris, 1889, col. 3012.
Nós respondemos: O que constitui o caráter supersticioso do amuleto é que aquele que o porta lhe atribui uma eficácia misteriosa que ele não pode ter por si mesmo, e busca obter por este meio vulgar resultados desproporcionados e naturalmente impossíveis.
Ora, o que pensam e o que querem os católicos que portam consigo cruzes, relíquias ou outros objetos religiosos e bentos? Eles querem honrar Nosso Senhor Jesus Cristo morto na cruz por nós e os santos que, após nos terem dado o exemplo da virtude aqui embaixo, são agora nossos patronos no céu. Eles invocam o apoio desses protetores poderosos e lhes dirigem como que uma contínua oração para obter sua defesa. Não há nisso crença na eficácia de um meio desproporcionado com o fim a obter; não há senão uma forma especial da oração e da invocação dos santos. Portanto, não há vã observância; não há superstição. E é com razão que a Igreja encoraja esta forma da piedade católica, pelas numerosas indulgências que ela concede àqueles que portam, com espírito de devoção, os objetos bentos. Ver Béringer, Les indulgences, Paris, 1893, t. I, p. 326-418.
Cf. Thiers, Traité des superstitions, 1ª parte, l. V, Paris, 1744, t. I, p. 327-424; Le Brun, Histoire critique des pratiques superstitieuses, l. III, Paris, 1741, t. I, p. 365-433; Bergier, Dictionnaire de théologie, art. Amulette, Superstition; Dictionnaire d’archéologie chrétienne, t. I, col. 1784-1860.
Autor original: A. BEUGNET
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