AMÉRICA. I. AMÉRICA (ESTADOS UNIDOS): SITUAÇÃO RELIGIOSA GERAL

AMÉRICA. I. AMÉRICA (ESTADOS UNIDOS): SITUAÇÃO RELIGIOSA GERAL

AMÉRICA. Reservando para o vocábulo Canadá o que concerne a esse país, dedicamos ao restante da América quatro artigos: I. América (Estados Unidos da): situação religiosa geral; II. América (Estados Unidos da): catolicismo; III. América (Estados Unidos da): protestantismo; IV. América Latina.

1º AMÉRICA (Estados Unidos da). Situação religiosa geral. — I. Vislumbre histórico. II. Relações atuais entre as Igrejas e o Estado.

I. VISLUMBRE HISTÓRICO. — A América, que havia sido descoberta e evangelizada pelos católicos, não tardaria a ser invadida pelos protestantes. Os episcopais da Inglaterra, os puritanos da Escócia, os reformados dos Países Baixos e os huguenotes da França, sem falar de uma multidão de outras seitas menos importantes, vieram, um após o outro, estabelecer-se ou refugiar-se no norte da América, conferindo ao protestantismo nesse país um caráter essencialmente cosmopolita. Podemos distinguir dois períodos na história religiosa dos Estados Unidos: um anterior e outro posterior à Revolução.

1º Antes da Revolução. — O que distingue este período é o espírito de intolerância que anima quase todas as seitas. No sul, na Virgínia, os episcopais da Inglaterra, chegados desde 1607, fizeram declarar o anglicanismo religião oficial da colônia e proibiram a pregação a quem quer que não tivesse recebido a ordenação pelas mãos de um bispo anglicano: os quakers e os puritanos foram punidos com penas severas e até mesmo expulsos do país. Em uma província vizinha, Maryland, os católicos haviam proclamado, em 1634, sob a liderança de Lord Baltimore, uma liberdade religiosa completa para todos aqueles que cressem em Jesus Cristo; mas os protestantes, episcopais e puritanos, tendo vindo estabelecer-se ali em grande número, suprimiram essa liberdade e perseguiram os católicos, privando-os de seus direitos políticos e concedendo um prêmio aos apóstatas. Parece que os puritanos da Inglaterra, que, após terem se refugiado primeiramente na Holanda, embarcaram no pequeno navio Mayflower e fundaram em 1620, no Norte, em New-Plymouth, uma colônia que se tornou tão célebre, deveriam ter se mostrado mais liberais, já que eles próprios fugiam de sua pátria para encontrar em um mundo novo a liberdade religiosa; nada disso aconteceu: o governo dos pais peregrinos foi um governo teocrático, excluindo todos aqueles que não pensavam como eles em matéria religiosa. Por isso, um deles, Roger Williams, que deixara os episcopais por desejar mais liberdade e que achava incorreto arrastar um homem ao templo contra a sua vontade, foi banido da colônia e teve de refugiar-se entre os índios Narragansetts, em meio aos quais fundou em 1636 a cidade de Providence, da qual fez um asilo aberto a todas as consciências. No centro, os reformados holandeses, que colonizaram o atual estado de Nova York, haviam praticado inicialmente certa tolerância; mas, quando os ingleses tomaram essa colônia, não tardaram a perseguir os católicos (1683). William Penn, que introduziu os quakers na Pensilvânia e fundou Filadélfia, a cidade da amizade fraternal, imitou Lord Baltimore e convidou para seu território cristãos de toda religião. Assim, à parte algumas exceções, o espírito de intolerância dominou nas diversas comunidades protestantes na origem. — No momento em que eclodiu a guerra da independência, havia cerca de 3 milhões de habitantes nos Estados Unidos, a maioria de origem britânica. À falta de um censo oficial, conhece-se apenas de forma aproximada a estatística das diferentes seitas. Fornecemos, segundo R. Baird, Religion in America, Nova York, 1856, p. 209-210, e segundo P. Schaff, Religious Encyclopedia, Nova York, 1888, p. 2427, o número de ministros e de igrejas das diversas comunhões:

SEITAS MINISTROS IGREJAS Episcopais 250 300 Batistas 350 380 Congregacionalistas 575 700 Presbiterianos 440 300 Luteranos 25 60 Reformados alemães 25 60 Reformados holandeses 25 60 Morávios 12 8 Metodistas 24 2 Quakers ou Amigos 400 500

2º Após a Revolução. — Diferentes causas levaram sucessivamente a um regime de tolerância e de separação completa entre as Igrejas e o Estado. Os ministros episcopais, cujas simpatias pendiam para a Inglaterra, apoiaram apenas timidamente ou até combateram a causa da independência, o que lhes fez perder sua situação privilegiada. Ao contrário, as seitas não conformistas e os católicos apoiaram valentemente a causa nacional, o que dispôs o governo a lhes conceder plena liberdade. Além disso, era preciso tratar com prudência a França católica, cuja aliança era tão útil para o sucesso das armas americanas. Por fim, é preciso dizer, vários dos legisladores, como Thomas Jefferson, estavam imbuídos de princípios racionalistas e queriam a liberdade devido à sua indiferença em matéria de religião. O artigo 6, § 3, da Constituição declara "que nenhum teste religioso poderá jamais ser exigido como condição de aptidão para qualquer função ou cargo público dos Estados Unidos". Além disso, a primeira das emendas à Constituição, propostas em 1789 e ratificadas em 1791, acrescenta que "o Congresso não poderá estabelecer uma religião de Estado, nem proibir o livre exercício de uma religião". Esses dois artigos bastavam para assegurar a liberdade religiosa por parte do governo federal; mas cada estado particular permanecia livre para se dotar de uma Igreja nacional. Durante vários anos, de fato, uma união bastante estreita persistiu, em várias províncias, entre a Igreja e o Estado. A Virgínia, descontente com os ministros episcopais, foi a primeira a romper essa união (1784); Maryland e Nova York seguiram logo esse exemplo; a Nova Inglaterra só entrou nessa via em 1816, e só em 1833 foi abolida a taxa obrigatória destinada a sustentar o culto. Coisa estranha, o teste religioso desapareceu apenas lenta e sucessivamente dos diferentes estados, e os católicos continuaram a ser excluídos das funções públicas até 1806 no estado de Nova York, em 1830 na Virgínia, em 1844 em Nova Jersey e em 1882 em New Hampshire. Há, inclusive, de tempos em tempos, uma recrudescência do espírito sectário; por volta de 1855, o partido dos know-nothing (resposta dada pelos membros do partido quando interrogados por profanos) e, muito recentemente, a Associação Protetora Americana, conhecida vulgarmente sob o nome de A. P. A., tentaram reacender os velhos preconceitos protestantes e excluir os católicos de toda função pública. Seu sucesso foi apenas local e passageiro; ministros protestantes tomaram abertamente partido pelo direito e pela justiça, e o bom senso público não se deixou cegar pelas odiosas e ridículas calúnias sobre as quais esses partidos extremistas quiseram sustentar sua política estreita.

Este regime de liberdade foi favorável à difusão do protestantismo: os ministros, deixando de ser sustentados pelo Estado, tiveram de demonstrar mais zelo, ainda que fosse para obter um salário suficiente; de resto, o povo mostrou-se generoso, e o número de templos construídos em um século em todo o território dos Estados Unidos é verdadeiramente extraordinário; seu valor, sem falar das escolas, orfanatos, hospitais e outros estabelecimentos religiosos, elevava-se em 1890 a dois bilhões setecentos e quarenta milhões de francos. Não se pode negar, contudo, que essa liberdade absoluta tenha multiplicado ao infinito o número das seitas e diminuído, ao fragmentá-las, as forças vivas do protestantismo; mas esse é o resultado fatal do livre exame, onde quer que alguma autoridade civil ou religiosa não venha contrariar sua força centrífuga.

II. RELAÇÕES ATUAIS ENTRE AS IGREJAS E O ESTADO.

Como dissemos, não existe na América uma religião de Estado, o que significa que todo cidadão é livre para praticar a religião que desejar, ou para não praticar nenhuma; que o Estado não dota nenhuma seita ou estabelecimento religioso, enquanto tal, e que não se imiscui de forma alguma nos assuntos puramente religiosos. Ademais, reconhece e favorece o direito de associação, e faz observar os estatutos e regulamentos que as associações religiosas estabeleceram para si mesmas, em conformidade com as leis. O Estado, portanto, não é ateu, nem anticristão, nem mesmo indiferente; ele encara o cristianismo, entendido em um sentido amplo, como a religião do país e, quase em toda parte, pune por suas leis o blasfemo, a violação do repouso dominical, a poligamia, o adultério e os crimes contra a natureza. O juramento é prestado sobre a Bíblia; durante muito tempo, a Bíblia era lida diariamente nas escolas públicas e, se essa prática cessou em certos Estados, foi sobretudo para não obrigar as crianças católicas a submeterem-se à leitura de uma Bíblia protestante.

O Congresso tem seu capelão e inicia todos os dias suas deliberações com uma oração; o mesmo ocorre com as legislaturas dos diversos Estados; capelães, pertencentes às diferentes confissões cristãs, são vinculados às frotas e aos exércitos e remunerados pelo Estado. Durante muito tempo votaram-se subvenções aos ministros dos diferentes cultos que trabalhavam na educação dos indígenas; contudo, como se notou que os católicos se beneficiavam disso muito mais que os outros, terminou-se por concluir, muito equivocadamente, sem dúvida, que se tratava de uma ofensa à neutralidade. Na maioria dos Estados, a propriedade eclesiástica não paga imposto algum, sendo reconhecida de utilidade pública. Se, nas diferentes Igrejas, surgem processos sobre matérias eclesiásticas — questões de propriedade, por exemplo —, os tribunais, em geral, conformam suas decisões às leis vigentes nessas Igrejas. É assim que vários sacerdotes foram chamados a explicar, perante as cortes civis, a legislação canônica, e o veredito foi conforme às leis da Igreja. Todos os anos, após a colheita, o presidente da República determina um dia de ação de graças, thanksgiving, para agradecer a Deus pelos benefícios do ano; e, em certas circunstâncias extraordinárias, como, por exemplo, em 1863, durante a guerra civil, fixa um dia de penitência e de oração pública. Assim, pois, um certo espírito cristão inspira a legislação e os governantes. Há, contudo, alguns pontos negativos: nas escolas públicas, as únicas subsidiadas pelo Estado, não se ensina nenhuma religião, e os católicos ou protestantes que, compreendendo a importância da educação religiosa, desejam ter escolas paroquiais, precisam pagar uma dupla taxa, uma para a escola neutra e a outra para suas próprias escolas; muito poucos protestantes consentem em impor-se esse fardo, e muitas crianças e jovens caem na indiferença e perdem toda crença. Além disso, a legislação é tão frouxa em relação ao vínculo matrimonial que os Estados Unidos contam, sozinhos, mais divorciados que todos os outros países cristãos tomados em conjunto; essa é uma ferida aberta que se alarga a cada dia e demanda um remédio imediato.

Ver as obras indicadas ao final do artigo AMÉRIQUE (États-Unis e Protestantisme).

Autor original: A. Tanquerey

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