AMBRÓSIO (SANTO)

AMBRÓSIO (SANTO)

I. Vida. II. Escritos. III. Doutrina.

I. VIDA. — Ambrósio nasceu por volta de 340, de uma linhagem ilustre e cristã, provavelmente em Tréveris, onde seu pai era prefeito do pretório para as Gálias. Uma irmã, Marcelina, que viria a receber o véu das mãos do papa Libério, e um irmão, Sátiro, o tinham precedido. Após a morte prematura de seu pai, conduzido a Roma por sua piedosa mãe, recebeu ali uma sólida cultura literária e jurídica; em 374, seus raros talentos fizeram com que fosse designado por Valentiniano I para o governo da Emília e da Ligúria, das quais Milão era a capital. O bispo legítimo de Milão, santo Dionísio, morrera no exílio, e o intruso ariano Auxêncio, que acabara de morrer, havia, durante quase vinte anos, oprimido os católicos. Surgindo como um pacificador em uma eleição episcopal que divergências tumultuosas tornavam difícil, Ambrósio, embora simples catecúmeno, foi aclamado bispo e, a despeito de suas resistências, não pôde se esquivar de um encargo tão pesado quanto imprevisto. Tendo se tornado cristão e bispo, iniciou-se por um estudo incessante e aprofundado na doutrina que tinha a missão de ensinar, despojou-se em favor dos pobres de seu rico patrimônio, resgatou cativos vendendo os vasos de sua igreja e fez-se homem de todos. Sua eloquência cativava a multidão, atraiu Agostinho e dissipou as últimas dúvidas do futuro bispo de Hipona. Cf. AUGUSTIN, Confessiones, l. V, c. XIII; l. VI, c. III, IV; De utilitate credendi, c. VIII, P. L., t. XLII, col. 717, 720, 721, 722; t. XLII, col. 79º A ação de Ambrósio exercia-se muito além de sua cidade episcopal. Defensor no Ocidente da doutrina ortodoxa, assiste ao concílio de Aquileia (381), onde foram depostos os bispos arianos Paládio e Secundiano; preside, em 381 ou em 382, um concílio dos bispos do vicariato da Itália que condenou o apolinarismo; encontra-se com santo Epifânio de Salamina e Paulino de Antioquia no concílio romano de 382, e nos Actes ele é nomeado o primeiro após o papa são Dâmaso. Em 390, Ambrósio mantém em Milão, contra Joviniano, um concílio onde a sentença proferida no ano anterior pelos bispos das Gálias contra os itacianos foi confirmada. Ouvido por Valentiniano I, Ambrósio foi-o sobretudo por Graciano e, depois, por Valentiniano II. A mãe deste príncipe, a ariana Justina, encontrou no bispo de Milão um adversário inflexível; Ambrósio recusa duas vezes à imperatriz a basílica Porcia e, na falta desta, a basílica nova que ela exigia para os arianos (385 e 386); opõe-se à lei que restituía a liberdade aos adeptos do concílio de Rímini e proibia, sob pena de morte, aos católicos qualquer resistência; desafia as ameaças de exílio e recusa os juízes que se queriam lhe dar; sofre, enfim, tentativas de assassinato, Hist., XX, XXI, P. L., t. XVI, col. 994-1002, 1002-1018; Vita S. Ambrosii a Paulino conscripta, n. 20, P. L., t. XIV, col. 33, 34º Ambrósio, contudo, já tinha ido defender em Tréveris, junto ao usurpador Máximo, assassino de Graciano, os interesses do jovem Valentiniano (383); em 387, tentou uma segunda diligência, que não deteve Máximo no caminho da Itália. Após a morte de sua mãe, Valentiniano, irrevogavelmente ganho à causa da ortodoxia, seguiu a direção de Ambrósio, notadamente ao se opor ao restabelecimento da estátua da Vitória no Senado. Sufocado por ordem do godo Arbogasto (392), Valentiniano II deixou só mestre do império Teodósio, seu poderoso associado. Ambrósio foi amigo de Teodósio, mas um amigo que nunca se calou e nunca vacilou. Em 388, tinha decidido a retirar um édito que ordenava aos cristãos de Calínico, na Mesopotâmia, que reconstruíssem uma sinagoga. Epist., XL, P. L.

A. BEUGNET

Após o massacre de Tessalônica, decretado em uma hora de febre furiosa para vingar a morte de alguns funcionários imperiais, Ambrósio tinha detido Teodósio na entrada de sua igreja e lhe impusera a penitência pública. Epist., LI, P. L., t. XVI, col. 1160-1164.

Teodósio morreu em 17 de janeiro de 395, e Ambrósio não lhe sobreviveu senão dois anos († 4 de abril de 397).

II. ESCRITOS. — O modo de pensar de Ambrósio é inteiramente romano; as questões morais e práticas ocupam preferencialmente o bispo de Milão. Ele trata frequentemente das questões dogmáticas, os deveres de seu cargo e as necessidades do tempo o exigiam; mas ele não se eleva às especulações engenhosas ou sublimes às quais se aprouve santo Agostinho; basta ordinariamente a Ambrósio desenvolver o argumento escriturístico e tradicional. De testimoniis plura contexam, disse ele em um de seus mais importantes tratados. De fide ad Gratianum Augustum, l. I, Prolog. 4, P. L., t. XVI, col. 529. Entre os Padres, seus predecessores ou seus contemporâneos, ele conhece sobretudo Clemente de Alexandria, Orígenes, Dídimo, são Basílio.

A eloquência e o estilo de Ambrósio foram apreciados por mestres. «Santo Ambrósio, diz Fénelon, segue por vezes a moda do seu tempo. Ele dá ao seu discurso os ornamentos que se estimavam então. Mas, afinal, não vemos nós santo Ambrósio, não obstante alguns jogos de palavras, escrever a Teodósio com uma força e uma persuasão inimitáveis? Quanta ternura não exprime ele quando fala de seu irmão Sátiro! Temos mesmo no breviário romano um discurso dele sobre a festa de são João, a quem Herodes respeita e teme ainda após a sua morte: prestai atenção, encontrareis o final sublime...» Terceiro diálogo sobre a eloquência.

«Sente-se nele, diz Villemain, mais ocupado com a língua e o estilo de Ambrósio, uma bela tradição da antiguidade. Os dois escritores cuja imitação é a mais sensível e, frequentemente, marcada demais no gênio de Ambrósio, são Tito Lívio e Virgílio. Juntar-lhes-ia de bom grado Cícero e Sêneca. Sem dúvida, as recordações da sua língua estão estranhamente misturadas; mas não há, contudo, alguns belos reflexos da antiguidade no estilo desigual do seu discípulo cristão, e o que falta na forma é coberto pela excelência do fundo.» Villemain, artigo Saint Ambroise na Biographie universelle de F. Didot, Paris, 1855. «Encontram-se... até nas passagens mais austeras, locuções que parecem vir de Lucano, de Terêncio, e mesmo de Marcial e de Ovídio. Mas é sobretudo Virgílio... que foi o poeta amado de santo Ambrósio, se se deve julgar pelo número considerável de empréstimos mais ou menos disfarçados que lhe faz.» R. Thamin, Saint Ambroise et la morale chrétienne au IVe siècle, ch. VI.

1° Escritos exegéticos. — Estes escritos, que constituem uma parte considerável da obra de Ambrósio, foram primeiramente homilias. O bispo de Milão não tem ordinariamente como objetivo expor o sentido literal da Escritura, ao qual ele prefere os sentidos alegóricos e morais. Ele se inspira em Orígenes, inspira-se de bom grado também em Filo, a tal ponto que, por muitas vezes, restabeleceu-se o texto bastante mal conservado do judeu alexandrino com o auxílio das passagens paralelas de Ambrósio. Mas, ao mesmo tempo em que aplicam um e outro o método alegórico à interpretação das Escrituras, eles não descobrem as mesmas doutrinas sob a casca da letra.

O bispo de Milão emprega também o processo alegórico na explicação do Novo Testamento, com o risco de nos desconcertar por vezes. Ver o seu comentário de são Lucas, P. L., t. XV, col. 1649, 1793, 1794. O comentário é engenhoso e tocante; mas está-se longe do texto.

Na enumeração das obras exegéticas de Ambrósio, em vez da ordem cronológica, difícil de determinar com certeza, seguiremos, como os editores beneditinos, a ordem dos livros da Escritura. Nomeemos primeiramente os seis livros do Hexaemeron, P. L., t. XIV, col. 123-274. Nove sermões pregados em seis dias da quaresma, entre os anos 386 e 389, formam a base de uma obra onde santo Ambrósio, imitador de são Basílio, mas imitador livre, aproveita também, segundo o testemunho de são Jerônimo, obras hoje perdidas de Orígenes e de santo Hipólito.

Ambrósio descreve aí, com uma graça poética, os diversos aspectos do mundo visível; ele é, sobretudo, um moralista; por isso, utiliza, para fins éticos, traços fabulosos que a história natural dos antigos lhe havia transmitido.

O De Paradiso, P. L., t. XIV, col. 275-314, os dois livros De Cain et Abel, P. L., t. XIV, col. 315-360, e o De Noe et arca, P. L., t. XIV, col. 361-416, foram provavelmente escritos por volta de 380; segundo Kellner, o De Noe et arca seria do final de 386. O De Paradiso, no qual Ambrósio refuta os maniqueístas e apresenta fatos da história primitiva, uma explicação alegórica e mística, possui, menos que as outras obras, o caráter homilético. O elemento parenético domina nos livros De Cain et Abel. É provavelmente no decorrer dos anos 388 e 390 que Ambrósio escreveu o De Abraham, em dois livros, P. L., t. XIV, col. 419-500; De Isaac et anima, P. L., t. XIV, col. 501-535; De bono mortis, P. L., t. XIV, col. 539-568; De fuga seculi, P. L., t. XIV, col. 569-596; De Jacob et vita beata, em dois livros, P. L., t. XIV, col. 597-638; De Joseph patriarcha, P. L., t. XIV, col. 641-672; De benedictionibus patriarcharum, P. L., t. XIV, col. 673-694. Aos olhos de Ambrósio, assim como aos de Fílon, os patriarcas são as leis vivas e racionais, ἔμψυχοι καὶ λογικοὶ νόμοι; o bispo os admira e propõe sua imitação aos catecúmenos e aos batizados. A preocupação alegorista e mística tornou-o, às vezes, bem indulgente. Sed non ita illam defendimus, ut istum accusemus : imo utrumque excusemus : non autem nos, sed mysterium quod copulae illius fructus expressit, disse ele sobre Judá e Tamar, em seu comentário sobre São Lucas, P. L., t. XV, col. 1596. O sentido místico prevalece no De Isaac et anima: Isaac, esposo de Rebeca, é a figura de Cristo unindo-se à alma humana. O De bono mortis é apenas uma continuação do livro sobre Isaac; Ambrósio ensina ali a fazer, pela mortificação, a aprendizagem da morte, que é para a alma uma feliz libertação. Unde et nos dum in corpore sumus, usum mortis meditemur, ablevemus animam nostram ex istius carnis cubili, et tanquam de isto exsurgamus sepulchro, De bono mortis, c. V, P. L., t. XIV, col. 548. É a propósito da fuga de Jacó à Mesopotâmia que Ambrósio escreveu seu De fuga seculi, citado por Santo Agostinho, l. II Contra Julianum, c. VII, P. L., t. XLIV, col. 689, e l. IV Contra duas epistolas Pelagii, c. II, P. L., ibid., col. 633. O De benedictionibus patriarcharum é a explicação mística das bênçãos pronunciadas por Jacó moribundo sobre seus doze filhos.

O livro De Elia et jejunio, repleto de descrições refinadas ou enérgicas que põem a nu os costumes da época, P. L., t. XIV, col. 697-728, foi pronunciado ou composto à aproximação da Quaresma (c. I, col. 697); ele preconiza o jejum. O De Nabuthe Jezraelita, P. L., t. XIV, col. 731-756, recorda aos ricos ávidos as ameaças divinas; o De Tobia, P. L., t. XIV, col. 759-794, descreve e condena o crime pavoroso da usura. Os dois primeiros escritos são posteriores a 386.

Nos quatro livros De interpellatione Job et David, P. L., t. XIV, col. 797-850, os quais, segundo os beneditinos, foram compostos por volta de 383, Ambrósio repete as queixas dessas personagens bíblicas sobre a fraqueza e a miséria do homem; ele responde às dúvidas que visam o governo da providência com as próprias palavras de Jó e do autor do salmo LXX. Na Apologia prophetae David, P. L., t. xiv, col. 851-884, Ambrósio previne seus leitores contra o escândalo que resulta do duplo crime de David. Esta apologia é dos anos 383-385. Santo Agostinho a cita, l. IV Contra duas epistolas Juliani, c. ii, e l. II Contra Julian., c. vii, P. L., t. xiv, col. 632, 687. A Apologia altera prophetae David, P. L., t. xiv, col. 887-916, é muito provavelmente de outra mão e de outra época.

As Enarrationes in duodecim psalmos davidicos, P. L., t. xiv, col. 921-1180, compostas em diversos momentos, e a Expositio in psalm. cxviii, que provavelmente é dos anos 386-388, apresentam um caráter verdadeiramente exegético.

A Expositio Isaiae prophetae está perdida. Com diversas passagens de Ambrósio, o cisterciense Guilherme de Saint-Thierry († 1148) compôs um comentário sobre o Cântico dos Cânticos.

A Expositio Evangelii secundum Lucam, obra considerável em dez livros, P. L., t. xv, col. 1527-1860, data dos anos 385-387.

Os Commentaria in tredecim Epistolas B. Pauli, P. L., t. xvi, col. 45-508, foram atribuídos ao bispo de Milão, de quem são dignos; a partir de Erasmo, que contestou essa atribuição, o autor é designado sob o nome de Ambrosiaster ou falso Ambrósio. Segundo Mommsen, é impossível atribuir a Santo Ambrósio a Lex Dei sive Mosaicarum et Romanarum legum collatio, que, aliás, não se encontra nas edições impressas.

2º Escritos morais e ascéticos. — Ambrósio compôs, após 386, seu célebre tratado De officiis ministrorum, P. L., t. xvi, col. 23-184. É para os clérigos que Ambrósio escreveu estes livros; «ele não se limita, todavia, nesta obra, a regular os costumes dos eclesiásticos; ele ensina a todos os cristãos os preceitos e as máximas da moral mais pura.» Dom Remi Ceillier, Histoire générale des auteurs ecclésiastiques, 2ª ed., Paris, 1860, t. v, p. 378 seg., santo Ambrósio. O De officiis de Santo Ambrósio é dividido em três livros como o de Cícero, mas este próprio paralelismo apenas faz sobressair melhor a antítese das duas morais. «O que separa profundamente a moral do Pai da Igreja da de seu predecessor é a noção justa do fim último e a certeza de uma vida futura onde a virtude é coroada e o vício punido. Daí, como consequência imediata, o desprezo pelos bens terrenos, mas um desprezo razoável, acompanhado de inefáveis esperanças, e que não quebra, como a apatia estoica, as molas da alma...» R. P. Charles Daniel, S. J., La morale philosophique avant et après l’Evangile, Études religieuses, 1857.

Ambrósio comprazia-se em celebrar a virgindade. No início quase de seu episcopado, em 377, ele endereçava à sua irmã Marcelina seus três livros De virginibus, P. L., t. xvi, col. 187-232. «Haec ego vobis, sanctae virgines, dizia ele, nondum triennalis sacerdos munuscula paravi, licet usu indoctus, sed vestris edoctus moribus», l. II, c. vi, P. L., t. xvi, col. 218. À mesma ordem de ideias pertencem as obras De viduis de 377 ou 378, P. L., t. xvi, col. 233-262; De virginitate, que parece também ser de 378, P. L., t. xvi, col. 265-302; De institutione virginis et S. Mariae virginitate perpetua ad Eusebium, de 391 ou 392, P. L., t. xvi, col. 305-334; Exhortatio virginitatis, de 394 ou 395, P. L., t. xvi, col. 335-364. O De lapsu virginis consecratae, P. L., t. xvi, col. 367-384, é provavelmente de Nicetas de Remesiana, cuja personalidade e sede são bastante difíceis de determinar.

3º Escritos dogmáticos. — Em primeiro lugar, aparecem os cinco livros De fide ad Gratianum Augustum, obra menos pessoal, sem dúvida, que os tratados de Hilário e de Agostinho sobre a Trindade, P. L., t. xvi, col. 527-698. Graciano pedira a Ambrósio uma exposição e uma defesa do dogma da divindade do Verbo, das quais pudesse armar-se contra os sofismas arianos de seu tio Valente, a quem iria socorrer. «No momento de partir para a guerra, dizia Ambrósio, tu me pedes, ó piedoso imperador, um tratado da fé cristã... Preferiria exortar à fé do que discutir sobre a fé; exortar à fé é fazer dela uma profissão religiosa; discutir é cometer um ato de presunção imprudente. Mas tu não precisas ser exortado, e eu mesmo, na presença de um dever piedoso a cumprir, não me desculparei; já que a ocasião se oferece a mim, empreenderei com modesta segurança uma discussão onde se entrelaçarão alguns raciocínios e muitos textos escriturísticos.» L. I, Prolog., P. L., t. xvi, col. 529.

Em 381, surgiram, como uma continuação dos cinco livros De fide, os três livros De Spiritu Sancto ad Gratianum Augustum, que foram julgados por São Jerônimo com uma severidade carrancuda (Praefatio ad Paulinianum, P. L., t. xxviii, col. 104). Ambrósio, auxiliando-se de São Basílio e de Dídimo de Alexandria, defende nestes livros o dogma da consubstancialidade do Espírito Santo. O De Incarnationis dominicae sacramento, P. L., t. xvi, col. 817-846, é dirigido contra as heresias ariana e apolinarista, e visa o círculo próximo ao imperador. O bispo de Ciro, Teodoreto, inseriu em um de seus diálogos um fragmento de uma Expositio fidei, obra de Ambrósio (em Eranistes ou Polymorphus, P. G., t. lxxxiii, col. 181-187; e P. L., t. xvi, col. 847-850). O De fide orthodoxa contra arianos, P. L., t. xvii, col. 549-568, foi erroneamente atribuído ao bispo de Milão.

O De mysteriis, discurso endereçado aos novos batizados, P. L., t. xvi, col. 389-410, onde a crença católica sobre o batismo, sobre a confirmação, e notadamente sobre a eucaristia, é tão claramente atestada, jamais foi seriamente contestado a Santo Ambrósio, ainda que não se possa fixar sua data. Os seis livros De sacramentis, P. L., t. xvi, col. 447-462, frequentemente atribuídos a Santo Ambrósio por autores que vieram muito tempo depois dele, não passam de uma imitação do De mysteriis, e dificilmente podem ser anteriores ou posteriores ao século V ou VI. Ver mais adiante o artigo AMBROSIANO (RITO), § 14º Dom Morin os atribui a Nicetas de Remesiana, cuja identidade, como dissemos, é difícil de fixar (P. L., t. xvi, col. 465-594). Os dois livros De paenitentia, escritos por volta de 384, segundo os beneditinos, e dirigidos contra a heresia novaciana, encerram preciosos testemunhos sobre o poder de absolver conferido à Igreja, sobre a necessidade da confissão e sobre o mérito das boas obras. Ambrósio faz neles humildes e tocantes retornos sobre si mesmo (L. II, c. viii, P. L., t. xvi, col. 513-516). Esta nota pessoal não está ausente das outras obras do bispo de Milão. Ver, por exemplo, o De fide ad Gratianum Augustum, l. V, Prolog., P. L., t. xvi, col. 649-652.

Não possuímos o De sacramento regenerationis sive de philosophia, obra de Santo Ambrósio, nomeada por vezes por Santo Agostinho (Contra Julianum, l. I, c. iv, P. L., t. xliv, col. 632; Retractat., l. II, c. iv, ibid., t. xxxii, col. 632); conhecemos também apenas o nome da dissertação Ad Pansophium puerum, dos anos 393-394. O fragmento sobre a origem da alma, editado em 1883 por Caspari, porta indevidamente o nome de Ambrósio: Altercatio d. Ambrosii contra eos qui animam non confitentur esse facturam aut ex traduce esse dicunt.

4° Discursos. — Restam-nos de Ambrósio as orações fúnebres de Sátiro, este irmão tão ternamente amado que uma morte súbita arrebatou em 379; do jovem Valentiniano e de Teodósio. O De excessu fratris Satyri, P. L., t. xvi, col. 1289-1354, compreende dois livros, dos quais o primeiro é a oração fúnebre pronunciada diante dos restos mortais do defunto; o segundo, intitulado ordinariamente De fide resurrectionis, é um discurso de consolação que Ambrósio pronunciou sete dias mais tarde diante do túmulo de seu irmão. Santo Agostinho citou este segundo livro, De peccato originali, l. II, c. IV, P. L., t. XLIV, col. 409. A oração fúnebre de Sátiro é um grito de dor do qual Bossuet se lembrou e se inspirou na oração fúnebre de Henriette d’Angleterre. A de Valentiniano II, intitulada De obitu Valentiniani consolatio, P. L., t. XVI, col. 1357-1384, foi pronunciada por volta do mês de agosto de 392, nos funerais do jovem príncipe caído vítima de Arbogasto. O elogio fúnebre de Teodósio, De obitu Theodosii oratio, P. L., t. XVI, col. 1385-1406, é posterior em menos de três anos ao de Valentiniano; Ambrósio o pronunciou em Milão, nos funerais do imperador, em 26 de fevereiro de 393. São duas obras eloquentes, preciosas do ponto de vista da doutrina e da história.

Vários sermões de Ambrósio fazem parte de sua correspondência, e nós os nomearemos logo mais. Mencionemos aqui três sermões, de autenticidade duvidosa, sobre o texto de São Lucas, XII, 33, publicados em 1837 por Corrieris; e uma pretendida Exhortatio S. Ambrosii ad neophytos de symbolo.

5° Cartas. — Os beneditinos (1690) contavam noventa e uma, e atribuíam a data das sessenta e três primeiras. Em 1890, o doutor Ihm retificou a cronologia em vários pontos. Ambrósio, em uma de suas cartas, confessa com uma graça engenhosa seu gosto pela correspondência íntima, Epist., XIX, Sabino, P. L., t. XVI, col. 1153-1154; ele faz a esse mesmo Sabino a confidência de sua atividade literária, Epist., XLVI, XLVIII, P. L., t. XVI, col. 1150-1153; mas o que se deve buscar nessa correspondência são detalhes sobre sua vida de bispo. Epist., XX, P. L., t. XVI, col. 994-1002, onde ele conta à sua irmã o cerco que os arianos lhe fizeram sofrer em sua catedral; Epist., XXI, P. L., t. XVI, endereçada a Valentiniano II, a qual contém sua resposta às pretensões usurpadoras de um segundo Auxêncio, herdeiro da intrusão do primeiro Auxêncio; Epist., XXII, P. L., t. XVI, col. 1019-1026, onde Ambrósio conta a Marcelina a descoberta das relíquias dos santos mártires Gervásio e Protásio, e relata os dois discursos pronunciados por ele nessa ocasião. Certas cartas tratam de pontos de exegese, de teologia dogmática, de moral: Epist., XXV, P. L., t. XVI, col. 1053-1061: elogio da beleza divina e eloquente exortação a amá-la somente; Epist., XXX, P. L., t. XVI, col. 1065-1071: Deus ama com um amor diferente aqueles que creram desde a infância e aqueles que chegaram mais tarde à fé? Epist., XIII, P. L., t. XVI, col. 1129-1185: por que Deus criou o mundo em seis dias? Epist., XLIV, P. L., t. XVI, col. 1135-1141: resposta às inquietações de um juiz concernente à aplicação da pena de morte; Epist., XXV, P. L., t. XVI, col. 1040-1042: ao mesmo tempo em que respeita os direitos da justiça, Ambrósio revela-se o apóstolo da misericórdia. Várias cartas oferecem um interesse histórico de primeira ordem. São as duas cartas a Teodósio; uma, Epist., XL, P. L., t. XVI, col. 1101-1118, diz respeito ao caso da sinagoga de Calinico, cuja reconstrução o imperador havia ordenado aos cristãos que a haviam destruído; a segunda, Epist., LI, P. L., t. XVI, col. 1160-1164, tão eloquente quanto corajosa, reprova ao imperador o massacre de Tessalônica, e lhe impõe, como condição do perdão, as severidades da penitência pública: «Foi cometido na cidade de Tessalônica um atentado sem exemplo na história: eu não pude impedi-lo; mas eu disse de antemão quão horrível ele era... Eu não tenho contra ti nenhum ódio; mas tu me fazes sentir uma espécie de terror. Eu não ousaria, em tua presença, oferecer o divino sacrifício; o sangue de um só homem injustamente vertido me o defenderia; o sangue de tantas vítimas inocentes me o permite?» (Trad. de Villemain). Do mais alto interesse também são duas cartas escritas a Valentiniano II: Epist., XVII, P. L., t. XVI, col. 961-971; Epist., XVIII, col. 971-982. Na primeira, Ambrósio se eleva contra o restabelecimento da estátua da Vitória no Senado e contra a restituição ao sacerdócio pagão das honras e dos bens que lhe haviam sido retirados; a segunda é uma refutação ardente, hábil, sólida, triunfante, da relação do prefeito Símaco, que se havia constituído o defensor do paganismo.

6° Hinos. — Ambrósio foi o verdadeiro introdutor da poesia lírica no Ocidente cristão. Os arianos, fiéis ao exemplo de Ário, traduziam seus erros em cantos populares; Ambrósio, de seu lado, acostumou os ortodoxos a recitar hinos dos quais ele era autor. Ver sobre este assunto Santo Agostinho, Confession, l. IX, c. VII, P. L., t. XXXII, col. 770; a história de Santo Ambrósio, Paulino, Vita sancti Ambrosii, 13, P. L., t. XIV, col. 31; ver sobretudo o próprio Santo Ambrósio: «Eles dizem que eu engano o povo pelo encantamento de meus hinos. Eu não o nego.»

«É um grande encantamento, e não há um mais poderoso. O que de mais poderoso, com efeito, que a confissão da Trindade, repetida cada dia pela boca de todo um povo?» Sermo contra Auxentium de basilicis tradendis, P. L., t. XVI, col. 1017-1018. Entre os hinos que foram chamados ambrosianos, Hymni ex ejus nomine Ambrosiani vocantur, disse Santo Isidoro de Sevilha, De eccl. officiis, I, 6, P. L., t. LXXXIII, col. 748, quatro são incontestavelmente de Ambrósio: 1º Deus creator omnium, S. Agostinho, Confissões, l. IX, c. XII, P. L., t. XXXII, col. 777; — 2º Aeterne rerum conditor, S. Agostinho, Retract., l. I, c. XXI, ibid., col. 619; S. Ambrósio, Hexaemeron, l. V, c. XXIV, P. L., t. XIV, col. 240; — 3º Jam surgit hora tertia, S. Agostinho, De natura et gratia, c. LX, P. L., t. XLIV, col. 284; — 4º Veni redemptor gentium, cuja origem ambrosiana é atestada talvez por Santo Agostinho (se o sermão CCCLXXIII é dele), e certamente pelo Papa São Celestino e por Fausto. Estes hinos são em versos iâmbicos dímetros e em estrofes de quatro versos. Ozanam os julga «cheios de elegância e de beleza, de um caráter ainda todo romano por sua gravidade, com não sei quê de viril no meio das ternas efusões da piedade cristã». La civilisation au VIe siècle, 18ª lição. Os beneditinos editores de Santo Ambrósio mantinham doze hinos como autênticos; Biraghi (1862) e Dreves (1893) contaram até dezoito. Ver Dictionnaire d’archéologie chrétienne, t. I, col. 1347-1352.

Uma lenda, mais bela mas menos verdadeira que a história, atribui a composição do Te Deum a Ambrósio e a Agostinho, tomados de uma inspiração súbita durante o batismo deste último. O Te Deum não se parece em nada com os hinos de Ambrósio e, aliás, é verossímil que nem Ambrósio nem Agostinho tivessem jamais dito nada sobre isso. Este cântico é, contudo, muito antigo, visto que é mencionado na Regra de São Bento. Dom Morin atribui sua composição a Nicetas de Remesiana.

III. DOUTRINA DE SANTO AMBRÓSIO. — A mera enumeração das obras do santo já nos fez conhecer essa doutrina.

1° Igreja. — Ambrósio crê que a Igreja é a guardiã da Escritura e da tradição. A Igreja é a cidade de Deus, In Psalm. CXVIII, serm. XV, 35, P. L., t. XV, col. 1422; não há perdão para aqueles que dela se separam. De poenitentia, l. I, c. I, 2, P. L., t. XVI, col. 465. Ambrósio louvou a inviolável pureza da fé romana. Credatur symbolo apostolorum quod ecclesia Romana semper custodit et servat. Epist., XLII, 5, P. L., t. XVI, col. 1125. Não se tem parte na herança de Pedro senão sob a condição de estar ligado à sua sé. De poenit., l. I, c. VII, 33, P. L., t. XVI, col. 476. Pedro, pela confissão que fez da divindade de seu Mestre, mereceu ser preferido a todos os apóstolos. «Onde está Pedro, lá está a Igreja; onde está a Igreja, a morte não está, mas sim a vida eterna.» In Psalm. XL, 30, P. L., t. XIV, col. 1082. Adversário dos heréticos que o Concílio de Niceia havia condenado, Ambrósio proclama a autoridade irreformável dos decretos proferidos nessa assembleia soberana; ele reprova a fraude e a violência que, em Rímini, constrangeram bispos enganados a abandonar esses decretos. De fide ad Gratianum Augustum, l. I, Prolog., 3, 5, P. L., t. XVI, col. 528-529; l. III, c. XV, col. 614-645; Epist., XXI, 14, col. 1005-1006.

2° Escritura Sagrada. — Ele venera as Escrituras, dentre as quais o bispo de Milão inclui o IV livro de Esdras, que ele gosta de citar, Epist., XXXIV, ad Horontianum, 2, P. L., t. XVI, col. 1074; De bono mortis, c. XXI, P. L., t. XIV, col. 560-563; ele as considera como a palavra de Deus; desta palavra, os heréticos se apoderam sem qualquer direito, interpretam-na à sua vontade e a alteram. Tract. in Vig. nat. Dom., 6, P. L., t. XVII, col. 619; Gesta concilii Aquileiensis, P. L., t. XVI, col. 927; De fide, l. III, c. XV, P. L., t. XVI, col. 587.

3° Trindade e Encarnação. — Ambrósio expôs e defendeu, como sabemos, com constância intrépida, e também com irrefutável precisão, os dogmas da Trindade, da Encarnação e da divindade de Jesus Cristo. Ninguém justificou melhor o uso da comunicação dos idiomas, De fide ad Gratianum Augustum, l. II, c. VII, P. L., t. XVI, col. 570-571; este trecho foi alegado pelos Padres do Concílio de Calcedônia e por São Leão Magno. Epist., CXXIV, P. L., t. LIV, col. 1061-1068; De Incarnationis dominicae sacramento, c. V, P. L., t. XVI, col. 827. Ninguém, tampouco, explicou-se melhor sobre as duas vontades do Salvador. In Lucam, l. X, n. 60, P. L., t. XV, col. 1819; De fide ad Gratianum Augustum, l. II, c. IX, P. L., t. XVI, col. 570. Compreende-se que o Papa Santo Agatão e o VI Concílio Ecumênico tenham invocado contra os monotelitas a autoridade de Santo Ambrósio.

De um texto de Ambrósio, De fide, l. II, c. XI, 93, P. L., t. XVI, col. 590, pode-se concluir que o santo doutor recusou a Cristo, enquanto homem, o conhecimento do dia do juízo? Este texto se explica por outro, De fide, l. V, c. XVII, P. L., t. XVI, col. 660; cf. Petau, Theolog. dogmat.; De incarnatione, l. XI, c. XI.

Ambrósio proclamou o dogma da maternidade divina, Quid nobilius Dei matre? De virginibus, l. I, c. 6, P. L., t. XVI, col. 209; ele afirmou a perpétua virgindade de Maria, De virginibus, l. II, c. II; De institutione virginis, c. VIII, P. L., t. XVI, col. 320.

4° Anjos e homens. — A doutrina de Ambrósio sobre os anjos requer alguma explicação; quando ele diz: nec angelus immortalis est naturaliter, De fide, l. III, c. III, P. L., t. XVI, col. 593, ele distingue da imortalidade essencial a Deus aquela que Deus comunica às suas criaturas. Aos três anjos nomeados na Escritura, Miguel, Gabriel e Rafael, Ambrósio acrescenta um quarto, Uriel, que ele só conhecia pelo IV livro de Esdras, V, 20º Demasiado fiel ao texto dos Setenta, Ambrósio atribuiu a queda dos anjos ao amor que teriam concebido pelas mulheres. De virginibus, l. I, c. VII, P. L., t. XVI, col. 203.

Ambrósio confessa o pecado original, De fide resurrectionis, l. II, n. 6, P. L., t. XVI, col. 1317; cf. S. Agostinho, De peccat. originali, c. XI, P. L., t. XLIV, col. 410; ele proclama a necessidade da graça, fruto do sangue de Jesus Cristo, De Jacob et vita beata, l. I, c. VI, n. 21, P. L., t. XIV, col. 607; ele proclama também a sua misericordiosa universalidade. De Spiritu Sancto, l. I, n. 16-17, P. L., t. XVI, col. 708; De paradiso, c. VIII, P. L., t. XIV, col. 292; De Cain et Abel, l. I, c. I, P. L., t. XVI, col. 346; De fide, l. III, c. VIII, P. L., t. XVI, col. 601; De Spiritu Sancto, l. I, Prolog., 18, P. L., t. XVI, col. 708.

5° Sacramentos. — Ambrósio é testemunha da doutrina sacramental da Igreja. Não há na Igreja senão um só batismo, Epist., LXXII, P. L., t. XVI, col. 1248; este batismo é necessário, Lib. de mysteriis, c. IV, P. L., t. XVI, col. 394; o martírio pode supri-lo, e o desejo também, De obitu Valentiniani, P. L., t. XVI, col. 1374-1375. Os bispos e os sacerdotes são os ministros do batismo, mas a eficácia não depende da virtude do ministro. Non mundavit Damasus, non mundavit Petrus, non mundavit Ambrosius, non mundavit Gregorius; nostra enim servitia, sed tua sunt sacramenta. De Spiritu Sancto, l. I, Prolog., 18, P. L., t. XVI, col. 708.

Os testemunhos prestados por Ambrósio ao dogma eucarístico são numerosos e precisos. A palavra consecratória é toda poderosa: ...Sacramentum istud quod accipis Christi sermone conficitur. Ipse clamat Dominus Jesus : Hoc est corpus meum. Ante benedictionem verborum caelestium alia species nominatur, post consecrationem corpus significatur. Ipse dicit sanguinem suum. Ante consecrationem aliud dicitur, post consecrationem sanguis nuncupatur... De mysteriis, c. IX, 52-54, P. L., t. XVI, col. 406-407. Ambrósio alega os diversos milagres bíblicos que preparavam as almas para admitir o mistério da transubstanciação.

A Eucaristia não é apenas um sacramento; é também um sacrifício no qual o Salvador se oferece a si mesmo pela mão do sacerdote. In psalm. xxxviii enarr., 25, P. L., t. xiv, col. 1052; cf. De offictis ministrorum, l. I, c. xlviii, P. L., t. xvi, col. 84º Todo o tratado De paenitentia expõe, com a disciplina própria ao tempo em que viveu Ambrósio, a doutrina católica sobre o sacramento da reconciliação. Nele é feita menção à confissão das faltas secretas. Si quis igitur occulta crimina habens, propter Christum tamen studiose paenitentiam egerit, etc. De paenitentia, l. I, c. xvi, 90, P. L., t. xvi, col. 493. O biógrafo de Ambrósio, Paulino, ensinou-nos com que misericórdia o bispo acolhia os pecadores. Vita S. Ambrosii, etc., n. 39, P. L., t. xiv, col. 40º Os direitos e os poderes divinos da hierarquia são afirmados por Santo Ambrósio, Epist., xxi, 2, 4, P. L., t. xvi, col. 1003, 1004. O bispo de Milão, que tanto glorificou a virgindade, não desconheceu, contudo, a alta dignidade do matrimônio cristão. De virginibus, l. I, c. vii, 34-35, P. L., t. xvi, col. 198-199; Epist., xlii, n. 3, P. L., t. xvi, col. 1124. Ambrósio declara indissolúvel o vínculo conjugal, De Abraham, l. I, c. vii, 59, P. L., t. xiv, col. 442; In Lucam, l. VIII, P. L., t. xv, col. 1766; ele desencoraja os cristãos de alianças com infiéis ou heréticos, De Abraham, l. I, c. ix, n. 84, P. L., t. xiv, col. 450, 451; In Lucam, l. VII, P. L., t. xv, col. 1765; Epist., xx, 7, P. L., t. xvi, col. 984-985. Nesta carta, Ambrósio descreve com um traço rápido a pompa religiosa do matrimônio.

6° Culto dos santos e das relíquias. — É conhecida a confiança que Ambrósio tinha na intercessão dos santos, De viduis, c. ix, 54, P. L., t. xvi, col. 250, 251; a honra que prestava às suas relíquias, Exhortatio virginitatis, c. i, P. L., t. xvi, col. 339. O testemunho que ele presta às milagrosas curas realizadas pelas relíquias dos santos Gervásio e Protásio é célebre. Epist., xxii, 17, P. L., t. xvi, col. 1024.

7° Escatologia. — Resta-nos falar da escatologia de Ambrósio. Uma passagem do santo fez com que fosse suspeito de milenarismo, refiro-me àquele milenarismo espiritual no qual incorreram ilustres antigos. In Ps. I enarr., 54, P. L., t. xiv, col. 950, 951. Sob a influência do IV livro de Esdras, que repartia as almas dos mortos em diversos receptáculos de onde só devem sair no último dia para receber seu salário, Ambrósio diz em algum lugar que a alma separada do corpo está em suspenso sobre seu destino, que será fixado apenas no julgamento futuro. De Cain et Abel, l. II, c. ii, P. L., t. xiv, col. 544. Notou-se um vestígio de origenismo em um texto bastante obscuro. In Psalm. cxviii, serm. xx, n. 23, P. L., t. xv, col. 491; cf. Petau, Theol. dogm., De angelis, l. III, c. vii, n. 12º Ambrósio parece também deixar entender, poterat quidem intelligi, que todos os fiéis, quaisquer que tenham sido as falhas de sua vida, chegarão finalmente à salvação. In ps. cxviii enarr., n. 56, P. L., t. xiv, col. 952. Sobre esses diversos pontos, onde a Igreja ainda não se havia pronunciado com uma precisão soberana, ou, pelo menos, Ambrósio não captava com plena clareza o ensinamento da Igreja. Mas os textos abundam onde o bispo de Milão afirma toda a doutrina católica sobre os fins últimos. Ele confessa em muitos lugares a eternidade das penas. De lapsu virginis, c. VIII, P. L., t. xvi, col. 376; De bono mortis, c. IV, P. L., t. xv, col. 542; In ps. cxviii, serm. xx, n. 58, P. L., t. xv, col. 1502. E, certamente, ele não pensa em isentar do eterno castigo os cristãos prevaricadores quando exclama: Si nihil argenti in me inventum fuerit, heu me in ultima inferni detrudar aut ut stipula totus exurar, In ps. cxviii enarr., n. 13, P. L., t. xv, col. 1487. Ambrósio, em muitos lugares, antecipando a decisão de Bento XII, reconhece que as almas justas, que nada mais têm a expiar, são imediatamente admitidas à visão beatífica. In Luc., l. X, 92, P. L., t. xv, col. 1827; Epist., xxi, De bono mortis, c. xi, 48, P. L., t. xiv, col. 561. Finalmente, ele atestou mais de uma vez, e da maneira mais comovente, o uso da oração pelos mortos. Epist., xxix, n. 4, P. L., t. xvi, col. 1090; De obitu Theodosii*, n. 37, P. L., t. xvi, col. 1397.

REPERTÓRIO. — Entre as edições antigas, a melhor, sem contestação, é a dos beneditinos do Frische e Le Nourry, Paris, 1686-1690, 2 vol. in-fol. Migne reproduziu-a nos t. xiv, xv, xvi da P. L., 1845. Ballerini deu uma edição nova, Milão, 1875-1883, 6 vol. in-fol. O t. xxx do Corpus scriptorum Ecclesiæ latinæ de Viena é o 1º das obras de S. Ambrósio.

VIDA E OBRAS. — Tillemont, Mémoires, t. x, Paris, 1705; Ceillier, Hist. générale des auteurs sacrés et ecclés., 2ª ed., t. v, Paris, 1865; Villemain, na Bibliographie universelle de L. Didot, Paris, 1855, art. Ambroise (Saint); Ebert, Histoire générale de la littér. du moyen âge en Occident, trad. Aymeric e Condamin, Paris, 1883, p. 155-200; E. Bernard, De S. Ambrosii Mediol. episc. vita publica, in-8°, Paris, 1864; A. Baunard, Hist. de S. Ambroise, in-8°, Paris, 1874; Locatelli, Vita di S. Ambrogio, in-8°, Milão, 1875; Foerster, Ambrosius, Bischof von Mailand. Eine Darstellung seines Lebens und Wirkens, in-4, Halle, 1884; Pruner, Die Theologie des H. Ambrosius, in-4°, Eichstædt, 1862; Duc de Broglie, L’Église et l’Empire romain, 4ª ed., Paris, 1882, t. v, p. 38, 255-261; t. vi todo; o mesmo, S. Ambroise, in-12, Paris, 1899; Keller, Der hl. Ambrosius... als Erklärer des Alten Testamentes, in-8°, Ratisbona; Biraghi, Vita della vergine Romano-Milanese S. Marcellina, sorella di S. Ambrogio, in-8°, Milão, 1863; trad. Corail, in-18, Paris, 1867; Thamin, S. Ambroise et la morale chrétienne au IVe siècle, in-8°, Paris, 1895; Niederhuber, Die Lehre des h. Ambrosius vom Reiche Gottes auf Erden, 1904; id., Die Eschatologie des h. Ambrosius, 1907.

Autor original: A. LARGENT

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