AMBIÇÃO

AMBIÇÃO

I. Definição. II. Moralidade.

I. DEFINIÇÃO. — A palavra ambição liga-se etimologicamente ao verbo latino ambire, cercar ou circundar, e pode ser tomada em dois sentidos. — 1° Em sentido lato, bastante frequente na linguagem usual, chama-se ambição o desejo e a busca do sucesso, das dignidades, das honras. É o sentido favorável da palavra. Diz-se assim que há louváveis e mesmo santas ambições. — 2° Em sentido mais restrito, que é o sentido desfavorável da palavra e o único adotado em teologia, a ambição é a busca desregrada das dignidades e das honras. Encontramos a definição neste sentido, formulada na conclusão que resume um artigo da Suma Teológica, IIa IIae, q. CXXXI, a. 1: « ambição é um pecado pelo qual se busca... » a honra de maneira desregrada, quer não a mereça, quer não a refira a Deus, mas unicamente à sua vantagem pessoal. » E Santo Tomás escreve no corpo do artigo em questão: « O desejo das honras pode ser desregrado de três maneiras: 1º ao desejar que seja dado testemunho a uma superioridade que não se possui, o que é buscar as honras além de seus méritos; 2º ao desejar as honras para si sem as referir a Deus; 3º ao deter-se no gozo das próprias honras, sem as fazer servir à vantagem dos outros. »

II. MORALIDADE. — Deixemos de pronto fora de questão a ambição entendida no sentido lato. Não somente ela não é pecado, mas é frequentemente meritória. « Eu sei, diz Massillon, Sermon sur les tentations des grands, Œuvres complètes, Bar-le-Duc, 1871, t. I, p. 26, que há uma nobre emulação que conduz à glória pelo dever... É ela que dá aos impérios cidadãos ilustres, ministros sábios e laboriosos, valentes generais, autores célebres, príncipes dignos dos louvores da posteridade. A verdadeira piedade não é uma profissão de pusilanimidade e preguiça: a religião não abate e não amolece o coração; ela o enobrece e o eleva... O cidadão inútil não é menos proscrito pelo Evangelho do que pela sociedade. » A ambição assim compreendida não é outra coisa senão a virtude definida e estudada por Santo Tomás, sob o nome de magnanimidade. Sum. theol., IIa IIae, q. cxxix.

Mas o que pensar da ambição entendida no sentido restrito e propriamente teológico da palavra? — « A ambição, escreve o doutor angélico, loc. cit., q. cxxxi, a. 1, implicando um desejo desregrado das honras, segue-se evidentemente que ela é sempre um pecado. » De que natureza? Classifica-se geralmente este pecado entre aqueles que se chamam « as filhas do orgulho », isto é, que derivam do primeiro dos pecados capitais. « As filhas do orgulho, lemos em Santo Afonso de Ligório, Theologia moralis, l. II, n. 66, Paris, 1884, t. I, p. 258, são a presunção, a ambição, a vanglória. » Assim classificada, a ambição é oposta, como o orgulho, à virtude cardeal da temperança. — De outro ponto de vista, que é o de Santo Tomás, ela é encontrada oposta à virtude cardeal da fortaleza. Eis como: « A ambição, diz o santo doutor, é oposta à magnanimidade. Dissemos, de fato, que a ambição implica um desejo desregrado da honra. Ora, a magnanimidade tem por objeto as honras, e delas usa como convém. É, portanto, evidente que a ambição se opõe à magnanimidade, como aquilo que é desregrado àquilo que é regrado. » Sum. theol., IIa IIae, q. cxxxi, a. 2. Sabemos, por outro lado, que a magnanimidade não é senão uma parte integrante, podemos dizer uma das formas, da virtude da fortaleza. Logo, a ambição é oposta à fortaleza.

Qual é a gravidade do pecado de ambição? Eis a resposta do sábio Busenbaum, Medulla theologiae moralis, l. V, c. III, Bruxelas, 1661, p. 527, adotada e reproduzida sem comentário por Santo Afonso de Ligório, Theol. mor., l. II, n. 66, 2°, e por Ballerini, Opus theologicum morale, Prato, 1889, t. I, p. 571: « A ambição é um pecado venial por sua natureza; mas pode tornar-se mortal, seja em razão das dignidades que se busca, seja em razão dos meios que se emprega para alcançar as honras, seja enfim em razão do dano que é causado a outrem. » Exprimamos a mesma ideia sob outra forma: Os pecados de ambição não podem ser declarados de modo geral e a priori mortais ou veniais. Serão graves ou não, segundo os casos. Cada caso deve ser apreciado em particular em razão das complexas circunstâncias que o constituem e lhe conferem seu caráter moral.

Cf. as obras citadas no artigo. Além disso: J. Busée, Panarium seu Summa remediorum spiritualium, Paris, 1894, t. I, p. 11-20; Bossuet, Sermon sur ambition, Œuvres complètes, Bar-le-Duc, 1879, t. VII, p. 533; Bourdaloue, Sermon sur l’ambition, Œuvres complètes, Bar-le-Duc, 1874, t. I, p. 342; Massillon, Sermon sur les tentations des grands, Œuvres complètes, Bar-le-Duc, 1874, t. I, p. 26.

Autor original: A. BEUGNET

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