AMAURY DE BENE ou ainda Amaury de Chartres, em latim Amalricus, Almaricus, Amauricus, por vezes Amorricus ou Elmericus. — I. Vida. II. Doutrina. III. Obra atribuída. IV. Os amalricianos. V. Primeira condenação. VI. Condenações subsequentes.
I. Vida. — Nascido em Bène, na região de Chartres, na segunda metade do século XII, Amaury foi, na sua juventude, seguir as lições da universidade de Paris. Seus progressos na ciência foram rápidos, e logo o discípulo tornou-se um dos mestres mais em voga na capital. Ensinou durante muito tempo a lógica de Aristóteles e as outras artes liberais; mais tarde, dedicou-se ao estudo dos problemas teológicos. Cum in arte logica peritus esset et scholas de arte illa et de aliis artibus liberalibus diu rexisset, transtulit se ad sacram paginam excolendam. (Obras de Rigord e de Guillaume le Breton, ed. Delaborde, I, 280. Cf. Denifle, Chartularium universitatis Parisiensis, t. I, p. 70, nota 2, Paris, 1889). Ostentava ares de um "homem independente que não se acomodava voluntariamente às opiniões e aos métodos recebidos": Semper suum per se modum discendi et docendi habuit, et opinionem privatam et judicium quasi seclum et ab aliis separatum. Hauréau, Comptes rendus des séances de l’académie des inscriptions et belles-lettres, 1ª série, t. VII, p. 299.
II. Doutrina. — Na realidade, nada de menos pessoal que o ensino de Amaury. Com efeito, segundo o testemunho de Martin de Pologne (+ 1278), dominicano e capelão de vários papas, Amaury pretende que as ideias que existem no pensamento divino criam e são criadas: enquanto que, seguindo São Agostinho, não há nada em Deus que não seja eterno e imutável. Ele diz também... que Deus é chamado o fim de todas as coisas porque todas as coisas devem retornar a ele para ali repousar imutavelmente. E, da mesma forma que a natureza de Abraão não é outra senão a de Isaque, mas que a mesma natureza lhes é comum a ambos; da mesma forma, segundo Amaury, todos os seres são um único ser e todos os seres são Deus. Ele sustenta, de fato, que Deus é a essência de toda criatura e o ser de toda coisa. Ensina ainda que, assim como a luz não é percebida em si mesma, mas no ar, da mesma forma Deus não poderia ser visto em si nem pelo anjo, nem pelo homem; ele só pode ser contemplado em suas criaturas. — Era ainda uma das teses de Amaury que, sem o pecado, a distinção dos sexos não teria ocorrido, mas que os homens se teriam multiplicado fora das leis ordinárias da geração, à maneira dos anjos, e que, após a ressurreição, os dois sexos serão novamente reunidos, como o foram na criação. Martin Polonus, Chronicon, Antuérpia, 1574, p. 393 sq. Cf. Ch. Jourdain, Mémoire sur les sources philosophiques des hérésies d’Amaury de Chartres et de David de Dinant, nos Mémoires de l’acad. des inscript. et belles-lettres, t. XXVI B, p. 471. — Nicolas Triveth, Chronicon Nicolai Trivetti, no Spicilège de d’Achéry, Paris, 1728, t. III, p. 184; o cardeal Henri de Suze, Apparatus in decret. Gregorii, I, 14, 2 na palavra Reprobamus; cf. Denifle, Chartularium, etc., t. I, p. 107, nota 1; o chanceler Gerson, Gersonii opera, Antuérpia, 1706, t. IV, col. 826, atribuíram as mesmas doutrinas a mestre Amaury de Chartres. Ora, basta compará-las com as que João Escoto Erígena professa em seu De divisione naturae, περὶ φύσεως μερισμοῦ, para encontrar perfeita similitude entre os dois sistemas. Era o filósofo irlandês que falava pela boca do doutor chartrês. Henri de Suze, loc. cit., escreve que no livro de mestre João Escoto intitulado: Periphision (é evidentemente o περὶ φύσεως μερισμοῦ), livro seguido, diz ele, por Amaury, há numerosas heresias. Ele cita três principais: a primeira, é que tudo é Deus, omnia sunt Deus; a segunda, é que as causas primordiais que se chamam ideias, isto é, formas ou exemplares, criam e são criadas, primordiales cause que vocantur ydee, id est forma sive exemplar, creant et creantur; a terceira, é que após a consumação do século ocorrerá a fusão dos sexos, em outras palavras não haverá mais distinção de sexo, post consummationem seculi erit adunatio sexuum sive non erit distinctio sexus. Independentemente da afirmação expressa do cardeal de Óstia, reconhecem-se bem aí as próprias ideias sustentadas mais tarde por Amaury.
III. OBRA ATRIBUÍDA. — Não obstante o que diga o Sr. Daunou, Hist. littéraire de France, t. XVI, p. 588, Paris, 1824, não se deve lamentar não possuir mais a obra em que Amaury teria desenvolvido suas proposições tão temerárias, e que teria levado o título de Physion; este livro jamais existiu e, segundo todas as probabilidades, Amaury nunca escreveu nada. Hauréau, ibid., p. 300 em nota. Este livro, portanto, jamais foi condenado e a bula de Inocêncio III, datada de 1198 segundo uns, de 1204 segundo outros, e que teria fulminado a condenação, não existe. Hauréau, ibid. Não se encontra, aliás, nenhuma pista disso no cartulário de Denifle. Amaury de Chartres morreu por volta de 1205. Ele havia criado escola, e sua doutrina lhe sobreviveu.
IV. OS AMALRICIANOS. — Ela foi conservada e desenvolvida pelos amalricianos, amalrici, amauriani. Martène, Thes. nov. anecd., t. IV, p. 163; cf. Denifle, Chartularium, t. I, p. 71, 72, transmitiu-nos o conjunto de suas heresias. — Deus é um e sua unidade se estende ao universo, no qual todos os seres são um, porque tudo o que é, é Deus, e que Deus está em todas as coisas. Deus está, por exemplo, no pão e no vinho antes da consagração tão bem quanto depois; todo o efeito da consagração eucarística é afirmar e declarar a presença divina sem produzi-la. — A esse erro sobre a unidade panteísta do mundo, eles acrescentavam outros sobre a Trindade. Segundo eles, o Pai se encarnou em Abraão. Na origem, ele agia sozinho no mundo, sem o Filho e sem o Espírito Santo. Mais tarde, o Filho se encarnou em Maria, e o Cristo não é mais Deus do que o era Abraão, graças à encarnação do Pai nele. Desde então, o Filho começa a agir. Ele abole toda a economia do Antigo Testamento; institui novas cerimônias; dá aos homens sacramentos de prática fácil e suave. — Mas os amalricianos declaravam finda a era do Filho. O Espírito Santo se encarnava por sua vez e começava a operar nas almas. Sua vinda abolia os ritos e os sacramentos da lei de Cristo, assim como a vinda deste havia abolido a lei antiga. Seu reinado deveria durar até o fim dos tempos. Encarnando-se em cada homem, o Espírito Santo trazia a todos as prerrogativas que haviam permanecido até então próprias do Cristo ou de Abraão. Os «espirituais» — era assim que se chamavam aqueles em quem o Espírito Santo havia descido — já se consideravam ressuscitados; pois, nessa era nova, a ressurreição era entendida em seu verdadeiro sentido, e não era outra coisa senão a vida no Espírito, a substituição das clarezas da ciência pelas obscuridades da fé e da esperança, das quais era preciso agora se despojar. O paraíso era a contemplação das novas verdades; sua ignorância era o inferno. Os filhos nascidos de um pai e de uma mãe espirituais não precisam do batismo; a verdadeira comunhão não é outra senão a participação de todos no mesmo Espírito; quanto à penitência, ela é inútil àqueles que sabem pertinentemente que Deus, sendo e fazendo tudo em todos, é autor dos atos chamados pecados tão bem quanto dos outros atos.
V. PRIMEIRA CONDENAÇÃO. — Um clérigo de Paris, chamado Raoul de Namur (e não de Nemours, como o chama Histoire littéraire de France, loc. cit.; cf. Hauréau, op. cit., p.
292), tomou conhecimento dessas doutrinas já aceitas por bom número de espíritos cultivados de Paris e dos dioceses vizinhos. Ele as reportou primeiramente ao abade de Saint-Victor, Jean le Teutonique, e a alguns outros personagens eclesiásticos de relevo, e depois ao bispo de Paris, Pierre de Nemours. Com seu assentimento, ele se juntou aos hereges; para granjear a confiança deles, ele fingiu professar as mesmas ideias e, uma vez inteirado completamente sobre os membros e os erros da seita, ele voltou para se encontrar com o bispo de Paris. — Logo, um concílio provincial foi convocado na capital pelo arcebispo de Sens, Pierre de Corbeil. As novas doutrinas foram ali examinadas, e os principais amalricianos foram chamados a se justificar ou a se retratar. Não tendo podido ou querido fazer nem uma coisa nem outra, foram condenados pelo concílio em 1210. Amaury foi o primeiro a ser incluído na condenação proferida contra seus discípulos. Eis o texto dessa sentença tornada célebre sobretudo pelo anátema que profere contra certos livros de Aristóteles. « O corpo do mestre Amaury será exumado do cemitério e lançado em terra não benta, e em todas as igrejas da província será promulgada a sentença de excomunhão lançada contra ele. Bernard, Guillaume d’Aire, o ourives, o padre Etienne du Vieux-Corbeil, o padre Etienne de la Celle, o padre Jean d’Orsigny, o mestre Guillaume de Poitiers, o padre Eudes, Dominique de Trainel, os clérigos Odon e Elinand de Saint-Cloud serão degradados para serem em seguida entregues ao braço secular. O padre Ulrich de Lorris e Pierre de Saint-Cloud, outrora monge de Saint-Denis, o padre Guérin de Corbeil e o clérigo Etienne serão degradados para serem submetidos à pena de prisão perpétua. — Antes do Natal, os quatrains do mestre David de Dinant (ver este verbete) serão levados ao bispo de Paris e queimados; os livros de Aristóteles sobre filosofia natural... ...e seus comentários não poderão mais ser lidos, seja em público, seja em particular, sob pena de excomunhão. Se forem encontrados os quatrains do mestre David em posse de alguém, após o Natal, este será considerado herege. »
Os amalricianos, sem dúvida, invocavam Aristóteles em suas argumentações e é por isso que o concílio terá condenado seus tratados de filosofia natural. Seja como for, aqueles dentre os discípulos de Amaury que haviam sido condenados a ser entregues ao braço secular foram conduzidos em 18 das calendas de dezembro (14 de novembro), perto da basílica de Saint-Honoré, e ali degradados publicamente. Entregues em seguida aos homens de justiça do rei, subiram à fogueira em 12 das calendas de dezembro (20 de novembro), na Place des Champeaux, campelli, no dia seguinte à grande feira de São Lázaro, que se realizava na mesma praça, anualmente, de 2 a 18 de novembro.
VI. CONDENAÇÕES SUBSEQUENTES. — Outras condenações atingiram, posteriormente, a doutrina de Amaury. Foi assim que, em 1215, no mês de agosto, Robert de Courçon, legado da Santa Sé, em um regulamento dos estudos da universidade de Paris, proibiu ali « a leitura dos livros de Aristóteles sobre metafísica e filosofia natural, bem como os compêndios sobre esses livros, ou sobre a doutrina do mestre David de Dinant, do herético Amaury e de Maurice d’Espagne ». Denifle, Chartularium.
Em 15 de novembro do mesmo ano, no IV Concílio de Latrão, Inocêncio III ocupou-se novamente da heresia amalriciana. « Reprobamus etiam et dampnamus perversissimum dogma Almarici, cujus mentem sic pater mendacii excecavit, ut ejus doctrina non tam heretica censenda sit quam insana. » (Reprovamos também e condenamos os dogmas perversíssimos de Amaury, cujo espírito foi de tal forma cegado pelo pai da mentira que sua doutrina deve ser considerada mais insana do que herética).
O concílio afirma que reprova também, etiam, a opinião de Amaury porque esta condenação sucede àquela do abade Joaquim e de seu tratado contra o mestre Pedro Lombardo. O concílio não relata nenhuma das heresias de Amaury. O cardeal Henri de Suze atribui este silêncio ao desejo que os Padres conciliares teriam tido de poupar alguns personagens consideráveis ainda tidos como favoráveis ao erro amalriciano. Lectura in decr. Greg., Biblioth. nat., Paris, ms. lat. 3995, fo 3; bibl. de Reims, ms. 548/541, dans Denifle, Chartularium, t. I, p. 82º É pouco provável. A verdadeira razão estaria, antes, na grande notoriedade conferida a esta heresia pela sentença de 1210. Aos Padres do Concílio de Latrão pareceu inútil recordar proposições ímpias conhecidas de todos. Denifle, loc. cit.
O concílio de 1210 havia atingido os discípulos de Amaury e o próprio Amaury; o de 1215 havia reprovado a doutrina deste. Era preciso remontar ainda mais alto e atingir a fonte dessa corrente pestilenta. Em 23 de janeiro de 1225, Honório III, confirmando uma sentença do arcebispo de Paris e de seus sufragâneos, condena o livro Περὶ φύσεων (Periphyseon), que perifisis titulatur, de João Escoto, exige que todos os exemplares sejam queimados, excomunga e taxa de heresia quem os detiver. L’Hostiensis, loc. cit., observa que a doutrina de Amaury procedia precisamente desse livro. Foi o último golpe desferido pela Igreja contra o doutor de Chartres e contra seus erros.
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Autor original: A. CHOLLET
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