AFONSO DE LIGUÓRIO, SANTO (DOUTOR DA IGREJA)

São Domingos

I. Vida. II. Escritos.

I. Vida. — Santo Afonso Maria de Ligório nasceu de uma nobre família napolitana, em 27 de setembro de 1696. Sua piedosa mãe, irmã de Dom Cavalieri, bispo de Troia, quis ela mesma presidir sua primeira educação; ela depositou no coração de seu filho as primeiras sementes das virtudes cristãs das quais era um exemplo vivo. O jovem Afonso estava adornado com os mais ricos dons da natureza: imaginação brilhante, espírito pronto, juízo seguro, memória tenaz, coração de uma requintada delicadeza; estas qualidades, desenvolvendo-se com a idade, atraíam-lhe a admiração universal. Seu pai resolveu não poupar nada para valorizar um fundo de tamanha riqueza, de modo que conseguiu proporcionar a esta criança privilegiada mestres renomados, e quis que sua educação se fizesse sob seus olhos, na casa paterna. Os estudos clássicos e as artes liberais deviam caminhar lado a lado; assim, ao programa tradicional das escolas vinham se somar lições de francês, de pintura e de música. Afonso atingiu em todos estes ramos uma perfeição que, mais tarde, contribuiu muito para seus sucessos apostólicos.

Seus progressos nos estudos não opuseram o menor obstáculo à sua piedade, a qual florescia admiravelmente sob a influência de sua santa mãe e de seu diretor, o padre Pagano, da Congregação do Oratório. Por volta dos dez anos de idade, foi admitido à sagrada mesa e, desde então, não cessou de aproximar-se dela regularmente, segundo os conselhos de seu confessor. Afonso era o modelo dos jovens de sua idade; aplicava-se à filosofia e às matemáticas com não menos sucesso do que às belas-letras, até que enfim pôde abordar o estudo do direito. Tudo concorria para lhe assegurar rápidos progressos neste ramo: seus mestres eram homens de alto valor, sua inteligência, notável e já bem desenvolvida, sua aplicação, constante. Foi para o espanto de toda Nápoles que ele enfrentou, aos dezesseis anos, as múltiplas provas do doutorado. Concederam-lhe a palma facilmente e, com uma dispensa de quatro anos, foi proclamado doutor em 21 de janeiro de 1713.

Após um estágio de três anos, empregado com sucesso em um estudo mais aprofundado da jurisprudência e no manejo dos negócios, ele advogou, com apenas vinte anos. A extensão de seus conhecimentos, a penetração de seu espírito e o calor de sua palavra valeram-lhe brilhantes triunfos oratórios; as causas mais importantes lhe foram confiadas; o futuro se abria diante dele, sorridente e cheio de promessas. Um evento trágico veio, em 1723, destruir todas essas esperanças e dar uma nova orientação a essa existência, que parecia se dirigir com passo tão seguro para o sucesso e a glória. Um litígio de extrema importância havia surgido entre o duque Orsini e o grão-duque da Toscana; o objetivo era de 500 a 600 mil escudos. O duque Orsini confiou seus interesses ao nosso jovem advogado. Afonso estudou escrupulosamente a causa, acreditou no bom direito de seu cliente e colocou todo o seu talento para fazê-lo triunfar; mas ele havia se enganado sobre o sentido de um documento e não fez dificuldade em reconhecê-lo lealmente diante do tribunal. Desde então, renunciou à advocacia.

Nem os conselhos de seus amigos, nem as instâncias de seu pai, nem as súplicas de sua mãe puderam fazê-lo voltar atrás na determinação que havia tomado. O horizonte, contudo, estava sombrio diante dele e ele não sabia que nova orientação dar à sua vida. Recorreu à oração e dedicou-se com mais assiduidade às boas obras. Deus o atendeu de uma maneira extraordinária. Um dia, quando estava ocupado em servir os doentes no hospício dos Incuráveis, viu-se, em duas ocasiões, rodeado de uma luz brilhante; ao mesmo tempo, ouviu distintamente estas palavras: "Afonso, deixa o mundo e doravante não vivas senão para mim somente!" Essa voz do céu foi uma ordem para ele; resolveu abandonar o mundo para entrar no estado eclesiástico. Após penosas conversações com seu pai, pôde enfim vestir a batina dos clérigos em 23 de outubro de 1723. Aplicou-se ao estudo da teologia sob a direção do cônego Torni, sábio distinto, mas pertencente à escola rígida então tão difundida. Desembaraçado de todo acessório, levava em paralelo o estudo do dogma e o da moral. Este último ramo da ciência sagrada tinha para ele um atrativo particular e seu conhecimento do direito o havia admiravelmente preparado. A simples casuística não podia satisfazê-lo; sentia a necessidade de ir ao fundo das questões e de construir uma ciência sólida e raciocinada. Assim, pôde dizer mais tarde esta frase que caracteriza tão bem sua têmpera de espírito: "Quando tenho por mim uma razão convincente, pouco me importo com as autoridades contrárias." Afonso avançava por etapas para o sacerdócio; recebeu a tonsura em 23 de setembro de 1724; as ordens menores em 23 de dezembro do mesmo ano; o subdiaconato em 22 de setembro de 1725; o diaconato em 6 de abril de 1726 e, finalmente, o sacerdócio em 21 de setembro seguinte.

Uma vez padre, colocou-se à disposição dos superiores para o exercício do santo ministério. Seu talento oratório foi muito apreciado, e não deixaram de explorá-lo largamente, confiando-lhe uma parte das mais ativas em várias missões importantes. O sucesso não era menos completo na cátedra do que no tribunal; sua vocação de missionário tornava-se manifesta. Para segui-la mais livremente, resolveu, no início de junho de 1729, deixar a casa paterna para estabelecer sua residência no colégio dos Chineses, recentemente fundado pelo padre Ripa. Desde então, exerceu ativamente o santo ministério na igreja desse estabelecimento: pregava frequentemente, era muito assíduo no tribunal da penitência e tornou-se um diretor procurado. Ao mesmo tempo, dava seu concurso a uma obra interessante, fundada por seus cuidados desde 1727, a das "Capelas", onde se reuniam periodicamente, para ouvir a palavra de Deus e se entregar a exercícios de piedade, pessoas do povo, pequenos empregados, operários, carregadores e outras pessoas de baixa condição. A influência de Afonso foi considerável nesse modesto meio, onde não era raro encontrar homens de uma virtude mais que ordinária. Esses trabalhos eram interrompidos de tempos em tempos por missões às quais o novo apóstolo era feliz em tomar parte. Foi como um estágio do qual a Providência se servia para prepará-lo a tornar-se o fundador de um novo instituto religioso. Suas excursões apostólicas lhe haviam feito conhecer quão privados de socorro religioso são os pobres das zonas rurais. Além disso, encontrou no colégio dos Chineses um homem de eminente virtude, que estava, ele também, vivamente preocupado com esse abandono espiritual e pensava em remediar, mas sem encontrar os meios. Era o padre Falcoja, da ordem dos Pios Operários, homem já avançado em idade, de alta experiência e diretor de grande autoridade; é ele quem havia ajudado com seus conselhos o padre Ripa no estabelecimento de sua obra. Apesar da diferença de idade, estabeleceu-se entre nosso santo e o pio operário um comércio espiritual que exerceu sobre os destinos de Afonso a maior influência.

Um evento extraordinário veio revelar-lhe os desígnios que a providência tinha ao colocar a seu lado um guia tão esclarecido. O exercício do santo ministério o havia colocado em relação com uma comunidade religiosa de Scala; ele havia feito aceitar uma reforma que deu nascimento à ordem das Redentoristas. Uma das religiosas, Maria Celeste Crostarosa, fez-lhe parte, em 3 de outubro de 1731, de uma visão que ela havia tido a seu respeito. Ela havia visto Afonso em companhia de São Francisco de Assis que, mostrando seu companheiro, havia pronunciado estas palavras: "Eis o fundador de uma nova ordem de missionários na Igreja." A essa comunicação, o humilde padre ficou perturbado a princípio e, em sua prudente sabedoria, não quis levar em conta. Não era homem para se deixar conduzir pelas visões de uma mulher, por mais santa que fosse. Todavia, estava impressionado com a semelhança que havia entre a natureza do instituto contemplado pela religiosa e suas reflexões pessoais sobre o abandono espiritual dos pobres do campo. Não seria aquilo um apelo do alto? Uma luta se engajou na alma de Afonso, entre sua caridade que não queria recusar nada a Deus e sua humildade que não podia reconhecer nele as qualidades requeridas para uma tão grande obra. Abriu-se com o padre Falcoja, tornado bispo de Castellamare; este o exortou à generosidade, mas o enviou para uma solução definitiva ao padre Pagano, seu confessor. Esse prudente ancião examinou o assunto a fundo e, após ter tomado o parecer de vários personagens distintos por sua ciência e santidade, declarou que o apelo de Deus era manifesto. Sem contar com suas repugnâncias, Afonso se pôs incontinenti no dever de obedecer às exigências divinas. Mas que mundo de dificuldades a superar! Que necessidade de apoio e de guia esclarecido! Encontrou um e outro em seu santo amigo Monsenhor Falcoja, que desde então tornou-se o diretor de sua alma e o conselheiro de sua empresa.

Vários padres, notáveis por sua ciência, seu zelo e sua piedade, vieram se juntar a ele e, em 9 de novembro de 1732, constituiu-se a primeira comunidade da Congregação do Santíssimo Redentor. Consolidar, organizar, desenvolver essa obra, infundir-lhe uma seiva abundante de ciência teológica e de zelo apostólico, foi doravante o objetivo de sua vida e o objeto de suas solicitudes. Pôs-se à obra com toda a generosidade de sua rica natureza, sem talvez se dar conta ainda das dificuldades que iria encontrar; elas não foram nem raras, nem leves. Logo de início, uma divergência de pontos de vista sobre o objetivo específico do instituto veio colocar a divisão na jovem comunidade. Uns queriam aliar o apostolado ao ensino; os outros, ao contrário, queriam concentrar todas as suas forças sobre o apostolado. Era o aviso inabalável de Afonso. Obstinando-se em suas ideias pessoais, vários sujeitos distintos abandonaram a obra começada e se separaram do inflexível fundador. Foi para ele um golpe terrível. Deixado pela maioria de seus companheiros de armas, em luta contra a zombaria de seus antigos amigos, sem recursos... Com a alma cheia de um desgosto mortal, sente-se prestes a desfalecer, questiona-se por um instante se não há temeridade em persistir em seu empreendimento. A lembrança do Salvador no horto das Oliveiras o reanima, ele se lança de joelhos e faz o voto de dedicar-se por toda a vida à obra das missões, ainda que tivesse de permanecer absolutamente só. Tal heroísmo desarmou o inferno e a calma restabeleceu-se nessa alma generosa. Em breve, novos companheiros vieram ocupar o lugar dos desertores, e seu chefe não pensou senão em retomar sua obra com um ardor novo. O objetivo do Instituto foi então fixado com inteira precisão: aplicar-se-á exclusivamente às missões e trabalhos de mesmo gênero, os membros farão os votos simples de religião, aos quais acrescentarão o voto e o juramento de perseverança. O exercício do apostolado, como a prática das virtudes, deverá portar a marca da imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Afonso era realmente o homem necessário para formar essa ordem de missionários, e nada melhor do que seus exemplos deveria assegurar a sua prosperidade. De 1732 a 1745, ele está sempre na brecha, pregando sem interrupção, operando prodígios de conversões, ao mesmo tempo em que é, nas mãos de Deus, o instrumento de numerosos milagres.

Os primeiros companheiros de Afonso eram padres, e bastara colocar-se à frente deles e servir de exemplo para torná-los missionários. Para perpetuar a obra, tornou-se necessário aceitar na congregação aspirantes ao sacerdócio e, desde então, foi preciso pensar em dar-lhes uma sólida educação teológica. A ciência na qual um missionário deve sobressair é, sobretudo, a teologia moral; sem ela, ele não pode ser senão um guia cego conduzindo as almas aos precipícios. Ao tempo de Afonso, essa ciência estava bem desviada; por isso, ele não quis que os seus fossem buscar fontes impuras. Pôs-se, então, a compor ele mesmo uma Teologia moral cuja aparição, pode-se dizer, foi um evento para a Igreja. Apesar de muitos ataques ditados pelo espírito de partido, este livro foi tão calorosamente aprovado, tão altamente recomendado, tão frequentemente designado pela Santa Sé como traçando o caminho do justo meio através do labirinto das opiniões teológicas, que se tornou o código mais acreditado dos confessores. Pôde-se dizer dele que, a menos de estudá-lo, seria necessário renunciar a ter uma ciência conveniente da teologia moral. Para responder a necessidades particulares, o santo autor fez dois resumos de extensão diferente, conhecidos sob os nomes de Homo apostolicus e de Confessor dos homens do campo. Teremos de falar disso novamente. No curso dessas publicações, ele suscitou uma polêmica que teve um grande retumbamento. O ponto em litígio era uma questão fundamental em moral: tratava-se de saber qual obrigação nasce, para a consciência, de leis mais ou menos duvidosas. Afonso mostrou-se tão hábil polemista quanto profundo filósofo. Escreveu, então, vários opúsculos notáveis pela flexibilidade do estilo e pelo vigor da lógica. Suas conclusões foram universalmente adotadas.

A partir dessa época (1750), sua vocação de escritor estava decidida. Ele não renunciou completamente às missões, mas consagrou a melhor parte de seu tempo à composição de livros destinados a assegurar o fruto das missões e a guiar os seus no salutar ministério do apostolado. Daremos mais adiante a nomenclatura. Estas obras têm todas por objeto um fim prático: a meditação das verdades eternas e dos mistérios de nossa santa religião; as obrigações das virtudes cristãs, sobretudo da caridade que comanda como rainha todas as outras; a grande lei da oração, chave de abóbada da salvação; o papel misericordioso de Maria na obra da redenção. Ele traça regras seguras às almas chamadas a uma vida mais perfeita em tratados admiráveis sobre a dignidade e os deveres do padre e sobre o estado religioso.

A congregação religiosa fundada por Afonso tinha sido aprovada por Bento XIV desde 25 de fevereiro de 1749; ela ia se firmando em doutrina e em santidade, enquanto fundações novas estendiam sua esfera de ação. Estava, contudo, longe de ter os favores do poder; pelo contrário, as vexações eram contínuas e o gládio da supressão estava suspenso sobre sua cabeça. É graças ao crédito, à habilidade e à santidade de seu fundador que ela pôde escapar da destruição. Apesar de todos os obstáculos acumulados, um grande bem era feito e o infatigável Padre era feliz ao ver o sucesso com o qual seus filhos arrancavam as almas do inferno.

Um acontecimento inesperado veio mudar o curso desta vida tão fecunda, partilhada entre os trabalhos apostólicos e a composição de livros admiráveis: uma ordem do Papa arrancou-o do meio da sua querida família para colocá-lo na Sé de Santa Ágata dos Godos. Tomou posse dela com a alma consternada, no dia 11 de julho de 1762. Era o início de um governo reformador, cujo objetivo invariável era a fiel observação das leis canónicas concernentes às diferentes classes de pessoas. O novo bispo empregou aí a sua firmeza e a sua doçura habituais; os resultados que obteve foram surpreendentes. O fervor reflorescia nos conventos, o zelo no clero, a ciência no seu seminário, cuja reputação se estendeu ao longe.

Esta época da vida de Afonso corresponde aos ataques mais violentos do filosofismo conjurado contra a Igreja. O santo bispo fez-se polemista e escreveu os seus magníficos tratados sobre a verdade e a evidência da fé, a divindade da Igreja e os direitos do seu chefe supremo. Publicou ainda algumas outras obras do mesmo género, sobre as quais teremos de voltar.

A enfermidade, contudo, abatera-se sobre o venerável ancião, e o desgosto de se encontrar longe da sua querida congregação tornava-se cada vez mais pungente. Após várias tentativas inúteis, conseguiu que a sua demissão fosse aceite por Pio VI, no dia 9 de maio de 1775. Pôde, finalmente, retirar-se para o meio dos seus em Pagani e ali, sem aceitar para si o menor privilégio, quis ser tratado como o mais humilde dos religiosos. A sua vida, desde então, não foi mais do que uma sucessão ininterrupta de dores; o seu corpo estava como que esmagado pelo sofrimento e a sua alma estava presa de toda a sorte de angústias. As perseguições contínuas a que a sua família religiosa estava exposta vinham ainda acrescentar-se a todos os seus pesares: os entraves governamentais multiplicavam-se de uma forma aterradora e o decreto de dissolução parecia iminente. Vítima das exigências do poder civil, foi denunciado em Roma como rebelde à Santa Sé e incorreu na desgraça do Papa. Era o resto do cálice; ele teve o heroísmo de esgotá-lo como o rei dos mártires e, como ele, triunfou pela cruz.

Morreu santamente em Pagani, a 1 de agosto de 1787. Numerosos milagres operaram-se pela sua intercessão. Por um privilégio muito especial, a causa da sua canonização foi instruída antes dos prazos legais; o processo avançou com uma rapidez surpreendente, a tal ponto que o mesmo advogado Amici, que realizou as primeiras diligências, pôde assistir à publicação do decreto da canonização. O decreto de introdução da causa, conferindo ao servo de Deus o título de venerável, é de 4 de maio de 1796. A heroicidade das virtudes foi declarada a 7 de maio de 1807; a beatificação teve lugar em São Pedro, a 15 de setembro de 1816, e a cerimónia da canonização foi celebrada a 26 de maio de 1839. A 23 de março de 1871, foi proclamado Doutor da Igreja.

Façamos aqui uma observação. Por ocasião destes diferentes processos, as obras de Santo Afonso foram, tanto quanto as suas virtudes, submetidas várias vezes a exame. O mais minucioso. Saíram desta prova com a menção: nihil censura dignum. O decreto do doutoramento não foi mais facilmente rendido. Os numerosos escritos do santo foram de novo rigorosamente examinados; a menor asserção que desse flanco à censura foi longamente discutida. A auréola dos doutores, colocada sobre a cabeça do santo autor, fornece-nos um testemunho dos mais brilhantes da segurança da sua doutrina; ela é-nos também um seguro garante da sua eminente ciência. É tempo de fazer conhecer os escritos que a encerram.

II. Escritos. — Damos o título francês da tradução francesa às obras que foram escritas em italiano. Conservamos às outras o título original.

1. OBRAS DE TEOLOGIA MORAL. — 1º Opúsculos sobre o probabilismo. — Agrupamos aqui as diferentes dissertações do santo sobre este assunto. A primeira é datada de 1749 e porta este título: Dissertatio scholastico-moralis pro usu moderato opinionis probabilis in concursu probabilioris. A segunda apareceu em 1755, sob o mesmo título: são os mesmos argumentos desenvolvidos com mais largura e postos numa melhor ordem. Não existe nenhum indício de que o autor tenha posto no comércio essas duas dissertações, publicadas sob o véu do anonimato. Em 1756, temos a sua resposta a um anónimo que censurou as Glórias de Maria, assim como a Teologia Moral; na segunda parte desta resposta, o nosso santo fala muito brevemente e com muita reserva da escolha das opiniões.

Desde 1757, ele escreveu, para a 3ª edição da Moral, uma nova dissertação tendo simplesmente por título: Dissertatio de usu moderato opinionis probabilis; ela continuou a figurar na 4ª (1760) e na 5ª (Bassano, 1763). É a partir desta edição de 1763 que ela foi várias vezes reproduzida, o que foi causa de que se acabou por lhe atribuir falsamente esta data. Comparando essas diversas dissertações, notam-se várias diferenças que nos fazem assistir ao trabalho do espírito, buscando a fórmula que melhor exprimirá o seu pensamento. Em 1762, encontramo-la definitiva numa curta dissertação sobre o Uso moderado da opinião provável. Este escrito, redigido em italiano, foi também posto em latim e publicado no ano seguinte, 1763, com algumas modificações.

Ataques violentos, dirigidos contra este opúsculo, deram ao santo a ocasião de expor mais amplamente e de defender mais vigorosamente a sua doutrina. A guerra abriu-se por uma carta de um anónimo, religioso, pretendendo refutar a tese de Afonso. Este, sem perder tempo, fez (1764) uma resposta apologética onde refuta, ponto por ponto, os argumentos do seu antagonista. Era, diz o Padre Berthe, a escaramuça antes da batalha. Esta batalha foi encetada por um adversário bem mais formidável, o famoso padre dominicano Vincent Patuzzi. Ele publicou, em setembro de 1764, um opúsculo sob este título: A causa do probabilismo, remetida sobre o tapete pelo Sr. de Liguori, e de novo convencida de falsidade por Adelfo Dositeo, nome de guerra de Patuzzi. Era um panfleto mais do que uma obra teológica. O santo doutor respondeu, desde janeiro de 1765, por uma Apologia para a defesa da dissertação sobre o uso da opinião provável contra os ataques de um certo Padre leitor (professor) que toma o nome de Adelfo Dositeo. Esta apologia foi dedicada a Clemente XIII.

Patuzzi replicou por Observações teológicas sobre a Apologia do Sr. de Liguori. Não havia quase nada além de repetições. Afonso, por toda a resposta, contentou-se em fundir, num novo opúsculo, a Apologia e a Curta dissertação de 1762, que a tinha motivado, e em refutar de passagem as poucas objeções inéditas. Com este objetivo, ele utilizou duas teses, que, no curso da luta, tinha feito aparecer para estabelecer: numa, que uma lei não saberia ter força obrigatória se a sua existência não é estabelecida de uma forma convincente ou, pelo menos, mais provável que a opinião contrária; na outra, que uma lei incerta não saberia impor uma obrigação certa. Esta obra apareceu ainda em 1765, com a dedicatória a Clemente XIII; porta por título: Do uso moderado da opinião provável; é a mais completa e a mais desenvolvida sobre a matéria.

O santo tinha terminado com Patuzzi, mas novos ataques vieram-lhe da Sicília. Ele responde em 1769 pela sua Apologia da teologia moral acusada de laxismo, como tendo o sistema do probabilismo relaxado que permite seguir a opinião menos provável. Em 1774, um certo abade Magli, calabrez, voltou à carga e provocou a mais categórica das respostas no admirável opúsculo intitulado: Exposição do sistema abraçado pelo autor tocante à regra das ações morais.

Das datas que acabamos de relatar, resulta que as publicações de Afonso sobre o probabilismo devem ser divididas em três períodos: o primeiro, de 1749 a 1762, onde a fórmula é bem a do probabilismo, mas onde se percebe uma certa hesitação motivada pela censura de laxismo, mais ou menos merecida, imputada a alguns probabilistas. O segundo, de 1762 a 1774, onde o sistema do autor é expresso pela fórmula do equiprobabilismo, que lhe parece afastar mais eficazmente as opiniões excessivamente largas. Sua tese é solidamente provada e vitoriosamente defendida dos ataques dos quais foi alvo. O terceiro, de 1774 à morte, é, diríamos voluntariamente, a tranquila posse da verdade; a exposição da doutrina, desprendida das lutas da polêmica, ganha ainda em precisão. É fácil ver onde se deve procurar o verdadeiro pensamento do santo doutor.

Theologia moralis. — Este importante trabalho apareceu pela primeira vez em Nápoles, em 1748, sob este título: Medulla theologiae moralis R. P. Hermanni Busenbaum S.J. cum adnotationibus per R. P. D. Alphonsum de Ligorio adjunctis, 1 vol. in-4°. Não era ainda senão um ensaio tímido, onde curtas notas vinham esclarecer e completar as fórmulas tão concisas de Busenbaum; mas essas notas traíam um mestre. Elas tornaram-se rapidamente tratados completos, onde o texto de Busenbaum figurava simplesmente como fio condutor. A segunda edição, notavelmente aumentada, apareceu em Nápoles em 2 vol. in-4° (1753-1755). As edições subsequentes foram publicadas por Remondini de Veneza em 3 vol. in-fol. sob o título de Theologia moralis, que a obra guardou. Os frontispícios não indicam sempre o mesmo lugar de impressão. É um artifício de editor empregado para a vantagem do comércio.

À medida que as edições se sucediam, elas se aumentavam de novas dissertações que, na maioria, tornaram-se simples capítulos da obra. Nós não nos deteremos nelas.

O tratado que sofreu mais modificações é o da consciência. A primeira edição não encerra senão notas sobre o texto de Busenbaum; na segunda, encontra-se em apêndice uma pequena dissertação: De usu moderato opinionis probabilis. Pouco satisfeito com este trabalho, o santo publicou uma nova dissertação em 1757 e a inseriu na terceira edição de sua Teologia moral. Ela reaparece ainda na quarta e na quinta (Bassano, 1763), mas, desta vez, foi contra a vontade do autor. Com efeito, quando apareceu esta quinta edição, ele tinha escrito (1762) a dissertação italiana Do uso moderado da opinião provável, onde seu pensamento encontrou sua fórmula definitiva; ele a tinha traduzido em latim para inseri-la na nova edição, no lugar da dissertação de 1757, que não expressava mais seu pensamento. Por uma incuria bem lamentável do editor, a substituição não teve lugar. Nós insistimos sobre este detalhe porque a presença da dissertação de 1757 na quinta edição da moral (1763) é de natureza a enganar a crítica. O santo doutor remeteu a dissertação ao tear.

Dissertação deixada em suspenso, ele a aperfeiçoou ainda e a inseriu na sexta edição (1767), onde ela figura permanentemente. Na sétima (1773), encontramos, ao fim do tratado da consciência, um Monitum importante, onde o autor precisa ainda seu pensamento sobre o probabilismo. Na oitava (1779), este Monitum é fundido com o tratado De systemate morali, que, enfim, tem sua forma definitiva; a nona edição, 3 vol. in-4°, 1785, não sendo senão a reprodução da oitava.

Dentre as outras dissertações que vieram enriquecer a Teologia moral, mencionemos as seguintes: 1° Dissertatio super abusu maledicendi mortuis, publicada já separadamente em 1746; — 2° Dissertatio super censuris circa Immaculatam B. M. Virginis Conceptionem, 1748; — 3° Dissertatio de Romani Pontificis auctoritate et infallibilitate, 1748; — 4° Dissertatio de justa prohibitione et abolitione librorum noxae lectionis, publicada separadamente em 1754 e inserida no ano 1755 na segunda edição. É preciso adicionar uma dupla série de questões reformadas pelo autor: a primeira, inserida na segunda edição, conta 59; a segunda encerra 26, das quais 23 pertencem à sexta edição e 3 à nona.

Após a morte do santo, e sobretudo após sua canonização, a Teologia moral teve uma difusão tal que seria difícil enumerar as edições. Os Atos do doutorado (1870) citam cerca de cinquenta. O P. Gaudé começou uma edição crítica, em Roma, em 1905.

Pratique du confesseur pour bien exercer son ministère, publicada em 1748 e traduzida em latim sob o título de: Praxis confessarii ad bene excipiendas confessiones, em 1760. Livro de ouro para os confessores, não teve menos edições que a Teologia moral. É preciso dizer a mesma coisa das outras obras que nosso santo fez aparecer sobre este ramo da ciência eclesiástica. Nós o notamos aqui uma vez por todas.

Instruction pratique des confesseurs, 3 vol. in-8° (1757). É um resumo da Teologia moral, à qual o autor remete quase a cada página. A partir da sexta edição da Instruction (1765), encontramos, inserida no capítulo da consciência, a dissertação de 1762 sobre o uso moderado da opinião provável.

Homo apostolicus, tradução latina da obra precedente (1759). A partir da terceira edição (1770), é a Apologie de 1769, traduzida em latim, que forma o tratado da consciência provável. A assinalar quatro opúsculos, comumente reproduzidos como apêndices do Homo apostolicus: 1. Quomodo se gerere debeat confessarius in dirigendis animabus spiritualibus, tratado sucinto mas completo, de uma notável lucidez, sobre o misticismo; — 2. De assistentia erga moribundos; nada é esquecido do que pode ser útil a um padre para assistir os moribundos em sua passagem à eternidade; — 3. Examen ordinandorum; escrito em vista da preparação imediata dos exames de ordenação, este opúsculo é mais rico em doutrina do que seu título pareceria indicar; — 4. De nonnullis monitis notabilioribus ad confessarios et parochos, adjecta praxi orationis mentalis. O título indica suficientemente o conteúdo destas poucas páginas. Os párocos e os confessores que as lessem frequentemente, tirariam delas uma direção salutar para o exercício de seu ministério.

Le confesseur des gens de la campagne (1764), resumo sucinto de toda a moral, suficiente, segundo o santo, para os confessores das pessoas do campo, onde os casos complicados se encontram raramente.

Petit traité sur la fréquente communion, em 1762, com uma adição em 1765.

Instruction au peuple sur les préceptes du Décalogue et sur les sacrements (1767). Opúsculo dos mais úteis para instruir o povo sobre seus deveres assim como sobre os meios de salvação. Foi traduzido em latim (1768) sob o título de Instructio catechetica ad populum in praecepta Decalogi et sacramenta.

9° Temos do mesmo tempo um opúsculo sobre os Honoraires des messes (1769), sua licitude e os abusos que podem se introduzir nesta delicada matéria.

A obra moral de Santo Afonso é uma obra magistral; encontra-se nela a solução de uma infinidade de casos podendo se produzir em todas as circunstâncias da vida. Estas diferentes soluções são estreitamente ligadas entre elas e se harmonizam em uma vasta síntese. Os princípios fundamentais são largamente expostos e solidamente provados; as conclusões particulares decorrem logicamente e levam a convicção às inteligências. O método é menos rigoroso que o de São Tomás, mas uma argumentação seguida se encontra por toda parte e não escapa senão aos espíritos superficiais.

Seu sistema moral operou uma revolução na ciência moral. Foi a derrota definitiva e irrevogável dos rigoristas em todos os graus. Não é que santo Afonso tenha inventado, para se regular no dédalo das opiniões, uma regra absolutamente nova e desconhecida antes dele: a verdade é de todos os tempos e sempre, na Igreja, soube-se resolver os casos de consciência segundo as regras da prudência cristã. Mas o santo doutor aperfeiçoou as fórmulas e as apoiou em razões tão sólidas que elas terminaram por prevalecer no ensino católico. Ele não as tinha recebido dos lábios de seus mestres que ensinavam o probabilismo. Primeiro, ele tinha admitido seu sistema, a experiência logo lhe mostrou os inconvenientes, o estudo lhe fez ver a falsidade. Voltou-se então para o lado dos probabilistas, mas, antes de abraçar sua doutrina, quis dar-se conta das razões que a apoiam. Com este objetivo, ele fez aparecer em 1749 uma dissertação na qual fazia valer todos os argumentos dos probabilistas. Ele se deteve em sua fórmula: Licitum est sequi opinionem probabilem in concursu probabilioris, modo illa gravi motivo nitatur, sive intrinseco, scilicet ex ratione, sive extrinseco ex auctoritate doctorum. Pouco satisfeito com esta elucubração, Afonso volta à questão em 1755 e publica uma nova dissertação, bem mais cuidada que a primeira. Ele conserva a mesma fórmula, mas já faz uma restrição: Nisi probabilitatis excessus sit notabilis. Esta restrição será cada vez mais acentuada. Visivelmente, o santo teme que se tome muita liberdade com a lei, achando sempre que nenhuma prova é suficiente para estabelecê-la, enquanto todo argumento parecerá grave, desde que esteja em favor da liberdade. É em 1762 que, desprendendo-se das velhas fórmulas, ele estabelece claramente seu sistema: Cum opinio minus tuta est aeque probabilis, diz ele, potest quis eam licite sequi; par contre, non licet sequi opinionem minus probabilem quando opinio quae stat pro lege est notabiliter et certo probabilior. O sistema do equiprobabilismo, como se vê, toma cada vez mais corpo. As discussões engajadas para defender a dissertação de 1762 puseram-no cada vez mais em relevo; nós encontramos a fórmula definitiva na 6ª edição da Theologia moralis (1767): Dico igitur non licere sequi opinionem minus probabilem, cum opinio quae stat pro lege est notabiliter aut certo probabilior; dico aut CERTO, quia cum opinio pro lege est certo et sine ulla hesitatione probabilior, tum opinio illa non potest esse nisi notabiliter probabilior. Par contre, cum opinio minus tuta est aeque vel fere aeque probabilis, potest quis eam licite sequi. O último opúsculo do santo sobre esta matéria: Exposé du système que tient l’auteur (1771) não é menos explícito. O equiprobabilismo é, portanto, o sistema ensinado e defendido por santo Afonso; é este sistema que dá a toda a sua moral um tom de moderação e de justo meio que os soberanos pontífices se comprazem em assinalar com muita frequência.

Após o tratado De la conscience, aqueles onde a ciência e a experiência do santo autor aparecem mais, são os Du scandale e De la coopération; nestes tratados encontram-se no mesmo nível a observação do filósofo e a exímia discrição de juízo do teólogo. Notemos ainda o tratado De la justice, onde são discutidos e resolvidos inúmeros casos não abordados antes do autor; aquele De la pénitence, onde os confessores encontram o guia mais seguro a seguir. Particularmente notáveis são os capítulos sobre os penitentes habituais ou reincidentes no pecado. O que caracteriza a obra inteira é a sabedoria e o discernimento na escolha das opiniões, com o cuidado constante de alegar os argumentos de razão e de autoridade que a apoiam.

Quanto mais brilhante era o mérito da Teologia moral de Afonso, mais forte era a oposição que lhe faziam em certos meios. Conhecem-se as dificuldades que foi preciso vencer, na França, no começo deste século, para se declarar abertamente partidário dela. Um homem, sobretudo, contribuiu muito para acreditá-la: foi o cardeal Gousset, cuja Justification de la morale de saint Alphonse teve um impacto tão grande. Os vulgarizadores puseram-se à obra e, em breve, houve inúmeros Manuais de teologia moral fazendo eco ao mestre. Citamos alguns nomes: Neyraguet, Compendium theologiae moralis ex sancto Alphonso, 1ª ed., Lyon, 1839; Scavini, Theologia moralis universa ad mentem sancti Alphonsi, 1ª ed., Novara, 1835; Gury, Compendium theologiae moralis, 1ª ed., Lyon, 1850; Ninzatti, Theologia moralis sancti Alphonsi, 1ª ed., Veneza, 1879; Konings, Theologia moralis novissimi Ecclesiae doctoris sancti Alphonsi, 1ª ed., Boston, 1874; Aertnys, Theologia moralis juxta doctrinam sancti Alphonsi, 2ª ed., Tournai, 1885; Marc, Institutiones morales alphonsianae, 1ª ed., Roma, 1886.

Houve também alguns adversários que combatiam como demasiado severas ou que compreendiam mal certas opiniões do santo. Sua doutrina foi defendida contra eles em um livro intitulado Vindiciae alphonsianae, Paris, 1872. As apreciações dos homens, como se vê, não são sempre as mesmas. No começo do século XIX, considerava-se a doutrina do santo como demasiado larga; hoje, encontram-na demasiado severa. A Igreja não acha nem uma coisa nem outra. Inter implexas theologorum sive laxiores, sive rigidiores sententias, tutam stravit viam per quam Christi fidelium animarum moderatores inoffenso pede incedere possunt, diz o decreto do doutoramento.

II. OBRAS DOGMÁTICAS. — Estas obras se dividem naturalmente em diferentes grupos, cuja simples enumeração mostra a utilidade que o teólogo pode delas extrair.

1º Verdade da religião católica. — Para demonstrá-la, santo Afonso escreveu: Dissertação contra os erros dos incrédulos modernos (1756); Evidência da fé pelos motivos de credibilidade (1762), e em uma forma mais popular: Reflexões sobre a verdade da revelação divina (1773); Verdade da fé (1767). Esta última obra compreende três partes: a primeira, contra os materialistas que negam a existência de Deus; a segunda, contra os deístas que negam a religião revelada; a terceira, contra os sectários que negam que a Igreja católica seja a verdadeira e única Igreja.

2º Divindade da Igreja. — Além da obra precedente, ela é posta em luz pela Conduite admirable de la divine Providence dans l’œuvre de la Rédemption des hommes (1775). Santo Afonso não é menos profundo que Bossuet em seu Discurso sobre a história universal; mas é mais popular e torna acessíveis as verdades mais sublimes.

3º Supremacia da Santa Sé. — Ela é solidamente provada nas Vindiciae pro suprema Pontificis potestate adversus Febronium (1768). Deve-se lembrar aqui a interessante dissertação inserida na Teologia moral: De Romani Pontificis supra concilium oecumenicum auctoritate, atque in fidei quaestionibus infallibilitate (1748). Estes dois opúsculos, traduzidos para o francês e enriquecidos com vários capítulos extraídos de diversos tratados do santo, formaram a bela obra Le pape et le concile, que exerceu uma influência tão feliz sobre inúmeros bispos reunidos em Roma para a celebração do concílio de 1870.

4º Dogmas católicos. — A maioria dos dogmas católicos são expostos e defendidos em duas obras importantes; a primeira, Tratado dogmático contra os pretensos reformados, tem por objeto próprio os pontos discutidos e definidos pelo santo concílio de Trento (1769). É um arsenal onde abundam as armas de natureza a conduzir boa guerra contra os protestantes. A segunda, Triomphe de l’Église ou Histoire et réfutation des hérésies (3 vol. in-8°, 1772), nos mostra, ao mesmo tempo, o desenvolvimento histórico e a prova teológica dos principais dogmas de nossa religião. A mencionar como muito úteis aos pregadores as Dissertações teológicas e morais sobre os fins últimos (1776).

5° Graça. — Cremos dever assinalar à parte o opúsculo dedicado a esta matéria por Santo Afonso, sob o título: Modo de operação da graça. Surgiu em 1769 como apêndice ao Tratado dogmático contra os pretensos reformados, e tornou-se o complemento de um livro publicado dez anos antes (1759): Do grande meio da oração. Afonso colocava-se fora das discussões apaixonadas que dividem tomistas e molinistas. Ele admite uma dupla eficácia da graça, uma ab intrinseco, a outra ab extrinseco. Esta última, dita graça comum, é concedida a todos os homens e os coloca em condições de realizar atos fáceis, sobretudo a oração; mediante esta, cada um pode assegurar para si as graças especiais necessárias para as obras mais difíceis. Cf. J. Hermann, Tractatus de divina gratia secundum S. Alphonsi M. de Ligorio doctrinam et mentem, Roma, 1904.

As obras dogmáticas escritas em italiano são menos conhecidas que a Teologia moral. Contêm, contudo, um rico tesouro de doutrina e oferecem todos os elementos de uma teologia completa, porém positiva e polêmica antes que escolástica. Foram traduzidas para o latim pelo Pe. L. Walter, S. Alphonsi Mariae de Ligorio, Ecclesiae doctoris, Opera dogmatica, 2 in-4, Roma, 1903.

III. OBRAS ASCÉTICAS. — Em suas obras ascéticas, Santo Afonso fala de todos os objetos do nosso culto e ensina a todos os fiéis a prática da virtude, a partir do grau mais ínfimo até o cume da perfeição. Convencer-se-á disso pela simples enumeração dos escritos do santo doutor;mo-los sob diferentes rubricas que farão conhecer seu objeto.

1° Desapego das criaturas. — As Máximas eternas, ou meditações para cada dia da semana (1752); A Preparação para a morte ou considerações sobre as verdades eternas (1758); Meditações para oito dias de exercícios espirituais em particular (1761); A Via da salvação ou meditações e exercícios espirituais para chegar à salvação (1766).

2° Mistérios da nossa Redenção. — Novena de Natal (1758). Este livro contém muito mais do que o título indica. Encontram-se nele dez discursos sobre a Encarnação, outro sobre o santo nome de Jesus, meditações para todos os dias do Advento e o tempo de Natal até a oitava da Epifania. Considerações sobre a Paixão de Jesus Cristo (1761); esta obra recebeu várias ampliações, das quais a mais notável em 1773 sob o título de Reflexões sobre a Paixão de Jesus Cristo. Mas o mais célebre dos livros de piedade é o das Visitas ao Santíssimo Sacramento (1745), ao qual se juntam frequentemente outros opúsculos sobre o mesmo mistério, como as Aspirações de amor a Jesus Cristo no Santíssimo (1758); a Novena ao Espírito Santo (1767).

3° Santíssima Virgem Maria. — Depois de Jesus, Maria ocupava o primeiro lugar no coração de Afonso. Ele fez publicar desde 1750 suas Glórias de Maria, obra notável, onde se encontram, na mais perfeita harmonia, uma ciência profunda, uma vasta erudição e uma afeição filial tanto quanto ardente, que não cede em nada aos mais fervorosos servos de Maria. Esta obra é dogmática tanto quanto ascética; é preciso remontar a São Bernardo para encontrar algo comparável sobre este assunto.

4° Mencionemos ainda e de imediato: Novena a Santa Teresa (1745); a São Miguel (1758); a São José (1758); para os defuntos (1775). Santo Afonso é também autor de um bom número de Cânticos espirituais de uma delicadeza de sentimento e de uma beleza poética verdadeiramente notáveis. Ele não desdenhou compor a música de vários deles; ainda hoje sua obra musical é muito apreciada por todos os conhecedores. Ele queria sobretudo, por meio disso, produzir uma salutar influência sobre o povo; conseguiu plenamente: na hora atual, ainda se cantam suas suaves composições.

5° Hagiografia. — Temos: Vitórias dos mártires dos primeiros séculos e do Japão (1775); Vida do padre Januário Maria Sarnelli da C. do SS. Redentor (1752); Vida de Vito Curzio, irmão leigo da mesma congregação (1752); Vida do padre Paulo Cafaro do mesmo instituto (1766); Vida da irmã Teresa Maria de Liguori, prima de nosso santo (1761).

6° Tratados de espiritualidade. — A Prática do amor a Jesus Cristo (1768) é um tratado completo de perfeição para pessoas de toda condição. Sente-se nele um coração ardendo no amor de Deus e não esquecendo nenhuma das exigências da virtude. Reportemos também a esta obra a Prática da perfeição tirada dos ensinamentos de Santa Teresa (1752), precioso opúsculo onde se encontra em poucas páginas toda a síntese da perfeição cristã.

Alguns assuntos particulares são tratados nos seguintes opúsculos: Maneira de conversar familiarmente com Deus (1753); Conformidade com a vontade de Deus (1755); Repouso das almas escrupulosas na obediência ao seu diretor (1754); Da esperança cristã (1765); Motivos de confiança e Avisos próprios para consolar e fortificar as almas desoladas (1776); Do amor divino e do meio de adquiri-lo (1776). Um opúsculo digno de ser muito particularmente mencionado é o Regulamento de vida para um cristão (1767). Com uma insistência que é uma nota característica de seu ascetismo, Santo Afonso amava tratar da oração; ele retorna a isso na maioria de seus livros, temos dele dois opúsculos especiais sobre esta matéria: o Pequeno tratado da oração (1758); o Grande meio da oração (1759), onde o mesmo assunto é desenvolvido com mais extensão e erudição.

7° Perfeição religiosa. — Temos: Avisos sobre a vocação e Encorajamentos aos noviços para a perseverança na vocação (1759); Exortação aos religiosos para fazê-los avançar na perfeição de seu estado (1775). Mas o mais importante de suas obras sobre a matéria é, sem contestação: A verdadeira esposa de Jesus Cristo ou a Religiosa santificada pela prática das virtudes próprias ao seu estado (1760). É um tratado absolutamente completo sobre a excelência e os deveres da vida religiosa.

8° Perfeição sacerdotal. — Foi para os padres que Santo Afonso escreveu mais. Suas obras morais e dogmáticas dirigem-se sobretudo a eles. Resta-nos mencionar o que o santo escreveu para sua santificação pessoal e o frutuoso exercício do ministério da pregação. A série se abre pelas Reflexões e avisos aos bispos para o bom governo de suas dioceses (1745); notemos também o Regulamento para os seminários (1762). O mais importante das obras desta categoria é Selva ou recueil de materiais para os sermões e instruções de um retiro eclesiástico (1760). É um tratado completo de perfeição sacerdotal, eco fiel do que os doutores e os santos escreveram sobre esta matéria. Um volume inteiro é consagrado aos Exercícios das missões, onde se encontra um tratado de eloquência sagrada dos mais práticos. Vem em seguida um Recueil de sermões (1771); as ideias ali são abundantes e bem escolhidas, mas em abreviado; cabe a cada pregador dar-lhes os desenvolvimentos necessários. Dois opúsculos, publicados no mesmo ano sob a forma de cartas, expõem as visões de nosso santo sobre A maneira de pregar e A utilidade das missões.

As duas grandes obrigações do padre são a celebração da santa missa e a recitação do ofício divino; temos sobre estas matérias: Das cerimônias da missa, com uma dupla série de atos para a preparação e a ação de graças (1761); A missa e o ofício ditos às pressas (1761); Do sacrifício de Jesus Cristo com uma curta explicação das orações da missa (1775); Tradução dos salmos (1774), trabalho de raro mérito, que é preciso estudar para bem apreciar.

Desta simples enumeração ressalta evidentemente o caráter de universalidade das obras ascéticas de Afonso. Ele escreveu sobre todos os pontos da espiritualidade e dirige-se a todas as categorias de pessoas: sacerdotes, religiosos e simples fiéis. Estas obras apresentam-se a nós com um caráter especial de autoridade. É, antes de tudo, a autoridade da tradição. De cada um dos livros do santo, pode-se afirmar o que diz Monsenhor Gaume de Selva: «Não é aqui o pensamento de um homem que vos é dado como regra da vossa; é o pensamento dos séculos. Não é o bispo de Santa Ágata dos Godos, é a tradição inteira que prega, que instrui, que ordena, que encoraja e que atemoriza. Este livro é como uma tribuna sagrada do alto da qual falam, alternadamente, os profetas, os apóstolos, os homens apostólicos, os mártires, os solitários, os mais ilustres pontífices do Oriente e do Ocidente, os mestres mais hábeis... em uma palavra, a antiguidade, a idade média, os tempos modernos.»

À autoridade da tradição junta-se a da ciência. De início, poder-se-ia cair em erro; Afonso tem horror ao aparato científico: ele não busca parecer douto, ele quer dar a verdade às almas, e sabe apresentá-la com tanta arte que a inteligência é subjugada antes mesmo de pensar em discutir. Não há asserção que não seja acompanhada de sua prova, mas ela é tão natural, tão bem proporcionada ao sujeito, tão bem fundida na própria exposição da doutrina, que se lê sem fadiga e se adquire uma alta ciência sem quase o perceber. Esta maneira simples e fácil de colocar as verdades mais elevadas ao alcance dos espíritos comuns é um traço característico de Santo Afonso e coloca as suas obras de espiritualidade ao lado da Imitação.

Poucos livros ascéticos podem ser comparados aos do nosso santo doutor sob o ponto de vista da utilidade. A sua grande experiência de missionário, de confessor e de bispo permitiu-lhe discernir as verdades mais aptas para converter, salvar e santificar. Os seus livros não contêm outras: formam um banquete onde abundam os manjares sãos e nutritivos, mas do qual são banidas as guloseimas e os preparos que viciam o gosto.

E qual é o seu sistema ascético? Ele é simples como o Evangelho: amar a Deus de todo o coração e servi-lo praticando as virtudes, quer sejam comuns a todos os fiéis, quer sejam próprias ao estado de cada um; rezar sem cessar para obter a graça de sempre cumprir este duplo dever. Amor e oração, eis os dois eixos do sistema de Santo Afonso. Oração para atrair Deus a nós; amor para nos darmos a Deus. Tentemos fazer uma rápida síntese dos pensamentos desenvolvidos nos livros ascéticos do santo doutor.

O homem é criado para ser unido a Deus pela caridade. Esta união, iniciada no tempo, é consumada na eternidade. Deus nela encontra a sua glória e o homem a sua felicidade. A caridade alimenta-se pela consideração dos benefícios de Deus, sobretudo no mistério da nossa redenção; ela é ativa, e a regra da sua atividade é a vontade de Deus. Este adorável Mestre pede-nos um esforço duplo: luta contra os maus instintos da natureza e cumprimento positivo dos seus preceitos; duas palavras resumem esta exigência: agir e sofrer. O homem não saberia fazer convenientemente nem um nem outro sem a graça divina, e esta graça só se obtém pela oração; mas ela é concedida infalivelmente à oração humilde e perseverante. Maria é a grande distribuidora das graças; a ela, portanto, as nossas orações assíduas. Santo Afonso é o apóstolo da oração; ela é necessária, diz-nos ele, à vida da alma, como a respiração é necessária à vida do corpo; aquele que reza salva-se, aquele que não reza condena-se.

É aqui, cremos, o lugar de assinalar um louvor particular dado pela Igreja a Santo Afonso. No decreto do doutoramento, ela lhe atribui em grande parte a destruição do jansenismo. Na sua Teologia Moral, ele traça aos confessores regras perfeitamente sábias que retiram da confissão o caráter odioso que os jansenistas lhe tinham conferido. Na sua Teologia Dogmática, ele demonstra a possibilidade de cumprir os preceitos mais difíceis com a assistência da graça divina, concedida pela oração, da qual os mesmos sectários não queriam ouvir falar. Pelas suas obras ascéticas, ele acrescenta nas almas o temor filial ao temor servil, eleva-as pela confiança, anima-as pela caridade e faz com que produzam frutos de virtudes. Sabe-se quanto estes sentimentos causavam horror aos jansenistas. Por isso, não cremos temerário dizer que Santo Afonso pode ser chamado, segundo uma locução antiga, o martelo do jansenismo.

Seria difícil fazer uma ideia da difusão dos escritos ascéticos do nosso santo. As edições multiplicaram-se a tal ponto que seria demasiado longo assinalá-las. Basta-nos remeter à estatística (hoje muito incompleta) inserida nos Atos do doutoramento. Apenas a Imitação pode reivindicar tal sucesso. Uma recente publicação, feita por ocasião do primeiro centenário da morte de Santo Afonso, veio aumentar o tesouro que nos legou a sua pena: são as Cartas do santo, 3 vol. in-8°, Tournai, 1887. Encontram-se ali detalhes interessantes sobre as suas disposições de alma, direções espirituais de grande utilidade e informações preciosas para a compreensão do seu sistema moral. Um divulgador das doutrinas ascéticas do nosso santo merece ser assinalado, é o Padre Saint-Omer. Contentando-se em explorar os seus escritos, publicou: O Sagrado Coração de Jesus; O santíssimo Coração de Maria; A prática da perfeição cristã; As mais belas orações de Santo Afonso e vários outros opúsculos. Outro filho do santo doutor quis reduzir a uma vasta síntese a doutrina pastoral do seu bem-aventurado Pai; ela encontra-se formulada na notável, muito original e não menos douta obra: A caridade sacerdotal, ou lições elementares de teologia pastoral, pelo T. R. P. Achille Desurmont, 2 vol. in-8°, Paris, 1899.

As obras completas de Santo Afonso formam uma biblioteca bem sortida das ciências eclesiásticas; moral e pastoral, história e dogma, ascetismo e misticismo: nada falta daquilo que deve formar o pastor das almas. Poucas coleções oferecem ao sacerdote a mesma utilidade. A Igreja não cessou de recomendar estas obras desde a morte do santo; não houve um único papa que não tenha trazido o tributo dos seus louvores; todos celebraram, em competição, a alta sabedoria e a perfeita discrição dos seus escritos, bem como a sua singular eficácia para inflamar as almas no amor de Deus. Ver nas Vindiciae alphonsianae: Judicia et testimonia, S. Sedis.

IV. EDIÇÕES E TRADUÇÕES. — Sobre as edições publicadas durante a vida do autor, consultar-se-á com interesse o estudo do professor Candido Romano, Delle opere di S. Alfonso M. de Liguori; saggio storico, 1 vol. in-8°, Roma, 1896. As principais daquelas que foram publicadas após a sua morte são em italiano, as de Nápoles, 1840, de Veneza, 1830, de Monza, 1819, e de Turim, 1824.

As obras escritas em italiano foram traduzidas para um bom número de línguas estrangeiras. Citemos a tradução francesa pelos padres Vidal, Delalé e Bousquet, Paris, 1842; a dos padres Dujardin e Jules Jacques, Tournai, 1856; e outra ainda, inacabada, pelo padre Pladys. Temos uma tradução alemã pelos padres Hugues e Haringer, Ratisbona, 1840 e seguintes (que sofreu felizes retoques em uma edição recente, 1869); duas traduções inglesas: uma na Inglaterra, Londres, 1862 e seguintes, sob os cuidados do Rev. Pe. Coffin, a quem a morte não permitiu concluir sua obra; a outra, na América, rapidamente levada a bom termo pelo Rev. Pe. Grimm, Baltimore, 1887 e seguintes; uma tradução holandesa e uma flamenga, Tuynhout. Alguns livros, de utilidade mais imediata, foram traduzidos para idiomas orientais.

Existe um bom número de biografias do nosso santo. Mencionamos as mais importantes: Mémoires sur la vie et l’institut de saint Alphonse de Liguori, pelo Rev. Pe. Tannoja, 3 vol. in-8°, Nápoles, 1793-1802. É a fonte primária à qual sempre se deverá recorrer. Vie de saint Alphonse de Liguori, por Jeancard, 1 vol. in-12, Lyon, 1855, 3ª ed. É um resumo francês de Tannoja que contribuiu muito para tornar conhecido o santo doutor aquém dos Alpes; foi traduzido em várias línguas. Vie et Institut de saint Alphonse de Liguori, 4 vol. in-8°, Tournai, 1863, pelo cardeal Clément Villecourt. É a vida mais desenvolvida que foi escrita em francês. Leben des heiligen Alphons, Ratisbona, 1887, 2 vol. in-8°, pelo Rev. Pe. Dilgskron: o autor é o primeiro que pôde aproveitar documentos inéditos. Histoire de saint Alphonse de Liguori, publicada sob os auspícios de Mons. Dupanloup, 4 vol. in-8°, Paris, 1877: dirige-se sobretudo às pessoas do mundo. Vie de saint Alphonse de Liguori, docteur de l’Église (título em italiano), pelo cardeal Alfonso de Capecelatro, arcebispo de Cápua. Esta obra foi traduzida para o francês pelo Sr. Le Monnier, 2 vol. in-8°, Bruges, 1895; torna bem conhecido o quadro histórico no qual o santo atuou. Saint Alphonse de Liguori, pelo Rev. Pe. Berthe, 2 vol. in-8°, Paris, 1900. É, cremos, a vida definitiva do santo doutor.

J. KANNENGIESER.


A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor