ALELUIA (USO LITÚRGICO E SIGNIFICADO TEOLÓGICO)

ALELUIA (USO LITÚRGICO E SIGNIFICADO TEOLÓGICO)

ALLELUIA. — I. Uso dos latinos. II. Queixa dos gregos.

I. USO DOS LATINOS. — A Igreja romana, inspirando-se em diversas passagens dos Livros sagrados, fez do aleluia a expressão da alegria em sua liturgia. Esta maneira de ver e de agir foi-lhe por diversas vezes censurada pelos gregos, que não omitem o aleluia em nenhum ofício, nem em nenhuma missa. Cabe examinar aqui o valor desta acusação. Como todas as querelas de disciplina ou de liturgia, esta não pode ser dirimida senão pela história. Interroguemos, pois, os documentos históricos; talvez nos mostrem a perfeita legitimidade dos dois usos, grego e latino.

Desde a origem, os cristãos apossaram-se da fórmula hebraica, e sua história, diz o cardeal Pitra, seria todo um poema. Hymnographie de l’Église grecque, in-8°, Roma, 1868, p. 35. Sidônio Apolinário conta que, no século V, os remadores do Saône faziam repercutir, com esse mesmo canto, os ecos do rio. Epist., l. II, 10, P. L., t. LVIII, col. 80. Na vida de São Germano de Auxerre, l. IV, c. 1, o monge Héric conta um outro episódio. P. L., t. CXXIV, col. 1176. Este uso de certa forma profano do aleluia não era senão a extensão de seu emprego litúrgico. Admitido cedo na liturgia, o aleluia não recebeu ali por toda parte a mesma destinação. Santo Agostinho nos ensina que, em seu tempo, quase só o cantavam durante as solenidades pascais, e este uso, acrescenta o santo doutor, reclama uma antiga tradição, Serm., CCL, De diebus paschalibus, xxi, 9, P. L., t. XXXVIII, col. 1176. Era sem dúvida uma particularidade da África; ainda assim, não era ali geral. Este mesmo Santo Agostinho nos diz, com efeito, em outra passagem: Ut autem Alleluia per illos solos dies quinquaginta (id est a Pascha ad Pentecosten) in Ecclesia cantetur, non usquequaque observatur; nam et aliis diebus varie cantatur alibi atque alibi; ipsis autem diebus ubique. Epist., LV, l. II, Ad inquisitiones Januarii, c. xv, n. 32, P. L., t. XXXIII, col. 220. Estas últimas palavras deixam entender que uma larga parte era dada, neste domínio, à iniciativa privada. Certas igrejas da Espanha cantavam-no na quaresma, salvo na última semana. Este uso foi abolido pelo cânone 11 do IV Concílio de Toledo (633). Labbe, Concil., t. V, p. 1709. Em Roma mesma, o uso variou. Sozomeno pretende que o aleluia não era cantado ali senão uma vez ao ano, no dia da Páscoa. H. E., VII, 19, P. G., t. LXVII, col. 1476. Barônio se insurge, é verdade, contra esta afirmação do historiador grego, Notæ ad Martyrol. rom. sub 5 aprilis; Annales eccles. ad an. 383, n. 23; mas H. Valois dá razão a Sozomeno contra Barônio, Notæ in Sozom., loc. cit., e Bento XIV tenta, depois de Thomasius, conciliar as duas opiniões. De sacrosancto missæ sacrificio, l. II, c. v, n. 16. Parece bem, contudo, que Sozomeno tenha se equivocado, pois São Jerônimo passa por ter trazido de Jerusalém a Roma, no tempo do papa Dâmaso, o uso de cantar o aleluia fora do tempo pascal. É São Gregório Magno quem o afirma em sua carta a João de Siracusa. Epist., IX, 12, P. L., t. LXXVII, col. 956; cf. Bento XIV, De festis D. N., l. I, c. VII, n. 65. Este mesmo pontífice, ao proscritar o aleluia durante a quaresma, pretende retornar ao velho uso romano. Ver a carta citada a João de Siracusa, da qual é bom aproximar esta frase do Breviário romano (die 12 martii): [Sanctus Gregorius Magnus] constituit, ut extra id tempus, quod continetur Septuagesima et Pascha, Alleluia diceretur.

O que São Gregório estabelece em Roma, o concílio de Worms de 868 promulga para a França. Cf. Amalarius, De Eccl. offic., III, 13, P. L., t. CV, col. 1122; Bibliotheca Patrum Lugd., t. XIV, col. 986. É permitido acreditar que as populações da Itália meridional, mais diretamente submetidas à influência do rito grego, não aceitaram sem dificuldade o uso romano. Em 1017, vê-se o papa Bento VIII autorizar os monges de Ripouil a cantar o aleluia no dia da Purificação, quando esta festa cai após a Septuagésima. Mabillon, Annal., t. IV, p. 253. O Corpus juris canonici, eco das bulas pontificais e dos decretos conciliares, registra a tradição ocidental apoiando-a em razões místicas que se poderia multiplicar ao infinito. Can. Hi duo, 55, dist. I, De consecratione.

Excluído dos dias de penitência por motivos de ordem mística, o aleluia devia fatalmente ser proscrito dos funerais. Aqui também, houve mais de uma variação. Em Roma mesma, o aleluia cantava-se primitivamente nos funerais, testemunha esta passagem de São Jerônimo descrevendo as exéquias de Fabíola: Jam fama volans tanti luctus, totius Urbis populum ad exequias congregabat, sonabant psalmi, et aurata tecta templo reboans in sublime quatiebat Alleluia. Cf. Bento XIV, De festis D. N., l. I, c. VIII, n. 65.

II. QUEIXA DOS GREGOS. — Ao mesmo tempo em que modificavam por sua conta os antigos usos, os latinos não pensaram em submeter os gregos às mesmas mudanças nem em lhes reprovar seus próprios costumes. Estes mostraram-se muito menos reservados perante os latinos. Quando eclodiu, entre as duas Igrejas, a grande querela do século XI, Leão de Ácrida, inspirando-se sem dúvida em Fócio, fez uma queixa aos latinos por não cantarem o aleluia senão na Páscoa. Corn. Will, Acta et scripta quæ de controversiis Ecclesiae græcæ et latinæ seculo undecimo exstant, in-4°, Leipzig e Marburg, 1861, p. 159.

Tratava-se de uma acusação totalmente gratuita, que o cardeal Humberto, em sua resposta, rebate com vivacidade: Ipsum alleluia, sicut calumniari, non solum in Pascha cantamus, sed omnibus totius anni diebus, exceptis novem hebdomadibus, quibus id intermittere a patribus nostris accepimus, e ele continua justificando essa omissão durante nove semanas destinadas a reparar as negligências cometidas no restante do tempo. Will, op. cit., p. 122-123; P. L., t. CXLIII, col. 968.

Uma vez inserida no debate, a queixa não deixou de ser retomada pelos polemistas das eras seguintes. Encontra-se registrada no opúsculo Περὶ τῶν Φράγγων καὶ τῶν λοιπῶν Λατίνων atribuído a Fócio por Hergenröther, mas assinado por um autor posterior aos eventos de 1054. Cf. Hergenröther, Photius, Patriarch von Constantinopel, in-8°, t. III, Ratisbonne, 1869, p. 204-205; Monumenta græca ad Photium ejusque historiam pertinentia, in-8°, Ratisbonne, 1869, p. 67. Nicetas Seidés, de Icônio, renova-a por sua vez no século XII. Cf. Allatius, De Ecclesiæ occidentalis atque orientalis perpetua consensione, in-4°, Cologne, 1648, col. 1112. Inútil prosseguir em uma investigação na qual veríamos as mesmas acusações provocarem incessantemente as mesmas respostas.

Que concluir deste rápido exame? Que os gregos não estão totalmente errados ao pretender que o uso atual da Igreja romana se afasta em mais de um ponto do costume antigo, mas que eles se tornaram ridículos ao invocar uma queixa tão fútil para desculpar sua separação. Eles parecem, aliás, não atribuir mais hoje nenhuma importância à questão. Ver a nota do Horologion, in-8°, Veneza, 1891, p. 16-17; Atenas, 1888, p. 14, reproduzida por N. Nilles, Kalendarium manuale utriusque Ecclesiae orient. et occid., in-8°, Innsbruck, t. II, p. 18.

De onde vem essa reserva? Talvez seja porque eles mesmos deixaram sua disciplina variar neste ponto. Sem dúvida, o aleluia continua sendo entre eles um refrão dos funerais, e ele nunca é completamente suprimido nem no ofício, nem na missa; não é necessário retomá-lo no tempo pascal. Mas sabe-se que no rito grego o ofício ferial se distingue essencialmente do ofício festivo pelo canto de nove aleluias nas matinas (ἐννέα ἀλληλούϊα), e como esse ofício não é mais dito senão durante a Grande Quaresma e na véspera de Pentecostes, a adição dos aleluias só ocorre nesses dias, pelo menos de acordo com o Typicon de Constantinopla, Τυπικὸν τῆς μεγάλης Ἐκκλησίας, Constantinopla, passim. O antigo typicon de São Sabas indica-o, além disso, às segundas, quartas e sextas-feiras das três semanas de quaresma, e em numerosos dias do ano com ofício secundário de santos. A Grande Igreja julgou bom libertar-se dessas prescrições: os latinos pensaram em fazer-lhe disso uma censura? Não falo da supressão do aleluia durante a semana (τῆς διακαινησίμου ἑβδομάδος) e a semana seguinte, excetuando-se a quarta e a sexta-feira; ela só ocorre nas matinas, e não poderia ser legitimamente invocada contra os gregos em uma controvérsia a este respeito. Hergenröther, op. cit., t. II, p. 205, e Nilles, op. cit., t. I, p. 17 estiveram errados ao fazê-lo depois de Allatius. L. Petr.

Autor original: L. Petit

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