5. ALBERTO MAGNO. De seu verdadeiro nome A. de Bollstaedt. Chamado por seus contemporâneos de Albertus Lauingensis (de Lauingen), A. Theutonicus, A. de Colonia, Dominus Albertus (após sua consagração episcopal), e, desde cedo, pela posteridade: A. Magnus. — I. Biografia. II. Escritos. III. Influência.
I. Biografia. — Alberto nasceu em 1206 (não em 1193, como acreditam universalmente seus historiadores modernos), na pequena cidade suábia de Lauingen, sobre o Danúbio. Era o filho mais velho do conde de Bollstaedt, uma família feudal poderosa e rica, devotada a Frederico I. Educado na companhia de jovens nobres, foi conduzido, ainda adolescente, a Pádua, para realizar seus estudos sob a vigilância de um tio, provavelmente eclesiástico, enquanto seu pai guerreava na Lombardia a serviço do imperador. O segundo mestre-geral dos Frades Pregadores, Jordão de Saxônia, tendo vindo pregar aos estudantes de Pádua durante os primeiros meses de 1223, atraiu à Ordem um grande número de jovens, entre os quais Alberto, então com dezesseis anos e meio. Apesar das resistências de seu tio e de seus condiscípulos, e de uma tentativa de sequestro por parte de seu pai, Alberto entrou na Ordem e foi conduzido, para nela continuar seus estudos, a um ou vários conventos que não se pode designar com segurança, mas, verossimilmente, a Colônia. Foi lá que iniciou, mais tarde, seu ensino, interpretando duas vezes o Mestre das Sentenças. Foi sucessivamente leitor de teologia nos conventos de Hildesheim, Friburgo em Brisgóvia, Ratisbona (durante dois anos) e Estrasburgo.
Em 1245, Alberto foi enviado a Paris para ali conquistar o título de mestre em teologia e reger uma das duas escolas dominicanas do convento de São Tiago, incorporadas à Universidade. Foi durante essa estadia em Paris que Alberto começou, concomitantemente ao ensino da teologia, a publicação da vasta enciclopédia científica que lhe valeu sua incomparável celebridade, e que completou até quase o fim de sua vida, embora estivesse já concluída em grande parte em 1256. O mestre deixou, provavelmente, Paris ao fim do ano letivo de 1248. No capítulo geral daquele ano, tendo a Ordem dos Pregadores estabelecido quatro studia generalia, além do de Paris, para estender a formação intelectual superior de seus recrutas, um desses estudos gerais foi estabelecido em Colônia, e Alberto tornou-se seu primeiro regente. Apesar das numerosas ausências do célebre mestre, essa cidade deveria ser, até o fim de seus dias, sua residência ordinária, o que lhe valeu ser frequentemente chamado pelos seus contemporâneos de Alberto de Colônia. Esse novo período da vida de Alberto é marcado pela intensidade de sua atividade literária. Contou, então, Tomás de Aquino entre seus discípulos. Durante sua estadia em Colônia, Alberto não cessou também de intervir, como árbitro, de 1252 a 1272, nos graves litígios que eclodiram entre a cidade e seus bispos. Em 1254, o capítulo da província da Alemanha, realizado em Worms, confiou a Alberto o governo da província, do qual cuidou muito ativamente. Dois anos mais tarde, sendo ainda provincial, dirigiu-se à corte romana para tomar a defesa dos Pregadores contra os ataques de Guilherme de Saint-Amour, cujo célebre panfleto, De novissimorum temporum periculis, foi condenado em Anagni por Alexandre IV, em 5 de outubro de 1256. Durante sua estadia na cúria, Alberto desempenhou o ofício de leitor do Sagrado Palácio e interpretou, a pedido do papa e de seus cardeais, o Evangelho de São João e todas as Epístolas Canônicas. Foi ainda durante essa estadia na cúria que Alberto, sob o pedido de Alexandre IV, escreveu seu tratado De unitate intellectus contra a teoria averroísta da unidade do intelecto. Essa viagem até o sul da Itália forneceu a Alberto, como todas as suas outras deslocações, a oportunidade de pesquisas científicas, e foi então que descobriu o De motibus animalium de Aristóteles, do qual publicou o comentário.
Alberto retornou a Colônia em 1257. Foi dispensado de seu cargo de provincial pelo capítulo geral de Florença daquele mesmo ano e retomou o curso de seu ensino. Na primavera de 1259, Alberto dirigiu-se ao capítulo geral de Valenciennes, onde elaborou, com Tomás de Aquino e Pedro de Tarentaise, o futuro Inocêncio V, um importante regulamento para os estudos na Ordem. É muito provável que Alberto tenha se dirigido a Roma no decorrer desse mesmo ano, chamado pelo soberano pontífice. O papa designou-o para o bispado de Ratisbona, em 5 de janeiro de 1260, apesar dos esforços do geral da Ordem, Humberto de Romans, para evitar essa nomeação. Alberto dedicou-se com zelo aos deveres de seu novo cargo. Mas a necessidade de envolver-se em graves assuntos temporais, em um tempo em que as igrejas da Alemanha viviam ainda sob o regime feudal, levou o novo bispo, mais amante do estudo do que da guerra, a renunciar ao seu cargo na primavera de 1262. Em 13 de fevereiro de 1263, Urbano IV encarregou-o da pregação da cruzada para a Alemanha, a Boêmia e outros lugares de língua teutônica. Essa missão fê-lo percorrer a Alemanha durante os anos de 1263 e 1264 em todas as direções, de Ratisbona a Colônia e até as fronteiras da Polônia. De 1265 ao início de 1267, Alberto fez uma longa estadia em Würzburg, onde desempenhou, como em Colônia, o papel de pacificador, enquanto continuava a estudar e a escrever. Por volta de meados de 1267, o bispo renunciante, o senhor Alberto, dominus Albertus, como foi chamado desde então até o fim de sua vida, ofereceu ao geral da Ordem, João de Vercelli, retomar o ensino. Este aceitou com reconhecimento e pensou até mesmo, por um momento, em reenviá-lo para professar em Paris. Foi o estudo de Colônia que o recebeu mais uma vez. Embora residindo ordinariamente nessa cidade, Alberto deslocou-se frequentemente durante uma dezena de anos (1268-1277). Encontramo-lo, especialmente durante esse período, em diferentes pontos da Alemanha, ao norte como ao sul, consagrando igrejas novas e altares, ou realizando até mesmo ordenações sacerdotais. Em 1270, no auge da luta sustentada em Paris por Tomás de Aquino contra Siger de Brabante e os outros averroístas da Faculdade de Artes, Alberto interveio pelo envio de um memorial, solicitado por Egídio de Lessines, no qual refuta as teorias fundamentais do peripatetismo averroísta. O ano de 1277 viu Alberto dirigir-se ao segundo concílio geral de Lyon e ali sentar-se entre os Padres daquela assembleia. Deixou, uma vez mais, Colônia, provavelmente durante o segundo trimestre de 1277, para vir a Paris defender as doutrinas de Tomás de Aquino, que o bispo Étienne Tempier e os mestres seculares da Faculdade de Teologia haviam tentado envolver em uma comum reprovação com os erros averroístas, no dia 7 de março anterior. De volta a Colônia, Alberto redigiu ali, em janeiro de 1278, seu testamento. Foi, ao que parece, o último ato importante de sua vida lúcida. O cérebro do homem que havia absorvido a ciência da antiguidade e de seu século cedeu sob o peso do trabalho e dos anos. Alberto perdeu a memória e sua razão enfraqueceu. Era tomado por frequentes crises de choro, sobretudo ao recordar seu discípulo bem-amado, Tomás de Aquino, descido à tumba antes dele. Morreu em 15 de novembro de 1280, com setenta e quatro anos de idade. Colônia prestou-lhe magníficas exéquias. Foi beatificado pela Igreja em 27 de novembro de 1622, e sua festa é celebrada no dia 16 de novembro.
FONTES BIOGRÁFICAS. — Não existe uma biografia de Alberto Magno escrita por um contemporâneo. Pode-se, contudo, reconstituir os fatos principais de sua vida com os dados sincrônicos extraídos, seja de seus próprios escritos, seja, sobretudo, de autores do século XIII e dos atos oficiais emanados de Alberto ou que lhe dizem respeito. A maioria dessas fontes, embora não todas, é utilizada nas biografias modernas. Como são muito numerosas, renunciamos a enumerá-las aqui. Fazemos exceção à seguinte, em razão de sua importância e porque os biógrafos de Alberto ainda não a utilizaram: H. Finke, Ungedruckte Dominikanerbriefe des 13. Jahrhunderts, Paderborn, 1891, passim.
A primeira notícia biográfica de Alberto é a traçada por Henrique de Hervordia (†1370) em seu Liber de rebus memorabilibus sive Chronicon, ed. A. Potthast, Gotinga, 1859, p. 204. Uma vida anônima do século XIV foi editada pelos bolandistas: Catalogus codicum hagiographicorum bibliothecæ regiæ Bruxellensis. Codices latini, t. II, Bruxelas, 1889, p. 95-104. Outra vida está inserida na crônica anônima publicada por Martène e Durand: Amplissima collectio, t. VI, p. 858-862. O autor declara (859) ter tomado emprestado o fundo de sua crônica de Jacques de Soest, O. P. (†1423). Luís de Valladolid, em sua Tabula quorumdam doctorum ordinis Prædicatorum, utilizada por Échard; Petrus de Prussia, Vita B. Alberti doctoris magni..., Colônia, 1486, e Antuérpia, 1624, na sequência do De adherendo Deo, p. 61-326; Petrus Noviomagensis, Legenda venerabilis Domini Alberti Magni..., Colônia, 1490. O primeiro trabalho crítico importante sobre Alberto é a obra de Échard: Scriptores Ordinis Prædicatorum, Paris, 1719, t. I, p. 162-184, reproduzido no tomo 1 da nova edição das Opera omnia B. Alberti Magni; G. de Ferrari, Vita del beato Alberto Magno, Roma, 1847; J. Sighart, Albertus Magnus. Sein Leben und seine Wissenschaft, Ratisbona, 1857; tradução francesa por um religioso dominicano: Albert le Grand, Paris, 1862; H. Iweins, Le bienheureux Albert le Grand, 2ª ed., Bruxelas, 1874; F. Ehrle, Der selige Albert der Grosse, em Stimmen aus Maria-Laach, t. XIX, 1880, p. 241-258, 395-414; A. Gloria, Quot annos et in quibus Italiæ urbibus Albertus Magnus moratus sit? em Atti dell’ Istituto Veneto, 1879-80, p. 5, etc.; , Albertus Magnus in Geschichte und Sage, Colônia, 1880; G. von Hertling, Albertus Magnus. Beiträge zu seiner Würdigung, Colônia, 1880, p. 1-48; A. van Weddingen, Albert le Grand, le maître de saint Thomas d’Aquin d’après les plus récents travaux critiques, Paris-Bruxelas, 1881; H. Goblet, Der selige Albertus Magnus und die Geschichte seiner Reliquien, Colônia, 1880; C. W. Kaiser, Festbericht über die Albertus-Magnus-Feier in Lauingen am 12 september 1881, Donauworth, 1881. Encontram-se notícias sobre Alberto em todas as grandes obras biográficas (ver especialmente o artigo de Jourdain no Dictionnaire des sciences philosophiques e Hurter, Nomenclator literarius, t. IV, col. 297-302), nas histórias da filosofia (B. Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, 2ª parte, t. I, Paris, 1880, p. 214-233; A. Stöckl, Geschichte der Philosophie des Mittelalters, Mogúncia, 1865, t. II, p. 352-421; K. Werner, Der heilige Thomas von Aquino, Ratisbona, 1858, p. 82-95; P. Feret, La Faculté de théologie de Paris, t. I, Paris, 1895, p. 441-441), e na maioria das obras citadas ao final deste artigo. Ver Analecta bollandiana, 1900-1902.
II. ESCRITOS DE ALBERTO MAGNO. — A atividade literária de Alberto Magno parece, inquestionavelmente, a mais gigantesca da Idade Média. Ela se estende a quase todas as ciências profanas e sagradas. Duas edições de seus escritos foram publicadas sob o título de Opera omnia. A primeira, a do dominicano Pierre Jammy, compreende 21 volumes in-fólio, Lyon, 1651. A segunda, que a reproduz quanto ao número dos escritos, a do abade Borgnet, está no termo de publicação, iniciada em 1890, e compreende 38 volumes in-4 (Paris, Vivés). Um grande número de obras de Alberto Magno foram editadas separadamente ou por grupos. Algumas tiveram numerosas edições, mas seria fora de propósito tentar enumerá-las aqui. Como um trabalho fundamental de crítica não foi executado para preparar uma edição completa das obras de Alberto Magno, o texto de seus escritos deixa a desejar e a determinação das obras autênticas é insuficientemente estabelecida. Numerosos e mesmo importantes trabalhos estão indubitavelmente inéditos. Damos aqui a lista daqueles que fazem parte das duas edições das obras ditas completas, remetendo aos volumes que as contêm.
A. CIÊNCIAS PROFANAS, OU FILOSOFIA. — Os editores não observaram a ordem natural entre os tratados de Alberto. Nós a restabelecemos, tal como resulta das indicações fornecidas pelos dados internos dessas obras, indicando, pela letra L, os tomos da edição de Lyon e, pela letra P, os tomos da edição de Paris.
I. LÓGICA (L., t. I; P., t. I, 1): De praedicabilibus. De praedicamentis. De sex principiis Gilberti Porretani. Super duos libros Aristotelis Perihermenias. Super librum priorum Analyticorum primum. Super secundum. Super librum posteriorum Analyticorum primum. Super secundum. Super libros octo Topicorum. Super duos Elenchorum.
II. CIÊNCIAS NATURAIS. — De physico auditu (L., t. II; P., t. III). De caelo et mundo (L., t. II; P., t. IV). De natura locorum (L., t. V; P., t. IX). De proprietatibus elementorum (L., t. V; P., t. IX). De generatione et corruptione (L., t. II; P., t. IV). Meteororum libri IV (L., t. II; P., t. IV). De passionibus aeris (L., t. V; P., t. IV). De mineralibus (L., t. II; P., t. V). De anima (L., t. III; P., t. V). De natura et origine animae (L., t. V; P., t. IX). De nutrimento (L., t. V; P., t. IX). De sensu et sensato (L., t. V; P., t. IX). De memoria et reminiscentia (L., t. V; P., t. IX). De intellectu et intelligibili (L., t. V; P., t. IX). De somno et vigilia (L., t. V; P., t. IX). De spiritu et respiratione (L., t. V; P., t. IX). De motibus animalium (L., t. V; P., t. IX). De motibus progressivis animalium (L., t. V; P., t. X). De aetate, de juventute et senectute (L., t. V; P., t. IX). De morte et vita (L., t. V; P., t. IX). De vegetabilibus (L., t. V; P., t. X). De animalibus (L., t. VI; P., t. XI-XII).
Na execução de seus tratados de ciências naturais, Alberto não seguiu rigorosamente a ordem que havia anunciado de início (Phys., l. I, tr. I, c. IV). Ele, além disso, acrescentou, no curso da composição, o De aetate, e escreveu mais tarde três tratados destinados a serem intercalados no conjunto da obra, a saber: De passionibus aeris, De natura et origine animae, De motibus progressivis.
III. METAFÍSICA. — Metaphysicorum libri XIII (L., t. III; P., t. VI). De causis et processu universalitatis (L., t. III; P., t. X). Este último tratado foi composto mais tarde como complemento ao XI livro da Metafísica.
IV. CIÊNCIAS MORAIS. — Ethicorum libri X (L., t. IV; P., t. VII). Politicorum libri VIII (L., t. IV; P., t. VIII). O tratado que traz o título Philosophia seu Isagoge (L., t. XXI; P., t. V) é um resumo das ciências naturais. O De unitate intellectus contra Averroem (L., t. XXI; P., t. IX) e os Quindecim problemata contra Averroistas (editados por nós em Siger de Brabant, p. 15-36) são duas obras polêmicas, a primeira de 1256, a segunda de 1270. Os tratados De apprehensione et apprehensionis modis (L., t. XXI; P., t. V), Speculum astronomicum (L., t. V; P., t. V), Libellus de alchimia (L., t. XXI; P., t. XXXVIII), Scriptum super arborem Aristotelis (L., t. XXI; P., t. XXXVIII) são apócrifos.
B. CIÊNCIAS SAGRADAS.
I. ESCRITURA SAGRADA. — Commentarii in Psalmos (L., t. VII; P., t. XV-XVI). In Threnos, Jeremiae (L., t. VII; P., t. XVI). In librum Baruch (L., t. VII; P., t. XVI). In librum Danielis (L., t. VII; P., t. XVI). In duodecim Prophetas minores (L., t. VII; P., t. XIX). In Matthaeum (L., t. IX; P., t. XX, XXI). In Lucam (L., t. X; P., t. XX, XXI). In Joannem (L., t. XI; P., t. XXIV). In Apocalypsim (L., t. XI; P., t. XXXVIII). M. Weiss editou: Comment. in Job, 1904.
II. TEOLOGIA. — Commentarii in Dionysium Areopagitam. De caelesti hierarchia (L., t. XII; P., t. XIV). De ecclesiastica hierarchia (L., t. XIII; P., t. XIV). De mystica theologia (L., t. XI; P., t. XIV). In undecim Epistolas Dionysii (L., t. XI; P., t. XIV). Commentarium in quatuor libros Sententiarum (L., t. XIV-XVI; P., t. XXV-XXX). Summa theologiae (L., t. XVII, XVIII; P., t. XXXI-XXXIII). Summa de creaturis (L., t. XIX; P., t. XXXIV-XXXV). Compendium theologicae veritatis (L., t. XIII; P., t. XXXIV) não é provavelmente de Alberto, mas de sua escola (ver o artigo HUGUES DE STRASBOURG). De sacrificio Missae (L., t. XXI). De sacramento Eucharistiae (L., t. XXI; P., t. XXXVIII). Super evangelium missus est quaestiones CCXXX (L., t. XX; P., t. XXXVII).
III. PARENÉTICA. — Sermones de tempore (L., t. XI; P., t. XII). Sermones de sanctis (L., t. XII; P., t. XIII). Sermones XXXII de sacramento Eucharistiae (L., t. XII; P., t. XIII). Ver sobre esta obra as observações feitas em um artigo especial que segue. De muliere forti (L., t. XI; P., t. XVIII). Orationes super evangelia dominicalia totius anni (L., t. XI; P., t. XII).
O Paradisus animae (L., t. XXI; P., t. XXXVII) e o Liber de adhaerendo Deo (L., t. XXI; P., t. XXXVIII) não são, provavelmente, de Alberto. O De laudibus B. Virginis libri duodecim (L., t. XX; P., t. XXVI) e a Biblia Mariana (L., t. XX; P., t. XXXVII) não são dele. Os escritos de Alberto Magno que constituem, mais ou menos, sua enciclopédia científica, isto é, os escritos sobre a lógica, as ciências naturais, a metafísica e a ética propriamente dita, foram compostos antes de 1256. Revue thomiste, t. V, p. 95-104.
Os mais antigos catálogos das obras de Alberto Magno são aqueles de Bernardo Guidonis (Denifle, Archiv für Literatur- und Kirchengeschichte des Mittelalters, Berlim, 1886, t. II, p. 236), de Henrique de Hervordia, veja mais acima, loc. cit., p. 202, da vida anônima publicada pelos bolandistas, loc. cit., da crônica anônima editada por Martène e Durand, loc. cit., os catálogos de Luís de Valladolid e de Laurent Pignon, utilizados por Echard, loc. cit., aquele de Pedro da Prússia, na vida de Alberto, loc. cit. Esses catálogos, que fornecem numerosas e importantes indicações, não são sempre guias seguros no detalhe. — Encontrar-se-á nas obras de bibliografia de Hain, Brunet, Graesse, Pellechet e outros, a indicação de numerosas edições dos escritos diversos de Alberto, sobretudo das mais antigas e das mais raras. Sobre as edições e os manuscritos em geral, dever-se-á sobretudo consultar Echard, Script. ord. Praed., loc. cit., e Melchior Weiss, Primordia novae bibliographiae B. Alberti Magni, Paris, L. Vivés, 1898. Do mesmo autor, Über mariologische Schriften des seligen Albertus, Paris, 1898.
III. INFLUÊNCIA DE ALBERTO MAGNO. — A ação intelectual exercida por Alberto sobre a Idade Média foi provavelmente, de todas, a mais potente, sem exceptuar a de Tomás de Aquino, que, estendida a um domínio menos vasto, foi mais profunda e mais durável. Tomás foi um rio, Alberto um torrente. Deve-se examinar a influência deste último no domínio das ciências profanas cujo conjunto portava ainda em seu tempo, como entre os gregos, o nome de filosofia, e também sua influência na ciência sagrada, que tomou então definitivamente o nome de teologia.
I. INFLUÊNCIA DE ALBERTO NAS CIÊNCIAS PROFANAS. — A ação literária e intelectual de Alberto está ligada estreitamente ao trabalho de assimilação da ciência antiga que se opera especialmente na Europa, no século XIII. Alberto foi o primeiro e o maior intermediário que trouxe ao conhecimento dos letrados do seu tempo o conjunto da ciência grega, latina e árabe. Dotado de uma atividade e de uma faculdade de assimilação surpreendentes, membro de uma ordem religiosa que, ao se dedicar primeiramente ao estudo, preparava um meio especial para a cultura científica, Alberto desempenhou um verdadeiro papel de revelador intelectual, em uma época em que o progresso do espírito era estorvado por dificuldades que a maioria dos homens de estudo não podia superar. A obra enciclopédica de Alberto resolvia, com efeito, os problemas mais urgentes que detinham então o movimento geral do pensamento. Sua vasta empresa permitia entrar em contato com todos os grandes resultados da ciência antiga, ou estrangeira, sem recorrer a fontes dificilmente abordáveis, devido à sua raridade sob o regime dos manuscritos.
O próprio Alberto, apesar das condições excepcionalmente favoráveis, declara que teve de recolher os escritos fragmentários de Aristóteles com dificuldade e um pouco por toda parte: que diligenter quesivi per diversas mundi regiones (Mineral., l. III, tr. I, c. 1). É assim que sabemos que descobriu no fundo da Itália, em 1256, o De motibus progressivis animalium (tr. I, c. 1, ad finem). Por outro lado, as fontes faziam, elas mesmas, duplo e triplo emprego, e eram muitas vezes tão difíceis de utilizar, em razão da obscuridade das traduções, que homens de estudo como Roberto Grosseteste e Roger Bacon renunciaram a servir-se delas. Finalmente, em 1210 e 1215, condenações eclesiásticas tinham proibido o uso dos escritos de Aristóteles, exceto a lógica, no ensino das escolas de Paris, isto é, no centro mesmo da vida intelectual de então. Em 1231, Gregório IX tinha pensado, é verdade, em uma correção dos livros de Aristóteles, mas o projeto não teve seguimento. Alberto, ao incorporar as obras do Estagirita nas suas, e ao retificar suas teorias opostas à fé, resolvia o problema da aceitação de Aristóteles na sociedade cristã. Foi, em suma, a utilidade de primeira ordem e a oportunidade da empresa de Alberto que fizeram o seu extraordinário sucesso.
Para realizar seu desígnio, Alberto não pensou, como Vicente de Beauvais, em constituir uma simples biblioteca científica com extratos e resumos de uma multidão de escritos pouco acessíveis aos estudiosos; ele buscou realizar uma enciclopédia que formasse um corpo orgânico e abarcasse o conjunto do saber humano, tal como era possível expô-lo àquela época. Para isso, adotou uma classificação ou distribuição das ciências emprestada, em suas grandes linhas, da antiguidade e repartiu o saber humano em três seções gerais: as ciências lógicas, físicas e morais. A segunda divisão, que é a principal, leva também o nome de filosofia real e abrange as ciências físicas ou naturais, as matemáticas e a metafísica. Situado entre as divisões clássicas, por um lado, e a superabundância de materiais literários, por outro, Alberto nem sempre consegue estabelecer uma ordem bem formal entre vários de seus tratados. Busca ordinariamente manter-se nos quadros traçados por Aristóteles e pelos antigos peripatéticos. Mas, em diversos pontos, sua obra os ultrapassa consideravelmente. Alberto incorpora, com efeito, à sua enciclopédia não apenas tudo o que lhe vem de Aristóteles, mas também o que lhe ensinam seus comentadores, o que conhece de Platão, as fontes gregas, latinas e árabes, às quais junta suas pesquisas e experiências pessoais, que, em certos domínios, são muito importantes, de tal modo que seu crítico apaixonado, Roger Bacon, teve de reconhecer a extensão de suas observações: homo studiosissimus est, et vidit infinita, et habuit expensum; et ideo multa potuit colligere in pelago auctorum infinito (Opera, ed. Brewer, p. 327).
Quanto ao seu método de exposição, foi chamado, com certa razão, de paráfrase, e aproximado daquele de Avicena. Isso é exato quando Alberto interpreta Aristóteles, mas, em muitos lugares, ele não trabalha sobre Aristóteles. Ele mesmo se explicou, aliás, claramente sobre seu procedimento logo no início de seus trabalhos sobre as ciências físicas e naturais: Erit autem modus noster in hoc opere, Aristotelis ordinem et sententiam sequi, et dicere ad explanationem ejus et ad probationem ejus quecumque necessaria esse videbuntur, ita tamen quod textus ejus nulla fiat mentio. Et preter hoc disgressiones faciemus, declarantes dubia subeuntia, et supplentes quecumque minus dicta in sententia philosophi obscuritatem quibusdam attulerunt. Distinguemus autem totum hoc opus per titulos capitulorum, et ubi titulus ostendit simpliciter materiam capituli, sciatur hoc capitulum esse de serie librorum Aristotelis. Ubicumque autem in titulo presignatur quod digressio fit, ibi additum est ex nobis ad suppletionem vel probationem inductum. Taliter autem procedendo libros perficiemus eodem numero et nominibus quibus fecit libros suos Aristoteles. Et addemus etiam alicubi partes librorum imperfectorum, et alicubi libros intermissos vel omissos, quos vel Aristoteles non fecit, et forte si fecit, ad nos non pervenerunt (Physic., l. I).
O método adotado por Alberto tinha a vantagem de fornecer aos seus contemporâneos uma soma enorme de conhecimentos positivos. Este era, aliás, o objetivo principal perseguido pelo infatigável enciclopedista. Os inconvenientes de seu sistema traduziam-se, contudo, no desenvolvimento excessivo de sua obra e na falta parcial de precisão em sua interpretação de Aristóteles. Mas esses inconvenientes eram quase inerentes às condições que presidiram a criação da obra de Alberto e comandaram o seu modo de execução.
As doutrinas de Alberto representam, no fundo, as teorias de Aristóteles, retificadas nos pontos em que poderiam entrar em conflito com o ensinamento cristão. No domínio das ciências naturais, sobretudo, é o Estagirita quem é seu doutor. Contudo, declara que Aristóteles não é para ele um deus, mas um homem que pôde se enganar como os outros, e, na ocasião, não hesita em contradizê-lo. Alberto tem, aliás, o cuidado de repetir, muitas vezes, que seu objetivo é expor as doutrinas dos peripatéticos e não torná-las suas, o que trai sua preocupação em respeitar a posição ainda hesitante da autoridade eclesiástica em relação a Aristóteles. Não obstante, deve-se reconhecer que foi pela ação de Alberto que o peripatetismo cumpriu, sobretudo, sua entrada entre os letrados cristãos e conquistou cartas de naturalização na Igreja. Alberto faz, aliás, em sua exposição filosófica, uma parte importante a Platão, que conhece por vários de seus escritos originais e seus derivados alexandrinos. Frequentemente tem sido citada sua palavra que declara que não se pode tornar filósofo senão por Aristóteles e Platão ao mesmo tempo: Scias quod non perficitur homo in philosophia, nisi ex scientia duarum philosophiarum Aristotelis et Platonis (Metaph., l. I, tr. V, c. xv). Esta fórmula representa bem o seu ponto de vista, sobretudo nas questões metafísicas, onde, a exemplo de outros filósofos anteriores, ele retifica e completa Aristóteles por Platão. As grandes linhas de seu sistema não são sempre muito firmes e muito nítidas, como em Tomás de Aquino. Contudo, ele possui visões e análises por vezes muito penetrantes, que suportam o paralelo com a maneira de seu discípulo. Mas deve-se dizer: a glória e a influência de Alberto consistem menos na construção de um sistema de filosofia original do que na sagacidade e no esforço que ele empregou para levar ao conhecimento da sociedade letrada da Idade Média o resumo das conhecimentos humanos já adquiridos, criar um novo e vigoroso impulso intelectual em seu século e ganhar definitivamente para Aristóteles os melhores espíritos da Idade Média.
A ação de Alberto e seu sucesso foram enormes, ainda em vida e após sua morte. Ulrich Engelbert, um de seus ouvintes, traduz assim o espanto em que a obra de Alberto lançou seus contemporâneos, quando define seu mestre: Vir in omni scientia adeo divinus, ut nostri temporis stupor et miraculum congrue vocari possit (De summo bono, tr. I, c. IV).
O testemunho dos principais adversários que Alberto encontrou em sua vida deve ser sobretudo retido, pois, mais do que qualquer outro dado, é significativo. Siger de Brabante, o chefe do averroísmo parisiense, não nomeia, para combatê-los, senão dois contemporâneos, Alberto e Tomás, aos quais qualifica assim: Precipui viri in philosophia Albertus et Thomas (De anima intellectiva, II, p. 94). Roger Bacon, o crítico apaixonado e injusto de Alberto, nos mostra a que grau de influência e de renome a obra do mestre havia chegado quando, em 1266, escreve estas palavras: «A multidão de estudiosos, de homens reputados junto a muitos como muito sábios, e um número muito grande de pessoas judiciosas estimam, embora se enganem nisso, que os latinos já estão na posse da filosofia, que ela está completa e escrita em sua língua. Ela foi, com efeito, composta em meu tempo e publicada em Paris. Cita-se seu autor como autoridade, pois, assim como nas escolas se alega Aristóteles, Avicena e Averróis, assim faz-se com ele. E este homem vive ainda, e ele teve, em sua vida, uma autoridade que nenhum homem teve jamais em matéria de doutrina» (Opera, ed. Brewer, p. 30).
Esta influência de Alberto observa-se, além disso, nos escritos do século XIV e dos séculos seguintes, onde as produções de toda espécie não cessam de lhe fazer empréstimos. Esta persuasão da universalidade científica de Alberto levou mesmo a atribuir-lhe um grande número de obras à composição das quais ele é certamente alheio, especialmente as obras de alquimia, de magia e outras ciências ocultas pelas quais Alberto nunca teve gosto. O ciclo de lendas, todas mais maravilhosas umas que as outras, que se formou em torno do nome de Alberto, é também a consequência da reputação sem par que ele havia granjeado entre os seus contemporâneos no domínio das ciências físicas e naturais.
I. INFLUÊNCIA DE ALBERTO SOBRE A TEOLOGIA. — A ação de Alberto no domínio da teologia foi menos brilhante do que no da filosofia. Foi ele, contudo, quem inaugurou o movimento do qual São Tomás de Aquino se tornou o chefe. Alberto foi o primeiro a utilizar os novos conhecimentos filosóficos para colocá-los a serviço da constituição de um corpo de teologia. Se não teve em seus ensaios nem a reserva nem a firmeza de Tomás de Aquino, faltando-lhe o seu génio sóbrio e sintético, não hesitou, todavia, sobre o partido que a ciência sagrada poderia tirar da ciência profana. Nesta tentativa, substituiu as concepções filosóficas de Aristóteles pelas de Platão, que formavam, em diferentes pontos, a substrutura do dogma agostiniano, e preparou a via para Tomás de Aquino, o discípulo cuja reputação superou e apagou a sua.
Alberto não constituiu, a rigor, uma escola teológica independente. Tomás, que retomou e impulsionou a um grau bem mais superior a direção que ele havia inaugurado, deu o seu nome e o seu cunho definitivo à nova direção teológica que a Igreja Católica considerou como a que melhor se identifica com o seu ensinamento oficial.
Formou-se em Colônia, no decorrer do século XV, uma escola albertista. Ela era representada especialmente pelo colégio Laurentiano (bursa Laurentii), enquanto o colégio do Monte seguia São Tomás. Heymeric van de Velde (de Campo) escreveu três tratados sobre a filosofia de Alberto Magno para opô-la à de São Tomás. A Ordem dos Pregadores foi alheia a esta tentativa, que traduz o estado de decadência em que haviam caído as ciências filosóficas e teológicas.
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Os XXXII sermones de Eucharistia que lhe são atribuídos. Não colocamos sem uma expressa reserva os XXXII sermões sobre a eucaristia entre as obras autênticas de Alberto Magno. Os catálogos mais antigos das obras de Alberto, os de Bernardo Guidonis e de Henrique de Herfordia, não os mencionam, e os manuscritos atribuem-nos, ainda que erroneamente, mais frequentemente a Tomás de Aquino do que a Alberto Magno. Weiss, Primordia novae bibliographiae, p. 27. Encontramo-los mesmo entre as obras de São Boaventura, Bassano, 1767, t. II, p. 756-951. É, portanto, uma obra de autenticidade vaga. Pedro da Prússia declara, todavia, em sua vida de Alberto, ed. de Antuérpia, 1621, p. 181, ter visto o original no convento de Colônia, escrito parcialmente e corrigido pela mão do autor. O Dr. G. Jacob, que deu uma edição crítica destes sermões (Ratisbona, 1893), admite também a autenticidade.
Um trecho desses sermões, frequentemente impressos no final do século XV, forneceu o pretexto para que os protestantes, desde a Confissão de Augsburgo (1530), acusassem os católicos de ensinar uma doutrina errônea sobre a satisfação de Cristo e os efeitos da eucaristia. Os teólogos católicos não cessaram de opor um desmentido formal a essas acusações sem fundamento. A origem dessa acusação encontra-se na seguinte passagem, extraída do primeiro dos sermões atribuídos a Alberto: Secunda causa institutionis hujus sacramenti est sacrificium altaris, contra quandam quotidianam delictorum nostrorum rapinam, ut, SICUT CORPUS DOMINI SEMEL OBLATUM EST IN CRUCE PRO DEBITO ORIGINALI, SIC OFFERATUR JUGITER PRO NOSTRIS QUOTIDIANIS DELICTIS. Esta fórmula é inexata, mas não parece que, no pensamento de seu autor, ela possua o sentido restritivo que parece comportar, uma vez que, no mesmo sermão, ele faz Jesus Cristo dizer: Pro debitis omnium sufficiens sacrificium in cruce offerebam. A doutrina, aliás, exposta ex professo por Alberto em seus outros tratados sobre a eucaristia e em seus comentários sobre as Sentenças, é correta: Dico quod justificatio nature ad causam meritoriam relata, que est meritoria secundum condignum, refertur ad passionem Christi, quia meruit nobis solutionem a peccato, ad quam sequitur justificatio... Relata autem ad causam sacramentalem... secundum debitum originalis (peccati) refertur ad baptismum, secundum debitum actualis refertur ad poenitentiam, si est post baptismum. IV Sent., l. III, dist. XIX, a. 1, solutio. Quanto à eucaristia, ela não é ordenada contra o pecado, mas precisamente contra as consequências do pecado, que podemos chamar de fraqueza espiritual: Si considerentur reliquiae (peccati) secundum defectum boni, cujus longus defectus inediam inducit boni naturalis secundum destitutionem sur in seipso, sicut longus defectus cibi inducit inediam et defectum boni corporis in seipso, sic contra reliquias peccati ordinatur sacramentum Eucharistiae per modum medicinae. De Eucharistia, dist. VI, tr. I, c. 1, 3. Ver N. Paulus, Une prétendue « doctrine monstrueuse » sur le sacrifice de la messe, Revue anglo-romaine, Paris, 1896, t. I, p. 252-260.
Autor original: P. Mandonnet
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