São Lucas, XXII, 43, utiliza esta expressão para descrever a angústia de Cristo quando orava à parte, no Jardim das Oliveiras, antes de ser preso pelos judeus. Voltaremos, em outra ocasião, à vontade que o Salvador manifestou nesta circunstância. Ocupar-nos-emos aqui apenas das particularidades relatadas por São Lucas no versículo 43, onde se trata desta agonia, e no versículo 44 que se segue. Eis o texto destes dois versículos:
43. Apparuit autem illi angelus de cœlo, confortans eum. Et factus in agonia prolixius orabat. (Ora, apareceu-lhe um anjo do céu que o fortificava. E, entrando em agonia, redobrava a sua oração.)
44. Et factus est sudor ejus, sicut gutta sanguinis decurrentis in terram. (E o seu suor tornou-se como gotas de sangue que escorriam sobre a terra.)
ὤφθη δὲ αὐτῷ ἄγγελος ἀπ' οὐρανοῦ, ἐνισχύων αὐτόν. Καὶ γενόμενος ἐν ἀγωνίᾳ, ἐκτενέστερον προσηύχετο. Ἐγένετο δὲ ὁ ἱδρὼς αὐτοῦ ὡσεὶ θρόμβοι αἵματος καταβαίνοντες ἐπὶ τὴν γῆν.
Estabeleceremos primeiramente a autenticidade destes versículos. Em seguida, daremos a conhecer o seu sentido e as suas consequências teológicas. Investigaremos, enfim, com base nos dados da ciência moderna, qual foi a natureza do suor de sangue de Cristo e qual a sua causa.
I. AUTENTICIDADE DO RELATO (Lucas, XXII, 43, 44). — I. Autenticidade dos dois versículos. II. Explicação da divergência dos textos.
I. AUTENTICIDADE DOS DOIS VERSÍCULOS. — Não é de hoje que se percebe que, neste trecho de São Lucas, textos e versões apresentam divergências. Santo Hilário, De Trinit., IV, 1, P. L., t. X, col. 375, já fazia notar que, na maioria dos exemplares, tanto gregos quanto latinos, nada se encontrava sobre a aparição do anjo e o suor de sangue. São Jerônimo, Dial. adv. Pelag., I, 16, P. L., t. XXIII, col. 552, confirma este testemunho ao dizer que estes dois versículos se leem apenas em alguns exemplares, sejam gregos ou latinos. Santo Epifânio também conheceu textos gregos nos quais os ortodoxos haviam suprimido este relato. Ancor., XXXI, P. G., t. XLIII, col. 73. (É verdade que Grotius e Petau, reproduzidos por Migne, entenderam esta observação de Santo Epifânio não como referente a Lucas, XXII, 43, 44, mas a Lucas, XIX, 41. Um estudo atento de toda a passagem mostra bem que, se gramaticalmente esta opinião parece mais aceitável, ela é totalmente insustentável sob o ponto de vista da crítica literária. Aliás, a frase trai, neste trecho, tanto desconforto que é preciso admitir, ao que parece, alguma alteração do texto original.) Enfim, o fato de Santo Ambrósio, P. L., t. XV, col. 1818, e São Cirilo de Alexandria, P. G., t. LXX, col. 921, omitirem a explicação da passagem ao comentarem São Lucas dá a entender que o seu texto não a continha.
4° Os antigos manuscritos. — Ocorre que, de fato, um estudo comparado dos antigos manuscritos, tanto do texto quanto das versões, permite distribuí-los em duas categorias. Uns omitem a passagem em questão ou acompanham-na de sinais restritivos; outros admitem-na com o mesmo peso que o restante. Eis a lista completa destas testemunhas antigas, tal como a crítica textual permite traçá-la hoje. À medida que avançarmos, avaliaremos o alcance dos testemunhos a favor e contra.
Omitem Lucas, XXII, 43, 44, os unciais אABRT (ver, sobre os manuscritos aqui designados, o artigo Lucas ); mas deve-se notar que א o continha primitivamente; surgiu mais tarde um corretor (διορθωτής) א que o pontuou e o encerrou entre colchetes que outro corretor tentou apagar. — A deve ter sido transcrito de um apógrafo que continha os dois versículos 43 e 44, uma vez que ele vincula ao segundo membro do versículo 42 a seção (a) dos chamados cânones de Eusébio, a qual concerne, na realidade, aos versículos 43 e 44. Quer-se elidir o alcance desta observação dizendo que o copista não teria pedido ao mesmo apógrafo o texto e a divisão em seções; o que é, no caso, uma suposição, no mínimo, gratuita. — Não pode haver aqui questão de C, que está truncado a partir de Lucas, XX, 19; mas os versículos 43 e 44 foram ali adicionados à margem tertia manu após Mateus, XXVI, 39. — Os cursivos 124, 561 omitem-nos completamente; o 13 possui, de primeira mão, apenas as palavras ὤφθη δέ*, o restante foi adicionado à margem; de onde se pode concluir que foi esquecido ou omitido voluntariamente. Em T, 128, 344, 440, 512, estes versículos estão assinalados por um óbelo, e até mesmo em 440 o versículo 43 é de segunda mão. Em E S V A II, 247, 36, 161, 166, 274, 408, eles possuem um asterisco que bem pode ter sido uma simples indicação para a leitura pública. Enfim, o 34 tem uma nota para advertir que estes versículos faltam em alguns exemplares. Isto quanto aos textos; venhamos agora às versões. — O cod. Brix. f é o único exemplar das versões latinas ante-jerônimas que omite estes versículos; uma dezena de manuscritos da versão boáirica negligencia-os igualmente; são eles, segundo Lightfoot, cod. 2, 4, 8, 9, 16, 17, 19, 22, 26; enquanto o 1 e o 20 trazem-nos à margem. Encontramo-los de primeira mão no 3, 14, 21 e 18, mas em caracteres menores. Ausentes também da versão siríaca encontrada em 1895 no Sinai, pela Sra. Lewis. — Omitidos também em todos os Evangeliários gregos conhecidos e pelo cod. 69 e seus acólitos 178, 443, que lhes são aparentados. Mas é soberanamente importante notar que estes mesmos evangeliários possuem todos, como o C, os dois versículos em questão após Mateus, XXVI, 39, onde fazem parte da leitura pública marcada para a quinta-feira da Semana Santa. Os cursivos 346, 547 e 13 (este último à margem) apresentam igualmente a passagem, não apenas em São Mateus, mas também no seu lugar primitivo em São Lucas; o que fazem também alguns manuscritos armênios. O evangeliário siríaco, chamado de Adler (Assémani n. 2), traz à margem uma nota de origem filoxeniana para advertir que esta passagem não se encontra nos evangelhos alexandrinos.
Ao contrário, Lucas, XXII, 43, 44, lê-se sem qualquer hesitação em אDFGHKLMQUXA 1 e em todos os outros cursivos conhecidos, à exceção daqueles dos quais acabamos de falar; nas versões siríacas Peschito, Cureton (que omite ἀπ' οὐρανοῦ), harclense, hierosolimitana (esta última trazendo um óbelo à margem); nas versões etíope, copta, armênia e árabe; nas versões latinas ante-jerônimas a b c e ff2 g1.2, i l q, em todos os manuscritos da Vulgata; enfim, no Diatessaron de Taciano, que data do século II. Cf. ed. Ciasca, p. 55, e Moesinger, p. 235.
2° Os escritos dos santos Padres. — O número e a qualidade das testemunhas ouvidas já predispõem a favor da autenticidade, mas se dos textos e das versões passamos aos escritos dos Padres, é à certeza que deve conduzir o exame. Tanto os adversários quanto os partidários da autenticidade concordam com o fato e a exatidão destas citações; portanto, limitamo-nos aqui àquelas que são mais antigas e particularmente significativas. Basta nomear são Justino, P. G., t. VI, col. 717; santo Ireneu, P. G., t. VII, col. 957; santo Hipólito, P. G., t. X, col. 828; são Dionísio de Alexandria, P. G., t. X, col. 1592; santo Epifânio, P. G., t. XLII, col. 73; são Crisóstomo, P. G., t. LXI, col. 746; Teodoreto, P. G., t. LXXX, col. 961; t. LXXXIII, col. 325; santo Efrém, Evang. concord. Exposit., ed. Moesinger, p. 235; são Jerônimo, P. L., t. XXIII, col. 552; santo Agostinho, P. L., t. XXXIV, col. 1165; santo Hilário, P. L., t. X, col. 375, que é incerto; o pseudo-Dionísio, o Areopagita, P. G., t. III, col. 181; Ário; Nestório, P. G., t. XI, col. 232; Teodoro de Mopsuéstia, P. G., t. LXVI, col. 725, etc. Que não se diga que os Padres puderam conhecer exclusivamente pela tradição a aparição do anjo e o suor de sangue; pois eles encontram este relato no Evangelho ou, ao menos, fazem dele um uso manifestamente escriturístico: «Mais de quarenta autores célebres, espalhados por todos os países da antiga cristandade, reconhecem que estes versículos pertencem ao Evangelho; quatorze deles são tão antigos, e vários muito mais antigos que os mais velhos manuscritos sobreviventes do Evangelho.» Burgon, Revision revised, p. 81. O pseudo-Dionísio poderia, sozinho, suscitar alguma dificuldade, mas não se deve esquecer que, no estilo dos autores eclesiásticos, a palavra παράδοσις não significa sempre a tradição por oposição à Escritura; algumas vezes quer-se designar por ela a própria Escritura, tal como é garantida pela tradição. Este último sentido seria, no caso, inteiramente ad rem, uma vez que o autor se utiliza aqui de um texto que vários exemplares não continham.
Todos os editores do Novo Testamento consideraram nossa passagem como autêntica. Lachmann (1842) foi o primeiro a aventurar-se a imprimi-la entre colchetes. Depois vieram os Srs. Westcott e Hort, que a consideram uma interpolação de origem ocidental, feita muito cedo e a partir de alguma tradição. O sentimento deles repousa, antes de tudo, na confiança excessiva que depositaram em B. Este é o fundamento de todo o seu sistema crítico e é também o que constitui a sua fragilidade. Começa-se a ver e a dizer isso. Os Srs. Tischendorf, Hammond, Scrivener, Gebhardt e Nestle são de opinião contrária e pronunciam-se resolutamente a favor da autenticidade.
II. EXPLICAÇÃO DA DIVERGÊNCIA APRESENTADA PELOS TEXTOS. — Resta explicar a divergência apresentada pelos textos. Como ela ocorreu? Deram-se várias respostas a esta questão, cujos valores importa apreciar.
1° Os docetas, vendo que esta passagem era decisiva contra eles, tê-la-iam feito desaparecer, e a alteração teria se reproduzido, multiplicada pela transcrição. — Esta hipótese não repousa sobre nenhum testemunho positivo. Além disso, é inadmissível que uma seita relativamente restrita tenha conseguido fazer prevalecer o seu texto a ponto de ser, no século IV, o mais comumente recebido, tanto no Oriente quanto no Ocidente, se devemos crer em santo Hilário e são Jerônimo.
2° Os ortodoxos, isto é, os católicos da época, suprimiram-na, ao menos na leitura pública, por medo de que o espetáculo do Cristo agonizante, reduzido a ser confortado por um anjo, fosse interpretado, em um sentido ariano, como a inferioridade do Verbo. P. G., t. XLII, col. 231, 299; t. XI, col. 73, 83. Fócio acusa os sírios desta ressecção; Nicon, Isaac o católico e outros ainda tornam os armênios responsáveis. Santo Epifânio atribui isso aos ortodoxos em geral, como já dissemos; e se o seu testemunho não incide sobre Lucas XXII, 43, 44, ele tem certamente por objeto um caso absolutamente semelhante. — Por mais documentada que seja esta hipótese, ela não se sustenta diante do fato incontestável de que os versículos suprimidos em são Lucas são lidos em são Mateus XXVI, 39; e isso precisamente nos evangeliários destinados à leitura pública. Para que serviria silenciar no terceiro Evangelho o que se publicava no primeiro?
3° Resta uma terceira explicação que parece muito mais aceitável; Scrivener não hesita em adotá-la. Sabe-se, sem dúvida, que durante os quatro primeiros séculos houve várias tentativas de concordância evangélica. Do relato quádruplo fazia-se um só, o mais completo possível, sem repetições nem lacunas. O monumento mais notável desse gênero é o Diatessaron de Taciano. Sem ir tão longe, os redatores dos evangeliários ter-se-iam inspirado no mesmo método. Quando se tratava de fixar de forma definitiva a leitura a ser feita para uma dada festa, era necessário decidir-se pelo relato de um dos quatro evangelistas. Mas se se detinha em são Mateus, por exemplo, tinha-se o cuidado de completá-lo pela intercalação de fragmentos tirados dos outros três, caso o relato do primeiro Evangelho fosse incompleto. É fácil imaginar que confusão este procedimento não tardou a introduzir no texto bíblico. Não nos limitamos aqui a uma simples conjectura; são Jerônimo, P. L., t. XXX, col. 528, em seu prefácio ao papa Dâmaso, diz claramente o que se passava: «Magnus siquidem hic in nostris codicibus error molevit, dum quod in eadem re alius Evangelista plus dixit, in alio quia minus putaverint, addiderunt. Vel dum eumdem sensum alius aliter expressit, ille qui unum e quatuor primum legerat, ad ejus exemplum ceteros quoque existimaverit emendandos. Unde accidit ut apud nos mixta sint omnia et in Marco plura Luce atque Matthei. Rursum in Mattheo plura Joannis et Marci et in ceteris reliquorum que aliis propria sunt inveniantur.» A inserção de Lucas XXII, 43, 44 em Mateus XXVI, 39 não é um caso isolado. Para nos limitarmos aqui a um único exemplo, pode-se constatar nesta mesma seção que os evangeliários prescrevem a leitura, na quinta-feira da Semana Santa, da intercalação do lava-pés: é João XIII, 3-17, transportado para entre o versículo 20 e o versículo 21 de Mateus XXVI. O hábito que se tinha de escrever e ler Lucas XXII, 43, 44 após Mateus XXVI, 39 passou logo dos evangeliários para alguns exemplares comuns dos Evangelhos; depois, a alteração propagou-se a ponto de ser bastante comum no mundo greco-romano do século IV. Menos de três séculos mais tarde, os versículos interpolados haviam retornado ao seu lugar primitivo, de tal modo que o antigo erro só restava em um pequeno número de exemplares. É são Anastácio do Sinai quem no-lo ensina, P. G., t. LXXXIX, col. 290. Ele até dá a razão desse triunfo definitivo da integridade do texto evangélico: «Pode-se bem, diz ele, falsear uma lição em um número maior ou menor de exemplares gregos e latinos; mas como alterar todas as versões que já existem em setenta e duas línguas?» É também a observação de são Jerônimo naquele mesmo prefácio ao papa Dâmaso, que acabamos de citar: «Nec emendare quid licuit.., nec profuit, cum multarum gentium linguis Scriptura ante translata doceat falsa esse que addita sunt.»
4° Sugerimos, ao encerrar, uma última hipótese. Os testemunhos mais antigos — aqueles de São Justino e de São Irineu — estabelecem, é verdade, que o relato do suor de sangue se lia no texto evangélico do século II (São Justino diz isso expressamente); mas não especificam se era em São Lucas ou em São Mateus. Sendo assim, não se poderia supor que o lugar original da passagem foi contestado desde muito cedo? Talvez a suspeita da qual foi objeto se relacione a alguma reação contra esse culto excessivo aos anjos que São Paulo condena em sua Epístola aos Colossenses, II, 18. Ele terá permanecido mais ou menos errante até a época bastante tardia em que se fixou definitivamente em São Lucas, e com razão, visto que sua terminologia a ele o vincula claramente. Dessa forma, explicar-se-ia melhor o estado do aparato crítico que se apresenta aqui com um caráter bastante complexo. Embora as três grandes famílias de textos encontrem-se representadas de ambos os lados, parece, contudo, que o texto ocidental e o texto sírio, em sua maioria, o atribuem a São Lucas, enquanto o texto alexandrino o omite.
Seja como for sua explicação, o fato em si permanece solidamente estabelecido; o estudo crítico dos documentos escritos dá o direito de concluir que Lucas, XXII, 43-44, faz parte integrante e autêntica do texto evangélico. Para as razões teológicas que militam em favor da mesma conclusão, veja o verbete VULGATA.
Scrivener, A plain Introd. to the criticism of the new Test., t. II, p. 353-356; Westcott et Hort, The new Test. in the orig. greek, Append., p. 64-67; Cornely, Introd. in U. T. libros sacros, t. I, p. 133; J. P. P. Martin, Introduction à la critique textuelle du Nouveau Testament. Partie pratique, t. II, in-4° (litografado), Paris, 1884-1885.
A. DURAND.
I. INTERPRETAÇÃO. — 1° Aparição do anjo. — A maneira como se exprime o texto grego deixa entender que Jesus viu realmente um anjo e, por conseguinte, que este havia revestido uma forma visível. Ele fortaleceu a humanidade do Salvador: sua alma para que suportasse a tristeza da qual estava acabrunhada, e também seu corpo, que experimentava os efeitos dessa imensa dor. Jesus não precisava desse socorro e não podia aprender nada do anjo. Por isso, alguns Padres acreditaram que esse anjo veio prestar homenagem à sua força de alma em vez de fortalecê-lo. Mas a maioria estima que ele o fortaleceu verdadeiramente, sugerindo-lhe os pensamentos próprios para suavizar sua tristeza e reconfortar a parte inferior de sua alma. Veja Suarez, In IIIam partem, q. XLVI, a. 4, comment., n. 2, que, embora subscreva esse sentimento, acredita que o Salvador não deixou penetrar esse suavizamento em sua alma, uma vez que o texto sagrado o representa caindo em agonia logo após a aparição do anjo.
2° Agonia. — Este termo ἀγωνία não se encontra em outras passagens da Sagrada Escritura. Designava, entre os escritores profanos, as lutas dos exercícios ginásticos, ou ainda a emoção e a angústia dos lutadores antes do combate, ou, em geral, as agitações violentas da alma. Em São Lucas, exprime a angústia experimentada por Jesus na apreensão de sua paixão. Schleussner, Novum Lexicon in Novum Testamentum, Leipzig, 1801, vo Agonia. Traduz, portanto, a mesma tristeza que Jesus fazia conhecer aos seus apóstolos, antes de sua oração, quando lhes dizia, segundo São Mateus, XXVI, 37, e São Marcos, XIV, 34: «Minha alma está triste até a morte.» Apenas essa tristeza parece ter se transformado em uma dor ainda maior, depois que Jesus formulou sua aceitação de todos os sofrimentos que devia suportar, assim como São Lucas relata, XXII, 42: Pater si vis, transfer calicem istum a me; verumtamen non mea voluntas sed tua fiat. São Mateus e São Marcos haviam falado da tristeza que ele experimentava já antes dessa aceitação; São Lucas designa sob o nome de agonia a angústia que ele experimentou depois de ter se submetido a beber o cálice. Ele deixa entender que essa angústia foi então maior do que anteriormente, não apenas pelo nome de agonia que lhe dá, mas ainda pela observação que faz de que, nessa agonia, Jesus orou mais longamente, ou, segundo o grego, com mais insistência: o que supõe que sua tristeza era mais vívida do que ao começo de sua oração. Temos, aliás, índices da imensidade de sua angústia na intervenção do anjo que veio fortalecê-lo e no suor de sangue que foi o efeito dessa terrível agonia. A intensidade da dor interior do Salvador se explica, segundo São Tomás, Sum. theol., IIIa, q. XLVI, a. 6, por várias razões: 1. em razão da causa dessa dor: essa causa foi, primeiro, o peso de todos os pecados pelos quais ele satisfez por seus sofrimentos; foi depois, em particular, a falta dos judeus e dos outros homens que contribuíram para seus tormentos e sua morte, sobretudo de seus discípulos que se escandalizaram com sua paixão; foi também a perda da vida do corpo, da qual a natureza tem horror; 2. em razão da delicadeza de sua alma, feita para sentir muito vivamente todas as penas; 3. em razão da pureza de sua dor, que ele quis suportar inteira, sem que fosse diminuída por nenhuma das considerações que suavizam nossos sofrimentos e distraem nossa atenção; 4. em razão da maneira absolutamente voluntária com que Jesus aceitou essa dor, em toda a sua imensidade, tal como devia ser para responder ao seu fruto, isto é, à nossa redenção do pecado.
3° Suor de sangue. — Teofilacto, arcebispo da Bulgária, In Luc., XXII, 44, P. G., t. CXXIII, col. 1081, diz que o evangelista, ao falar de um suor de sangue, assim como se fala de lágrimas de sangue, quis simplesmente dizer que Jesus havia transpirado abundantemente. Eutímio Zigabeno, In Matth., XXVI, 44, P. G., t. CXXIX, col. 685, pretende também que não se trata aqui de um suor de sangue, nem mesmo de um suor vermelho, mas apenas de um suor comparável ao sangue por sua espessura. Alguns católicos e um número bastante grande de protestantes (cf. Fillion, Essais d’exégèse, Paris, 1884, p. 119, reprodução de um artigo publicado sob o pseudônimo de Faivre, em La controverse, 1881, p. 203) seguiram esta interpretação. Apoiam-se na expressão ὡσεὶ, como gotas de sangue, empregada pelo evangelista: expressão que indicaria, segundo eles, uma simples comparação. Mas as palavras ὡσεὶ, ὡς marcam também o caráter real das pessoas ou das coisas às quais são aplicadas. Pode-se observar isso em São Mateus, XXI, 26, em São João, I, 14, e mais especialmente em São Lucas, XV, 19; XVI, 1; Atos, I, 3. Tal é o sentido da palavra ὡσεὶ na passagem que nos ocupa; pois uma comparação do suor com o sangue por causa de sua espessura ou de sua abundância seria algo inaudito e não ocorre à imaginação de ninguém. A maneira pela qual fala São Lucas: Seu suor tornou-se, ἐγένετο, como gotas ou coágulos, θρόμβοι, de sangue, αἵματος, faz pensar a qualquer leitor que esse suor tomou a cor vermelha e até mesmo a natureza do sangue. Esse é, portanto, o sentido natural do texto. Aliás, se o evangelista quisesse fazer uma simples comparação, teria dito no nominativo singular que esse suor escorria sobre a terra, decurrens; mas ele utiliza, de acordo com a Vulgata, o genitivo decurrentis in terram, que se refere ao sangue, sanguinis, e, de acordo com o grego, o nominativo plural, καταβαίνοντες, que se refere às gotas de sangue, θρόμβοι. É uma nova prova de que o suor de Cristo que escorria até o chão estava, ao menos, misturado com sangue. Por isso, foi assim que quase todos os santos Padres e os exegetas entenderam esta passagem. — Alguns atribuíram esse suor sangrento a uma causa miraculosa, mas a maioria viu nele um efeito natural da angústia tão cruel que o Salvador sentia. O artigo que se segue mostrará que esse sentimento se harmoniza em todos os pontos com os dados da ciência moderna.
II. CONSEQUÊNCIAS TEOLÓGICAS. — Do fato de Jesus ter sido fortalecido por um anjo e de ter sido oprimido por tristeza a ponto de suar sangue, desprendem-se duas consequências teológicas principais, uma dogmática, a outra moral. 1° Consequência dogmática. — Jesus assumiu a natureza humana, inferior à natureza do anjo pelo qual é fortalecido, submetida ao sofrimento e às enfermidades, e composta de um corpo passível e verdadeiro, uma vez que seu suor sangrento se espalha sobre a terra. Essa consequência foi trazida à luz pelos santos Padres para estabelecer a realidade da encarnação, em particular por Santo Ireneu, Contra her., l. III, c. xxii, P. G., t. vii, col. 957; Santo Hilário, De Trinitate, l. X, n. 41, P. L., t. x, col. 375; Santo Epifânio, Ancoratus, c. xxxviii, P. G., t. xli, col. 84.
2° Consequência moral. — A moral estoica nega a dor; faz consistir a coragem em não sentir o sofrimento e em bastar-se a si mesmo. Partindo dessa concepção de virtude e de coragem, censurou-se Jesus por ter tremido diante da morte. Essa acusação, já formulada por Celso, cf. Orígenes, Contra Cels., l. II, n. 24, P. G., t. xi, col. 840, foi repetida até os nossos dias. Mas não há qualquer covardia em temer a dor e a morte; haveria apenas em tentar subtrair-se a elas quando se deve suportá-las. Ora, Jesus, longe de fugir e de se subtrair ao alcance dos judeus e aos sofrimentos, aceita, ao contrário, o cálice que lhe é reservado; ele aguarda Judas e sua tropa para entregar-se a eles. Mas isso não o impede de permitir que um anjo o reconforte e de experimentar cruéis angústias. Ele coloca assim diante dos nossos olhos, em sua pessoa, o ideal da virtude cristã, muito mais acessível à imitação de todos do que o ideal do estoicismo, e muito menos contrário aos sentimentos naturais do homem. É um ideal onde a humildade, assim como o conhecimento da fraqueza humana e o sofrimento, têm o seu lugar ao lado da força de alma. Ele não obriga aquele que vai sofrer grandes torturas a encerrar-se em si mesmo para rejeitar toda consolação e todo socorro do exterior e a tratar a dor como uma palavra vã. Jesus, ao contrário, teme os males que aceita, reza ao seu Pai, convida seus discípulos a rezarem com ele, deixa-se humildemente fortalecer pelo anjo que lhe aparece. Essas orações, essa humildade, esse sentimento da dor não diminuem em nada o valor de sua coragem; são provas da verdade de sua força de alma e da sinceridade de todas as suas palavras.
S. Tomás, Sum. theol., IIIa, q. xlvi, a. 4, ad 1um; Suarez, In tertiam partem, in hunc locum et disp. XXXIV, sect. II, Opera, Paris, 1872, t. xvi, p. 76; t. xix, p. 542 sq.; dom Calmet, Dissertation sur la sueur de sang, em Dissertations qui peuvent servir de Prolégomènes à l’Écriture Sainte, Paris, 1720, t. iii, p. 612-625; Faivre (pseudônimo), L’ange et la sueur de sang, em La controverse, 1881, t. I, p. 190-210, reproduzido em Fillion, Essais d’exégèse, in-12, Paris, 1884, p. 101-127; os comentadores de São Lucas, por exemplo, Knabenbauer, Evangelium secundum Lucam, Paris, 1896, p. 590 sq.
I. Existência dos suores de sangue. II. Condições em que se produzem. III. O suor de sangue de Cristo.
I. EXISTÊNCIA DOS SUORES DE SANGUE. — O suor, incolor no estado normal, pode algumas vezes ser colorido (cromidrose). Quando o é em vermelho, essa coloração pode dar origem à ideia de suor de sangue (hematidrose). E, com efeito, é neste sentido que os autores antigos e muitos modernos interpretaram o fenômeno, que é, aliás, muito raro. Mas certos espíritos acharam estranho esse suar de sangue através da pele sã; não tendo observado isso eles mesmos, puseram em dúvida a perspicácia daqueles que relataram exemplos e supuseram que tinham sido enganados por doentes inclinados à supercheria ou por aparências. "Daí, no espírito médico da nossa época, uma espécie de ceticismo clássico mais ou menos explicitamente admitido a respeito da hematidrose: pouco falta para que a releguem entre os fatos raros e um tanto fabulosos, admitidos frequentemente pela fé na tradição e aos quais falta o controle de uma ciência rigorosa."
Dr. J. Parrot, Étude sur la sueur de sang et les hémorragies névropathiques, em Gazette hebdomadaire de médecine et de chirurgie, 1859, p. 634.
À época em que Parrot escrevia estas linhas, não se conhecia ainda o suor vermelho de origem microbiana que Pick, Berichte der Natur. zu Gratz, 1873, e Hoffmann, Wiener med. Wochenschrift, 1873, na Alemanha, parecem ter sido os primeiros a assinalar. Babes, em 1883, Observations sur quelques lésions infectieuses des muqueuses et de la peau, em Journal de l’anatomie et de la physiologie, 1884; Barthélemy e Balzer, em 1884, Contribution à l’étude des sueurs colorées, em Annales de dermatologie, t. V, 1884, relataram novos casos, com exame microscópico, espectroscópico e químico como suporte. Babes pôde, inclusive, obter uma coloração semelhante à do suor ao cultivar o micróbio em questão sobre gelatina coagulada. Era essa uma demonstração nítida, estabelecendo a existência de uma categoria especial de suores vermelhos que, até o presente, só foi observada na região da axila, permanecendo o suor incolor em todo o resto.
A coloração avermelhada do suor não basta, portanto, para demonstrar sua origem hemática; contudo, seria um raciocínio singular apoiar-se na existência de suores vermelhos de origem microbiana para negar os suores de sangue, sob o pretexto de que o exame microscópico não teria confirmado estes últimos como confirmou os primeiros. Pode-se admitir, se se quiser, que, entre os casos de suores vermelhos observados antes do emprego ou sem o controle do microscópio, houvesse casos microbianos, mas, ainda assim, seria necessário que se tratasse de suores axilares vermelhos. Nada autoriza, a priori, o ceticismo supracitado em relação à hematidrose. Sem dúvida, possuímos hoje meios de controle que faltavam aos antigos e que são indispensáveis quando se trata de afirmar com toda certeza a presença de sangue em uma mancha mal perceptível a olho nu, mas esses meios nem sempre são necessários para reconhecer a natureza sanguínea de um líquido, e seria fazer uma injúria gratuita tanto aos antigos quanto aos modernos acreditar que eles se enganaram todas as vezes que, ao diagnosticar a hematidrose, não apoiaram esse diagnóstico em pesquisas microscópicas ou químicas.
Aliás, é inútil insistir nesse raciocínio: fatos bem autênticos de suores de sangue foram publicados, os quais são de natureza a satisfazer os espíritos, tanto pelo valor dos observadores quanto pelos meios de controle empregados. Esses fatos são em número de dois e foram relatados pelo professor Parrot, loc. cit., e pelo Dr. Magnus Huss, Cas de maladies rares observées et commentées, no Archiv. gén. de médecine, agosto de 1885. Ambos reconheceram ao microscópio a natureza sanguínea do suor de seus pacientes, de modo que suas observações, embora pouco numerosas, bastam para legitimar todas ou quase todas as observações similares. Há, portanto, entre os suores vermelhos, um grupo de suores de sangue, assim como há um grupo de suores microbianos.
No caso de Parrot, o sangue escapava da pele da testa e formava como uma coroa em torno da raiz dos cabelos; na dobra das pálpebras inferiores, escorria em quantidade bastante considerável para que se pudesse recolher várias gotas. No caso de Magnus Huss, «não era ordinariamente senão do crânio que a enferma sangrava, mas outras vezes a hemorragia efetuava-se pelos cílios; mais raramente em torno dos pelos da axila esquerda, dos pelos do mamilo esquerdo, uma vez pela raiz dos pelos do púbis; três vezes hemorragia dos condutos auditivos esquerdos», etc., etc. Caizergues, de Montpellier, diz, a propósito de uma enferma observada por ele: «Não fui pouco surpreendido ao examinar seu rosto, seu pescoço, a parte anterior do peito, o cavado das axilas, etc., ao ver suar, sem qualquer lesão de continuidade da pele, através dos poros deste órgão, gotículas de um sangue muito vivo, muito vermelho e de uma consistência natural. À medida que essas gotículas transudavam, eram substituídas por outras que, escapando assim através da pele, estendiam-se por toda a sua superfície, formavam uma espécie de orvalho e um verdadeiro suor. Quando a enferma se levantou, os lençóis, as camisas, tudo estava tingido de sangue, o que anunciava que o suor tinha sido geral.» Nesta enferma, a hematidrose retornava por acessos separados por vários meses de intervalo, e o autor diz de um deles que «a efusão de sangue pelo órgão cutâneo foi geral e excessivamente abundante». Annales cliniques de Montpellier, novembro de 1874.
É necessário citar outros exemplos? Não creio, da mesma forma que não creio ser útil investigar se o sangue assim exalado na superfície do corpo sai realmente das glândulas sudoríparas, se o fenômeno merece realmente o nome de suor de sangue. Os autores discutiram abundantemente sobre isso e dão excelentes razões para provar que, entre as glândulas da pele, são as sudoríparas que parecem mais bem dispostas para a produção do fenômeno, graças à delicadeza de sua estrutura e às suas relações vasculares, mas faltam-lhes provas materiais, isto é, não constataram ao microscópio a presença do sangue nos condutos dessas glândulas. Isso importa pouco na espécie: «A hemorragia», diz Parrot, ibid., «tem por sede um órgão secretor, eis o fato importante: quanto a determinar a variedade de glândulas pelas quais o sangue escapa, essa é uma questão secundária.»
II. CONDIÇÕES EM QUE SE PRODUZEM. É muito mais interessante, aqui, determinar as condições nas quais se observou a hematidrose. Ora, sob esse aspecto, a análise das observações demonstra que ela está intimamente ligada a transtornos do sistema nervoso ou às impressões morais. «É em meio ao turbilhão sintomático, ao mesmo tempo tão completo e tão variado das doenças essencialmente nervosas, que a vemos aparecer. Quase sempre ela está associada a outros acidentes e ao mais habitual, sem contestação, desses acidentes: a dor. Algumas vezes a hemorragia e a dor têm um foco comum, mas não se concentram sempre em um mesmo ponto e têm, ao contrário, por sede, partes mais ou menos afastadas. Em certos casos, a hemorragia manifesta-se isoladamente, fora de qualquer conexão com fenômenos neuropáticos. As mulheres são mais sujeitas a ela do que os homens. Raro na infância, esse acidente parece ser particular à juventude e à idade adulta; não tenho conhecimento de que tenha sido observado na velhice. Um temperamento nervoso, uma natureza impressionável, um caráter irascível predispõem singularmente a ele. Entre as causas determinantes, o pavor, a cólera, o medo, um desgosto violento, uma contrariedade viva, a alegria, os grandes prazeres e as grandes dores, em uma palavra, as perturbações morais de toda sorte, ocupam o primeiro lugar.» Parrot, ibid.
Feitas essas constatações, pode-se ir além e precisar o mecanismo da ação nervosa na produção da hematidrose? Até o presente, esse fenômeno não pôde ser realizado experimentalmente, embora a secreção sudoral tenha sido objeto de pesquisas numerosas por parte dos fisiologistas. Estes demonstraram que o funcionamento das glândulas sudoríparas, isto é, a produção de suor, é, antes de tudo, um ato de atividade celular próprio às células epiteliais que revestem os canais dessas glândulas e regulado por nervos especiais ditos nervos excito-secretores. Os nervos excito-secretores podem agir sozinhos ou conjuntamente com os nervos vaso-motores, cujo papel consiste em aumentar ou diminuir a quantidade de sangue na rede vascular das glândulas sudoríparas. Se agem sozinhos, a pele permanece pálida e há suor frio, fenômeno que não exclui, aliás, a ação vasoconstritora: nessas condições, a hematidrose não é possível, visto que os capilares sanguíneos dos aparelhos sudorais não estão distendidos. A hematidrose só é possível se a ação nervosa vasodilatadora congestionou esses capilares a ponto de determinar a sua ruptura; então, o sangue derrama-se na atmosfera conjuntiva da glândula, rompe a fina barreira epitelial que a separa do canal glandular e, por esse canal, vem supurar à superfície da pele.
Ao lado dos fatos onde a hematidrose está manifestamente sob a dependência de transtornos nervosos ou de impressões morais, há outros onde ela se explica por diversas alterações do sangue. É assim que foi assinalada no escorbuto, no curso de febres malignas e na hemofilia; mas, em suma, esses casos são raros e não fazem mais do que confirmar a possibilidade do fenômeno. Não insistiremos, portanto, e diremos, para concluir:
III. O SUOR DE SANGUE DE CRISTO. — 1° O relato de São Lucas não oferece nada de inverossímil, visto que outros observadores relataram fatos do mesmo gênero.
2° O suor de sangue experimentado por Nosso Senhor Jesus Cristo é um fenômeno da ordem natural, provavelmente provocado Nele pela iminência da morte terrível que Ele iria sofrer. « E, estando em agonia, orava com mais intensidade e o suor tornou-se como gotas de sangue que escorriam até a terra. » Lucas, XXII, 43, 44.
3° Este suor que escorria até a terra foi suficientemente abundante para enfraquecer grandemente Nosso Senhor, e deve-se considerar como não natural a força demonstrada por Ele em seguida? Não se saberia responder a esta dupla questão porque não se sabe nem a duração do suor sangrento, nem a sua repartição. Foi ele geral ou simplesmente localizado na face? Na primeira hipótese, ele poderia evidentemente determinar um abatimento, como qualquer hemorragia um pouco séria; na segunda, a saída de algumas gramas de sangue poderia bastar para a produção do fenômeno, constituindo assim uma perda sanguínea insignificante por si mesma, importante apenas enquanto manifestação das angústias morais do Salvador.
Autor original: A. DURAND E DR. BARABAN
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