AGONIA DE CRISTO. AUTENTICIDADE DO RELATO

AGONIA DE CRISTO. AUTENTICIDADE DO RELATO

AGONIA DE CRISTO. Autenticidade do relato (Lucas, XXII, 43, 44). — I. Autenticidade dos dois versículos. II. Explicação da divergência dos textos.

I. AUTENTICIDADE DOS DOIS VERSÍCULOS. — Não é de hoje que se percebe que, neste ponto, os textos e as versões de São Lucas apresentam divergências. Santo Hilário, De Trinit., IV, 1, P. L., t. x, col. 101, já observava que, na maioria dos exemplares, tanto gregos quanto latinos, nada se encontrava a respeito da aparição do anjo e do suor de sangue. São Jerônimo, Dial. adv. Pelag., I, 16, P. L., t. xxIII, col. 552, confirma esse testemunho ao dizer que esses dois versículos são lidos apenas em poucos exemplares, fossem eles gregos ou latinos. Santo Epifânio conheceu também textos gregos nos quais os ortodoxos haviam suprimido esse relato. Ancor., xxxi, P. G., t. XLIII, col. 73º (É verdade que Grotius e Petau, reproduzidos por Migne, entenderam essa observação de Santo Epifânio não como referente a Lucas, XXII, 43, 44, mas a Lucas, XIX, 41º Se um estudo atento de toda a passagem mostra claramente que, gramaticalmente, essa opinião parece mais aceitável, ela é totalmente insustentável do ponto de vista da crítica literária. Aliás, a frase trai, nesse lugar, tanto mal-estar que é preciso admitir, ao que parece, alguma alteração do texto original.) Finalmente, o fato de Santo Ambrósio, P. L., t. xv, col. 1818, e São Cirilo de Alexandria, P. G., t. LXXIV, col. 921, omitirem, ao comentar São Lucas, a explicação da passagem, dá a entender que o texto deles não a continha.

II. Os antigos manuscritos. — Ocorre que, de fato, um estudo comparado dos antigos manuscritos, tanto do texto grego quanto das versões, permite distribuí-los em duas categorias. Uns omitem a passagem em questão ou a acompanham com sinais restritivos; outros admitem-na com o mesmo título que o restante. Segue a lista completa dessas testemunhas antigas, tal como a crítica textual hoje permite elaborar. À medida que avançamos, avaliaremos o alcance dos testemunhos a favor e contra.

Omitem Lucas, XXII, 43, 44, os unciais N*ABRT (veja-se sobre os manuscritos aqui designados o artigo Lucas [Evangelho de São]); mas é notável que N o possuía primitivamente, surgindo mais tarde um corretor (διορθωτής) que buscou apagá-lo. A deve ter sido transcrito de um apógrafo que continha os dois versículos 43 e 44, uma vez que liga ao segundo membro do versículo 42 a seção (a) dos cânones ditos de Eusébio, a qual diz respeito, na realidade, aos versículos 43 e 44º Tenta-se eludir o alcance dessa observação dizendo que o copista não teria solicitado o texto e a divisão do mesmo apógrafo; o que é, no caso, uma suposição, no mínimo, gratuita. — Não poderia ser questão aqui de C, que está truncado a partir de Lucas, XX, 19; mas os versículos 43 e 44 foram ali acrescentados à margem tertia manu após Mateus, XXVI, 39º — Os cursivos 124, 561 omitem-nos completamente; 13 tem apenas, de primeira mão, as palavras ὤφθη οὖν, o restante foi adicionado à margem; de onde se pode concluir que foi esquecido ou omitido voluntariamente. Em T, 128, 344, 440, 512, esses versículos estão assinalados por um óbelo, e, mesmo em 440, o versículo 43 é de segunda mão. Em 22, 24, 36, 161, 166, 274, 408, possuem um asterisco que bem pôde ser uma simples indicação para a leitura pública. Finalmente, 34 tem uma nota para advertir que esses versículos faltam em certos exemplares. Isto quanto aos textos, passemos agora às versões. — O códice Brix. f é o único exemplar das versões latinas ante-jeronimianas que omite esses versículos; uma dezena de manuscritos da versão boáirica negligencia-os igualmente; são eles, segundo Lightfoot, cod. 2, 4, 8, 9, 16, 17, 19, 22, 26; enquanto 1 e 20 trazem-nos à margem. Encontramo-los de primeira mão em 3, 14, 21 e 18, mas em caracteres menores. Ausentes também da versão siríaca encontrada em 1895 no Sinai, pela Sra. Lewis. — Omitidos também em todos os Evangeliários gregos conhecidos e pelo códice 69 e seus acólitos 178, 443, que lhes são aparentados. Mas é soberanamente importante notar que esses mesmos evangeliários possuem todos, assim como C, os dois versículos em questão após Mateus, XXVI, 39, onde fazem parte da leitura pública marcada para a quinta-feira da Semana Santa. Os cursivos 346, 547 e 13 (este último, à margem) apresentam também a passagem, não apenas em São Mateus, mas ainda em seu lugar primitivo em São Lucas; o que fazem também alguns manuscritos armênios. O evangeliário siríaco, dito de Adler (Assémani n. 2), traz à margem uma nota de origem filoxeniana para advertir que essa passagem não se encontra nos evangelhos alexandrinos.

Ao contrário, Lucas, XXII, 43, 44, lê-se sem qualquer hesitação em NDEGHKLMQUXA 1 e todos os outros cursivos conhecidos, à exceção daqueles de que acabamos de falar; nas versões siríacas Peschito, Cureton (que omite ὤφθη οὖν), harcleana, hierosolimitana (esta última trazendo um óbelo à margem); nas versões etíope, copta, armênia e árabe; nas versões latinas ante-jeronimianas a b c e ff² g¹,², i l q, em todos os manuscritos da Vulgata; finalmente, no Diatessaron de Taciano, que data do século II. Cf. ed. Ciasca, p. 55, e Moesinger, p. 235.

A qualidade das testemunhas ouvidas predispõe já em favor da autenticidade, mas se dos textos e das versões passamos aos escritos dos Padres, é à certeza que o exame deve conduzir. Os adversários, assim como os partidários da autenticidade, concordam quanto ao fato e à exatidão dessas citações; portanto, limitamo-nos aqui àquelas que são mais antigas e particularmente significativas. Que baste nomear São Justino, P. G., t. VI, col. 717, Santo Irineu, P. G., t. VII, col. 957, Santo Hipólito, P. G., t. x, col. 828, São Dionísio de Alexandria, P. G., t. X, col. 1592, Santo Epifânio, P. G., t. XLIII, col. 73, São Crisóstomo, P. G., t. LXI, col. 746; Teodoreto, P. G., t. LXXX, col. 961; t. LXXXIII, col. 325, Santo Efrém, Evang. concord. Exposit., ed. Moesinger, p. 235, São Jerônimo, P. L., t. XXIII, col. 552, Santo Agostinho, P. L., t. XXXIV, col. 1165, Santo Hilário, P. L., t. x, col. 375, que é incerto, o Pseudo-Dionísio, o Areopagita, P. G., t. III, col. 181, Ário, Nestório, P. G., t. XLVIII, col. 232, Teodoro de Mopsuéstia, P. G., t. LXVI, col. 725, etc. Que não se diga que os Padres puderam conhecer a aparição do anjo e o suor de sangue exclusivamente pela tradição; pois eles encontram esse relato no Evangelho ou, ao menos, fazem dele um uso manifestamente escriturístico: "Mais de quarenta autores célebres, espalhados por todos os países da antiga cristandade, reconhecem que esses versículos pertencem ao Evangelho; quatorze deles são tão antigos, e vários muito mais antigos que os mais velhos manuscritos sobreviventes do Evangelho." Burgon, Revision revised, p. 81º O Pseudo-Dionísio poderia, sozinho, causar alguma dificuldade, mas não se deve esquecer que, no estilo dos autores eclesiásticos, a palavra παράδοσις nem sempre significa a tradição por oposição à Escritura; às vezes deseja-se designar por aí a própria Escritura, tal como é garantida pela tradição. Este último sentido seria, no caso, inteiramente ad rem, já que o autor se utiliza aqui de um texto que vários exemplares não continham.

Todos os editores do Novo Testamento consideraram nossa passagem como autêntica. Lachmann (1842) foi o primeiro a se aventurar a imprimi-la entre colchetes. Depois vieram os Srs. Westcott e Hort, que a consideram uma interpolação de origem ocidental, feita muito cedo e a partir de alguma tradição. O sentimento deles repousa, acima de tudo, na confiança excessiva que depositaram em B. Esse é o fundamento de todo o seu sistema crítico e é também o que o torna frágil. Começa-se a ver e a dizer isso. Srs.

Tischendorf, Hammond, Scrivener, Gebhardt e Nestle são de opinião contrária e pronunciam-se resolutamente a favor da autenticidade.

II. EXPLICAÇÃO DA DIVERGÊNCIA APRESENTADA PELOS TEXTOS. — Resta dar conta da divergência apresentada pelos textos. Como ela se produziu? Foram dadas a esta questão várias respostas, cujo valor importa apreciar.

1° Os docetas, vendo que esta passagem era decisiva contra eles, tê-la-iam feito desaparecer, e a alteração ter-se-ia reproduzido, multiplicada pela transcrição. — Esta hipótese não repousa sobre nenhum testemunho positivo. Além disso, é inadmissível que uma seita relativamente restrita tenha conseguido fazer prevalecer o seu texto ao ponto de ser, no século IV, o mais comumente recebido, tanto no Oriente quanto no Ocidente, se devemos acreditar em Santo Hilário e São Jerônimo.

2° Os ortodoxos, isto é, os católicos da época, suprimiram-na, ao menos na leitura pública, com receio de que o espetáculo de Cristo agonizante, reduzido a ser confortado por um anjo, fosse interpretado, em sentido ariano, como uma inferioridade do Verbo. P. G., t. XLII, col. 231, 299; t. XLV, col. 73, 83º Fócio acusa os sírios desta ressecção; Nicônio, Isaac, o Católico, e outros ainda tornam os armênios responsáveis por ela. Santo Epifânio, como já dissemos; e se o seu testemunho não incide sobre Lucas, xxii, 43, 44, ele tem certamente por objeto um caso absolutamente semelhante. — Por mais plausível que seja esta hipótese, ela não leva em conta o fato incontestável de que os versículos suprimidos de São Lucas leem-se em São Mateus, xxvi, 39; e isso precisamente nos evangeliários destinados à leitura pública. De que serviria calar no terceiro o que se publicava no primeiro?

Resta uma terceira explicação que parece muito mais aceitável; Scrivener não hesita em fazê-la valer. Sabe-se, sem sombra de dúvida, que durante os primeiros séculos houve várias tentativas de concordância evangélica. Do relato quádruplo, fazia-se um só, tão completo quanto possível, sem repetições nem lacunas. O monumento mais notável deste gênero é o Diatessaron de Taciano. Sem ir tão longe, os redatores dos evangeliários ter-se-iam inspirado na mesma ideia. Quando se tratava de fixar de modo estável a leitura a ser feita para uma festa dada, era necessário optar pelo relato de um dos quatro. Mas, se se detinham em São Mateus, por exemplo, cuidavam de completá-lo mediante a intercalação de fragmentos extraídos dos outros três, caso o relato do primeiro Evangelho estivesse incompleto. É fácil imaginar que confusão este procedimento não tardou a causar no texto bíblico. Não estamos aqui reduzidos a uma simples conjectura; São Jerônimo, P. L., t. XXX, col. 528, no seu prefácio ao Papa Dâmaso, diz claramente como era: Magnus siquidem hic in nostris codicibus error molevit, dum quod in eadem re alius Evangelista plus dixit, in alio quia minus putaverint, addiderunt. Veldum eumdem sensum aliter exposuit, ille qui unum e quatuor primum legerat, ad ejus exemplum ceteros quoque emendandos existimaverit. Unde accidit ut apud nos mixta sint omnia et in Marco plura Luce atque Matthei. Rursum in Mattheo plura Joannis et Marci et in ceteris reliqua quae aliis propria sunt inveniantur. A inserção de Lucas, xxii, 43, 44, em Mateus, xxvi, 39, não é um caso isolado. Para nos limitarmos aqui a um único exemplo, pode-se constatar, nesta mesma seção, que os manuscritos prescrevem ler, na quinta-feira à noite da Semana Santa, a intercalação do lava-pés: João, xiii, 3-17, transportado entre o versículo 20 e o versículo 21 de Mateus, xxvi. O hábito que se tinha de escrever e ler Lucas, xxii, 43, 44, após Mateus, xxvi, 39, passou dos evangeliários para alguns exemplares comuns dos Evangelhos; depois, a alteração propagou-se ao ponto de ser bastante comum no mundo greco-romano no século IV. Menos de três séculos mais tarde, as versões interpoladas tinham retornado ao seu lugar primitivo, e o antigo erro não restava senão em um pequeno número de exemplares. É Santo Anastácio do Sinai que no-lo ensina, P. G., t. LXXXIX, col. 290. Ele dá até a razão desse triunfo definitivo da integridade do texto evangélico: «Pode-se bem, diz ele, falsificar uma lição em um número mais ou menos grande de exemplares gregos e latinos; mas como alterar todas as versões que já existem em setenta e duas línguas?» É também a observação de São Jerônimo nesse mesmo prefácio ao Papa Dâmaso, que acabamos de citar: Nec emendare quid licuit, nec profuit, cum multarum gentium linguis Scriptura ante translata doceat falsa esse quae addita sunt.

Sugerimos, ao terminar, uma última hipótese. Os mais antigos testemunhos — os de São Justino e de Santo Irineu — estabelecem, é verdade, que o relato do suor de sangue era lido no texto evangélico do século II (São Justino diz isso expressamente); mas eles não precisariam se era em São Lucas ou em São Mateus. Desde então, não se poderia supor que ele tenha sido acrescentado cedo? Talvez até a suspeita da qual foi objeto se relacione a alguma reação contra o culto excessivo aos anjos que São Paulo condena em sua Epístola aos Colossenses, ii, 18º Ele terá permanecido mais ou menos errante até a época bastante tardia em que se fixou definitivamente em São Lucas, e com razão, uma vez que sua terminologia a ele o liga nitidamente. Desta forma, explicar-se-ia melhor o estado do aparato crítico que se apresenta aqui com um caráter muito complexo. Embora as três grandes famílias de textos se encontrem representadas de ambos os lados, parece, contudo, que o texto ocidental e o texto sírio, em sua maioria, atribuem-no a São Lucas, enquanto o texto alexandrino omite-o.

Seja como for a sua explicação, o fato em si permanece solidamente estabelecido; o estudo crítico dos documentos escritos dá o direito de concluir que Lucas, xxii, 43, 44, faz parte integrante e autêntica do texto evangélico. Para as razões teológicas que militam em favor da mesma conclusão, ver o verbete VULGATE.

Scrivener, A plain Introd. to the criticism of the new Test., t. II, p. 353-356; Westcott et Hort, The new Test. in the orig. greek, Append., p. 64-67; Cornely, Introd. in U. T. libros sacros, t. I, p. 133; J. P. P. Martin, Introduction à la critique textuelle du Nouveau Testament. Partie pratique, t. II, in-4° (lithograph.), Paris, 1884-1885.

Autor original: A. Durand

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