Algumas notas escritas à margem de um manuscrito de Beda, que se encontra na Biblioteca Vallicelliana em Roma, fornecem as datas principais da vida de Agobardo (Pertz, Monum. German. scriptor., t. I, p. 110). Nascido em 779 e provavelmente na Espanha, foi levado, três anos depois, para a Gália Narbonense, onde foi encontrado por Leidrad, bispo de Lyon, que o levou para essa cidade, ordenou-o padre em 804 e sagrou-o bispo em 813. Com a renúncia desse prelado em 814, Agobardo sucedeu-lhe, mas só se tornou verdadeiramente arcebispo de Lyon em outubro de 816, após a morte de Leidrad. Seguem-se os principais fatos do seu episcopado. Em 821, dirigiu-se à abadia de Aniane, onde se procedia à eleição de um abade (Mabillon, Annal., t. II, p. 474); no ano seguinte, assistiu ao concílio de Attigny, onde Luís, o Piedoso, fez uma penitência pública de suas faltas (Agobardo, De dispensatione eccles. rerum), e em 823 ao de Compiègne, onde se tratou de disciplina (Ibid.). Antes de 825, o imperador Luís dirigiu aos bispos uma carta anunciando-lhes que tomava sob sua proteção David, José e a comunidade dos judeus de Lyon (Monum. German. legum, sect. V, p. 310). Em 825, encontramos Agobardo no concílio reunido em Paris para a questão das imagens; acredita-se que foi ele quem compôs o tratado enviado pelo concílio ao imperador Luís e, por intermédio deste, ao papa Eugênio II (Mansi, Concil., t. XIV, col. 425; P. L., t. XCVIII, col. 1303). No final de maio de 829, Agobardo presidiu em Lyon um concílio cujas atas estão perdidas (Mansi, loc. cit., t. XV, append., p. 44, 446; P. L., t. XCVII, col. 592; t. CIV, col. 13). Sabe-se, no entanto, que ele escreveu ali ao imperador suas duas cartas ou tratados De insolentia Judaeorum e De judaicis superstitionibus. No concílio de Langres, em 830, subscreveu um diploma em favor do mosteiro de Béze (P. L., t. CLXII, col. 876) e, por essa época, contraiu uma união de preces com o mosteiro de Reichenau, na Suíça (Monum. German. Confraternitas Augiensis, p. 257). Em 833, por volta de junho ou outubro, teve lugar o concílio de Compiègne, onde Luís, o Piedoso, foi privado do império; para justificar essa deposição, Agobardo escreveu a Lotário um Libellus de conventu apud Compendium et de publica Ludovici penitentia (P. L., t. CIV, col. 319). Retornando ao poder, o imperador Luís realizou um concílio, no verão de 835, em Stranviacum (Crémieux, Isère, ou Tramoyes, Ain), e depois outro em Thionville, onde Agobardo foi deposto (O Astrônomo, Vita Ludovici Pii, ano 836). O arcebispo de Lyon retirou-se para a Itália e, três anos depois, recuperou o favor e reassumiu sua sé (Adon, Chronic., em P. L., t. CXXIII, col. 135); em 6 de setembro de 838, assistiu ao concílio de Quercy (P. L., t. CIV, col. 1292) e morreu em 6 de junho de 840. Os martirológios de Lyon e de Saint-Claude, assim como a crônica de Saint-Bénigne de Dijon, são testemunhas do seu culto.
Podem-se classificar da seguinte forma os escritos de Agobardo: 1º Tratado contra Félix de Urgel. Este passara a vida a sustentar o erro do adocionismo, que não era mais do que um nestorianismo disfarçado. Exilado em Lyon, ele deixara, ao morrer e apesar de suas retratações, um tratado defendendo esse erro; daí a obra que escreveu Agobardo para refutá-lo, composta por múltiplas citações dos Padres; 2º as obras citadas anteriormente contra os judeus, De insolentia Judaeorum e De judaicis superstitionibus; convém acrescentar-lhes duas consultas sobre a conduta a adotar em relação aos escravos que pediam o batismo e pertenciam a mestres judeus, e uma carta a Nebrídio, bispo de Narbona, sobre os inconvenientes das relações frequentes entre judeus e cristãos; 3º uma vigorosa protestação de Agobardo contra a antiga lei de Gondebaldo, rei dos Burgúndios, que obrigava a terminar os processos por meio do duelo. O bispo de Lyon voltará a este tema em outro tratado, onde condena também as ordálias da água e do fogo; 4º Tratados de pastoral. Primeiramente, o opúsculo De privilegio et jure sacerdotii, cujo título indica bem a sua natureza; depois, a carta a Matfred para obter a cessação dos abusos cometidos pelos senhores contra os bens eclesiásticos, assunto que será ainda tratado no De dispensatione ecclesiasticarum rerum; por fim, o tratado De modo regiminis ecclesiastici, endereçado ao clero de Lyon e contendo excelentes conselhos; pode-se juntar o De fidei veritate et totius boni institutione, tratado moral dirigido aos fiéis; 5º Agobardo atacou com força a superstição sob as suas formas inumeráveis; citemos os tratados Contra insulsam vulgi opinionem de grandine et tonitruis, a carta a Bartolomeu, bispo de Narbona, a respeito de uma doença infecciosa contra a qual se empregavam por vezes sortilégios; 6º Tratado sobre as imagens, do qual se falou anteriormente. Barônio e vários outros estimam que Agobardo se desviou, nesta obra, da fé católica; cumpre contudo observar que o objetivo do bispo de Lyon era combater aqueles que sustentavam a adoração das imagens (ver ADORAÇÃO); certas expressões incidentais e evidentemente exageradas não seriam suficientes para fazer crer que Agobardo era iconoclasta; há que levar também em conta as ideias que desenvolveu nos seus tratados contra as superstições: vê-se que ele tinha um horror instintivo por tudo o que pudesse conduzir a elas, como seria o culto exagerado das imagens; 7º os cinco tratados históricos que se relacionam com a deposição de Luís, o Piedoso, pesarão sempre sobre a memória de Agobardo; não se pode explicar como teve ele a triste coragem de cooperar para o exílio do seu benfeitor. O imperador Luís, grande de caráter e de coração, não guardou, aliás, rancor de Agobardo por muito tempo, uma vez que lhe restituiu a sua sé episcopal; 8º Tratados litúrgicos. Agobardo corrigira o antifonário de Lyon, cuidando para que contivesse apenas frases e textos extraídos da Sagrada Escritura. Atacado sobre este ponto por Amalário, corepíscopo de Metz, o arcebispo de Lyon defendeu a sua obra em três tratados nos quais se permite por vezes desvios de linguagem e até verdadeiras injúrias contra Amalário. Estes opúsculos, como os do corepíscopo de Metz, são dos mais interessantes e têm sido frequentemente utilizados para a história da liturgia.
Encontrar-se-á para a parte histórica de Agobardo uma bibliografia muito cuidada em U. Chevalier, Répertoire des sources du moyen âge, Bio-bibliographie, col. 39, 2385. Eis algumas indicações referentes mais especialmente à teologia deste escritor: Bluegel, De Agobardi vita et scriptis, Halle, 1865, in-8°, 40 p.; Ceillier, Hist. des auteurs eccl., 1ª ed., t. XVIII, p. 591-617; 2ª ed., t. XIII, p. 365-378, 1409-1410; Chevallard, L'Eglise et l'Etat en France au IXe siècle; S. Agobard, sa vie et ses écrits, Lyon, 1869, in-8°, xxxj-444 p.; Colonia, Hist. littér. de Lyon, t. I, p. 87-91; Dupin, Bibliothèque (1697), t. IX, p. 472-505; Hist. litt. de la France, t. IV, p. 567-583; Hundeshagen, De Agobardi vita et scriptis, Giessen, 1831; Macé, De Agobardi vita et operibus, Paris, 1846; Péricaud, em Archives du Rhone, 1825, t. I, p. 345 seg.; Dict. d'arch. chrét., t. I, col. 971 seg.
J.-B. MARTIN.
Autor original: E. MANGENOT
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