I. COAÇÃO SAGRADO DE JESUS (DEVOÇÃO AO). A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é, ao mesmo tempo, matéria da história e matéria da teologia. Tal como se propagou entre os fiéis e como foi admitida oficialmente pela Igreja como culto público, ela depende principalmente das revelações feitas à B. Margarida Maria. Não que o culto se apoie, a bem dizer, nestas revelações; ele possui seus fundamentos teológicos e foi admitido pela Igreja em si mesmo e por si mesmo; mas o culto pedido pelos fiéis que obtiveram a festa e o ofício do Sagrado Coração, o culto finalmente admitido na Igreja, é aquele que santas almas tinham vislumbrado, que a B. Margarida Maria propagou com todas as suas forças como uma devoção muito cara a Nosso Senhor.
Sendo assim, este estudo comporta duas partes: a teologia da devoção ao Sagrado Coração e o desenvolvimento da devoção ao Sagrado Coração. Estas duas partes não são independentes. Pois o que a teologia estuda não é o culto do Sagrado Coração no abstrato, mas aquele que existe de fato. É necessário, contudo, separá-las para haver clareza. Pareceria melhor, portanto, começar pela história da devoção, para examiná-la então em si mesma. Mas é mais fácil na prática estudar primeiro a devoção em si mesma, ainda que se utilize, para este estudo, os documentos fornecidos pela história e, somente depois, narrar o seu desenvolvimento. Donde: I. Teologia da devoção ao Sagrado Coração. II. Desenvolvimento desta devoção.
I. TEOLOGIA DA DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO. — Conheceremos a devoção quando soubermos qual é o seu objeto, qual é o seu fundamento, qual é o seu ato próprio. Os autores acrescentam geralmente capítulos sobre a excelência, sobre a finalidade e sobre a prática desta devoção; mas o que há de teológico nestes capítulos liga-se naturalmente a um dos pontos indicados. Parece útil, por outro lado, para a clareza, aproximar esta devoção de devoções análogas para ver em que ela lhes é semelhante e em que delas difere. Acrescentaremos algumas palavras neste sentido.
I. OBJETO PRÓPRIO DA DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO. — A questão é complexa em si mesma. Foi ainda mais complicada por dificuldades de terminologia. Deixaremos de lado os termos demasiado técnicos e tentaremos estudar as noções em si mesmas e expressá-las na linguagem corrente. É necessário primeiro, para orientar-se, recordar os diferentes sentidos em que empregamos a palavra coração no falar do dia a dia.
1. Sentidos e empregos da palavra coração. — Entendemo-la, acima de tudo, como o coração de carne, o coração material. Tomamo-lo depois num sentido figurado, onde não há mais, como visado diretamente, o coração material, mas algo concebido como em relação com ele: "Este homem tem coração, é um grande coração, é um coração vil." Que a ideia do coração material não esteja ausente destas fórmulas, vê-se por frases como esta, do poeta latino: Nihilne salit leva sub parte mamillæ? ou como esta do poeta francês: Malheureux mille fois l'homme quand la débauche A mis son premier clou sous sa mamelle gauche. Vê-se pelas frases familiares: "Você não tem, então, nada que bata aí no seu peito? Você tem, portanto, uma pedra em vez de coração?" Que, além disso, em todos estes casos, não é ao coração material que se prende o pensamento, a coisa é evidente: a frase possui um sentido de ordem moral.
Qual é este sentido moral e de que natureza é a relação concebida entre o coração material e a ideia moral que se expressa? A questão seria longa de tratar, tanto mais que este sentido é complexo e difere muitas vezes de uma língua para outra, difere por vezes na mesma língua, e que esta relação, confusamente percebida, ressente-se das ideias que se faz da fisiologia do coração e do seu papel no animal e, notadamente, no homem. Quem não sabe que cordatus homo em latim é antes um homem de senso do que um homem de coração, enquanto a palavra coração, em francês, responde ora à ideia de amor, ora à de coragem, ora à de sentimentos nobres, de vida afetiva intensa e profunda? Quem não sabe que uma fisiologia pouco exercitada deu ao coração um papel, pouco definido, mas excessivo, como órgão de toda a nossa vida íntima? A devoção ao Sagrado Coração não exige a solução de todas estas questões. Algumas noções correntes bastam para ver o seu objeto e os seus fundamentos; ela mesma, tal como é compreendida e praticada na Igreja, nos ajudará a escolher, entre estas noções um pouco confusas, aquelas que podem ser úteis para se fazer uma ideia clara e exata dela. Destaquemos, enquanto isso, o que nos mostra, após um olhar rápido sobre os fatos, a linguagem corrente.
1. A palavra coração desperta, como primeira ideia, aquela do órgão material do qual todo o mundo tem uma noção confusa, que se representa da forma convencionada que nos é familiar, que sentimos bater em nosso peito e que percebemos vagamente como em relação íntima com nossa vida física, que cessa com o batimento do coração, e com nossa vida íntima, afetiva e moral, da qual sentimos como um eco nos estados e nos batimentos deste coração.
2. Este coração material, por causa desta relação vagamente percebida, é tomado correntemente como sinal simbólico, como emblema desta vida afetiva e moral que a ele ligamos, que nele resumimos em nossas ideias e em nossa linguagem. Abrir o seu coração é desvelar seus sentimentos íntimos; dizemos que o coração nos bate forte, para dar a entender que estamos bem comovidos; dar o seu coração a alguém é dar-lhe o seu amor.
3. Nesta linguagem simbólica, é preciso distinguir, como sempre, o sinal, a coisa significada, a razão da significância. Aqui, o sinal é o coração de carne; a coisa significada é a vida íntima, a vida afetiva e moral, particularmente o amor; a razão da significância é a relação entre o coração material e esta vida íntima, esta vida afetiva e moral, este amor sentido. Esta linguagem emblemática é menos analítica que a das palavras; mas é expressiva, clara para quem compreende, rápida e compreensiva. Quando a palavra vem juntar-se a ela, é a linguagem humana por excelência, carregando ao mesmo tempo a imagem e a ideia, a coisa e a noção.
4. Acontece que o símbolo se esvazia por vezes de seu conteúdo material. Esquece-se o sinal para ver apenas a coisa significada. A palavra alma já não traz ao nosso espírito, pelo menos de uma forma consciente e distinta, a imagem do sopro pelo qual a representamos quando designamos por ela o princípio de nossa vida.
E da mesma forma pode acontecer que a palavra coração já não nos recorde diretamente senão o amor. Neste caso, resta vestígio de simbolismo na linguagem; mas ele já não está no pensamento.
5. Aqueles que estudaram de perto a devoção ao Sagrado Coração foram levados, pelo movimento das opiniões e das controvérsias, a distinguir em Jesus, assim como em nós, o coração de carne, o coração simbólico, o coração metafórico. O coração de carne é o órgão em si mesmo onde retumba o amor; o coração simbólico é ainda o órgão, mas como portador de uma ideia, como emblema de amor; o coração metafórico é o amor significado, sem atenção direta ao órgão que forneceu a palavra. Esta linguagem não é perfeita; mas é curta e cômoda; uma vez explicada, ela recorda e resume as noções. Nós a empregaremos na ocasião.
6. Finalmente, constatamos que, na linguagem corrente, passa-se sem cessar da parte ao todo, do coração à pessoa: É um grande coração! Não que a expressão seja indiferente, como se fosse a mesma coisa dizer: Jesus, ou dizer, neste sentido: O Sagrado Coração. O emprego da palavra coração significa sempre que se olha a pessoa como amante, a pessoa em sua vida afetiva e moral. É o coração de carne que é assim tomado pela pessoa? É o coração simbólico? É o coração metafórico? Não parece que seja o coração de carne em si mesmo. É antes o coração simbólico ou o coração metafórico: ora um, ora outro, conforme o pensamento veja o símbolo ou veja apenas a coisa significada.
2° O coração de carne objeto da devoção ao Sagrado Coração. — Qual é o objeto próprio da devoção ao Sagrado Coração? É o Coração de Jesus. Mas é o coração de carne por si só e em si mesmo? É o amor, por si só? É o coração de carne como emblema do amor? As três respostas foram dadas; a terceira, sozinha, é a correta. A opinião do coração metafórico ou do amor apenas foi colocada à frente por alguns inimigos da devoção, preocupados, aliás, como bons jansenistas que eram, em não romper abertamente com a Igreja, ao mesmo tempo em que guardavam as suas ideias próprias. Quando Clemente XIII, em 1765, aprovou a devoção que eles haviam combatido com todas as suas forças, tentaram triunfar até mesmo em sua derrota. O decreto dizia: « La S. C. des Rites voyant le culte du Sacré-Cœur déjà répandu dans presque toutes les parties du monde catholique, comprenant que la concession d’une messe et d’un office n’a pas d’autre effet que d’amplifier le culte déjà établi, et de renouveler symboliquement le souvenir du divin amour, par lequel le Fils unique de Dieu a pris la nature humaine et, obéissant jusqu’a la mort, a donné en exemple aux hommes, suivant sa propre parole, la douceur et l’humilité de son cœur, intelligens hujus missæ et officii celebratione non aliud agi quam ampliari cultum jam institutum, et SYMBOLICE renovari memoriam illius divini amoris, quo unigenitus Dei Filius humanam suscepit naturam, et factus obediens usque ad mortem, præbere se dixit exemplum hominibus, quod esset mitis et humilis corde. » citado por Nilles, t. I, part. I, c. III, § 4, t. 1, p. 152.
Não se podia mais sustentar que a Igreja rejeitava o culto. Mas apoiava-se na palavra symbolice para manter que ela não admitia a devoção ao coração de carne, e que ela substituía a devoção ao coração simbólico. Como se o coração simbólico se opusesse ao coração de carne e se confundisse com o amor ou coração metafórico! Ver as falsas interpretações de Fleury, de Scipion Ricci, etc., em Nilles, t. 1, p. 161, 162, 353, 354, 362, 368 sq. e passim. Outros, aliás excelentes católicos, assustados com os clamores do jansenismo ou do livre-pensamento, caíram no mesmo erro. Assim Feller no século XVIII; assim alguns outros no XIX.
Esta opinião não se sustenta diante dos textos. Uma coisa é evidente, com efeito: a devoção ao Sagrado Coração dirige-se ao coração de carne. Assim a entendia a B. Margarida Maria. É ao mostrar-lhe seu coração de carne que Jesus lhe diz: « Eis este Coração que tanto amou os homens, que nada poupou até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar o seu amor. » Assim o explicam o Pe. Croiset, o Pe. de Galliffet, todos aqueles que entenderam a devoção como a Bem-Aventurada. Assim, os postuladores da causa em 1697, em 1727 (era o próprio Pe. de Galliffet), em 1765. Assim entendiam os inimigos, e é contra a devoção ao coração de carne que eles desatinavam em termos dignos daqueles que os protestantes usavam contra a presença real de Jesus na eucaristia.
Diziam eles, é verdade, que a concessão de Clemente XIII, em 1765, havia mudado o estado das coisas, substituindo o coração simbólico pelo coração real. Não viam que a aprovação de Roma em 1765 incidia sobre aquilo mesmo que havia sido rejeitado em 1729: os bispos poloneses, em sua súplica, explicaram-se da maneira mais clara possível, e foi a esta súplica que a S. C. dos Ritos acedeu, annuendum censuit, mencionando expressamente que se afastava das decisões de 1729, previo recessu a decisis sub die 10 julii 1729. Nilles, t. I, p. 153.
Pio VI iria encarregar-se de colocar as coisas no devido lugar. Relevando na bula Auctorem fidei, em 1794, as insinuações maldosas do sínodo de Pistoia contra aqueles que esquecem, ao honrar o Sagrado Coração, « que a carne santíssima de Cristo, ou qualquer parte dela, ou mesmo a humanidade inteira, se a separamos, ou se fazemos abstração da divindade, não pode ser adorada com o culto de latria », ele retomava: « Como se os fiéis adorassem o Coração de Jesus separando-o ou fazendo abstração da divindade, enquanto eles o adoram como o Coração de Jesus, isto é, o Coração da pessoa do Verbo, à qual ele está inseparavelmente unido, tal como o corpo inanimado de Cristo, durante os três dias de sua morte, sem separação nem precisão da divindade, foi adorável no sepulcro. » Em Nilles, t. I, p. 353-354.
Às insinuações do pseudo-sínodo, o papa não responde negando que os fiéis adorem o coração de carne; mas ele mantém que eles têm razão de adorá-lo como o fazem. Na falta de outro argumento, bastaria lembrar que, no ofício do Sagrado Coração, como nos documentos que dizem respeito à B. Margarida Maria, fala-se sem cessar do coração transpassado pela lança. O culto vai, portanto, diretamente ao coração de carne. Ver em Nilles, t. I, part. II, c. III, t. I, p. 350 sq., os textos aos quais se fez alusão, assim como muitos outros.
3° O coração de carne objeto da devoção, como emblema de amor. — O culto vai ao coração de carne, mas não se detém nele.
Tudo na santa humanidade de Jesus é adorável. Mas a Igreja nunca separa uma parte desse todo divino, por mais nobre que seja, para dela fazer, em si mesma e em vista de si mesma, objeto de um culto especial. Ela poderia fazê-lo, não vemos que o tenha feito. Ela teme, como por instinto, o fervor indiscreto que, depois disto, gostaria de honrar aquilo, sem medida nem fim. Essa era uma das dificuldades que se opunha sempre aos promotores da devoção; e eles tinham de resolvê-la. Faziam-no, e muito bem, ao mostrar que havia, para honrar o Sagrado Coração, razões especiais. Demonstravam a nobreza e a dignidade deste coração, a importância deste órgão vital do corpo de Jesus. Ver, por exemplo, Galliffet, t. III, c. v, Objection; Nilles, t. I, part. II, c. III, § 4, p. 372 sq.
Mas eles não paravam por aí: mostravam no Sagrado Coração o emblema do seu amor, o sinal expressivo e eloquente das suas excelências íntimas, a representação eficaz daquilo que ele tinha sido, daquilo que ele tinha feito e sofrido por nós. Sem talvez dizer a si mesmos com clareza perfeita, tinham consciência de que, se a Igreja distingue no todo teândrico uma parte para torná-la objeto de um culto especial, é porque nela vê um sinal ou uma lembrança de uma realidade misteriosa, de um benefício especial ou de uma marca especial de amor. A festa do Corpus Christi não é tanto a festa do corpo de Jesus, mas a festa da presença eucarística, a festa do santíssimo sacramento; a das Cinco Chagas não tem tanto por objeto honrar as chagas em si mesmas ou o corpo ferido, quanto nos recordar o quanto ele sofreu por nós, e os tesouros que se escondem para nós nas suas dores. O culto da Santa Face é o culto de uma imagem venerável, que nos recorda a paixão.
A Igreja poderia, sem dúvida, prestar um culto à face adorável de Jesus na sua realidade, como também às suas santas mãos, independentemente das chagas, ou ao seu santo ombro. Fá-lo-ia se um sopro do Espírito Santo orientasse nesse sentido a devoção dos fiéis. Mas o que ela honraria não seria nem a face, nem o ombro, nem as mãos, em si mesmos e por si mesmos; seria a santa face como reflexo da alma de Jesus e dos sentimentos íntimos do seu coração; seria o santo ombro ferido pela cruz, recordando-nos o fardo que ele quis carregar pelo nosso amor; seriam as santas mãos do divino Operário, que nos diriam novamente que ele trabalhou para nos dar o exemplo. Assim, a devoção ao Coração de Jesus, embora vá a este Coração, não vai lá para deter-se: vai como ao símbolo do seu amor, como ao sinal expressivo daquilo que ele foi, daquilo que ele fez e sofreu pelo nosso amor. Não é isso que Jesus dizia a Margarida Maria? « Eis este Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-se e consumir-se por eles. »
É o coração amante que honramos. Não é nem o amor em si mesmo, nem o coração em si mesmo; é o amor de Jesus « sob a figura do seu coração de carne », como fala a Bem-aventurada; é o coração de carne, mas como emblema. O objeto próprio da devoção é o coração simbólico, o qual — não se poderia repetir demais — é o coração real, não o coração metafórico. Aqui, ainda, os documentos são muito claros e é uma maravilha que, desde as origens, se tenha explicado com tamanha precisão um culto tão complexo. Desde os tempos de Inocêncio XII (1695), vemos confrarias erigidas sob o título do Coração de Jesus e do seu perpétuo amor. Nilles, t. II, part. II, c. II, § 4, p. 338. E o Pe. de Galliffet não cessa de repetir que o objeto da devoção é « o Coração adorável de Jesus Cristo abrasado de amor pelos homens ». 1ª parte, c. IV, p. 48.
Desde 1691, o Pe. Croiset escrevia: « (A devoção ao Sagrado Coração) não se reduz a amar somente e a honrar com um culto singular este coração de carne semelhante ao nosso, que faz parte do corpo adorável de Jesus Cristo... Não é que este Coração adorável não mereça as nossas adorações... O que se pretende é mostrar que não se toma aqui esta palavra "coração" senão no sentido figurado, e que este divino Coração, considerado como uma parte do corpo adorável de Jesus Cristo, não é propriamente senão o objeto sensível desta devoção e que não é senão o amor imenso que Jesus Cristo nos dedica, que é o seu motivo principal. Ora, sendo este amor todo espiritual, não se poderia torná-lo sensível; foi, portanto, necessário encontrar um símbolo; e que símbolo mais próprio e mais natural do amor do que o coração? » 1ª parte, c. I, p. 4, 5.
No novo Memorial do Pe. de Galliffet, apresentado em 1728 sob os auspícios do rei da Polônia e do bispo de Cracóvia, é dito: « Não há nada no mundo sensível e corpóreo que possa ser com mais razão proposto ao culto dos fiéis do que este Coração sagrado, tão amante e tão aflito. Pois não há nada que contenha e represente mistérios mais sublimes; nada cuja visão... seja capaz de despertar no coração dos fiéis afeições mais santas; nada que expresse melhor aos olhos do corpo e aos da alma o amor imenso de Nosso Senhor Jesus Cristo; nada que recorde melhor todos os benefícios do muito amante redentor; nada que mostre mais sensivelmente as penas íntimas que ele sofreu por nós. Pois tudo isso não é somente contido e representado neste sacratíssimo Coração (tal como o pintam ordinariamente e o apresentam à adoração dos fiéis), nele se vê como desenhado e esculpido. » Hæc enim omnia in eo sacratissimo Corde (prout pingi solet et adorandum exhiberi, é explicado no Memorial dos bispos poloneses, que reproduz esta passagem, n. 40, Nilles, p. 121), non contenta solum ac repræsentata, sed descripta quodammodo et quasi insculpta cernuntur. Nilles, t. I, part. I, c. I, t. 1, p. 75-76.
O Memorial, apresentado pelos bispos poloneses à S. C. dos Ritos sob Clemente XIII, em 1765, exprime a mesma ideia, em termos um pouco diferentes: « Honra-se o Sagrado Coração não somente como símbolo de todos os sentimentos interiores, mas tal como é em si mesmo, » non tantum ut est symbolum omnium interiorum affectuum, sed ut est in se. Mémoriale, n. 32; Nilles, t. I, part. I, c. III, § 3, p. 116. Eles têm medo de que se entenda o coração no sentido puramente metafórico; mas querem, por outro lado, que se olhe este coração de carne como « vivente e sentinte, como cheio de amor pelos homens ». Mémoriale, n. 32, 33; Nilles, p. 116-117. Há, na Réplica às Exceções do promotor da fé, textos ainda mais claros, se possível. « Existe uma confusão em mais de um.
Eles olham o objeto próprio da festa, o coração de Jesus, de uma forma toda material..., como seria uma relíquia de um corpo santo, religiosamente conservado em um relicário. É um grande erro. Não é de forma alguma assim que se deve entender a festa do Sagrado Coração. Como se deve, pois, entendê-la? Vamo-lo dizer em alguns artigos.
É preciso considerar o Coração de Jesus: 1. como fazendo um só (por causa da união estreita) com a sua alma e a sua divina pessoa; 2. como o símbolo ou o assento natural de todas as virtudes e de todos os sentimentos interiores de Cristo, e em particular do imenso amor que ele teve pelo seu Pai e pelos homens; 3. como o centro de todas as penas íntimas que o muito amante redentor sofreu, toda a sua vida e sobretudo na sua paixão, pelo nosso amor; 4. sem esquecer a chaga que Ele recebeu na cruz, chaga causada não tanto pela lança do soldado, quanto pelo amor que dirigia o golpe.
Tudo isso é próprio ao Coração de Jesus, tudo isso se une para fazer, com o próprio Coração, o objeto desta festa; donde se segue, e este é um ponto muito digno de consideração, que este objeto assim concebido abraça verdadeira e realmente todo o íntimo de Nosso Senhor Jesus Cristo.» Mémoriale, n. 17, 18; Nilles, p. 145-146. Cf. n. 19, ibid.
Este texto diz mais do que era necessário presentemente, e nós o reencontraremos em breve. Vê-se nele, por ora, que a devoção não se detém no coração de carne; mas ela se estende a tudo o que ele recorda, a tudo o que ele representa. Os documentos oficiais são mais breves; não são, por isso, menos claros em favor do coração simbólico. Alguns deles insistem tanto, que se viu neles (por equívoco, aliás) a negação do coração físico. Já citamos o symbolice renovari do decreto de 1765.
O hino de Laudes, no ofício da festa, diz-nos a mesma coisa: Te vulneratum caritas Hoc sub amoris symbolo Ictu patenti voluit, Passus cruenta et mystica Amoris invisibilis Utrumque sacrificium Ut veneremur vulnera. Christus sacerdos immolat.
Mesma doutrina na sexta lição: Ut fideles sub sacratissimi Cordis symbolo devotius ac ferventius recolant caritatem Christi. Pio VI, em 1781, repelindo os ataques injuriosos de Ricci, escrevia que a devoção consiste, em substância, em meditar, na imagem simbólica do Coração, a caridade imensa e o amor tão liberal de nosso divino redentor; ut in symbolica Cordis imagine immensam caritatem effusumque amorem divini redemptoris nostri meditemur atque veneremur. Nilles, t. I, part. II, c. 1, § 2, t. 1, p. 345.
Caráter simbólico das imagens do Sagrado Coração. — Eis o que deve estar adquirido. É de fato o coração de carne que honramos na devoção ao Sagrado Coração, mas enquanto ele nos recorda e nos representa, em um símbolo eloquente, o amor e os benefícios do Deus feito homem; é o coração de carne, mas como símbolo, como representação viva.
Compreende-se desde logo que, nas imagens do Sagrado Coração, preocupa-se pouco com a exatidão fisiológica. É o coração emblema que se deve apresentar aos fiéis. Ora, há nos sinais, mesmo naturais, uma parte de convenção, que se deve respeitar, sob pena de perder em expressão o que se ganharia em realidade material. Em uma imagem do Sagrado Coração, exata como uma prancha de anatomia, os fiéis teriam dificuldade em ver o simbolismo do coração.
Chegar-se-ia talvez, por uma longa educação, a não ficar mais tão desconcertado. Mas não há dúvida de que há vantagem em uma certa distinção entre o coração emblema e o coração anatômico: o convencional da imagem é favorável ao simbolismo. Além disso, não eram lições de anatomia que a B. Margarida Maria recebia em suas visões. É sempre sob formas fictícias que o Sagrado Coração lhe era mostrado, e os próprios acessórios da imagem destinam-se a afastar as ideias de um realismo grosseiro para fazer valer tanto mais a expressão simbólica.
Os testemunhos da Bem-aventurada são muito instrutivos neste sentido. «Este Sagrado Coração, diz ela em seu Memorial, era-me representado como um sol brilhante de uma luz resplandecente, cujos raios, todos ardentes, incidiam a prumo sobre meu coração.» Vie et œuvres, 2ª ed., t. I, p. 381 (1ª ed., p. 327).
«Uma vez entre as outras... meu doce Mestre apresentou-se a mim todo resplandecente de glória com suas cinco chagas, brilhantes como cinco sóis. E desta sagrada humanidade saíam chamas de todas as partes, mas sobretudo de seu adorável peito que parecia uma fornalha, e, tendo-se aberto, descobriu-me seu todo amante e todo amável Coração, que era a viva fonte dessas chamas.» Loc. cit.
Mas nada vale a este respeito o que ela escreve ao Pe. Croiset, em 3 de novembro de 1689, descrevendo-lhe uma das principais manifestações do Sagrado Coração. «Este divino Coração foi-me apresentado como em um trono de chamas, mais radiante que um sol e transparente como um cristal, com sua chaga adorável. Estava rodeado por uma coroa de espinhos, que significava as picadas que nossos pecados lhe faziam, e uma cruz acima significava que desde os primeiros instantes de sua encarnação... a cruz ali foi plantada.» Lettres inédites, carta iv, p. 141. É de fato o Coração de Jesus, seu coração de carne, que lhe é mostrado; mas sempre, vê-se, de modo a fazer valer a expressão simbólica.
Os dois elementos da devoção ao Sagrado Coração; sua subordinação: O amor, objeto principal. — Há, portanto, dois elementos na devoção ao Sagrado Coração: um elemento sensível, o coração de carne, um elemento espiritual, o que recorda e representa este coração de carne. E os dois elementos fazem apenas um, como fazem apenas um o signo e a coisa significada.
Os autores dizem correntemente que há dois objetos na devoção, um principal, que eles remetem ao amor, o outro secundário, que é o coração. E isto é verdade. Mas não se quer dizer — todos eles fazem a observação — que haja aí dois objetos distintos, puramente coordenados; ou que um dos dois seja um acessório na devoção, como a ideia lhes foi por vezes atribuída. Ver Nilles, l. I, part. II, c. 1, § 7, t. 1, p. 333, nota.
Os dois elementos são essenciais na devoção, como a alma e o corpo no homem; e eles fazem apenas um, como a alma e o corpo fazem o homem. Mas, como a alma prevalece sobre o corpo, e é o principal no homem, assim o principal na devoção ao Sagrado Coração é o amor do Deus feito homem. É, creio eu, o pensamento de todos aqueles que a estudaram de perto. É, em todo caso, o pensamento da B. Margarida Maria; é o dos principais teólogos da devoção e é o da Igreja.
É como «todo amante e todo amável» que Margarida Maria vê o Sagrado Coração; o coração que Jesus lhe descobre, é «este Coração que tanto amou os homens». Os teólogos da devoção explicam-se no mesmo sentido.
O Pe. Croiset começa assim sua obra sobre A devoção ao Sagrado Coração: «O objeto particular desta devoção é o amor imenso do Filho de Deus, que o levou a entregar-se por nós à morte e a dar-se todo a nós no santíssimo sacramento do altar.» 1ª part., c. 1, p. 1. E após algumas explicações: «É fácil ver que o objeto e o motivo principal desta devoção é o amor imenso que Jesus Cristo tem pelos homens, que não têm a maioria senão desprezo ou indiferença por Ele.» Loc. cit., p. 2.
O Pe. de Galliffet, aos que pretendiam que a festa nova não se distinguia das outras festas como a da paixão, do santíssimo sacramento, etc., respondia: «O objeto imediato destas festas não é propriamente o amor de Cristo. Na do Coração de Jesus, pelo contrário, o amor de que arde este Coração santíssimo é o objeto imediato da festa, em união com o seu Coração: de sorte que se pode dizer em verdade que o amor de Cristo para com os homens é propriamente e imediatamente visado nesta festa.» Citado por Nilles, l. I, part. II, c. 1, § 1, p. 340. Ele dizia um pouco mais tarde: «Ninguém pode examinar com um pouco de atenção a natureza desta festa sem ver logo que, sob o nome e o título do Coração de Jesus, trata-se na realidade da festa do amor de Jesus. Pois essa é a essência do Coração de Jesus.» Citado por Nilles, loc. cit., p. 336.
O P. Ferdinand Tetamo dizia em sua obra sobre o Sagrado Coração, publicada em 1779: «A festa do Sagrado Coração tem por objeto o amor de N.-S. J.-C. simbolicamente representado no coração material.» E o mestre das cerimônias do palácio apostólico, em 1860, citava estas palavras como expressando a doutrina admitida por todos. Ver Nilles, loc. cit., p. 342.
Os documentos oficiais dizem a mesma coisa. Já citamos a fórmula de concessão de indulgências «em favor do Sagrado Coração e de seu perpétuo amor». Na oração da festa do Sagrado Coração dizemos: «Gloriando-nos no Coração santíssimo de vosso Filho bem-amado, repassamos os principais benefícios de sua caridade.» Não, note-se bem, apenas seus benefícios, mas os benefícios de seu amor, sua caridade benfazeja. Viram-se acima as palavras de Pio VI: «Sob a imagem simbólica do coração meditamos e veneramos a imensa caridade e o amor liberal de nosso divino redentor.» Inútil multiplicar os textos. Todos estão de acordo sobre o fundo das coisas.
6º A relação do coração ao amor na devoção: acordo de fundo, divergências acessórias. — Mas há certas divergências quando se trata de definir a relação do coração ao amor e do amor ao coração na devoção. Algumas estão apenas na maneira de falar. Aplicaram-se em sentidos diversos os termos de objeto primeiro e de objeto segundo, de objeto material e objeto formal, de motivo e de fim. Ver Terrien, l. I, c. II, p. 24, 25; Vermeersch, Études, 1906, t. cv, p. 170; Letierce, t. 1, p. 440, nota.
Outras são mais de perspectiva e de ponto de vista. Assim, o P. Croiset insiste muito menos no coração de carne do que no amor; o P. de Galliffet preocupa-se sobretudo com o coração de carne, e é a isso que ele remete tudo. Eles não têm uma ideia diferente da devoção. Mas as circunstâncias os levam a visar e a pôr em relevo tal aspecto especial de um objeto complexo.
Mas algumas parecem incidir sobre o fundo das coisas. Para o P. de Galliffet e para aqueles que estiveram sob sua influência mais imediata, a ideia do coração emblema se apaga, por assim dizer, diante da ideia do coração órgão vivo. Ele vê no coração não somente o símbolo deste amor que impeliu Jesus a «esgotar-se e consumir-se» por nós; ele vê nele o órgão que amou, que sofreu, em quem toda a vida de Cristo teve seu contragolpe íntimo.
Em nossos dias, pelo contrário, sob a influência de uma fisiologia mais exata, fala-se sobretudo do coração emblema, evita-se insistir no coração órgão. Em Roma mesma, entrou-se por esta via. Em 1873, o concílio provincial de Québec representava o coração de Jesus como «a fonte e a origem do amor de Cristo», Christi caritatis fontem et originem im ejus corde existere. A S.C. do Concílio substituiu as palavras fontem et originem pela palavra symbolum, para não parecer, ao aprovar o concílio, pronunciar-se sobre uma questão de fisiologia, ou, como se dizia outrora, de filosofia. Ver Nilles, l. I, part. I, c. III, § 4, p. 155.
Alguns continuam a falar do coração órgão de amor; assim, o P. Billot escreve categoricamente: «O coração é o símbolo do amor, porque dele é o órgão.» Mas são tratados de cima, como os defensores retardatários de uma fisiologia superada; são, com certeza, ousados campeões da ideia tradicional.
Muitos adotaram outra palavra: dizem que o coração é o assento do amor. A expressão foi empregada em alguns documentos pontifícios, e nomeadamente no breve de beatificação da B. Margarida Maria: Cor illud sanctissimum, divinae caritatis sedem. Nilles, l. I, part. II, c. II, § 2, p. 347. Ela tem a vantagem de mostrar a relação natural e efetiva do coração ao amor sem pronunciar-se sobre a natureza desta relação. Sentimos o amor no coração: ele é, portanto, o seu assento.
Há aí dois escolhos a evitar: o de vincular a devoção ao Sagrado Coração a uma fisiologia inexata ou incerta; o de não mais ver no Coração de Jesus senão um emblema, um puro símbolo sem relação vital com a vida real de Jesus. O primeiro escolho foi o do passado; o segundo seria o do futuro, se não se prestasse atenção.
Sem procurar, por ora, determinar de uma forma precisa os fundamentos da devoção ao Sagrado Coração e a relação fisiológica do coração ao amor, devemos constatar que a devoção supõe uma relação natural entre o coração e o amor, constatar também que o coração é objeto de culto de outra maneira que não como um puro símbolo, que não seria ele mesmo, se posso dizer, interessado no culto. Explico-me.
Distingue-se, como todos sabem, o sinal natural e o sinal convencional; a fumaça é um sinal natural do fogo, a bandeira é um símbolo convencional da pátria. Aceitemos esta distinção. Em nossa devoção, o coração é considerado como sinal natural ou como sinal convencional? Estamos de acordo em responder: Como sinal natural. Mas por que como sinal natural? Por causa de uma relação real do coração ao amor. E de que natureza é esta relação real? Não tenho de dizê-lo como fisiologista.
Não é necessário para entender a devoção ao Sagrado Coração. Mas como ela é concebida nesta devoção? Como uma relação de união vital, ao mesmo tempo que de representação expressiva; como uma relação de concomitância histórica, ao mesmo tempo que de recordação. Aqui também algumas explicações são necessárias.
Um relato de batalha, ou uma inscrição, recorda-me a batalha; uma imagem representa-ma. Mas nem o relato, nem a inscrição, nem a imagem são parte da batalha. Uma pedra onde se teria sentado o general vitorioso, o cálice onde teria bebido durante a batalha, a sobrecasaca que teria usado, não recordam apenas; são relíquias. Que seria se o general vitorioso estivesse lá, narrando-nos ele mesmo a gloriosa jornada, dizendo-nos o que fez e o que sentiu, os fatos exteriores e suas emoções íntimas?
É como relíquias que a Igreja honra a verdadeira cruz, a santa lança, etc., enquanto as outras cruzes, ou as representações da santa lança, não têm valor próprio, no sentido que nos ocupa. A imagem dita da Verônica, se fosse a própria marca da santa face de Jesus, seria infinitamente preciosa tanto como documento, quanto como representação das feições de Jesus em um momento de sua vida, e como relíquia; se ela não é mais do que uma imagem bizantina, ela tem o seu valor artístico, documental, religioso, mas este valor não é mais da mesma ordem.
Ora, na devoção ao Sagrado Coração, não honramos o coração de Jesus como uma simples representação, como uma pura lembrança; nós o honramos como órgão vital de Jesus, tendo vivido por sua parte a vida de Jesus e vivendo-a ainda, como tendo amado e amando ainda, como tendo sofrido, e se não pode mais sofrer, por causa das condições de sua vida gloriosa, como continuando sua vida terrestre, e batendo de amor hoje, como batia de amor há dezenove séculos.
Tomemos, pois, cuidado, quando falamos do coração de carne de Jesus, de não ver nele apenas uma peça de anatomia, a mais insigne das relíquias, mas uma relíquia. Mas tomemos cuidado também, quando falamos dele como de um emblema, de um símbolo, de esquecer a realidade viva do signo para pensar apenas na coisa significada, de distinguir o amor e o coração amante como se fossem duas realidades completamente distintas, sem outra relação que a de signo e de coisa significada.
Sem chegar a fazer do coração de Jesus o órgão, no sentido técnico da palavra, da vida afetiva e dos sentimentos íntimos de Jesus, não esqueçamos que o amor que honramos é o amor do coração amante e que, ao honrarmos o Sagrado Coração, honramos o coração vivo que nos amou. Aqueles que vivem a devoção, aqueles que a compreendem como sendo o culto ao coração de uma pessoa divina, mas a um coração plenamente e perfeitamente humano, não se enganam a respeito disso. Mas acontece facilmente que a análise esqueça alguns elementos da realidade total, e que coloque uns em relevo às custas dos outros. É preciso estar sempre atento a isso; é preciso estar mais atento quando o objeto é complexo como na devoção ao Sagrado Coração. Uma primeira série de divergências nas explicações dos autores nos permitiu explicar melhor os dois elementos essenciais da devoção ao Sagrado Coração, o amor e o coração, o coração amante e o amor do coração.
7° O Coração de Jesus, emblema de seu amor, nos recorda ao mesmo tempo todo o íntimo de Jesus: sua vida do coração, suas virtudes, etc.
Mas a questão se apresenta sob outra forma: É realmente o amor, ou pelo menos é unicamente o amor do Sagrado Coração que pretendemos honrar? A questão está resolvida, ao menos em parte. Uma coisa é clara, com efeito, segundo os documentos: a devoção ao Sagrado Coração se apresenta antes de tudo como a devoção ao coração amante de Jesus, ao amor do Sagrado Coração. Os textos já citados o dizem tão claramente quanto é possível e poder-se-ia acumular sem fim outros, que repetiriam todos a mesma coisa.
Mas há outros — são frequentemente as mesmas peças — que indicam também outra coisa como objeto da devoção; que a estendem a todo o íntimo de Jesus, às vezes a toda a sua pessoa, aos seus trabalhos e às suas dores, às suas virtudes e aos seus sentimentos, à sua presença eucarística, a Jesus inteiro designado pessoalmente sob o nome de Sagrado Coração. Basta ler um tratado sobre o Sagrado Coração para se dar conta disso, basta examinar algumas das práticas em honra ao Sagrado Coração.
Ninguém melhor do que o P. de Galliffet deu a ideia verdadeira e precisa da devoção. Examinemos o que ele diz sobre a excelência da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. «Deve-se julgar por seu objeto, diz ele, pelo seu fim, pelos atos e práticas de virtude que ela encerra e pelo fruto que ela produz.» E ele desenvolve esses quatro pontos. O que diz ele do objeto? «É principalmente do objeto que uma devoção tira sua excelência, como dela tira seu verdadeiro caráter. O objeto desta é o Coração de Jesus.» Ele considera, portanto, este coração primeiramente em si mesmo, t. I, c. 1, p. 66.
E dele «tira a excelência»: 1) «das propriedades naturais do coração;» 2) «de sua união com a alma mais perfeita e a mais excelente que jamais existiu;» 3) «de sua união com o Verbo eterno;» 4) «da função divina para a qual foi formado e que não é outra senão a de arder sem cessar nas chamas mais puras e mais ardentes do amor divino;» 5) «da santidade que lhe é própria;» 6) «das virtudes das quais é a fonte.» Quantas coisas, vê-se, que estão sem dúvida em relação com o coração (e vislumbra-se que o P. de Galliffet falseia um pouco essa relação ao apresentar o coração como «a fonte» das virtudes e dos sentimentos), mas que não estão em relação direta com o amor!
O autor estuda então o coração de Jesus em relação aos homens. «Considere, diz ele, que vos apresentam este coração divino ainda todo ardente do amor que ele vos tem e, todo cheio desses generosos sentimentos de bondade e de misericórdia aos quais deveis a vossa redenção; lembrai-vos que é este mesmo coração que sentiu tão vivamente todas as vossas misérias, que foi tão cruelmente afligido pelos vossos pecados, e no qual se formaram tantos desejos ardentes da vossa felicidade. Mas considerai-o sobretudo sofrendo por amor a vós em sua paixão...» L. II, c. 1, passim. Sem dúvida aqui o amor está bem em primeiro plano — o autor, aliás, engana-se ao ver menos o símbolo que o princípio — mas ele não é o único em vista. Há algo talvez ainda mais claro. Resumindo ao final do c. iv, l.
I, sua doutrina sobre o objeto da devoção ao Sagrado Coração para dar uma ideia «nítida e perfeita»: «Muitos se enganam, diz ele: ao ouvirem pronunciar este nome sagrado, o Coração de Jesus, limitam todos os seus pensamentos ao Coração material de Jesus Cristo; não consideram este Coração divino senão como uma peça de carne sem vida e sem sentimento, mais ou menos como fariam com uma relíquia santa totalmente material. Ah! Que ideia deve-se ter deste sagrado Coração, que é bem diferente e bem mais magnífica!» Ele quer, portanto, que o consideremos primeiramente «como unido íntima e indissoluvelmente à alma e à pessoa adorável de Jesus Cristo, cheio de vida, de sentimento e de inteligência»; em segundo lugar, «como o mais nobre e o principal órgão das afeições sensíveis de Jesus Cristo, de seu amor, de seu zelo, de sua obediência, de seus desejos, de suas dores, de suas alegrias, de suas tristezas; como o princípio e a sede dessas mesmas afeições e de todas as virtudes do Homem-Deus;» em terceiro lugar, «como o centro de todos os sofrimentos interiores que nossa salvação lhe custou; e, além disso, como ferido cruelmente pelo golpe de lança que recebeu na cruz;» finalmente «como santificado pelos dons mais preciosos do Espírito Santo e pela infusão de todos os tesouros de graça dos quais é capaz». — « Tudo isso, continua o autor, pertence realmente a este Coração divino, tudo isso entra no objeto da devoção ao Coração de Jesus. » E como se não fosse suficientemente claro, conclui: « Que se contemple, pois, este composto admirável que resulta do Coração de Jesus; da alma e da divindade que lhe estão unidas; dos dons e das graças que encerra; das virtudes e das afeições das quais é o princípio e a sede; das dores interiores das quais é o centro; da chaga que recebeu na cruz: eis o objeto completo, para assim me expressar, que se propõe à adoração e ao amor dos fiéis. » Loc. cit., p. 59-61.
Que se dê tão grande importância quanto se queira a uma fisiologia inexata, que, como veremos, em nada altera a devoção, não é verdade que este objeto tão amplo e tão extenso transborda a definição recebida, o « culto do coração de carne como emblema do amor de Jesus por nós »? E o que diz o Pe. de Galliffet é repetido quase palavra por palavra pelos postuladores de 1765, em uma passagem da qual já citamos um extrato; repetido por muitos outros em termos equivalentes. Os autores modernos são mais circunspectos na escolha de suas expressões quando definem o objeto próprio da devoção. Mas em seus desenvolvimentos, quando se vigiam menos, acabam por dizer o mesmo. E é preciso reconhecer que a ideia viva da devoção transborda por toda parte esta ideia do coração como emblema de amor, para ir buscar no Coração de Jesus toda a vida íntima do Deus feito homem, todas as riquezas escondidas em sua humanidade e, para falar como os sulpicianos, todo « o interior de Jesus ». Que se leiam apenas as ladainhas do Sagrado Coração: ver-se-á que é assim.
E assim o foi desde os primórdios. Eis como se expressa o Pe. de la Colombière, ao explicar o sentido da « oferenda ao Coração sagrado de Jesus Cristo »: « Esta oferenda, diz ele, faz-se para honrar este divino Coração, a sede de todas as virtudes, a fonte de todas as bênçãos e o retiro de todas as almas santas. As principais virtudes que se pretende honrar nele são: primeiramente, um amor muito ardente de Deus seu Pai unido a um respeito muito profundo e à maior humildade que jamais houve; secundariamente, uma paciência infinita, etc.; terceiramente, uma compaixão muito sensível pelas nossas misérias, etc. Este Coração ainda está, tanto quanto o pode estar, nos mesmos sentimentos e, sobretudo, sempre ardendo de amor pelos homens. » À la fin des Retraites spirituelles, œuvres complètes, t. VI, p. 124. Poder-se-ia encontrar muita página do mesmo gênero na B. Margarida Maria.
Como explicar esta anomalia, esta espécie de desproporção entre a definição e o uso, entre a teoria e a realidade? Sem se colocar explicitamente a questão, os autores resolvem-na praticamente em dois sentidos. Tentando reconduzir ao amor todo o íntimo de Jesus. Sua vida afetiva não é toda amor; e as variedades desta vida afetiva, o que são senão um mesmo amor diversificado segundo a condição do objeto? É o que Santo Agostinho tinha dito; o que repetiram São Tomás, Bossuet, todos os discípulos dos mestres. O que não é amor, em Jesus, está sob a influência do amor. Por que suas dores? Ele amou. O que são seus milagres? Efeitos de amor e de bondade. Se São Tomás concebe todos os atos bons do homem de bem como produzidos sob o império do amor — ele entende, é verdade, o amor de Deus — não se poderá dizer que toda a vida de Jesus se reconduz ao amor de Deus e do próximo? Toda a sua vida não é para o próximo, como é para Deus?
E certamente, esta é uma bela ideia da devoção ao Sagrado Coração. É preciso reconhecer, no entanto, que ela não esgota toda a riqueza da devoção, tal como a encontramos nos escritos do Pe. de Galliffet, eu poderia dizer muito bem nos da B. Margarida Maria; tal como a vemos na prática dos fiéis. Ao mesmo tempo em que é essencialmente o que definimos, o culto ao Sagrado Coração estende-se mais longe. Pode-se e deve-se defini-lo como a devoção ao amor do Sagrado Coração por nós. Pois esta é, de fato, a sua « substância », segundo a palavra de Pio VI que citamos. Mas ela se estende mais longe, e isso porque é a devoção ao Coração real e vivo de Jesus, porque trata o Coração de Jesus segundo as condições em que nos encontramos com relação ao coração humano.
O coração é, acima de tudo, emblema de amor. Mas o coração real e vivo não é apenas isso. E daí vem que a devoção ao Coração vivo e real de Jesus não honra nele apenas o amor. Toda a nossa vida íntima e profunda tem as suas ligações com o coração: nossos sentimentos repercutem-se nele, toda a nossa vida afetiva tem nele como um centro de ressonância pelo qual se manifesta sensivelmente a nós. Ora, nossa vida moral e nossa vida afetiva estão estreitamente unidas; não sei se se pode até dizer que são distintas. Assim, a linguagem corrente, expressão de realidades profundamente sentidas, liga ao coração toda a vida moral e afetiva do homem: as virtudes como os sentimentos, os princípios de ação e os móveis íntimos.
Não se vai até dizer que os grandes pensamentos vêm do coração, e que o coração tem razões que a razão não conhece? Não compreendemos que, quando Pascal fala de « Deus sensível ao coração », ele traduz uma realidade profunda, e que « Deus sensível ao coração » é algo diferente da noção puramente abstrata e fria do filósofo? Jesus mesmo não se apresentou a nós como « manso e humilde de coração » e não vemos aí uma manifestação de seu Sagrado Coração?
Mas não seria este o « coração metafórico » contra o qual nos põem em guarda, quando se define a devoção ao Sagrado Coração? Não. É de fato ao coração real que vai o nosso pensamento; não mais apenas enquanto símbolo de amor, eco íntimo que nos traduz por suas batidas a nossa vida afetiva; mas enquanto o uso corrente, fundado sobre uma experiência vaga, porém real, liga ao coração a nossa vida íntima: ela vê nele o símbolo e a expressão, ao mesmo tempo em que percebe nele a ressonância de nossos estados afetivos, de nossas disposições morais.
Primeira extensão da nossa devoção. Extensão, como se vê, inteiramente legítima e natural, desde que se conceba a devoção como aquela que vai ao coração real e vivo de Jesus para nele honrar tudo o que ele é, tudo o que ele faz, tudo o que ele recorda e representa ao espírito. Por este título, a devoção ao Sagrado Coração não é mais apenas a devoção ao amor do Coração de Jesus; ela se torna a devoção a todo o íntimo do Salvador, enquanto este íntimo tem no coração vivo um centro de ressonância, um símbolo ou um sinal de recordação.
Há uma outra, tão natural quanto, consagrada pelo uso e fundada na linguagem corrente. É a passagem do coração para a pessoa inteira.
8º O coração tomado pela pessoa. — Sem dúvida, é sempre a pessoa que honramos quando honramos o coração; assim como é a pessoa que honramos quando lhe beijamos respeitosamente a mão. É a condição do culto e não é necessário insistir nisso aqui. Pio VI fez justiça às acusações formuladas a este respeito pelos jansenistas, como se os fiéis, ao honrarem o Sagrado Coração de Jesus, o honrassem fora da pessoa sagrada do Verbo encarnado. Desde os primeiros dias da devoção, a doutrina foi muito clara a este respeito, e vimos o P. de Galliffet insistir repetidamente na união do coração à pessoa divina no culto do Sagrado Coração. «Pode-se», dizia ele, «dirigir a este Coração divino orações, atos, afeições, louvores, em uma palavra, tudo o que se pode dirigir à própria pessoa; pois, com efeito, a pessoa mesma unida a este coração recebe-o muito realmente.» L. I, c. IV, p. 50.
Já Margarida Maria havia dito com uma clareza perfeita que Jesus sentia um singular prazer em ser honrado sob a figura deste coração de carne. O culto não é, aliás, puramente relativo, como aquele que se presta a uma imagem, como aquele que se presta mesmo à verdadeira cruz; pois o coração faz parte da pessoa, e ele tem em si a dignidade da pessoa da qual faz parte. Basta recordar estas noções. Pois não há nisso nada que seja próprio ao culto do Sagrado Coração. A mesma coisa, nomeadamente, aplica-se ao culto das cinco chagas, das quais uma, aliás, nos conduz ao coração de Jesus: que é, com efeito, a ferida do coração, senão o coração ferido?
Mas há, na devoção ao Sagrado Coração tal como ela é viva na Igreja, uma passagem especial do coração à pessoa, que merece atenção. Na falta de notá-la, confundem-se por vezes as noções, e não se sabe como explicar nem a linguagem da B. Margarida Maria, nem o movimento da devoção. Na linguagem corrente, a palavra coração é frequentemente empregada, por uma figura que os gramáticos chamaram de sinédoque, para designar a pessoa: É um grande coração, é um bom coração; como se diz: É uma grande alma, é uma bela alma. E quando dizemos: Que coração!, é a pessoa que designamos diretamente; não é o seu coração.
Isso ocorreu de forma muito natural na devoção ao Sagrado Coração. Margarida Maria diz: Este Sagrado Coração, como diria: Jesus. Em ambos os casos, ela visa diretamente a pessoa. E o uso tornou-se corrente de designar Jesus pelo nome do Sagrado Coração. Não que, note-se bem, as duas palavras sejam sinônimas. Não se pode dizer indiferentemente Jesus ou Sagrado Coração; não se designa sempre a pessoa pelo seu coração. É preciso, para fazê-lo, que se tenha em vista a pessoa em sua vida afetiva e moral, em sua intimidade, em seu caráter e em seus princípios de conduta. A ideia do coração não desaparece; ela domina a frase: o coração não designa a pessoa senão sob os aspectos representados pelo coração.
Mas esta passagem do coração à pessoa, este direcionamento da pessoa no coração dá à devoção ao Sagrado Coração um porte mais livre e um alcance mais amplo. Por aí, o Sagrado Coração recorda-me Jesus em toda a sua vida afetiva e moral, Jesus íntimo, Jesus todo amante e todo amável, Jesus modelo de todas as virtudes. Toda a vida de Nosso Senhor pode assim concentrar-se em seu coração, em todos os seus estados; posso estudar o que eles têm de mais profundo, de mais íntimo, de mais pessoal. Todo Jesus se resume e se exprime no Sagrado Coração, atraindo, sob este símbolo expressivo, nosso olhar e nosso coração sobre o seu amor e sobre as suas amabilidades.
Já tínhamos chegado aí por outra via, pela do símbolo e da cooperação do coração à vida íntima de Jesus. Estamos ainda mais à vontade na devoção, graças a essa espécie de comunicação de idiomas entre o que convém ao coração e o que convém à própria pessoa de Jesus visada naquilo que ela tem de mais íntimo e de mais pessoal. O que é para nós uma estátua do Sagrado Coração? Uma estátua onde, Jesus nos mostrando o seu Coração, tenta traduzir aos nossos olhares toda a sua vida íntima, o seu amor sobretudo e as suas amabilidades.
Graças a esta extensão nova, podemos descrever a devoção ao Sagrado Coração como a devoção a Jesus se mostrando a nós, ao nos mostrar o seu coração, em sua vida íntima e seus sentimentos mais pessoais, os quais, aliás, não dizem senão amor e amabilidade. Ela nos abre, se posso dizer, o fundo de Jesus. O coração não desaparece, nesta acepção nova. Mas é a pessoa de Jesus que nos abre ele mesmo, ao nos dizer como à B. Margarida Maria: «Eis este Coração», e ao olhar o coração que nos é assim mostrado, aprendemos a conhecer a pessoa em seu fundo.
9 A ideia do amor desconhecido e ultrajado. — A devoção ao Sagrado Coração é, pois, acima de tudo, a devoção ao amor e às amabilidades de Jesus, a devoção a Jesus todo amante e todo amável.
Pode-se dizer que tudo é 1) e que tudo decorre daí. Mas há um traço que a história da devoção coloca especialmente em relevo, e este traço contribui para lhe dar o seu caráter especialmente tocante. Jesus não se contenta em mostrar o seu coração ferido de amor, com a sua ternura requintada, com a sua generosidade que vai «até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar o seu amor».
Ele nos mostra este amor desconhecido, ultrajado, mesmo por aqueles de quem ele poderia esperar mais retorno, e que por vocação deveriam amá-lo mais. Após ter dito: «Eis este Coração que tanto amou os homens;», ele acrescentou: «E por reconhecimento, não recebo da maioria senão ingratidões pelas suas irreverências e seus sacrilégios, e pelas friezas e os desprezos que têm por mim neste sacramento de amor. Mas o que me é ainda mais sensível é que são corações que me são consagrados que agem assim.» Memória, em Vie et Œuvres, t. III, p. 355 (2ª edição, p. 414).
Comentando estas palavras, o P. de Galliffet escreve: «É preciso ainda observar aqui um ponto essencial à natureza de nossa devoção, que é que este amor, do qual o seu divino Coração está abrasado, deve ser considerado como um amor desprezado e ofendido pela ingratidão dos homens... O Coração de Jesus Cristo deve, pois, aqui ser considerado sob duas relações: de uma parte, como abrasado de amor pelos homens; e de outra, como ofendido cruelmente pela ingratidão destes mesmos homens. Estes dois motivos, unidos, devem produzir em nós dois sentimentos igualmente essenciais à devoção para com este Sagrado Coração: a saber, um amor que responde ao seu, e uma dor que nos impele a reparar as injúrias que ele sofre pela dureza dos homens.» L. I, c. IV, p. 47.
O primeiro grito da devoção ao Sagrado Coração é: O amor não é amado! É também o que explicam longamente os postuladores de 1765: «É preciso notar, dizem eles, que o Sagrado Coração deve ser olhado aqui sob dois aspectos: Primeiro, como transbordante de amor pelos homens... É preciso olhá-lo também como cruelmente ferido pela ingratidão dos homens, sobrecarregado de ultrajes e, por isso, digno não somente de nosso amor, mas também de nossa compaixão.» Memoriale, n. 34, 38; Nilles, t. I, p. 117, 120.
Sem dúvida, Jesus não sofre mais; mas o ultraje, por parte dos homens, não é menos real: eles fazem, da sua parte, tudo o que é preciso para fazê-lo sofrer. É preciso dizer que todos esses ultrajes ressoaram um dia em seu Coração. Ele sofreu por causa deles, quando ainda podia sofrer. Em sua paixão, ele não sentiu apenas os ultrajes dos judeus e dos romanos; não sofreu apenas com as ingratidões de seus concidadãos e o abandono de seus amigos. O futuro e o passado tiveram seu impacto na paixão; concentraram-se nela. Se, portanto, Jesus não sofre no presente, ele sofreu pelo presente, e os fiéis não estão errados em representar para si mesmos um Jesus sofredor, já que ele sofreu com os ultrajes do presente, sem contar que é sempre permitido transportar-se ao passado para compadecer-se de Jesus, sendo o futuro de então o presente de hoje.
É possível que, por vezes, a maneira de falar sobre esta matéria não seja rigorosamente exata. Será mesmo certo que a exatidão de expressão poderia ser corrigida sem subtrair, na mesma medida, a verdade profunda das coisas e a impressão que elas devem produzir? Seja como for, a B. Margarida Maria viu o Sagrado Coração coroado de espinhos e superado pela cruz; e ela se explica muito bem ao ver aí o sinal de uma grande realidade: «Ele estava circundado por uma coroa de espinhos, que significava as picadas que os nossos pecados lhe causavam, e uma cruz acima significava que... desde que este Sagrado Coração foi formado, a cruz nele foi plantada.» Lettres inédites, lettre IV, p. 141.
A Igreja conhece bem essas maneiras psicológicas de suprimir o tempo e o espaço; sua liturgia é cheia desses reflexos da eternidade divina lançados sobre o nosso mundo mutável e passageiro. Estas explicações eram necessárias para fazer entender como a devoção ao Sagrado Coração pode representar Jesus ultrajado. Mas esta relação do presente com a paixão de Jesus não é a única, nem provavelmente a principal razão da relação estreita que vemos entre a devoção ao Sagrado Coração e a lembrança dos sofrimentos de Jesus.
10º A ideia da paixão e a da eucaristia na devoção. — De fato, o pensamento da paixão está muito frequentemente mesclado, e de modo muito íntimo, ao culto do Sagrado Coração. A missa Miserebitur está como que toda penetrada por ele; o Ofício da festa, quase tanto; as ladainhas do Sagrado Coração lembramo-lo como propiciação pelos nossos pecados, como saciado de opróbrios, como esmagado por causa dos nossos crimes, como feito obediente até à morte, como transpassado por uma lança; e, por outro lado, as ladainhas da paixão e a hora santa, passada em união com Jesus no horto das Oliveiras, eram para a B. Margarida Maria dois dos principais exercícios da devoção ao Sagrado Coração.
Em suma, a devoção ao Sagrado Coração vai como que por instinto a Jesus sofredor e moribundo. Poder-se-ia ver nisso uma delicadeza de amor: não é quando o amigo sofre e é abandonado, ultrajado, que o amigo se mantém mais perto para lhe fazer companhia, dizer-lhe o seu amor, prestar-lhe homenagem e compadecer-se de suas penas? Há isso, sem dúvida, no instinto que impele os devotos do Sagrado Coração em direção ao horto das Oliveiras ou ao Calvário. Mas há também outra coisa. A devoção ao Sagrado Coração busca os vestígios do amor. E onde este amor brilha tanto quanto na paixão? Sofrer e morrer por aqueles que se ama é, segundo o testemunho de Jesus, o esforço supremo do amor. A devoção ao Sagrado Coração vai, portanto, à paixão, porque mais aí do que em qualquer outro lugar ela encontra este Sagrado Coração que «se esgota e se consome para testemunhar o seu amor».
É por razões do mesmo gênero que a devoção ao Sagrado Coração está em relação estreita com a eucaristia. Os postuladores de 1765 são muito explícitos a este respeito. Ver o Memoriale, n. 38; Nilles, t. I, p. 120, e a Réplique aux exceptions du promoteur de la foi, n. 23, 24, Nilles, p. 147. Margarida Maria foi a amante do altar, como foi a amante da cruz. Todo o seu desejo é comungar, todo o seu socorro, diz ela, «o coração do meu amável Jesus no santíssimo sacramento.» Lettres inédites, lettre IX, p. 197.
Jesus pediu-lhe a comunhão reparadora, como lhe pediu a hora santa; e ele queria que ela comungasse todas as vezes que pudesse, qualquer que fosse o que pudesse acontecer-lhe. A devoção sempre caminhou na mesma via. À medida que cresce em uma alma, ela impele a comungar mais e melhor. A liturgia do Sagrado Coração traz o mesmo testemunho: a missa e o ofício dividem quase igualmente o pensamento da paixão e o pensamento da eucaristia.
O Pe. Croiset colocava a eucaristia, como colocava a paixão, em sua própria definição: «O objeto particular desta devoção, dizia ele, desde a primeira frase do seu tratado, é o amor imenso do Filho de Deus que o levou a entregar-se por nós à morte, e a dar-se todo a nós no santíssimo sacramento do altar.» É igualmente o que diz a sexta lição do breviário no dia da festa: Quam caritatem Christi patientis et pro generis humani redemptione morientis, atque in suæ mortis commemorationem instituentis sacramentum corporis et sanguinis sui, ut fideles sub sanctissimi Cordis symbolo devotius ac ferventius recolant, ejusdemque fructus uberius percipiant.
Aqui, como para a paixão, a coisa poderia explicar-se do lado dos fiéis. É na eucaristia que encontramos atualmente o Coração de Jesus o mais perto de nós, é na eucaristia que ele se une o mais intimamente a nós e que nós nos unimos a ele. Mas uma razão mais objetiva desta relação estreita entre a eucaristia e a devoção ao Sagrado Coração é que a eucaristia é, com a paixão, o testemunho mais expressivo do amor do Sagrado Coração por nós. É assim que o entende o Pe. Croiset, assim que o entende a Igreja nos textos que acabam de ser citados. A paixão e a eucaristia são os dois principais benefícios deste amor que a Igreja, como se explica na oração da festa, honra no culto do Sagrado Coração: In sanctissimo... corde gloriantes, præcipua in nos caritatis ejus beneficia recolimus.
Poder-se-ia perguntar se e por que o benefício da encarnação, à qual devemos o próprio Jesus, e que é inteiramente um efeito de amor (sic Deus dilexit mundum ut Filium suum unigenitum daret), não deve ser posto, tanto quanto a paixão e a eucaristia, em relação especial com a nossa devoção. Isso é feito às vezes; o próprio decreto de 1765, ao conceder a festa, dizia que por este culto «se renovava simbolicamente a memória do amor que tinha levado o Filho único de Deus a assumir a natureza humana». Nilles, t. I, p. 152. O hino das Vésperas da festa expressa a mesma ideia: Amor coegit te tuus | Mortale corpus sumere. Todavia, estes textos não resolvem definitivamente a questão. A solução depende da resposta a uma outra questão que se deve examinar para precisar, cada vez mais, a ideia que devemos formar da devoção ao Sagrado Coração.
1º Que amor honramos na devoção ao Sagrado Coração, o amor pelos homens; em que sentido o amor por Deus? — A questão é esta: De que amor falamos, quando dizemos que a devoção ao Sagrado Coração tem por objeto honrar, sob o símbolo do coração, o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo? Mas esta questão, em si mesma, tem dois sentidos. Pois este amor do Sagrado Coração pode ser considerado do lado do objeto amado e pode-se perguntar a quem ele se dirige: É amor por Deus? é amor pelos homens? Pode ser olhado do lado do sujeito que ama, e a questão torna-se: Que amor de Jesus honramos ao honrar seu Coração, aquele com o qual Ele ama como homem ou aquele com o qual Ele ama como Deus, seu amor humano ou seu amor divino, seu amor criado ou seu amor incriado, aquele que chorou sobre Lázaro ou aquele que fez Lázaro?
À primeira questão, a resposta é fácil. O amor que honramos neste culto é o amor de Jesus pelos homens, o amor que pede uma reciprocidade de amor: «Eis este Coração que tanto amou os homens», dizia Jesus à B. Margarida Maria. Quis non aman- tem redamet? Quis non redemptus diligat? cantamos no hino das laudes. Præcipua in nos caritatis ejus beneficia recolimus, dizemos na oração. Todos os textos estão no mesmo sentido, e seria perda de tempo acumulá-los aqui para provar uma tese que ninguém contesta. Não há senão que dar uma explicação e prevenir uma dificuldade.
Uma explicação. O amor de Jesus pelos homens não vai sem seu amor por seu Pai; está todo ele impregnado, nele encontra sua fonte, nele tem seu motivo. Ele sabia o grande mandamento: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças»; e ele o praticava como ninguém o praticará. Ele sabia que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo por Deus», e ele o praticava com a mesma perfeição ideal. Isso equivale a dizer que o amor de Jesus pelo próximo foi um amor sobrenatural, um amor ordenado, todo ele informado, por conseguinte, pelo seu amor por seu Pai. Eis a explicação.
Resta uma dificuldade. Dissemos que todos os textos entendem o amor do Sagrado Coração como o seu amor pelos homens. A coisa é verdadeira. Há, contudo, exceções, ao menos aparentes, e algumas já se apresentaram em nosso caminho. Na réplica dos postuladores polacos, diz-se que o coração de Jesus deve ser considerado, em segundo lugar, como o símbolo ou o assento natural de todas as virtudes e de todas as afeições interiores de Cristo, e em particular do amor imenso com que Ele honrou seu Pai e os homens, imprimisque amoris illius immenst quo Patrem et homines proseculus est. Replicatio, n. 18; Nilles, t. 1, p. 145. O Pe. de la Colombière fala da mesma forma: «As principais virtudes que se pretende honrar nele são: primeiramente um amor muito ardente de Deus seu Pai.» Loc. cit., p. 124. E seria fácil citar textos análogos entre aqueles mesmos que dizem mais expressamente que a devoção ao Sagrado Coração tem por objeto honrar o amor com que Jesus amou os homens, no Pe. Croiset, por exemplo, ou no Pe. de Galliffet.
Não é isso para confundir todas as nossas noções e as nossas definições? Não. Desde que nos lembremos das duas maneiras que assinalamos de entender a devoção ao Sagrado Coração. Ela é, em seu objeto direto e imediato, a devoção ao coração amante de Jesus, ao coração emblema de amor; mas é também, por uma extensão legítima e natural, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus em toda a sua vida íntima, em suas virtudes, por conseguinte, e particularmente em seu amor por Deus.
Enquanto emblema de amor, é o seu amor por nós que Jesus nos descobre ao nos descobrir seu coração; mas, ao nos descobrir este Coração adorável, ele nos mostra em toda a sua realidade, como ideal de nossa vida, não menos que como objeto de nosso amor. Vê-se quão importante é esta distinção para esclarecer as ideias. Talvez nela encontremos ainda uma luz para resolver a segunda questão, que é mais difícil, e onde o acordo dos autores não é tão unânime.
2º Que amor honramos: o amor do Verbo encarnado; amor criado ou amor incriado? — Que amor de Jesus honramos na devoção ao Sagrado Coração, seu amor criado ou seu amor incriado, o amor com que Ele ama como homem em sua natureza humana, ou aquele com que Ele ama como Deus em sua natureza divina, e, para repetir uma expressão clara e curta, aquele que fez Lázaro, ou aquele que chorou sobre Lázaro? É uma questão que talvez não tenha sido tratada a fundo até os nossos dias. Não que ela tenha sido ignorada. Muitos dos teólogos do Sagrado Coração colocaram-na explicitamente. Mas não há ainda uma solução que se imponha, e vários creem que a questão não foi suficientemente discutida, mesmo por aqueles que a resolvem. Tal é notadamente a opinião do Pe. Vermeersch. L’objet propre de la dévotion au Sacré-Cœur, em Etudes, 20 de janeiro de 1906, t. cv1, p. 146-179. «Este artigo, diz o autor, é dirigido contra uma opinião especiosa e sedutora, que ganha terreno, mas onde não podemos nos impedir de ver uma confusão e um equívoco bastante infeliz. A favor relativo de que ela goza não se explica, a nossos olhos, senão por uma falta de atenção. Pensamos servir os interesses da verdadeira devoção ao Sagrado Coração chamando reflexões sérias sobre uma questão que, aliás, sabíamos estar em estudo na Alemanha e na Áustria, e que aí preocupa os espíritos.» Loc. cit., p. 146.
O Pe. Vermeersch, a partir disso, combate a opinião que estende a devoção ao Sagrado Coração até a caridade incriada. Sem nos comprometermos a aceitar suas conclusões, sigamo-lo em seu inquérito. Vários não se colocaram a questão de forma explícita. Mas falam como se tivessem em vista apenas a caridade criada de Cristo. Margarida Maria, segundo o autor, não vê no Sagrado Coração senão o coração de carne que tanto amou os homens. Será dizer que ela exclui o amor incriado? Isso não se segue, como veremos. Pergunto-me até se ela não o inclui às vezes, por exemplo, quando fala ao Pe. Croiset dos «divinos tesouros do Coração de Deus que... é a fonte» de todo o bem. Lettres inédites, carta iv, p. 142. Análogo é o caso do Pe. de la Colombière, do Pe. Croiset, do Pe. de Galliffet, dos bispos da Polônia em seu belo Memorial: nenhuma menção explícita do amor incriado. O Pe. Vermeersch remete à mesma opinião Muzzarelli e Franzelin; mas Muzzarelli dá um lugar ao amor incriado na devoção, e a interpretação dada de Franzelin não se impõe. Pode-se incluir aí, se se quiser, Gerdil, Zaccaria, Roothaan, Dalgairns; mas o P. Froment, que escreveu, como que em concorrência com o P. Croiset, a pedido da B. Margarida Maria, B, Tetamo, Marquez, Gautrelet provavelmente, Martorell e Castella, De San, Leroy, Bucceroni, Chevalier, Terrien, Nilles, Nix, Lillot, Baruteil, Thill, dão um lugar à caridade incriada.
Os documentos eclesiásticos, exceto talvez dois ou três, parecem visar unicamente a caridade criada. Das duas exceções, uma é certa. É o hino das vésperas do Sagrado Coração. Vimos os dois versos onde «o amor forçou Jesus a tomar um corpo mortal». Este amor é logo descrito como «o obreiro que fez a terra, o mar e os astros»: Ille amor almus artifex Terre marisque et siderum. Trata-se, portanto, do amor incriado. O outro documento é o decreto mesmo de 1765: nele se dá como objeto do culto «o amor que impeliu o Filho único de Deus a tomar a natureza humana». Não é designar claramente o amor incriado? Não tão claramente, diz o P. Vermeersch, e, por uma exegese sutil, porém séria, ele mostra um outro sentido como muito plausível, p. 178 seg. É verdade, um secretário da S. C. dos Ritos em 1821, com muitos teólogos, viu aí o amor incriado, p. 177. Mas ele bem pôde se enganar neste ponto, como se enganou em outro. E depois, coisa curiosa, este decreto não é reproduzido na coletânea oficial. Por que essa omissão? Ignora-se. Mas ela não serve para aumentar a autoridade do texto, que, aliás, não se imporia diante de razões graves, p. 177.
Um terceiro texto me parece merecer também atenção. É a invocação das ladainhas: Cor Jesu, infinite amans et infinite amandum. Não ousaria, contudo, apoiar-me muito nela. Pois é possível que a infinitude de que aqui se trata deva ser tomada da dignidade infinita da pessoa mais do que da natureza do ato considerado em si mesmo. Digo: é possível; mas não vejo que seja seguro: conheço devotos do Sagrado Coração, aliás bons teólogos, que amam repetir para si que o Coração de Jesus bate por eles com um amor infinito, sem pretender obviamente que o amor infinito e espiritual do Verbo tenha, a bem dizer, um eco sensível no coração de carne. Mas deve-se reconhecer que os textos não resolvem uma questão difícil, que não se colocava nitidamente para aqueles que os escreveram. Eles têm um sentido muito belo e muito pleno, no sentido da união pessoal da natureza humana e, por meio dela, do coração humano de Jesus com o Verbo de Deus.
Não obstante, o P. Vermeersch ataca uma parte forte. Sem querer segui-lo em suas deduções, eis como se pode, ao que parece, resolver a questão. Uma coisa é certa, incontestável. O amor que honramos diretamente no culto do Sagrado Coração é o amor do Verbo encarnado, do Deus feito homem. Jesus é o Deus-Homem e os fiéis, que veem Jesus vivo e concreto, não separam em suas homenagens o homem de Deus. O brilho da pessoa divina ilumina para eles tudo o que veem de Jesus. Mesmo quando olham para o homem, quando escutam as palavras que caem de seus lábios, quando se compadecem de seus sofrimentos, não esquecem que Ele é Deus, e é este pensamento sempre presente que confere seu caráter a todas as suas relações com Jesus, do mesmo modo que a realidade sempre atual da união confere seu caráter e seu valor a cada um dos atos e dos sofrimentos, a cada uma das palavras de Jesus. Jesus, para eles, é essencialmente o Deus-Homem na unidade indissolúvel da união hipostática: nem sua fé, nem seu amor podem concebê-lo de outra forma. Desde então, a devoção ao Sagrado Coração é necessariamente a devoção ao Deus-Homem, o amor que ali se honra é necessariamente o amor do Deus-Homem.
Eis o que deve ser encarado como adquirido; neste sentido, pelo menos, é justo dizer, com o P. Terrien: Quod Deus conjunxit, homo non separet. Mas, para o P. Vermeersch, isso é escamotear a questão, não resolvê-la.
Ninguém, de fato, nega a união pessoal; ninguém pretende que o amor que os fiéis honram na devoção ao Coração de Jesus seja um amor puramente humano. A questão é se é apenas o amor humano do Deus-Homem, ou se é também o seu amor divino; se é apenas o amor com que nos amou com seu coração humano em sua natureza humana, ou se é também o amor com que nos ama eternamente em sua natureza divina, pelo ato simples de amor que é sua essência infinita.
Os fiéis não distinguem, se não me engano, conquanto distingam muito bem em Jesus a natureza divina e a natureza humana, conquanto saibam reconhecer n’Ele um amor com que nos ama como homem, e um amor com que nos ama como Deus. E o fato de que não distinguem é favorável à não distinção dos dois amores em seu culto; é todo Jesus que eles honram sob a figura de seu coração de carne; todo o seu amor, parece, como toda a sua pessoa. Para distinguir onde eles não distinguem, seriam precisas razões. Os teólogos buscam se as há.
Reprovaram muito a nossa devoção por favorecer o nestorianismo. Pura calúnia dos jansenistas, os teólogos do Sagrado Coração a tinham refutado de antemão, e Pio VI fez-lhe boa justiça no texto que citamos. Mas se os fiéis não honram o Sagrado Coração como nestorianos, não se deve tampouco, supondo que confundam em seu culto as naturezas e as operações, fazê-los honrá-lo como eutiquianos ou como monotelitas. Ora, não é este o perigo a temer ao raciocinar como fazemos, ao passar da pessoa ao amor, ao concluir que, se a honra vai à pessoa, vai também ao amor divino?
Mas nós não passamos, sem outra consideração, da pessoa ao amor. Não concluímos da unidade de pessoa a fusão ou a confusão dos dois amores em um só. Dizemos apenas isto: Ao mesmo tempo em que distinguem as naturezas no objeto de sua devoção, os fiéis visam nele todo Jesus, a pessoa total, a pessoa em suas duas naturezas; desde então também se deve dizer que a visam em seus dois amores, a menos que razões especiais nos façam reconhecer que eles têm em vista um só desses dois amores, o amor humano.
Diz-se: os documentos não falam senão do amor criado. Distingo: eles não falam senão dos benefícios onde aparece também o amor criado, eu o reconheço (exceto as exceções ditas acima); eles atribuem esses benefícios somente ao amor criado, espero que o provem. E há diferença, a este respeito, entre a ordem do amor e a da ação. É Jesus, em sua natureza humana, quem fala, quem age, quem sofre, quem institui os sacramentos, quem permanece na eucaristia; mas não se segue que ele tenha falado, agido, sofrido, e o restante, sob a influência de seu único amor criado. Por que não ver, salvo razões em contrário, o amor incriado comprazendo-se também nessas obras do amor criado, dando o impulso, por assim dizer, a este amor criado!
Mas « s'il faut faire place à la charité incréée, elle doit occuper le premier rang ». Vermeersch, loc. cit., p. 164. Aqui, novamente, faço uma distinção: se os dois amores fossem considerados em si mesmos, eu o concedo; se são visados através do coração de carne, faço ainda uma distinção: quando se fala explicitamente deles, que seja (poder-se-ia duvidar); se não se trata deles explicitamente, eu o nego — a menos que se prefira conceder, o que dá no mesmo, que ao falar do amor de Cristo, sem tê-lo explicitamente em vista nem como criado nem como incriado, dá-se implicitamente o primeiro lugar ao amor incriado, uma vez que se fala deste amor tal como ele é. Não é, portanto, por esta via tampouco que se deve procurar a solução da questão.
Mas « l’amour d’un cœur humain est censé humain lui-même, si l’on ne dit pas le contraire ». Vermeersch, loc. cit., p. 164. Poder-se-ia talvez hesitar em dizer sim, quando se trata de um caso único como o do Deus-Homem. É preciso dizer sim, contudo, se se trata do amor deste coração, do amor onde este coração está vitalmente interessado. Mas a questão é precisamente se se trata apenas deste na devoção ao Sagrado Coração.
Aqueles que veem sobretudo o Sagrado Coração como órgão, como faz o P. de Galliffet, devem ser levados a considerar a devoção como sendo a devoção ao amor humano de Jesus. Apenas talvez o P. Billot, que estabelece tão claramente que « le cœur est le symbole de l'amour parce qu’il en est l'organe », escreve, contudo, com a mesma decisão que « dans le Verbe incarné le cœur est le symbole à la fois de la charité incréée qui fit descendre le Verbe sur la terre et de la charité créée qui, éclatant dès le premier instant, le conduisit jusqu’à la croix ». Ele entende, sem dúvida, que o simbolismo, embora tendo seu fundamento na relação vital, não tem nela os seus limites. Pois o Sagrado Coração só é órgão em relação ao amor humano.
Outros veem nele tudo o que tem relação com o amor, e nele reencontram todo Deus, o qual, segundo o discípulo amado, é amor. Mas estes são levados a perder o contato com o coração real, com o coração de carne de Jesus. Ora, não esqueçamos que, sem este contato com o coração de carne, não há mais devoção ao Sagrado Coração. Quantas belas páginas foram escritas a propósito do Sagrado Coração sobre o amor de Deus e sobre suas operações no mundo, onde a devoção não teve outra parte senão a de ter servido de pretexto!
Com a noção de Sagrado Coração como emblema, retoma-se o contato com o coração real e permanece-se livre para fazer o emblema significar não somente o amor que ressoa no órgão, mas também o amor divino que nele não encontra eco algum. A questão não está resolvida de imediato. Não se trata do que pode ser, mas do que está no pensamento da Igreja, uma vez que se trata da devoção pública e oficial da Igreja, não de uma devoção privada que poderia ser diferente. Mas não esqueçamos que o coração emblema, tal como a Igreja o honra, é ao mesmo tempo o coração órgão, o coração de carne vivendo em Jesus e batendo em seu peito o ritmo da vida e do amor.
Esta última observação não nos obriga a concluir, na falta de textos precisos, que, no pensamento da Igreja, a devoção ao Sagrado Coração não é decididamente senão a devoção ao amor criado, ao amor humano, que é o único amor do Sagrado Coração, amor onde ele tem sua parte como órgão, ao mesmo tempo que como emblema? Não é esta a razão que pedíamos para ter o direito de restringir ao amor humano em Cristo o amor do Deus feito homem que dizíamos ser certamente o objeto da devoção? A conclusão não se impõe, ao que me parece.
Eis por que: a) O próprio amor do Coração de Jesus não é posto em movimento pelo seu amor incriado, e por que, desde então, o coração, símbolo do amor criado, não o seria também do amor incriado, unido por um vínculo tão íntimo de causalidade com o amor criado? Este amor incriado não ressoa diretamente no coração de carne, eu o admito; mas nele ressoa produzindo esse eco criado que é o amor do coração de carne; e isso basta para que o coração de carne me lembre dele, ao mesmo tempo que me lembra o amor criado; b) Em um sentido análogo, posso olhar para o amor incriado que cria o coração amante de Jesus. Este foco de amor, quem o acendeu? Este emblema vivo do amor, quem mo apresenta e mo dá? Se Jesus é uma manifestação viva de Deus no mundo, como o Sagrado Coração não seria a manifestação viva do amor e da amabilidade do próprio Deus? Ora, se assim é, o amor incriado tem o seu lugar na devoção ao Sagrado Coração; c) Enfim, a devoção ao Sagrado Coração leva-nos naturalmente, como vimos, à pessoa de Jesus mostrando-se a nós toda amante e toda amável. O Sagrado Coração é Jesus, Jesus aparecendo-me em sua natureza humana, mas Jesus apresentando-se ao mesmo tempo à minha fé como pessoa divina. E, por esta razão, também o amor incriado tem o seu lugar na devoção ao Sagrado Coração.
13º Resumo. Olhar sobre o coração vivo; fórmulas. — Que vasto campo aberto ao devoto do Sagrado Coração! Se sua devoção é pouco profunda ou pouco esclarecida, ele se perderá talvez a falar do amor de Deus no mundo, e o Sagrado Coração não terá nada a ver com isso, ou não será senão um sinônimo de amor; mas se ela compreende e saboreia o Sagrado Coração tal como ele é, em sua realidade viva e concreta, ao mesmo tempo que em seu simbolismo tão rico e expressivo, ela saberá ler nele todo Jesus na totalidade de seu duplo amor, como na totalidade de suas duas naturezas harmoniosamente unidas na pessoa divina, no Deus feito homem.
Tenhamos cuidado para não medir a riqueza da realidade pela estreiteza de nossas fórmulas; tentemos, ao contrário, multiplicar ou alargar nossas fórmulas para torná-las cada vez menos inadequadas, e cada vez mais proporcionadas à riqueza da realidade. Para isso, coloquemo-nos diante do Coração de Jesus, vivo e concreto; ou, se se quiser, diante de Jesus que nos mostra o seu coração. Estudemos este coração em si mesmo, o que ele é e o que ele significa. Assim, compreenderemos melhor do que pela análise das fórmulas, ainda que sejam admiráveis em amplitude e valor expressivo, o que é a devoção ao Sagrado Coração e qual é o seu objeto próprio.
É preciso, contudo, de fórmulas. Eis as que resumem o que dissemos sobre o objeto da devoção ao Sagrado Coração. Este objeto é o coração de carne de Jesus, vivo em seu peito e batendo de amor pelos homens. É este o coração de carne, símbolo efetivo e vivo do amor que Jesus teve e ainda tem pelos homens. Assim, este coração nos aparece antes de tudo como uma relação de vida e de expressão com o amor do Verbo encarnado por nós. É por aí, sobretudo, que se define a devoção ao Sagrado Coração. Ela é a devoção ao amor de Jesus por nós, ao amor com o qual Ele nos amou como homem e, também em certa medida, se as nossas observações a este respeito forem justas, ao amor com o qual Ele nos amou como Deus.
E, se ela se compraz em estudar este amor liberal e generoso em todos os seus benefícios, ela se detém de preferência em suas principais manifestações: a paixão e a eucaristia. Mas, ao invés de restringir demais a devoção a este simbolismo do amor, sob o risco talvez de esquecer ou de não mais ver com nitidez suficiente este amor como vivo e atuante, sob o risco talvez de perder o contato com este coração real e vivo, a devoção retorna ao coração amante para nele contemplar todo o íntimo de Jesus, as suas virtudes e as suas perfeições, ao mesmo tempo que as suas dores e o seu amor. A visão do amor torna-se apenas mais nítida, e as amabilidades aí resplandecem tanto melhor. Daí, por uma transição insensível e sem perder de vista o coração de carne, ela vai à pessoa daquele que nos mostra assim o seu coração todo amante e todo amável, para encontrá-lo, Ele mesmo, todo amante e todo amável no coração que Ele nos apresenta, isto é, que Ele nos mostra e que Ele nos oferece.
II. OS FUNDAMENTOS DA DEVOÇÃO. — 1° Fundamentos históricos. — De fato, a devoção ao Sagrado Coração, tal como foi aceita pela Igreja, recebeu o impulso da Beata Margarida Maria e de suas revelações. Veremos que ela estava no ar, que ela se procurava, por assim dizer. Mas permanece que, no pensamento dos devotos, a Beata Margarida Maria foi o instrumento providencial escolhido para fazer eclodir a devoção, para propagar o culto e obter a festa. A Igreja não se apoiou, propriamente falando, na verdade das visões para aprovar o culto e instituir a festa. São coisas que se sustentam por si mesmas. Mas permanece que a dependência histórica é real. Se, portanto, as revelações feitas a Margarida Maria fossem falsas, a festa, sem carecer de apoio, careceria de fundamentos históricos, e poder-se-ia dizer que, de fato, a deveríamos aos devaneios de uma visionária.
A Igreja entende desta forma. Por isso, em casos semelhantes, ela se cerca de todas as garantias humanas para certificar-se da verdade dos fatos. As visões da Bem-Aventurada possuem estas garantias; quaisquer que sejam a natureza e o modo, que Jesus tenha se servido de um instrumento doentio ou de um instrumento perfeitamente são, os fatos estão suficientemente provados, e suficientemente provado o seu caráter sobrenatural, para apoiar uma certeza humana, para que se possa caminhar e agir segundo esta certeza. Fatos tão bem constatados fazem fé em casos ordinários; a Igreja não acreditou até hoje que o seu caráter sobrenatural, devidamente constatado ele também, fosse uma razão suficiente para não agir neste caso como se age humanamente em casos semelhantes, e ela segue adiante.
Ela não compromete aí a sua infalibilidade; mas compromete o seu renome de prudência, de discrição, de seriedade. As revelações da Bem-Aventurada, examinadas como devem ser por juízes competentes, suportam a luz; e se há em algum lugar traço de leviandade, de ignorância e de preconceitos, não é entre os juízes eclesiásticos que as admitiram após maduro exame; é entre aqueles que as rejeitam sem exame, ou após um exame feito sob condições tais que não poderia fundar uma decisão séria. Que se leiam os escritos da Bem-Aventurada, sua vida, seu processo de beatificação, e ver-se-á se as garantias de seriedade e de ciência estão com aqueles que disseram sim ou com aqueles que dizem não. Diremos uma palavra sobre os fatos ao estudar a história da devoção.
2° Fundamentos dogmáticos. — Eles ressaltam já do que foi dito acima. O Coração de Jesus é digno de adoração, como tudo o que pertence à pessoa de Jesus; não, sem dúvida, se o considerássemos como separado desta pessoa, sem relação com ela. Mas não é assim que o consideramos. Às acusações dos jansenistas, tínhamos sempre respondido que considerávamos o Sagrado Coração como unido à pessoa do Verbo; Pio VI explicou-o autenticamente na bula Auctorem fidei. Assim, caem todas as prevenções de nestorianismo, de idolatria, etc.
Mas a devoção ao Sagrado Coração não é apenas o culto do Coração de Jesus; ela é o culto do amor. E, certamente, deste ponto de vista, ela seria uma invenção de gênio, se não fosse o efeito da ação do Espírito Santo, sempre vivo e atuante na Igreja. Que ideia admirável destacar assim o amor de Jesus em cada ato de sua vida, em cada uma de suas palavras, em toda a sua pessoa! Que conveniências desta devoção com a própria ideia de Deus que é amor e bondade, com a ideia de Jesus, aparição viva da benignidade de Deus e de seu amor paterno, com a própria ideia do cristianismo que se apresenta em seu fundamento como um grande esforço do amor divino por nós. Teremos talvez ocasião de retornar a isso. Mas como não notar aqui, endereçando-se àqueles que buscam a essência do cristianismo, que a essência do cristianismo é o amor de Deus pelo homem manifestado em Jesus, e que a devoção ao Sagrado Coração vai captar em Jesus mesmo este amor para nele reacender o nosso amor. Existe algo que nos ajude melhor a realizar o desejo que São Paulo formava para os fiéis: «Dobro os joelhos diante do Pai, de quem toda paternidade no céu e na terra tira o seu nome, para que vos conceda, segundo as riquezas da sua glória, serdes fortalecidos com poder pelo seu Espírito, no homem interior; e que Cristo habite em vossos corações pela fé, de sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento, a altura e a profundidade, conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, a fim de que sejais preenchidos com toda a plenitude de Deus?» Eph., III, 14-20.
Deste lado, portanto, a devoção ao Sagrado Coração merece todos os entusiasmos e todos os elogios — e Deus sabe se ela teve o dom de despertar entusiasmos e de atrair elogios. Mas a devoção ao Sagrado Coração não é somente o culto do Coração de Jesus; nem somente o culto do amor que nos amou até não viver senão para nós, até morrer por nós, até se dar a nós na eucaristia. É o culto do amor no do coração; é o culto do coração para honrar o amor, e é nesta relação estabelecida entre o coração e o amor que reside a principal dificuldade levantada contra a devoção. Esta relação não seria um erro dos velhos tempos? Pode-se ainda sustentar algo semelhante? Isso nos conduz à nossa terceira questão.
3º Fundamentos filosóficos. — Não se pode negar, nem sempre houve acordo sobre este ponto entre os teólogos do Sagrado Coração, e nem todos se saíram com honra das dificuldades levantadas a este respeito contra a sua estimada devoção; alguns, inclusive, deram a este propósito explicações más, às quais é preciso renunciar francamente. Mas outros, parece-me, renunciam a elas com demasiado desembaraço e substituem-nas por outras que deixam, talvez, a devoção tradicional em má posição. Estas dificuldades não são de hoje, e não se esperou pelo progresso da fisiologia moderna para levantá-las.
Quando o P. de Galliffet, em 1726, “postulou” pela instituição da festa e entregou aos cardeais e consultores da S. C. dos Ritos, primeiro o seu belo livro De cultu sacrosancti cordis Dei ac Domini nostri Jesu Christi, depois os Excerpta do mesmo livro ad pleniorem cognitionem causæ necessariæ, encontrou-se o seu trabalho, diz-nos Bento XIV, excelente em todos os pontos, omnibus numeris absolute. De servorum Dei beatificatione, l. IV, part. II, c. xxxi, n. 20, Prato, 1834, t. IV, p. 702. O promotor da fé, que era o próprio Prosper Lambertini, o futuro papa Bento XIV, embora pessoalmente favorável à causa, diz-nos o P. de Galliffet, apresentou conscientemente as suas objeções de “advogado do diabo”. Uma delas não foi proposta senão de viva voz; e foi ela, ao que parece, que mais comoveu a S. C. “Acrescentei de viva voz”, escreve o Papa, “que os postuladores estabeleciam como princípio que o coração é, como se diz, o co-princípio sensível de todas as virtudes e afeições, e como o centro de todas as alegrias e penas íntimas; mas havia aí um problema filosófico, visto que os filósofos modernos situam o amor, o ódio e as outras afeições da alma (anima), não no coração, como no seu assento, mas no cérebro.” E ele remete a Muratori. Loc. cit., n. 25, p. 704.
“É por isso”, continua o Papa, relatando o seu parecer fundamentado, “como não havia ainda decisão da Igreja sobre a veracidade de uma ou outra destas opiniões, e como a Igreja sempre se absteve prudentemente e ainda se abstém de se pronunciar sobre estas questões, insinuei respeitosamente que não se deveria atender a um pedido fundado sobretudo nas opiniões dos antigos filósofos, em contradição com os modernos.” Loc. cit., p. 705. Consequentemente (bis coherenter), a resposta foi adiada, o que era uma forma de evitar uma recusa (1727). Tendo os postuladores insistido no seu intento, a recusa não tardou a vir (1729). Constata-se, com efeito, que o P. de Galliffet dava uma importância muito grande ao coração na própria produção das afeições. Foi-se mais prudente mais tarde. Distinguiram-se os factos tidos por certos da explicação incerta. Ver em Nilles, t. I, part. I, c. III, § 4, 8, n. 4, p. 73; c. III, § 2, p. 150.
Mesmo na exposição destes factos apresentados como certos, misturavam-se, sem que se suspeitasse, asserções erróneas; mas o princípio estava claramente estabelecido de que a Igreja podia pronunciar-se sobre a devoção ao Sagrado Coração sem se pronunciar sobre as opiniões contestadas. Foi o que ela fez. Era difícil, contudo, que nada traísse, nas exposições de motivos que ela junta ordinariamente aos grandes atos da sua autoridade, os fluxos e refluxos da opinião científica nestas matérias.
Pode-se, com efeito, captar algum traço ligeiro em tal palavra, na preferência dada a tal expressão. Em geral, evitou as expressões contestadas como conprincipium, como também, creio, organum; vimo-la substituir num caso a palavra symbolum pelas palavras fons e origo, que lhe eram propostas; empregou a palavra sedes como exprimindo um facto de experiência, o contragolpe das nossas afeições no coração. Graças a esta prudência, as opiniões novas na fisiologia substituíram-se pouco a pouco às opiniões antigas, sem que a devoção ao Sagrado Coração se encontrasse diretamente em causa.
Deixou-se que os sábios substituíssem o coração, para a explicação da sensibilidade, pelo cérebro e o sistema nervoso, um fazendo função de recetor e transmissor, o outro servindo de fio de transmissão; e continuou-se a falar como outrora do coração que sofre e ama, que se comove ao bater mais forte, que se gela ao contrair-se, porque a linguagem corrente não pretende dar explicações científicas, mas exprimir de forma inteligível o que se sente e o que se experimenta. Assim, a ciência e a devoção seguiam cada uma o seu caminho sem quase se conhecerem; e se se encontravam por vezes, era quase sem nunca se chocarem. Alguns médicos materialistas lançavam bem, de tempos a tempos, alguma injúria grosseira à devoção; mas estava-se tão habituado à injúria e à ignorância daquele lado, que não se prestava atenção.
De tempos a tempos, alguns teólogos tentavam explicar o culto do Sagrado Coração em função dos dados novos da ciência. Assim o P. Jungmann, professor na universidade de Innsbruck, nas suas Fünf Sätze. Assim o seu irmão, o abade Bernard Jungmann, professor na universidade de Lovaina, nas suas teses sobre o Sagrado Coração. Estes retoques às velhas explicações eram feitos com mão leve e discreta, e o conjunto dos teólogos aproveitava-os para evitar alguns erros de expressão, para delimitar com mais precisão o sentido e o alcance do culto. Em fevereiro de 1870, o P. de Bigault expunha, nas Études, as ideias do P. Jungmann, e ninguém encontrava nada a objetar.
O choque ocorreu, contudo, entre a ciência e a piedade. É quase sempre a condição de um acordo duradouro, onde cada uma aprende a conhecer os limites do seu domínio e neles se limita para deixar a sua vizinha evoluir à vontade no seu. A ocasião do choque foram as obras do Sr. Riche, sacerdote de Saint-Sulpice, Les merveilles du coeur, Paris, 1877; Le coeur de l’homme et le Sacré-Coeur de Jésus, 1878. O P. Ramière julgou a sua estimada devoção comprometida e partiu para a guerra contra o Sr. Riche. Este replicou. A polémica teve, como é habitual, vivacidades lamentáveis; as almas devotas foram perturbadas. Pio IX interveio para “que se cessasse toda a polémica sobre o Sagrado Coração, julgando o momento inoportuno para manter entre católicos discussões sobre este assunto”. Citado por Riche, Les fonctions de l’organe cardiaque, Paris, 1879, p. xiv.
A polémica teve, como acontece, bons resultados. Ninguém, penso, escreverá mais que “o Coração de Jesus é o principal órgão das afeições sensíveis do Verbo encarnado; que ele é o co-princípio das suas virtudes, o foco e a fonte da sua caridade. A função eterna do coração é receber as impressões deste amor e produzir os seus atos”, citado em Terrien, p. 53; nem isto: « Do mesmo modo que a alma pensa e julga pelo cérebro, é ela quem sente, quem ama e quem se comove pelo coração, como é ela ainda quem vê pelos olhos. » Ibid. Ninguém, sobretudo, se aventurará a sustentar que a devoção ao Sagrado Coração esteja essencialmente interessada nisto: « A divergência de opiniões sobre este ponto só serviu para retardar o triunfo da B. Margarida Maria e o estabelecimento do reino social do Sagrado Coração de Jesus, » nem que se trata aí de « vingar a tradição, a Igreja e os seus doutores, o próprio Jesus Cristo e a Bem-Aventurada, Pio IX e os teólogos que ensinaram esta verdade », Ibid., p. 54.
A estas afirmações pouco moderadas, basta opor os textos. É como símbolo de amor, não como órgão de amor, que a devoção foi aprovada e fez o seu caminho. O cardeal Gerdil, que combateu, aliás, as explicações do P. Feller, de acordo neste ponto com os jansenistas sobre o sentido puramente metafórico a dar à palavra coração na devoção, escrevia: « A única razão pela qual a S. C. julgou dever conceder o ofício e a missa próprios do Sagrado Coração é que ele é o símbolo do amor de Jesus Cristo. » Citado por Terrien, p. 61.
Os próprios defensores das velhas opiniões concordam. Assim, o P. Emmanuel Marquez, Defensio cultus SS. Cordis: « A festa do Sagrado Coração apresenta-o como um símbolo de amor; pois, na verdade, ela não é outra coisa senão uma festa em que a caridade de Cristo para com os homens é honrada sob o símbolo do seu divino Coração. Ora, uma festa em que a caridade de Cristo para com os homens é honrada sob o símbolo do seu coração não supõe nada de falso nem de incerto. Com efeito, para a justificar, o que é necessário? Uma só coisa, a saber, que este coração simbolize realmente a caridade de Jesus, » Citado por Terrien, p. 62.
E respondendo diretamente à objeção de que o coração poderia bem não ser o órgão do amor sensível, ele escreve: « A resposta é fácil. Nem a festa, nem a devoção ao Coração de Jesus repousam sobre a opinião que atribui ao coração o papel de órgão na produção dos nossos sentimentos. Com efeito... tanto a festa quanto o culto supõem como única condição o simbolismo do Coração de Jesus. Ora, é isso que não é de modo algum contestável, qualquer que seja, aliás, a opinião que se adote sobre o papel do coração. Quer este seja ou não o órgão do amor, ele permanece o seu natural símbolo, em virtude da estreita afinidade que a ele o liga. » Ibid. E que não se fale aqui de recuo, após o fato, diante da ciência.
A Igreja teve tão bem em conta, desde o início, as hipóteses da ciência — não passavam, aliás, de hipóteses pouco exatas elas mesmas, nos tempos de Galliffet e de Lambertini — que ela só quis pronunciar-se pelo culto quando viu claramente que o podia fazer sem se subordinar a opiniões variáveis e incertas. Que os primeiros teólogos da devoção — e ainda vários deles, como o P. Croiset, são bastante reservados sobre este ponto — tenham dado demasiado ao coração, seja; mas eles fizeram muito mais nos seus desenvolvimentos sobre a excelência da devoção do que nas suas explicações sobre o objeto próprio da devoção. Resta que a devoção ao Sagrado Coração está suficientemente fundamentada, se o coração é verdadeiramente o emblema do amor. E quem pode negar que o seja?
Receio, contudo, que alguns sejam levados por esta ideia de emblema ou a sacrificar a relação real do coração de carne ao amor, fundamento do simbolismo, ou a não dar mais à devoção toda a sua amplitude e todo o seu alcance, restringindo por demais o campo do simbolismo e o valor representativo do coração. Nunca esqueçamos que a devoção ao Sagrado Coração não seria mais o que é se perdesse contato com o coração real, e se o coração de Jesus não fosse concebido como em relação real com a vida efetiva de Jesus, e por aí com todo o íntimo de Jesus.
Eis, pois, se não me engano, como mais ou menos se pode formular as relações da devoção ao Sagrado Coração com a ciência do coração. O coração de Jesus é um coração humano perfeito; o coração é nele o que é normalmente em nós. Ora, nós sentimos o nosso coração interessado nos nossos estados afetivos e até nas nossas disposições morais; sentimos os nossos estados afetivos e até as nossas disposições morais ligados a certos estados e a certos movimentos do nosso coração. Não é apenas por metáfora que dizemos: O coração batia-me forte; tinha o coração pesado; ainda tenho o coração apertado por isso; o meu coração dilatava-se; estava como liquefeito; ele tem o coração quente. Estas expressões traduzem para nós uma realidade fisiológica ao mesmo tempo que uma realidade psíquica. Em que consiste esta realidade fisiológica, não saberíamos dizer, e deixamos aos fisiologistas o cuidado de a explicar. Mas esta correspondência é para nós um fato de experiência, e é sobre este fato de experiência que repousa o simbolismo do coração, que repousa toda a devoção ao Sagrado Coração.
Para nos darmos conta das coisas em si mesmas, recorremos aos filósofos e aos sábios. Os filósofos dizem-nos que o coração não poderia ser o órgão de um amor espiritual; acrescentam que um amor verdadeiramente humano tem naturalmente algo de sensível ao mesmo tempo que de espiritual, sendo o homem um animal racional, e que um amor sensível deve estar em relação com um órgão corporal. Aqui o fisiologista intervém, e, ao mesmo tempo que nos diz que o órgão próprio das nossas emoções sensíveis não é o coração, diz que « o coração, órgão principal da circulação do sangue, é ainda um centro onde vêm repercutir todas as impressões nervosas sensitivas ». Claude Bernard, citado por Terrien, p. 137. Ver Riche, Les fonctions cardiaques, c. IV, p. 98 sq.
E certamente é interessante ouvir os sábios explicar-nos o que experimentamos e repetir-nos, o que já sabíamos bem, que « o amor que faz palpitar o coração não é... apenas uma fórmula poética, é também uma realidade fisiológica ». Claude Bernard, citado por Riche, op. cit., p. 105. Escutá-los-emos da mesma forma com interesse, quando nos disserem que a vida vegetativa, e nomeadamente a circulação do sangue, da qual o coração é o órgão principal, está em relação estreita de causa e efeito com a vida afetiva. Mas não esqueceremos que a nossa devoção repousa sobre experiências imediatas anteriores à ciência; que ela não é, portanto, solidária das descobertas da ciência, menos ainda dos seus tateios e das suas hipóteses mutáveis. Ela move-se num outro domínio; alguns fatos de experiência quotidiana bastam para fundar o simbolismo do coração e para estabelecer que ele está em relação real com a nossa vida afetiva. Com isso, a devoção ao Sagrado Coração está suficientemente fundamentada em fisiologia. A ciência vem depois e vem ao lado. Os teólogos do Sagrado Coração esqueceram-no por vezes. Esperemos que não o esqueçam mais.
III, O ATO PRÓPRIO DA DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO. — Uma devoção especifica-se sobretudo pelo seu objeto; mas ela é, em si mesma, um conjunto de ideias, de sentimentos, de práticas, em relação a esse objeto. Para terminar de conhecê-la, é preciso, portanto, estudá-la também sob este aspecto, perguntando-nos qual é o ato próprio da devoção ao Sagrado Coração. A resposta pode ser deduzida do objeto e da finalidade da devoção, sendo esta finalidade ela mesma determinada pela natureza do objeto. Mas, para não proceder unicamente a priori, deveremos examinar também os textos e os fatos. A questão do ato próprio poderia muito bem expressar-se assim: Qual é o espírito e o caráter próprio da devoção ao Sagrado Coração, quais são as suas práticas especiais segundo esse espírito e esse caráter? Pode-se reduzir tudo a estes dois pontos: finalidade e ato próprio da devoção, explicando o espírito, as práticas, o caráter.
1° Finalidade da devoção ao Sagrado Coração. — Quando Jesus mostrava à Beata Margarida Maria o seu coração ardente de amor pelos homens, e não podendo mais conter as chamas que o devoravam, querendo compartilhar com todos as riquezas infinitas do seu Coração, o que queria ele? Atrair a atenção dos homens sobre este amor, levá-los a prestar-lhe homenagem, convidá-los a beber deste Coração infinitamente rico. Se, segundo as palavras da Bem-aventurada, «ele sente um prazer singular em ser honrado sob a figura do seu Coração de carne», qual objetivo ele quer que nos proponhamos ao prestar-lhe esta honra? Trata-se da finalidade precisa e próxima da devoção, não da finalidade última e geral, que é evidentemente a glória de Deus e a santificação das almas. Ele quer que nos proponhamos honrar o seu amor, e responder-lhe retribuindo amor por amor. A manifestação do Sagrado Coração à Beata Margarida Maria é a manifestação do amor. A resposta que ela pede é evidentemente uma resposta de amor. Pode-se, portanto, reduzir toda a devoção a isto.
De um lado, um amor que chama o amor, um amor terno e transbordante que chama um amor proporcionado; do outro lado, o amor que responde ao chamado do amor, amor ansioso por não ficar muito em dívida com o amor imenso que o preveniu e que o provoca. Se a devoção ao Sagrado Coração se reduz, segundo a palavra de Pio VI, a venerar a imensa caridade e o amor pródigo (effusum) de Nosso Senhor por nós, é claro que é para acender o nosso amor neste foco de amor. A coisa é evidente por si mesma.
Apenas alguns textos para mostrar que é bem assim. A Bem-aventurada escreve ao Padre Croiset: «Era-me mostrado um Coração sempre presente, lançando chamas por toda parte com estas palavras: Se soubesses o quanto estou sedento de ser amado pelos homens, nada negligenciarias para isso... Tenho sede, ardo por ser amado.» Lettres inédites, carta VI, p. 180. Ela tinha escrito anteriormente à Madre de Saumaise: «Ele reinará apesar dos seus inimigos, e tornar-se-á o mestre e o possuidor dos nossos corações; pois é a sua principal finalidade nesta devoção converter as almas ao seu amor.» Carta LVII, Vie et oeuvres, t. I, p. 115; 2ª ed., carta LVIII, p. 152.
E ainda ao Padre Croiset: «Ele me fez ver que o ardente desejo que ele tinha de ser amado pelos homens, tinha-o feito formar este desígnio de manifestar o seu Coração aos homens, com todos os tesouros de amor, de misericórdia, de graça, de santificação e de salvação que ele continha. Todos aqueles que quisessem render-lhe e procurar-lhe todo o amor, a honra e a glória que estivessem ao seu alcance, ele os enriqueceria com abundância e profusão destes divinos tesouros do Coração de Deus, que deles era a fonte. Para isso “era preciso honrá-lo sob a figura deste Coração de carne”. Esta devoção era como um último esforço do seu amor que queria favorecer os homens nestes últimos séculos com uma tal redenção amorosa, para nos colocar sob a doce liberdade do império do seu amor, que ele queria restabelecer no coração de todos aqueles que quisessem abraçar esta devoção». Lettres inédites, carta IV, p. 142.
É bem assim que o entendiam os promotores da devoção: «A finalidade da nova devoção, dizia o postulador de 1697, é pagar um tributo de amor à fonte mesma do amor.» Memoriale. «A primeira finalidade que se tem em vista, dizia o postulador de 1727, o Padre de Galliffet, é responder ao amor de Cristo.» E o Padre Croiset: «Não é aqui propriamente senão um exercício de amor: o amor é o seu objeto, o amor é o seu motivo principal, e é o amor que deve ser a sua finalidade.» 1ª parte, c. 1, p. 3-4.
É bem assim que o entende a Igreja. Ela diz, por exemplo, no hino de laudes, Quis non amantem redamet? Quis non redemptus diligat? Ela diz na secreta da missa Egredimini: «Nós vos suplicamos, Senhor, que o Espírito Santo nos inflame com o amor que Nosso Senhor Jesus Cristo fez jorrar do seu Coração sobre a terra, e com o qual ele quis que ela se incendiasse.»
Quando Pio IX, em 1856, estendia a festa do Sagrado Coração à Igreja inteira, era para «fornecer aos fiéis estímulos (incitamenta) para amar e retribuir amor (ad amandum et redamandum) ao Coração daquele que nos amou e nos lavou dos nossos pecados no seu sangue». Em Nilles, t. I, part. I, c. IV, § 1, t. I, p. 167. Quando ele eleva a festa a um rito superior, é para que «a devoção de amor ao Coração do nosso redentor se propague cada vez mais, e desça mais profundamente no coração dos fiéis, e que assim a caridade, que em muitos se arrefeceu, se reanime aos fogos do divino amor». Ibid., § 4, p. 170.
Ele diz no breve de beatificação da Beata Margarida Maria: «Jesus não tem nada mais no coração do que acender no coração dos homens a chama de amor com que o seu próprio Coração estava abrasado. Para melhor conseguir, ele quis que se estabelecesse e se propagasse na Igreja o culto do seu sacratíssimo Coração.» Em Nilles, t. I, part. II, c. 9, § 2, t. I, p. 346. A medalha comemorativa da beatificação representava Jesus mostrando o seu Coração, com esta legenda: Cor ut redametur exhibet. Ver Terrien, p. 180, nota.
Leão XIII repetiu os mesmos ensinamentos. Na sua encíclica de 28 de junho de 1889, ele escreve: «O desejo mais ardente do nosso Salvador é ver nascer e crescer nos fiéis o fogo de amor com que o seu próprio Coração é devorado. Vamos, pois, àquele que não nos pede como preço da sua caridade senão a reciprocidade do amor.» Segundo Terrien, p. 180. Pode-se dizer que todos os documentos nos levam de volta a esta ideia. Basta escolher. Acrescentemos que, sendo a devoção um retorno de amor a um amor desconhecido e ultrajado, este amor apresenta-se naturalmente como um amor de reparação. Assim, como veremos, os documentos falam-nos de reparação ao mesmo tempo que de amor.
2° O ato próprio da devoção ao Sagrado Coração; espírito, caráter, práticas. — Trata-se de uma questão sobre a qual por vezes se discutiu. Para nós, ela está resolvida pelo que precede: o ato próprio da devoção é, evidentemente, o ato de amor. Jesus dá o seu coração para ter o nosso. A devoção ao amor é por essência uma devoção de amor, o seu lema é: Nos ergo diligamus Deum, quoniam ipse prior dilexit nos, I Joa., IV, 19; ou ainda: Sic nos amantem quis non redamaret? Ao amor respondemos com amor.
Mas, notemo-lo bem, pelo próprio fato de se apresentar como uma resposta ao amor, este amor tem caracteres especiais, determinados em grande parte pelo amor que ele deseja reconhecer ao responder-lhe. Não falo da nuance indescritível que lhe conferirá o sentimento sempre presente da distância entre ele e nós, do que ele é e do que nós somos, que nos coloca a seu respeito numa atitude análoga à dos apóstolos após a ressurreição, na manhã da pesca miraculosa, comendo sob o seu olhar o desjejum que ele próprio lhes preparou, e não ousando perguntar-lhe quem ele é, sabendo bem que era Jesus; que transparece em todas as relações entre ele e nós para fundir ao mesmo tempo a condescendência infinita, que sem decair desce à mais íntima familiaridade, e o respeito afetuoso que ousa amar simplesmente sem esquecer a audácia que existe em amar tão alto.
É preciso indicar certos traços mais especiais deste amor tal como o exige esta devoção. É um amor recíproco e que nunca esquece que é amado. Se fosse tentado a esquecê-lo, um olhar sobre o Sagrado Coração lembra-lho imediatamente. Este amor recíproco é, apesar das distâncias, um amor de amizade, um amor de familiaridade, com a nuance que indicamos.
Isso se deve em parte, sem dúvida, ao fato de que o amor do Sagrado Coração por nós se apresenta como um amor humano, sob formas sensíveis, à medida, por assim dizer, do nosso coração. Mas isso deve-se sobretudo ao fato de que, sendo este amor o de Jesus, do Verbo encarnado, não podemos esquecer que ele quis ser da nossa família para nos fazer da sua, que ele quis, sendo Deus, fazer-se homem, para fazer do homem um Deus.
Este amor recíproco não esquece que foi prevenido; que Jesus fez todas as propostas e que ele só tem de responder. Ele para, portanto, a estudar este amor preventivo e tudo o que ele fez, e tenta, embora sabendo bem que nunca chegará a isso, responder às ternuras e aos ardores deste amor com tudo o que tem de ternura e ardor, à sua generosidade com tudo o que tem de dedicação desinteressada, etc. Em suma, esforça-se, numa luta desigual, por responder pela perfeição do amor ao amor perfeito que o preveniu.
Mas o amor de Jesus, tal como se mostrou à Beata, é um amor desconhecido e ultrajado. E é isso que dá a sua importância ao ato de reparação no culto do Sagrado Coração. Este lugar da reparação é tal que, por vezes, parece que a apresentam como o ato primeiro e essencial da devoção. Não é nada disso, contudo. E, primeiramente, a reparação tal como nos aparece aqui é uma reparação de amor, não uma reparação de justiça ou de expiação; traduz-se pelo desagravo, que se dirige precisamente ao amor desconhecido e ultrajado. O amor vem, portanto, em primeiro lugar.
Acrescentemos que a reparação é colocada em segundo plano nos textos. É dito neles que a finalidade principal da devoção é o amor; a reparação só vem depois e como ato especial de amor para com o amor desconhecido e ultrajado. O amor, a consagração ou entrega completa de si ao Sagrado Coração, ocupa infinitamente mais espaço nos escritos e nas preocupações da B. Margarida Maria do que a reparação e o desagravo. Ainda que fosse de outra maneira, não se deveria por isso colocá-la em primeiro lugar. Pela força das coisas, ela só vem depois, como ato especial de amor.
Outros atos, outras práticas são caros aos devotos do Sagrado Coração: comunhão reparadora e devoção à eucaristia, hora santa e devoção à paixão, etc. Tudo isso decorre da natureza própria desta devoção. São efeitos do amor. Nada lhe é estranho do que traduz o amor. Mas tudo o que se faz e tudo o que se sofre reporta-se a isso como à sua fonte, ao amor como ao seu termo. Leia o que São Paulo diz da caridade, I Cor., XIII, 5 sq., encontrará nele como que uma descrição da verdadeira devoção ao Sagrado Coração, porque encontrará nele uma descrição do verdadeiro amor.
O espírito da devoção é, portanto, o espírito de amor. Todas as práticas são animadas por ele; todas partem dele. Onde quer que encontremos a devoção ao Sagrado Coração, notamos este caráter de amor. É por amor que ela se apega a Jesus para estudar nele o seu amor desde a manjedoura até ao Calvário, detendo-se nos fatos exteriores, mas para aí procurar os vestígios do amor; é para melhor amar que ela procura conhecê-lo melhor. É por amor que ela se compadece das suas penas, que lhe presta homenagem ao vê-lo desconhecido, que desfruta das suas alegrias e dos seus triunfos como se fossem os seus, que vive dele enfim, e que se esforça por agradar-lhe amando-o cada vez mais para mostrar-lhe o seu amor, e por tornar-se cada vez mais amável aos seus olhos para contentar este amor. Cabe aos pregadores e aos autores ascéticos desenvolver todas estas coisas. Era necessário indicá-las aqui para ajudar a formar uma ideia mais justa e mais viva da devoção.
IV. CONCLUSÃO. — Esta devoção comparada a outras; a sua relação com o fundo do cristianismo enquanto o cristianismo é a religião de Jesus e a religião do amor.
Todas as devoções, que têm por objeto os mistérios de Jesus, dirigem-se à pessoa de Jesus; mas visam-no num estado especial ou num fato da sua vida. No Natal, honramos Jesus nascente; na paixão, Jesus sofredor; na Páscoa, Jesus ressuscitado, etc. A devoção ao Sagrado Coração não se prende a nenhum mistério especial de Jesus, nem a nenhum dos seus estados. Mas todos são da sua competência, naquilo que têm de mais íntimo, enquanto ela estuda neles o seu coração, o seu amor, os seus sentimentos íntimos e as suas virtudes. Ela vai, portanto, ao fundo de cada mistério para procurar a sua alma, para extrair o seu espírito, para ter a sua explicação última.
«Assim, dizia o postulador de 1765, pela festa do Coração de Jesus — deve dizer-se o mesmo da devoção — não nos representam apenas alguma graça especial, abrem-nos de par em par a fonte de todas as graças. Não se recorda nela um mistério particular; propõe-se meditar e adorar o princípio de todos os mistérios. Tudo o que há de graças e de mistérios no íntimo de Jesus e nos segredos do seu coração; todos os bens que decorreram para os homens deste amor do muito amante redentor; tudo o que a paixão interior de Cristo... oferece ao nosso olhar e ao nosso amor, tudo isso nos é representado pela festa do Sagrado Coração de Jesus, ali é recordado, ali é honrado.» Replicatio, n. 20, em Nilles, t. I, part. I, c. ur, § 3, t. I, p. 146.
Compreende-se, a partir disso, o que nos dizem os pregadores das conveniências litúrgicas da festa e do seu lugar no ciclo anual, após todos os mistérios especiais dos quais ela recorda a memória, ao extrair deles como a sua quintessência. Compreende-se o que nos dizem da excelência desta devoção, seja olhando para o seu objeto, seja olhando para o seu fim, seja olhando para o seu ato próprio. Sem segui-los nestes desenvolvimentos, contentemo-nos em ver nela um resumo claro e profundo, uma expressão viva e eloquente, a fórmula mais feliz da essência mesma do cristianismo.
O que é, efetivamente, o cristianismo no seu fundo mais íntimo? É a religião de Jesus e é a religião do amor. A religião de Jesus. Olhemos as coisas do lado de Deus. Ele não nos conhece, por assim dizer, e não nos ama senão em Jesus, no único mediador; Ele não aceita as nossas homenagens senão apresentadas por Jesus; não há outro comércio entre Ele e nós senão por intermédio de Jesus; nós não existimos, pode-se dizer, para Ele, na ordem sobrenatural, senão em Jesus e por Jesus.
Olhemo-las do nosso lado. Nós não somos salvos senão em Jesus; não conhecemos a Deus senão por Jesus; não podemos amá-Lo senão por Jesus; não vivemos da vida sobrenatural senão enquanto e na medida em que somos um com Jesus.
Ele é verdadeiramente o tudo da nossa religião, o tudo da vida cristã. Pois bem! nada nos dá Jesus, nada nos faz conhecê-Lo e amá-Lo no seu fundo, nada nos coloca em relação íntima e pessoal com Ele, nada nos faz viver d'Ele e n'Ele como a devoção ao Sagrado Coração. Não é ela, entre Ele e nós, a fusão dos corações, que de dois faz um só? Com o Sagrado Coração, temos Jesus todo inteiro. Por este motivo, pode-se encontrar algo mais expressivo, algo mais eficaz?
São João Crisóstomo resumia São Paulo dizendo: O coração de Paulo é o coração de Cristo. A devoção ao Sagrado Coração faz do coração cristão o coração de Jesus.
Religião de amor. Definiu-se a religião como o encontro de dois amores. Como religião, ela não é propriamente isso; ela é um assunto de dever, reconhecimento das relações essenciais entre Deus e nós; e essas relações não são, olhando apenas para a natureza das coisas, relações de amizade, são relações de mestre a servo, de criador a criatura. Para que sejam possíveis essas relações de amizade entre Ele e nós, é necessária uma vontade especial de Deus elevando-nos à ordem sobrenatural, uma efusão do espírito de adoção permitindo-nos dizer meu Pai, àquele que, adotando-nos, quer bem chamar-nos seus filhos.
Mas se a religião, como tal, não pode definir-se como o encontro de dois amores, o cristianismo pode, e essa é uma das mais belas ideias e das mais verdadeiras que se pode dar sobre ele. Do lado de Deus, é um grande esforço de amor para ganhar o nosso amor. Definiu-se como uma grande piedade vindo em socorro de uma grande miséria. Mas essa piedade mesma de onde vem? Do amor. A primeira, como a última palavra, das vias de Deus sobre nós, é o amor. A que devemos Jesus? Ao amor. Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret. Joa., III, 16. A que a paixão e a redenção? Ao amor: Dilexit me et tradidit semetipsum pro me. Gal., II, 20. Todo o mistério de Jesus apresenta-se como um supremo esforço do amor: Cum dilexisset suos qui erant in mundo, in finem dilexit eos. Joa., XIII, 1.
A Igreja inteira, com os seus sacramentos e a sua magnífica organização para propagar no mundo a graça e a verdade, é um dom do amor, e Deus quis que a primeira lei do seu governo fosse a lei do amor, o amor de Deus transbordando em amor sobre os homens: Amas me?... pasce agnos meos, Joa., XXI, 17; que a primeira lei imposta aos fiéis fosse a lei do amor. É o grande mandamento. Se se cumpre esse, tudo irá bem: Dilige et fac quod vis.
Do lado dos fiéis, tudo se reconduz igualmente ao amor. A lei, acabamos de ver, resume-se no amor; a fé cristã, é São João quem no-lo diz, caracteriza-se como a fé no amor: Et nos credidimus caritati, Joa., IV, 16; toda a vida cristã consiste em viver em Jesus pelo amor; e a perfeição cristã define-se pela união de amor e a transformação amorosa em Jesus. É, pois, verdade, a religião cristã resume-se no amor. É dizer que ela se resume no Sagrado Coração, uma vez que a devoção ao Sagrado Coração é inteiramente devoção ao amor, devoção de amor.
Enfim, o cristianismo não é Jesus e o amor como duas coisas distintas. É o amor de Jesus por nós e o nosso amor por Jesus; é o amor de Deus por nós em Jesus, e o nosso amor por Deus em Jesus. Não é repetir, em outros termos, que o cristianismo está todo inteiro no Sagrado Coração? Sem dúvida, essa não é uma fórmula necessária. Mas quem pode negar que seja uma fórmula admirável, curta, clara, singularmente expressiva, falando ao mesmo tempo ao coração e ao espírito, à alma e aos sentidos? Não há motivo para se espantar, se assim é, com as magníficas promessas de Nosso Senhor à Beata Margarida Maria, em favor dos devotos ao seu Sagrado Coração? Que não se pode esperar de tal amor? Nem espantar-se com os frutos singulares que ela anexa a esta devoção. Que não fará na alma, se uma vez ela nela se implantar, a devoção do amor respondendo a tal amor?
Isso pode ajudar-nos a compreender o termo singularmente audaz da Beata Margarida Maria, de que o Sagrado Coração era como um novo mediador. Como novo mediador? Como manifestação nova do eterno e único mediador, fazendo-nos como um novo dom de si mesmo ao dar-nos o seu Coração a descoberto. Isso pode ajudar-nos a compreender também que Leão XIII tenha designado o Sagrado Coração como o labarum dos novos tempos. Não que a cruz deva desaparecer e apagar-se diante do Coração. Mas o Coração far-nos-á compreender e conhecer melhor a cruz; faz-nos entrar no fundo mesmo do mistério da redenção; faz transbordar até nós os seus frutos de salvação. O reinado do Sagrado Coração assegura o reinado de Deus sobre a terra.
II. DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA DEVOÇÃO. — Foram debitadas a este respeito muitas insanidades, o termo não é forte demais. A Realencyklopädie für protestantische Theologie, tão séria ordinariamente e tão bem informada quando não se trata de coisas especificamente católicas, começa o seu artigo sobre o Coração de Jesus dizendo que a devoção ao Sagrado Coração é uma invenção dos jesuítas. No decorrer do século XVII, o boato foi espalhado de que o Padre de la Colombière havia tomado a ideia da devoção na Inglaterra perto de um certo Thomas Goodwin, sociniano e quacre, e que, em seu retorno à França, ele havia persuadido Marguerite-Marie a tornar-se a propagadora dela. Cf. Nilles, t. I, part. I, parergon I, §1, t. I, p. 220, nota.
Por outro lado, discutiu-se muito, entre os católicos, se a devoção era antiga ou nova, que parte cabia à B. Marguerite-Marie, que parte aos seus "precursores", etc. Tal autor piedoso considera como um dos principais méritos de sua obra ter remontado na história da devoção até a criação do mundo e ao eterno amor que nos tirou do nada, em vez de parar, como se tinha feito até ele, em Marguerite-Marie ou em seus precursores, em todo caso, nas origens do cristianismo. Tentaremos dar algumas ideias precisas sobre os principais pontos, dizendo o que foi a devoção ao Sagrado Coração antes da B. Marguerite-Marie, o que fez a Bem-aventurada e como se desenvolveu o culto desde sua morte até nossos dias.
1. ANTES DA B. MARGUERITE-MARIE. — 1° Primeiros séculos. Elementos de culto: o amor, a chaga do lado e seu simbolismo, o coração metafórico. Nenhum vestígio de culto ao Sagrado Coração. — O amor de Deus pelo homem preenche a história da humanidade e vimos que o cristianismo particularmente é um grande esforço de amor para chamar o amor. Mas que Deus nos ame e que nós o amemos, isso não é a devoção ao Sagrado Coração.
Aproxima-se disso quando vemos Deus nos dizer seu amor, e quando vemos o homem exaltar esse amor de Deus ou de Jesus por nós, a fim de nos incitar a lhe retribuir amor por amor. Ora, desses panegíricos da caridade divina por nós, e dessas exortações a retribuir amor por amor, a tradição cristã está repleta. Quem não conhece os belos arroubos de um São João Crisóstomo sobre a φιλανθρωπία de Deus ou de Jesus, sobre sua φιλανθρωπία! E Crisóstomo não era nisso senão o eco de São Paulo e de São João. Toda a teoria do cristianismo, amor mútuo entre Deus e o homem, é fundada em textos muito claros da Escritura, que os santos Padres exploraram magnificamente, que os teólogos engastaram, com os textos dos Padres, em suas sínteses teológicas. Basta citar os nomes de Santo Agostinho e de São Bernardo, de São Tomás e de São Boaventura, de recordar tal meditação de Santo Anselmo ou de Eckbert de Schönau, o Stimulus amoris, longamente atribuído a São Boaventura, ou o De diligendo Deo de São Bernardo.
Mas tudo isso não é a devoção ao Sagrado Coração, uma vez que não se vê aí vestígio de culto prestado ao coração de carne como símbolo de amor. Certas passagens da Escritura, como estas do Cântico: Vulnerasti cor meum, IV, 9; In foraminibus petrae, in caverna maceriae, II, 14; Pone me ut signaculum super cor tuum, VIII, 6; como esta de Isaías: Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris, XII, 3; em particular certas passagens do Evangelho, aquela notadamente onde Jesus se apresenta como o mestre manso e humilde de coração, Matth., XI, 29; aquela onde ele fala do homem de bem tirando do bom tesouro de seu coração o velho e o novo, Luc., VI, 45; aquelas onde se fala do discípulo que Jesus amava e que repousou sobre seu peito, Joa., XXI, 20; aquela sobretudo onde São João nos fala, em termos que despertam tão bem a ideia do mistério, do lado de Jesus aberto pela lança, Joa., XIX, 34, colocavam os fiéis bem perto, se posso dizer, do tesouro escondido. Mas nada mostra que eles o tenham suspeitado. Eles cantaram o mistério da água e do sangue saindo do lado aberto, viram intenções na palavra do evangelista: vigilanti verbo evangelista usus est, diz-nos Santo Agostinho, In Joa., tr. CXX, n. 2, P. L., t. XXXV, col. 1953. Mas eles não parecem ter pensado explicitamente na ferida do coração.
Pois a palavra pectus, que empregam, significa peito mais do que coração; o órgão parece ser designado sobretudo pela palavra cor. Mas seja o que for da palavra pectus, e da ferida do coração, não se vê nem que tenham considerado a ferida do lado como emblema do coração ferido de amor, nem pensado explicitamente em designar o coração de carne de Nosso Senhor como símbolo de seu amor por nós, nem prestado nenhum culto a esse coração de carne. Ver Galliffet, Addition au l. II, a. 2. Os textos precisos sobre a ferida do coração são raros nos dez primeiros séculos, se é que os há; de culto a essa ferida, nenhum vestígio. A palavra coração empregava-se quase nos mesmos sentidos que hoje para designar o íntimo, os sentimentos, amor talvez. Mas não se levantou, até o presente, que eu saiba, um único testemunho preciso, nos dez ou onze primeiros séculos do cristianismo, do simbolismo do coração de carne aplicado ao coração de Jesus, nem da ferida do lado explicada como emblema da ferida de amor. Talvez se acabe por encontrar; até aqui, a investigação não parece ter sido feita com bastante cuidado para afirmar que não os há. O que se vê é que os textos trazidos geralmente pelos autores não dizem o que se gostaria de ver neles, ou não são daqueles aos quais se os atribui. Ver Nilles, l. I, part. III, p. 419 sq.; Baruteil, Pièces justificatives, p. 173 sq.
Alguns parecem deduzir o simbolismo do coração, como o do Venerável Beda, explicando a palavra do Cântico, Vulnerasti cor meum, diz que se poderia ver "nesta menção do coração ferido a grandeza do amor que o esposo tem por sua Igreja". P. L., t. xci, col. 1139. Mas nada nos autoriza a ver ali nem um culto, nem uma devoção especial ao Sagrado Coração. Concluamos com o abade Thomas: "O elemento espiritual da devoção ao Sagrado Coração é bem claramente marcado na preparação evangélica. Não falo do objeto sensível, isto é, do Coração sagrado. Se ele está compreendido no culto primitivo, não é senão de uma maneira puramente intelectual e por um esforço de nossa vontade. Ora, isso não basta para que ele tenha recebido dos antigos uma veneração especial. Se se tentasse fazer remontar este culto, em sua forma atual, a uma época em que não se suspeitava da existência dele, o equívoco seria grande." La théorie de la dévotion au Sacré-Cœur, p. 46 sq. O Sr. Thomas não fala aqui senão do Antigo Testamento. Mas o que ele diz é verdadeiro do Novo, verdadeiro também dos primeiros séculos cristãos. Via-se no lado trespassado de onde saíam a água e o sangue uma fonte de graças; parece ter-se visto nele um refúgio, um lugar de repouso e de união a Jesus. Estava-se, pois, bem perto do Sagrado Coração; não se o distinguia ainda no peito aberto.
2° Séculos XI e XII. Passagem da chaga do lado à chaga do coração; simbolismo do coração trespassado. É no século XI ou no XII que encontramos os primeiros vestígios do Sagrado Coração, que pouco a pouco se mostra à alma devota no lado transpassado, e mostra-se transpassado ele mesmo, como para convidar a entrar mais adiante, à união com este Coração divino. É, portanto, pela chaga do lado que a devoção encontrou o coração. O culto do Sagrado Coração parece ter surgido da devoção à chaga do lado. A transição parece-nos como algo já feito, ou pelo menos como algo em curso, em uma frase da 10ª meditação anselmiana: Dulcis Jesus... in apertione lateris; apertio siquidem illa revelavit nobis divitias bonitatis suæ, caritatem scilicet cordis sui erga nos. P.L., t. CLVIII, col. 762. Esta meditação é de Santo Anselmo? Talvez, mas não se pode afirmar. O autor, ao falar do coração amante, caritatem cordis, tinha distintamente em vista o coração de carne? Pode-se sustentar, mas não é evidente. São Bernardo é mais claro, refiro-me ao que é verdadeiramente dele, uma vez que a Vitis mystica ou tratado De passione não parece sê-lo? Parece-me que o é, pelo menos uma vez: «O ferro transpassou sua alma, teve acesso ao seu coração, para que saiba doravante compadecer-se de minhas enfermidades.
O segredo do coração é descoberto pelos orifícios do corpo (patet arcanum cordis per foramina corporis); descoberto este grande sacramento de bondade, as entranhas misericordiosas do nosso Deus.» In Cant., serm. LXI, n. 4, P. L., t. CLXXXIII, col. 1072.
Com Guilherme de Saint-Thierry (+ por volta de 1150), amigo de São Bernardo, a dúvida não parece mais possível: «Quando queimo de me aproximar dele,... é ele por inteiro que (como Tomé) desejo ver e tocar; mais ainda, aproximar-me da sacrossanta ferida do seu lado, desta porta da arca feita no flanco (ostium arcæ quod factum est in latere), não apenas para ali colocar meu dedo ou minha mão, mas para entrar por inteiro até o Coração mesmo de Jesus, no Santo dos Santos, na arca do Testamento; até a urna de ouro, a alma da nossa humanidade, contendo em si o maná da divindade.» De contemplando Deo, c. 1, n. 3, P. L., t. CLXXXIV, col. 368.
Mesmas ideias e quase mesmas expressões alhures: «Estas inefáveis riquezas de vossa glória, Senhor, estavam escondidas no céu do vosso ser misterioso (in cælo secreti tui) até que, a lança do soldado tendo aberto o lado de vosso Filho Nosso Senhor e Redentor na cruz, dele escoaram os sacramentos da nossa redenção, de modo que não colocássemos apenas em seu lado nosso dedo ou nossa mão, como Tomé, mas que, pela porta aberta, entrássemos por inteiro até o vosso Coração, ó Jesus, este assento seguro da misericórdia (in aperiunt ostium toti intremus usque ad Cor tuum, Jesu, certam sedem misericordiæ), até a vossa alma santa, cheia de toda a plenitude de Deus, cheia de graça e de verdade, cheia da nossa salvação e da nossa consolação. Abri, Senhor, a porta lateral da vossa arca (ostium lateris arce tue), a fim de que nela entrem todos os vossos eleitos..., abri-nos o lado do vosso corpo (latus corporis tui), a fim de que nela entrem aqueles que desejam ver os segredos do Filho; que recebam os fluxos misteriosos que dele decorrem (profluentia ex eo sacramenta), e o preço da sua redenção.» Meditationes et orationes, v1, P. L., t. CLXXX, col. 225-226.
O postulador de 1697 citava, como uma autoridade de primeira ordem, um texto de Gilberto de Holland (Inglaterra), sobre o coração do nosso divino Salomão, que é Jesus. In Cant., serm. XXI, n. 6, P. L., t. CLXXXIV, col. 113. E outros o retomaram. Mas olhando bem, não se trata, pelo menos diretamente, do Coração de carne de Jesus; são as almas de elite que, membros mais nobres deste corpo precioso, que é o corpo místico, podem ser consideradas como o coração.
Gilberto, todavia, tem pelo menos uma bela página sobre o Coração de Jesus. É a propósito do texto, Vulnerasti cor meum, Cant., IV, 9: «A ferida do coração marca a vivacidade do amor. Ó coração verdadeiramente doce, que se deixa comover pelo nosso amor para nos pagar com amor... Por mais que amemos, nunca é mais que uma resposta (quantumcumque amat, non amat, sed redamat)... Não podeis, esposa, vos desobrigar plenamente. Ele não cessa, no entanto, de acrescentar ao seu amor. O que vos adiantou não foi devolvido ainda; ele quer, contudo, ter-se por obrigado. O que lhe devolveis em amor, ele não toma como seu devido; ele o tem por dom gratuito. Ele se sente como provocado a amar, quando diz que seu coração está ferido. Que maravilha, meus irmãos, não a achais bem-aventurada, a alma que perfura e penetra o Coração mesmo de Nosso Senhor Jesus Cristo por suas ternas afeições?» Serm., XXX, n. 4, 3, P. L., t. CLXXXIV, col. 155.
Todo o trecho é muito belo em sua piedosa sutileza. É preciso reconhecer, contudo, que nada nele se aplica diretamente ao Coração de carne de Jesus. Mas a própria dificuldade de distinguir se é o amor que está em foco ou se é o coração amante, mostra a unidade íntima da devoção, e como o elemento sensível e o elemento espiritual se fundem em um todo do qual quase não se sabe mais se é sensível ou espiritual.
Com o Beato Guerric d’Igny (+ por volta de 1160), o piedoso discípulo de São Bernardo, encontramo-nos certamente diante do coração de carne: «Bendito seja ele, aquele que, para que eu pudesse fazer meu ninho nos orifícios da pedra, deixou-se perfurar as mãos, os pés e o lado; que se abriu por inteiro a mim, para que eu entre no lugar do tabernáculo admirável, e encontre proteção no segredo de sua tenda... Estes orifícios abertos de tantas feridas oferecem o perdão aos culpados e vertem a graça aos justos... Fugi dele para ele mesmo... Não somente para ele, mas nele; entrai nos orifícios da pedra..., escondei-vos em suas mãos perfuradas, em seu lado aberto. Pois a ferida no lado de Cristo, que outra coisa é senão a porta no flanco da arca?... Bom e cheio de piedade, ele abriu seu lado para que o sangue da sua ferida te vivifique, que o calor do seu corpo te aqueça, que o sopro do seu coração te aspire, por assim dizer, abrindo-te livre passagem (spiritus cordis quasi patenti et libero meatu aspiret).» In dominica palmarum, serm. IV, n. 5, P. L., t. CLXXXV, col. 140.
Parece bem que Guerric dê ao coração o papel do pulmão. Mas o coração lá está, e como símbolo de amor. Lá está como aberto pela ferida, em relação estreita com as outras chagas.
Assim se unem pouco a pouco os diversos elementos que compõem a devoção ao Coração de Jesus, por uma transição insensível da chaga do lado à chaga do coração, do amor que fere o coração ao coração ferido que ama. Para que se realizasse a passagem, os textos do livro do amor, do Cântico (Vulnerasti cor meum; in foraminibus petre, in caverna macerie), uniram-se aos do discípulo do amor (aperuit latus ejus); a lembrança da arca antiga com sua porta no flanco (ostium in latere arce), misturada à da arca da aliança onde Deus repousava no fundo do santuário, no Santo dos Santos, misturada por vezes à de Moisés fazendo jorrar com sua vara a água da rocha, veio fundir-se com o simbolismo que os Padres tinham visto desde os primeiros séculos na água e no sangue que saíam do lado aberto de Jesus; essa água e esse sangue, imagem dos dois principais sacramentos em torno dos quais se agrupavam todos os outros, o do batismo e o da eucaristia, lembraram as águas vivas da graça escondidas «nas fontes do Salvador» e jorrando da chaga do lado; representaram a Igreja saindo desse lado aberto, como Eva tinha sido tirada outrora do lado de Adão adormecido.
Quando e por quem se fez a síntese desses diversos elementos da devoção ao Sagrado Coração? Não saberíamos dizer; e é provável que aquele que a fez não tenha tido consciência de ter introduzido na Igreja de Deus nenhuma ideia nova. Podemos sequer dizer que foi tal pessoa que a fez? Ela se fez como que por si mesma na consciência social da Igreja, sob a influência do Espírito Santo que vive nela.
Três coisas são visíveis.
1. Ela se fez na quente atmosfera do amor. É o amor meditando sobre o amor de Jesus que viu em seu coração o símbolo desse amor, como o amor de Jesus tinha querido dizer sua última palavra ao abrir o peito de Jesus para fazer jorrar do coração a água e o sangue, para abrir os caminhos desse coração.
2. Ela se fez meditando sobre a chaga do coração. A devoção ao Sagrado Coração nasceu da devoção à chaga do coração.
3. Vemo-la feita por volta da metade do século XII, nos tempos de São Bernardo, nesses lares de vida piedosa e contemplativa acesos ou reanimados pelo sopro ardente de São Bernardo mesmo. Parece que a vemos fazer-se nesses mesmos tempos, nesse mesmo meio. Mas não parece possível, por ora, precisar mais.
3° Séculos XII e XIII. O culto ao Sagrado Coração: primeiros vestígios e desenvolvimento; São Boaventura e a Vinha mística; Santa Mechtilde; Santa Gertrudes. Perspectivas de futuro.
A partir do século XII, multiplicam-se os textos que nos mostram, no coração aberto de Jesus, o refúgio das almas, o tesouro das riquezas divinas, ou, como dirá mais tarde Margarida Maria, «quanto mais se toma, mais resta a tomar», o símbolo expressivo do amor que chama o amor. O Sr. Baruteil reuniu um bom número deles: de Ricardo de São Vítor, de Eckbert de Schönau (a quem se atribui agora o sermão sobre a paixão de Cristo que se encontra frequentemente atribuído ou a São Anselmo, Medit., IX, P. L., t. CLVIII, col. 748, ou a São Bernardo, P. L., t. CLXXXIV, col. 953); de Pedro de Blois, que repete os pensamentos e até as palavras de São Bernardo, etc. Esses textos nos apresentam o Sagrado Coração, mas nós não vemos neles ainda o culto ao Sagrado Coração. Alguns trazem o vestígio da devoção ao Sagrado Coração, os de Guerric principalmente e os de Guilherme de Saint-Thierry; mas esses vestígios são ainda leves: não passam de indicações fugitivas.
É na Vitis mystica, é também com Santa Mechtilde e Santa Gertrudes que a devoção parece ganhar corpo, que a piedade se nutre do que sabe. De quem é a Vitis mystica, e de quando? Frequentemente foi atribuída a São Bernardo, e é sob o seu nome que a Igreja inseriu trechos dela no ofício do Sagrado Coração, lições do segundo noturno; outros diziam ser de São Boaventura. Dá-se razão a estes últimos, ao menos para a parte que nos interessa, e isso com boas provas em apoio, na bela edição do doutor seráfico publicada em Quaracchi, S. Bonaventure opera omnia, 1898, t. VIII, p. LI sq. Ver t. I, col. 973. Encontra-se aí ao mesmo tempo um texto bem melhor, loc. cit., p. 159 sq. É esse texto que seguiremos, loc. cit., p. 163, 164.
Será preciso, de acordo com isso, colocar São Boaventura em primeira linha entre os devotos do Sagrado Coração. Ele terá fornecido aos promotores da devoção um de seus textos mais expressivos e mais piedosos; e compreende-se que a Igreja o tenha adotado. Indica-se aí nitidamente a ferida do coração, e ela é aproximada da ferida de amor: Foderunt ergo et perfoderunt non solum manus, sed et pedes, latus quoque et sanctissimi cordis intima furoris lancea perforaverunt, quod jamdudum amoris lancea fuerat perforatum. Segue o texto do Cântico, IV, 9: Vulnerasti cor meum, com desenvolvimentos que, aliás, nos fazem perder um pouco de vista o coração ferido. Mas o autor retorna a ele, e é aí que a devoção aparece: «Mas, uma vez que viemos ao coração muito doce de Jesus, e que é bom permanecer nele, não nos afastemos facilmente... Aproximar-nos-emos, pois, de vós e nos regozijaremos em vós, em memória de vosso coração. Como é bom, como é doce habitar nesse coração. O bom tesouro, a pérola requintada que é vosso coração, ó bom Jesus! Quem não quereria essa pérola? Pelo contrário, darei todo o resto, darei em troca todos os meus pensamentos e todos os afetos da minha alma, lançando todo o meu pensamento no coração do bom Jesus.»
Não são esses exercícios de devoção para com o Sagrado Coração: permanecer nele, apropriar-se dele, etc.? A continuação é ainda mais clara nesse sentido: «Irei rezar nesse templo, nesse Santo dos Santos, junto a essa arca do Testamento, dizendo com Davi: Achei o meu coração para rezar ao meu Deus. Eu também achei o coração do Senhor, meu rei, meu irmão e meu amigo, o bom Jesus. E não rezarei? Sim, rezarei. Pois seu coração é meu, digo-o audaciosamente.» Segue a prova. Conclui-se: «É, pois, bem meu. E eis que tenho um só coração com Jesus... Tendo, pois, assim achado o vosso coração, ó Jesus, e o meu coração, vos rezarei como meu Deus. Acolhei minhas preces no santuário onde atendeis, ou melhor, atraí-me eu mesmo todo inteiro ao vosso coração.»
A prece prossegue, bela e tocante, para que a alma purificada por Jesus possa aproximar-se dele, permanecer sempre em seu coração, ver e fazer sempre a sua vontade. É preciso ainda citar textualmente a continuação, pois não se encontrará nada melhor para expressar a devoção: «O vosso lado foi perfurado, é para que, ao abrigo de todas as tempestades do exterior, possamos permanecer nessa vinha. Por que ainda ferido? Para que pela ferida visível vejamos a ferida invisível do amor... Como melhor mostrar esse amor ardente, senão deixando ferir não apenas o corpo, mas também o coração? A ferida da carne mostra a ferida espiritual.» » Segue o texto Vulnerasti cor meum, com um belo desenvolvimento sobre o amor do Esposo, que termina assim: « Eu te amo ao extremo, como uma noiva de amor casto, como uma irmã; eis por que meu coração foi ferido por ti. »
A conclusão é aquela que se deveria esperar, a da devoção ao Sagrado Coração: « Quem não amaria este coração assim ferido? Quem não lhe retribuiria amor por tal amor? Quem não abraçaria um Esposo tão casto?... Nós, pois..., tanto quanto possível, retribuamos amor por amor; abraçamos nosso querido ferido..., e rezemos para que ele enlace com o laço de seu amor nosso coração ainda duro e impenitente, para que o fira com uma flecha de amor. » Vitis mystica, c. I, P. L., t. CLXXXIV, col. 641-644. Este texto nos apresenta bem a devoção ao Sagrado Coração.
Tudo está nele: o duplo objeto na unidade do simbolismo, o fim, o espírito e o ato próprio da devoção, vários dos exercícios da devoção. Na Vitis mystica, a devoção existe; mas os exercícios estão apenas indicados.
Nas obras de Santa Matilde (+ 1298) e de Santa Gertrudes (+ 1302), vemos a devoção viva, e, por assim dizer, em ato em uma multidão de exercícios, e nas relações mais familiares com Jesus. Matilde, sob o próprio convite de Jesus, entra para descansar no Sagrado Coração. Livre de la grâce spéciale, trad. franc., l. II, c. xv, p. 183. Jesus lhe dá seu coração como penhor de aliança eterna, l. I, c. xx, p. 89; cf. l. II, c. xix, p. 187; ela lhe fala como ao amigo mais terno, e lhe parece que um dia o Mestre lhe toma « o coração de sua alma » e o pressiona contra o seu de modo que não fazem mais que um, l. II, c. xxv, p. 273; outro dia, ele lhe diz como se deve pedir ao seu Coração tudo de que se necessita, « como uma criança que pede ao seu pai tudo o que deseja. » L. IV, c. xxviii, p. 339.
Ela lhe fala; faz convenções com ele; saúda-o pela manhã, saúda-o à noite. Um dia em que teme ter sido negligente para com a Virgem Santa, Nosso Senhor lhe diz de vir doravante haurir em seu Coração tudo o que desejar oferecer a Maria. L. I, c. XLVI, p. 159. Nessas relações íntimas, sua devoção ao Sagrado Coração crescia sem cessar; « e quase cada vez que o Senhor se mostrava a ela, ela recebia dele algum presente. » L. II, c. xix, p. 187. Ele se fazia ele mesmo seu mestre; admitida um dia a repousar sobre o peito de seu bem-amado, ela ouviu nas profundezas do Coração divino como três batimentos sonoros. Ele bem quis lhe explicar o simbolismo. L. II, c. xx, p. 189. Em suma, ela dizia ela mesma: « Se fosse preciso escrever todos os benefícios que recebi do Coração todo amoroso de Deus, seria preciso um livro mais grosso que o de matinas. » L. II, c. xix, p. 188. Ver Sanctæ Mechtildis liber Specialis gratiæ, Paris, 1877; trad. franc., Les révélations de sainte Mechtilde, Paris, 1878.
Com Santa Gertrudes, estamos talvez ainda mais no mundo das relações mais íntimas entre a alma e o Sagrado Coração, com, de parte a parte, invenções requintadas do amor mais engenhoso e mais delicado. Ver Cros, Le cœur de sainte Gertrude. O livro onde estão consignadas essas coisas é verdadeiramente o Héraut de l’amour divin, Legatus divinæ pietatis, ou, para traduzir tanto quanto é possível a nuance indefinível da palavra pietatis, o Arauto da bondade amorosa de Deus. Gertrudes, como diz seu editor beneditino, « parece constituída a profetisa do amor divino para os últimos tempos. » Révélations de sainte Gertrude, Paris, 1878, prefácio, p. xv. E este amor divino se personifica para ela no Sagrado Coração. Ela teve « por missão revelar o papel e a ação do Coração divino na economia da glória divina e da santificação das almas ». E é preciso dizer, guardadas as proporções, a mesma coisa de Santa Matilde. Não se pode compará-las, a este respeito, senão à B. Margarida Maria.
Eis como o editor beneditino resume as manifestações do Sagrado Coração a Gertrudes; o resumo conviria quase textualmente a Santa Matilde: « Ora o Coração divino lhe aparece como um tesouro onde estão encerradas todas as riquezas; ora é uma lira tocada pelo Espírito Santo, aos sons da qual se regozijam a santíssima Trindade e toda a corte celeste. Depois é uma fonte abundante cujo curso vai levar o refresco às almas do purgatório, as graças fortificantes às almas que militam sobre a terra e esses torrentes de delícias onde se embriagam os eleitos da Jerusalém celeste. É um incensário de ouro de onde se elevam tantos diversos perfumes de incenso quantas são as raças de homens para as quais o Salvador sofreu a morte da cruz. Outra vez, é um altar sobre o qual os fiéis depositam suas oferendas, os eleitos seus homenagens, os anjos seus respeitos, e o sacerdote eterno imola a si mesmo. É uma lâmpada suspensa entre céu e terra; é uma taça onde se abrem os santos, mas não os anjos, que todavia dela recebem delícias. Nele a oração do Senhor, o Pater noster, foi concebido e elaborado...; por ele é suprido tudo o que negligenciamos de prestar de homenagens devidas a Deus, à Virgem Santa e aos santos. Para cumprir todas as nossas obrigações, o Coração divino se faz nosso servo, nosso penhor; nele só nossas obras recebem essa perfeição, essa nobreza que as torna agradáveis aos olhos da majestade divina; por ele só decorrem e passam todas as graças que podem descer sobre a terra. Ao fim, é a morada suave, o santuário sagrado que se abre às almas em sua partida deste mundo para conservá-las lá em inefáveis delícias pela eternidade. » Loc. cit., p. XVIII, XIX. Ver a Tabela das pessoas e das coisas, ao verbete Coração.
Matilde e Gertrudes têm bem em vista o coração de carne? Sim, sem dúvida alguma. Mas ele é como que sublimado no simbolismo do amor, ele se perde, por assim dizer, no brilho luminoso da pessoa de Jesus. Na Vigne mystique, a devoção se apega ainda à chaga do lado. Aqui, ela vai ao Coração por todos os caminhos; e ela o encontra sempre vivo e glorioso. É mesmo este brilho de glória e de alegria que me parece diferenciar, em boa parte, a devoção tal como aparece em Gertrudes ou Matilde, da devoção tal como nos é apresentada em Margarida Maria. Não que ele não apareça também glorioso e radiante nesta última; mas a ideia do amor que não é amado, do amor que tanto sofreu, se é que não sofre mais, obscurece quase sempre o céu da vidente de Paray; em Helfta, estamos quase sempre sob um céu radiante de alegria e de glória: o Sagrado Coração ali se mostra amante e glorioso, ali o vemos deleitosamente amado, o culto do Sagrado Coração respira ali, de uma parte e de outra, a alegria do amor feliz. Observou-se que esta visão do Cristo glorioso e triunfante é aquela na qual se compraz a arte do século XIII; a própria cruz é ali um trono.
Nada disse ainda sobre a visão célebre onde Gertrudes teve como que a intuição dos destinos futuros da devoção ao Sagrado Coração. Esta visão merece uma atenção especial. Ela marca época na história da devoção, fora e ao lado do desenvolvimento que ela tem na vida das nossas duas santas. Ela ocorreu, como mais tarde a primeira grande visão de Margarida Maria, na festa de São João Evangelista, nas matinas. «Como ela estava, segundo seu costume, inteiramente em sua devoção, o discípulo que Jesus amava tão bem, e que por isso deve ser amado de todos, apareceu-lhe cumulando-a de mil marcas de amizade...
Esta disse-lhe: «E que graça poderei eu obter, eu mesquinha, em vossa tão doce festa?» Ele respondeu: «Vem comigo; tu és a eleita do meu Senhor; repousemos juntos sobre o doce seio do Senhor, no qual estão escondidos os tesouros de toda beatitude.» E, tomando-a consigo, ele a conduziu junto ao nosso terno Salvador, colocou-a à direita (colocava-se frequentemente a chaga no lado direito), e retirou-se para colocar-se à esquerda. E como repousavam assim ambos com suavidade no seio do Senhor Jesus, o bem-aventurado João, tocando com o dedo, com um respeitoso carinho, o peito do Senhor, disse: «Eis o Santo dos Santos, que atrai a si todo o bem do céu e da terra.» LAL, t. IV, t. II, p. 26.
São João explica-lhe então por que a colocou à direita, do lado da chaga, enquanto ele tomou a esquerda: «Tornado um só espírito com Deus, posso penetrar sutilmente onde a carne não poderia alcançar. Escolhi, pois, o lado fechado. Mas tu, vivendo a vida terrena, não poderias como eu penetrar no interior..., coloquei-te, pois, na abertura do Coração divino, a fim de que possas tirar mais facilmente a doçura e a consolação que, em seu borbulhar perpétuo, o amor divino derrama com impetuosidade sobre todos aqueles que o desejam.» Loc. cit., p. 27.
Poder-se-ia representar melhor tanto a necessidade de um objeto sensível para a nossa devoção, quanto a relação da devoção ao Sagrado Coração com a visão do lado transpassado? Mas esta é apenas a primeira parte da cena: «Como ela experimentava um gozo inefável nas pulsações santíssimas, que faziam bater o Coração divino sem interrupção, ela disse a São João: «Não sentistes vós, bem-amado de Deus, o encanto destas suaves pulsações, que têm para mim neste momento tanta doçura, quando repousáveis na ceia sobre este seio bendito?» Ele respondeu: «Confesso que o senti e ressenti, e a suavidade penetrou a minha alma, assim como o doce hidromel impregna de sua doçura um pedaço de pão fresco; além disso, minha alma ficou tão aquecida quanto se torna uma caldeira fervente, sobre um fogo ardente.» Loc. cit., p. 27.
Esta é a segunda fase da grande manifestação. O Coração divino bate de amor, e a alma que ouve este batimento fica toda arrebatada ao mesmo tempo e toda aquecida. Além disso, a devoção é ligada ao passado na própria devoção do evangelista do amor que, segundo a palavra litúrgica, «bebeu da fonte sagrada do Coração divino os fluxos jorrantes do Evangelho.»
A terceira fase da cena olha sobretudo para o futuro. «Ela retomou: «Por que então guardastes sobre isso um silêncio tão absoluto que nunca escrevestes nada, por pouco que fosse, que o desse a entender, ao menos para o proveito de nossas almas?» Ele respondeu: «Minha missão era apresentar à Igreja em sua primeira idade, sobre o Verbo incriado de Deus Pai, uma simples palavra, que bastaria até o fim do mundo para satisfazer a inteligência de toda a raça humana, sem contudo que ninguém chegasse jamais a compreendê-la plenamente. Quanto ao que expressam de doçura estas pulsações, está reservado aos últimos tempos fazê-lo conhecer, a fim de que o mundo, entorpecido pela idade, retome no amor divino algum calor, ao ouvir estes mistérios.» Loc. cit., p. 28.
Não é verdade que toda a devoção ao Sagrado Coração está aí, em sua substância e em sua história? Esta página sozinha bastaria para colocar Gertrudes muito perto de Margarida Maria: ela não foi escolhida para ser a apóstola do Sagrado Coração, mas ela foi, ao mesmo tempo que a amante radiante, a poeta requintada e a profetisa.
Século XII-XVI. Propagação do culto; as almas privilegiadas; práticas e favores. — A Vinha mística, Santa Mechtilde e Santa Gertrudes resumem, pode-se dizer, a devoção ao Sagrado Coração, tal como se conheceu e se praticou na Idade Média. Isso nos dispensa tanto de recolher os textos onde se trata do Sagrado Coração, quanto de recordar os nomes das almas privilegiadas que estiveram, durante este período, em comunicações íntimas com o Coração de Jesus. Já se tem listas numerosas, e todos os dias acrescentam-se aqui textos, lá nomes. Ver Baruteil, Liste chronologique, op. cit., p. 13-17; e commencement du culte privé, p. 69-94; Galliffet, Addition au livre II, a. 4, 2; Nilles, t. I, part. III, c. 1.
Do século XIII ao XVI o culto se propaga; não se vê que ele se desenvolva em si mesmo. Mais frequentemente ele se liga à chaga do coração; aqui e ali ele vai ao coração independentemente da chaga, sendo o coração visto como órgão de vida afetiva e símbolo de amor. Os favores feitos aos privilegiados são: serem admitidos a colar os lábios na chaga do lado para aí haurir o amor e as riquezas do Coração; penetrar neste Coração para nele repousar como num oásis, ou para nele passear como num belo jardim; mergulhar nele como numa fornalha de amor e de pureza; serem abrasados por uma centelha partida deste Coração; às vezes trocar seu coração com o de Jesus e não viver de certa forma senão pelo Coração divino; poder unir-se a ele para louvar a Deus, ou mesmo sentir que podemos oferecê-lo ao Pai celeste como nosso bem próprio, etc. O simbolismo, vê-se, ocupa um grande lugar nestes favores e visões; ele visa sempre mostrar o quanto Jesus nos amou, como podemos e devemos amá-lo em retorno.
Uma palavra de Jesus a Santa Catarina de Siena resume bem a ideia dominante da devoção. Ela lhe perguntava por que ele quisera que seu lado fosse aberto. « Eu queria, sobretudo, respondeu-lhe Jesus, revelar aos homens o segredo do meu Coração, a fim de que compreendessem que o meu amor é maior do que os sinais exteriores que dele dou. Pois as minhas dores tiveram um termo; o meu amor não o tem. » Citado por Baruteil, p. 87.
5º Século XVI. Nova fase: a devoção ao Sagrado Coração como devoção ascética; Luís de Blois e Lansperge. — Parece que na segunda metade do século XV e na primeira do século XVI, a devoção dá um passo novo. Poder-se-ia talvez buscar vestígios desse progresso em Dionísio, o Cartuxo (+ 1474), ou em Pedro Dorland (+ 1507). Ver dom Boutrais, Un précurseur, p. 183-184. Mas vejo-os sobretudo no devoto Luís de Blois (Blosius), beneditino, abade de Lessies, em Hainaut (+ 1566), e no piedoso Lansperge, da cartuxa de Colônia (+ 1539). Aqui a devoção ao Sagrado Coração não é mais apenas um assunto de relações pessoais entre Jesus e a alma; ela se objetiva, de certo modo: é uma devoção que se propõe com exercícios determinados, cujo valor se preconiza, cuja prática se aconselha.
A devoção ao Sagrado Coração, ou pelo menos certos exercícios desta devoção, passa, por assim dizer, do domínio da mística para o da ascética cristã. Luís de Blois aconselha-nos a nos refugiarmos no Coração de Jesus pela chaga aberta de seu lado, nas tentações, nas misérias e nas aflições da vida, para ali encontrar força e misericórdia e ali haurir a consolação e a alegria. Margaritum spirituale, c. xix, Opera, in-fol., Antuérpia, 1632, p. 505-507.
Ele recomenda « oferecer as nossas boas obras ao mui doce e mui sagrado Coração de Jesus Cristo, a fim de que Ele as purifique e as aperfeiçoe ». Conclave animæ fidelis, part. I, Speculum spirituale, c. vii, § 4, n. 4, loc. cit., p. 568.
Ele tem para este uso uma fórmula muito bela: « Eu vos ofereço, ó Pai celeste, o amor abrasado e os desejos ardentes do Coração de Jesus, vosso Filho bem-amado, para suprir a aridez e a frieza do meu chétif coração. » Conclave, part. IV, Scriniolum spirituale, § 5, loc. cit., p. 641.
Ele tem para saudar o coração divino palavras de uma ternura requintada: « Salve, coração mui amante, mui bom, mui doce (mellitissimum), ferido por mim. Salve, tesouro (gazophylacium) incomparável de todo bem e de toda beatitude. Por graça (eia), sede para mim um agradável abrigo (umbraculum) na morte e após a morte, a minha morada eterna. » Institutio spiritualis, Appendix I, Anthologia 6, p. 341.
Ele nos recomenda a nos apropriarmos das intenções do Sagrado Coração, e de oferecer todas as nossas orações, ações e penas em união com Ele, para a glória de Deus e a salvação de sua Igreja. Institutio spiritualis, c. ix, p. 318. Ver os textos e as indicações bibliográficas em Galliffet, t. II, c. III, e em Nilles, t. I, part. II, c. I, § 4, p. 424-425. É a prática que o apostolado da oração deveria vulgarizar, um dia, através do mundo.
Lansperge indica exercícios muito semelhantes. Ele tem modelos admiráveis de orações e de afeições ao Sagrado Coração. O primeiro, talvez, falou de imagens para tê-las. Para o detalhe, remeto a dom Boutrais. Mas como não citar ao menos algumas linhas para fazer ver com que insinuante piedade ele recomenda a sua cara devoção, a qual é para ele a devoção a Jesus « transbordando de amor e de misericórdia », e busca um estimulante na imagem sensível do coração.
« Apliquem-se a honrar o coração mui terno (piissimum) de Jesus; tenham a devoção de saudá-lo frequentemente: beijem-no, entrem nele de espírito. Por Ele façam os seus pedidos e ofereçam os seus exercícios; Ele é o tesouro de todas as graças, a porta por onde nós vamos a Deus e Deus vem a nós. Tenham, pois, uma imagem do Coração divino (dominici Cordis), ou das cinco chagas, ou de Jesus sangrento e todo ferido; coloquem-na em algum lugar onde passem frequentemente, para que ela lhes recorde a sua prática e o seu exercício de amor para com Deus... À essa vista..., elevem o seu coração para Deus, e de espírito apenas, sem ruído de palavras, ou também de boca, se isso lhes ajuda, gritem para Ele, desejando que o seu coração seja purificado e que a sua vontade se una ao Coração de Cristo e ao seu divino bom prazer. Poderiam também, se a devoção os levar a isso, beijar esta imagem, entendo do Coração de Jesus, como se fosse o verdadeiro e divino Coração de Jesus que estivessem a apertar com os seus lábios, com o desejo de nele imprimir o seu coração, de nele mergulhar o seu espírito e de se absorverem nele; com o sentimento de atrair do seu Coração gracioso para o seu, o seu espírito, as suas graças e as suas virtudes, tudo o que Ele contém, na sua imensidade, de salutar para vocês; pois o Coração de Jesus transborda de tudo isso. É, portanto, útil e mui piedoso honrar devotamente o Coração do Senhor Jesus. Tenham nele recurso em toda necessidade, haurem nele consolação e socorro de toda sorte. Que todos os corações os abandonem e os enganem, estejam sem medo, este Coração mui fiel não os decepcionará nem os deixará. » Exercitium ad piissimum fidelissimumque cor Jesu, em Pharetra divini amoris, in-12, Paris, 1576, sem paginação.
Segue uma oração ao Coração de Jesus. O Exercitium ad quinque vulnera Christi contém uma 5ª oração ad cor. Lansperge indica ainda duas outras maneiras de honrar as cinco chagas, cuja quinta é sempre a chaga do coração, vulnus cordis Jesu. A estes conselhos deve-se juntar, ainda que seja como amostra, alguns extratos das piedosas aspirações que ele nos propõe: « Ó Jesus todo amável, quando tirareis o meu coração tão vil e me dareis o vosso Coração? Quando o meu coração será embalsamado pelo odor das vossas virtudes, todo inflamado do amor das coisas celestes! Ah! mui doce Jesus, encerrem o meu coração no vosso Coração; permaneçam nele todo só, sede dele o único mestre; da nobreza do vosso Coração que o meu coração seja enobrecido e embelezado... Imprimam, por graça, em meu coração todas as feridas do vosso Coração ferido, para que eu ali leia sem cessar o amor imenso do vosso Coração por mim e as suas vivas dores, » etc. Recolhido em Thesaurus Patrum, Paris, 1823, t. III, p. 156.
Não penso que haja, ainda agora, nada mais piedoso em honra do Sagrado Coração, nada mais penetrante que estas orações e estas aspirações de Lansperge. São verdadeiramente flechas de amor.
6º Séculos XVI e XVII. Desenvolvimento do culto privado. Estudo ascético do Sagrado Coração; orações e práticas; livros e imagens. São Francisco de Sales e a Visitação; santos e ascetas da Companhia de Jesus. Os místicos, e as almas piedosas; Margarida Maria preparada.
Com Lansperge e Luís de Blois, a devoção tinha entrado no ascetismo. Ela ali se desenvolveu rapidamente. Não há nos Exercícios de Santo Inácio menção explícita ao Sagrado Coração; mas pode-se dizer que eles orientam as almas para lá, pela forma humana de lhes apresentar Jesus, que apela à sua dedicação e ao seu amor; pelo estudo atento e amoroso de Jesus em sua vida e em sua morte; pelo impulso que coloca tudo em jogo, o amor apaixonado por Jesus respondendo ao amor de Jesus por nós.
A cada instante, estamos ali bem perto do Sagrado Coração e como que sob sua calorosa influência; a oração Anima Christi (que não é de Santo Inácio, é, ao que parece, de João XXII, mas que é tão frequentemente recomendada nos Exercícios) não contém a palavra coração, mas está plena da coisa; o pedido, tão frequentemente, tão instantemente repetido, «de conhecer Jesus intimamente, a fim de amá-lo mais, e de segui-lo sempre melhor», é um pedido de devoção ao Sagrado Coração; a conformidade de vida e a união de coração com Jesus, que são a alma dos Exercícios, preparam o exercitante para entrar em comércio íntimo com o Sagrado Coração, logo que este Sagrado Coração lhe for descoberto. Temos de São Francisco de Borja uma admirável invocação à chaga do lado; o Coração de Jesus não está ali nomeado, mas só falta a palavra. Ver Lelierce, Etude sur le Sacré-Cœur, t. I, p. 47.
O B. Canísio é mais explícito. Ele escreve em seu Memorial: «Vós me abristes o vosso coração adorável, e me permitistes mergulhar nele o meu olhar; vós me convidastes a haurir em vós as águas da salvação, ordenastes-me beber em vossas fontes sagradas. Como eu desejava com ardor ser inundado pelos fluxos de amor, de esperança e de fé que eu via jorrar de vós!... Enfim, aproximando meus lábios ardentes do vosso coração muito doce, ousei saciar-me nesta fonte divina.» Segundo Lelierce, loc. cit., p. 50. Ele rezava frequentemente ao Sagrado Coração e restam-nos dele belas orações a «este coração muito doce e muito amante de Jesus Cristo, seu muito fiel amigo»; ele incitava seus irmãos a lhe darem seu coração, como ele nos deu o primeiro o seu; a render graças com ele e por ele, a refugiar-se nele nas dificuldades. Loc. cit., p. 51.
São Luís de Gonzaga, segundo o que diz Santa Madalena de Pazzi, «disparava sem cessar flechas de amor ao Coração do Verbo.» Ver Croiset, loc. cit., IIe partie, c. IV, §6, p. 141. Temos de Santo Afonso Rodrigues notas pessoais, onde ele explica «como a alma habita no Coração de Jesus pela fervor de sua contemplação, e como Jesus, cedendo ao amor que lhe dedica, a introduz em seu coração». A página está cheia do Sagrado Coração. Ver Lelierce, loc. cit., p. 52.
Os ascetas da Companhia endereçam frequentemente a alma ao Sagrado Coração para ali ler suas virtudes e seu amor, para ali haurir o conhecimento e amor de Deus, para ali se esconder e conversar intimamente com Jesus. Ver em Lelierce, loc. cit., p. 54-64, os textos de Alvarez de Paz, do V. Luís do Ponte, de Saint-Jure, de Nouet. Agrupando-os, ter-se-ia todo um tratado da devoção ao Sagrado Coração, teoria e prática.
Este tratado foi escrito, na Hungria, pelo P. Mathias Hajnal (1644), e na Polônia pelo P. Gaspar Druzbicki (+ 1662). O P. Hajnal publicava, em 1629, em Viena, O livro dos amantes do Sagrado Coração de Jesus, com gravuras acompanhadas de explicações e de orações. A obra era escrita em húngaro; via-se ali por toda parte a imagem do Coração circundado de chamas; continha uma série de «meditações sobre o Sagrado Coração de Jesus» com orações dignas de Santa Gertrudes ou da B. Margarida Maria. Ver Lelierce, loc. cit., p. 70.
O opúsculo do P. Druzbicki intitula-se: Meta cordium, cor Jesu. Os exercícios ocupam ali mais espaço que a teoria; mas a ideia da devoção é nitidamente indicada desde o prefácio: «Os exercícios que coloco entre vossas mãos e sob vossos olhos dirigem-se particularmente ao coração material de Jesus, mas enquanto o coração de carne é vivificado por sua santíssima alma, recebe os impulsos do coração espiritual ao qual está unido, e subsiste pessoalmente no Verbo divino,» etc. Ver Lelierce, loc. cit., p. 66. Para ter a teoria completa, só restava destacar o simbolismo do coração de carne; este simbolismo, aliás, é a alma de todo o pequeno tratado e de todos os exercícios que ele nos dá.
Ao mesmo tempo que gostavam de falar do Sagrado Coração, os jesuítas gostavam de representar sua imagem em seus livros. Não é uma imagem do Sagrado Coração como tal; mas é, com o monograma IHS, uma imagem das cinco chagas concentradas, por assim dizer, na representação do coração transpassado por três cravos. Ver Grimoüard de Saint-Laurent, Les images du Sacré-Cœur, Paris, 1880; Letierce, loc. cit., t. II, p. 505-516. Assim os jesuítas difundiam, por sua parte, pelo livro e pela imagem, o culto do Sagrado Coração; preparavam-se eles mesmos para a missão que Jesus deveria lhes confiar um dia. Mas nada indica que eles tivessem consciência disso.
Muito mais nítidas são as intuições de São Francisco de Sales e das visitandinas. São Francisco de Sales não tem, que eu saiba, nada de explícito sobre o Sagrado Coração em seus tratados ascéticos. Mas ele tinha grande devoção ao divino Coração, e temos disso em suas cartas muitos testemunhos exquisitos. Ver os detalhes nas obras de Denys de Saint-Simon sobre as Visitandinas, p. 437. Mas nisto ele não tem nada que lhe seja pessoal, salvo sua maneira e seu estilo. Basta, pois, citar algumas linhas.
Ele escreve a Santa Chantal, perto do Natal: «Vós estais bem... junto a este presépio sagrado... Seu pequeno coração ofegante de amor por nós deveria bem inflamar o nosso. Mas vede quão amorosamente ele escreveu vosso nome no fundo de seu divino coração, que palpita ali sobre a palha pela paixão afetuosa que ele tem pelo vosso progresso: e não lança um só suspiro diante de seu Pai, no qual não tenhais parte, nem um só traço de espírito que não seja para vossa felicidade. O ímã atrai o ferro, o âmbar atrai a palha e o feno: ou que sejamos ferro por dureza, ou que sejamos palha por imbecilidade, devemos nos unir a este soberano pequeno bebê que é um verdadeiro atrai-coração.» Epistres spirituelles, l. VII, épistre VI, Œuvres, Paris, 1637, t. I, p. 631.
E na véspera de Santa Catarina de Sena: «Que não nos acontece como a esta bendita santa... que o Salvador nos tirasse nosso coração e pusesse o dele em lugar do nosso. Mas não terá ele feito mais cedo em tornar o nosso todo seu?... Ó! que ele o faça, este doce Jesus, eu o conjuro pelo seu próprio, e pelo amor que ele encerra ali, que é o amor dos amores,» etc. Loc. cit., épistre LXI, p. 662. Lá onde ele tem um lugar à parte, é no que diz respeito à missão e ao espírito da Visitação. Dir-se-ia que ele viu de antemão as relações da congregação com o Sagrado Coração. Mons. Bougaud recolheu (é verdade, arranjando-os um pouco) número de textos interessantes a este respeito.
«Não quereis vós», dizia ele às suas religiosas, «ser filhas adoradoras e servas do Coração amoroso deste divino Salvador?» Abrégé de l’esprit intérieur des religieuses de la Visitation, recolhido por Mgr de Maupas, Rouen, 1644, c. VI, p. 34. Cf. Bougaud, c. VI, p. 181.
E outra vez: «As religiosas da Visitação que forem tão felizes a ponto de observar bem as suas regras poderão verdadeiramente portar o nome de filhas evangélicas, estabelecidas neste último século para serem as imitadoras do Coração de Jesus na doçura e na humildade, base e fundamento da sua ordem, que lhes dará a graça incomparável de portar o nome de filhas do Sagrado Coração de Jesus.» Citado pelas contemporâneas, Vie et œuvres, t. I, p. 229; 2ª ed., p. 258.
Finalmente, eis o que ele escrevia à santa Chantal no dia 10 de junho de 1611, era a sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento, dia destinado à futura festa do Sagrado Coração. «Deus deu-me esta noite o pensamento de que a nossa casa da Visitação é, por sua graça, suficientemente nobre e considerável para ter as suas armas, o seu brasão, a sua divisa e o seu grito de guerra. Pensei, pois, minha cara Mãe, se estais de acordo, que nos cumpre tomar por armas um único coração atravessado por duas flechas, encerrado numa coroa de espinhos; servindo este pobre coração no entalhamento a uma cruz que o sobrepujará, e será gravado com os nomes sagrados de Jesus e de Maria. Minha filha, dir-vos-ei à nossa primeira vista mil pequenos pensamentos que me vieram a este respeito; pois verdadeiramente a nossa pequena congregação é uma obra do Coração de Jesus e de Maria. O Salvador moribundo gerou-nos pela abertura do seu Sagrado Coração.» Citado por Bougaud, op. cit., p. 181.
Sabe-se que assim foi feito. A Visitação estava como que consagrada de antemão ao Sagrado Coração. Parece que as visitandinas tinham consciência da sua missão muito tempo antes de Margarida Maria. No livro dito das Petites méditations, frequentemente atribuído à santa Chantal, a Madre L’Huillier, que é a sua autora, cf. Letierce, t. I, p. 27, escrevia o seguinte: «Nosso doce Salvador... obriga-nos especialmente a nós outras da Visitação pelo dom e favor que ele fez à nossa ordem do seu Coração ou, para melhor dizer, das virtudes que nele residem, uma vez que ele fundou o nosso muito amável instituto sobre estes dois princípios: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. É a parte que nos coube de todos os seus tesouros... De tal sorte que podemos ter esta satisfação, se aprendermos e praticarmos bem a lição que este amoroso Salvador nos dá, de que teremos a honra de portar o título de filhas do Coração de Jesus.»
Segue este grito de reconhecimento: «Isso é bem doce, ó minha cara alma, que este debonário Jesus nos tenha escolhido para nos fazer filhas do seu Coração. Por que, ó meu Salvador, não favorecestes disso a nenhuma outra em vossa Igreja? Que fizemos à vossa bondade por nos ter destinado este tesouro de toda a eternidade nestes últimos séculos.» Exercices spirituels pour les dix jours de la solitude, segundo o espírito do B. Francisco de Sales, tirados na maior parte dos seus escritos, s.d.n.l., uma meditação, De l'amour que Jésus-Christ nous porte, consideração 4ª. Cf. Bougaud, op. cit., c. viii, p. 188, que aliás se engana quanto à atribuição, p. 187. A Madre L’Huillier morreu em 1655.
Registra-se nos Annales de la Visitation o nome de várias religiosas favorecidas com graças insignes do Sagrado Coração. Ver Bougaud, op. cit., c. viii, p. 190sq.; Letierce, t. 1, p. 28 sq.
Mas há mais do que isso. A Madre Ana-Margarida Clément, morta em Melun, a 3 de janeiro de 1661, teve, como santa Catarina de Sena, a impressão de que Jesus lhe tirava o seu coração e punha o dele no lugar. Arrebatada em êxtase, ela viu... são Francisco de Sales fazer a sua morada no Sagrado Coração de Jesus, e ali receber a inspiração de instituir uma ordem que não teria senão um objetivo, honrar o divino Coração de Jesus. Vie de la Vénérable Mère Anne-Marguerite Clément, Paris, 1686, IIª parte, c. xiv, p. 226, citado pelas contemporâneas, em Vie et œuvres, loc. cit. Cf. Letierce, Le Sacré-Cœur, p. 96-102.
De todos os lados radiava o Sagrado Coração. Enquanto os ascetas falavam dele, os místicos recebiam as comunicações íntimas. Na Espanha, é Maria de Escobar (+1633), que vê «através do peito entreaberto o Coração (de Jesus) abrasado de amor pelas suas criaturas». Ela acrescenta: «As claridades resplandecentes das suas divinas chamas diziam-me os ardores dos quais ele está abrasado. Era como se ele me tivesse dito: Olha, eis o amor, eis o coração que tenho por ti. E logo ele me comunicou uma centelha desse amor, e eu estava abrasada por ele.» Ver Letierce, Etude, t. 1, p. 57. Não se acreditaria estar a ler uma página da B. Margarida Maria?
Em Vannes, morre em 1671 uma pobre serva, venerada ainda hoje sob o nome de «a boa Armelle». Ela vivia em relações íntimas com o Sagrado Coração, indo e vindo como em sua casa, dizendo aos seus amigos: «Se quereis encontrar-me, não me procureis alhures senão no coração do meu divino amor.» Letierce, Etude, t. 1, p. 74-77.
Em 1672, morria no Canadá uma religiosa ursulina, a V. Maria da Encarnação; Bossuet nomeou-a a Teresa do Novo Mundo, e a Igreja provavelmente não tardará a elevá-la aos altares. Ela contou ela mesma ao seu filho como Deus lhe inspirou, por volta de 1630, uma prática especial de devoção ao Sagrado Coração. Um dia em que Deus parecia surdo às suas orações, ela ouviu uma voz interior que lhe dizia: «Pede-me pelo Coração de meu Filho.» Imediatamente «todo o meu interior encontrou-se numa comunicação íntima com este adorável Coração, de sorte que eu não podia mais falar ao Pai eterno senão por ele». Desde então ela foi sempre fiel a esta prática. «Eis, dizia ela, mais ou menos como me comporto, quando estou livre, ao falar ao Pai eterno: É pelo Coração do meu Jesus, meu caminho, minha verdade e minha vida, que me aproximo de vós, ó Pai eterno. Por este divino Coração, eu vos adoro por todos aqueles que não vos adoram», etc. Carta de 16 de setembro de 1661. Desde 1649, ela escrevia ao seu filho: «Vivamos no nosso Jesus, que as aproximações do seu Sagrado Coração façam decorrer nos nossos a verdadeira santidade.» Ver Letierce, loc. cit., t. 1, p. 79 sq.
Na Bélgica, a madre Delelot é também muito devota ao Sagrado Coração. B.
Destrée, *Une mystique inconnue du XVIIe siècle*, Bruges, 1905. Assim, a devoção ao Sagrado Coração está em toda a parte. Mas o culto público é devido ao P. Eudes.
7º O P. Eudes (1601-1680). O culto público do Coração de Jesus e de Maria. — Olha-se geralmente a B. Margarida Maria, não como a primeira devota do Sagrado Coração, mas como a apóstola e a evangelista da devoção, escolhida especialmente por Nosso Senhor para a propagar e obter o seu reconhecimento público pela Igreja. Como conciliar este fato com o que sabemos agora do P. Eudes, de seus escritos e de seu apostolado? Há aí um problema interessante sobre o qual o R. P. Le Doré chamava a atenção desde 1870, por sua obra sobre Le P. Eudes, premier apôtre des SS. Cœurs de Jésus et de Marie, Paris, 1870.
Nascido em Caen, em 1601, o Pe. Eudes teve desde a infância o mais terno amor por Nosso Senhor e por sua santa mãe; em seus vinte anos de estadia no Oratório, sua piedade matizou-se um pouco segundo a de Bérulle e a de Condren. Ele leu também Santa Matilde e Santa Gertrudes. Foi aí que ele colheu sua devoção ao Coração de Maria e de Jesus? Não se sabe nada de preciso a esse respeito.
A partir de 1640 aproximadamente, vemo-lo inteiramente devotado ao santo Coração de Jesus e de Maria; consagra-lhe as duas congregações que funda, 1641 e 1643; dá-o a elas como emblema, sob a influência, ao que parece, do texto de São Francisco de Sales que citamos. Ver Le Doré, op. cit., p. 17. Prescreve-lhes exercícios especiais em honra deste santíssimo Coração, nomeadamente a saudação célebre: Ave Cor sanctissimum...., Ave Cor amantissimum Jesu et Mariae. Op. cit., p. 18.
Desde 1646, faz com que celebrem solenemente a festa do Santo Coração de Maria — ver-se-á logo mais que, para o Pe. Eudes, o Coração de Maria não existe sem o Coração de Jesus — primeiro a 20 de outubro, que ele consagrará mais tarde ao Coração de Jesus, depois a 8 de fevereiro, que permanecerá reservado ao Coração de Maria; compôs para esta festa um ofício, que é aprovado desde 1648 por alguns bispos. A festa não permanece no interior das comunidades. Em 1648, o Pe. Eudes celebra-a solenemente na catedral de Autun. O movimento propagou-se em várias dioceses, na Borgonha nomeadamente e na Normandia, sob a influência do Pe. Eudes e de suas congregações. Uma espécie de terceira ordem que ele funda por volta de 1650, as confrarias do Santo Coração que estabelece em muitos lugares contribuem para espalhar e fazer conhecer a cara devoção.
O livro une-se à palavra e à ação. Desde 1648, o Pe. Eudes publica em Autun sua obra de La dévotion du très saint Coeur et du très saint Nom de la B. Vierge Marie; reedi-la em Caen, em 1650. Em 1654, os eudistas estabelecem em seu colégio de Lisieux uma congregação da santa Virgem, sob invocação de seu santo Coração, com pequeno ofício, Op. cit., p. 58. Em 1655, inauguravam, em seu seminário de Coutances, a primeira igreja construída em honra do Coração de Jesus e Maria, ou, como se dizia mais frequentemente, do Coração de Maria. Op. cit., p. 60.
A devoção difundiu-se também em Paris, em alguns grupos escolhidos, sempre sob a influência e a palavra ardente do Pe. Eudes. Apesar dos obstáculos de toda sorte e das calúnias, muitos bispos estabeleceram a festa; o livro recebia aprovações, as igrejas eram construídas, as confrarias multiplicavam-se, 1650-1668. Op. cit., c. IV, v. Tudo isso se fazia fora de Roma; mas Roma tolerava essas iniciativas episcopais. Em 1668, obteve-se uma aprovação do cardeal de Vendôme, legat a latere. É verdade que Roma, em 1669, recusava a sua. Op. cit., p. 117. Mas o culto não continuava menos a se difundir na França.
Recebeu, a partir de 1670, um desenvolvimento interior considerável. Até então, o Pe. Eudes só propusera uma festa, só compusera um ofício. O Coração de Jesus era aí honrado no e com o Coração de Maria, e o ofício mencionava frequentemente o Coração de Jesus. A partir de 1660 aproximadamente, essas menções ao Coração de Jesus ocupam menos espaço, e o ofício é mais exclusivamente o do Coração de Maria. O Pe. Eudes pensava desde então em festejar à parte e por um ofício especial o Coração de Jesus. Em 1670, publicava La dévotion au Coeur adorable de Jésus, com, ao final, missa e ofício próprios.
No mesmo ano, os bispos de Rennes, de Coutances, de Évreux aprovam missa e ofício, e permitem celebrar a festa. Esta foi primeiro colocada no dia 31 de agosto; mas a partir de 1672, foi fixada no dia 20 de outubro. Os considerandos de alguns dos atos episcopais são muito interessantes: é a primeira vez que a Igreja docente fala do Sagrado Coração. O bispo de Coutances, Mons. de Loménie de Brienne, escreve em sua carta de 29 de julho de 1670: «O Coração adorável de nosso redentor sendo o primeiro objeto da dileção e complacência do Pai das misericórdias e sendo reciprocamente todo abrasado de santo amor por este Deus de consolação, como também sendo todo inflamado de caridade por nós, todo ardente de zelo pela nossa salvação, todo cheio de misericórdia pelos pecadores, todo repleto de compaixão pelos miseráveis, e o princípio de todas as glórias e felicidades do céu e de todas as graças e bênçãos da terra, e uma fonte inesgotável de todas as sortes de favores para aqueles que o honram: todos os cristãos devem esforçar-se por render-lhe todas as venerações e adorações possíveis.» Le Doré, op. cit., p. 129.
O bispo de Évreux, Mons. de Maupas du Tour, exprime ideias semelhantes, em sua carta de 8 de outubro de 1670: «Sendo o Coração adorável de Nosso Senhor uma fornalha de amor por seu Pai e de caridade por nós, e uma fonte de uma infinidade de graças e de favores no que diz respeito a todo o gênero humano, todos os homens, especialmente todos os cristãos, têm obrigações infinitas de honrá-lo, louvá-lo e glorificá-lo de todas as maneiras possíveis.» Op. cit., p. 121.
Em 1671, o arcebispo de Ruão, os bispos de Bayeux e de Lisieux, o antigo bispo de Rodez, Abelly, juntavam-se aos outros três para aprovar a festa e o ofício. Finalmente, em 29 de julho de 1672, o Pe. Eudes dirigia às seis casas de sua Sociedade uma circular impressa para lhes ordenar que celebrassem doravante como festa patronal, no dia 20 de outubro, a solenidade do Sagrado Coração de Jesus.
Ela começa assim: «É uma graça inexplicável que nosso muito amável Salvador nos fez, de nos ter dado em nossa congregação o Coração admirável de sua santíssima Mãe; mas sua bondade, que é sem limites, não parando por aí, foi muito além ao nos dar seu próprio Coração, para ser, com o Coração de sua gloriosa Mãe, o princípio e o fim, o coração e a vida desta congregação... Embora até aqui não tenhamos celebrado uma festa própria e particular do Coração adorável de Jesus, não tivemos, contudo, jamais a intenção de separar duas coisas que Deus uniu tão estreitamente, como são o Coração muito augusto do Filho de Deus e o de sua bendita Mãe, - Pelo contrário, nosso desígnio tem sido sempre, desde o começo de nossa congregação, olhar e honrar estes dois Corações como um mesmo Coração em unidade de espírito, de sentimento, de vontade e de afeição.» Op. cit., p. 143.
O piedoso fundador explica então «como a divina providência... quis fazer avançar a festa do Coração da Mãe antes da festa do Coração de Jesus para preparar os caminhos nos corações dos fiéis para a veneração deste Coração adorável”, e como “esta ardente devoção dos verdadeiros filhos do Coração da Mãe do amor... o obrigou a obter de seu Filho amado este favor muito assinalado que Ele faz à sua Igreja, de lhe dar a festa de seu Coração real, que será uma nova fonte de uma infinidade de bênçãos, para aqueles que se dispuserem a celebrá-la santamente”. Op. cit., p. 144-145.
Segue um belo desenvolvimento sobre a excelência da festa e sobre a excelência de seu objeto. “Que coração mais adorável, mais admirável e mais amável do que o Coração deste Homem-Deus que se chama Jesus? Que honra merece este Coração divino que sempre rendeu e renderá eternamente a Deus (tanta) glória e amor!... Que zelo devemos ter para honrar este Coração augusto, que é a fonte de nossa salvação, que é a origem de todas as felicidades do céu e da terra, que é uma fornalha imensa de amor para conosco e que não pensa noite e dia senão em nos fazer uma infinidade de bens, e que enfim se rompeu... de dor por nós na cruz!” Op. cit., p. 145.
Conclusão: “Reconheçamos, pois... a graça infinita e o favor incompreensível com que nosso bom Salvador honra nossa congregação, ao lhe dar seu muito adorável Coração com o Coração muito amável de sua santa Mãe. São dois tesouros inestimáveis, que compreendem uma imensidade de bens celestes e de riquezas eternas, das quais ele a torna depositária, para em seguida a difundir por ela nos corações dos fiéis.” Op. cit., p. 147.
Margarida Maria dificilmente será mais explícita, quando falará da missão confiada à Visitação e à Companhia de Jesus. Sobre este dom do Sagrado Coração às suas congregações, ver ainda o testamento do Pe. Eudes escrito em 1674, art. 10, 11. Op. cit., p. 180.
A festa que o Pe. Eudes promulgava assim foi adotada por algumas congregações religiosas, nomeadamente, desde 1674, pelas beneditinas do santíssimo sacramento; o ofício composto por ele difundiu-se igualmente, e é aquele de que se serviam as visitandinas em vários de seus mosteiros até a aprovação da festa e de um ofício próprio por Clemente XIII (1765). A festa vinha naturalmente com a confraria. Ora, o Pe. Eudes e os seus aproveitavam todas as ocasiões para estabelecê-las. É aqui que o papa intervém. O Pe. Eudes obteve em 1674-1675 seis breves de Clemente X em favor destas confrarias. Op. cit., p. 165.
Era uma aprovação, ao menos indireta, da devoção ao Sagrado Coração, e os postuladores que virão mais tarde o farão notar. Contudo, o Pe. Eudes trabalhava em sua grande obra onde deveria colocar o melhor de sua alma, e resumir a obra de toda a sua vida. Menos de um mês antes de morrer, ele escrevia: “Hoje, 25 de julho de 1680, Deus me fez a graça de terminar meu livro do Coração admirável da santíssima Mãe de Deus.” O autor morreu em 19 de agosto seguinte, e a obra só apareceu em 1682.
É o primeiro tratado da devoção ao Sagrado Coração. Não que a devoção ao Sagrado Coração faça dele o objeto principal. Como indica o título, nele se trata sobretudo do Coração de Maria. Mas, dos doze livros que o compõem, o décimo segundo é todo consagrado ao Coração de Jesus. Ele é dividido em vinte capítulos, e compreende cerca de 100 páginas in-4° sobre aproximadamente 700. Ao juntar a este livro as noções gerais dadas ao livro primeiro, tem-se, como diz o Pe. Le Doré, “um excelente tratado da devoção ao Sagrado Coração do Filho de Deus.” Op. cit., p. 234.
Vê-se que, para o Pe. Eudes, a devoção ao Coração adorável de Jesus desabrocha, por assim dizer, sobre a devoção ao Coração admirável de Maria; ela se desprendeu dela pouco a pouco. Desde os inícios, ela lá estava, mas um pouco, segundo o pensamento do Pe. Le Doré, como o precioso sangue no cálice; ela lá estava, mas na unidade moral, na unidade de amor, na conformidade de vida e de afeição, entre o Coração do Filho e o da Mãe. É este Coração moral, se me é permitido dizer, que o Pe. Eudes tem sobretudo em vista: o Coração de Jesus e o Coração de Maria não formam para ele senão um só coração. Por isso, ele diz, o Coração de Jesus e de Maria, e não os Corações.
Ele foi levado, contudo, a ocupar-se distintamente dos dois corações. Então ele tem verdadeiramente em vista o coração de carne, não em si mesmo e por si mesmo, mas como símbolo; símbolo e foco de amor para Deus tanto quanto de amor para os homens, símbolo e foco de toda a vida íntima de Cristo.
A devoção, tal como a entende o Pe. Eudes, funde e confunde na amplidão de seu objeto mais coisas do que compreende aquela da Beata Margarida Maria: seu objeto é menos preciso, menos apreensível. É uma das razões que deveriam impedi-la de se tornar popular; a fraseologia do autor e toda uma linguagem que ressente das preciosas também contribuem para isso.
Mas o Pe. Eudes preparou o terreno; ele criou uma agitação, um movimento de opinião no sentido da devoção, ele foi o primeiro teólogo e o primeiro cantor litúrgico dela; as confrarias que ele estabeleceu ajudaram a estabelecer outras; enfim ele obteve e propagou a festa, ele foi, como diz o decreto de 6 de janeiro de 1904, que introduz sua causa e o declara Venerável, auctor liturgici cultus SS. Cordium Jesu et Mariæ.
O culto, tal como se propagou no mundo, tal como é aprovado pela Igreja universal, é aquele que foi revelado a Margarida Maria; e, para concluir com o Pe. Le Doré, “a Beata Margarida Maria é, por excelência, a apóstola do Sagrado Coração de Jesus. É para ser aquele do Coração de Maria que o Pe.
Eudes foi escolhido antes de tudo; mas seria injusto recusar ao ardente missionário a glória de ter servido de poderoso auxiliar e de digno precursor à Beata visitandina.” Op. cit., p. 486. Ver, além do Pe. Le Doré, cujo livro é tão rico de informações preciosas, Baruteil, loc. cit., p. 98-108; Letierce, Etude, t. 1, p. 105-114; Nilles, passim, ver a tabela na palavra Eudes; Nilles fornece, l. II, parte I, § 4, p. 11; § 2, p. 48, 148, as missas e os ofícios compostos pelo Pe. Eudes.
I, A BEATA MARGARIDA MARIA (1647-1690).
1° Estado da devoção no momento em que Nosso Senhor se revelou à Beata Margarida Maria. Alguns contemporâneos. — A devoção ao Sagrado Coração existia, pois, antes da Beata Margarida Maria. Antes de se revelar a ela, Jesus tinha descoberto seu coração a almas de escol e lhes tinha mostrado as riquezas dele. A piedade cristã, ao meditar sobre a chaga misteriosa do lado, tinha visto ali o coração ferido; visto todas as graças saírem dali com a água e o sangue; visto o refúgio que ele oferecia à alma culpada ou fatigada, e os tesouros que ele encerrava; visto a chaga de amor na ferida material; visto enfim o Coração divino todo amável e todo amante, símbolo expressivo de amor, resumo vivo das virtudes e da vida de Cristo. O objeto do culto estava dado. O culto em si existia com a maioria das práticas.
Os ascetas vieram depois dos místicos: eles tinham, se não organizado a devoção, ao menos indicado os diversos elementos que deveriam constituir o seu fundamento, marcado os diversos exercícios que lhe convinham. O Padre Eudes, enfim, apresentara o Sagrado Coração às multidões, primeiro dentro e através do Coração de Maria, depois em uma festa especial do Coração adorável, de modo que, aqui como em outros lugares, ia-se naturalmente de Maria a Jesus. O culto existia, portanto, muito claro para algumas almas privilegiadas que dele viviam, mas um pouco confuso, tal como se apresentava às multidões nos livros e na pregação do Padre Eudes e de seus discípulos, misturado também com elementos caducos, que não podiam entrar no movimento da piedade cristã. Esse movimento mesmo era pouco estendido; não se delineava de uma maneira precisa, e é provável que não se tivesse difundido muito na Igreja, após o desaparecimento daquele que o tinha produzido, se Jesus não tivesse intervindo para reanimá-lo, orientá-lo, dar-lhe seu caráter de devoção viável, ao mesmo tempo ampla e precisa; precisa em seu objeto, seu fim, seu espírito, algumas de suas práticas, destinadas a dar o tom; ampla em suas manifestações e na escolha de seus meios. Tudo isso com uma mistura admirável de ideal e das ambições mais elevadas, de exercícios mais simples, de atrativos mais vivos para as almas mais diversas.
Ao mesmo tempo, o sopro do Espírito Santo e a ação discreta de Jesus preparavam a eclosão do culto. Os precursores tinham se multiplicado. No momento mesmo em que Jesus vai se revelar em Paray, muitas almas viviam ainda, às quais ele se comunicava confidencialmente, um pouco como um poeta lê para alguns amigos a peça que vai dar ao público. Nos mesmos tempos, os autores falam mais sobre isso. Não se sabe às vezes se é preciso ver aqui ou ali uma aurora, ou um irradiar discreto do sol já levantado; uma influência do Padre Eudes ou um eco de Paray. Na Bretanha, o Padre Huby, morto em Vannes em 1693, foi um apóstolo incansável do Sagrado Coração. Ele mandava cunhar medalhas do Coração de Jesus e do Coração de Maria; ele tem orações abrasadas ao Sagrado Coração; ele propagava uma espécie de terço do Sagrado Coração, admiravelmente misturado, como a via-sacra, de meditação ao alcance dos mais humildes e de oração vocal. Teve ele conhecimento das aparições de Paray? O que deveu ao Padre Eudes? O que deveu a seus predecessores? Não se saberia dizer. A devoção parecia eclodir como espontaneamente nas almas. Voir Letierce, t. I, p. 71-74.
Pelo mesmo tempo, o Padre Philippe Jeningen, na Suábia, recebia insígnias favores do Sagrado Coração e dele se fazia não somente o discípulo devoto, mas o ardente apóstolo. Soube ele algo de Paray ou do movimento suscitado na Normandia pelo Padre Eudes, na Bretanha pelo Padre Huby? Não se saberia dizer. Ele morreu em 1704. Voir Letierce, Le Sacré-Cœur, p. 211-217.
Estamos mais bem informados sobre o santo arquidiácono de Évreux, M. Boudon (1624-1702). Discípulo do Padre Eudes, ele chega, como ele, pelo Coração de Maria ao Coração de Jesus. Temos dele uma consagração aos dois santos Corações, que é de toda beleza. Ela é datada do dia da Imaculada Conceição, 1651. Mas ele teve conhecimento também das revelações de Paray, e ele se tornou o apóstolo da nova devoção. Ele tem sobre este assunto algumas das páginas mais belas e mais inflamadas que foram escritas a respeito. Cf. Letierce, loc. cit., p. 114-119.
Precursora também, ao mesmo tempo que contemporânea da Bem-aventurada Margarida Maria e toda devotada ao Sagrado Coração, a irmã Jeanne Bénigne Goyos (1625-1692), da Visitação de Turim; ela parece ter predito sua gloriosa irmã e as coisas maravilhosas que Deus devia fazer por ela. Não se saberia dizer com certeza se ela soube, antes de morrer, que sua predição estava cumprida. Cf. Letierce, Le Sacré-Cœur, p. 142-143.
2° Formação da Bem-aventurada Margarida Maria. Que influências ela pôde sofrer no sentido da devoção ao Sagrado Coração. Ela não depende de ninguém. — Enquanto Nosso Senhor preparava assim os caminhos para a Bem-aventurada Margarida Maria, ele os preparava para si mesmo no segredo, prevenia-a desde sua mais tenra infância e a envolvia em seu amor, atento aos primeiros batimentos de seu coração para que fossem a ele todo sozinho. No dia 20 de junho de 1671, ela entrava na Visitação de Paray, e Jesus começou logo a lhe revelar os segredos de seu Coração.
Margarida Maria teve conhecimento do Sagrado Coração antes das revelações de Paray? Esteve sob a influência de alguns daqueles que se nomeiam agora seus precursores? Conheceu as revelações feitas à santa Gertrudes, leu algumas das páginas onde se tratava do Sagrado Coração? Nada o indica; tudo indica o contrário. Antes de entrar no convento, ela deveu ouvir falar do Coração admirável de Maria, que o Padre Eudes tinha obtido, desde 1648, fazer honrar na diocese de Autun.
É «um dia da festa do Coração da santíssima Virgem», a observação é dela mesma, que ela viu seu próprio coração, bem pequeno «e quase imperceptível» entre os Corações de Jesus e de Maria, e enquanto ela ouvia estas palavras: É assim que meu puro amor une estes três corações para sempre, «os três corações não fizeram senão um.» Vie et œuvres, t. 1, p. 91; 2e édit., p. 121.
Poderia ser que houvesse aí uma influência das ideias do Padre Eudes. É o único vestígio que disso temos. Nas práticas de devoção ao Sagrado Coração, escritas de sua mão, há algumas que são emprestadas de livros de piedade que ela lia no convento, ao Padre Saint-Jure, ao Padre Nouet, ao Padre Guilloré. Voir abbé Marcel, Correspondance des associés de la communion réparatrice, t. 1, p. 20. Cf. Letierce, Étude, t. 1, p. 64, note.
Mas isso é posterior às revelações. Nada indica mesmo que ela tenha conhecido primeiramente as passagens de são Francisco de Sales sobre o Sagrado Coração, ou ao menos que tenha ficado impressionada com elas. Perto do fim de sua vida, ela teve conhecimento da vida e das predições da Madre Anne-Marguerite Clément e ela fala disso em uma carta ao Padre Croiset. Lettres inédites, lettre III, p. 125. Mas ela fala disso como de uma descoberta que acaba de fazer, sem dúvida ao ler ou ouvir ler a vida da Venerável Madre que acabava de ser publicada em 1686.
Não se arrisca, portanto, a enganar-se ao afirmar que a Bem-aventurada não deveu a influências exteriores sua devoção ao Coração de Jesus. Ela não parece ter pensado nisso antes de sua entrada na vida religiosa; é de Nosso Senhor que ela a aprendeu. Há em Margarida Maria a devota do Sagrado Coração e a apóstola do Sagrado Coração. De sua devoção, não temos que nos ocupar senão na medida necessária para esclarecer sua missão e seu apostolado. É por isso que nada diremos sobre suas primeiras relações com o Sagrado Coração, para chegar imediatamente às grandes revelações que lhe eram feitas em vista do culto público que Nosso Senhor queria estabelecer por sua intercessão.
3° Primeira das grandes aparições, 27 de dezembro (muito provavelmente em 1673). Os segredos do Sagrado Coração desvelados; a discípula e a evangelista do Sagrado Coração. — Margarida Maria, em sua carta ao Pe. Croiset, datada de 3 de novembro de 1689, assinala como «primeira graça especial... recebida para isso», a do dia de São João Evangelista. Ela não diz a data, mas deve ter sido em 1673. Como Santa Gertrudes em dia semelhante, ela foi admitida «a repousar várias horas sobre este sagrado peito» e recebeu «deste amável Coração graças, cuja lembrança, diz ela, me coloca fora de mim mesma». Ela acrescenta que não acredita «ser necessário especificá-las». Lettres inédites, carta IV, p. 141.
Ela fala disso também em uma carta à Madre de Saumaise, escrita em janeiro de 1689: «Este divino Esposo, diz ela, fez-me a graça incompreensível de me fazer repousar sobre seu seio com seu bem-amado discípulo e de me dar seu coração, sua cruz e seu amor.» Carta XCI, em Vie et œuvres, t. II, p. 187; 2ª ed., p. 222. Mas temos algo melhor do que essas alusões e essas impressões pessoais, onde nada indicaria uma missão especial. O Mémoire, escrito por ordem do Pe. Rolin, fornece alguns detalhes precisos. Era diante do santíssimo sacramento. Nosso Senhor a «fez repousar longamente sobre sua divina peito» e lhe «descobriu as maravilhas de seu amor e os segredos inexplicáveis de seu Sagrado Coração, que ele me tinha, diz ela, mantido escondidos até então».
Ele lhe «abriu seu Coração» e lhe disse: «Meu divino Coração é tão apaixonado de amor pelos homens e por ti em particular que, não podendo mais conter em si mesmo as chamas de sua ardente caridade, é preciso que ele as espalhe por teu meio, e que se manifeste a eles para enriquecê-los com seus preciosos tesouros... Escolhi-te, acrescentou ele, como um abismo de indignidade e de ignorância para o cumprimento deste grande desígnio, a fim de que tudo seja feito por mim.» Segue uma dessas cenas simbólicas frequentes na vida dos santos. Jesus tomou o coração de sua serva e «colocou-o no seu adorável». Retirou-o «como uma chama ardente em forma de coração» e colocou-o de volta no lugar, acrescentando: «Até o presente, tu só tens tomado o nome de minha escrava; eu te dou o de discípula bem-amada do meu Sagrado Coração.» Mémoire, em Vie et œuvres, t. I, p. 325; 2ª ed., p. 379.
4° Segunda grande aparição, 1673 ou 1674. A imagem simbólica; último esforço do amor: redenção amorosa pelo Sagrado Coração; missão de Margarida Maria. — Após ter dito ao Pe. Croiset, na carta citada, que não acredita ser necessário especificar nada, Margarida Maria acrescenta imediatamente: «Depois disso, este divino Coração», etc. Segue uma descrição detalhada e o relato de uma visão. Perguntou-se se havia ali uma cena distinta da precedente, ou apenas detalhes novos sobre a mesma cena. As verossimilhanças apontam para uma cena distinta, uma vez que aqui a Bem-aventurada especifica, e que as circunstâncias são inteiramente outras. Mas pouco importa o tempo, contanto que se note a progressão da manifestação do Sagrado Coração.
Temos agora uma visão simbólica do Coração em si, fora do corpo, que não aparece. Ele está «como num trono de chamas, mais radiante que um sol e transparente como um cristal, com sua chaga adorável. Estava rodeado por uma coroa de espinhos» e encimado por uma cruz. Após ter explicado o simbolismo dos espinhos e da cruz, a Bem-aventurada acrescenta: «Ele me fez ver que o ardente desejo que tinha de ser amado pelos homens e de retirá-los da via de perdição onde Satanás os precipita em multidão, tinha-o feito formar este desígnio de manifestar seu Coração aos homens com todos os tesouros de amor, de misericórdia, de graça, de santificação e de salvação que continha.»
Para ter parte «nesses divinos tesouros do coração de Deus» o que é necessário? «Honrá-lo sob a figura deste coração de carne.» Seguem promessas de graças e de bênçãos para aqueles que rendessem honra à própria imagem deste Sagrado Coração. «Esta devoção, retoma a Bem-aventurada ao relatar as palavras de Nosso Senhor, era como um último esforço de seu amor que queria favorecer os homens nestes últimos séculos» de uma espécie de «redenção amorosa, para retirá-los do império de Satanás e para nos colocar sob a doce liberdade do império de seu amor», «Eis, conclui Nosso Senhor, os desígnios para os quais te escolhi.» Lettres inédites, carta IV, p. 141-142.
Eis, portanto, o Sagrado Coração descoberto; eis o desejo de um culto especial claramente manifestado, com promessas para uma das formas desse culto (a honra rendida à imagem); eis o objetivo de Jesus indicado, com a missão de Margarida Maria anunciada e especificada. Tudo isso se precisará cada vez mais.
5° Terceira das grandes aparições, provavelmente em 1674, O Sagrado Coração radiante de amor; culto de amor reparador: comunhão frequente, comunhão das primeiras sextas-feiras, hora santa. — Até o presente, as grandes aparições nos mostraram o Sagrado Coração cheio de amor, cheio de graças, que ele só quer espalhar, apelando a um culto de amor e de honras. Veremos este amor como desconhecido, apelando a um culto de amor reparador. É ainda pelo Mémoire que conhecemos esta nova aparição. Nenhuma data. Mas o contexto parece indicar uma primeira sexta-feira do mês, e é dito expressamente que o santíssimo sacramento estava exposto. Alguns autores a situam em um dia na oitava do Santíssimo Sacramento, outros em 2 de julho, festa da Visitação, 1674. Não sei se chegaram a isso levando em conta os dois dados indicados ao mesmo tempo que os usos da Visitação. Do nosso ponto de vista, a data precisa pouco importa.
Um dia, portanto, em que o santíssimo sacramento estava exposto, Nosso Senhor apresentou-se a ela «todo resplandecente de glória, com suas cinco chagas brilhantes como cinco sóis... Dessa sagrada humanidade saíam chamas por toda parte, mas sobretudo de seu adorável peito, que parecia uma fornalha». O peito abriu-se, deixando a descoberto o «todo amante e todo amável Coração, que era a viva fonte dessas chamas». Nosso Senhor fez-lhe ver «as maravilhas inexplicáveis de seu puro amor, e até que excesso ele o tinha levado de amar os homens». Mas ele não recebia em retorno «senão ingratidões e desconhecimentos». E isto, disse-lhe o divino Mestre, era-lhe muito mais sensível do que tudo o que Ele havia sofrido em sua paixão: «tanto mais, acrescentou Ele, que se eles me retribuíssem algum amor, eu estimaria pouco tudo o que fiz por eles, e gostaria, se fosse possível, de fazer ainda mais; mas eles só têm friezas e recusas a todos os meus empenhos em fazer-lhes o bem.»
Este amor desconhecido pede reparação. Ele a pede, primeiramente, à sua serva bem-amada. Tu, ao menos, «dá-me este prazer de suprir a sua ingratidão tanto quanto fores capaz.» Ao mesmo tempo, para suprir tudo o que lhe falta, Ele abre o seu Coração, e «dali saiu uma chama tão ardente» que ela pensou ser consumida por ela. Vêm então práticas precisas a serem feitas neste espírito de amor reparador. «Primeiramente, tu me receberás no santíssimo sacramento tanto quanto a obediência te permitir... Tu comungarás, além disso, todas as primeiras sextas-feiras de cada mês.» Enfim, Nosso Senhor quer que ela tome parte na mortal tristeza que Ele sentiu no jardim das Oliveiras. «Para me acompanhar nesta humilde oração que eu apresentei então a meu Pai em meio a todas as minhas angústias, tu te levantarás entre onze horas e meia-noite, para te prostrares durante uma hora comigo com a face contra a terra, tanto para aplacar a divina cólera pedindo misericórdia pelos pecadores, quanto para suavizar, de alguma maneira, a amargura que eu sentia pelo abandono dos meus apóstolos... E durante esta hora farás o que eu te ensinarei.» Mémoire, Vie et œuvres, t. II, p. 327-328; 2e édit., p. 381-382.
Aqui, vê-se, a devoção desenha-se como um amor de reparação para com um amor desconhecido, como um amor de compaixão afetuosa ao amor sofredor, e também, de certa forma, como um amor de união a Jesus vítima pelo amor dos homens, pedindo para eles piedade e perdão. Nosso Senhor não faz aqui o pedido senão a Margarida Maria. Mas estas práticas, da comunhão frequente em espírito de amor e de reparação, da comunhão das primeiras sextas-feiras ou comunhão reparadora, da vigília no jardim ou hora santa, generalizaram-se desde o início, como respondendo ao espírito da devoção. Nós as reencontraremos em nosso caminho. Nosso Senhor vai, aliás, generalizar ele mesmo e precisar ainda mais.
6º A grande aparição, na oitava do Santíssimo Sacramento (1675). Eis este Coração que tanto amou os homens; uma festa de reparação. O Pe. de la Colombière. — Chegamos àquela que se pode chamar a grande aparição entre as grandes aparições. O Pe. de la Colombière, que nela estava interessado, teve conhecimento nos primeiros dias que seguiram o evento, e fez com que o relato fosse escrito pela Bem-aventurada. É este relato que, transcrito por ele em seu retiro de Londres, fevereiro de 1677, foi publicado com o diário de seus retiros espirituais, e revelou ao público o segredo das aparições, sem designar, aliás, aos não iniciados nem o mosteiro, nem a vidente. É este mesmo relato que se encontra, com algumas ligeiras variantes, no Mémoire autographe, transcrito, sem dúvida, pela Bem-aventurada sobre o impresso do Pe. de la Colombière.
Ela ocorreu na oitava do Santíssimo Sacramento. O ano não está indicado. Mas como o Pe. de la Colombière estava em Paray, não pode ser senão em 1675 ou 1676. Tudo indica 1675, data fornecida pelas contemporâneas. Vie et œuvres, t. 1, p. 94; 2e édit., p. 125. Como, aliás, pode-se crer, segundo os usos da Visitação, que ela ocorreu no domingo, pode-se datá-la, como se faz frequentemente, de 16 de junho de 1675. Ela estava diante do santíssimo sacramento, e Deus a cumulava «das graças excessivas de seu amor». Como ela desejava «render-lhe amor por amor», para pagá-lo com «algum retorno», Ele lhe disse: «Tu não podes render-me um maior do que fazendo o que eu já te pedi tantas vezes.» A que exatamente aludem estas palavras, nada indica nitidamente. Adivinha-se que se trata de responder às intenções do Mestre, estabelecendo o culto do Sagrado Coração; talvez seja questão, mais precisamente, de abrir-se à sua superiora ou ao seu diretor sobre as vontades do Salvador a este respeito.
Nosso Senhor vai, de resto, manifestar nitidamente o que deseja. Descobrindo-lhe o seu Coração, Ele lhe disse: «Eis este Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-se e consumir-se para lhes testemunhar seu amor. E por reconhecimento, não recebo da maioria senão ingratidões por suas irreverências e seus sacrilégios, e pelas friezas e pelos desprezos que eles têm por mim neste sacramento de amor. Mas o que me é ainda mais sensível é que são corações que me são consagrados que assim procedem.» Até o presente, nada de muito novo nesta aparição.
O que se segue é completamente novo. Nosso Senhor acrescenta: «É por isso que te peço que a primeira sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento seja dedicada a uma festa particular, para honrar meu Coração comungando naquele dia, e fazendo-lhe reparação de honra por um ato de desagravo, para reparar as indignidades que ele recebeu durante o tempo em que esteve exposto sobre os altares.» Nosso Senhor pede, portanto, um culto público, que tenha sua festa, e que tenha suas práticas determinadas. «Eu te prometo, acrescenta Ele, que meu Coração se dilatará para espalhar com abundância as influências de seu divino amor sobre aqueles que lhe renderem esta honra e que procurarem que ela lhe seja rendida.» Mémoires, dans Vie et oeuvres, t. II, p. 855; 2e édit., p. 413.
Mas o meio de estabelecer esta festa? É a terceira fase da aparição. Em seu Mémoire, a Bem-aventurada abrevia um pouco. No relato escrito para o Pe. de la Colombière, a cena é muito viva: «Mas, meu Senhor, a quem vos dirigis?» E ela insiste sobre sua indignidade de «criatura mesquinha e pobre pecadora», «Eh! pobre inocente que tu és, disse-lhe Nosso Senhor, não sabes tu que eu me sirvo dos sujeitos mais fracos para confundir os fortes? — Dai-me, pois, disse-lhe ela, o meio de fazer o que me ordenais. — Dirige-te ao meu servo (Jesus nomeou o Pe. de la Colombière, que era então superior da pequena residência dos jesuítas em Paray) e dize-lhe da minha parte para fazer o seu possível para estabelecer esta devoção e dar este prazer ao seu divino Coração.» Nosso Senhor acrescentou que as dificuldades não faltariam; «mas ele deve saber que aquele é todo-poderoso que desconfia de si mesmo, para confiar unicamente em mim.»
Com esta aparição, a devoção entra em uma fase nova, e isso de duas formas. Primeiramente, Nosso Senhor pede um culto público, em particular o estabelecimento de uma festa. Depois, os desígnios de Jesus se manifestam. Até então, Margarida Maria dizia ou escrevia algo a respeito para a sua superiora e para aqueles que esta desejava consultar, mas muito discretamente, como se vê pelas notas entregues à Madre de Saumaise e conservadas por esta. A comunicação feita ao Pe. de la Colombière foi plena e nítida. E, a partir de então, como veremos, os desígnios de Nosso Senhor entraram em via de execução, a devoção começou a propagar-se.
7º Os primórdios da nova devoção. Apostolado do Pe. de la Colombière e publicação dos seus retiros espirituais. Apostolado de Margarida Maria; as suas primeiras conquistas, 1672-1688. — Começou de forma muito pequena, e entre quantas dificuldades! O Pe. de la Colombière não se contentou em tranquilizar Margarida Maria e a sua superiora, a Madre de Saumaise. Sem demora, consagrou-se ele mesmo ao Sagrado Coração. As contemporâneas dizem-nos que foi na sexta-feira, 21 de junho de 1675: era o dia após a oitava do Santíssimo Sacramento, o dia designado por Nosso Senhor para a festa a estabelecer. Vie et oeuvres, t. I, p. 94; 2e édit., p. 126. Acrescentam que, no pouco tempo que permaneceu em Paray, «não deixou de inspirar esta devoção a todas as suas filhas espirituais». Loc. cit., p. 95; 2e édit., p. 127.
Perto do fim de setembro de 1676, o Pe. de la Colombière deixava Paray: fora nomeado pregador da duquesa de Iorque, futura rainha da Inglaterra, e, a 13 de outubro, chegava a Londres, para onde o chamava o seu emprego. Lá, fez conhecer e amar o Sagrado Coração. E, primeiramente, pela própria duquesa, que veremos intervir junto de Inocêncio XII para o estabelecimento da nova devoção; em seguida, pelas almas de elite que se puseram sob a sua direção. Falou até mesmo sobre isso em alguns dos seus sermões de quaresma. Ver Histoire du V. P. de la Colombiére, t. VIII, c. VII, p. 838 sq. Ele próprio escreve, no fim do seu retiro de Londres, 29 de janeiro (= 8 de fevereiro de 1677), que já a inspirou a muitas pessoas na Inglaterra, que escreveu sobre isso na França e pediu a um dos seus amigos que a fizesse valer no lugar onde ele está. Oeuvres complétes, t. VI, p. 117.
Banido da Inglaterra, e já doente, passou por Paray, a caminho de Lyon; reviu Margarida Maria, tranquilizou-a, fortaleceu-a; tranquilizou igualmente a Madre Greyfié, que sucedera à Madre de Saumaise. Histoire du V. P. de la Colombiére, t. X, c. I, p. 459 sq. Continuou este apostolado, discretamente, como fazia todas as coisas, mas de forma muito persuasiva. Algumas das suas cartas têm por subscrição: «Minha cara irmã no Coração de Jesus Cristo.» Ver, por exemplo, a carta xcvII, Oeuvres complétes, t. VI, p. 547. Por vezes, termina com uma fórmula como esta: «Creia em mim, no Coração de Jesus, todo vosso.» Lettre cxlv, loc. cité., p. 706.
Não perdia uma oportunidade de recomendar a comunhão reparadora para a sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento, e pedia às superioras que a estabelecessem nas suas comunidades, e isso de forma estável. Assegura que grandes bênçãos estão ligadas a esta prática. Quando a discrição o permite, diz que esta prática lhe foi «aconselhada por uma pessoa de uma santidade extraordinária», Lettre v, à sa soeur, loc. cit., p. 261. Ver lettre xlv à la Mére de Saumaise, loc. cit., p. 397; lettre lxxxi à la Mére de Thélis, loc. cit., p. 503.
Exercia o mesmo apostolado junto dos jovens religiosos de quem tinha, em Lyon, a direção espiritual. É a ele que o Pe. de Galliffet faz remontar a sua própria devoção ao Sagrado Coração. A página onde explica a oferta ao Sagrado Coração, Œuvres, t. vi, p. 179, não parece ter sido escrita unicamente para seu próprio uso. De qualquer modo, teve de explicá-la a outros. Este apostolado era muito restrito, pois, desde o seu regresso à França, o Padre apenas definhou. Estava também obrigado a ser discreto; pois adivinha-se que esta devoção nova não podia ser do gosto de todos.
É sobretudo ao morrer que o Padre iria cumprir a sua missão. Deus quis que ele viesse morrer em Paray, e que, anteriormente, pudesse ver ainda e encorajar Margarida Maria. A sua morte ocorreu a 15 de fevereiro de 1682. Dois anos depois, publicavam-se, em Lyon, os seus sermões em 4 volumes e, num volume à parte, o diário dos seus retiros espirituais. Lia-se lá isto: «Terminando este retiro (o de Londres, 1677), fiz a mim mesmo uma lei de procurar, por todas as vias possíveis, a execução do que me foi prescrito pelo meu adorável Mestre, a respeito do seu precioso Corpo no santíssimo sacramento do altar.» Seguem-se belos arroubos sobre a santa eucaristia.
O Padre retoma: «Reconheci que Deus queria que eu o servisse, procurando o cumprimento dos seus desejos tocantes à devoção que ele sugeriu a uma pessoa a quem se comunica muito confiantemente, e para a qual ele quis bem servir-se da minha fraqueza... Que não posso eu, ó meu Deus, estar em toda a parte e publicar o que esperais dos vossos servos e amigos! Deus, pois, tendo-se aberto à pessoa que se tem motivo para acreditar ser segundo o seu Coração, pelas grandes graças que lhe fez, ela explicou-se a mim, e eu a obriguei a colocar por escrito o que ela me tinha dito, o que quis bem descrever eu mesmo no meu diário dos meus retiros.» Retraite spirituelle, Lyon, 1684, p. 244.
Seguia-se o relato da grande aparição. Ver col. 325. Isso foi muito lido, pois o autor estava em grande renome de santidade; e isso fez valer o que até então ele tinha dito tão discretamente em favor da nova devoção. Mas esta publicação teve um contragolpe imprevisto sobre o apostolado mesmo da Bem-aventurada. Não foi sem «confusões esfuziantes» para ela mesma, como diz ela mais de uma vez.
Leu-se no refeitório de Paray a Retraite spirituelle do Pe. de la Colombière. No segundo, é frequentemente questão de bilhetes misteriosos da Bem-aventurada, onde o Padre encontrava a propósito a solução de todas as suas dúvidas e dificuldades — sem falar do relato da grande aparição e das palavras que a introduzem. É a irmã Péronne-Rosalie de Farges que lia — uma daquelas que deviam trabalhar na vida pelas contemporâneas; ela notou «que a venerável irmã baixava os olhos, e estava num profundo aniquilamento... Em recreação, ao sair do refeitório, ela disse à irmã Alacoque: “Minha cara irmã, você “teve bem a sua conta hoje, e o R. P. de “la Colombière não poderia designá-la melhor!” Ao que ela respondeu que tinha bem motivo para amar a sua abjeção». Vie et Œuvres, t. 1, p. 202; 2e édit., 173.
Cenas análogas ocorreram mais de uma vez; e ela sofria com isso mais do que se pode dizer. Mas ela aproveitava para fazer valer a sua querida devoção. Até então, diz ela, «eu não encontrava meio de fazer eclodir a devoção do Sagrado Coração, que era tudo o que eu respirava.» Mémoire, dans Vie et œuvres, t. 1, p. 356; 2e édit., p. 413.
Sem dúvida, ela falava do Sagrado Coração a alguns íntimos; e fazia-o em termos inflamados. Ver as cartas à Madre de Soudeilles, setembro de 1679, carta iv; 6 de junho de 1680, carta vii; 1º de julho de 1682, carta xii; 2ª ed., carta xiv, etc. Mas ela não podia trair o mistério das suas relações íntimas com Jesus. Suspeitava-se bem disso em Moulins e em Dijon, onde a Madre de Saumaise tinha falado dela e da querida devoção; em Semur, onde a Madre Greyfié se dirigiu ao deixar Paray; em Charolles, onde o Pe. de la Colombière tinha passado e lançado uma centelha; em Condrieu, onde ele a dava à sua irmã dizendo-lhe para a passar às suas amigas, etc. Mas só se podia entrever e adivinhar.
A publicação revelava as origens divinas da devoção e uma intenção positiva de Nosso Senhor. A Bem-aventurada não era designada senão para um pequeno círculo de iniciados; e, sem se comprometer muito, ela estava livre para dar curso ao seu zelo. Uma passagem de uma das suas cartas mostra muito bem como ela procedia. Ela tinha falado frequentemente do Sagrado Coração à Madre de Soudeilles, superiora, em Moulins; ela a tinha impulsionado com uma energia singular a consagrar-se inteiramente a este Sagrado Coração, mas quase sem se explicar sobre a devoção. Ela nem ousava escrever tudo à sua antiga superiora, a Madre de Saumaise; pois, dizia ela, "o papel não me é fiel, e já me enganou várias vezes". Carta xxv, Vie et œuvres, p. 50; 2ª ed., carta xxvi, p. 87.
Agora, ela encoraja-se. Escreve a Moulins, a 4 de julho de 1686: "Não sei, minha querida Madre, se compreendereis o que é a devoção ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual vos falo, a qual produz um grande fruto e mudança em todos aqueles que a ela se consagram e se entregam com fervor. Desejo ardentemente que a vossa comunidade seja deste número... Encontrámos esta devoção no livro do Retiro do R. P. de la Colombière, que se venera como um santo. Não sei se tendes conhecimento dele, e se tendes o livro de que vos falo; pois teria um grande prazer em fazer-vo-lo ter." Carta xlv, Vie et œuvres, t. 1, p. 88; 2ª ed., carta xlvi, p. 125.
Assim, a ação da Bem-aventurada e a do Pe. de la Colombière uniam-se intimamente, como Jesus tinha querido unir intimamente os seus corações. Assim, o Pe. de la Colombière continuava a ser o apóstolo do Sagrado Coração. Ele sê-lo-ia ainda de outra forma, por um apostolado misterioso de oração e de intercessão do qual fala frequentemente a Bem-aventurada. Ela própria rezava por ele e recomendava-se a ele. Ela via-o, fazendo no céu "pelas suas intercessões o que se opera aqui embaixo na terra para a glória do Sagrado Coração". Carta XCV, p. 192; 2ª ed., carta XCIV, p. 226.
Ela explica ao Pe. Croiset, 15 de setembro de 1689, que Nosso Senhor "tinha escolhido o bem-aventurado amigo do seu Coração para o cumprimento deste grande desígnio", e que é preciso "dirigir-se ao seu fiel amigo, o bom Padre de la Colombière, ao qual ele deu um grande poder, e remeteu, por assim dizer, o que diz respeito a esta devoção... Recebo disso grandes auxílios, acrescentava ela; pois esta devoção do Sagrado Coração tornou-o muito poderoso no céu". Lettres inédites, carta 11, p. 125-126.
Finalmente, veremos logo como ela liga a missão do Pe. de la Colombière à da Companhia de Jesus. É a partir de 1685 e 1686 que a devoção tomou finalmente o seu impulso. Impulso muito modesto a princípio e abatido por grandes rajadas de vento. É o dia de Santa Margarida, 20 de julho de 1685, que na pequena comunidade de Paray foram prestadas ao Sagrado Coração as primeiras homenagens públicas. É uma data na história da devoção, e a Bem-aventurada fez o relato disso várias vezes.
Primeiro no seu Memória: "Tendo calhado Santa Margarida numa sexta-feira, pedi às nossas irmãs noviças, das quais eu tinha o cuidado na altura, que todas as pequenas honras que elas tinham a intenção de me prestar em favor da minha festa, as fizessem ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo. O que elas fizeram de bom grado, fazendo um pequeno altar sobre o qual puseram uma pequena imagem de papel desenhada com uma pena, à qual tentamos prestar todas as homenagens que este divino Coração nos sugeriu." Memória, em Vie et œuvres, t. I, p. 306; 2ª ed., p. 415. Ela recorda o mesmo facto ao Pe.
Croiset, sem outros detalhes precisos sobre o facto em si. Sabemos pelas contemporâneas o que foi este dia de alegria íntima, a consagração e as orações ao Sagrado Coração, as orações pelas almas do purgatório, as efusões da Bem-aventurada. Vie et œuvres, t. I, p. 206 sq.; 2ª ed., p. 237 sq. Foi para ela "uma alegria das mais perfeitas", Loc. cit., p. 207.
Mas o dia terminou na tempestade. A devoção era nova, e São Francisco de Sales tinha posto as suas filhas em guarda contra as novidades em devoção. Também "as mais virtuosas da comunidade pareceram a princípio as mais opostas". "O Sagrado Coração as fará bem render-se", diz a Bem-aventurada. Loc. cit. p. 209.
Elas renderam-se, e no ano seguinte, a irmã des Escures, a primeira hoje entre as oponentes, tomará ela própria a iniciativa. A 20 de junho de 1686, oitava do Santíssimo Sacramento, ela veio pedir à sua santa amiga a pequena imagem do Sagrado Coração que ela tinha no noviciado; era a imagem enviada pela Madre Greyfié. Esta última deu-lha, não sabendo o que ia acontecer, rezando e fazendo rezar. "No dia seguinte, dia destinado a honrar este divino Coração, a irmã des Escures não deixou de levar uma cadeira onde pôs um tapete muito limpo, sobre o que colocou esta pequena miniatura, que estava numa moldura dourada, que ela adornou com flores. Ela pô-la assim diante da grade com um bilhete da sua mão, para convidar todas as esposas do Senhor a vir prestar as suas homenagens ao seu Coração adorável." Contemporâneas, em Vie et œuvres, t. I, p. 241; 2ª ed., p. 269.
Desta vez, a comunidade inteira foi arrebatada; e já não se discutia senão sobre o melhor meio de testemunhar a sua devoção. Sonhava-se com um belo quadro, e "não houve até às nossas irmãs do pequeno hábito (as pensionistas) que não quisessem contribuir com o dinheiro que os senhores seus pais lhes davam para os seus pequenos prazeres". Loc. cit., p. 242. Em breve, é uma capela que foi necessária, e a capela foi feita.
Semur tinha-se lançado antes de Paray. Tomou-se lá a devoção, diz a Bem-aventurada, ao ouvir ler o Retiro do R. P. de la Colombière. Carta XXXIX; 2ª ed., carta XL. A Madre Greyfié, tão prudente, tão reservada até então, tinha feito fazer uma imagem, e dedicado um oratório. Foi ela que tinha enviado à Bem-aventurada para as prendas de 1686, a miniatura que ia em breve receber as homenagens da comunidade, juntando-lhe uma dúzia de imagens, para as fervorosas da devoção. Ver nas contemporâneas, Vie et œuvres, t. I, p. 223, 225; 2ª ed., p. 252, 254, as cartas da Madre Greyfié a este respeito.
Moulins foi conquistada com a Madre de Soudeilles; conquistadas também Charolles e Condrieu. Em Dijon foi ainda melhor. Enquanto a Madre de Saumaise e a Bem-Aventurada se ocupavam em mandar gravar uma imagem do Sagrado Coração, que se pudesse difundir à vontade, a irmã Jeanne-Madeleine Joly preparava um pequeno livrinho de devoções ao Sagrado Coração e o submetia à Bem-Aventurada antes de imprimi-lo em 1686.
Do lado de fora, a devoção se espalhava. Vários Padres jesuítas entravam em contato com a ardente apóstola e pregavam a nova devoção. De 1686 a 1688, ela multiplica suas cartas e suas diligências; registra os sucessos da devoção como tantas vitórias do Sagrado Coração; espalha a imagem, o Retiro do P. de la Colombière, o Livrinho da irmã Joly e o ofício do P. Gette sob suas diferentes formas. Paray já tem sua capela do Sagrado Coração, 1688.
Os irmãos da Bem-Aventurada secundam os esforços de sua santa irmã. O prefeito manda construir também uma capela e nela coloca um quadro como em Paray; o pároco funda ali a perpetuidade uma missa todas as sextas-feiras do ano. Com que alegria a Bem-Aventurada vê e relata esses sucessos! Mas havia também as oposições e os fracassos. Acabam de aprovar a missa e o ofício na diocese de Langres. Endereçaram-se a Roma. Mas a resposta de Roma é protelatória, e é preciso que Margarida Maria sustente e reanime suas amigas decepcionadas. Ela carrega toda a cara devoção em seu coração, ela vive dela.
8º Desenvolvimento interno, 1675-1688. As práticas e as promessas, — Durante esses anos de 1675-1688, não se vê quase desenvolvimento interno. A Bem-Aventurada faz valer seu tesouro, em sua própria vida primeiro, e depois para os outros; o tesouro não parece aumentar notavelmente. Duas coisas somente devem ser notadas, as práticas e as promessas, e isso sobretudo a partir de 1685 e 1686.
Com suas noviças, a Bem-Aventurada tem muita indústria, muito exercício de sua cara devoção: ela os toma emprestados daqui e dali ou os adapta, inventa-os também e, às vezes, de formas muito belas. Ver no t. I de Vie et œuvres, seus avisos e instruções, seus desafios e escritos diversos, o livrinho autógrafo de suas orações e exercícios em honra do Sagrado Coração. A todos ela recomenda a comunhão das primeiras sextas-feiras, a consagração e a desagravo, a imagem, os pequenos bilhetes, os ofícios, etc. Mas ela quer acima de tudo acender nas almas o amor ao Sagrado Coração, e levá-las a não viver senão dele e para ele. Quantas belas páginas haveria para recolher em suas cartas inflamadas!
É também a partir de 1685 que as promessas feitas em nome do Sagrado Coração para os devotos se tornam mais precisas, senão mais magníficas. Há para todos: para os zeladores da devoção e para seus adeptos, para os que farão a imagem, para os que a portam consigo, para as casas onde ela será exposta e honrada, etc. A Madre Melin, que empreendeu construir a capela do Sagrado Coração no recinto de Paray, terá como recompensa morrer no exercício atual do amor; a comunidade de Semur, que foi a primeira a render homenagem pública ao Sagrado Coração, tornou-se por isso a bem-amada deste Coração, etc. Estas promessas dizem respeito geralmente ao bem espiritual, e a Bem-Aventurada faz notar expressamente que Jesus não lhe prometeu que seus bem-amados não teriam que sofrer. Frequentemente elas são feitas da parte de Nosso Senhor; mas, mesmo quando a coisa não é dita expressamente, vê-se que ela está sempre subentendida. Eis, a título de espécime, o que ela escreveu à Madre de Saumaise, em 24 de agosto de 1685: «Ele lhe...
fez conhecer de novo o grande prazer que sente ao ser honrado por suas criaturas, e pareceu-lhe que então ele lhe prometeu que todos aqueles que fossem devotos a este Sagrado Coração jamais pereceriam; e que, como ele é a fonte de todas as bênçãos, ele as espalharia com abundância em todos os lugares onde fosse colocada a imagem deste amável Coração para aí ser amado e honrado; e por este meio ele reuniria as famílias divididas; que ele protegeria aquelas que estivessem em alguma necessidade; que ele espalharia a suave unção de sua ardente caridade em todas as comunidades onde fosse honrada esta divina imagem; que ele desviaria delas os golpes da justa ira de Deus, remetendo-as à sua graça quando delas tivessem decaído.» Lettre XXXII, Vie et œuvres, t. I, p. 64; 2ª ed., lettre XXX, p. 101.
Coisas análogas em uma carta à Madre Greyfié. Lettre XXXIII, p. 68; 2ª ed., lettre XXXIV, p. 105. Ela é ainda mais explícita em suas cartas ao P. Croiset. Ver a do 10 de agosto de 1689, Lettres inédites, lettre I, p. 87-91; a de 15 de setembro, loc. cit., lettre VI, p. 128-130.
Mas em parte alguma o conjunto dessas promessas é tão bem apresentado quanto em uma carta citada pelo P. Croiset: «Que não posso eu narrar tudo o que sei desta amável devoção, e descobrir a toda a terra os tesouros de graças que Jesus Cristo encerra neste Coração adorável, e que ele tem o desígnio de espalhar com profusão sobre aqueles que a praticarão... Os tesouros de bênçãos e de graças que este Sagrado Coração encerra são infinitos. Não saiba eu que haja nenhum exercício de devoção na vida espiritual que seja mais próprio para elevar em pouco tempo uma alma à mais alta perfeição, e para fazê-la saborear as verdadeiras doçuras que se encontram no serviço de Jesus Cristo.»
É preciso recomendá-lo às pessoas religiosas. «Elas retirarão dele tanto socorro que não seria preciso outro meio para restabelecer o primeiro fervor e a mais exata regularidade.» É preciso recomendá-la às pessoas seculares: elas encontrarão nele «todos os socorros necessários ao seu estado». Segue o detalhe.
Para concluir: «É propriamente neste Sagrado Coração que encontrarão seu refúgio durante toda a sua vida, e principalmente na hora da morte. Ah! quão doce é morrer após ter tido uma terna e constante devoção ao Coração daquele que deve nos julgar!» É preciso recomendá-la àqueles que trabalham pela salvação das almas: «Trabalharão com sucesso e terão a arte de tocar os corações mais endurecidos,» se tiverem para si mesmos, e se se esforçarem por inspirá-la aos outros. Enfim, «não há pessoa no mundo que não sentisse toda sorte de socorro se tivesse por Jesus um amor verdadeiramente agradecido tal como se lhe testemunha pela devoção ao seu Sagrado Coração.» Croiset, Abrégé. Cf. Lettre CXXXII, em Vie et œuvres, t. II, p. 285; 2ª ed., lettre CXXXIV, p. 334. Ver também as contemporâneas, t. I, p. 289; 2ª ed., p. 317.
Circula um pequeno conjunto de promessas do Sagrado Coração. Este conjunto não é tal qual na Bem-Aventurada. Mas é em toda parte o seu pensamento, embora não seja todo o seu pensamento. Falta nele nomeadamente, ao menos em muitos casos, o que se nomeou «a grande promessa». Ela tem o seu lugar necessário em uma visão histórica da devoção.
Encontra-se em uma carta à Madre de Saumaise, que as editoras situam em maio de 1688: «Um dia de sexta-feira, durante a sagrada comunhão, Ele disse estas palavras à sua indigna escrava, se ela não se engana: "Prometo-te, na excessiva misericórdia do meu Coração, que o seu amor todo-poderoso concederá a todos aqueles que comungarem nas nove primeiras sextas-feiras do mês, imediatamente a graça final da penitência: eles não morrerão na sua desgraça nem sem receber os seus sacramentos, tornando-se o meu divino Coração o seu asilo seguro neste último momento."» Lettre LXXXI, em Vie et œuvres, t. II, p. 159; 2ª ed., lettre LXXXIII, p. 176. Cf. contemporaines, loc. cit., t. I, p. 391; 2ª ed., p. 318.
A promessa é absoluta, supondo apenas as comunhões feitas, e evidentemente bem feitas. O que é prometido não é a perseverança no bem durante toda a vida; não é tampouco a recepção dos últimos sacramentos em qualquer hipótese; é a perseverança final, trazendo consigo a penitência e os últimos sacramentos na medida necessária. A promessa olha para os pecadores mais diretamente do que para as almas piedosas; e ela apenas precisa, ao vinculá-la a uma prática determinada, o que a Bem-Aventurada disse muitas vezes, que os devotos do Sagrado Coração não poderiam perecer. Não compreendem nada da devoção do amor aqueles a quem estas grandes promessas escandalizam, ou que nelas veem apenas um encorajamento para fazer o mal.
Esta pausa sobre as promessas e sobre as práticas era necessária para compreender como a devoção cresceu e devia crescer ainda. É preciso segui-la agora em um desenvolvimento novo, grandioso e magnífico.
9º A mensagem para o rei. O reinado social do Sagrado Coração; devoção nacional. — Em 1689, novos horizontes se abrem. Jesus quer que a nova devoção seja proposta ao rei; que Luís XIV se consagre ao Sagrado Coração; que ele o honre publicamente, que ele lhe construa uma capela, e que faça colocar a sua imagem nas armas reais e sobre os estandartes. Deste novo desejo do Sagrado Coração, a Bem-Aventurada mal ousou falar, mesmo à sua confidente íntima, a Madre de Saumaise, tanto isso ultrapassa as possibilidades humanas. Ela o faz, contudo, seguindo o movimento que lhe é dado.
É no dia 17 de junho de 1689, sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento (hoje festa do Sagrado Coração). Ainda sob a influência das luzes recebidas, ela escreve: «Ele reinará, este amável Coração, apesar de Satanás e de seus sequazes.» E, depois de dizer as graças reservadas à Visitação e os desígnios misericordiosos do Sagrado Coração para a salvação das almas, ela acrescenta que ele «tem ainda desígnios maiores»; ele quer «entrar com pompa e magnificência na casa dos príncipes e dos reis, para ali ser honrado tanto quanto foi ultrajado... na sua paixão». Ela ouviu sobre este assunto palavras precisas, destinadas ao rei: «Faze saber ao filho mais velho do meu Sagrado Coração...
que, como o seu nascimento temporal foi obtido pela devoção aos méritos da minha santa infância, do mesmo modo ele obterá o seu nascimento de graça e de glória eterna pela consagração que fará de si mesmo ao meu Coração adorável, que quer triunfar do seu, e, por sua intercessão, do daqueles dos grandes da terra.» Aqui a mensagem se precisa: «Ele quer reinar no seu palácio, ser pintado nos seus estandartes, e gravado nas suas armas.» Lettre XCVIII, Vie et œuvres, t. II, p. 200; 2ª ed., lettre XCVII, p. 234.
Ela termina pedindo segredo. Mas o segredo só poderia ser relativo, já que há uma mensagem a transmitir. Ela retorna a isso, portanto, em agosto de 1689, precisando alguns pontos. Deus quer «um edifício onde estaria o quadro deste divino Coração, para ali receber a consagração e as homenagens do rei e de toda a corte»; o Sagrado Coração escolheu o rei «como seu fiel amigo para fazer autorizar a missa em sua honra pela santa sé apostólica, e obter todos os outros privilégios que devem acompanhar a devoção deste divino Coração». Em troca deste serviço, ele faz ao monarca magníficas promessas de bem temporal e espiritual, para aqui embaixo e para o céu. Lettre CII, Vie et œuvres, t. II, p. 212; 2ª ed., p. 260.
Mas como fazer chegar a mensagem ao rei? Deus conta para isso com o Padre de la Chaise, que «jamais terá feito ação mais útil à glória de Deus nem mais salutar à sua alma, e da qual ele seja melhor recompensado, ele e toda a sua santa congregação». O empreendimento é difícil. «Mas Deus está acima de tudo.» A Madre de Saumaise tinha emitido a ideia de escrever sobre isso à superiora de Chaillot. Esta poderia facilmente iniciar a coisa. A ideia é aprovada.
Um pouco mais tarde, 15 de setembro de 1689, ela escreve ainda sobre isso ao Padre Croiset; mas como ela ainda não se abriu com ele sobre as suas visões, ela se contenta em lançar a ideia, e, ao mesmo tempo em que diz que é preciso «deixar agir a potência deste adorável Coração», ela tenta colocar o seu correspondente em busca de meios práticos. Lettres inédites, t. II, p. 122, 123, 131.
A iniciativa, sabe-se, ou não foi feita, ou não teve seguimento junto a Luís XIV. Mas a ideia não morreu. E os devotos do Sagrado Coração guardam a esperança de que um dia se realizarão os desígnios do Coração de Jesus. A basílica de Montmartre, o estandarte de Patay, a consagração de 1873 em Paray-le-Monial, são para eles, ao mesmo tempo em que um começo de realização, uma promessa de futuro. O pedido do Sagrado Coração a Luís XIV não é para eles um simples fato histórico: eles o olham como sempre atual, como sempre por realizar. É preciso lembrar-se disso para compreender a história da devoção no passado; lembrar-se disso também para explicar o seu caráter social no presente e as suas perspectivas de futuro.
10º Visão de 2 de julho de 1688. Missão confiada às religiosas da Visitação e à Companhia de Jesus. — Para realizar os desígnios do Sagrado Coração, eram necessários instrumentos. Nosso Senhor tinha escolhido para começar uma visitandina e um jesuíta; Ele quis que as visitandinas e os jesuítas fossem, como de ofício, os apóstolos da nova devoção. Sem excluir nenhuma boa vontade, fazendo apelo a todos, Ele deu comissão especial a alguns para trabalharem nela especialmente; Ele lhes fez disso um dever de vocação, prometendo-lhes, se fossem fiéis à sua missão, uma mais larga parte dos tesouros encerrados no Sagrado Coração. A escolha divina era como anunciada de antemão, e recolheram-se depois mil indícios no passado.
Mas nada é claro como as palavras da Bem-Aventurada. Sem nos determos nos preliminares, cheguemos ao principal. É o dia da Visitação, 2 de julho de 1688. Margarida Maria tem a felicidade de passar todo o dia diante do santíssimo sacramento, e o seu soberano, como ela diz, «dignou-se bem gratificar a sua pequena escrava de várias graças particulares do seu Coração amoroso». Foi-lhe representado «um lugar muito eminente, espaçoso e admirável em sua beleza, no centro do qual havia um trono de chamas». Ela ali viu «o amável Coração de Jesus com sua chaga». Esta chaga «lançava raios tão ardentes e luminosos que todo o lugar era por eles iluminado e aqueçido».
Desta vez, o Sagrado Coração não está ali sozinho. A santíssima Virgem estava de um lado, do outro São Francisco de Sales «com o santo Padre de la Colombière». Depois, as filhas da Visitação, «seus bons anjos ao lado, que seguravam cada um um coração na mão», obviamente o coração de sua protegida. «A santa Virgem, disse a vidente, convidava-nos por estas palavras maternais: 'Vinde, minhas filhas bem-amadas, aproximai-vos, pois eu quero tornar-vos depositárias deste precioso tesouro'.»
Seguem-se alguns desenvolvimentos, dos quais resulta claramente que o Coração de Jesus é todo Jesus, e que o dom do Coração é o dom de Jesus com todo o seu amor, todos os seus méritos e todas as suas riquezas. «Esta rainha de bondade, continuando a falar às filhas da Visitação, disse-lhes, mostrando-lhes este divino Coração: 'Eis este divino tesouro que vos é particularmente manifestado'.» Jesus ama seu instituto «como seu querido Benjamim», e «o quer favorecer com esta posse acima dos outros». Mas elas não o têm apenas para si; é preciso «que elas distribuam esta preciosa moeda». Que elas tentem «enriquecer o mundo com ela, sem temer que falte; pois quanto mais delas tirarem, mais haverá para tirar». Eis o quinhão das visitandinas, eis sua missão claramente indicada por sua amável mãe e mediadora.
Esta mãe de bondade volta-se então «para o Padre de la Colombière» e diz-lhe: «E vós, fiel servo do meu divino Filho, tendes grande parte neste precioso tesouro; pois, se é dado às filhas da Visitação fazê-lo conhecer, amar e distribuir aos outros, é reservado aos Padres da Companhia fazer ver e conhecer sua utilidade e valor, a fim de que se aproveite recebendo-o com o respeito e a gratidão devidos a um tão grande benefício.»
Em suma, assim como as visitandinas devem continuar Margarida Maria, os jesuítas devem continuar o Pe. de la Colombière. Eles serão recompensados como ele. Pois «à medida que lhe fizerem este agrado, este divino Coração, fonte de bênçãos e de graças, derramá-las-á abundantemente sobre as funções de seu ministério, de modo que produzirão frutos além de seus trabalhos e de suas esperanças, e mesmo para a salvação e a perfeição de cada um deles em particular». A cena termina com um discurso requintado de São Francisco de Sales.
Ele convida-as a vir «beber na fonte de bênção as águas da salvação», e explica-lhes como a nova devoção está longe de ser contrária às suas constituições. Ideias análogas, mas segundo luzes novas, encontram-se em outra carta à Madre de Saumaise, em 17 de junho de 1689. Era a sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento. Margarida Maria viu a devoção do divino Coração «como uma bela árvore destinada desde toda a eternidade» à Visitação, a fim de que cada casa «pudesse colher seus frutos a seu bel-prazer e segundo seu gosto». São «frutos de vida e de salvação eterna». Mas estes frutos não são apenas para as visitandinas: elas devem distribuí-los «a todos aqueles que desejarem deles comer sem medo de que lhes falte». Carta xcvi, t. II, p. 198; 2ª ed., carta xcvii, p. 232.
Segue-se a mensagem para o rei, da qual já se tratou. Margarida Maria passa daí para os jesuítas, cuja missão se apresenta sempre a ela como completando a da Visitação. Ela vincula esta missão às orações do Pe. de la Colombière, como vincula a das visitandinas a São Francisco de Sales. Ver a carta de 15 de setembro de 1689 ao Pe. Croiset, Lettres inédites, carta III, p. 125. Graças a ele, a Companhia de Jesus será gratificada, com a Visitação, «de todas as graças e privilégios particulares da devoção do Sagrado Coração». Este divino Coração promete-lhes derramar «com profusão suas santas bênçãos» sobre seus trabalhos. Ele deseja «ser conhecido, amado e adorado particularmente por estes bons Padres». E se eles tentarem «beber todas as suas luzes na fonte inesgotável de toda a ciência e caridade dos santos», ele dará às suas palavras «a unção de sua ardente caridade» com graças tão «fortes e poderosas, que serão como espadas de dois gumes que penetrarão os corações mais endurecidos dos mais obstinados pecadores». Carta xcviii, t. II, p. 200; 2ª ed., carta xcvii, p. 234. Ver ainda a carta civ, t. II, p. 244; 2ª ed., p. 262; a carta ao Pe. Croiset, 10 de agosto de 1689, Lettres inédites, carta I, p. 95; a de 15 de setembro de 1689, loc. cit., carta II, p. 130.
«Se é verdade, diz ela ainda nesta carta, que esta devoção tão amável nasceu na Visitação, eu não posso deixar de crer que ela fará seu progresso por meio dos Reverendos Padres jesuítas. E creio que é para isso que ele tinha escolhido o bem-aventurado amigo de seu coração (o Pe. de la Colombière) para o cumprimento deste grande desígnio.» Loc. cit., p. 125. Por que ela não pode deixar de crer? Porque Nosso Senhor «fez-lhe conhecer, de uma maneira a não deixar dúvidas, que era principalmente por meio dos Padres da Companhia de Jesus que ele queria estabelecer por toda parte esta... devoção, e por ela fazer para si um número infinito de servos fiéis, de amigos perfeitos e de filhos perfeitamente reconhecidos». Carta citada pelo Pe. Croiset, Abrégé, p. 57. Cf. Vie et œuvres, carta CXXXII, t. 1, p. 285; 2ª ed., carta CXXXIV, p. 334. Estas garantias da Bem-aventurada dominam a história da devoção. Não se explica sem isso que as visitandinas e os jesuítas tenham tomado tão a peito propagá-la.
Estado da devoção ao Sagrado Coração na morte de Margarida Maria, 17 de outubro de 1690. — Enquanto Margarida Maria recebia estas últimas comunicações, ela se despendia com uma atividade incrível para espalhar sua cara devoção. Ela não estava mais em contato apenas com suas irmãs em religião. De todos os lados, escreviam-lhe, vinham vê-la e, apesar de suas repugnâncias, ela ia ao parlatório, ela multiplicava suas cartas. Que alegria, em retorno, quando ela aprendia algum novo progresso da devoção! Um Padre capuchinho pregava-a em Dijon; alguns jesuítas, amigos na maioria ou filhos espirituais do Pe. de la Colombière, entusiasmavam-se, inspiravam-na aos seus alunos, falavam dela em toda ocasião; em Lyon, em Marselha sobretudo, era quase uma mania.
As últimas cartas da Bem-aventurada estão repletas de detalhes interessantes sobre este assunto. Vê-se ela própria toda ocupada com livros a escrever e a espalhar. O da irmã Joly já não era suficiente; em Moulins, a Madre de Soudeilles o havia reeditado com adições, e nomeadamente com o relato extraído da Retraite do P. de la Colombière; em Lyon, o P. Croiset o reeditava aumentando-o. E as edições eram esgotadas, assim como as imagens. Sob influência da Bem-Aventurada, o P. Froment, que estava em Paray, empreendeu um livro sobre o Sagrado Coração; o P. Croiset também o fez: o que não deixou de a lançar em certo embaraço. Foi ao P. Croiset e ao seu livro que ela se interessou. Temos, em boa parte pelo menos, a sua correspondência com ele sobre este assunto. Ela sugeria ideias, ela dava, custasse o que custasse, os detalhes necessários sobre as origens da devoção; ela lia o manuscrito à medida que avançava. Ela tinha encontrado no P. Croiset como que um segundo Padre de la Colombière, não tanto pela direção da sua alma quanto pelo apostolado do Sagrado Coração. Ela mesma, dizia, punha obstáculo à devoção; melhor seria que morresse. Era verdade, embora em um sentido diferente do seu. Ela viva, não se podia dizer tudo.
Em 17 de outubro, sem que se tivesse decidido acreditar que ela estava seriamente doente, ela foi, em um ato de amor, "abismar-se no Sagrado Coração". O livro do P. Croiset estava quase terminado. Ele acrescentou às pressas um Abrégé de la Vie d’une religieuse de la Visitation de laquelle Dieu s’est servi pour l’établissement de la dévotion au Sacré-Cœur de Jésus-Christ, décédée en odeur de sainteté le 17 octobre de l’année 1690; inseriu nele largos extratos das cartas que havia recebido dela, e a obra apareceu em Lyon logo em 1691. Pode-se adivinhar o quanto a devoção ganhou com isso.
Antes de seguir a sua história, vejamos rapidamente em que ponto ela estava quando morreu a Bem-Aventurada. A devoção estava constituída no seu íntimo. Muito precisa ao mesmo tempo e muito ampla, englobava todos os elementos existentes e orientava-os para um fim muito claro, o amor reparador. Tinha as suas práticas principais: todas as do passado incorporavam-se nela sem esforço, as novas eram simples e pouco numerosas. Pequenos livros existiam que faziam a fusão e agrupavam, ao lado dos exercícios antigos, orações novas, ladainhas, pequeno ofício, etc. Mas era mais do que um conjunto de práticas, mais do que uma coletânea de exercícios antigos ou novos, era um espírito, toda uma espiritualidade de amor terno e sólido por Jesus todo amante e todo amável, toda uma vida de relações íntimas com Ele, uma vida de coração a coração.
Ela era aceita em vários mosteiros da Visitação e irradiava para fora em várias cidades da França. Um pouco misturada por vezes à devoção do P. Eudes, que ela estava em vias de absorver, ela tinha algumas confrarias, e se Roma, solicitada desde 1687, não tinha concedido nem missa, nem ofício, nem festa, tinha remetido aos ordinários, e os ordinários, em Langres, por exemplo, tinham-lhe dado bom acolhimento. Algumas capelas existiam, junto às visitandinas ou noutros lugares; as imagens e quadros estavam difundidos, os livretos estavam em voga. Pregadores falavam sobre ela para recomendá-la. O fogo sagrado estava aceso em algumas almas ardentes; e em dois institutos religiosos, uma elite considerava um dever de estado propagá-la. Livros preparavam-se, que a explicariam claramente e contariam as suas origens celestes. A graça de Deus, enfim, estava com os seus apóstolos, e a transformação que ela realizava, ao entrar, nas almas e nas comunidades, trazia um vivo testemunho à palavra e ao livro.
Ao morrer, Margarida Maria deixava a devoção viva, viável, cheia de futuro. Mas havia obstáculos formidáveis. Nem a Visitação como corpo, nem a Companhia de Jesus estavam conquistadas para a nova devoção. As contradições que Margarida Maria e o P. de la Colombière tiveram de sofrer não deviam ceder tão cedo. No exterior, os jansenistas, que já tinham gritado tanto contra o P. Eudes, não estavam dispostos a depor armas diante de Maria Alacoque e dos jesuítas. Roma, enfim, aguardava, seguindo o seu hábito, e observava: não era hostil, mas não estava conquistada.
III. A DEVOÇÃO, DESDE A MORTE DE MARGARIDA MARIA ATÉ AOS NOSSOS DIAS, 1690-1905.
1º Primeiros desenvolvimentos, primeiros pedidos a Roma. Recurso público ao Sagrado Coração, a peste de Marselha, 1690-1725. — A morte de Margarida Maria, graças, em boa parte, ao livro do P. Croiset, não fez senão dar um novo impulso à devoção. O livro teve uma difusão prodigiosa, e fizeram-se dele edições e adaptações em várias cidades da França; foi também traduzido em várias línguas. Por toda a parte acendia o fogo sagrado, fazendo conhecer, com o valor e a utilidade da devoção, as suas origens celestes. Onde quer que houvesse um mosteiro da Visitação ou um colégio de jesuítas, encontrava-se alguma alma ardente para propagá-la. Não era sempre sem dificuldade. Pois nem a Visitação nem a Companhia de Jesus comprometeram-se às cegas na devoção nova. Houve mesmo atos de autoridade, destinados a fazer refletir os temerários e os inovadores.
Contudo, as confrarias multiplicavam-se, as práticas essenciais eram adotadas; capelas eram construídas; altares eram dedicados; os pregadores falavam. Santos sacerdotes, como o Sr. Boudon, tornavam-se os seus propagadores zelosos: "Conheci por minha experiência", escrevia ele, "que Nosso Senhor fará grandes graças àqueles que tiverem devoção ao seu Sagrado Coração." E ele não cessava de recomendar o livro do P. Croiset. Ver Letierce, t. 1, p. 116-148. Simon Gourdan, cónego de Saint-Victor, faria o seu elogio em uma consulta célebre, 1711. Op. cit., p. 120.
Congregações religiosas abriam-lhe as portas de par em par: as beneditinas do Santíssimo Sacramento, as ursulinas, as cartuxas. São talvez os cartuxos os primeiros que adotaram quase oficialmente a nova devoção. Por volta de 1692, monjas desta ordem perguntavam ao seu superior geral, dom Innocent Le Masson, se podiam adotar as práticas propostas em um pequeno livro da devoção ao Sagrado Coração: o encontro diário neste divino Coração, orações especiais, uma consagração, uma desagravo, uma espécie de festa reparadora em honra do Sagrado Coração, na sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento. E enviavam-lhe o livro. Era, ao que parece, Le divin rendez-vous da irmã Joly. Dom Le Masson respondeu: "Não somente consinto..., exorto-as a isso." E quis escrever ele mesmo um Exercice de dévotion au Sacré-Cœur para as religiosas cartuxas, que apareceu em 1694. Ver dom Boutrais, Mois du Sacré-Cœur de Jésus, 4ª ed., Montreuil, 1866, prefácio, p. 12 sq.
Livros estavam em preparação. O P. Froment tinha começado desde antes do P. Croiset, mas só publicou em 1699. Ver Letierce, Étude, t. 1, p. 21-27. O P. Bouzonié, em Poitiers, dava o seu em 1698. Parece também que o Pe. de Galliffet tinha se posto ao trabalho desde cedo. O Pe. Charrier diz ter encontrado em Roma um manuscrito da obra do Pe. de Galliffet sobre o Sagrado Coração, composto já em 1696. Histoire du V. P. Cl. de la Colombière, p. 482, nota. Seria ele provavelmente de quem se trata em Letierce, t. II, p. 94. Se assim é, os revisores romanos louvaram a obra, mas acharam a publicação inoportuna, 1697.
Era o tempo em que Roma se ocupava da devoção nova. É sob Inocêncio XII, em 1697, que a S. C. dos Ritos foi pela primeira vez instada da questão. Desde 1687, sob Inocêncio XI, as visitandinas tinham feito diligências, que não tiveram seguimento. Mas elas interessaram à causa do Sagrado Coração a rainha destronada da Inglaterra, Maria de Este, esposa de Jaime II. Era fácil, pois ela não podia ter esquecido seu pregador de 1676, o Pe. de la Colombière. Do seu exílio real em Saint-Germain-en-Laye, ela escreveu ao papa em 1697, pedindo-lhe que concedesse aos mosteiros da Visitação a festa do Sagrado Coração, com missa própria, na sexta-feira após a oitava da Festa de Deus.
O papa, segundo o costume, reenviou a causa à S. C. dos Ritos. O cardeal de Forbin Janson, bispo de Beauvais, então embaixador de Luís XIV em Roma, tornou-se o seu ponente. Ele tomou como postulador ou advogado da causa, Prigidiano Castagnori; este apresentou um longo memorial à S. C. para expor a questão e obter a festa pedida. O promotor da fé, Prosper Bottini, arcebispo de Myre, fez as objeções segundo o costume. A principal era a novidade, e depois também as consequências que se tirariam para estabelecer outras festas, nomeadamente a do Coração de Maria. O postulador replicou, resolvendo as objeções e lembrando os méritos da rainha da Inglaterra. A S. C. rendeu seu decreto em 30 de março de 1697. Ela concedia aos mosteiros da Visitação a missa das Cinco Chagas para a festa do Sagrado Coração. Nilles, loc. cit., p. 23. Não era mais que uma meia satisfação. Dez anos mais tarde, as visitandinas renovaram suas instâncias junto a Clemente XI, para terem a missa própria.
O papa respondeu-lhes, em 4 de junho de 1707, louvando seu zelo, sua piedade, sua prudência na condução deste negócio, que esperassem, pois, em paz o juízo da Igreja; por essa submissão sincera elas chegariam em linha reta ao Coração mesmo do Senhor. Nilles, loc. cit., p. 13.
No intervalo, o livro do Pe. Croiset tinha sido colocado no Índice, 1704. Por quê? O Pe. de Galliffet explicava-o assim a Monsenhor Languet, 20 anos mais tarde: «A novidade da coisa, alguns descumprimentos de formalidades requeridas aqui, e talvez um pouco de malignidade por parte dos homens e muita certamente por parte do inferno.» Citado por Letierce, t. 1, p. 96.
O livro não deixou de se propagar: foi traduzido para o italiano, corrigindo nele os defeitos de formalidades; mesmo na França, recebia grandes elogios de Monsenhor Languet, que o recomendava, sem fazer a menor alusão ao Índice, Languet, Vie, édit. Gauthey, p. 432. Apesar de todos os obstáculos, a devoção continuava a se espalhar no público. As confrarias multiplicavam-se com aprovação e indulgências de Roma. As ursulinas de Viena imitavam as visitandinas da França; a Polônia abria-se toda grande ao Sagrado Coração.
A peste de Marselha, em 1720, foi talvez a primeira ocasião de uma consagração solene de um culto público fora das comunidades religiosas. Sabe-se como Marselha tinha sido fervorosa pelo Sagrado Coração desde os tempos de Margarida Maria. Há alguns anos, outra visitandina, Anne-Madeleine Rémusat, soprava ali a mesma devoção. Ela tinha anunciado o flagelo de 1720. Quando eclodiu, Nosso Senhor indicou-lhe o remédio na devoção ao seu Sagrado Coração. Desagravo e consagração foram feitos por Monsenhor de Belsunce no meio das lágrimas e dos soluços de todo um povo; e a festa foi estabelecida para o ano seguinte. Imediatamente a peste cessou. Em 1722, reapareceu. Desta vez, os magistrados eles mesmos fizeram um voto solene de festejar doravante o Sagrado Coração por missa, comunhão, homenagens e procissão solene. Outras cidades, atingidas ou ameaçadas, recorreram do mesmo modo ao Sagrado Coração: Aix, Arles, Avignon, Toulon. Foi uma súplica geral. Assim a devoção tornava-se popular.
A festa do Sagrado Coração. Novo esforço em Roma sob Bento XIII, 1726-1729. Sucesso sob Clemente XIII, 1765. Extensão sob Pio IX, 1856, e sob Leão XIII, 1889. — Em 1726, acreditou-se que o momento tinha chegado de retomar a causa em Roma. O rei da Polônia, ao qual se adjuntou mais tarde o rei da Espanha, os bispos de Cracóvia e de Marselha, as visitandinas endereçaram uma súplica a Bento XIII para obter a festa e o ofício próprios. Mostrava-se nela a devoção espalhada por toda a Igreja, cara aos bispos, cara aos povos; lembrava-se o desejo expresso por Nosso Senhor à B. Margarida Maria. A alma do movimento era o Pe. de Galliffet, assistente da França em Roma, postulador da causa. Ele publicou em latim seu livro sobre o Sagrado Coração e preparou todas as peças à perfeição. Julgava-se o sucesso assegurado.
Prosper Lambertini, o futuro Bento XIV, era então promotor da fé. O Pe. de Galliffet acreditava-o favorável à causa. Papa, ele aceitou a dedicatória de uma edição nova do livro de Galliffet, e deu liberalmente bulas em favor das confrarias do Sagrado Coração. Não parece que fosse a favor de uma festa nova. Ele fez conscientemente seu papel de «advogado do diabo». As objeções foram as mesmas quase que trinta anos antes: a festa era nova; o caso de Margarida Maria não estava decidido; uma vez lançado nessa via, onde se pararia? A tudo isso Galliffet tinha resposta. Mas Lambertini deu de viva voz, aos cardeais, uma razão que os comoveu mais. A causa supunha o coração órgão do sentimento. Ora, isso era, dizia Lambertini, uma opinião filosófica discutível e discutida, onde não se devia comprometer a Igreja. Isso sobretudo fez hesitar. Para não dizer: Não, a S. C. respondeu em 12 de julho de 1727: Non proposita. Apesar de tudo, insistiu-se, voltou-se à carga. Em 30 de julho de 1729, a S. C. respondeu: Negative. Foi grande decepção.
Contudo, a devoção fazia seu caminho apesar dos clamores dos jansenistas e dos filósofos. A rainha da França, Maria Leczinska, tinha já escrito a Bento XIV para obter a festa; o papa contentou-se em enviar-lhe imagens do Sagrado Coração, bordadas de ouro e de seda. Nilles, l. I, part. I, c. III, § 4, p. 89, segundo Ferd. Tetamo. As súplicas chegavam de toda parte, da Polônia, da Espanha, da América, da Alemanha, da Itália, do Oriente. Nilles, loc. cit., p. 87-100.
Em 1765, Clemente XIII retomou a causa. O Memorial dos bispos poloneses foi apresentado à S. C. dos Ritos por J. B. Alegiani. Pode-se vê-lo em Nilles, loc. cit., § 3 (é 2 que seria preciso), p. 100-144; com as réplicas às «exceções» do promotor da fé, é todo um tratado da devoção ao Sagrado Coração, largamente inspirado em Galliffet. Explica-se nele a origem, o desenvolvimento, a natureza do culto. Assinala-se a existência de pelo menos 1000 confrarias do Sagrado Coração erigidas no mundo inteiro, a difusão universal do culto, as aprovações episcopais, a aceitação por quase todas as congregações religiosas, § 3, n. 18-23. Nilles, p. 108-111. O Memorial termina com o pedido de uma festa com missa e ofício próprios. Desejar-se-ia muito que isso fosse concedido para a Igreja universal ou, pelo menos, para todos os reinos, províncias ou dioceses que expressaram o mesmo desejo. Mas, para estar mais seguro de obter, contenta-se em pedi-lo para a Polônia, para a Espanha, para a arquiconfraria do Sagrado Coração estabelecida em Roma e para todas as confrarias afiliadas; e suplica-se que a festa seja fixada na sexta-feira que segue a oitava do Santíssimo Sacramento. Memoriale, § 8, n. 73-80, Nilles, p. 139-144.
Em 25 de janeiro de 1765, a S. C. dos Ritos dava finalmente o decreto tão desejado. Considerando a difusão universal do culto, tantos breves já dados em seu favor, tantas confrarias erigidas, amplificava-se o culto já existente, dando-lhe uma festa, após ter expressamente notado que se afastava do decreto de julho de 1729. Em 6 de fevereiro, Clemente XIII aprovava o decreto. Texto em Nilles, loc. cit., § 4, p. 152. Cf. Gardellini, Decreta authentica, 1857, n. 4579, t. II, p. 174. Em 11 de maio do mesmo ano, a S. C. aprovava a missa e o ofício para a Polônia e para a arquiconfraria. Em 10 de julho, as visitandinas obtinham a festa para si mesmas. De todo lado, pedia-se, e bastava pedi-la para obtê-la. Em suma, em 1856, a S. C.
dos Ritos podia dizer que não havia quase mais uma Igreja no mundo que não tivesse obtido o privilégio. Nilles, loc. cit., p. 157. Não era, contudo, mais que um privilégio. É apenas em 1856 que Pio IX, a pedido dos bispos da França, reunidos em Paris para o batismo do príncipe imperial, estendeu a festa à Igreja universal sob o rito duplo maior. Decreto de 23 de agosto. Cf. Nilles, loc. cit., Cf. IV, p. 161.
Em 1864, a beatificação de Margarida Maria dava uma alta sanção ao culto tal como se tinha propagado. Pois os documentos, decreto de beatificação, oração da Bem-aventurada, lições da festa, afirmavam nitidamente que Jesus tinha escolhido a humilde visitandina de Paray para ser a apóstola de seu Sagrado Coração, revelar-nos por ela seu imenso amor, e levar-nos a responder a ele honrando-o sob o símbolo do coração. Entretanto, a devoção crescia, e de todos os lados, pedia-se uma festa mais solene. O papa concedia-a frequentemente a tal país, a tal diocese, a tal congregação religiosa. Ver Nilles, c. IV, § 4.
Mas é somente em 28 de junho de 1889 que a festa foi elevada para toda a Igreja ao rito duplo de primeira classe. Em 23 de julho de 1897, um outro decreto permitia transferir a solenidade para o domingo. Assim se cumpriu o desejo expresso por Nosso Senhor na grande aparição. A festa está estabelecida no mundo inteiro, estabelecida com seu caráter de reparação e de desagravo. A solenidade exterior não é ainda em toda parte tudo o que pode ser; mas pouco falta para isso, e poucos são os que têm tanto alcance sobre as almas.
3º Extensão do culto público sob Pio IX e Leão XIII. As consagrações parciais; a consagração de 1875; a consagração do gênero humano em 1899. — Com a festa, as almas devotas ao Sagrado Coração sempre desejaram a consagração e o desagravo. O desagravo dificilmente tem história, ao menos enquanto se distingue da consagração; ele se incorporou naturalmente à devoção, é como se fosse parte integrante dela, e vai com ela onde quer que ela se estenda. O mesmo ocorre, de certa forma, com a consagração. A Bem-aventurada pedia-a como um dos primeiros atos da devoção, e dava-lhe o sentido de uma doação total e irrevogável aos interesses do Sagrado Coração. Na mensagem do Sagrado Coração ao rei, a ideia de consagração tem o seu lugar. Os vereadores de Marselha renovavam solenemente, desde 1722, a consagração da cidade. Se o voto de Luís XVI é autêntico, o rei teria prometido pronunciar um ato solene de consagração de sua pessoa, de sua família e de seu reino ao Sagrado Coração de Jesus. Ver Ami de la religion, 1815, livro IV, p. 505.
Em nosso século, sobretudo desde cerca de 1850, esta ideia tornou-se familiar à piedade cristã. Os bispos consagram suas dioceses; Estados como o Equador, 1873, congregações religiosas, etc., consagram-se solenemente ao Coração de Jesus. É ordinariamente nas grandes calamidades que se volta para ele: Margarida Maria não tinha mostrado o grande remédio para a desolação do reino? Lettres inédites, carta 11, p. 131. Marselha não tinha encontrado nele sua salvação? Mas a devoção nem sempre teve esses motivos interessados. O amor impele a ela.
Em 1870 e 1871, grandes petições foram feitas a Pio IX para que fizesse da festa do Sagrado Coração uma festa de primeira classe e consagrasse a Igreja inteira a este Coração todo amante. Ver em Nilles, a carta dos bispos reunidos no concílio do Vaticano, loc. cit., p. 189, a da imperatriz da Áustria, loc. cit., p. 191; a dos católicos alemães, loc. cit., p. 192. As petições continuaram nos anos seguintes.
Em 1874, à aproximação do segundo centenário da grande aparição a Margarida Maria, Monsenhor Desprez, arcebispo de Toulouse, escreveu, como bispo da cidade de onde irradiava sobre o mundo o Apostolado da Oração, a todos os bispos do mundo católico: recordava a petição apresentada a Pio IX, perto do fim do concílio, assinada por quase todos os bispos e superiores de ordens, e por mais de um milhão de fiéis; explicava como a coisa não tinha tido sucesso até lá; assegurava que em Roma uma petição dos bispos seria bem recebida, e enviava uma fórmula de petição cuidadosamente preparada, para evitar as ambiguidades de linguagem, que tinham causado dificuldade no passado.
No mês de abril de 1875, o Pe. Ramière, diretor do Apostolado da Oração, que tinha sido a alma do movimento, oferecia ao papa a petição subscrita por 525 bispos. Pedia-se ali: 1. que Sua Santidade se dignasse a escolher um dia, ou, na basílica vaticana, com toda a solenidade possível, consagraria para sempre ao Sagrado Coração a cidade e o mundo (urbem et orbem); 2. que ordenasse que no mesmo dia, no mundo inteiro, todos os agrupamentos católicos, dioceses, paróquias, missões, congregações e comunidades religiosas, casas de educação, etc., fizessem, pela boca de seus respectivos superiores, a mesma consagração, com toda a solenidade possível; 3-5. que ele quis de bom grado prescrever exercícios preparatórios, conceder indulgências, ordenar que todos os anos se renovasse esta consagração. O sexto pedido tinha por objeto a elevação da festa ao rito de primeira classe com oitava, como festa patronal de toda a Igreja.
O papa não julgou dever intervir por autoridade. Mas, para dar alguma satisfação a esses piedosos desejos, encarregou a S. C. dos Ritos de enviar por toda parte uma fórmula de consagração aprovada por ele, e que propunha a todos os que quisessem consagrar-se ao Sagrado Coração; essa unidade de fórmula mostraria a unidade da Igreja; deixava aos bispos o cuidado de traduzi-la e de fazê-la publicar se julgassem oportuno; exortava os fiéis a recitá-la em particular ou em público no dia 16 de junho de 1875, segundo centenário da aparição; e concedia indulgência plenária aos que o fizessem. O papa, finalmente, dava comissão ao Pe. Ramière de comunicar o decreto da S. C., com a fórmula de consagração, a todos os bispos do mundo católico. Ver as peças em Nilles, loc. cit., p. 202 sq.
Vê-se que o papa tinha consciência, como diz o decreto, da gravidade da coisa, gravitatem rei coram Deo animo reputans: ele ajudava, ele encorajava; mas não queria tomar a iniciativa, menos ainda ordenar. O ímpeto dos fiéis não foi senão mais admirável. O dia 16 de junho de 1875 foi uma das maiores solenidades que o mundo católico já viu, um belo triunfo do Sagrado Coração. Leão XIII deveria preparar-lhe um ainda mais magnífico, a consagração do gênero humano ao Sagrado Coração, ao final do século XIX.
Em 25 de maio de 1899, a encíclica Annum sacrum anunciava ao povo cristão um grande desígnio do papa, do qual ele esperava, se fosse atendido em conjunto e de todo o coração, grandes e duradouros frutos, primeiro para a cristandade, e depois para a humanidade inteira, auctores suasoresque sumus preclare cujusdam rei, ex qua quidem, si modo omnes ex animo, et consentientibus libentibusque voluntatibus paruerint, primum quidem nomini christiano, deinde societati hominum universe fructus insignes non sine causa expectamus eosdemque mansuros.
Ele lembrava o que haviam feito seus predecessores pelo Coração de Jesus, o que ele próprio havia feito. «E agora, acrescentava ele, temos em vista um ato de devoção, que será como o coroamento de todas as honras que se prestaram ao Sagrado Coração, e temos confiança de que Jesus Cristo, Nosso Salvador, tê-lo-á por muito agradável: nunc vero luculentior quaedam obsequii forma obversatur animo que scilicet honorum omnium, quotquot sacratissimo Cordi haberi consueverunt, velut absolutio perfectioque sit.»
Ele lembrava as petições feitas a Pio IX e a consagração de 1875. O tempo lhe parecia chegado de consagrar finalmente ao Sagrado Coração o gênero humano todo inteiro, communitatem generis humani devovere augustissimo Cordi Jesu.
Ele motivava sua decisão mostrando que Jesus é o rei supremo, o rei não apenas dos católicos ou dos batizados, mas de todo o gênero humano; e indicava os títulos de sua realeza. Mas o que ele quer é o reconhecimento espontâneo dessa realeza; e a consagração é precisamente isso: «Como, aliás, temos no Sagrado Coração o símbolo e a viva imagem do amor infinito de Jesus, estimulando-nos a amá-lo em retorno, é justo que essa consagração se faça ao Sagrado Coração, o que, também, não é outra coisa senão consagrar-se a Jesus Cristo.»
Mas aqueles que ignoram Jesus, podemos esquecê-los? Enviamos-lhes por toda parte apóstolos; mas hoje, «tocados por sua infelicidade, recomendamo-los instantemente a Jesus e, tanto quanto em nós está, consagramo-los a Ele. E assim esta consagração (hæc devotio), que recomendamos a todos, será útil a todos,» aumentando nos uns a fé e o amor, atraindo aos outros graças de santificação e de salvação.
O papa mostra, em seguida, que a salvação está aí para as sociedades doentes. Antigamente, diz ele, a cruz apareceu a Constantino, penhor ao mesmo tempo e causa de vitória. «Eis que hoje um novo sinal... oferece-se aos nossos olhos, sinal de esperança, sinal todo divino, auspicatissimum divinissimumque signum: é o Sagrado Coração todo radiante em meio às chamas. É aí que se deve colocar todas as esperanças, aí que se deve pedir, de onde se deve esperar a salvação.»
O papa acrescentava que a essas grandes razões de ordem geral juntava-se para ele uma outra, de ordem pessoal: Deus o havia guardado, ao curá-lo de um mal perigoso; ele queria, de sua parte, por maiores homenagens ao Sagrado Coração, conservar-lhe a lembrança agradecida. Ordenava, portanto, um tríduo, com orações e ladainhas ao Sagrado Coração; e enviava a fórmula de consagração a ser recitada no último dia. A encíclica era datada de 25 de maio de 1899.
Não havia, pois, tempo a perder. Mas, desde há quase dois meses, ela já estava anunciada. Por decreto de 2 de abril, a S. C. dos Ritos havia autorizado o uso público das ladainhas do Sagrado Coração. Entre os considerandos, havia este: «Além disso, Sua Santidade... propõe-se consagrar o mundo inteiro ao Sagrado Coração. Ora, para dar a essa consagração mais solenidade, Sua Santidade decidiu prescrever proximamente um tríduo, no qual se cantarão essas ladainhas.» Esse anúncio dificilmente poderia vir mais cedo, pois a decisão só fora tomada em 25 de março.
O papa pensava nela para 1900. É provável que o perigo de morte ao qual ele acabara de escapar, e do qual fala na encíclica, tenha apressado o evento: apesar da pressa, o mundo católico encontrou-se pronto, e sabe-se com que solenidade grandiosa, ao mesmo tempo que íntima, realizou-se esse ato que Leão XIII chamava de «o maior ato» de seu pontificado. Às primeiras vésperas dessa festa do Sagrado Coração, cuja solenidade, transferida para o domingo, ia ser marcada por esse grande ato, morria em um mosteiro de Portugal, desconhecida do mundo, a religiosa de quem partira esse imenso movimento que punha o mundo aos pés do Sagrado Coração.
Há aí um desses fatos que iluminam sob uma luz singular a história da Igreja; e se há prazer em procurar os bastidores dos eventos humanos, ainda que se encontre muitas vezes apenas mesquinharias ou violências, quanto mais nas coisas religiosas onde se vê, quando se sabe ver, o dedo de Deus!
Em 10 de junho de 1898, partia do Bom Pastor do Porto (Portugal) uma carta para Leão XIII. A religiosa, que a assinava a lápis com uma mão vacilante, dizia ao papa ter recebido de Nosso Senhor a ordem de escrever-lhe que Ele queria que seu vigário consagrasse o mundo inteiro ao seu divino Coração; Ele prometia em retorno uma efusão de graças. Diz-se que Leão XIII ficou comovido; mas nada fez. Não haveria cabeças insensatas para lhe sugerir, frequentemente, as suas ideias como se tivessem caído do céu?
Em 6 de janeiro de 1899, nova carta, escrita em francês, «por ordem expressa (sic) de Nosso Senhor e com o consentimento do meu confessor». Lia-se nela o seguinte: «Quando, no verão passado, Vossa Santidade sofria de uma indisposição que, vista a vossa idade avançada, enchia de preocupações os corações dos vossos filhos, Nosso Senhor deu-me a doce consolação de que prolongaria os dias de Vossa Santidade, a fim de realizar a consagração do mundo inteiro ao seu divino Coração.»
Seguiam-se outros detalhes no mesmo sentido. Continuava-se: «Na véspera da Imaculada Conceição, Nosso Senhor fez-me conhecer que, por este novo impulso que deve tomar o culto do seu divino Coração, ele faria brilhar uma luz nova sobre o mundo inteiro... Parecia-me ver (interiormente) esta luz, o Coração de Jesus, este sol adorável, que fazia descer os seus raios sobre a terra, primeiro mais estreitamente, depois alargando-se e, enfim, iluminando o mundo inteiro.
E ele disse: «Do brilho desta luz, os povos e as nações serão iluminados, e do seu ardor serão aquecidos.» A carta dizia, em seguida, o desejo que tem Jesus de ver o seu Coração adorável cada vez mais glorificado e conhecido, e de espalhar os seus dons e as suas bênçãos sobre o mundo inteiro, a escolha feita de Leão XIII e o prolongamento dos seus dias com esse propósito, as graças que ele atrairia a si por isso. «Sinto-me indigna», dizia-se, «de comunicar tudo isto a Vossa Santidade.» Mas desculpava-se com a «ordem estrita» de Nosso Senhor.
Explicava-se então por que ele pedia a consagração do mundo inteiro e não apenas da Igreja católica. «O seu desejo de reinar, de ser amado e glorificado... é tão ardente que ele quer que Vossa Santidade lhe ofereça os corações de todos aqueles que, pelo santo batismo, lhe pertencem, para lhes facilitar o regresso à verdadeira Igreja, e os corações daqueles que ainda não receberam a vida espiritual pelo santo batismo, mas pelos quais ele deu a sua vida e o seu sangue, e que são chamados igualmente a ser, um dia, os filhos da santa Igreja, para apressar, por este meio, o seu nascimento espiritual.»
Seguiam-se instâncias prementes ao Papa para que desenvolvesse o culto do divino Coração: «Nosso Senhor não me falou diretamente senão sobre a consagração, mas... parece-me que lhe seria agradável que a devoção das primeiras sextas-feiras do mês fosse aumentada por uma exortação de Vossa Santidade ao clero e aos fiéis, assim como pela concessão de novas indulgências.» «Nosso Senhor», repetia ela, «não mo disse expressamente, como quando falou da consagração, mas creio adivinhar este ardente desejo do seu Coração, sem, contudo, poder afirmá-lo.»
A carta estava assinada: «Irmã Maria do Divino Coração Droste zu Vischering, superiora do mosteiro do Bom Pastor, no Porto.» Esta carta chegou ao Vaticano em 15 de janeiro. O Papa ficou comovido com ela. Encarregou o cardeal Jacobini de colher informações. Este dirigiu-se ao vice-reitor do grande seminário. Era precisamente o diretor da religiosa, aquele que lhe servira de secretário para a primeira carta ao Papa. A resposta foi que, por toda a parte, a consideravam uma santa, e que havia boas razões para acreditar em comunicações sobrenaturais.
A ideia, aliás, tinha agradado a Leão XIII, e em 12 de fevereiro, dizia ele a Monsenhor Isoard o seu pensamento de consagrar ao Sagrado Coração todas as dioceses, a Igreja, a humanidade. Mas ele não quis que o ato pontifício repousasse sobre bases contestáveis. O cardeal Mazzella, prefeito da S. C. dos Ritos, posto ao corrente de tudo, dizia ao Papa: «Esta carta é bem tocante, e parece bem ditada por Nosso Senhor. — Senhor cardeal, disse Leão XIII, pegue nela e coloque-a ali: ela não deve contar neste momento.»
O cardeal foi encarregado de examinar a questão em si mesma. Havia uma dificuldade. Como consagrar os infiéis que não são nem da Igreja, nem à Igreja? Um texto de São Tomás veio resolver a dificuldade. Sum. theol., IIIa, q. viii, a. 4. Explica-se aí que, se todos não são de Jesus e da Igreja quantum ad executionem potestatis, todos são dele quantum ad potestatem. Era aproximadamente o que dissera a religiosa. Mas a passagem de São Tomás era tópica, e encontrou lugar na encíclica.
Quando apareceu, no domingo de Páscoa, 8 de abril, o decreto da S. C. dos Ritos autorizando as ladainhas do Sagrado Coração e anunciando a consagração, o Papa teve a delicada atenção de fazer chegar dois exemplares, da sua parte, à Madre Maria do Divino Coração. Três dias antes da consagração, ela foi, como Margarida Maria, «abismar-se no Sagrado Coração». Ver Louis Chasle, Sœur Marie du Divin Cœur, née Droste zu Vischering, religieuse du Bon-Pasteur, 1863-1899, Paris, 1905, c. XI, onde se encontra tudo o que diz respeito à consagração do género humano ao Sagrado Coração.
O segundo desejo da Madre Maria do Divino Coração foi cumprido no mês que se seguiu à sua morte. Em 21 de julho, o prefeito da S. C. dos Ritos dirigia a todos os bispos, em nome do soberano pontífice, um premente convite a desenvolver o culto do Sagrado Coração pelas confrarias, pelo mês do Sagrado Coração, pelos exercícios das primeiras sextas-feiras.
4° Vida e desenvolvimento íntimo da devoção. Práticas e devoções conexas. Obras e associações em honra do Sagrado Coração. Intervenções da Igreja. — Aqui, como em toda a parte na vida da Igreja, os atos da autoridade foram preparados pelos desejos íntimos das almas, pelo amor e pelas obras. A devoção ao Sagrado Coração desabrochou numa multidão de práticas e de instituições, todas animadas pelo mesmo princípio: render ao Sagrado Coração o amor e a honra que lhe é devida, amá-lo e fazê-lo amar.
Ela mesma não é tanto uma prática ou um conjunto de práticas, mas um princípio de vida, uma alma para as práticas mais diversas. Muitas destas práticas já estão em germe nos escritos da B. Margarida Maria; muitas são indicadas nos primeiros tratados, como exercícios próprios da devoção. Frequentemente, organizam-se em instituições estáveis: Obra da adoração perpétua, Arquiconfrarias do Sagrado Coração, Apostolado da Oração, Arquiconfraria da Guarda de Honra, Arquiconfraria de Oração e Penitência, Comunhão Reparadora, Coração Agonizante, Mês do Sagrado Coração, as peregrinações, as nove sextas-feiras e práticas das primeiras sextas-feiras, imagens e escapulários do Sagrado Coração, etc.
A maior parte destas práticas e destas instituições tem uma história, por vezes muito interessante, como o mês do Sagrado Coração; há algumas que se reclamam de uma origem sobrenatural, como a arquiconfraria de oração e penitência. Ver Le règne du Sacré-Cœur, t. II; a maior parte delas aí é revista. Às vezes, são novas devoções que se desenvolvem ao lado da grande devoção ou que tentam a ela se vincular. Assim, a devoção ao Coração agonizante de Jesus, ao Coração eucarístico, a Nossa Senhora do Sagrado Coração.
São obras ou instituições que delas emergem como a flor, ou que vêm se organizar ao seu redor como sob o abrigo de uma grande árvore. Estas também são quase inumeráveis. E, para limitar-nos às congregações religiosas, a lista seria longa daquelas que se reclamam do Sagrado Coração, seja seu objeto principal honrar este Sagrado Coração, ou seja a devoção ao Sagrado Coração para elas um dos grandes meios de atingir seu fim especial. Um grande número delas até tomou seu nome.
Encontro os nomes seguintes no Kirchenlexikon: No início do século XIX, a Sociedade do Sagrado Coração de Jesus (paccanaristas); os Padres do Sagrado Coração de Issoudun, 1854; os Padres auxiliares do Sagrado Coração de Bétharram, 1841; os Padres dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, ditos Padres de Picpus; as Damas do Sagrado Coração, 1801; as Servas do Sagrado Coração, 1866; as Irmãs dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, ditas do Espírito Santo; as Irmãs do Coração de Jesus e de Maria (Récaubeau); as Filhas dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria (Amiens); as Irmãs dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria (Portrieux). E falta muito para que a lista seja completa.
Nela faltam nomeadamente: as Sociedades do Coração de Jesus e do Coração de Maria, fundadas pelo Pe. de Clorivière; os padres do Coração de Jesus, de Pontigny, e os beneditinos pregadores dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, ditos da Pierre-qui-vire; os Padres do Sagrado Coração, de Saint-Quentin, as Oblatas do Sagrado Coração, a Sagrada Família do Sagrado Coração, e quantos outros! Tudo isto nos mostra quão viva é a devoção, e quão rica. Há mesmo aqui, como em toda parte, perigo de excesso. E a Igreja interveio frequentemente para pôr em guarda contra a comichão de inventar uma devoção nova. Mas ela encorajou mais vezes ainda do que reprimiu. Quando uma prática provou o seu valor, ela intervém para aprová-la, para enriquecê-la com indulgências, etc. O que, diga-se de passagem, deve nos pôr em guarda contra a tendência de não estudar a devoção apenas nos documentos oficiais ou mesmo unicamente nos documentos litúrgicos. Sem querer enumerar todos esses documentos — há para todas as obras organizadas, para muitas orações e práticas — um olhar sobre aqueles que servem para melhor compreender algum aspecto da devoção. Ver-se-á que os documentos restritivos ou explicativos representam uma boa parte.
1. Imagens e escapulários do Sagrado Coração. — A B. Margarida Maria via ora o coração sozinho, ora o coração no peito do Salvador ou um pouco fora. As imagens tiveram a mesma diversidade. As primeiras foram corações separados; e é a uma imagem deste gênero que foram rendidas as primeiras honras, em Paray, em 1685. Margarida Maria trazia uma sobre o seu coração, e ela recomendava a mesma prática como muito agradável ao Sagrado Coração. Na peste de Marselha, em 1720, Madeleine Rémusat foi inspirada a espalhar uma pequena imagem contendo um coração com a inscrição: Pára! o Coração de Jesus está aqui. Esta imagem fez maravilhas e chamaram-na de salvaguarda. Desde então, foi difundida em circunstâncias semelhantes, por exemplo, em Amiens, durante a peste de 1766. Pouco a pouco, tomou grande extensão, e Pio IX a ela apôs indulgências, 28 de outubro de 1872.
Desde que Leão XIII mostrou no Sagrado Coração um novo lábaro, há uma combinação da cruz e do Coração, com a inscrição: In hoc signo vinces. Chama-se frequentemente a imagem antiga de Pequeno escapulário do Sagrado Coração. Mas não é o escapulário propriamente dito. Este, chamado às vezes de escapulário de Pellevoisin, data de 1875 ou de 1876. Foi enriquecido com indulgências, mas Roma explicou que as indulgências dadas ao escapulário não implicam aprovação dos fatos sobrenaturais aos quais se vincula. Decreto do Santo Ofício, 3 de setembro de 1904. Desde 1900, são os oblatos de Maria Imaculada que têm poder para dar este escapulário, ligeiramente modificado, e tornou-se, creio, como o escapulário de Montmartre.
Vê-se que a Igreja continua a admitir a imagem do Coração separado. Mas explicou, em 1891, que esta imagem, permitida à devoção privada, não deve ser exposta à veneração pública sobre os altares. É evidente, aliás, e este ponto também foi explicado, que não há imagem do Sagrado Coração, se o coração não estiver visível. O Sagrado Coração oferecido pela Igreja ao culto público é, portanto, Jesus mostrando seu coração.
2. O Coração de Jesus penitente ou o Coração penitente de Jesus; o Coração misericordioso. — A Igreja aprovou e enriqueceu com indulgências a Arquiconfraria de oração e de penitência em união ao Coração de Jesus; mas condenou o título: Coração penitente de Jesus; Coração de Jesus penitente por nós; Jesus penitente; Jesus penitente por nós. Decreto do Santo Ofício, 15 de julho de 1893. Este decreto se vincula a um conjunto de atos da Santa Sé contra um pequeno grupo de obstinados estabelecidos em Loigny, que, apesar de condenações múltiplas, continuavam a imaginar e a publicar revelações do Coração de Jesus penitente. Ver conjunto dos atos desde 1888 até 1894, nos Analecta ecclesiastica, 1894, t. II, p. 291-301.
Pode-se sem dúvida dar a este título um sentido justo e verdadeiro, e ele foi empregado algumas vezes; mas, em si, é equívoco ou inexato, pois a penitência implica o arrependimento e a detestação das próprias faltas. O título de Coração misericordioso não tem o mesmo inconveniente. Foi, contudo, desaprovado em 1875, porque se pretendia substituí-lo pelo de Sagrado Coração. Ver Acta S. sedis, t. XI, p. 531.
3. O Coração eucarístico de Jesus. — Desde há alguns anos, a Igreja aprova e enriquece com indulgências orações e práticas em honra do Coração eucarístico. Há mesmo em Roma uma arquiconfraria sob este título. Mas houve primeiro resistências, e foram necessárias explicações. Em 1891, um decreto do Santo Ofício desaprovava os emblemas do Sagrado Coração na eucaristia, isto é, na prática, as hóstias com imagem do Sagrado Coração. Já basta, dizia o decreto, das imagens do Sagrado Coração recebidas e aprovadas na Igreja; e explicava que o culto do Sagrado Coração na eucaristia não é mais perfeito que o culto da eucaristia, nem diferente do culto do Sagrado Coração. A este decreto, como ao do Coração penitente, como a muitos outros, a S. C. juntou o aviso de 13 de janeiro de 1873, contra a mania de inovar e de inventar devoções novas: há nisso um perigo para a fé, e isso dá aos incrédulos ocasião de gritar.
4. Culto e imagem de Nossa Senhora do Sagrado Coração. — Sabe-se a extensão que tomou o culto de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Issoudun. A Igreja interveio duas ou três vezes para regulá-lo. Em 1875, um decreto do Santo Ofício explicava que não se pode atribuir à Santíssima Virgem nenhum império propriamente dito, nenhuma autoridade sobre o Coração de Jesus.
Sob o benefício desta explicação, o título é admitido; mas desaprova-se a imagem onde Jesus está de pé diante de Maria; quer-se que a criança esteja nos braços de sua Mãe. Tolera-se a própria estátua de Issoudun, mas não as reproduções. Decreto do Santo Ofício, 3 de abril de 1895.
5. Vida e irradiação social da devoção: Recurso e homenagem. Os povos e o Sagrado Coração, A França e o Sagrado Coração. — A B. Margarida Maria havia pedido, em nome do Sagrado Coração, uma homenagem solene do rei e da corte. Esta homenagem não foi prestada então. Mas os católicos franceses retomaram a ideia desde 1870 e mantêm a esperança de que a nação fará um dia o que o rei não fez.
A esta ideia de homenagem, a Bem-aventurada unia outra, a do Sagrado Coração como refúgio e salvação nas calamidades públicas. Esta entrou rapidamente em circulação. Vimos Marselha, em 1720 e 1722, recorrer assim a este Coração misericordioso; outras cidades fizeram o mesmo. Mais tarde, vemos outros grupos agirem da mesma forma. A elite dos católicos da França o fazia durante a Revolução. Recorriam instantemente ao Sagrado Coração, e a ideia se havia espalhado entre eles de que não havia salvação senão ali.
Disse-se que Luís XVI, já prisioneiro, teria, em 10 de fevereiro de 1792, obtido permissão para entrar na Notre-Dame de Paris, com sua família, e se teria consagrado ao Sagrado Coração, ele, sua família e seu reino. Ver Messager du Sacré-Cœur, abril de 1881, t. XXXIX; Letierce, Le Sacré-Cœur, p. 387.
Em 1815, Ami de la religion publicava uma bela oração, e um voto que o rei cativo teria feito em 1792, onde prometia, entre outras coisas, se voltasse a ser o senhor, ir a Notre-Dame de Paris, "dentro de três meses a contar do dia de sua libertação... e ali pronunciar..., nas mãos do celebrante, um ato solene de consagração ao Sagrado Coração, com promessa de dar a todos os seus súditos o exemplo do culto e da devoção que são devidos a este Coração adorável." Davam-se detalhes precisos sobre a proveniência das duas peças, oração e voto: vinham do Sr. Hébert, geral dos eudistas, confessor do rei; o abade que as havia entregue ao jornal era designado por iniciais transparentes, e garantia tê-las do próprio Sr. Hébert; o jornal acrescentava que estas peças já haviam sido publicadas "em uma coletânea de orações impressa sem nome de ano". Ami de la religion, t. II, p. 77-80.
Desde então, escreveu-se muito sobre este assunto; eu não ousaria dizer que a questão esteja elucidada. Cf. Messager du Sacré-Cœur, t. XXXIX; Letierce, loc. cit., p. 389. É certo ao menos que, na própria época, acreditava-se "que o rei, para obter de Deus sua libertação e a de sua família, havia feito voto de pedir ao papa... que quisesse instituir como festa solene para todo o seu reino a festa dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria". Relação inédita do abade Boulangier, citada por H. Fouqueray, Études, 20 de outubro de 1905, t. CV, p. 163.
É certo também que se falava, entre os cativos do Templo, do Sagrado Coração e da consagração da França ao Sagrado Coração de Jesus. Um inventário dos objetos encontrados pelos delegados da Convenção indica-o claramente; assinala uma imagem do Coração de Jesus e do Coração de Maria, uma folha impressa de 4 páginas intitulada: Consagração da França ao Sagrado Coração de Jesus, e dá um extrato muito belo do ato de consagração. Ver Beauchesne, Vie de Madame Elisabeth, t. II, p. 122. Cf. Letierce, loc. cit., p. 440.
Os testemunhos abundam sobre este recurso geral ao Sagrado Coração durante a Revolução. Sabe-se que os soldados vendeanos portavam ostensivamente uma pequena imagem bordada do Sagrado Coração. Vitória de Saint-Luc, uma das últimas vítimas do Terror, foi guilhotinada em Quimper por ter confeccionado essas pequenas imagens. O Pe. Lanfant, uma das vítimas de setembro, fala, em uma de suas cartas, de abril de 1791, de milagres atribuídos à imagem. Diz em outra parte que um único convento de Paris distribuiu cento e vinte e cinco mil, e que "as cabeças mais ilustres, as cabeças até coroadas, estão munidas deste piedoso escudo". Escreve ainda: "A devoção ao Coração faz grandes progressos... É considerada como devendo ser a salvação do império. Não é, sem dúvida, uma verdade de fé, mas a piedade se nutre desta ideia." Detalhes semelhantes abundam sob sua pena. Ver H. Fouqueray, Le Père Lanfant, em Études, 20 de outubro de 1905, t. cv, p. 162-163. Estas imagens excitaram o furor dos jacobinos, que viam ali um sinal de rali contra a República. Ver informações curiosas a este respeito, em Études, loc. cit., p. 162-164.
O século XIX nos mostra muito exemplo semelhante de recurso ao Sagrado Coração nas calamidades públicas. Quantas consagrações, quantos votos ao Sagrado Coração durante a guerra de 1870-1871! A esta ideia de recurso associou-se quase sempre a de arrependimento, de reparação e de desagravo. Depois de 1871, junta-se a ela, na França, a de reerguimento pelo Sagrado Coração. Basta recordar a igreja do Voto nacional em Montmartre, com sua inscrição Gallia penitens et devota; recordar a consagração feita em Paray em 1873 por um grupo de deputados católicos, enquanto se aguardava a consagração nacional.
Paray e Montmartre, Montmartre sobretudo, iriam tornar-se um foco vivo de devoção ao Sagrado Coração. Quantas ideias ali germinaram ou desabrocharam, de dedicação ao Sagrado Coração e de reerguimento por este Sagrado Coração! Quantas obras saíram de lá, ou vão ali se retemperar!
Depois da ideia de reerguimento pelo Sagrado Coração, vinha a ideia de homenagem ao Sagrado Coração, homenagem dos indivíduos, homenagem sobretudo dos grupos sociais, enquanto se aguardava a homenagem solene da própria nação. Uma das formas deste recurso ou desta homenagem foi a bandeira do Sagrado Coração. O Sagrado Coração a havia pedido ao rei por meio de Margarida Maria. A França católica do século XIX sonhou, aqui também, em retomar a herança do passado, caída em desuso. Sabe-se como a imagem do Sagrado Coração serviu de bandeira em Patay e quão gloriosamente foi portada, em 1870, pelos zuavos de Charette. Não era a bandeira nacional, mas a preparava, e talvez dela tenha dado a ideia. Esta, a bandeira tricolor com o Sagrado Coração na faixa branca, fez sua aparição em Montmartre em 29 de junho de 1890. Era portada por uma delegação do Sindicato dos empregados do comércio e da indústria.
Desde então, foi adotada por um número de associações particulares, e os olhos dos franceses piedosos habituaram-se pouco a pouco a ver a imagem do Sagrado Coração destacar-se em púrpura sobre o fundo branco da bandeira tricolor. Ver René du Bouays de la Bégassière, Le drapeau national du Sacré-Cœur, Paris, s. d.
Não se trata de confiscar o Sagrado Coração em proveito da França. Sabemos bem que o Sagrado Coração é para todos. Mas como o Tirol se distinguiu pela sua consagração em 1796 e pela sua devoção ao Sagrado Coração, como o Equador lhe fez a sua consagração solene em 1873, por que não haveriam os franceses de guardar a esperança de que a França, tornada cristã novamente, seria a França do Sagrado Coração e, fiel à sua missão de proselitismo, faria irradiar por toda parte o Sagrado Coração? Estas ideias e aspirações, vivas nas almas dos católicos franceses, deram à devoção um caráter social muito marcado. O reinado social do Sagrado Coração está agora nas perspectivas das almas católicas. Ver visões muito penetrantes e informações precisas a este respeito em René du Bouays de la Bégassière, *Notre culte catholique et français du Sacré-Cœur*, Lyon, 1901.
E isso, não apenas na França, mas um pouco por toda parte. Para não falar senão dos católicos alemães, eles falam frequentemente, nos seus congressos gerais anuais, do Sagrado Coração e do seu reinado nas famílias e na sociedade. Ver em Nix, p. 85, as recomendações do 47º congresso a este respeito em 1900. A encíclica de 25 de maio de 1899 está cheia destas ideias do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo pelo Sagrado Coração.
I. FONTES E REPERTÓRIOS. — Antes de tudo, as vidas ou escritos das personagens das quais se tratou no artigo. Como recolhas ou compilações: Dufau, *Trésor du Sacré-Cœur de Jésus*, ou *Recueil d'extraits de l'Ecriture, des saints Pères, etc.*, dispostos em ordem alfabética, 8 vol., Bruxelas, 1840-1850; esta ordem alfabética atrapalha mais do que ajuda; Granger, *Les archives de la dévotion au Sacré-Cœur de Jésus et au Saint-Cœur de Marie*, Ligugé, 1893, 1896; largos extratos de Santa Mechtilde, de Santa Gertrudes, da B. Margarida Maria; *Le règne du Cœur de Jésus ou la doctrine complète de la B. Marguerite-Marie sur la dévotion au Sacré-Cœur*, por um padre oblato de Maria Imaculada, capelão de Montmartre (o Pe. Jenyeux), 2ª ed., 5 vol., Paris, 1899, 1900, contém, com a doutrina da Bem-aventurada, muitos outros documentos ou indicações, mas sem preocupação nem rigor científico; Nilles, *De rationibus festorum SS. Cordis Jesu et purissimi Cordis Mariæ*, 5ª ed., 2 in-8°, Innsbruck, 1885, repertório rico e cômodo, onde se encontram os atos oficiais da Igreja desde Inocêncio XII até Pio IX inclusive, os ofícios litúrgicos e muitas outras orações, uma lista das obras escritas em diversas línguas sobre o Sagrado Coração, infelizmente sem as datas e sem outra indicação que não o título por ordem alfabética.
Pode-se acrescentar, por causa dos numerosos documentos que contém, J. de Gallifet, *De cultu SS. Cordis Dei et Domini Nostri Jesu Christi*, Roma, 1726, ao qual é preciso juntar as *Nove observationes pro concessione officii et misse SS. Cordis Jesu*, Roma, 1728. A obra foi traduzida para o francês e aumentada sob o título: *L’excellence de la dévotion au Cœur adorable de Jésus-Christ*, Lyon, 1733; reedição, com peças novas, em 1743, dedicada a Bento XIV. Frequentemente reeditada, mas raramente com todas as peças. As nossas remissões são à pequena edição de Paris, 1861.
Os periódicos tratando do Sagrado Coração ou de alguma devoção ou obra a ele relacionada. O mais rico é o *Messager du Cœur de Jésus* (mensal), Toulouse, desde 1861 até 1901; Tournai, desde 1901; é o órgão central do Apostolado da Oração, e está em relação estreita com uma trintena de outros *Messagers*, órgãos da mesma associação no mundo inteiro. Ver a lista destes periódicos (até 1885) em Nilles, t. II, part. II, t. 1, p. 517-519.
Como repertórios bibliográficos, além de Nilles, *loc. cit.*, t. II, p. 517-642, pode-se indicar *Ami du clergé*, tabelas, na palavra Sagrado Coração; os *Etudes*, tabelas 1856-1880, 1888-1900, na palavra Sagrado Coração.
II. DEVOÇÃO EM GERAL. — Para a teologia da devoção, inútil indicar tudo. Ver Nilles, *loc. cit.* Eis, por ordem de tempo, as obras que parecem merecer uma menção especial: Jean Croiset (1656-1738), *La dévotion au Sacré-Cœur de Jésus-Christ*, por um Padre da Companhia de Jesus, Lyon, 1691. É a primeira obra de fundo sobre o Sagrado Coração; foi vista e aprovada em grande parte pela B. Margarida Maria; frequentemente reeditada até que fosse colocada no *Index* em 1704; foi de lá retirada em 1887. Nova edição segundo a 3ª de Lyon, 1694, em Montreuil-sur-Mer, 1895, pelo Pe. de Franciosi; é a ela que remetemos. Ela é seguida, com paginação nova, do *Abrégé de la Vie de la sœur Marguerite-Marie Alacoque, religieuse de la Visitation Sainte-Marie*, etc.; a edição de 1694 não dava o nome.
Nicolas Bouzonié (1645-1726), *Entretien de Théotime et de Philothée sur la dévotion au Sacré-Cœur de Jésus*, Poitiers, 1698; reeditado, Montreuil, 1899, pelo Pe. de Franciosi.
François Froment, *La véritable dévotion au Sacré-Coeur de Jésus-Christ*, pelo Pe. da Companhia de Jesus, Besançon, 1699. O Pe. Froment tinha vivido em Paray e conhecido a B. Margarida Maria; a sua obra estava, ao que parece, escrita antes da do Pe. Croiset; a Bem-aventurada que o tinha estimulado primeiro, viu depois em Croiset o eleito de Deus. Como a de Croiset e a de Bouzonié, como mais tarde a de Galliffet e a dissertação de Languet, explica muito bem a devoção. Fica-se espantado com esta justeza e com esta precisão em obras de desbravamento. Foi reeditada em Bruxelas em 1891.
Em Pont-à-Mousson, um jesuíta publicava desde 1699 uma *Instruction pour la dévotion au Sacré-Cœur*, que contém a maneira como esta devoção se estabeleceu, o método de a praticar e algumas orações que lhe são particulares.
Em 1741, Simon Gourdan (1646-1729), cônego de São Vítor, dava ao cardeal de Noailles uma carta sobre o Sagrado Coração, que foi inserida em várias recolhas do século XVIII sob o título: *Eloge de la dévotion au Sacré-Cœur de notre adorable Sauveur Jésus-Christ*. Extratos em *Ami de la religion*, 1822, t. XXXI, p. 20; análise em Letierce, t. 1, p. 120.
Cita-se ainda dele: Instruction et pratique pour la dévotion au Sacré-Cœur de Jésus; Le cœur chrétien formé sur le Coeur de Jésus.
Na Alemanha, o Pe. Joseph Waldner dava em Estrasburgo, desde 1728, Das Buch des Lebens, onde representava o amor infinito do Salvador Jesus, a fim de inflamar os homens a um perfeito amor de retorno e conduzi-los a uma vida perfeita, pelo culto do santíssimo e diviníssimo Coração de Jesus (tudo isto está no título). Em 1730, aparecia em Mannheim Relatio compendiosa de origine et scopo pietatis erga SS. Cor Jesu, in usum Serenissimi Philippi, electoris Palatini.
Um daqueles cujas obras fizeram muito pela difusão do culto na Alemanha foi o Pe. Schauenburg. Tem-se dele, entre outras, Das liebenswürdigste Herz Jesu, Ulm, 1760, reeditado pelo Pe. Hattler, Soest. Não é, creio, senão uma tradução do seu Amabilissimum Cor Jesu Dei-Hominis ad amandum et redamandum propositum, Munique, 1756.
Com as confrarias e as associações da adoração perpétua em honra ao Sagrado Coração, os livros de devoção ao Sagrado Coração multiplicaram-se desde o século XVIII. Assinalo, por exemplo, Le parfait adorateur du Sacré-Cœur de Jésus, ou Exercice très nécessaire pour les associés de la dévotion du Sacré-Coeur de Jésus, por Gabriel-Fr. Nicollet, humílimo adorador do Sagrado Coração de Jesus, Paris, 1765. É todo um manual de vida cristã e de oração, animados pela devoção ao Sagrado Coração. Nota-se ali, em particular, uma Instruction très substantielle sur la nature et les pratiques de la dévotion, p. 43 e seguintes.
Entre estes livros de devoção ao Sagrado Coração, distinguem-se a Novena del Cuore di Gesù de santo Afonso de Ligório, com uma Notizia della divozione verso il Cuore adorabile di Gesù, que o santo apresentou a Clemente XIII em 1765, com vistas a obter a festa, e a Novena in preparazione alla festa del Sacro Cuore di Gesù Christo, do P. Borgo, Ferrara, 1786. As visitandinas publicaram, no século XVIII, número de opúsculos de piedade para o uso das confrarias do Sagrado Coração estabelecidas nos seus mosteiros. Ver uma lista em Letierce, t. 1, p. 619-620; lista das obras publicadas por jesuítas antes de 1800, ibid., t. II, p. 548.
Quando a festa foi concedida e os bispos da França a admitiram na assembleia de 1765, muitos bispos fizeram mandamentos para explicá-la. Alguns desses mandamentos restaram, frequentemente por terem sido incorporados a livros de devoção. Cita-se em particular o de Mre de Pressy, Instruction dogmatique et pratique pour la solennité de l'établissement de la fête et de l'office du Sacré-Cœur dans tous les diocèses de France, 1766. Isso deu lugar a novos livros, como Collet, La dévotion au Sacré-Cœur de Jésus établie et réduite en pratique, Paris, 1770.
Contudo, a devoção era atacada com uma violência inaudita. Ver em Nilles, loc. cit., Index, e t. IV, part. III, aos verbetes: Nouvelles ecclésiastiques, Annali ecclesiastici, Blasi, Georgi, Grégoire, Wittola, Huber, Pannilini, Fassini, Fleury, Tabaraud, Ricci, Lettera (aos livros italianos), Lettre (aos livros franceses), todos os livros enfim precedidos de um asterisco. Era preciso defendê-la e defendeu-se explicando-a. Os autores citados já o fazem. Pode-se juntar a eles vários bispos nos seus mandamentos.
Um deles fez mais: é Mons. de Fumel, bispo de Lodève (+ 1790); além de uma carta pastoral sobre a Dévotion au Sacré-Cœur de Jésus, publicou: Le culte de l'amour divin, ou La dévotion au Sacré-Cœur de Jésus, avec des réponses aux objections, Paris, 1774; 2 vol., 1776. Com Fumel pode-se citar como clássicos na matéria, contra Blasi e Georgi, Benoit Tetamo, De vero cultu et festo sanctissimi Cordis Jesu adversus Camilli Blasii commonitoriam dissertationem apologeticum, Veneza, 1772, com um apéndice, que apareceu no ano seguinte, Refutatio Antirrhetici Christotimi Ameriste; J.-B. Faure, Biglietti confidenziali critici, Veneza, 1772; Saggi teologici, Lugano, 1773; Fr. Zaccaria, Antidoto contra i libri di C. Blasi intorno la divozione al S. Cuore di Gesù, Florença, 1773; Ferdinand Tetamo, Diarium liturgico-theologico-morale, Veneza, 1779; Emm. Marquez, Defensio cultus SS. Cordis Jesu injuria oppugnati, Veneza, 1781; Lud. Mozzi, Il culto dell’ amor divino, Bolonha, 1782; tradução, aumentada e adaptada, de Fumel.
Em 1794, quando Pio VI condenou Ricci pela bula Auctorem fidei, proposit. 62 e 63, Feller, muito mal inspirado desta vez, explicou mal a questão do Sagrado Coração; foi refutado pelo cardeal Gerdil, Animadversiones in notas Felleri, Roma, 1797, em Migne, Cursus theologiæ, t. IX, col. 925 e seguintes; Id., Sulla devozione del Cuore di Gesù, em Œuvres, Florença, 1849, t. VI, p. 567-597. Um pouco mais tarde, Muzzarelli tentava precisar ainda mais: Dissertazione intorno alle regole da osservarsi nel parlare e scrivere con esatezza e con proprieta sulla divozione e sul culto dovuto al Sacro Cuore di Gesù, Roma, 1806; trad. francesa, sob o título: Dissertation sur les règles qu’on doit observer pour parler et écrire avec exactitude sur la dévotion et le culte du Sacré-Cœur de Jésus-Christ, Avinhão, 1826.
No século XIX, a questão do Sagrado Coração entrou na teologia corrente: os teólogos deram-lhe um lugar nos seus tratados De Verbo incarnato. Perrone é, segundo o meu conhecimento, o primeiro que o fez; foi geralmente seguido. Ver por exemplo, os tratados De Verbo Dei incarnato de Jungmann, de Franzelin, de Stentrup, de Billot, etc. Desde então, os tratados sobre o Sagrado Coração multiplicaram-se ao infinito. Entre aqueles que melhor precisaram a teologia da devoção, pode-se assinalar, além de Nilles: J. Bucceroni, Commentarii in cultum SS. Cordis Jesu, Paris, 1880; Leroy, De Sacratissimo Corde Jesu ejusque cultu tractatus philosophicus, historicus, dogmaticus et asceticus, Liège, 1882; Martorell et Castella, Theses de cultu SS. Cordis Jesu; J. Nix, Cultus SS. Cordis Jesu, et purissimi Cordis B. V. Mariæ, 3ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1905; J. Thomas, Théorie de la dévotion au Sacré-Cœur; J.-B. Terrien, La dévotion au Sacré-Cœur de Jésus, d’après les documents authentiques et la théologie, Paris, 1893, etc.
III. PONTOS ESPECIAIS.
1º Imagens.
— Grimoillard de Saint-Laurent, *Les images du Sacré-Cœur au point de vue de l'histoire et de l'art*, Paris, 1880; Paranque, *La dévotion au Sacré-Cœur de Jésus, étudiée en son image*, Paris, 1901; Hattler, *Die bildische Darstellung des göttlichen Herzens Jesu*, 2ª ed., Innsbruck, 1894.
2º Promessas e práticas. — A. Hamon, *Le texte de la grande promesse du Sacré-Cœur*, em *Études*, 20 de junho de 1903, t. xcv, p. 854; X. M. Le Bachelet, *La grande promesse du Sacré-Cœur*, *ibid.*, 5 de agosto de 1901, t. LXXXVIII, p. 885, com bibliografia; A. Vermeersch, *La grande promesse du Sacré-Cœur*, Paris, 1903; Frécenon, *Les promesses du Cœur de Jésus*, 1898; Franciosi, *Promesses de N.-S. Jésus-Christ*, Montreuil-sur-Mer, 1895; A. Guillaume, *Les promesses du Sacré-Cœur*, Bruxelas, 1900; A. Boudinhon, *Les neuf premiers vendredis*, na *Revue du clergé*, 1908, t. XXXVI, p. 118; Me Dubois, *Le culte du Sacré-Cœur*, *ibid.*, 1908, t. XXXIV, p. 646.
3º Questões científicas e polêmicas sobre o papel do coração. — Jungmann, *Fünf Sätze zur Erklärung der Andacht zum hl. Herzen Jesu*, Innsbruck; *Id.*, *Die Andacht zum hl. Herzen Jesu*, Friburgo em Brisgóvia; Riche, *Le cœur de l'homme et le Sacré-Cœur de Jésus*, Paris, 1878; *Id.*, *Les fonctions de l'organe cardiaque dans les phénomènes de la sensibilité affective*, Paris, 1879; Ramière, *La dévotion au Cœur de Jésus et la physiologie*, em *Études*, 1874, t. XXXI, p. 481 e seguintes, 801 e seguintes; Babaz, *Entretiens philosophiques et psychologiques à propos du Sacré-Cœur de Jésus*, em *Études*, 1874, t. XXXI, p. 349 e seguintes; H. de Bigault, *L’objet principal de la dévotion au Sacré-Cœur d'après les données de la physiologie*, em *Études*, 1870, t. XXIV, p. 283.
4ª Questões diversas. — Chevalier, Le Sacré-Cœur de Jésus dans ses rapports avec Marie, étudié au point de vue de la théologie et de la science moderne, ou Notre-Dame du Sacré-Cœur, Paris, 1883; 1886; Ramière, Le règne social du Cœur de Jésus, Toulouse, 1893. Muitas brochuras ou artigos de atualidade neste sentido. Ver sobretudo R. de la Bégassiére, op. cit.
IV. HISTÓRIA DA DEVOÇÃO. — Esta história não está feita. Elementos em Galliffet, em Nilles, em Franciosi, em Etcheverry, em Thomas, já citados, e também em Daniel e em Bougaud (abaixo); sobretudo em V. Alet, La France et le Sacré-Coeur, 3ª edição, Paris, 1889.
Em geral, E. Letierce, Etude sur le Sacré-Coeur, 2 vol., Paris, 1890, 1891; ele ocupa-se sobretudo do que fizeram a Visitação e a Companhia de Jesus, mas fornece também informações gerais. Muitas pesquisas, mas não é sempre seguro; falta precisão na indicação das fontes. Id., Le Sacré-Coeur, ses apôtres et ses sanctuaires, Nancy, 1886, muitas informações úteis; Baruteil, Genèse du culte du Sacré-Coeur de Jésus, Paris, 1904; Nix, op. cit., c. I, p. 1-36 (bom pequeno resumo).
Para os precursores de Margarida Maria, dom Boutrais, Un précurseur de la B. Marguerite-Marie, Lansperge le chartreux et la dévotion au Sacré-Coeur, Grenoble, 1878; ver também, Mois du Sacré-Coeur, d'après d’anciens auteurs chartreux, 4ª edição, Montreuil, 1886; Ancient Devotions to the Sacred Heart by Carthusians Monks of the 14-17th centuries, Londres, 1896; sobre outro precursor, ver Revue bénédictine, julho de 1905; sobre o Pe. Eudes e Margarida Maria, Le Doré, Le P. Eudes, premier apôtre des SS. Coeurs de Jésus et de Marie, Paris, 1870; cf. Bouvier, Etudes, 1892, t. LVI, p. 134. Ver também Tournier, Marie de Valernod, Une page d'histoire de la dévotion au Sacré-Coeur, nos Etudes, 1899, t. LXXIX, p. 734.
Para a B. Margarida Maria, acima de tudo, Vie et oeuvres de la B. Marguerite-Marie, editadas pelas religiosas da Visitação de Paray, 2 vol., Paris, 1867; 2ª edição, com algumas adições, 1876; a não correspondência das páginas entre as duas edições deve-se sobretudo à disposição tipográfica e ao sistema de paginação. É preciso juntar-lhe as Lettres inédites, Toulouse, 1890, série de 10 cartas escritas pela Bem-aventurada ao Pe. Croiset de 14 de abril de 1689 a 21 de agosto de 1690. Estas cartas lançam uma nova luz sobre a Bem-aventurada e sobre as origens da devoção; doravante sabemos que as cartas da Bem-aventurada, das quais o Pe. Croiset cita longos extratos em seu Abrégé, eram endereçadas ao próprio Pe. Croiset e não, como tinham crido as visitandinas, ao Pe. Rolin.
La vie de la vénérable Mère Marguerite-Marie, pelo Mons. Jean-Joseph Languet, 1729. Até a publicação das visitandinas em 1867, foi, com o Abrégé de Croiset, já citado, e o Mémoire autographe publicado (não sem modificações de estilo, como era o costume), pelo Pe. de Galliffet, a fonte principal. No início, um belo discurso preliminar sobre as vidas milagrosas dos santos e particularmente sobre a da venerável Madre Margarida. Magnífica reedição, com adições pelo Sr. abade (agora Mons.) Gauthey, Paris, 1890; encontra-se ali um Appendice bibliographique, onde são enumeradas as obras sobre a Bem-aventurada, p. 623-646.
Entre essas obras destacam-se: Ch. Daniel, Histoire de la B. Marguerite-Marie... et des origines de la dévotion au Sacré-Coeur, Paris, 1865; Cucherat, Histoire populaire de la B. Marguerite-Marie Alacoque, Autun, 1865; 2ª edição, Grenoble, 1870; Bougaud, Histoire de la B. Marguerite-Marie et des origines de la dévotion au Sacré-Coeur, Paris, 1874. Sobre estas vidas e sobre a publicação das visitandinas, ver, além das apreciações de Mons. Gauthey, Les vies de la B. Marguerite-Marie, por A. Hamon, nos Etudes, 20 de junho de 1902, t. xci, p. 721. O Sr. Hamon forneceu ibid., junho e julho de 1904, uma série de artigos La B. Marguerite-Marie, portrait intime, cheios de visões novas e penetrantes. Ver também ibid., 5 de outubro de 1905. Ele anuncia, para janeiro de 1907, uma vida da Bem-aventurada, onde serão finalmente utilizados todos os recursos novos.
Para o Pe. de la Colombière, Oeuvres complètes, Grenoble, 1901, t. vi. Encontram-se ali suas Retraites spirituelles e sua correspondência com nota biográfica; Histoire du V. P. Claude de la Colombière, pelo Pe. Charrier, Paris, 1894. Nilles fornece os atos oficiais até Leão XIII exclusivamente. Para os decretos da S. C. dos Ritos, ver Collectio authentica decretorum S. R. C., índice, na palavra Cor sacratissimum Jesu, Roma, 1901, t. v, p. 129-130; para os atos do Santo Ofício, ver Bucceroni, op.
cit., os Analecta ecclesiastica, desde 1893, os Acta sanctae sedis. Para ter a ideia da maneira pela qual se desfigura a devoção e pela qual se traveste a sua história, pode-se ver Nilles, op. cit., Parergon, De finali triumpho SS. Cordis Jesu, t. I, p. 240 sq.
Tem-se a impressão direta lendo o abade Grégoire, Histoire des sectes religieuses, t. III, c. xx, nova edição, Paris, 1828, t. I, p. 244-292; Tabaraud, Des Sacrés-Coeurs de Jésus et de Marie, par un vétéran du sacerdoce, Paris, 1824; os artigos Sacré-Coeur, na Realencyclopädie für protestantische Theologie, t. v, p. 777 sq.
Para saber onde estava a devoção na França, entre 1815 e 1825, ler o Ami de la religion, 1819, t. xx, p. 247, La fête du Sacré-Coeur; 1819, t. xxi, p. 289; a propósito de um livro sobre o Sacré-Coeur, 1820, t. xxii, p. 337, 885; t. xxiii, p. 241: Sur l’établissement de la fête du Sacré-Coeur; 1822, t. xxxii, p. 17: Sur une brochure contre la fête du Sacré-Coeur.
Benoit XIV, De servorum Dei beatificatione et beatorum canonizatione, t. IV, part. II, c. xxx, n. 20-25, Prato, 1844, t. iv, p. 701, conta as démarches de 1726-1729, para obter a festa; Office du Sacré-Coeur, nos Analecta juris pontificii, Roma, 1860, 30ª entrega, t. ii, p. 12386, fornece os atos de 1697, com um resumo sobre as origens da devoção (cheio de inexatidões); Compendio storico della divozione all SS. Cuor di Gesu, 5ª edição, Roma, 1856, frequentemente citado por Nilles; Hattler, Geschichte des Festes und der Andacht zum Herzen Jesu, 2ª edição, Viena, 1875; Id., Zur Geschichte der Herz-Jesu-Andacht, em Der Katholik, 1885, t. lxv, p. 528, 638 sq.
Na edição de Languet, por Mons. Gauthey, os livros suplementares X-XII contêm, com a história póstuma de Margarida Maria, muitas informações sobre a história do culto do Sagrado Coração até 1889; mas ver sobretudo Alet, Franciosi, Letierce.
Autor original: J. Bainvel
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