AGEU (O LIVRO DE)

São Domingos

Após um estudo geral sobre o livro de Ageu, consagraremos um artigo especial à profecia do capítulo II, 7-10.

I. AGEU E SUA MISSÃO. — Ageu (hebraico: Haggai; Septuaginta: ’Ayyatoc; Vulgata: Aggæus), cujo nome poderia traduzir-se em latim por festivus ou, talvez melhor, por peregrinus, é um dos doze pequenos profetas. Não se sabe com certeza quase nada sobre a história de sua vida. Segundo uns, teria nascido na Judeia, antes do exílio, e teria visto com seus próprios olhos o templo de Salomão; segundo outros, nasceu um pouco mais tarde na Caldeia, de onde veio a Jerusalém em companhia de Zorobabel. Autores pensam saber que Ageu fez parte da grande sinagoga e que morreu em idade muito avançada, após o acabamento do segundo Templo. Tê-lo-iam sepultado com muita honra no local reservado à sepultura dos sacerdotes. Todas essas conjecturas repousam unicamente sobre tradições cujo valor é contestável.

O que o texto bíblico nos ensina de certo é que Ageu profetizou em Jerusalém e que os oráculos, dos quais se compõe seu livro, ocorreram em um espaço de quatro meses aproximadamente. Eis em quais circunstâncias: dezesseis anos haviam se passado desde o retorno do exílio e mal os judeus retornados de Babilônia haviam erguido o altar dos holocaustos e lançado as fundações do novo Templo. As perturbações dos samaritanos não eram a única causa dessa lentidão; havia ainda a indiferença religiosa. As coisas estavam assim quando, no segundo ano de Dario, filho de Histaspes (520), os profetas Ageu e Zacarias levantaram-se para fazer ouvir a Zorobabel, ao sumo sacerdote Josué e ao povo, palavras de reprovação e de encorajamento (I Esdras, IV, 24-V, 3). A reconstrução do Templo: tal foi o objeto da missão de Ageu.

Esta missão tinha um alcance considerável. O Templo era para os judeus, sobretudo após o exílio, o centro da vida religiosa e nacional. Enquanto não fosse reconstruído, não se podia pensar seriamente em reconstituir o culto e a cidade. O verdadeiro caráter, como também o futuro da restauração empreendida por Zorobabel, dependia, portanto, do zelo e da celeridade que o povo colocaria em levantar de suas ruínas o único edifício onde era permitido sacrificar a Jeová.

II. PROFECIA DE AGEU. — A profecia de Ageu divide-se naturalmente em quatro oráculos distintos, pronunciados em épocas muito próximas umas das outras:

1º No segundo ano de Dario, no primeiro dia do sexto mês (Elul = agosto-setembro), Ageu adjura publicamente Zorobabel e Josué a não tardar mais a prosseguir com diligência o levantamento do Templo. Que não se pretexte a falta de recursos, pois eles nunca faltam quando se trata de elevar casas lambrisadas. Apenas o santuário de Deus permaneceria em ruínas? A seca e a escassez são um justo castigo da indiferença do povo. No vigésimo quarto dia do mesmo mês, põem-se à obra sob a direção de Zorobabel, I, 1; 7, 2.

2º No vigésimo primeiro dia do sétimo mês (Tisri = setembro-outubro), o sétimo dia da solenidade dos Tabernáculos, novo oráculo; são palavras de encorajamento, especialmente endereçadas àqueles que, tendo visto o Templo de Salomão, não podem hoje considerar, sem chorar, as dimensões minguadas daquele que se reconstrói. Que saibam que a glória futura do Templo será bem superior à de outrora. O novo santuário não desaparecerá antes de ter visto realizar-se a promessa messiânica; de todos os pontos do mundo os povos trarão ali um dia o tributo de seus presentes, II, 1-9.

3º No vigésimo quarto dia do nono mês (Kislev = novembro-dezembro), o profeta faz aos sacerdotes duas perguntas sobre a pureza e a impureza legais, para ter a oportunidade de advertir o povo de que, enquanto o Templo não for reconstruído, Deus os tratará como pessoas impuras. Que se recordem dos flagelos que, recentemente ainda, atingiram os frutos da terra. O dia está próximo em que Deus espalhará suas bênçãos, II, 10-19.

4º No mesmo dia, Deus declara solenemente que, no tempo em que, fazendo justiça ao mundo inteiro, derrubará os tronos e quebrará a força dos poderosos, cf. II, 22, seus olhares pousarão com complacência sobre Zorobabel, de quem cuidará como um mestre faz do seu próprio selo, II, 20-23. Este último traço deve ser aproximado de I Crônicas, III, 17, e Jeremias, XXII, 24.

Sem ter o brilho de Isaías, a energia de Amós e de Joel, o estilo de Ageu não carece de pureza, nem mesmo de uma certa elegância. Sua prosa é cortada em pontos por esse paralelismo rítmico um pouco frouxo, do qual os profetas gostam de se servir. Algumas repetições, como esta: ponite corda vestra super vias vestras, I, 5, 7; II, 15, 18, traem uma língua bastante pobre, se, no entanto, não forem efeito de artifício oratório. Mas não se deve exagerar o alcance desta apreciação literária, feita sobre um trecho de tão pouca extensão.

É inútil prolongar-se em estabelecer a autenticidade e a canonicidade da profecia de Ageu, que nunca foram seriamente contestadas. Aliás, encontram-se testemunhos explícitos na própria Bíblia. Esdras 5,1; 6,14; Eclesiástico 49,13; cf. Ageu 1,24; Hebreus 12,26; cf. Ageu 2,7. O texto e as versões não exigem nenhuma observação especial.

III. COMENTÁRIOS. — S. Jerônimo, P. L., t. XXV, col. 1387-1416; Teodoro de Mopsuéstia, P. G., t. LXVI, col. 474-494; Teodoreto de Ciro, P. G., t. LXXXI, col. 1860-1874; S. Cirilo de Alexandria, P. G., t. LXXI, col. 1021-1063; Haimo de Halberstadt, P. L., t. CXVII, col. 211-221; Ruperto, P. L., t. CLXVIII, col. 683-700; Alberto Magno. — Todos os escolásticos da Renascença que forneceram um comentário contínuo dos profetas menores. Ribera, S. J. († 1591), e Sanctius, S. J. († 1628), merecem menção especial. Eles foram precedidos por Eckius, Comment. super Haggeum prophet., Seligenstadt, 1538; L. Reinke, Der prophet Haggai, in-8°, Munster, 1868; Knabenbauer, In proph. min., t. II, p. 174-210 (1886); Trochon, Les petits Prophètes, p. 373-391 (1895); Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, 1908, p. 538-576. Rosenmüller, Schol. in V. T., t. VII, p. 92, enumera os comentários protestantes publicados de 1550 a 1822. Convém acrescentar Köhler, Die Weissagung Haggai’s, Erlangen, 1860; Pusey, Comment. on the minor Prophets, Oxford, 1889, in-4°; Perowne, Haggai and Zechariah, in-12, 1888; Tony André, Le prophète Aggée, 1895.

A. DURAND.



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