ADÃO DE SÃO VÍTOR

Verbete sobre ADÃO DE SÃO VÍTOR na Enciclopédia Católica

6. ADÃO DE SÃO VITOR, poeta litúrgico falecido em 1177 ou 1192. Dispomos de pouquíssimas informações sobre sua pessoa e seus escritos. A tradição de São Vitor de Paris, onde viveu, não remonta a antes do século XIV. Por outro lado, as prosas de Adão parecem ter sido introduzidas no missal de Paris já durante o episcopado de Eudes de Sully, sem que, contudo, tenha se preservado qualquer registro desta importante inovação. É necessário, portanto, recorrer ao estudo dos manuscritos das obras e à crítica interna para determinar o que pertence, de fato, a Adão de São Vitor. As prosas nos foram conservadas por livros litúrgicos: 1) da abadia de Saint-Martial de Limoges, sem que se possa explicar bem o fato; estas são as fontes mais antigas: B.N. manuscritos latinos 778 (tropário do século XI), 4139 (coletânea de sequências dos séculos XII-XIII), 1086 (tropário do século XIII); 2) da abadia de São Vitor: B.N. lat. 14452 (gradual), 14819 (missal), do início do século XIV, etc.; 3) da igreja de Paris: B.N. lat. 15615, Arsenal 110, do século XII; nestes livros, nota-se variantes de redação e algumas supressões; 4) da abadia de Santa Genoveva, colônia dos vitorinos. Essas diversas coletâneas contêm peças que, certamente, não são de Adão. É preciso, pois, valer-se das características das sequências para julgar sua autoria.

No século XII, Adão é o representante mais ilustre de uma renovação da poesia litúrgica. Ela se desprende, então, da forma rítmica e bastante livre que lhe fora dada por Notker. Cada peça é dividida em estrofes de igual número de versos, e cada estrofe é repartida em semiestrofes simétricas. Raramente a peça começa e termina por uma semiestrofe, remetendo, assim, à disposição da sequência notkeriana. Os versos rimam conforme combinações variadas e fundam-se no princípio da contagem silábica. Não é proibido considerar essas mudanças, de origem francesa, como o efeito de um movimento literário cujo prolongamento se percebe na poesia em língua vulgar. Adão de São Vitor compartilha, aliás, com essa poesia, alguns de seus traços mais salientes: uma elegância polida, uma nitidez seca (descrição do «tempo claro e belo» em Mundi renovatio, para a Páscoa), um fôlego curto, uma graça um tanto infantil, a transparência sem profundidade; acrescentemos uma piedade doce e confiante. Os únicos refinamentos de tal poesia brotam de sua matéria, a mais fértil que existe em alegorias (o navio e a tempestade em Ave virgo singularis) e em antíteses (os concetti da 2ª estrofe de Salve mater Salvatoris e da 8ª de Lux illuxit).

O desenvolvimento de um certo número dessas peças é idêntico: 1) saudação plena de uma alegria calma e um pouco tênue, lembrando o antigo iubilus; 2) desenvolvimento, recitativo ou exposição teológica; 3) retorno, sob a forma de prece, aos sentimentos do prelúdio. As principais fontes de Adão são a Escritura, interpretada sob o ponto de vista messiânico (cf. Zyma vetus expurgetur, para a Páscoa; Lux iocunda para o Pentecostes); a liturgia (em Salve dies para a Páscoa, o trecho dum tenerent cuncta silentium recorda o introito do domingo); a lenda dos santos (a prosa de São Dinis resume Hilduin); a teologia escolástica que ele via nascer ao seu lado (In natale saluatoris contém tanto quanto o Lauda Sion); o simbolismo cristão, do qual as obras de Hugo de São Vitor estão repletas (a célebre prosa Salue Mater Saluatoris para a Natividade é uma espécie de ladainha que agrupa todas as figuras da Virgem); a alegoria moralizante, cujo gosto era tão vivo na Idade Média e que deu fortuna aos dois versos frequentemente citados: “Mundus, caro, demonia / Diuersa mouent prelia...”. Notar-se-á, sob o ponto de vista teológico, Profitentes unitatem, prosa da Trindade, onde a doutrina do *Quicumque* é como que filtrada pela escolástica, e a fórmula *Nos peccati spina sumus cruentati, sed tu spinæ nescia*, atestado da Imaculada Conceição (Salue, mater Saluatoris, 2ª est.). Nenhuma das obras em prosa atribuídas a Adão de São Vitor pode ser considerada, com verossimilhança, como sendo de sua autoria. Ele nos deixou apenas poemas litúrgicos.

L. Gautier, Œuvres poétiques d’Adam de Saint-Victor, 2 in-12, Paris, 1858, com um ensaio sobre sua vida e suas obras; 3ª ed., in-12, Paris, 1894; Clichtoveus, Elucidatorium ecclesiasticum, Paris, 1515 (edição príncipe, de onde provém a P. L., t. CXCVI); [Dom Brial], Histoire littéraire de la France, t. XV, p. 39; [Hauréau], ibid., t. XXIX, p. 589; Delisle, em Bibliothèque de l’Ecole des chartes, t. XX, p. 197; K. Bartsch, Die lat. Sequenzen des Mittelalters, Rostock, 1868, p. 18, 170; Eug. Misset, Essai philol. et littér. sur les œuvres poétiques d’Adam de Saint-Victor, Paris, 1881; Dreves, Analecta hymnica medii ævi, t. VII, p. 3; t. VIII, p. 6; Hauréau, Notices et extraits de quelques manuscrits lat. de la Bibl. nat., t. IV, p. 198; P. Lejay, em Revue critique de littér. religieuses, t. IV (1899), p. 161.



Autor: P. Lesay



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