ACEMETAS

Verbete sobre ACEMETAS na Enciclopédia Católica

I. Fundação dos acemetas; a salmodia perpétua; as horas canônicas. II. Papel dos acemetas na história doutrinária e literária da Igreja grega.

I. FUNDAÇÃO DOS ACEMETAS. A SALMODIA PERPÉTUA. AS HORAS CANÔNICAS. — O termo acemetas, do grego akoimētoi (os que não dormem), em latim acemeti ou acenete, serve para designar, de modo geral, aqueles ascetas orientais que se distinguiam pelo rigor de suas vigílias. Assim, encontram-se por vezes chamados por este nome os estilitas, que permaneciam de pé sobre suas colunas sem nunca se deitar, ou ainda os monges da Palestina, que passavam a maior parte do dia e da noite em oração. Todavia, em sua acepção precisa e habitual, o termo acemetas aplica-se àqueles monges do Oriente que seguiram a regra estabelecida, na primeira metade do século V, por São Alexandre, sobre a continuidade rigorosa do ofício divino, perpetuado sem qualquer interrupção, nem de dia nem de noite.

Após ter fundado um primeiro mosteiro às margens do Eufrates, São Alexandre (ver bibliografia ao final do artigo) tentou, sem sucesso, estabelecer outro em Antioquia, Acta SS., 15 de janeiro, t. I, ed. de Paris, c. VI, p. 308. Posteriormente, fixou-se por volta de 420 na própria Constantinopla com um grande número de seus monges — trezentos, diz seu biógrafo, Acta SS., ibid., c. VII, n. 43, p. 309; cerca de cem, diz um escritor contemporâneo, Calínico, De vita S. Hypatii liber, Leipzig, 1895, p. 82 — em um convento situado próximo ao martírio de São Menas. Contudo, em pouco tempo — se é preciso acreditar em São Nilo, De paupertate, 21, P. G., t. LXXIX, col. 997, desde antes de 430 — Alexandre e seus acemetas foram expulsos da cidade imperial. Preludiando, por assim dizer, o papel considerável que deveriam desempenhar em seguida em meio às controvérsias religiosas da Igreja grega, os acemetas haviam tomado posição vigorosa contra o patriarca de Constantinopla, Nestório, apesar do favor que sua doutrina encontrara, a princípio, junto ao imperador Teodósio II e à imperatriz Eudóxia. Segundo o testemunho do monge Calínico, que escreveu entre 447 e 450 a vida de São Hipácio, não somente o gênero de vida de Alexandre e de seus discípulos atraíra sobre eles a atenção (Calínico, De vita S. Hypatii liber, p. 82), mas o zelo do valente abade não conhecia limites, e os próprios imperadores não estavam a salvo de suas repreensões.

Assim, por ordem dos soberanos, Alexandre e seus monges foram banidos da capital. Nestório foi encarregado da execução da sentença imperial e os acemetas, dos quais ele se mostrara — já anteriormente, em sua tentativa de estabelecimento em Antioquia — um adversário encarniçado, foram expulsos de seu mosteiro de São Menas e da cidade imperial, não sem terem sido muito maltratados. Retiraram-se para o outro lado do Bósforo e receberam, por algum tempo, hospitalidade no mosteiro de Rufiniana, na Bitínia, do qual São Hipácio era então arquimandrita. Quando a tempestade se acalmou um pouco, os acemetas construíram, a uma distância de cerca de quinze milhas de Rufiniana, o monasterion ton akoimeton, um vasto convento frequentemente mencionado nos Atos sob o nome de "grande mosteiro dos acemetas" (Acta SS., ibid., c. VII, n. 51, p. 310; Calínico, De vita S. Hypatii, p. 84). Erguia-se no lugar chamado Irenaion, na margem oriental do Bósforo, em frente à pequena baía atual de Istênia, o Sostênion dos bizantinos, no local da vila turca de Tchiboukly, onde ainda se podem ver ruínas imponentes das antigas construções. É deste mosteiro que se fala sempre que há menção, sem outra designação expressa, ao mosteiro dos acemetas; ele foi o centro e, como diríamos hoje, a casa-mãe, de onde os fundadores de casas religiosas vinham frequentemente pedir colônias para seus novos conventos. Entre as mais célebres dessas colônias acemetas, é preciso citar, na própria capital, os mosteiros de São Dius e de Bassien, e sobretudo o famoso convento de Studius, o Stoudion, que, a partir do higumenato de São Teodoro (759-826), levaria ao seu apogeu o renome dos acemetas, mas que também deveria, por causa do brilho do papel de seus monges, fazer cair pouco a pouco no esquecimento até o próprio nome de acemetas, apagando-se e desaparecendo diante daquele de studitas.

No convento que São Alexandre habitara primeiramente próximo ao Eufrates, os monges, ali reunidos até o número de quatrocentos (Acta SS., ibid., c. IV, n. 26, 27, p. 306), encontravam-se divididos em quatro grupos, segundo a sua língua: os latinos, os gregos, os sírios e os egípcios. Desses quatro grupos, Alexandre compusera oito coros que, sucedendo-se uns aos outros, cantavam sem interrupção a divina doxologia. Em Constantinopla e no grande convento da Bitínia, onde se encontravam reunidos trezentos religiosos (Acta SS., ibid., c. VIII, n. 43, p. 309; Vita S. Hypatii, p. 84), eles eram divididos em três grupos — latinos, gregos e sírios — e em seis coros, entoando, da mesma forma, sem jamais se interromperem, os louvores de Deus: tetaxdoroi duo koimetai, ton theon doxazontes akatanapastôs. Cada série de dez cantores estava sob a direção de um decurião ou dekadarchos, e cada série de cinquenta sob a direção do pentekontarchos (Acta SS., ibid., c. VII, n. 43, p. 309). Em 463, quando o cônsul Studius solicitou a São Marcelo, abade dos acémetes, monges para o convento de sua fundação, sendo seu número menos considerável, distribuíram-nos apenas em três coros. Mas, independentemente do número de monges e de coros, tratava-se de uma salmodia perpétua, uma liturgia incessante, uma hinologia sem fim: akaimatos leitourgia, arêktos hymnologia. E, segundo o Pe. Daniel Papebroch, primeiro editor da Vita S. Hypatii (Acta sanct., édit. de Paris, junii t. IV, p. 275, em nota), seria à imitação dos acémetes que os monges de Agaune, de Saint-Denys e outros teriam introduzido no Ocidente o laus perennis. Não é temerário pensar que esta instituição da salmodia perpétua contribuiu para fixar as horas e ofícios canônicos, e o biógrafo de São Alexandre atribui-lhe a instituição de sete horas canônicas (Acta sanct., 15 de janeiro, c. IV, n. 28, p. 306), sem indicar, contudo, outro nome que não aqueles de terça, sexta, nona e o "noturno". É preciso, sem dúvida, entender por esta palavra "noturno" toda a série das horas da tarde e da noite que se encontra indicada no documento contemporâneo, a Vita S. Hypatii, p. 54, sob os nomes de lychnikon ou vésperas, prothypnion ou completas, mesonyktikon ou matinas, e orthros ou laudes matinais. Permitir-nos-emos citar aqui este texto importante; diz-se nele de São Hipácio, falecido em 446, que, em cada dia da grande quaresma, a sete horas diferentes, segundo a palavra do salmista: "sete vezes ao dia cantei vossos louvores" (Sl 118, 164), ele salmodiava o ofício divino: psallôn te kai edychmenos orthrina, tritên, hektên, enatên, lychnikon, prothypnia, mesonyktia. A edificação desta vida consagrada à oração litúrgica atraía aos acémetes numerosos discípulos. Um dos mais célebres foi o filho do senador Eutrópio, São João Calibita, que, atraído pela renome desses monges, fugiu da casa paterna e revestiu o hábito monacal no grande convento dos acémetes. Mais tarde, sob o hábito de mendigo, foi ele recolhido por seus pais sem que o reconhecessem, e terminou seus dias em uma cabana à porta da casa paterna: a história de sua vida oferece os mais numerosos traços de semelhança com a de outro pobre voluntário: São Aleixo romano.

Não é talvez inútil observar que os monges acémetes não formavam uma ordem à parte, uma congregação especial no meio dos outros monges do Oriente. A Igreja grega não teve, como a Igreja latina, uma multidão de comunidades religiosas tendo cada uma um fim determinado e exclusivo — a contemplação, o cuidado dos doentes, a pregação, o ensino ou o estudo das letras divinas e humanas; nenhuma dessas destinações é imposta nem proibida aos monges gregos; sua regra, a mesma para todos, aquela de São Basílio, deixa a todos a liberdade de seguir suas disposições ou seu atrativo sob a direção e com o consentimento do abade. Como todos os outros, os monges acémetes não têm outra regra senão aquela de São Basílio; a obrigação que a ela juntaram, a da salmodia perpétua, não os separa de seus irmãos; é um esforço a mais pela perfeição e, em certo sentido, semelhante ao quarto voto ao qual são admitidos, entre os latinos, certos religiosos mais avançados em virtude.

II. PAPEL DOS ACÉMETES NA HISTÓRIA DOUTRINAL E LITERÁRIA DA IGREJA GREGA. — Os monges acémetes ocupam um lugar considerável na história teológica da Igreja grega. Já vimos o seu fundador, São Alexandre, e os seus primeiros discípulos serem impedidos de se estabelecer em Antioquia e, posteriormente, expulsos de Constantinopla por Nestório, cujas doutrinas eles combatiam. O segundo sucessor de Alexandre, São Marcelo, que havia defendido a ortodoxia colocada em perigo pela doutrina nestoriana, tomou também, com os seus monges, uma parte ativa na luta contra Eutiques em 451; ele assistiu ao Concílio de Calcedônia e subscreveu a condenação do dissidente (Mansi, Conc. collect., t. VI, col. 749). Após o conciliábulo de Éfeso (449), onde a doutrina monofisita tinha sido, graças à violência, proclamada doutrina ortodoxa, o arquimandrita dos acémetes recebia de Teodoreto, bispo de Cyr, este precioso testemunho: “Sentimo-nos incitados a escrever-vos novamente, pela vida admirável que levais, mas também pelo zelo digno de elogios que demonstrastes pela causa da fé apostólica, sem receio da potência imperial nem da conivência dos bispos. Embora a maior parte deles só tenha dado o seu consentimento por força, contudo, pelas suas assinaturas, confirmaram a nova doutrina. Nada disso abalou a vossa piedade, mas perseverastes nos antigos dogmas que foram a fé dos apóstolos e dos profetas, segundo o ensinamento da Igreja.” (Teodoreto, Epist., cxliii, P. G., t. LXXXIII, col. 1368). Este mesmo Marcelo protestou ainda, à frente dos monges e do povo reunidos no hipódromo, contra a elevação à dignidade de César (469) de um príncipe suspeito de arianismo, o segundo filho de Aspar, associado ao império por Leão I e designado por ele para lhe suceder após a sua morte. Em nome de todos os ortodoxos, Marcelo exigiu que o filho de Aspar fosse excluído da dignidade imperial ou que fizesse profissão da verdadeira fé: obteve a atestação solene de que o novo César havia renunciado aos seus erros de outrora. (Surius, 29 de dezembro, p. 1031; Teófanes, edit. de Boor, p. 117, 11).

Alguns anos mais tarde, durante o cisma de Acácio (484-519), encontramos os acemetas entre os defensores mais fiéis da doutrina católica, estreitamente unidos à Sé Apostólica. Foi Cirilo, abade dos acemetas, quem informou ao Papa Félix III sobre a conduta de Acácio e, posteriormente, sobre a prevaricação dos legados Miseno e Vital; foi um acemeta quem, sob risco de sua própria vida, afixou no manto de Acácio a sentença de excomunhão proferida pelo Papa; e foi em um mosteiro acemeta, o de Dius, em Constantinopla, que o defensor da Igreja Romana, Tutus, buscou refúgio contra as armadilhas de Acácio e de seus seguidores. Assim, as cartas do Papa não separam os monges da Bitínia dos monges de Constantinopla; ambos receberam do sínodo romano de 484 este belo elogio: “Não é possível duvidar: graças à vossa verdadeira piedade para com Deus, graças ao vosso zelo sempre atento e a um dom do Espírito Santo, discernis os justos dos que se desviam, os fiéis dos infiéis, os católicos dos que professam doutrinas diversas.” Mansi, Concil. collect., t. VI, col. 1139.

Mas, no século seguinte, sob o pretexto de combater mais peremptoriamente as tendências eutiquianas dos teopascitas, eles recuaram até o nestorianismo e sustentaram que Jesus Cristo não é “um da Trindade” e que Maria não é a Mãe de Deus. Com uma audácia que não é sem exemplo na Igreja Grega, tentaram impor suas teses aos romanos, colocando em circulação documentos inteiramente forjados, tais como onze cartas apócrifas, três delas sob o nome do Papa Félix. Durante todo um ano, os delegados dos monges acemetas, Ciro e Eulógio, permaneceram em Roma na esperança de obter uma decisão favorável; mas, como persistissem em seu erro, o Papa João II proferiu contra eles (534) uma sentença de excomunhão. Mansi, ibid., t. VIII, col. 798, 799. Os próprios termos da carta pela qual Justiniano credenciou, para este caso, seus dois delegados Hipácio e Demétrio, indicam expressamente que este erro permaneceu restrito a um pequeno grupo de monges: quibusdam paucis monachis, e que os arquimandritas permaneceram em comunhão de doutrina com a Sé Apostólica. Mansi, ibid., t. VIII, col. 796, 797.

Os monges citas teopascitas e seus partidários foram mais difíceis de conter; uma petição de todos os abades da capital solicitou ao Papa Agapito, que viera a Constantinopla, que os condenasse solenemente. Eles assistiram e subscreveram o sínodo reunido pelo patriarca Menas em 536: entre eles encontrava-se o monge João, sacerdote e arquimandrita do grande e venerável mosteiro dos acemetas. Mansi, t. VIII, col. 1014. Evécio, diácono e arquimandrita do mesmo mosteiro, havia, em 518, subscrito a súplica que pedia a condenação dos erros monofisitas e de seus seguidores. Mansi, ibid., col. 1054. Em 787, no Segundo Concílio de Niceia, encontra-se também a assinatura de José, higúmeno dos acemetas. Mansi, ibid., t. XII, col. 151.

A partir dessa época, embora a influência dos acemetas continuasse a crescer em meio às lutas pela defesa das imagens, seu nome terminou por se confundir com o dos studitas que, desde São Teodoro (759-826), o mais ilustre de seus higúmenos, desempenharam o papel principal na defesa da fé católica; mas não se deve esquecer que foram monges acemetas que fundaram e povoaram o mosteiro de Estúdio. Embora as constituições de São Teodoro, seu legislador, não mencionem expressamente a salmodia perpétua, há menção a ela em várias de suas catequeses aos monges, e pode-se afirmar com certeza que, durante o período mais brilhante de sua história, os studitas permaneceram fiéis às tradições do fundador dos acemetas, Santo Alexandre, fazendo suceder, dia e noite, a oração à oração, a leitura à leitura, a salmodia à salmodia, celebrando os louvores do Senhor, sem interrupção, unidos e ligados a Deus pelo ciclo sem fim da oração: Νυκτωρ τε καὶ μεθ’ ἡμέραν αἰνοῦμεν τὸν Κύριον κατὰ τὴν παραδεδομένην ἡμῖν ὑπὸ τῶν ἁγίων πατέρων ἡμῶν νομοθεσίαν... Teodoro Estudita, Parva catechesis, ed. Auvray, 1891, cat. LI, p. 188, P. G., t. XCIX, col. 579. — Ὅρα γὰρ τὸ γινόμενον· ψαλμῳδία τὴν ψαλμῳδίαν διαδέχεται, ἀνάγνωσις τὴν ἀνάγνωσιν, μελέτη τὴν μελέτην, προσευχὴ τὴν προσευχήν, καθάπερ τις κύκλος ἔχων καὶ συνάπτων πρὸς τὸ θεῖον. Parva Catech., ed. Auvray, cat. LXVII, p. 238, ibid., col. 599.

Os monges acemetas não se notabilizaram apenas por sua fidelidade à oração perpétua, por seu zelo pela ortodoxia e por seu empenho em manter a comunhão com a Sé Apostólica; sua atividade em todos os trabalhos do espírito deve ser, ao menos, assinalada. São Marcelo, seu abade, era um calígrafo renomado; encontram-se entre eles, em todas as épocas, oficinas caligráficas muito prósperas; a biblioteca de seu grande mosteiro é a mais antiga mencionada pelos historiadores bizantinos; no século VI, o diácono romano Rústico, sobrinho do Papa Vigílio, lá esteve para conferir as versões do Concílio de Calcedônia, Mansi, op. cit., t. VII, col. 679; sob o reinado de Justiniano, contavam-se ali até duas mil cartas de Santo Isidoro de Pelúsio. P. G., t. LXXXIV, col. 587. É entre os acemetas, sobretudo, que se encontra, entre todos os mosteiros da capital, a nobre e constante preocupação de enriquecer o tesouro literário de sua biblioteca pela transcrição de manuscritos. Assim, por sua vida inteiramente dedicada ao trabalho, à oração e à fé, os acemetas merecem um lugar de destaque na história teológica e literária do Oriente.

BIBLIOGRAFIA: A vida de São Alexandre, fundador dos acemetas, encontra-se, em 10 de janeiro, nos Acta sanctorum, t. II, Paris, 1863, p. 300-311. A vida de São João Calibita, em 15 de janeiro, ibid., p. 314-320; na P.G., t. CXIV, col. 568-582, e Analecta bollandiana, t. XV, p. 266-267. — A vida de Santo Hipácio, Acta sanctorum, em 17 de junho, Paris, 1867, t. IV de junho, p. 243-282; Calínico, De vita sancti Hypatii liber, editado pelos membros do seminário de filologia de Bonn, in-12, Leipzig, 1895, xx-480 p. — A vida de São Marcelo, em 29 de dezembro, em Surius, Vitae sanctorum, edição de Colônia, 1575, p. 1020-1032. — Encontrar-se-á um grande número de textos em Du Cange, Gloss. med. et inf. graecitatis, Lyon, 1688, e sobretudo no Gloss. med. et inf. latinitatis, Paris, 1734, v° Acoemeti. Cf. E. Marin, Les moines de Constantinople, Paris, 1897, e De Studio, coenobio constantinopolitano, Paris, 1897; Dictionnaire d’archéologie chrétienne, t. I, col. 307-321.



Autor: E. Marin



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