ABSTRAÇÃO

Verbete sobre ABSTRAÇÃO na Enciclopédia Católica

ABSTRAÇÃO, segundo a doutrina escolástica. — I. O que ela é. II. O que ela não é. III. Suas espécies.

I. O QUE ELA É. — 1º Etimologicamente e em geral, a abstração (do latim abstrahere, extrair de) é a ação de separar uma coisa de outra para retê-la fora desta última. Encontramos a abstração em todos os graus da atividade natural. Ela se encontra no exercício das afinidades eletivas dos corpos químicos. A planta abstrai ao selecionar os elementos nutritivos do solo. As faculdades sensitivas, que Laromiguière chamava de "máquinas de abstração", só percebem o seu objeto em virtude de uma abstração: o olho apreende apenas as cores, independentemente das outras qualidades dos corpos; o ouvido percebe apenas o som e ignora as cores e os odores, etc. A inteligência abstrai quando considera uma qualidade, por exemplo, a humanidade, sem ocupar-se do sujeito que a possui (abstração formal), ou ainda quando percebe uma noção universal, por exemplo, o homem, fora e acima dos indivíduos nos quais ela pode ser realizada (abstração total). Cf. S. Tomás, Sum. theol., Ia, q. XL, a. 3. — Chama-se abstração real aquela que é feita pelos corpos químicos ou pelas plantas, porque ela modifica as realidades e nelas opera dissociações e análises reais; a abstração dos sentidos ou da inteligência é intencional, porque reside inteiramente em um processo de conhecimento do qual ela não altera fisicamente o objeto.

2º Em particular, a abstração é tomada apenas no último sentido e como uma operação exclusivamente intelectual. 1. Por vezes, ela exerce-se sobre conceitos já formados, decompõe-nos em seus elementos constitutivos e produz juízos analíticos. Por exemplo, analiso meu conceito de animal, nele encontro a ideia de ser, de substância, de vida, de sensação, etc., e afirmo que o animal é um ser, uma substância, um vivente, etc. Esta operação (abstração precisiva) é mais uma análise do que uma abstração propriamente dita. — 2. Esta última, ao contrário (abstração universal), é, acima de tudo, a operação original que se exerce sobre imagens sensíveis, extrai o elemento inteligível que ela isola das condições materiais e individuantes, e conduz ao conceito universal. Tal abstração é necessária; pois os objetos representados na imaginação não são inteligíveis em ato, estando encerrados em imagens ou espécies materiais e orgânicas; e, contudo, a inteligência percebe esses objetos. É necessário, portanto, depois de terem sido apreendidos pela imaginação e antes de o serem pela inteligência, uma elaboração que, incidindo sobre as imagens sensíveis, torne o seu conteúdo atualmente inteligível. Esta elaboração é a abstração. Ela tem por missão imediata proporcionar os objetos à faculdade intelectual e, para isso, torná-los imateriais, assim como esta é imaterial, desvinculando-os das condições físicas e materiais. Ela tem como resultado generalizar os objetos. Com efeito, estes, sendo isolados das condições materiais que os individualizavam, tornam-se, pelo próprio fato, objetos universais. — A faculdade da abstração é o intelecto agente que São Tomás, Sum. theol., Ia, q. LXXXV, a. 1; Compendium theologiæ, c. LXXIII, situa entre os sentidos internos e o intelecto possível.

II. O QUE ELA NÃO É. A DISSOCIAÇÃO. — Procurou-se confinar a abstração na ordem puramente material e fazer dela uma espécie de dissociação dos elementos da percepção sensível. 1º Segundo Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, l. II, c. XI, § 9; l. III, c. III, § 6-9, Paris, 1839, a abstração seria o resultado da comparação de vários objetos nos quais apareceriam qualidades semelhantes. Consistiria em reter essas qualidades, reuni-las em uma só ideia e dar um nome a essa ideia. 2º Segundo Huxley, Hume, sua vida, sua filosofia, p. 129, trad. Compayré, Paris, 1880, e a psicologia da associação, a abstração não seria outra coisa senão a fusão das imagens semelhantes. Impressões sensíveis idênticas, imagens semelhantes sucedem-se na percepção, sobrepõem-se na faculdade e em seu órgão; os traços comuns acentuam-se, os outros apagam-se, produz-se então uma imagem genérica que representa toda uma categoria de objetos da maneira como o "retrato composto" reproduz o tipo de uma família ou de uma classe de indivíduos. Ver na Revue scientifique, julho de 1878, setembro de 1879, os artigos de M. Galton sobre as Imagens genéricas.

3º Segundo Hamilton e Stuart Mill (Stuart Mill, Sistema de Lógica, t. I, c. VII; t. II, c. II, trad. Peisse, Paris, 1880; Filosofia de Hamilton, c. XVI, trad. Cazelles, Paris, 1869), as ideias abstratas obtêm-se por meio da atenção privilegiada. Sendo dadas várias imagens entre as quais existem semelhanças e dessemelhanças, o espírito dedica uma atenção especial às semelhanças, faz abstração, isto é, não se ocupa das dessemelhanças: essa atenção e essa abstração, que Stuart Mill chama de "os dois polos do mesmo ato do pensamento", têm como resultado uma imagem genérica.

4º Segundo M. Paulhan (ver na Revue philosophique de 1889 seus quatro artigos sobre a Abstração e as ideias abstratas), a vida do espírito é um trabalho contínuo de análise e de síntese. Os elementos psíquicos agrupados de uma forma vaga e confusa nas concepções primitivas separam-se e vão fazer parte de novos compostos. Primeiro, eles trazem consigo para o novo composto alguns elementos do primeiro sistema onde estavam contidos; é a metáfora, etc.; depois, desprendem-se inteiramente e terminam por reproduzir representações e tendências gerais: é a abstração pura.

5º Estas diferentes formas de dissociação ou de desintegração, habitualmente seguidas por uma associação e uma integração nova, não podem ser confundidas com a verdadeira abstração, tal como a entendem os escolásticos após São Tomás. A abstração opera-se inteiramente fora e acima das imagens sensíveis, às quais não submete a nenhuma modificação; a dissociação é um modo e um estado particular das imagens sensíveis. — A abstração cria a ideia com os seus três caracteres de imaterialidade, universalidade e necessidade; a dissociação resulta em imagens materiais, contingentes e tão concretas quanto um retrato composto. — A abstração é original e espontânea; ela produz primeiramente o universal direto, depois torna-se reflexa e dá nascimento ao universal lógico; a dissociação é sempre reflexa, uma vez que se trata de um retorno de uma faculdade sobre si mesma, para submeter as suas percepções anteriores a uma comparação (Locke), a uma adição (Huxley), a uma subtração (Hamilton) ou a uma desintegração (Paulhan).

III. AS SUAS ESPÉCIES. — Já dividimos a abstração segundo o ato que ela exerce (abstração real, intencional), segundo o substrato do qual ela retira o seu objeto (abstração total, formal) e, finalmente, segundo o momento em que se produz (abstração precisiva, lógica). Se considerarmos os seus graus, a abstração distingue-se ainda em abstração física, abstração matemática e abstração metafísica. Pela primeira, negligenciamos os caracteres individuais para captar apenas as qualidades que caem imediatamente sob os sentidos e que chamamos de sensíveis próprios, como o calor, o frio, a luz, as cores, o som. Pela segunda, deixamos de lado essas próprias qualidades para considerar apenas as propriedades mais íntimas (sensíveis comuns) que convêm a todos os corpos, e apenas a eles, mas que só são percebidas por intermédio das qualidades sensíveis, como a extensão, a figura e a quantidade. Pela terceira, negligenciam-se todas as qualidades que caem sob o sentido (sensíveis próprios ou comuns) para considerar apenas aquelas que não afetam os sentidos (sensíveis per accidens) ou que até mesmo se estendem aos seres incorpóreos, como a substância, o acidente, a potencialidade, a força, etc. A primeira abstração fornece o objeto das ciências físicas; a segunda, o das ciências matemáticas; a última, o das ciências metafísicas.

Kleutgen, Die Philosophie der Vorzeit, n. 67 seg., Innsbruck, 1860-1863, traduzido pelo Pe. Sierp sob o título de La philosophie scolastique, Paris, 1868-1870; Liberatore, Della conoscenza intellettuale, t. II, c. V, Roma, 1873, traduzido pelo abade Deshayes, De la connaissance intellectuelle, Paris, 1885; T. Pesch, Institutiones logicales, n. 99 seg., Friburgo em Brisgóvia, 1888; Fr. Queyrat, L’abstraction et son rôle dans l’éducation intellectuelle, Paris, 1895; Th. Ribot, Psychologie de l’attention, Paris, 1896; R. P. Peillaube, Théorie des concepts, I parte, c. III e IV, Paris.

A. CHOLLET.



Autor: Sem assinatura



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