ABGARO

Verbete sobre ABGARO na Enciclopédia Católica

I. Lenda de Abgar. II. Testemunhos da lenda. III. Dados da lenda. IV. Valor histórico da lenda.

Abgar, siríaco abgār, awgar, abgar, awgar, grego Ἄβγαρος, Αὔγαρος, é um nome de origem semítica. Cf. Payne Smith, Thesaurus syriacus, col. 477. Segundo os lexicógrafos sírios, abgār, abgārā, é sinônimo de hagīrā, “coxo”. Pode-se aproximá-lo do árabe abdjar, “aquele que tem uma hérnia umbilical”, mas deve-se rejeitar a assimilação com o persa afgar, e sobretudo a etimologia armênia dada por Moisés de Corene: avak-hair, “homem bravo”.

I. LENDA DE ABGAR. — A um dos reis de Edessa que portaram este nome, a tradição atribui uma correspondência epistolar com Jesus Cristo. Aquele que reinava em Edessa no primeiro século da nossa era era Abgar V, o décimo quinto rei de Osroena, segundo Gutschmid, Untersuchungen über die Geschichte des Königreiches Osrhoene, Mém. de l’Acad. de São Petersburgo, 1887. Ele reinou duas vezes, segundo a Crônica de Edessa, do ano 4 antes de Jesus Cristo ao ano 7 depois de Jesus Cristo, depois do ano 13 ao ano 50. Ele foi apelidado ukkāmā, isto é, “o Negro”, Assemani, Bibliotheca orientalis, Roma, 1719, t. I, p. 420. A transcrição grega odyaya foi alterada para odyavine, Euchame, Vohame, ody &ua. Lipsius, Die edessenische Abgarsage, Leipzig, 1880, p. 15, nota.

A lenda de Abgar teve, diz o Sr. Rubens Duval, Histoire politique, religieuse et littéraire d’Édesse, extraído do Journal asiatique, Paris, 1892, p. 81, “um retumbante prodígio no Ocidente e no Oriente. Encontram-se ecos não apenas em todo o mundo cristão, mas também entre os muçulmanos.”

II. TESTEMUNHOS DA LENDA. — Os testemunhos antigos desta lenda são entre os sírios: 1º a Doctrina Addæi, publicada parcialmente por Cureton, Ancient syriac documents, 1864, segundo dois manuscritos de Nítria do século V e do século VI; — 2º a Doctrine of Addai the Apostle, publicada na íntegra por G. Phillips e W. Wright em 1868, segundo um manuscrito do século VI da biblioteca imperial de São Petersburgo. Em sua forma atual, a Doutrina remonta à segunda metade do século IV, segundo W. Wright, A short history of syriac literature, Londres, 1894, p. 26; cf. Encyclopedia britannica, t. XX, p. 828 b; no início do século V, segundo o Sr. R. Duval, Histoire d’Édesse, p. 82; — 3º o Testamento atribuído a São Efrém, Op. Græca, p. 235; Overbeck, S. Ephraem syri... opera, p. 137-156; — 4º a Crônica de Josué, o Estilita (506), Martin, Abhandlungen für die Kenntniss des Morgenlandes, 1878, t. VI; W. Wright, The Chronicle of Joshua the Stylite, 1882, Bibliotheca orientalis, t. I, p. 260-283; — 5º a Crônica de Edessa (por volta de 540), Biblioth. orientalis, t. I, p. 388-417; Journal of sacred literature, 1864, t. V. Tiago de Sarug (521) tem uma homilia especial sobre o apóstolo Tadeu e Abgar, rei de Edessa. Biblioth. orientalis, t. I, p. 317, 319. Ele também faz alusão à lenda no Sermão sobre a queda dos ídolos, por volta de 351-355, Martin, extraído de Zeitschrift des deutschen Morgenländischen Gesellschaft, 1875, t. XXIX, p. 17. No século XII, Bar-Hebraeus, Chronicon ecclesiasticum, II, 2; edit. Abbeloos-Lamy, t. II, p. 41; Bibliotheca orientalis, t. IIa, p. X, e Salomão de Bassorá, O Livro da Abelha, Bibliotheca orientalis, t. III a, p. 309-324, são, entre outros escritores, as testemunhas, em suas seitas respectivas, da manutenção da tradição lendária.

Temos, como documentos armênios, a História da Armênia, de Moisés de Corene, l. II, 30-35. V. Langlois, Collection des historiens anciens et modernes de l’Arménie, Paris, 1869, t. I, p. 95-99. A tradução armênia de Larubna ou Labubnia, escritor sírio mencionado por Moisés de Corene, loc. cit., obra alterada e interpolada, ao julgamento de Langlois, op. cit., p. 315-325, Cureton, Ancient Syriac documents, p. 166, reeditado por Alishan Labubnia, Carta de Abgar, ou história da conversão dos edessenos, Veneza, 1868, segundo um manuscrito do século XII. Biblioteca nacional, anc. fundo armênio, n. 88, fol. 112 b-126 b. Ver também Emine, Genealogia de S. Gregório e Vida de S. Nersés; Langlois, op. cit., p. 25.

Sobre a tradição persa, ver Hieronymus Xavier, Historia Christi persice, Leiden, 1639, p. 354-358; L.-J. Tixeront, Les origines de l’Église d’Édesse et la légende d’Abgar, Paris, 1888, p. 28-29. Sobre Ibn al-Athir e os historiadores árabes, ver Ernst von Dobschiitz, Christusbilder, Leipzig, 1899, p. 235*, 236*.

Entre os gregos contam-se: 1º Eusébio, que termina com este relato, emprestado dos arquivos de Edessa, o primeiro livro de sua História eclesiástica, I, 13. Cf. II, 1, P. G., t. XX, col. 121-124, 136, 187. Temos de Eusébio uma tradução latina de Rufino e uma tradução siríaca. Ancient syriac documents. — 2º 'Επιστολὴ Ἀβγάρῳ τοπάρχου πέμψαντος πρὸς τὸν Κύριον ἡμῶν; e πράξις τοῦ ἁγίου ἀποστόλου Θαδδαίου, documentos publicados por Tischendorf. — 3º Procópio de Cesareia, De bello persico, II, 12; Corpus scriptorum historiæ byzantinæ, Procop., t. I, p. 206-209. — 4º Evágrio, Historia ecclesiastica, IV, 27, P. G.




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