ABELARDO (ABAILARD, ABEILLARD, ABULARD OU ESBAILLARD), PEDRO

Verbete sobre ABELARDO (ABAILARD, ABEILLARD, ABULARD OU ESBAILLARD), PEDRO na Enciclopédia Católica

Em latim Abailardus, Abaielardus, Baiolensis, Bailardus, Peripateticus Palatinus, etc., filósofo e teólogo, foi, por seu ensino, seus escritos, seu método e mesmo seus erros, um dos espíritos mais influentes da primeira metade do século XII (1079-1142). Estudaremos em um primeiro artigo sua vida e suas obras, em um segundo, sua doutrina e suas proposições condenadas por Inocêncio II, em um terceiro, sua escola e seus discípulos.

I. ABELARDO (Vida e Obras). — I. Vida. II. Obras. III. Crítica.

I. Sua vida. — Nascido na Bretanha, no senhorio de Palet (em latim Palatium), a quatro léguas de Nantes, Pedro havia herdado de seu pai Berengário, gentil-homem instruído, um gosto muito vivo pelas letras e, ainda muito jovem, segundo o uso do tempo, percorreu as províncias em busca de escolas de dialética. O sobrenome de Abelardo parece ser devido a uma brincadeira de Thierry de Chartres, que lhe ensinava matemática. Cf. Clerval, Les écoles de Chartres au moyen âge, 1895, p. 192. Teve como mestres em filosofia os chefes das duas escolas rivais: Roscelino primeiro, o fogoso nominalista que, condenado em Soissons em 1092, após um curto exílio na Inglaterra, havia retomado suas lições na colegiada de Sainte-Marie de Loches; depois, por volta de 1100 em Paris, Guilherme de Champeaux, chefe dos realistas, então em todo o brilho de sua glória. Admiravam-se por toda parte os sucessos do jovem bretão, sua sutileza maravilhosa, sua facilidade em todos os ramos do trivium e do quadrivium, sem excetuar a música, onde ele se destacava.

Mas logo se revelou seu espírito inquieto e presunçoso. Ele se colocou como rival de Guilherme e engajou contra ele sua primeira luta. Aos vinte e três anos, funda uma escola em Melun, residência da corte (1102), depois a transporta para Corbeil, e retorna enfim a Paris para assediar Guilherme até em seu retiro de Saint-Victor, onde, em disputas públicas, ele o obriga, conta ele mesmo, Historia calamitatum, P. L., t. CLXXVIII, col. 119, a modificar sua doutrina. Esta vitória sobre aquele que se chamava "a coluna dos doutores" ilustrou o jovem mestre que não tardou a fundar em Sainte-Geneviève uma escola famosa. Mas, os triunfos dialéticos não lhe bastando mais, ele vai buscar a ciência sagrada em Laon, onde atrai a imensa reputação de Anselmo. Ele não encontrou, diz ele ainda, "senão uma árvore carregada de folhas sem frutos, um lar de onde escapava muita fumaça e nenhum brilho." Ibid., col. 123. As inimizades que ele levantou, ao elevar uma cátedra rival em frente à de Anselmo, expulsaram-no de Laon; mas ele não partiu senão para receber em Paris, com o título de cônego (sem estar nas ordens), a direção da grande escola de Notre-Dame (1113). Então começa para o escolástico de trinta e quatro anos um período de glória cujo brilho, atestado por todos os contemporâneos, parece fabuloso. Cf. de Rémusat, Abélard, t. I, p. 44. Da Inglaterra, da Bretanha, "do país dos suevos e dos teutões", de Roma mesmo acorriam até cinco mil ouvintes, entre os quais se contou mais tarde dezenove cardeais, mais de cinquenta bispos ou arcebispos e um papa (Celestino II), sem falar do célebre tribuno Arnaldo de Bréscia.

Estes sucessos inauditos embriagaram Abelardo: o orgulho indômito que o havia feito nomear "o rinoceronte" o empurrou a novidades temerárias; ao mesmo tempo ele se abandonava às mais vergonhosas paixões, assim como atestam as reprovações de seu amigo Foulques de Deuil, Epist., xvi, P. L., t. CLXXVIII, col. 378, e esta triste confissão de Abelardo ele mesmo: Cum totus in superbia et luxuria laborarem. Historia calam., ibid., col. 126. Mas, acrescenta ele, o castigo estava próximo. Foi terrível e, doravante, a vida de Abelardo não será mais do que uma sucessão ininterrupta de lutas, de desenganos e de condenações.

A primeira catástrofe eclodiu em 1118. Conhece-se a sedução de Heloísa, sua fuga para a Bretanha, o nascimento de Astrolábio, o casamento secreto exigido e depois divulgado pelo cônego Fulbert, tio de Heloísa, enfim o retiro desta para o mosteiro de Argenteuil e a bárbara vingança exercida sobre Abelardo. Sob o golpe desta humilhação, Abelardo vai se sepultar na abadia de Saint-Denys, onde abraça a vida monástica. Longe de lá encontrar o repouso, ele se fez novos inimigos. Tendo, sob as instâncias de seus discípulos, retomado suas lições em Saint-Denys e depois em Saint-Ayoul, perto de Provins, ele agravou ainda seus erros e, sob pretexto de refutar o triteísmo de Roscelino, ele ressuscitou o sabelianismo. Resultou disso primeiro uma polêmica de uma violência inaudita entre Abelardo e seu antigo mestre, Epist., xiv, xv, P. L., t. CLXXVIII, col. 356-372, depois a denúncia, talvez por Roscelino, ibid., col. 357, certamente por Albérico e Lotulfo de Reims, do opúsculo de Abelardo De unitate et Trinitate divina, recentemente publicado por Stölzle. No concílio de Soissons (1121) presidido pelo célebre cardeal legado Conon de Urach, Abelardo foi condenado a lançar ele mesmo seu livro ao fogo e a ser encerrado no mosteiro de Saint-Médard. Libertado pelo legado, ele retornou a Saint-Denys, ulcerado mas sempre obstinado.

Não podemos senão mencionar a tempestade que ele excitou em Saint-Denys ao negar a origem areopagítica da abadia; seu retiro em uma solidão deserta perto de Nogent-sur-Seine onde funda a escola do Paráclito, logo povoada de milhares de discípulos; seus novos conflitos de doutrina com Claraval e os premonstratenses; sua estadia em Saint-Gildas de Rhuys (Morbihan), cujos monges o elegeram abade (1125) sem suspeitar que ele deixaria deles o mais terrível retrato, Hist. calam., ibid., col. 179; enfim seu retorno ao Paráclito (1129) para ali recolher Heloísa após a dispersão do mosteiro demasiado relaxado de Argenteuil, e estabelecê-la primeira abadessa do mosteiro que ele funda para ela, e ao qual, por sua oração, ele dá uma regra. Epist., viii, col. 255-326. Cf. Epist., vii, ix.

Em 1136, João de Salisbury mostra-nos novamente Abelardo em sua cátedra na montanha Sainte-Geneviève, lutando contra a seita dos cornificianos e arrebatando a palma da lógica de todos os seus contemporâneos (Metalogicus, ibid., col. 867, 832). Foi o seu último triunfo. O seu ensino e as obras compostas nos seus anos de solidão tinham acrescentado novos erros aos antigos sobre a Trindade. Em 1139, um abade cisterciense, Guilherme de Saint-Thierry, lança o grito de alarme ao transmitir a São Bernardo e a Godofredo, bispo de Chartres, as proposições mais audazes do inovador. Em vão, Bernardo, numa visita amigável, tenta reconduzi-lo; Abelardo pede ao arcebispo de Sens, Henrique Sanglier, para se justificar publicamente num sínodo.

O concílio, composto pelos bispos e abades das duas províncias de Sens e de Reims, reúne-se em Sens na oitava do Pentecostes, na presença do rei Luís VII, acompanhado de numerosos senhores (1141 e não 1140, como se acreditava até então). V. Deutsch, Die synode zu Sens 1141 und die Verurtheilung Abélards, in-8°, Berlim, 1880; Denifle, Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, 1885, t. I, p. 418. Abelardo teria querido discutir. Mas Bernardo, lendo as proposições extraídas dos seus escritos, intimou-o a desautorizá-las ou a retratar-se. Desconcertado, o inovador apela ao Papa e retira-se. O concílio, então, condena as proposições, reservando ao Papa o julgamento sobre a pessoa do autor. Este parte para Roma, onde conta com amigos poderosos. Mas, em Lyon, toma conhecimento de que Inocêncio II confirmou a sentença e o condena ele próprio a ser encerrado num mosteiro (16 de julho de 1141). Cf. Jaffé-Loewenfeld, Regesta pont. rom., 1885, n. 8148 [5767] e 8149 [5767].

Todavia, na sua passagem por Cluny, a providência reservava-lhe um consolador. Pedro, o Venerável, acolhe-o com bondade, detém-no na sua abadia, suaviza-o, reconcilia-o com São Bernardo, obtém do Papa a permissão para mantê-lo perto de si e inspira-lhe uma retratação que, apesar de traços visíveis de amargura, é sinceramente católica (Professio fidei, P. L., ibid., col. 178). Abelardo viveu ainda alguns meses no recolhimento, na oração, no estudo e na penitência, merecendo, pela sua submissão à Igreja e pelas suas austeras virtudes, um magnífico elogio de Pedro, o Venerável. Ver Petri Venerabilis Epistolae, P. L., t. CLXXXIX, l. III, epist. iv, Ad Innocentium II, col. 304; l. IV, epist. xxi; l. VI, epist. xxiii, Ad Heloisam, col. 347, 428. Ele tinha sido enviado para descansar no priorado de Saint-Marcel, quando a morte o atingiu aos 63 anos de idade (12 de abril de 1142). Por rogo de Heloísa (Epist. ad Petrum Ven., ibid., col. 427), as cinzas de Abelardo foram sepultadas no Paráclito, de onde foram trasladadas, neste século, para Paris, para o cemitério do Père-Lachaise.

II. OBRAS DE ABELARDO. — I. OBRAS DOGMÁTICAS. — Quatro tratados constituem a parte mais interessante do legado teológico de Abelardo: 1° a obra descoberta e publicada pelo Dr. Remigius Stölzle, sob o título: Abelards 1121 zu Soissons verurtheilter Tractatus de unitate et Trinitate divina, in-8°, Friburgo em Brisgóvia, 1891, p. xxxvi-101; 2° a Theologia christiana, editada em 1717 pelo dom Martène no Thesaurus novus anecdotorum, t. V, col. 1189; 3° a Introductio ad theologiam, publicada em 1616 por d'Amboise; 4° a Soma das sentenças publicada por Reinwald, sob o título de Epitome theologiae christianae, in-8°, Berlim, 1835. Todas estas obras, salvo talvez a Epitome, são incompletas, pelo menos sob a sua forma atual. As divisões em livros e capítulos são posteriores e perturbam o plano do autor, especialmente na Epitome. Numerosas passagens, por vezes capítulos inteiros, são praticamente idênticas nestes diversos tratados: daí advêm problemas de crítica até aqui muito discutidos. Uma comparação atenta das quatro obras conduz, contudo, a conclusões certas:

1. A ordem cronológica de composição é a própria ordem na qual as enumeramos. O estudo das modificações introduzidas nos fragmentos comuns prova que o De unitate precedeu a Theologia, e esta a Introductio. Cf., por exemplo, uma longa passagem comum ao De unitate, etc., edição citada, p. 43-54, à Theologia, P. L., t. CLXXVIII, col. 1241-1247, e à Introductio, ibid., col. 1059-1065. Constata-se, de uma obra à outra, o progresso do pensamento e da expressão (ver os modos de identidade em De unitate, p. 50, Theologia, col. 1247, e Introductio, col. 1065), novas leituras (cf. Theologia, col. 1170; Introductio, col. 1039), frases intercaladas sem corrigir as antigas transições (cf. Theologia, col. 1246, e a Introductio, col. 1064, quas tamen, etc.). Já não é possível acreditar, com dom Martène e Hefele (Histoire des conciles, trad. Delarc, t. VII, p. 161; 2ª ed. alem., 1886, t. V, p. 358), que a Introductio, composta antes de 1120, tenha sido condenada em Soissons: segundo o próprio Abelardo, o livro de Soissons era um «opúsculo sobre a Trindade» (Epist., xiv, P. L., t. CLXXVIII, col. 357), ao passo que a Introductio é uma Soma sobre toda a teologia. Além disso, é estritamente posterior ao ano 1183, uma vez que menciona Pedro de Bruys (Introductio, l. II, ibid., col. 1056). O Pe. H. Denifle, O. P., aprova as conclusões de Goldhorn sobre este ponto. Ver Abelards Sentenzen und die Bearbeitungen seiner Theologia, em Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, 1885, t. I, p. 612, 603, etc.

2. O De unitate et Trinitate divina não é, portanto, um compêndio da Theologia, e menos ainda "uma expressão mais completa do pensamento de Abelardo sobre a Trindade", como pensou um sábio crítico (Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, in-8°, Paris, 1896, t. I, p. 167). Trata-se, efetivamente, conforme provou Stölzle no prefácio de sua edição (op. cit., p. X sq.), do tratado especial sobre a Trindade do qual Abelardo tanto se orgulhava e que foi queimado em Soissons. O Rev. Pe. Mandonnet, O. P., pensa com razão que "esta obra forma, com a carta apologética de Roscelin, a parte mais importante do dossiê relativo às suas desavenças com Abelardo" (Revue thomiste, 1897, p. 300). A Theologia christiana não é senão uma segunda edição, com novos desenvolvimentos, do De unitate et Trinitate divina, do qual reproduz o plano, as numerosas objeções e o texto integral, salvo breves fragmentos (cerca de 15 páginas) julgados inúteis ou obscuros. É a revanche de Abelardo contra o concílio de Soissons: no retrato pouco lisonjeiro de Alberico de Reims, Theologia christ., l. IV, P. L., t. CLXXVIII, col. 1285, est et alius in Francia..., há uma alusão à cena de Soissons narrada na autobiografia de Abelardo (Hist. calamit., ibid., col. 147). A obra parece terminar ao fim do livro IV, como indicam o plano, a própria expressão novissima quaestio (Theologia christ., l. IV, ibid., col. 1313) e, sobretudo, a conclusão final Hec nos... (Ibid., col. 1718). A obra só parece incompleta devido à adição inoportuna do livro V, tomado palavra por palavra do livro II da Introductio, para a qual deve ter sido composto.

3. A Introductio ad theologiam é a mais importante das obras de Abelardo. Apesar do título acrescentado por um copista, é uma verdadeira Suma de teologia composta para o uso das escolas: Scholarium nostrorum petitioni, prout possumus, satisfacientes, aliquam sacre eruditionis summam quasi divine scripture introductionem conscripsimus, lê-se no prólogo (Ibid., col. 979). O Pe. Denifle estabelece muito bem, loc. cit., Archiv, t. I, p. 589, 601, 611, que esta obra, iniciada por Abelardo desde o seu retiro em Saint-Denys, só pôde ser continuada mais tarde. Contudo, desde o início, aparece aqui pela primeira vez esta divisão da teologia em três partes que, em breve seguida no Sic et non, será célebre na escola abelardiana: 1° da fé (e dos mistérios); 2° dos sacramentos (e da Encarnação); 3° da caridade. É na Introductio que virão beber todas as Sumas de sentenças publicadas pelos discípulos de Abelardo. Ver III ABELARDO (ESCOLA DE). Ela é, também, muito certamente esta obra designada sob o nome de Theologia Abailardi, da qual Guilherme de Saint-Thierry, e após ele São Bernardo, tomaram os textos incriminados em Sens. O quadro seguinte facilita a verificação: a primeira coluna indica as citações feitas por Guilherme, a segunda os trechos da Introductio de onde foram extraídas:

Disput. c. Abailardum (Pat. t. CLXXXIV) | Introductio ad theologiam (P. L. t. CLXXVIII)
Cap. I, col. 249 | L. I, c. 1, col. 981 (édit. Cousin, t. II, p. 5)
Cap. I, col. 250 | L. I, c. V-IX, col. 987-989 (Cous., t. II, p. 10-18)
Cap. II, col. 244 | L. II, c. XII, col. 1068 (Cous., t. II, p. 97)
Cap. IV, col. 257 | L. II, c. XIV-XV, col. 1072 (Cous., t. II, p. 100)
Cap. V, col. 265 | L. I, c. XIX, col. 1020 (Cous., t. II, p. 45)

Infelizmente, a comparação não pode prosseguir: resta-nos apenas da Introductio a primeira parte sobre a fé e a Trindade. Sobre este assunto, Abelardo colhe na Theologia christiana capítulos inteiros, ao mesmo tempo que, por infindáveis digressões, destrói a harmonia do seu plano e essa rapidez de precisão tão necessária a uma Suma de teologia.

4. O Epitome, mais bem nomeado no manuscrito de Admont como Sententiae Petri Baiolardi, cf. Gietl, Die Sentenzen Rolands, 1891, p. 22, é, pelo contrário, um compêndio de teologia metódica, claro e preciso. O Pe. Denifle conclui, não sem verossimilhança, que não é do próprio Abelardo, embora reproduza em toda parte, com muita exatidão, o seu sistema, as suas divisões e as suas fórmulas (Op. cit., Archiv, etc., t. I, p. 402, 420, 592). Menos ainda é um simples caderno de aluno, como supunham Gieseler e Hefele: o segundo manuscrito descoberto pelo Pe. Gietl exclui esta hipótese. É, portanto, um manual de teologia abelardiana, resumindo toda a Introductio ad theologiam, tal como deve ter existido com as três partes anunciadas no início. Daí o valor deste compêndio, que supre as partes perdidas da grande obra e cuja fidelidade nos é garantida pelo fato de doze capítulos (em 37) se reencontrarem palavra por palavra na parte conservada da Introductio. O Epitome é, pois, em relação a esta, o que é, relativamente às Sentenças de Pedro Lombardo, o famoso resumo de Bandinus. Segundo a conjectura do Pe. Denifle, quando São Bernardo fala das sentenças de Abelardo, Epist., CXC, seu tract. de erroribus Abailardi, c. VI, P. L., t. CLXXXII, col. 1062; cf. Epist., CLXXXI, ibid., col. 353, talvez ele tivesse diante dos olhos este Epitome.

5. O Sic et non, publicado em parte por V. Cousin (1835), mas cuja primeira edição completa foi apresentada em Marburgo em 1851, por Henke e Lindenkohl, não é, segundo o próprio Abelardo no prólogo, P. L., t. CLXXVIII, col. 1349, senão uma compilação de textos, aparentemente contraditórios, extraídos da Escritura ou dos Padres, sobre 158 questões importantes da religião. Levantar tantas dificuldades sem resolver nenhuma é, certamente, um jogo de espírito tão temerário quanto perigoso. Sábios concluíram que Abelardo, já cético, queria lançar nos espíritos fermentos de dúvida. Cf. Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, 3ª ed., 1890, t. I, p. 347. Mas um cálculo tão perverso não se coaduna nem com o prólogo desta obra, nem com a fé que, em Abelardo, sobreviveu sempre aos seus erros.

II. OBRAS EXEGÉTICAS, MORAIS, APOLOGÉTICAS. — 1. À exegese pertencem a Expositio in Hexaemeron e os Commentariorum super S. Pauli epistolam ad Romanos libri quinque, cf. Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, art. Abelardo, t. I, col. 30; neles faz-se menção a uma Expositio super Psalterium e a outra super epistolas Pauli (Bibl. nat., ms. 1. 2543). A segunda obra merece sozinha a atenção porque encerra a doutrina de Abelardo sobre a predestinação, a redenção, o pecado original e a graça. — 2. O Scito te ipsum seu Ethica, publicado por B. Pez no Thesaurus anecdotorum novissimus, t. I, 3ª parte, p. 626 sq., é um tratado de moral mais filosófica do que religiosa, cujos graves erros foram assinalados por São Bernardo. Ver III ABELARDO (Artigos condenados por Inocêncio II). Abelardo expôs a mesma doutrina no poema moral, Carmen ad Astralabium filium, que M. Hauréau publicou integralmente (1040 versos, em vez dos 461 já conhecidos) nos Notices et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, 1893, t. XXIV, 2ª parte, p. 153 sq. Encontra-se ali uma prova da autenticidade das cartas controversas de Heloísa e das tristes fraquezas que ela ali revela, mesmo após sua profissão religiosa. Notice, por Hauréau, loc. cit., p. 156. — 3. O Dialogus inter philosophum, judeum et christianum, editado por Reinwald em 1831, é uma apologia do cristianismo ao mesmo tempo original e obscura. No juízo fortemente fundamentado de M. Vigouroux, Les Livres saints, t. I, p. 339, este livro, por causa de suas tendências racionalistas, é "uma das composições mais temerárias" do inovador. — 4. Ao ascetismo ligam-se, com os hinos e outros opúsculos, os Sermones (37), conferências bastante frias endereçadas em sua maioria às religiosas do Paráclito. — 5. Mencionemos também as 17 Cartas, interessantes sobretudo para a história de Abelardo. A primeira é um relato de sua vida que Duchesne anotou sabiamente.

III. OBRAS FILOSÓFICAS. — O público não conhecia o menor escrito filosófico de Abelardo, quando V. Cousin publicou os Ouvrages inédits d’Abélard pour servir à l’histoire de la philosophie scolastique en France, in-4, Paris, 1836. Este volume continha, com longos extratos das glosas sobre Aristóteles, Porfírio e Boécio, a Dialectica, endereçada por Abelardo a seu irmão Dagoberto, para a educação de seus sobrinhos. Esta Dialética já não é um comentário do pensamento de outrem, mas uma obra pessoal, um tratado completo de lógica, regular e metódico. As confidências do autor sobre seus problemas e sobre sua morte próxima, abandono de erros outrora acalentados, fazem supor que a obra foi revista após o concílio de Sens. Cousin, Introduction aux ouvrages inédits, p. 31-37. O fragmento sobre Les genres et les espèces é, segundo Cousin, ibid., p. 17, "a peça mais interessante do grande processo do nominalismo e do realismo, no século de Abelardo."

IV. CRÍTICA. — Poucos escritores tiveram ao mesmo tempo censores mais severos e admiradores mais entusiastas. Cf. os Epitaphes de Abelardo recolhidos na P. L., t. CLXXVIII, col. 103-106; ed. Cousin, t. I, p. 717. Dom Clément foi certamente duro demais quando concluiu que, graças à sua paixão pelas novidades, Abelardo, "homem de muito espírito... tornou-se apenas um sofista orgulhoso, um mau raciocinador, um poeta medíocre, um orador sem força, um erudito superficial, um teólogo réprobo." Histoire littéraire de la France, t. XI, p. 248. Mas as reabilitações tentadas outrora por d'Amboise e dom Gervaise, multiplicadas neste século pelos escritores racionalistas, ultrapassam bem de outra maneira a medida. É moda glorificar em Abelardo um representante do livre-pensamento, uma vítima das rancores de São Bernardo, cf. de Rémusat, Abélard, t. I, p. 214, o grande renovador da filosofia e "o Descartes do século XII", Cousin, Introduction aux ouvrages inédits, p. 6, enfim "o criador do método escolástico". Picavet, Abélard et Alexandre de Hales, créateurs de la méthode scolastique, Paris, 1896, p. 1-14. Há aí calúnias e exageros.

1º Abelardo nunca foi um livre-pensador ou incrédulo: suas explicações dos dogmas são, é verdade, demasiado frequentemente marcadas pelo racionalismo; contudo, ele foi e quis ser um crente sincero. De antemão, sempre se submeteu ao juízo da Igreja. Cf. Introductio ad theologiam, prologus, P. L., t. CLXXVIII, col. 980; ed. Cousin, p. 3; Theol. christ., l. II e III, P. L., t. CLXXVIII, col. 1171, 1218; ed. Cousin, t. 1, p. 406, 454. No auge da luta, endereça a Heloísa esta enérgica profissão de fé onde se lê: Nolo sic esse philosophus ut recalcitrem Paulo; non sic esse Aristoteles ut secludar a Christo. Epist., XVI, P. L., t. CLXXVIII, col. 375; ed. Cousin, t. 1, p. 680. Após a decisão de Roma, sua submissão edificou Pedro, o Venerável. — 2º A justiça e mesmo a necessidade urgente da condenação de Abelardo não pode mais ser contestada hoje. Desde a publicação de suas obras, não é mais possível dizer que simples imprudências de linguagem foram transformadas em heresias monstruosas e chiméricas. “As proposições condenadas”, admite o próprio de Rémusat, Abélard, t. 1, p. 215, “são em geral autênticas e os apologistas de Abelardo estiveram errados em contestá-las.” As negações violentas do novador, cf. Apologia, P. L., t. CLXXVIII, col. 106; ed. Cousin, t. 1, p. 719, provam apenas o seu embaraço ou, ainda, segundo o Pe. Denifle, a fraqueza do seu caráter; audaz na afirmação, ele tergiversava na defesa. Quanto ao perigo que tais erros faziam correr à fé, ele foi trazido à luz pela descoberta recente dos manuscritos da escola de Abelardo. Denifle, O. P., Abelards Sentenzen, etc., em Archiv, loc. cit., t. 1, p. 592 e passim. Não se trata mais de um pensador isolado, mas de toda uma legião de doutores que derrubavam os dogmas fundamentais. À medida que as escolas do século XII são mais bem conhecidas, torna-se evidente que, sem as condenações de Abelardo e de Gilberto de la Porrée, o paganismo ameaçava reinar nelas como mestre. Cf. Clerval, Les écoles de Chartres au moyen âge, in-8°, Chartres, 1895, seç. VI, p. 244 sq.

3º Em filosofia, Abelardo criou um sistema novo? Não nos cabe decidir. Notemos apenas que, ainda que fosse verdadeiramente o inventor do conceitualismo, esse sistema bastardo não é, afinal de contas, senão um nominalismo disfarçado e, segundo as palavras de C. Jourdain, Dictionnaire des sciences philosophiques, art. Abélard, “dissimula a dificuldade antes que resolvê-la.” Aliás, numerosos críticos duvidam que Abelardo seja conceitualista e pretendem que, na esteira de Cousin, os filósofos franceses se enganaram a respeito de seu pensamento. Os contemporâneos, com João de Salisbury, viram nele, antes, um nominalista. Metalogicus, l. II, c. XVII, col. 1068 (Cous., t. II, p. 97). Segundo Stöckl, Lehrbuch der Geschichte der Philosophie, 2ª ed., Mainz, 1875, p. 404, e o cardeal Gonzales, Histoire de la philosophie, traduzida do espanhol pelo Pe. de Pascal, in-8°, Paris, 1890, t. II, p. 153, em vão procurar-se-ia nele uma solução precisa e expressa do problema dos universais. Assim, de Rémusat também convém que Abelardo “não foi um grande homem; não foi sequer um grande filósofo, mas um espírito superior, de uma sutileza engenhosa, um raciocinador inventivo e um crítico penetrante...” Abélard, t. 1, p. 273. — 4º A verdadeira glória de Abelardo é ter contribuído, em larga medida, para o desenvolvimento do método escolástico. Certamente ele não foi o seu criador, como pretende o Sr. Picavet: Anselmo já havia aparecido, e Hugo de São Vítor não se mostra menos ávido do que ele por filosofia e explicação racional. Mas a Introductio ad theologiam parece ser, de fato, a primeira Suma empreendida para coordenar, em uma única obra, todo o ensino da fé. Hugo escreveu sua grande obra De sacramentis apenas depois dele. Cf. Mignon, Les origines de la scolastique, t. 1, p. 166. Além disso, apaixonado tanto pela dialética quanto pela erudição sagrada, Abelardo inspirou em sua escola o gosto pela discussão dos textos patrísticos, reunidos no Sic et non, e esse método — mais seco em sua severidade didática, porém mais preciso — que a distingue da escola de São Vítor. Cf. Denifle, op. cit., em Archiv, t. 1, p. 613-620. Citemos, para terminar, o juízo benevolente do Pe. de Régnon, Études de théologie positive sur la sainte Trinité, in-8°, Paris, 1892, t. II, p. 87; após ter mostrado o Proteu, ora inspirando-se em sua fé, ora abandonando-se ao racionalismo que o assombra, ele conclui nestes termos: “Tal foi Abelardo! Grande figura diante da qual não se pode permanecer indiferente. Admira-se o homem de gênio, ama-se a grande criança, condena-se o novador, respeita-se o penitente.”

I. EDIÇÕES DAS OBRAS DE ABELARDO. — A primeira e a mais incompleta surgiu em Paris, in-4°, 1616, sob o título: Petri Abelardi philosophi et theologi... et Heloissæ conjugis ejus... opera, etc. É atribuída por certos exemplares a André Duchesne, e por outros a François d’Amboise, o autor da Préface apologétique. A segunda foi dada por Migne em 1855, no t. CLXXVIII da P. L. Nela faltam apenas as obras filosóficas, publicadas por Cousin, e o De unitate et Trinitate divina. Victor Cousin, após as obras inéditas de Abelardo (1836, ver acima), publicou, com o concurso de C. Jourdain e E. Despois, os P. Ab. opera hactenus seorsim edita, 2 in-4°, Paris, 1859. Esses três volumes reunidos formam a melhor edição.

Mas ainda, nem o Epitome nem o Sic et non são tão completos como nas edições alemãs reproduzidas por Migne. L. Tosti (ver abaixo) publicou, a partir de um manuscrito de Monte Cassino, fragmentos novos e importantes do Sic et non.

II. FONTES CONTEMPORÂNEAS. — Elas são indicadas com cuidado por de Rémusat, Abélard, t. I, p. 438, e resumidas nas sábias notas de Duchesne sobre a Historia calamitatum. O Recueil des historiens des Gaules reuniu os fragmentos referentes a Abelardo de João de Salisbury, t. XIV, p. 300, de Otão de Freising, t. XIII, p. 654, das Vidas de são Goswin e de são Bernardo, t. XIV, p. 327, 370, 442.

III. MONOGRAFIAS. — Eis as mais importantes, em ordem cronológica: dom Gervaise, La vie de P. Abeilard, abbé de Saint-Gildas de Ruis, O. de Saint-Benoît, et celle d'Héloïse son épouse, 2 in-12, Paris, 1720; Jos. Berington, The history of the lives of Abeillard and Heloisa..., in-4°, Londres, 1784; Ign. Aur. Fessler, Abélard und Heloise..., 2 in-8°, Berlim, 1807; Luigi Tosti, Storia di Abelardo e dei suoi tempi, in-8°, Nápoles, 1851; Ch. de Rémusat, Abélard, sa vie, sa philosophie et sa théologie, 2 in-8°, Paris, 1855; o mesmo, Abélard, drame, publicado por Paul de Rémusat, in-8°, Paris, 1877; o abade Vacandard, Abélard, sa lutte avec saint Bernard, sa doctrine, sa méthode, in-12, Paris, 1881; cf. o mesmo, Vie de saint Bernard, t. II, p. 140-176; S. Mart. Deutsch, Peter Abélard, ein kritischer Theologe der zwölften Jahrhunderts, in-8°, Leipzig, 1883.

IV. COLEÇÕES GERAIS. — Dom Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés, 1758, t. XXII, p. 153-192; dom Clément, Histoire littéraire de la France, 1763, t. XII, p. 86-152; Morin, Dictionnaire de philosophie et de théologie scolastiques, in-4°, Paris (Migne) 1856, col. 179-367; Hefele, Conciliengeschichte, 2ª ed. (Knöpfler), § 610 e 616, t. V, p. 358, 451; trad. franc. Delarc, t. VII, p. 164, 250.

V. SOBRE ABELARDO FILÓSOFO. — Ver as Histórias da filosofia na Idade Média: Cousin, Introduction (às obras inéditas), p. V-203, reproduzida nos Fragments de philosophie au moyen âge; Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, in-8°, 1850, t. I, p. 267-287; Rousselot, Études sur la philosophie dans le moyen âge, t. II, p. 1-109. Sobre o teólogo, cf. o artigo seguinte.



Autor original: E. PORTALIÉ

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