
ABEL. Considerar-lo-emos exclusivamente como personagem figurativo do futuro; todavia, antes de indicar os diversos protótipos dos quais ele foi a imagem, será bom notar os traços históricos que serviram de fundamento ao seu caráter típico.
I. ABEL NA HISTÓRIA. — Abel (hebraico: Hébel, «sopro, vaidade ou luto», segundo os rabinos e os antigos comentadores, ou melhor «filho», da forma habal que se lê nas inscrições assírias; F. Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 6ª ed., Paris, 1896, t. I, p. 290) foi o segundo filho de Adão e Eva e o irmão mais novo de Caim. Os dois irmãos mostraram-se de humores e disposições diferentes. Embora tenham tirado a vida da mesma fonte e recebido a mesma educação, foram inteiramente dissemelhantes de gostos e de sentimentos. Abel foi pastor de rebanhos e Caim, agricultor (Gen., IV, 2). Repartiram assim, desde a origem da sociedade, as duas artes nutridoras da humanidade: a cultura da terra e a criação dos animais domésticos. O gênero de vida dos dois irmãos deixa pressentir a divergência de seus... S. Cirilo de Alexandria, Glaphyr. in Genes., l. I, de Cain et Abel, n. 2, P. G., t. LXIX, col. 33. Essa diferença manifesta-se mais claramente nos sacrifícios que oferecem ao Senhor. Caim, agricultor, consagrou produtos da terra; Abel, pastor de ovelhas, animais do seu rebanho. Caim não fez senão uma simples oblação, não ofereceu senão um sacrifício incruento; a julgar pelo contraste e pelos termos empregados, Abel imolou vítimas. Caim não consagrou ao Senhor senão frutos ordinários; se não oferecia os piores de sua colheita, não escolhia os melhores; Abel sacrificava as primícias, os primogênitos e os mais gordos de seus cordeiros. Jeová olhou favoravelmente para Abel e seus presentes, mas não considerou nem Caim nem os seus dons (Gen., IV, 3-5). Deus, contudo, não via tanto a diferença dos dons em si, mas a diversidade das disposições com as quais eram feitos. «É pela fé, ensina-nos São Paulo (Hebr., XI, 4), que Abel ofereceu um sacrifício mais abundante que Caim», πλείονα θυσίαν, uma vítima melhor em razão da fé do ofertante, mais do que pela sua natureza e qualidades próprias. «Deus não considerava os presentes de Caim e de Abel, mas seus corações, de sorte que aquele cujo coração lhe agradava, agradava-lhe também pelo seu presente.» S. Cipriano, De oratione dominica, n. 24, P. L., t. IV, col. 538. Deus considerava sobretudo a intenção e tinha por agradável o sacrifício feito de um coração reto e sincero. S. Crisóstomo, In Gen., homil. XVI, n. 5, P. G., t. LIII, col. 155-156. A diferença de resultados e de eficácia perante Deus é um índice da diversidade das consciências. S. João Crisóstomo, Ad populum Antiochenum, homil. XII, n. 4, P. G., t. XLIX, col. 182. Cf. S. Pedro Crisólogo, Serm., CIX, P. L., t. LII, col. 502; Basílio de Selêucia, Orat., IV, n. 3, P. G., t. LXXXV, col. 68-69. Impelido pelo ciúme (S. Clemente de Roma, I Cor., IV, 7, em Funk, Opera Patrum apostolicorum, Tubinga, 1887, t. I, p. 66; S. Nilo, Narrat., I, P. L., t. LXXIX, col. 608) e à instigação de Satanás (S. Inácio de Antioquia, Ad Philip., XI, 3, Funk, ibid., P. G., t. V, col. 1418; Ad Smyrn., VII, 4, t. I, col. 148; Pseudo-Atanásio, Quest. ad Antiochum ducem, q. LVII, P. G., t. XXVIII, col. 632), Caim foi violentamente irritado pela preferência que Deus havia manifestado ao seu irmão, e sua animosidade interior traiu-se pelo abatimento de seu rosto. Não tomou qualquer conhecimento das advertências paternais do Senhor e, dominado pela rancor, resolveu vingar-se. Propôs um dia a Abel sair ao campo e, quando estavam lá, lançou-se sobre seu irmão e matou-o (Gen., IV, 8). Por este homicídio, a morte, que era a pena do pecado de Adão (Gen., III, 19), fez a sua entrada no mundo (Rom., V, 12). A primeira vítima não foi um culpado, mas um inocente e um justo. Este golpe prematuro, que feria seu filho, mostrava a Adão e Eva a grandeza do castigo de sua falta. Teodoreto, Quest. in Genesim, quest. XLVI, P. G., t. LXXX, col. 145; Fócio, Ad Amphiloch., quest. XI, P. G., t. CI, col. 120. A voz do sangue da inocente vítima elevou-se até o Senhor, e Jeová interrogou Caim para fazê-lo confessar seu crime. Mas o fratricida impenitente mentiu impudentemente, dizendo que ignorava onde estava seu irmão; acrescentou insolentemente: «Sou eu o seu guardião?» Contudo, o sangue de Abel clamava vingança aos céus, e Deus proferiu contra o culpado uma terrível sentença (Gen., IV, 9-12).
II. ABEL, FIGURA DO PORVIR. — Considerado sucessiva ou simultaneamente pelos Padres e pelos escritores eclesiásticos nas diferentes situações e sob os diversos aspectos de sua curta vida, Abel foi a figura: 1° dos justos, demasiado frequentemente perseguidos pelos ímpios; 2° de Jesus Cristo, inocente vítima imolada para a expiação do pecado.
1° Abel, figura dos justos perseguidos. — Sob este aspecto, Abel foi considerado como aquele que faz contraste e oposição a Caim, o ímpio fratricida. Enquanto o autor da Sabedoria, X, 3, designa Caim como "o injusto, ἄδικος, que, em sua ira, se havia afastado da sabedoria e pereceu pelo golpe que o tornava homicida de seu irmão", o próprio Jesus chama Abel de "o justo", δίκαιος, e coloca-o no número dos profetas e dos santos cujo sangue recairá sobre os judeus. Mt 23, 32-35. São Paulo, Hb 11, 4, diz que, em razão da fé com a qual oferecera seu sacrifício, Abel recebera de Deus o testemunho de que era "justo", visto que Deus aceitara seus dons. São João, 1 Jo 3, 10-12, indica como sinais distintivos entre os filhos de Deus e os filhos do diabo a justiça e o amor fraterno, e cita Caim "que era do maligno e matou seu irmão. E por que o matou? Porque suas obras eram más e as de seu irmão eram justas". Assim, Abel é apresentado pela Escritura como a primeira personificação do bem. Caim, que representa o mal, odeia-o e imola-o em seu cruel ciúme. Após ter desprezado as advertências paternais de Deus, mergulhou cada vez mais no pecado e foi o pai de uma posteridade perversa. Sete fora substituído a Abel, Gn 4, 25, e seus descendentes perseveraram por muito tempo na via reta e foram os representantes do bem. Assim apareceram, desde a origem, as duas grandes categorias de homens que dividem a humanidade inteira; assim foram inauguradas a oposição e a luta perpétua entre o bem e o mal. Esta antinomia constante será, através dos séculos, a prova dos bons, mas também o princípio de seu mérito e de sua glorificação no céu.
Sua prefiguração mística na pessoa de Abel foi assinalada pelos escritores eclesiásticos. O autor das Homilias Clementinas, homil. II, n. 16, P. G., t. II, col. 85, escreveu: "Adão fora formado à imagem de Deus. De seus dois filhos, nascidos após seu pecado, o mais velho é mau e representa os maus; o mais novo é bom e representa os bons." Os dois irmãos, diz Santo Ambrósio, De Cain et Abel, l. I, c. 1, n. 4, P. L., t. XIV, col. 317, representam duas categorias opostas de homens: uma reporta todas as coisas a si mesma; a outra reporta tudo a Deus e submete-se ao seu governo. Ambos são da mesma raça, mas de espírito contrário. Abel é a figura dos bons, Caim a dos maus. O segundo filho de Adão é melhor que o primeiro, diz ele alhures. Exhortatio virginitatis, c. VI, n. 36, P. L., t. XVI, col. 347. Ele é imaculado, enquanto Caim está coberto de manchas; ele se apega a Deus e provém inteiramente de Deus, enquanto seu irmão é uma posse mundana e terrestre. Ele anuncia a redenção do mundo, ao passo que de seu irmão procede a ruína do mundo. Por um é preparado o sacrifício de Cristo; pelo outro, o fratricídio do diabo. A seus olhos, De Cain et Abel, l. I, c. 1, 11, P. L., t. XIV, col. 318, 320, os dois irmãos figuram os dois povos, judeu e pagão. Caim representa o povo judeu, povo fratricida; Abel, os pagãos convertidos ao cristianismo, que aderem a Deus, ocupam-se das coisas celestiais e se afastam das terrestres. Eles representam, enfim, a ordem segundo a qual se manifesta a sabedoria humana. Abel, embora o mais jovem, sobressai em virtude sobre seu irmão; em nós, o homem mau nasce antes do bom. O trabalho da terra precedeu o pastoreio dos rebanhos; se o homem mau aparece primeiro, ele é inferior quanto à graça. A juventude é o tempo das paixões; a velhice, a época do calma e da paz.
Santo Agostinho expõe as mesmas verdades em termos diferentes. O tempo durante o qual os homens que nascem sucedem aos que morrem é o desenvolvimento de duas cidades. Caim, que nasceu primeiro dos dois ancestrais da humanidade, pertence à cidade dos homens; Abel, que é o segundo, pertence à cidade de Deus. De civ. Dei, XV, 1, P. L., t. XLI, col. 438. A cidade de Deus, que é peregrina aqui embaixo, foi prefigurada por Caim e Abel. Ela compreende dois grupos de homens: os terrestres e os celestes. Ibid., XV, xv, 1, col. 456. Desde Abel, o primeiro justo morto por seu irmão, a Igreja avança em sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus. Ibid., XVII, 11, 2, col. 614. A cidade de Deus começou em Abel mesmo, como a má cidade em Caim. É, portanto, antiga esta cidade de Deus, que tolera a terra, espera o céu e que é chamada Jerusalém e Sião. In Ps. cxliii enarrat., n. 3, P. L., t. xxxvii, col. 1846. Do assassinato de Abel por Caim, São João Crisóstomo, In Gen., homil. xix, n. 6, P. G., t. liii, col. 165-166, conclui que os cristãos não devem temer aqui embaixo as adversidades e os males, mas devem, antes, acautelar-se de fazer mal aos outros. Qual é, com efeito, o mais infeliz, o assassino ou sua vítima? É claro que é o assassino. Abel foi sempre celebrado como o primeiro testemunha da verdade. Seu assassino levou uma vida miserável; fora amaldiçoado por Deus e era considerado um homem abominável. Que diferença, ainda, na outra vida! Abel reinará durante toda a eternidade com os patriarcas, os profetas, os apóstolos, todos os santos e com Jesus Cristo. Caim suportará perpetuamente os tormentos do inferno. Aqueles que o imitarem terão parte em seus sofrimentos; os bons, fiéis imitadores de Abel, compartilharão sua felicidade.
Teodoreto, Quest. in Gen., q. xlv, P. G., t. lxxx, col. 145, considerava Abel como o primeiro fruto da justiça, prematuramente cortado em sua raiz. O autor do Liber de promissionibus et predictionibus Dei, part. I, c. vi, P. L., t. li, col. 757, reconhecia em Abel e Caim a imagem de dois povos, os cristãos e os judeus. Rupert, De Spiritu Sancto, l. VI, c. xviii-xx, P. L., t. clxvii, col. 1752-1754, chama Abel de o primeiro dos mártires e reconhece nele a figura de todos os bons, como Caim é a figura de todos os maus. Foi seguido e imitado pelos mártires de Roma e, em particular, pelo diácono São Lourenço, morto por causa dos tesouros da Igreja; os perseguidores seguiam as pegadas de Caim. Alhures, Comment. in XII proph. min., l. VI, t. clxvi, col. 196, ele apresenta Abel, cujo nome significa lamentação, como o primeiro dos penitentes que anuncia ao mundo a consolação da redenção. O premonstratense Adão Scot, Serm. v, n. 2, P. L., t. cxcviii, col. 480, propõe Abel como modelo aos religiosos que se oferecem a Deus pela profissão solene. Nas orações da recomendação da alma, a Igreja invoca "são Abel" para que interceda em favor do cristão que sofre os últimos combates da vida. Abel era citado à frente dos patriarcas, dos apóstolos e dos mártires, nomeados nos dípticos de uma igreja irlandesa (missal de Stowe). Duchesne, Origines du culte chrétien, Paris, 1889, p. 200. Os pintores cristãos, ao representarem Jesus Cristo no limbo, geralmente colocaram Abel no meio dos santos que ele vinha libertar; associam-no também ao triunfo do Salvador no céu. Grimotiard de Saint-Laurent, Guide de l’art chrétien, Paris, 1874, t. v, p. 53; Mons. X. Barbier de Montault, Traité d’iconographie chrétienne, Paris, 1890, t. ii, p. 200.
2º Abel, figura de Jesus Cristo. — Abel representou Jesus Cristo sob três títulos distintos: 1. porque era pastor de ovelhas; 2. por causa do sacrifício que ofereceu; 3. em razão de sua morte violenta.
1. Como pastor de rebanho. — Abel, que era pastor de ovelhas, diz Santo Isidoro de Sevilha, Allegoriae quaedam Script. sac., n. 5, P. L., t. lxxxiii, col. 99-100, foi o tipo de Cristo, o verdadeiro e bom pastor, que deveria vir para governar os povos fiéis.
2. Como sacrificador. — O sacrifício de Abel é o primeiro dos sacrifícios oferecidos por mãos puras; ele figurou, como os sacrifícios subsequentes, o sacrifício do Filho único de Deus na cruz e na Eucaristia. O sacrifício de Abel foi agradável ao Senhor, porque era feito das primícias do rebanho. S. Ambrósio, Epist., xxxv, n. 9, P. L., t. xvi, col. 1079-1080. Estas primícias agradaram ao Senhor, não enquanto criaturas degeneradas em decorrência do pecado, mas em razão do mistério da graça que nelas se refletia. O sacrifício de Abel profetizava, portanto, que seríamos resgatados do pecado pela paixão do Senhor, que é o Cordeiro de Deus. Abel ofereceu primogênitos para representar o primogênito das criaturas. Id., De Incarnat. Dom. mysterio, c. 3, n. 4, P. L., t. xvi, col. 819. A vítima de Abel foi agradável a Deus, a de Caim foi-lhe desagradável. Não manifestou Jesus Cristo claramente por aí que ele devia oferecer-se por nós, a fim de consagrar em sua paixão a graça de um novo sacrifício e de abolir o rito do povo deicida? Id., In Ps. XXXIX enarrat., n. 12, P. L., t. xiv, col. 1061. Para significar a paixão de nosso redentor, Abel ofereceu em sacrifício um cordeiro; ele sustentou em suas mãos este cordeiro que Isaías anunciou e que João Batista apontou com o dedo. S. Gregório Magno, Moral. in Job., l. XXIX, n. 69, P. L., t. lxxvi, col. 515-516. A Igreja, em sua liturgia, reconheceu o sacrifício de Abel como uma figura do sacrifício eucarístico. Em um prefácio do Sacramentário Leonino, P. L., t. lv, col. 148, o sacerdote cantava: «Imolando constantemente a hóstia de louvor, da qual o justo Abel foi a figura.» Em nossos dias, os sacerdotes da Igreja romana recitam ao altar esta oração que segue de perto a consagração e que responde à epiclese dos gregos: «Dignai-vos, Senhor, olhar com um olhar favorável o sacrifício eucarístico, como vos dignastes aceitar os dons de vosso servo o justo Abel, o sacrifício do patriarca Abraão e aquele do sumo sacerdote Melquisedeque.» A arte cristã fez ressaltar, ao longo dos séculos, o caráter figurativo do sacrifício de Abel. Em sarcófagos dos antigos cemitérios cristãos, as oferendas de Caim e de Abel figuram o sacrifício eucarístico. Abel oferece um cordeiro e Caim um feixe ou um cacho de uvas. À primeira vista, surpreende constatar que Deus aceita o sacrifício de Caim tão bem quanto o de Abel. Quis-se interpretar o gesto do Senhor como um gesto de repulsa; mas o exame atento dos desenhos não autoriza esta interpretação. Se, portanto, as esculturas foram fielmente desenhadas por Bosio, deve-se concluir que os escultores desses sarcófagos antigos esqueciam as intenções pessoais de Caim e consideravam apenas a matéria de sua oferenda, o trigo ou a uva, que significavam a Eucaristia tão bem quanto o cordeiro de Abel. Um mosaico de São Vital de Ravena, que é do século VI, representa, ao lado de Melquisedeque, que oferece sobre o altar o pão e o vinho, Abel elevando as mãos ao céu e participando do mesmo sacrifício. Martigny, Dictionnaire des antiquités chrétiennes, 2ª ed., Paris, 1877, p. 2-3; Grimotiard de Saint-Laurent, Guide de l'art chrétien, t. iv, p. 29-31; t. v, p. 69; t. vi, p. 344-346. Sobre uma placa gravada, do final do século X, Abel sacrificador é unido também a Melquisedeque; ele oferece um cordeiro que Deus aceita e abençoa. Este verso latino dá a significação da gravura: Hec data per justum notat in cruce victima Christum. No portal da catedral de Modena, que é do século XII, gravou-se este outro verso: Primus Abel justus defert placabile munus. Caim é ainda representado com Abel; mas seu sacrifício, que é «magro», é rejeitado por Deus. O verso: Sacrificabo macrum, non dabo pingue sacrum, lido ao contrário, faz Abel dizer exatamente o oposto: Sacrum pingue dabo, non macrum sacrificabo. Mons. Barbier de Montault, Traité d'iconographie chrétienne, Paris, 1890, t. iii, p. 53, 90-91. Na cruz de Hohenlohe, do século XII, Abel e Caim oferecem, um um cordeiro, o outro um feixe de trigo, sem que haja entre eles qualquer diferença; Dictionnaire d'archéologie chrétienne, t. i, col. 61-66.
3. Em razão de sua morte violenta. — Abel, morto por Caim... Em ódio ao bem, é ainda por este lado uma figura de Jesus Cristo que, mais justo e mais inocente que Abel, foi a vítima do ciúme dos judeus. Esta significação mística da morte de Abel foi esboçada no Novo Testamento. Aos escribas e aos fariseus hipócritas, que elevavam sepulcros aos profetas, ornavam os monumentos dos justos e se pretendiam melhores que seus pais que haviam derramado o sangue dos profetas, Jesus Cristo anunciou que eles eram os dignos filhos dos assassinos dos profetas e que eles preencheriam a medida de seus pais. Eles matarão, crucificarão e açoitarão os novos profetas e doutores que lhes serão enviados; eles os perseguirão de cidade em cidade; mas todo o sangue justo derramado sobre a terra desde o do justo Abel recairá sobre eles e o castigo merecido por tantos crimes atingirá a geração atual (Matth., xxiii, 29-36). Antes de matar os apóstolos, os judeus deviam golpear de morte Jesus, reconhecido justo e inocente por Pilatos, e chamar, sobre suas cabeças e sobre as de seus filhos, a vingança de seu sangue (Matth., xxvii, 24-25). Era por ciúme que eles o haviam entregue aos juízes (Matth., xxvii, 18), como Caim havia matado Abel. Já, no curso de sua vida pública, eles haviam querido apedrejá-lo por causa do bem que ele realizava (Joa., x, 32). Os vinhateiros homicidas que, após terem golpeado, matado ou apedrejado os servos do pai de família, se apoderaram de seu filho, lançaram-no fora da vinha e o mataram (Matth., xxi, 35-39), eram a imagem dos judeus, que imolaram o Filho de Deus. A morte de Jesus não se assemelhava apenas à de Abel por essas circunstâncias exteriores; ela tinha uma virtude maior junto a Deus. O sangue de Abel havia gritado vingança para o céu (Gen., iv, 10), e assim, em razão de sua fé, este justo havia ainda falado após sua morte (Hebr., xi, 4). Mas o sangue derramado de Jesus, o mediador da nova aliança, havia sido mais eloquente que o de Abel (Hebr., xii, 24); este último gritava vingança; o do Salvador gritava para implorar a clemência e o perdão.
Os Padres desenvolveram este aspecto novo de Abel, figura do Cristo. Vários celebraram Abel como o primeiro dos mártires. "Imitemos, meus irmãos bem-amados", escrevia São Cipriano (Epist., lviii, De exhortatione martyrii, n. 5, P. L., t. iv, col. 353), "o justo Abel que inaugurou o martírio, já que o primeiro ele foi morto pela justiça." Abel, diz ele alhures (De orat. domin., n. 24, col. 536), que havia oferecido a Deus um sacrifício, foi ele mesmo mais tarde sacrificado ao Senhor de tal sorte que, dando o primeiro o exemplo do martírio, ele anunciou o primeiro, pela glória de seu sangue, a paixão do Senhor, ele que havia tido a justiça de Deus e sua paz. E ainda (De bono patientiae, n. 10, col. 628), os patriarcas, os profetas e os justos, que foram de antemão as imagens do Cristo, foram todos modelos de paciência. Tal Abel, o primeiro mártir e o primeiro justo perseguido, que não resistiu ao seu irmão fratricida, mas se deixou corajosamente matar como uma vítima humilde e doce. Abel, escreve Santo Atanásio (De decretis Nicene synodi, n. 4, P. G., t. xxv, col. 432), sofreu o martírio pela verdadeira doutrina que ele havia aprendido de Adão. Escutemos Santo Agostinho (Op. imp. contra Julianum, l. vi, n° 27, P. L., t. xlv, col. 1575): "Caim foi autor da morte de Abel. A morte deste homem justo foi a obra do homem mau. Abel, que suportou o mal pelo bem, não inaugurou a morte, mas o martírio, sendo a figura daquele que o povo judeu, seu mau irmão, matou." A Igreja, diz ele alhures (Enarrat. in Ps., cxviii, serm. xxix, t. xxxvii, col. 1589), não deixou de existir desde o começo do gênero humano. São Abel foi as primícias, ele que foi imolado em testemunho do sangue do futuro mediador, que devia ser derramado por um irmão ímpio. E ainda (Contra Faustum, l. xii, c. ix-x, t. xlii, col. 258-259): "O Novo Testamento, que honra a Deus pela inocência da graça, é preferido ao Antigo, que honrava o Senhor por obras terrestres, do mesmo que o sacrifício de Caim é rejeitado, enquanto que o de Abel é aceito. Por causa desta preferência, Abel, o irmão caçula, é morto por Caim, o irmão mais velho; assim o Cristo, chefe do povo mais jovem, é morto pelo povo mais antigo dos judeus; um é imolado nos campos, o outro no Calvário. Interrogado por Deus, Caim responde que não sabe onde está seu irmão e que ele não é seu guardião; interrogado sobre o Cristo pela voz das Escrituras que é a voz de Deus, o povo judeu não sabe o que lhe pedem. Caim mente, os judeus negam falsamente. Eles deviam guardar o Cristo, recebendo a fé cristã. A voz divina os acusa na Escritura. O sangue do Cristo tem sobre a terra uma grande voz, quando todos os pagãos, tendo-a ouvido, lhe respondem: Amém. Esta voz brilhante de seu sangue, é aquela que seu sangue exprime pela boca dos fiéis resgatados por ele."
Por sua vez, São Gregório de Nazianzo (Orat., xvi, n. 16, P. G., t. xxxv, col. 956) exclama: "É terrível aos ouvidos de Deus ouvir a voz de Abel que fala por meio de seu sangue mudo." Segundo São Crisóstomo (Adversus Judaeos, viii, 8, P. G., t. xlviii, col. 939-940), Abel foi morto porque oferecera uma vítima melhor que a de Caim. Teria ele sido privado da coroa do martírio? Quem ousaria sustentá-lo? Segundo o testemunho de São Paulo, é necessário incluí-lo no número dos primeiros mártires. Conforme Basílio de Selêucia (Orat., iv, n. 1, P. G., t. lxxxv, col. 64-65), o justo Abel passou primeiro pelas portas da morte. Nisso, ele foi a sombra de Cristo. Convinha pressagiar o dogma assegurado da ressurreição pelo sangue de um justo. A morte, que golpeava um inocente, deveria um dia ser vencida, e Cristo é o primeiro que ressuscitou. O autor do Liber de promissionibus et praedictionibus Dei, part. i, c. vi, P. L., t. li, col. 738, diz que Abel é a figura de Cristo, pastor de ovelhas, que foi morto pelo povo judeu. Um sermão, atribuído a São Leão Magno (Serm., iii, De pascha, P. L., t. liv, col. 1134), contém esta verdade de que o Messias foi imolado na pessoa de Abel. São Máximo de Turim (Homil., iv, P. L., t. lvii, col. 355-356) repete que, para figurar Jesus Cristo, o justo Abel foi morto e o inocente degolado pela impiedade, por assim dizer judaica, de seu irmão. São Paulino de Nola escreve, por sua vez (Epist., xxxvii, n. 3, P. L., t. lxi, col. 359): "Desde o começo dos séculos, Cristo sofreu em todos os seus; na pessoa de Abel, ele foi morto por seu irmão." Alcuíno (Comment. in Joan., l. i, P. L., t. c, col. 768) diz no mesmo sentido: "Na primeira idade do mundo, Abel, o justo, foi morto por seu irmão. O assassinato de Abel prefigura a paixão do Salvador; a terra que abre sua boca e bebe o sangue da vítima é a Igreja que recebe o sangue de Cristo, derramado pelos judeus para o mistério de sua redenção." São Pascásio Radberto (Exposit. in Matth., l. ix, c. xxvi, P. L., t. cxx, col. 675) expõe dois aspectos do caráter figurativo de Abel. Abel é a primeira figura de Cristo: ele o representou oferecendo e imolando um cordeiro; mostrava assim o cordeiro que devia vir. Ele mesmo foi imolado para prefigurá-lo e ser, por seu sangue, uma testemunha fiel. Aqui ainda, a tradição monumental expressou a mesma ideia que a tradição escrita. Sobre um vitral de Cantuária, que data do século XIII, Abel, por sua triste morte, figura Cristo imolado. Signat Abel Christi pia funera funere tristi (Barbier de Montault, Traité d'iconographie, t. ii, p. 46).
Os escritores eclesiásticos, cujos testemunhos reportamos até aqui, não vislumbraram senão um único aspecto do caráter figurativo de Abel. Outros reuniram todos os traços esparsos e fizeram uma descrição de conjunto. São Cirilo de Alexandria (Glaphyr. in Genes., l. i, n. 3, P. G., t. lxix, col. 40-44) reconheceu em Caim e Abel o mistério do Cristo por quem fomos salvos. Caim representa Israel, o primogênito de Deus; Abel, que era pastor, é a figura de Emanuel, o chefe do rebanho; como justo, ele prefigura o Cristo inocente que, em sua qualidade de sacerdote, ofereceu um sacrifício superior aos sacrifícios da lei. Israel, invejoso, fez perecer o Cristo, e o sangue de Jesus clama vingança contra os judeus deicidas.
Entre as obras de São Crisóstomo, imprimiu-se um fragmento apócrifo, De sacrificiis Caini, de donis Abelis, etc., P. G., t. LXII, col. 719-722, cujo autor observa em Abel vários traços de semelhança com o Cristo. Da mesma forma que o Salvador foi o chefe daqueles que foram regenerados após a lei, e o primeiro justo, assim Abel foi o príncipe da justiça entre os primeiros homens. Ele foi também o primeiro que combateu pela justiça e que foi coroado por Deus. Nisso, ainda, ele foi a imagem do Cristo que sofreu pela justiça. O sangue de Abel tem muita afinidade com o sangue de Cristo. Eles ensinam ao mundo inteiro a piedade. Eles clamam ambos, um suplicando, o outro concedendo o perdão. Abel, que era inocente, morre o primeiro, carregando a pena do pecado de seu pai culpado; o Cristo morre para expiar as faltas do gênero humano inteiro.
Um comentário do Apocalipse, inserido entre as obras de Santo Ambrósio, In Apoc. exposit., P. L., t. XVII, col. 813, contém um quadro análogo. Caim é a representação do povo judeu; Abel, a do Cristo. O sacrifício de Caim simboliza os sacrifícios temporais do judaísmo; o sacrifício de Abel, enquanto é a oferta das primícias do rebanho, simboliza os apóstolos, que são os primogênitos da Igreja; enquanto é a oferta da gordura das vítimas, simboliza a fé dos apóstolos. O Cristo ofereceu ao seu Pai os apóstolos e sua fé. Caim, assassino de Abel, é a figura dos judeus que fazem morrer Jesus Cristo e que, em punição a este crime, tornaram-se um povo maldito, vagabundo sobre a terra.
O abade Rupert, De Trinitate et operibus ejus, In Genes., l. IV, c. 1, IV e V, P. L., t. CLXVII, col. 326, 328-330, chamou Abel de a primeira testemunha de Jesus Cristo. Seu sacrifício, que vale pela fé, é a figura da paixão. Tudo o que fez Abel é uma parábola do Cristo. Pastor de ovelhas, ele representa o bom pastor, morto por Anás e Caifás. O sacrifício de Caim é a páscoa judaica, que é morta e inanimada; o sacrifício de Abel é a páscoa cristã, que contém o verdadeiro Cordeiro de Deus oferecido sob as aparências do pão e do vinho. O sacrifício eucarístico é gordo; ele é espírito e verdade. Abel, assassinado no campo, anuncia Jesus Cristo que sofreu fora das portas de Jerusalém.
Finalmente, São Brunão (Asti, bispo de Segni, Exposit. in Gen., P. L., t. CLXXIV, col. 172-173) reconheceu em Abel, pastor, o Cristo de quem somos as ovelhas e que os judeus, seus irmãos, fizeram cruelmente morrer. Caim é imagem do povo judeu; Abel, a do Cristo crucificado fora da cidade; seu sangue que clama, a do Cristo que pede perdão. Ele clama ainda, para representar a Igreja que guarda a lembrança da paixão. Os teólogos e exegetas modernos não esqueceram o ensinamento da antiguidade sobre Abel, figura do Cristo.
Sinalizemos apenas Bossuet, Élévations sur les mystères, 8ª semana, 4ª elevação; Œuvres complètes, Besançon, 1836, t. III, p. 58-59, e Monsenhor Meignan, Les prophéties contenues dans les deux premiers livres des Rois, Paris, 1878, p. LV, e L’Ancien Testament dans ses rapports avec le Nouveau, De Eden à Moïse, Paris, 1895, p. 195-201.
Autor original: E. MANGENOT