NARY Cornélio (1660-1738), eclesiástico irlandês. Nascido em 1660 no condado de Kildare, ordenado sacerdote em 1682, veio completar seus estudos teológicos no colégio irlandês em Paris, obteve a licença em teologia e o doutorado em direito em 1694. Em 1696, deixa a França, vem a Londres para fazer a educação dos filhos do conde de Antrim; de volta a Dublim em 1702, foi nomeado cura de Saint-Michon, função que conservou até sua morte, em 3 de março de 1738.
Sua obra literária, bastante importante, compreende obras de polêmica e de pastoral. Destacam-se as seguintes: 1° A modest and true account of the chief points in controversy between the roman Catholics and the Protestants, in-8°, Antuérpia e Londres, 1699. 2° The New Testament translated into english from the latin, with marginal notes, in-8°, Londres, 1705 e 1718. O livro, suspeito de favorecer o jansenismo, foi proibido pelo Santo Ofício em 1722. Ver Billesheim, Gesch. der kath. Kirche in Irland, t. iii, p. 715, nota. 3° A brief history of St. Patricks purgatory and its pilgrimages, in-12, Dublim, 1718. — 4° A letter to His Grace Edward, Lord Archbishop of Tuam, in answer to his charitable address to all who are of the communion of the Church of Rome, in-8°, Dublim, 1719, 1720, 1728. 5° A new history of the World, containing an historical and chronological account of the times and transactions from the creation to the birth of Christ according to the compilation of the Septuagint, in-fol., Dublim, 1720. 6° The case of Ireland, Dublim, 1723. 7° Deixou manuscrito An argument showing the difficulties in sacred Writ as well in the Old as New Testament, que foi publicado por um de seus amigos com algumas peças de controvérsia contra o arcebispo de Tuam.
Nary também é considerado o tradutor das obras do converso francês Isaac Papin, que haviam sido publicadas em Paris, em 1723, sob o título Recueil des ouvrages composés par feu M. Papin en faveur de la religion. Moréri, Le grand dictionnaire, edição de 1759, t. vii, p. 922, no verbete Nari, de onde a notícia passou para Richard e Giraud, Bibliothèque sacrée, t. xvii, p. 341; algumas indicações novas na National Biography, t. xl, 1894, p. 35; e em Hurter, Nomenclator, 3ª edição, t. iv, col. 1133; ver também Billisheim, Geschichte der katholischen Kirche in Irland, t. iii, Mayence, 1891, p. 714-715.
É. Amann.
NAS João, frade menor, ignorado até os nossos dias, foi um dos adversários mais temíveis dos protagonistas da Reforma. Lemos sobre ele, nos anais de Ingolstadt, a frase significativa: Nasus magnus certe et omnis hæresis mastix et schismaticorum vexator.
I. Vida. — Nascido em Eltmann-sur-Mein, na Franconia, em 19 de março de 1534, perdeu o pai muito jovem. Deixou, aos doze anos de idade, o teto paterno e foi morar em Bamberg, onde aprendeu o ofício de alfaiate, que exerceu sucessivamente em Nuremberga, Ratisbona e Augsburgo. Aprendeu a conhecer nessas cidades os defensores e propagadores da Reforma e aliou-se a eles. Visitou regularmente seus templos, assistiu a seus cultos, escutou seus sermões e viveu continuamente em sua companhia. Estava, ao final, tão imbuído dos princípios da Reforma que pouco faltou para que renunciasse à religião católica.
Em 1551, veio a Munique, onde, em 1552, o livro da Imitação de Cristo lhe caiu nas mãos. A leitura dessa obra mudou completamente Nas, que abandonou a Reforma e renunciou a todo trato com os defensores do protestantismo. Foi ainda mais longe e ingressou, como irmão leigo, no convento dos frades menores de Munique, onde, em 5 de agosto de 1553, fez sua profissão religiosa.
Impelido pelo desejo irresistível do sacerdócio e querendo defender a verdade católica contra seus antigos amigos da Reforma, o Frei Nas aplicou-se, durante as horas silenciosas da noite, a aprender latim. Tendo conseguido, em pouco tempo, ler e compreender os clássicos latinos, foi admitido entre os clérigos de sua ordem e, já em 1557, foi ordenado sacerdote em Freising.
Foi enviado, depois, por seus superiores à universidade de Ingolstadt, onde frequentou os cursos dos célebres jesuítas Canísio, Le Jay e Salmerón, e entrou em relações com os protagonistas do catolicismo, Staphylus, Eisengrein e Caspar Frank. Tornado pregador do convento de Ingolstadt, em 1560, continuando ao mesmo tempo seus estudos na universidade, pregou nas principais cidades da Alemanha, em Ulm, Munique, Wurzburgo, Straubing, etc. Atacou tão habilmente o protestantismo em todos os seus sermões, que os defensores da Reforma o consideravam um de seus adversários mais temíveis, e atentaram mais de uma vez contra sua vida.
Em 1569, foi nomeado guardião do convento de Ingolstadt e custódio da província de Estrasburgo. Quando, em 1579, estava em Roma para a eleição de um ministro geral, Pio V o nomeou pregador apostólico, em reconhecimento dos eminentes serviços prestados à Igreja. De volta à sua pátria, o geral nomeou o Padre Nas comissário das províncias de Estrasburgo, Áustria e Boêmia, e o arquiduque Fernando confiou-lhe, em 1572, após a partida de São Canísio para Roma, o cargo de pregador da corte em Innsbruck. Continuou a pregar contra o protestantismo em Dillingen, Augsburgo, etc. Gregório XIII o designou, em 1578, como comissário de todos os conventos dos frades menores situados no território do arquiduque Fernando.
No início do ano de 1580, Nas foi eleito sufragâneo do bispo de Brixen, e, em 9 de setembro do mesmo ano, foi sagrado bispo de Bellin. Após dez anos de ministério frutuoso, morreu em 16 de maio de 1590 em Innsbruck, onde havia sido convocado para a dieta pelo arquiduque Fernando. Foi enterrado na igreja dos frades menores de Innsbruck.
II. Obras. — Nas tornou-se célebre principalmente por suas obras polêmicas e seus sermões.
1° Obras polêmicas. O trabalho mais conhecido de Nas é uma obra em seis volumes, publicada sob o nome de Six centuries. Nela refuta as doutrinas dos protestantes, ataca seus costumes, divulga suas falsificações da Sagrada Escritura e ataca em particular vários chefes da Reforma: Erasmo, Rauscher, Alber, Aurifaber, Brentius, Hesshusius, Flacius, Musculus, Osiander, Spangenberg, Jac. Andréa, Cœlestinus, etc.
Os títulos respectivos dos seis volumes dessas notáveis obras são: a) Das antipapistisch und eins hundert Ausserlessner, gewiser, evangelischer Warhait, bey woelchen (als bey den früchten der Baum) die reyn lehr soll und muss erkannt werden, Ingolstadt, 1565, 1567 e 1570; b) Secunda centuria, an welchen, als bey den Früchten der Baum, unserer widersacher irrige lehr, belung und thorhait menigklich entdecket wirdt, Ingolstadt, 1567, 1568 e 1570; c) Tertia centuria, Das ist, das dritte Hundert, der gedoppelten evangelosen warhait, betreffendt D. Luthers lehr und dolmetschung der Bibel, Ingolstadt, s. a., 1568, 1569, 1570; d) Quarta centuria, Das ist, das vierdt hundert der vierfach evangelischen warhait in welchen das elendt Lutherthumb, dermassen geanatomiert ist, also, dass man vil hundert, ja ein rechts Pantheon, allerlay bösen frücht, des verfluchten evangelischen Feygenbaums, zusamb gelesen, und behalten findt, Ingolstadt, 1568 e 1570; e) Quinta centuria, Das ist, das fünfft Hundert der evangelischen Warhait, darinn mit fleiss beschriben wirdt der gantz handel, anfang, lebens und todts des thewren manns, D. Martin Luthers, Ingolstadt, 1570; f) Sexta centuria Prodromus, Das ist, Ein Vortrab und Morgengab, dess sechsten hundert evangeloser warhait, in hundert puncten, Antwart und Widerfrag gestellt, die vermeinten Hosinandrinischen ableynung belanget, Ingolstadt, 1569; g) Auserlessne evangelische Warhait, Sechs Hundert, Ingolstadt, 1568.
Entre as outras obras polêmicas de Nas, citemos as principais: 1. Antigratulatio. É uma resposta à Gratulatio de Jacques Andréa, que sustenta que os pregadores e os professores do ducado da Baviera se tornaram luteranos, Ingolstadt, 1568. 2. Widereinwarnung, exortação na qual previne o povo alemão contra as falsas doutrinas e contra os abusos do protestantismo, Ingolstadt, 1577. 3. Widerlegung des falschen scheingründischen Buchs, durch Josuam Opitium gemacht. Nela refuta as teorias de Josué Opitius a respeito do sacramento da eucaristia, e prova que Cristo o instituiu sob as duas espécies, Ingolstadt, 1577. 4. Examen chartaceæ lutheranorum concordiæ, Ingolstadt, 1581 (muito raro). 5. Angelus paræneticus contra solam fidem delegatus, Ingolstadt, 1588. Um anjo explica por que, do grande número de fiéis que são chamados à salvação, haverá apenas um pequeno número de eleitos. 6. Prœludium in centurias hominum sola fide perditorum, Ingolstadt, 1588: réplica às Centuriæ quinque testimoniorum de sola fide de Jean Wolfram. 7. Concordia, Ingolstadt, 1588. Nas exorta os cristãos a não mais disputarem entre si, mas a se unirem numa mesma fé e a se submeterem ao papa. 8. Nova novorum, in quibus tum auctores, confessio et doctrina libri, quem patres bergenses concordiam vocant, tum vero symbola, predicationes, epistolæ adeoque varia epigrammata, secreta et acta continentur, Ingolstadt, 1581. 9. Casinus Nasi Battimontanus, Ingolstadt, 1571: resposta aos ataques calunhosos de que Nas foi objeto por parte de Nigrinus, Battimontanus, etc. 10. Catechismus catholicus, Ingolstadt, 1567. Esse sumário da doutrina católica, devido a Nas, é citado em L. Wadding, Scriptores ordinis minorum, Roma, 1906, p. 115, em H. Ræss, Die Convertiten, t. i, Friburgo, 1866, p. 313, e em H. Hurter, Nomenclator litterarius theologiæ catholicæ, t. iii, col. 207.
2° Sermões. — Entre as coletâneas mais notáveis é preciso citar: 1. Sieben Predigten vom Sacrament des Altars, Ingolstadt, 1565, nas quais Nas defende o sacramento da eucaristia contra os ataques dos luteranos. 2. Zwei Predigten von des alten und neuwen Glaubens Frucht und Eigenschaft, Ingolstadt, 1567. Nela enumera os frutos e as propriedades da antiga e da nova fé. 3. Schöne christliche newe iahrs Predigt, Ingolstadt, 1567, que dá o verdadeiro sentido do Pater e determina o uso que se deve fazer dele. 4. Zwölff Wollgegründter Predig von der Christlichen Kirchen heiligstem Sacrament des Altars, Ingolstadt, 1568 e Weissenhorn, 1569. Nas expõe aí a doutrina católica sobre o Santíssimo Sacramento do altar e refuta as teorias luteranas e as objeções dos chefes protestantes. 5. Sechs wolgegründter nützlicher hauspredig, Ingolstadt, 1571. O primeiro desses seis sermões trata do matrimônio; o segundo, da vida religiosa; o terceiro, dos defeitos e vícios inerentes a cada um desses dois estados; o quarto apresenta a exposição da oração dominical; o quinto insiste na diferença que existe entre a antiga e a nova fé; o sexto enumera os principais artigos da fé católica. 6. Siebenzehn Predigten, das quais doze sobre o sacramento da eucaristia e cinco sobre a morte temporal e eterna, Ingolstadt, 1572. 7. Zwei Predigten von den Heiligen Gottes im Himmel und Christglaubigen Seelen im evangelischen Kercker (dois sermões sobre os santos do céu e sobre as almas dos fiéis retidas na prisão evangélica), Ingolstadt, 1579. 8. Fünff Herbstpredigten in Trientischen Bistumb gehalten, Ingolstadt, 1580. — 9. Klein Postil von Ostern bis Advent (coletânea homilética da Páscoa até o Advento), Ingolstadt, 1561. 10. Klein Postil von Advent bis Ostern (homilias do Advento até a Páscoa), Ingolstadt, 1572.
3° A essas numerosas obras, é preciso ainda acrescentar duas coletâneas, que contribuíram fortemente para imortalizar o nome de Jean Nas: 1. Ἀντίπραξις τῶν ἀστρολόγων, Das ist die unselig gewisest « practica practicarum », Ingolstadt, 1560, 1567, 1571 e 1572. Os principais acontecimentos que se desenrolarão no curso do ano corrente e do ano seguinte são aí previstos: guerras, mortes, quedas de tronos, etc., assim como o tempo que fará e os eclipses que ocorrerão. 2. Chronologia evangelica, Ingolstadt, 1570. Jean Nas escreveu o prefácio dessa obra, composta por
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