NACCHIANTE OU NACLANTUS (TIAGO)

NACCHIANTE OU NACLANTUS (TIAGO)

NACCHIANTE, NACLANTUS ou Tiago, frade pregador florentino. Depois de tomar o hábito no convento de São Marcos, tornou-se, em Bolonha, condiscípulo do futuro Pio V. Ensinou depois filosofia e teologia no convento da Minerva, em Roma. Paulo III o notou em disputas teológicas e o nomeou, em 1544, bispo de Chiozza, no Estado de Veneza.

A este título, Nacchiante desempenhou um papel ativo no concílio de Trento. Já em 1546, polemizou ali contra os privilégios, abusivos segundo ele, que se concediam no concílio aos abades mitrados. Interveio utilmente em favor de uma maior liberdade de interpretação das sagradas Escrituras nos pontos em que a Igreja nada decidiu. Opôs-se por um instante, com a maior vivacidade, a um decreto que lhe parecia elevar a simples Tradição ao mesmo nível da Escritura inspirada. Teve de se desculpar por ter, a este propósito, tratado os Padres conciliares de ímpios. Como tinha dito que achava «demasiado pesado» o peso que se dava à Tradição, permaneceu suspeito por certo tempo. O secretário do concílio, Massarelli, fez um inquérito em sua diocese, em 1548 e 1549. O inquérito voltou-se sem dúvida a seu favor, pois Nacchiante teve um papel importante nas sessões de 1562. Sobre a residência dos bispos, sobre o caráter sacrificial da Ceia, foi partidário de não tomar decisões demasiado imediatas. Pensou que convinha conceder aos católicos alemães a comunhão sob as duas espécies. Viu-se ainda reaparecer em Trento nas sessões que se prosseguiram sob Júlio III e sob Pio IV.

De costumes pios e aspecto imponente, durante os vinte e cinco anos de sua administração diocesana ou de suas presenças no concílio, mostrou-se extremamente zeloso pela reforma da Igreja e a aplicação dos regulamentos disciplinares de Trento. Morreu em sua cidade episcopal a 6 de março de 1569.

Sua obra doutrinal pessoal foi reeditada em dois in-fólio, Lyon, 1657, paginação única, 750 p. Esta obra compõe-se de diversos tratados, dos quais vários tinham aparecido primeiro separadamente, e cuja primeira edição de conjunto fora publicada em vida do autor, em 1567, em Veneza: Enarrationes piæ, doctæ et catholicæ in epistolam D. Pauli apostoli ad Ephesios, in quibus juxta sacram Scripturam et orthodoxam fidem sunt explicatæ omnes fere difficultates pietatis christianæ, na última edição 132 p. Enarrationes piæ, doctæ et catholicæ in epistolam D. Pauli apostoli ad Romanos, in quibus et contenta et juxta sacram doctrinam et orthodoxam fidem sunt exactissime explicata præcipua christianæ religionis sacramenta, 140 p. Sacræ Scripturæ medulla vel arcanorum Christi, quibus singulæ mundi sunt locupletatæ ætates pia, docta ac clara delectio nec non perexacta discussio, 171 p. Enarrationes seu Tractationes theologales: xviii variæ de sacramentis, eucharistia, papado, sacerdócio de Cristo, reino de Cristo, hierarquia eclesiástica, instituição do episcopado, primazia de São Pedro, autoridade do papa e dos concílios, aprovação papal dos atos conciliares, direito divino, matrimônio, caráter de expiação do santo sacrifício da missa, matrimônios secretos, montes de piedade, 115 p. — Theoremata theologica: Trindade, incarnação, missa, relações entre as pessoas divinas... — Theoremata metaphysica — Theoremata naturalia — Quatuor quæstiones: Criação, imortalidade, contingência, infinidade do primeiro motor.

Nacchiante escreve em estilo preciso, por vezes sóbrio ao excesso. Sua teologia bíblica e sua teologia da Igreja exprimem de maneira bastante característica as tendências dessa Contrarreforma católica que se seguiu à Reforma protestante e da qual ele foi em Trento um dos operários; estritamente tomista, em particular sobre a questão litigiosa da conciliação da atividade livre do homem e da presciência de Deus, relata opiniões taxativas de Caetano dando-lhes a forma ainda mais taxativa de teoremas. Esta maneira de apresentar opiniões difíceis basta para explicar a desaprovação que manifestaram para com estes textos de Nacchiante certos teólogos como d'Argentré. Nacchiante teve em vida uma grande autoridade teológica. Nanni o cita e o trata como igual de Caetano, de Soto e de Carranza.

Quétif-Échard, Scriptores ordinis prædicatorum, t. ii, p. 202, 259; Hurter, Nomenclator, 3ª edição, t. iii, col. 78-80; Pallavicini, Histoire du concile de Trente, edição Migne, t. ii, col. 23, 88, 92, 112, 1114, 1252, 1264; t. iii, col. 877; Concilii Tridentini actorum, t. iv, vol. 1, p. 184, 314, 389, 423; vol. 2, p. 543, 544, 568, 571; t. v, vol. 2, p. xxii, 18, 19, 39, 46, 63, 71, 85, 93.

M.-M. Gorce.

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