CALVINO (JOÃO)

CALVINO (JOÃO)

CALVIN, Jean, chefe da seita religiosa chamada pelo seu nome, calvinista. Sua vida, embora frequentemente estudada, suscita ainda hoje um certo número de problemas. Reservando para o artigo CALVINISMO o estudo de sua doutrina, ocupar-nos-emos unicamente aqui de sua biografia, relacionando as suas obras a cada uma das épocas de sua vida às quais elas pertencem.

— I. Juventude de Calvin. II. Vida, viagens e obras de Calvin de 1533 a 1536. III. Primeira estada de Calvin em Genebra de 1536 a 1538. IV. Calvin em Estrasburgo, 1538-1541. V. Calvin em Genebra de 1541 a 1555; organização da Igreja e da cidade; lutas políticas e religiosas; triunfo de Calvin. VI. O papel de Calvin na Europa e suas obras de 1541 a 1555. VII. Últimos anos de Calvin: sua intervenção nos assuntos religiosos da França; suas últimas obras; sua morte (1555-1564).

I. JUVENTUDE DE CALVIN, 1509-1533. — Foi em 10 de julho de 1509, vinte e cinco anos após Lutero, que nasceu, em Noyon, o homem destinado a exercer sobre a Reforma francesa uma influência mais profunda, e, sobre o protestantismo em geral, uma ação tão poderosa quanto a de Lutero: Jean Calvin (forma tirada do latim), Cauvin (forma picarda), ou Chauvin. Seus ancestrais eram barqueiros no rio Oise e habitavam no vilarejo de Pont-l’Evêque, perto de Noyon. Seu pai, Gérard, foi sucessivamente notário do capítulo, escrivão da oficialidade, promotor do capítulo. Sua mãe, Jeanne Le Franc, era de família rica.

Foi em Noyon, no colégio dos Capettes, que o jovem Calvin recebeu « a primeira disciplina da vida e das letras », e, seguindo o testemunho de Jacques Desmay, doutor de Sorbonne, autor de Remarques sur la vie de Calvin (1621), mostrou-se aí « de bom espírito, de uma prontidão natural para conceber, e inventivo no estudo das letras humanas ». Aos doze anos, foi provido, graças a seu pai, de um pequeno benefício (uma das quatro porções da capela de Gésine) e nessa ocasião recebeu a tonsura. Ele não deveria nunca ir mais longe na carreira das santas ordens.

Em 1523, Jean, aos 14 anos, partiu para Paris e seguiu os cursos do colégio de La Marche, onde teve por mestre o gramático Cordier, que deveria ser mais tarde seu discípulo e morrer em Genebra. Era o ano em que o compatriota de Calvin, Louis Berquin, era lançado pela primeira vez na prisão como suspeito de heresia, e em que o parlamento fazia realizar uma busca exata dos livros luteranos para processar seus autores. Ao mesmo tempo, a família de Calvin, por uma questão de interesse, desentendia-se com o capítulo de Noyon.

Em 1526, Jean Calvin passou para o colégio de Montaigu, então sob a direção de Noël Beda, o pesado adversário de Erasmo e dos humanistas. Estudou filosofia e teologia, leu Duns Scot, saint Bonaventure e saint Thomas. Em 1527, seu pai obteve para ele a cura de Saint-Martin de Martheville, que ele trocou em 1529 pela de Pont-l’Evêque. Até 1526, nenhum distúrbio parece ter surgido no espírito de Calvin; ele era trabalhador, de humor severo, segundo uns, sombrio, segundo outros, além disso, se é preciso acreditar em seu próprio testemunho (Préface au commentaire des Psaumes), « tão obstinadamente dedicado às superstições do papado que era bem difícil que o pudessem tirar desse lamaçal tão profundo. »

Então, segundo dizem muitos historiadores protestantes, já antigos, ter-se-ia passado na alma de Calvin um drama íntimo análogo àquele que revelara a Lutero o grande mistério da justificação pela fé somente. Mas o primeiro e o mais bem informado dos historiadores de Calvin, seu amigo e seu discípulo, Théodore de Bèze, mostra-nos que a primeira causa da transformação de Calvin foi uma influência externa, a de seu primo Pierre-Robert Olivétan, que lhe fez conhecer a nova doutrina. Pode ser também que o espetáculo de homens morrendo por sua fé, em 1526 e 1527, durante a reação antiluterana que seguiu a batalha de Pavia, tenha causado grande impressão sobre a alma do jovem.

Seja como for, é provável que, por volta do fim de 1527, Calvin sentia-se já abalado não apenas em sua vocação eclesiástica, mas em certos princípios católicos. Foi por essa razão que, de acordo com seu pai, no começo de 1528, ele deixou Paris para Orleães e a teologia para o direito, que ele estudou sob o célebre Pierre de l’Estoile? Uma doença chamou-o por algum tempo de volta a Noyon, onde precisamente as opiniões novas começavam a agitar os espíritos e a contar adeptos. Em Orleães, Calvin conheceu o professor luterano Melchior Wolmar, que ele encontraria pouco depois em Bourges, onde a amizade deles se formou.

Licenciado, Calvin passou de Orleães a Bourges, onde ensinava o emulador de Pierre de l’Estoile, Alciat, de Milão, o reformador da ciência do direito que ele vivificava pela história e pela filologia. Em Bourges, Calvin encontrava um centro luterano: professores da universidade, entre outros Wolmar, (em cuja casa ele encontrava Théodore de Bèze criança), e doutores em teologia, como Jean Chaponneau, da abadia de Saint-Ambroise, e o beneditino Jean Michel. As grandes cenas que se passavam então na Alemanha (dieta de Spira de 1529) interessavam ao mais alto ponto mestres e estudantes.

Wolmar, que aperfeiçoou Calvin no estudo das letras, parece ter sido seu principal iniciador religioso. Ao testemunho de Th. de Bèze, Calvin teria mesmo já exercido uma sorte de apostolado, notadamente junto ao senhor de Lignière. Contudo, ele não se acreditava ainda e não estava de fato desligado da Igreja católica. Em 1531, no momento em que seu pai morre excomungado, em consequência de seus desentendimentos com o capítulo de Noyon, sua correspondência não trai nenhum distúrbio de consciência; ele abandona a jurisprudência; pensa-se para ele em uma dignidade eclesiástica; mas ele prefere voltar a Paris para tomar parte no movimento humanista, seguir os cursos de Danés e de Vatable, e publicar ele mesmo, em 1532, um comentário do De clementia de Sénèque, que não supera muito o alcance de um bom exercício de retórica.

Tanto quanto se pode julgar, é de 1531 a 1533 que se situa o que os historiadores protestantes chamam a conversão de Calvin, conversão às suas próprias ideias, diz espiritualmente M. Brunetière. Ela não se fez sem combate, nem dilaceração interior, se é preciso acreditar na famosa carta de Calvin a Sadolet (1º de setembro de 1539). Opera, t. v, p. 385.

Apesar dessa carta, que é um manifesto destinado ao público, os motivos da mudança de Calvin são ainda mal conhecidos; parece, sempre de acordo com o mesmo documento, que as considerações de ordem intelectual tenham sido as primeiras a agir sobre ele. Ergue-se com força contra a escolástica, depois toma por alvo toda a tradição; todo o ensino e toda a disciplina da Igreja lhe parecem corrompidos; Deus fala-lhe e dá-lhe uma missão que ele próprio compara à dos profetas face ao sacerdócio regular de Israel; ele está encarregado de reconduzir a Igreja à sua pureza primitiva.

Não foi o espetáculo dos costumes do clero que o levou a abandonar a Igreja católica; sem dúvida que ele fala disso com uma certa veemência, mas incidentalmente e sem parecer atribuir-lhe uma importância muito grande; o respeito pela Igreja deteve-o mesmo durante algum tempo: Una praesertim res animum ab illis meum avertebat : Ecclesiae reverentia. Ele só cedeu quando se convenceu de que a ideia da verdadeira Igreja lhe tinha sido revelada e sacrificou tudo ao apelo de Jesus Cristo. Eis o que ele afirma na sua carta a Sadolet; mas, no Prefácio ao comentário dos Salmos, ele diz que a sua conversão foi súbita.

No decurso de 1532, por uma causa que não se pode precisar, Calvino decidiu ir novamente a Orleães e foi lá procurador da «nação picarda». Este período da sua vida é obscuro. No mês de agosto de 1533, encontramo-lo em Noyon, em setembro, em Paris, na casa do seu compatriota Etienne de La Forge, rico mercador, que recebia então os reformados e deveria, em 1535, subir à fogueira; no fim de outubro, novamente em Paris, no colégio Fortet.

Nesse momento, os inovadores, encorajados pela proteção de Margarida de Valois e pela política que Francisco I seguia há dois anos, acreditavam poder afirmar a sua doutrina em pleno Paris. Foi Calvino quem, por intermédio do reitor Cop, se encarregou disso. Escreveu o discurso que, no dia de Todos os Santos de 1533, Cop pronunciou (aliás após tê-lo modificado) na igreja dos Mathurins, na presença do corpo universitário. Perto do fim, após diversos ataques, encontrava-se a passagem decisiva: «Hereges, sedutores, impostores malditos, é assim que o mundo e os maus têm o hábito de chamar aqueles que pura e sinceramente se esforçam por insinuar o Evangelho na alma dos fiéis, etc.» Corpus reformatorum, Correspondance de Calvin, n. 19 bis.

Embora o discurso fosse, apesar de tudo, moderado, o escândalo foi imenso. Cop fugiu e refugiou-se em Basileia. Calvino, por seu lado, não esperou pela vinda dos agentes da justiça. Tomou, sob um disfarce, o caminho de Noyon, dizendo, segundo o testemunho de Desmay, a um cónego que encontrou: «Uma vez que estou comprometido, seguirei até ao fim. Todavia, se tivesse de recomeçar, nunca me comprometeria.»

Este acontecimento marca o fim da juventude de Calvino; ele estava no seu 25.º ano; admiravelmente apetrechado com tudo o que podia fazer dele um chefe de escola temível; sabia latim, grego e razoavelmente hebraico; tinha lido muito; era versado no direito e na teologia e estes dois estudos tinham desenvolvido nele a potência dialética; a sua palavra era vigorosa; ele tinha grande confiança no seu espírito e estava persuadido de que ninguém podia ter razão contra ele. A sua juventude tinha sido a de um estudante laborioso, inteligente, enérgico, mas sem paixão, sem heroísmo, sem chama; ele não tinha o temperamento nem de um apóstolo, nem sobretudo de um mártir; quanto aos seus costumes, parecem ter sido regulares; o ato vergonhoso que lhe foi reprovado pertenceria aos meses que se seguiram à sua partida de Paris. Após esta fuga, ia começar para Calvino um período de peregrinações que é uma das menos claras da sua existência.

II. VIDA, VIAGENS E OBRAS DE CALVINO DE 1533 a 1536. — É muito difícil — e não é necessário aqui — procurar estabelecer de forma totalmente exata a ordem cronológica das viagens de Calvino durante estes três anos. Teodoro de Beza assegura-nos que ele regressou a Paris algum tempo depois de dela ter saído e que foi mesmo recebido muito honrosamente por Margarida de Valois. Depois cedeu aos convites reiterados do seu amigo Louis du Tillet, pároco de Claix e cónego de Angoulême, e pôs-se a caminho de Saintonge.

Foi lá que começou a ocupar-se da Psychopannychia contra o erro daqueles que pensam que as almas dormem da morte até ao juízo final, e também dos trabalhos preparatórios do mais importante das suas obras: a Instituição cristã: «Eis, diz o historiador católico contemporâneo de Calvino, Florimond de Raemond, de quem o Sr. Doumergue admite o testemunho (II. VII, c. IX), eis a forja onde este novo Vulcano preparou sobre a bigorna os raios que lançou desde então de todos os lados.» Encorajado e protegido por du Tillet, que tencionava, quanto a ele, permanecer na Igreja, Calvino fazia além disso uma propaganda discreta e prudente. De Angoulême (em abril de 1534), foi a Nérac, onde a rainha Margarida se encontrava com Lefèvre d’Etaples, que, diz Teodoro de Beza, saudou nele o futuro restaurador do reino de Deus em França.

Em março de 1534, Calvino dirigiu-se a Noyon, onde se tinha começado a lutar seriamente contra a heresia, e resignou os seus benefícios. Provocou na catedral, na véspera da Trindade, uma manifestação tumultuosa que lhe valeu ser encarcerado na prisão do cabido. Libertado a 8 de junho, foi reencarcerado a 5, e durante um tempo que não nos é conhecido; sabe-se que ainda estava em Noyon em setembro. Seria este encarceramento a origem da tradição relativa à condenação de Calvino por um crime vergonhoso? O Sr. Abel Lefranc acredita poder afirmá-lo. A dissertação que o Sr. Lefranc consagrou a esta famosa acusação parece-nos decisiva. Enquanto acusação precisa, ela não repousa senão sobre a afirmação justamente suspeita do médico Bolsec na sua Vie de Calvin. Acreditamos que ela deve ser absolutamente rejeitada. Além disso, não se explicaria a autoridade moral que Calvino teve se dizeres tão infamantes tivessem tido qualquer fundamento. As reviravoltas políticas que marcaram o ano de 1534, e as diligências autorizadas por Francisco I junto de Bucer e de Melâncton, permitiram a Calvino dirigir-se a Paris no verão ou no começo do outono de 1534? É provável, em todo o caso ele não fez mais do que lá passar.

Em Poitiers, onde o encontramos a seguir, Calvino, sob o pseudónimo de Charles d’Espeville, parece ter feito uma propaganda bastante ativa, nomeadamente na abadia de Trois-Moutiers; vários dos novos adeptos de Calvino foram enviados, como missionários, para Poitou, Angoumois, Saintonge, Guienne e Languedoc. Em Orleães, Calvino escreveu o primeiro prefácio da sua Psychopannychia (1534), obra exclusivamente teológica, em latim, e que só deveria aparecer em 1542.

O famoso caso dos cartazes afixados contra a missa, na noite de 18 de outubro, determinou a cólera do rei contra os inovadores, acendeu as fogueiras e arrastou a fuga dos reformados mais em vista. Calvino não se sentiu mais em segurança em França; acompanhado de du Tillet, tomou o caminho do exílio. O asilo mais natural, sobretudo para quem desejava escrever, era uma cidade às margens do Reno. Calvino dirigiu-se a Basileia, passando pela Lorena e detendo-se em Estrasburgo. Nesta última cidade, estudou a organização da Igreja reformada e entreteve-se com Bucer, que, muito provavelmente, o pôs a par dos projetos de união discutidos com Francisco I. Talvez tenha sido este projeto, mais conhecido, que determinou Calvino a apressar a publicação do seu livro.

Escondido sob o nome de Martianus Lucanius, fugindo do mundo, compôs e completou a obra que iniciara, a Instituição Cristã, que escreveu primeiramente em latim; a 23 de agosto de 1535, a Epístola dedicatória a Francisco I estava terminada e fazia deste jovem de 26 anos, o seu autor, o chefe da Reforma francesa. A Instituição Cristã foi, pode-se dizer, a obra de toda a vida de Calvino; ele não cessou de retrabalhá-la. A 1ª edição, a de março de 1536, contava apenas seis capítulos, e a de 1559, redação definitiva e última, conta oitenta, divididos em quatro livros. A 1ª edição francesa foi feita sobre a edição latina de 1539 e publicada em 1541 em Estrasburgo; a última que Calvino reviu é a de 1560. Encontrar-se-á a sua análise no artigo CALVINISMO. A Epístola dedicatória revela-nos a intenção do autor; ele quer refutar os reproches endereçados aos seus correligionários, mostrar que eles são os verdadeiros intérpretes e possuidores da doutrina de Jesus Cristo, apelar em favor deles à consciência de Francisco I e convidá-lo a tomar em mãos a defesa da verdade.

Este trabalho concluído, Calvino foi a Ferrara, à casa da filha de Luís XII, a émula mais audaz de Margarida de Navarra, aquela duquesa Renata com a qual ele deveria manter a partir de então uma correspondência espiritual. Apesar da autoridade de Muratori, que o afirma por um simples ouvir dizer, não parece que Calvino tenha tido problemas com a Inquisição, e foi antes por vontade do duque de Ferrara que ele teve de deixar a corte. Na primavera de 1536, sem dúvida favorecido pelo edito de Lyon, Calvino regressou a França, levou consigo o seu irmão Antoine, a sua irmã Marie, alguns amigos, resolveu os seus assuntos e decidiu estabelecer-se em Estrasburgo ou em Basileia. Os perigos da estrada da Lorena, no decurso da guerra entre Carlos V e Francisco I, determinaram-no a passar por Genebra; nos últimos dias de julho de 1536, entrava nesta cidade sobre cujos destinos ele iria exercer, sem o ter esperado, uma tão prodigiosa influência.

III. PRIMEIRA ESTADIA DE CALVINO EM GENEBRA, 1536-1538. — Genebra! Calvino! estes dois nomes estão tão estreitamente ligados um ao outro que parece que a cidade livre e protestante, cujo papel tem sido tão considerável na Europa desde o século XVI, seja inteiramente obra de Calvino. E, contudo, Genebra era livre antes de Calvino; Genebra tinha abraçado a Reforma antes de Calvino; não é o protestantismo que deu a liberdade a Genebra; tal como em qualquer outro lugar, a Reforma não se estabeleceu em Genebra por causas puramente, nem mesmo sobretudo, religiosas; lá como em toda a parte, as circunstâncias políticas tiveram um papel principal; o desejo de sacudir o jugo do duque de Saboia, depois o do seu príncipe-bispo, a aliança, e depois a violenta intervenção dos bernenses, levaram pouco a pouco os genebrinos a aceitar a reforma religiosa que Guilherme Farel lhes pregou clandestinamente desde 1532, e publicamente em 1534.

Não se pode negar, aliás, que a desordem e a desmoralização de Genebra — incluindo o seu clero — na primeira parte do século XVI, tenham feito sentir vivamente a necessidade de uma reforma. A 29 de novembro de 1535, os conselhos de Genebra tinham decretado a abolição da missa e, a 21 de maio de 1536, os cidadãos reunidos em conselho geral tinham ratificado este voto e declarado querer viver sob a lei evangélica: «Tudo estava aparentemente consumado em Genebra, diz Mignet, no seu célebre memorial sobre o estabelecimento da Reforma em Genebra, quando apareceu neste palco, onde acabavam de se realizar várias revoluções, um ator que deveria operar nele uma nova, e ilustrar-se a si mesmo tornando Genebra a capital de uma grande opinião. Este ator foi Calvino.»

Calvino contou ele mesmo, no seu Prefácio ao comentário dos Salmos, esta cena solene, recentemente contestada, mas erradamente, que se passou na hospedaria de Genebra onde se tinha detido por uma noite antes de prosseguir rapidamente a sua viagem até Basileia. «Pouco tempo antes, diz ele, pelos cuidados do excelente Farel e de Pierre Viret, o papismo tinha sido vencido; mas a cidade estava ainda em desordem e presa de más e funestas fações.» Farel, avisado por du Tillet, corre a encontrar Calvino e suplica-lhe que permaneça em Genebra para o ajudar; statim ad me retinendum obnixe nervos omnes intendit. E, como Calvino resiste, Farel chama sobre a sua cabeça a maldição divina: Ubi se vidit rogando nihil proficere, usque ad exsecrationem descendit ut Deus otio meo malediceret, si me a ferendis subsidiis in tanta necessitate subducerem.. Calvino foi vencido, resolveu os seus assuntos em Basileia e, por volta do fim de agosto, começou a exercer as funções de pregador e professor de teologia, dando na catedral de São Pedro lições sobre a Escritura. Mal tinha entrado em funções, começaram as lutas que deveriam, através de diversas vicissitudes, durar mais de vinte anos em Genebra, antes que a autoridade de Calvino e o seu sistema tivessem finalmente triunfado sobre todos os obstáculos.

A causa destas lutas, Calvino indica-a em poucas palavras: «Não pensamos que as nossas funções estejam encerradas em limites tão estreitos que, uma vez pregado o sermão, a nossa tarefa esteja terminada e que não tenhamos mais do que descansar.» Opera, t. v, p. 319.

O que ele quer é uma reforma completa de Genebra, reforma que atingirá as instituições eclesiásticas e as instituições políticas, a doutrina religiosa e os costumes privados; no fundo, o que ele tende a estabelecer é um regime teocrático; ser-lhe-á necessário muito tempo para o realizar, mas enfim ele realizá-lo-á, ou quase, nos últimos nove anos da sua vida, de 1555 a 1564. Levantam-se frequentemente, não apenas entre os livre-pensadores, mas entre os católicos, contra uma tal conceção; subordinar tudo à doutrina e à moral não é contrário nem ao espírito do cristianismo, nem ao da Igreja católica; que os católicos reprovem Calvino por ter colocado este princípio ao serviço de uma falsa doutrina, têm razão; mas terão eles o direito de se levantar contra o princípio em si?

Desde as primeiras lições de Calvino, os murmúrios eclodiram. Dizia-se que ele estava encarregado de explicar a Escritura: com que direito se punha a censurar os costumes e a desempenhar o papel de confessor e penitenciário da cidade? Para chegar ao objetivo que o reformador se propunha, era preciso primeiro determinar com precisão as regras disciplinares e as crenças da nova Igreja. Em 10 de novembro de 1536, os articuli de regimine Ecclesiae foram lidos e examinados pelo Conselho: seu redator era Calvino.

Os artigos ocupam-se, acima de tudo, da ceia e das condições exigidas para participar dela: « Pour ceste cause, nostre Seigneur a mise en son Esglise la correction et discipline d’excommunication, par laquelle il a voullu que ceux qui seroyent de vie désordonnée et indigne d’ung crestien, et qui mespriseroyent, aprés avoyr esté admonestez de venir à amendement et se réduire à la droicte voye, fussent déjectéz du corps de l’Esglise et, quasi comme membres pourris, couppez jusques à ce qu'ils revinssent à résipiscence, recognoyssent leur faulte et pauvreté. » Pessoas seriam designadas em cada bairro da cidade para vigiar a vida de cada um e denunciar aqueles cuja conduta fosse repreensível. Em 16 de janeiro de 1537, os artigos foram definitivamente adotados pelos dois Conselhos.

É no início de 1537 que apareceu, em francês, o primeiro Catecismo calvinista, reimpresso em 1878: « Ce catéchisme, dit M. A. Rilliet, est, vu la brièveté et la netteté de l’exposition, la source où l’on peut le plus souvent puiser, sous une forme authentique, la connaissance de ce grand système religieux. C’est, pour ainsi dire, le calvinisme en raccourci. » O primeiro catecismo de Calvino era um breve resumo da Instituição cristã; o autor publicou-o no ano seguinte, 1538, em latim, e deu-lhe, em 1541, uma nova edição francesa, por perguntas e respostas, mais ao alcance das crianças.

Os artigos tinham decidido que os genebrinos teriam de fazer uma profissão de fé. O Catecismo foi, portanto, seguido por outro documento redigido por Farel ou por Calvino — a questão não está dirimida — e intitulado: « Confession de la foy laquelle tous bourgeois et habitants de Genève et subjectz du pays doyvent jurer de garder et tenir, extraicte de l’Instruction dont on use en l'Eglise de la dite ville. »

Em Genebra, diz o Sr. Doumergue, t. II, p. 237, « non seulement ceux qui n’ont pas la foi de l’Eglise n’en sont pas légitimement membres et devront être laissés en dehors : mais c’est le Conseil qui approuvera la confession de foi, qui commandera et recueillera les adhésions, c’est le secrétaire du Conseil qui montera dans la chaire de Saint-Pierre pour réclamer le serment, et les citoyens qui ne voudront pas le prêter seront punis par l’exil. » — « Pour produire une œuvre aussi exceptionnelle que la Genève nécessaire à la Réformation, ajoute le même auteur, p. 246, il fallait des moyens héroïques. »

Assim, dois leigos, Farel e Calvino, sem outra missão além daquela que eles próprios se atribuíram, ditam a Genebra o que ela deve crer e o que ela deve praticar; exigem de cada genebrino uma adesão pessoal, sob pena de banimento; e Genebra inclina-se; após algumas protestações do partido da liberdade, dos Eidgenots, que contribuíram para atrasar em vários meses a execução do artigo relativo à profissão de fé, em 27 de julho de 1537, « sur une grosse admonition » de Farel e de Calvino, o Conselho decidiu acabar com isso.

No dia 29, os « pregadores » obtêm o voto do Conselho dos Duzentos. Os chefes de dezena são convocados a prestar contas de sua crença; todos aqueles que não dessem uma resposta suficiente seriam revogados; os outros deveriam exortar as pessoas de sua dezena a seguir os mandamentos de Deus, sob ameaça de denunciá-las caso não se submetessem, e levá-las a Saint-Pierre, dezena por dezena, para declarar se querem observar a confissão. Os magistrados e uma parte dos habitantes prestam juramento sem demora. Mas a oposição continua a agir: as abstenções são numerosas.

Em 12 e 15 de novembro, o Conselho, depois o Conselho dos Duzentos, notificam aos recalcitrantes que « s’ils ne veulent pas jurer la réformation, ils aient à vider la ville et aillent demeurer autre part, où ils vivront à leur plaisir ». Abandonados pelos bernenses, eles cedem, com poucas exceções, no início de janeiro de 1538.

Então, Farel e Calvino emitem novas exigências; à questão da profissão de fé, fazem suceder a da excomunhão. Dessa excomunhão, isto é, da exclusão da ceia, os ministros pretendem ser juízes; a eles cabe a vigilância da vida privada e as consequências que dela decorrem. Essa santa disciplina da excomunhão tornar-se-á a peça mestra do sistema de Calvino. Com ela, ele é o mestre; sem ela, está reduzido à impotência. Por isso, trava a esse propósito o combate decisivo. O Conselho dos Duzentos decide primeiro (4 de janeiro) « qu’on ne refusera la cène à personne, même aux contrariants à l’union »; em 3 e 4 de fevereiro de 1538, as eleições levam ao poder quatro síndicos e um grande número de conselheiros do partido da liberdade; então começa uma campanha do Conselho contra a pretensão dos pregadores de julgar em seus sermões os atos do governo e a conduta dos particulares; depois, as dificuldades duplicam-se com um conflito com Berna, que se julgava com o direito de exercer sobre Genebra uma espécie de patronato espiritual.

Já em 1537, a acusação de arianismo, feita por Caroli, primeiro pastor de Lausanne, contra Farel e Calvino, e a violenta e grosseira disputa que se seguiu entre os inovadores, tinham tornado a fé dos pregadores franceses de Genebra um tanto suspeita aos bernenses; agora, eles incriminavam as inovações litúrgicas de Farel e de Calvino. Assim, Genebra comungava com pão comum, Berna com pão ázimo; Genebra tinha removido as fontes batismais das igrejas, Berna as tinha conservado; Genebra não reconhecia senão o domingo, Berna tinha guardado várias festas. Os bernenses reclamaram a conformidade. O Conselho de Genebra decidiu a adoção das cerimônias bernenses.

Calvino, para defender a independência da Igreja e a de sua Igreja, reclamou a reunião de um grande sínodo. Berna tinha convocado um sínodo em Lausanne para 31 de março, mas os pregadores genebrinos só seriam admitidos se tivessem, previamente, « accordé de se conformer aux usages bernois touchant les cérémonies ». Farel e Calvino foram ao sínodo e não falaram; encerradas as sessões, entraram em conversações e pediram o adiamento até o próximo sínodo de Zurique.

Berna recusou e notificou em 15 de abril sua decisão ao Conselho de Genebra; a aproximação da festa da Páscoa, que caía em 21 de abril, tornava a crise iminente. No dia 19, o Conselho pediu a Farel e a Calvino se queriam conformar-se ao cerimonial de Berna, isto é, distribuir a ceia com pão sem fermento. Declararam que não. No dia de Páscoa, pregam apesar da proibição, Farel em Saint-Gervais e Calvino em Saint-Pierre; recusam-se a distribuir a ceia. Tumultos eclodem.

Em 22 de abril, o Conselho dos Duzentos, e no dia 23, o Conselho Geral, pronunciam o banimento de Couraud, de Farel e de Calvino; o Conselho Geral acrescentara "imediato". Calvino saiu de Genebra no mesmo dia ou no dia seguinte. Após uma curta estadia em Berna para explicar, do seu ponto de vista, o que tinha acontecido, Farel e Calvino dirigiram-se a Zurique; e o sínodo desta cidade decidiu que interviria junto do Conselho de Berna para que, por sua vez, este se entendesse com o de Genebra. Esta diligência teve lugar; mas, apesar dos esforços dos deputados bernenses que tentaram fazer com que Calvino e Farel regressassem à cidade, o Conselho Geral confirmou a sentença de exílio proferida no mês anterior.

A coragem e a intransigência das quais dava provas em Genebra, Calvino exigia-as dos seus correligionários da França perseguidos. Alguns deles acreditavam poder, por prudência, assistir às cerimónias papistas; sacerdotes, como Gérard Roussel, que tinham "conhecido o Evangelho", conservavam ou aceitavam dignidades eclesiásticas. Calvino trata uns e outros de nicodemitas, e dirige-lhes estas duas cartas-tratados, de 1537, em latim: De fugiendis impiorum illicitis sacris e De papisticis sacerdotiis vel administrandis vel abjiciendis.

IV. CALVINO EM ESTRASBURGO, 1538-1541. — Farel e Calvino dirigiram-se a Basileia; Calvino aí permaneceu dois meses e meio; depois foi para Estrasburgo, onde o chamavam Bucer, Capito e Sturm. O Conselho da cidade autorizou-o a dar lições públicas sobre a Escritura sagrada, depois a organizar em Igreja os refugiados franceses, em número de cerca de 1500, que a perseguição tinha atirado para Estrasburgo. Foi o seu primeiro pastor.

Calvino não esquecia, aliás, a sua Igreja de Genebra, como testemunha a sua carta de 1 de outubro de 1538 A meus bem-amados irmãos em N.-S. que são as relíquias da dissipação da Igreja de Genebra, onde exorta os genebrinos que permaneceram fiéis a perseverar apesar dos esforços dos ímpios. Após a sua partida, os Conselhos de Genebra tinham-se apressado a estabelecer o rito bernense e tinham aproveitado a sua vitória para administrar mais do que nunca, sem ou contra os ministros, os assuntos da Igreja. É pela autoridade e pela força que eles também empreendiam implantar a reforma religiosa tal como a entendiam.

Contudo, os católicos escondidos, um pouco menos oprimidos, recuperavam alguma esperança, tanto mais que se sentiam apoiados pelos partidários da liberdade. É este estado de espírito que determinou a famosa diligência do cardeal Sadoleto, a sua carta aos genebrinos de 18 de março de 1539. Calvino opôs-lhe uma resposta muito longa, com data de 1 de setembro, onde, apesar de demasiada vivacidade e ataques pessoais, tratou com uma grande riqueza de conhecimentos teológicos e uma forte eloquência todas as questões agitadas entre a Reforma e o catolicismo.

Esta carta não podia senão aumentar ainda mais a importância de Calvino no campo reformado. Por isso, foi deputado pela Igreja de Estrasburgo à conferência de Frankfurt, em 1539, aos colóquios de Haguenau em 1540, de Worms e de Ratisbona em 1541. Foi então que entrou em contacto com os homens e as coisas da Alemanha, com Melanchthon em particular (Calvino e Lutero nunca se viram) e que se iniciou no movimento geral da Reforma. É inútil salientar a importância deste facto, no momento em que Calvino ia ser chamado de volta a Genebra e fazer dela, desta vez, como se disse, a Roma do protestantismo.

Calvino não deveria regressar sozinho a Genebra; tinha-se casado no mês de setembro de 1540. O seu casamento não é um escândalo como o de outros reformadores, de Lutero e de Bucer, por exemplo, uma vez que, ao contraí-lo, Calvino não violava qualquer compromisso sagrado. A sua mulher, Idelette de Bure, viúva de um anabatista de Estrasburgo, que Calvino tinha convertido, parece ter sido uma pessoa muito honesta; Calvino teve a dor de a perder ao fim de nove anos (1549); não tinha tido dela senão um filho que viveu apenas alguns dias.

Entretanto, o partido no poder em Genebra tinha sacrificado em parte aos bernenses a independência política da cidade, bem como a sua independência religiosa; assim, vários membros do partido nacional voltaram para Calvino; divisões produziram-se entre os seus adversários; a anarquia em que caiu Genebra completou a sua derrota. As eleições do início de 1540 foram favoráveis aos amigos dos ministros banidos. A partir do mês de setembro, negociaram o regresso de Calvino; este não cedeu senão ao fim de um ano (agosto de 1541) aos seus apelos reiterados. No dia 13 de setembro de 1541, os registos do Conselho informam-nos que "Maistre Jehan Calvin est arrivé de Strasbourg".

V. CALVINO EM GENEBRA DE 1541 A 1555; ORGANIZAÇÃO DA IGREJA E DA CIDADE; LUTAS POLÍTICAS E RELIGIOSAS; TRIUNFO DE CALVINO.

— No momento em que Calvino regressava a Genebra, as suas ideias estavam nitidamente definidas; com 32 anos, apesar de enfermidades prematuras, sentia que o futuro estava diante de si; tinha compreendido que, depois de tantas revoluções, Genebra aceitaria uma espécie de despotismo, desde que ele não recordasse em nada o das autoridades contra as quais ela tinha lutado; sentia que, por reação contra os costumes fáceis da época precedente, se aceitaria também que esse despotismo tivesse ares puritanos; com isso, ele podia constituir a cidade modelo do protestantismo, não sem se deparar ainda com resistências muito grandes, mas, dessas resistências, ele triunfará.

A primeira de todas as obras para ele deveria ser, ao regressar a Genebra, proceder à constituição da nova Igreja. Não perdeu tempo com isso; tinha regressado no dia 10 de setembro de 1541; no dia 13, pedia que se redigissem por escrito as ordenanças destinadas a regular a organização da Igreja reformada de Genebra e a assegurar a prática da vida cristã por parte dos habitantes da república. No dia 16, esta proposta era adotada pelo grande e pelo pequeno Conselhos e ficou acordado que seis membros do Conselho se entenderiam com os ministros ou senhores pregadores para redigir "as ordenanças sobre a ordem da Igreja, com um modo de viver, a fim de saber como cada um se deverá conduzir segundo Deus e justiça". No dia 20 de novembro, o trabalho estava terminado e sancionado. "Há, diz a ordenança, quatro ordens ou espécies de cargos que N.-S. instituiu para o governo ordinário da sua Igreja, a saber: os pastores, depois os doutores, a seguir os anciãos, quartamente os diáconos." A ordenança determina as funções destas quatro ordens e especifica o apelo "ao magistrado" para pôr termo às controvérsias doutrinárias.

Ao lado, fora e, talvez, fosse preciso dizer, acima dessas funções regulares, Calvino estabeleceu uma instituição que traz ainda mais especialmente a marca de seu espírito, e que estava destinada a ocupar um grande lugar na sociedade religiosa inaugurada em Genebra: é o Consistório. O Consistório, que hoje não passa do corpo administrativo da Igreja, era, sob Calvino, o guardião das ordenanças e, particularmente, um tribunal de costumes. Composto por seis pastores e doze anciãos, reunia-se todas as semanas; convocava à sua barra os pecadores públicos; quanto às faltas ocultas, «que ninguém leve o seu próximo ao Consistório» antes de ter tentado, segundo a ordem de Jesus Cristo, «levá-lo em segredo ao arrependimento».

Será excomungado, isto é, excluído da ceia, qualquer um que recusar reconhecer-se culpado e corrigir-se; serão banidos aqueles que a excomunhão não tiver podido vencer; a cada ano, em companhia de um ministro, os anciãos deviam ir às famílias exigir formulários de fé; delatores subalternos, guardas da cidade ou guardas do campo, deviam tomar nota dos pecados cometidos contra Deus ou contra o próximo para denunciá-los à autoridade; as penas pronunciadas pelo Consistório eram a reprimenda, multas, das quais uma parte servia para pagar os membros do Consistório, a censura, em certos casos o envio ao Conselho, que podia condenar a um encarceramento de curta duração. Os membros do Consistório eram obrigados por juramento a denunciar os fatos chegados ao seu conhecimento, de modo que acumulavam frequentemente o papel de delatores e o de juízes.

Não era, de resto, uma sinecura ser membro deste tribunal: em um único ano, mais de duzentas causas intentadas por blasfêmias, calúnias, palavras libertinas, atentados aos costumes, ultrajes a Calvino, ofensas aos ministros, comentários contra os exilados franceses, foram levadas ao Conselho por instigação do Consistório. Julga-se facilmente o que, com tais procedimentos, puderam tornar-se em uma pequena cidade — e Genebra, então, não era senão uma pequena cidade de vinte mil almas — a liberdade e a segurança da vida privada.

A publicação das ordenanças de 1541 e a formação do Consistório foram logo seguidas de um código de leis, formado em parte pelos antigos usos da cidade e por um grande número de éditos novos, para a redação dos quais Calvino encontrou um precioso concurso em Colladon, jurisconsulto de Berry, vindo a Genebra para abraçar a Reforma, que se mostrou o impiedoso intérprete dos pensamentos de Calvino. É desta legislação de 1543 que um dos historiadores reformados mais francamente admiradores da pessoa e da obra de Calvino, Paul Henry, não teme dizer que «estas leis não foram escritas apenas com sangue como as leis de Dracon, mas com ferro em brasa». A pena de morte é nela pronunciada contra o idólatra, contra o blasfemador, contra o filho que bate ou amaldiçoa seu pai, contra o adúltero, contra o herege. A tortura ocupa um grande lugar no procedimento.

É esta legislação que tantos autores protestantes, e entre outros Bungener em sua Vie de Calvin, p. 253, chamam de «o instrumento da regeneração de Genebra». Mais uma vez, não contradigamos isso — embora acrescentando que ela teve como resultado, e isso era fatal, um singular desenvolvimento da hipocrisia — mas, então, por que os mesmos escritores indignam-se quando Estados católicos usaram meios análogos para descobrir e reprimir a heresia protestante? Em última análise, o regime de Calvino não é senão um regime inquisitorial permanente e aperfeiçoado.

Tratava-se agora de fazer funcionar o instrumento, como diz ainda o Sr. Bungener, o que exigia muito coragem e perseverança. Calvino não careceu nem de uma nem de outra. Os primeiros tempos que seguiram seu retorno foram relativamente pacíficos; mas o partido dos libertinos, como os chamava o reformador, não tardaria a despertar e a agitar-se, forte do descontentamento que excitava nos velhos genebrinos a inquisição do Consistório: «Se eu quisesse, diz Calvino em sua autobiografia, contar todos os combates que sustentei, o relato seria bem longo. Mas que doce consolação para mim ver que Davi me mostrou o caminho! É meu guia e meu modelo. Os filisteus tinham feito a este santo rei uma guerra cruel; mas a maldade de seus inimigos domésticos tinha mais cruelmente dilacerado seu coração. E eu também fui assaltado de todos os lados, e sem trégua, por lutas intestinas e exteriores. Satanás tinha concebido o projeto de derrubar esta Igreja; fui obrigado a combatê-lo corpo a corpo e até ao sangue, eu, fraco, inexperiente e tímido. Durante cinco anos, estive na brecha pela salvação da disciplina e dos costumes.

Os maus eram fortes e poderosos, e tinham conseguido corromper e seduzir uma parte do povo. A esses seres perversos o que importava a sã doutrina? Não aspiravam senão à dominação; não trabalhavam senão pela conquista de uma liberdade facciosa. Uns serviam-lhes de auxiliares, movidos pela necessidade e pela fome; outros impelidos pela vergonhosa paixão de um interesse terrestre: todos caminhavam como cegos aos fluxos de seus caprichos e decididos a lançar-se conosco no abismo, antes que curvar a cabeça sob o jugo da disciplina. Creio que todas as armas forjadas no reino de Satanás foram por eles experimentadas e colocadas em uso, projetos infames que deviam redundar na ruína de nossos inimigos.»

Para justificar seus inexoráveis rigores contra os libertinos, Calvino os acusou frequentemente de toda sorte de heresias. Isso é verdade para um certo número, ainda que a maioria jamais tenha formulado de uma maneira bem precisa suas doutrinas. Mas muitos eram muito sinceramente os adversários do regime estabelecido por Calvino, da influência cada vez maior dos refugiados estrangeiros, desses estrangeiros que, mal escapados das buscas e das perseguições, faziam-se os provedores mais convictos do Consistório inquisitorial e os mais ardentes sustentáculos de Calvino contra os verdadeiros genebrinos.

A luta eclodiu em 1546 por ocasião de uma mulher, Benoite Ameaux, convocada ao consistório «por causa de vários comentários enormes», que cheiravam a anabatismo, depois da grande amenda honrosa infligida a Pierre Ameaux, que se tinha expressado em termos um pouco vivos sobre Calvino. Este, na circunstância, mostrou-se impiedoso e fez dobrar o Conselho perante suas exigências. Alguns libertinos, poucos dias depois, tendo perturbado um sermão de Calvino, uma forca foi erguida na praça Saint-Gervais. Depois veio a vez de duas das famílias mais antigas da burguesia genebrina, humilhadas e condenadas na pessoa de François Favre, de Ami Perrin e de sua esposa, a qual foi colocada na prisão por ter dado um baile por ocasião de um casamento.

No mesmo ano de 1547, o sangue corre. Jacques Gruet, amigo, ao que parece, de Etienne Dolet, foi morto como ímpio e traidor, após ter sido longa e cruelmente torturado; a ocasião fora um bilhete injurioso contra Calvino encontrado no púlpito de Saint-Pierre. Dois meses antes, em 16 de maio de 1547, Calvino havia obtido do Conselho a confirmação e a promulgação definitiva das ordenanças eclesiásticas.

Em 1549, Raoul Monnet foi condenado à morte por ter travestido em gravuras ignóbeis certas cenas da Bíblia. Em 1551, o médico Jérome Bolsec, após um processo que causou grande alvoroço e uma longa permanência na prisão, foi banido por ter sustentado que a doutrina da predestinação, tal como a ensinava Calvino, era contrária à Escritura. Tendo voltado a ser católico, Bolsec vingar-se-ia de Calvino por meio de uma biografia odiosa e, em certos pontos, caluniosa.

Em 1553, enfim, Miguel Servet foi preso, julgado e queimado. A importância do personagem e a originalidade de seu sistema, as circunstâncias que rodearam sua condenação, a questão do direito de levar à morte o herege, colocada na sua ocasião diante da Europa reformada, tudo contribuiu para dar ao caso de Servet uma repercussão singular. Ver SERVET.

Sabe-se que obstinação Calvino desdobrou contra Servet; desde 1546, ele havia declarado que, se Servet viesse a Genebra, não permitiria que saísse vivo; denunciou-o e fê-lo prender na França (abril de 1553) pelo inquisidor Mathieu Ory e pelo cardeal de Tournon; depois, tendo Servet escapado e vindo a Genebra, ele o fez apreender; o acusador (que deveria constituir-se prisioneiro ao mesmo tempo que o acusado) foi um secretário de Calvino, Nicolas de La Fontaine; o advogado do acusador foi seu amigo íntimo, o legista Colladon; Calvino mesmo conduziu todo o processo; tendo as Igrejas suíças sido consultadas, ele lhes escreveu para incitá-las; enfim, após ter obtido a condenação e a execução de Servet, ele tentou desonrar sua morte.

A impressão foi desagradável, senão sobre os teólogos que aprovaram Calvino, ao menos junto a um certo número de leigos protestantes. É por isso que, um mês após a morte de Servet, Calvino publicou, em latim e em francês, sua: «Déclaration pour maintenir la vraie foy.... contre les erreurs détestables de Michel Servet, Espagnol, où il est montré qu’il est licite de punir les hérétiques et qu’a bon droit ce meschant a esté persécuté par justice en la ville de Genéve.»

Sébastien Castellion que, ele mesmo, em 1545, tivera de se exilar de Genebra e sofrer vários anos de uma negra miséria, para expiar suas divergências de opinião com Calvino, respondeu-lhe, de Basileia, igualmente em latim e em francês, por seu «Traicté des hérétiques, a savoir si on les doit persécuter,.... De hereticis an sint persequendi». Como todas as vítimas, ele se fazia apóstolo da tolerância; não tendo as circunstâncias lhe permitido, como a Calvino, tornar-se o mais forte, ignoramos o que, na prática, ele teria feito de seus princípios.

Contudo, uma nova crise política ameaçava a supremacia de Calvino. Em 1551 e 1552, o partido dos libertinos havia retomado a vantagem; eles haviam recusado a cidadania a um grande número de refugiados; obtido o desarmamento dos habitantes que não eram cidadãos e a exclusão dos ministros do Conselho Geral. Estes sucessos encorajaram desmedidamente Philibert Berthelier, o filho daquele que fora outrora o primeiro mártir da liberdade política de Genebra. Há dois anos, ele estava excomungado pelo Consistório «por não ter querido concordar que havia feito mal ao sustentar que era também homem de bem como Calvino».

Em 1º de setembro de 1553, ele obtém do Conselho uma declaração permitindo-lhe comungar; Calvino não recusa menos a ceia, com a última energia, aos libertinos que se apresentam; a intervenção das Igrejas suíças, a vinda de Farel, apaziguam por um instante o conflito. Mas os libertinos levam a luta para o campo político e acusam os refugiados de querer entregar Genebra à França, coisa muito inverossímil! Nas eleições de 1555, eles são batidos e o partido calvinista triunfa inteiramente; para tornar sua vitória definitiva, este dá o direito de cidadania a 70 refugiados em abril, a 300 em maio. Era levar ao desespero o partido nacional genebrino.

Na noite de 18 de maio, Berthelier e Perrin tentam provocar um tumulto; os distúrbios são rapidamente reprimidos, mas Calvino detinha o pretexto buscado; 60 rebeldes, que felizmente haviam conseguido passar a fronteira, são condenados à morte e executados em efígie. O mais jovem dos irmãos de Berthelier e um de seus amigos, após terem sido torturados, são realmente executados: «Este processo, diz M. Buisson, ao juízo mesmo dos contemporâneos, foi um simples golpe de Estado judiciário. Ele começa pelas denúncias que a tortura arranca de infelizes barqueiros que se apressa em esquartejar. Prossegue por uma série de procedimentos que o governo de Berna qualifica bastante por esta observação de que «os testemunhos e «relatores são neles ao mesmo tempo juízes». Termina pela execução sem piedade dos dois principais adversários de Calvino.»

— «O partido calvinista, usando de sua vitória, acrescenta o mesmo M. Buisson, fez decidir em assembleia geral, «por edito expresso que ninguém, qualquer que «seja, tenha de falar em recolocar ou deixar vir de- «dentro desta cidade os ditos fugitivos sediciosos, porque «aquele que sobre isso falar, avançar ou procurar, terá a «cabeça cortada» (8 de setembro). Desta vez Calvino era o senhor. Durante a sua vida, os fugitivos não retornaram a Genebra. Vinte vezes, Berna intercedeu por eles, sempre em vão. Ela não cessou de protegê-los abertamente e de tratá-los, não como culpados, mas como vencidos. Depois, o tempo fez a sua obra: os interesses superiores da causa protestante na Europa ordenaram lançar um véu sobre lembranças que interessavam apenas a Genebra. E a história mesma, sempre cúmplice do sucesso, denigre este punhado de patriotas, que haviam enfrentado a segunda tirania como a primeira, com o nome de partido dos libertinos, » Histoire générale, t. IV, p. 521.

Per que peccat quis, per hæc et torquetur; os libertinos haviam outrora constrangido uma parte de seus concidadãos a seguir em solo estrangeiro a fé de seus pais proscrita no lugar de seu nascimento; o mesmo destino os atingia; eles eram dominados por um estrangeiro, assistido de estrangeiros, que os tratava em sua própria cidade como, com a ajuda dos berneses, eles ali haviam outrora tratado uma parte de seus concidadãos; os ministros se interpunham entre Deus e os novos fiéis, exatamente como outrora o clero católico, mas com instrumentos de dominação muito outros: um homem erigia em dogmas as concepções de seu espírito e tratava como blasfemador e ímpio qualquer um que recusasse submeter-se a eles; tal era o desfecho de uma revolução começada em nome da liberdade.

VI. O PAPEL DE CALVINO NA EUROPA E AS SUAS OBRAS DE 1541 A 1555. — Os últimos anos de Calvino pertencem à Europa protestante mais do que a Genebra. Mas este papel universal, Calvino já o desempenhava há muito tempo: "Reconheço-me", escrevia ele a Melanchthon, "muito abaixo de vós; contudo, não ignoro em que grau do seu teatro Deus me elevou".

À morte de Henrique VIII, em 1547, o regente da Inglaterra, duque de Somerset, empreende fazer triunfar o protestantismo na Inglaterra; Calvino endereça-lhe, em outubro de 1548, uma carta que encerra uma exposição completa das visões do reformador sobre as mudanças a operar naquele país. Ele não deixa de o lembrar que, depositário da autoridade real, pode "reprimir pela espada" aqueles que se opusessem aos seus projetos. Ao jovem Eduardo VI, a esperança da Reforma, ele dedica o Comentário sobre Isaías e o Comentário sobre as Epístolas católicas; acompanha o envio com uma carta onde retorna mais brevemente sobre o que haveria a fazer no seu reino. Calvino está também em correspondência com Cranmer, o primaz da Inglaterra; ele gostaria que a Reforma cerrasse as fileiras do seu exército e mantivesse o seu concílio em face daquele de Roma (1552).

Em 1553, a morte de Eduardo VI derruba as esperanças de Calvino. Em 1555, ele faz dar um templo em Genebra aos refugiados ingleses; o reformador da Escócia, John Knox, ali exerceu as funções de ministro. O advento de Isabel (1558) trouxe os refugiados de volta à sua pátria; Calvino deu um pastor à Igreja francesa de Londres. Ele encoraja e fortalece os protestantes da França; envia-lhes missionários; por meio das suas cartas, consola e sustenta aqueles que vão morrer nos suplícios.

Calvino teve muitas vezes contendas com os protestantes italianos refugiados em Genebra, cujas audácias doutrinárias ele não pretendia tolerar: "Sofre-se, contudo", diz o historiador protestante, seu admirador convicto, Bungener, "ao vê-lo tão imperativo, tão áspero, com pessoas que tinham desafiado Roma tão de perto e deixado tudo pelo Evangelho." O processo de Valentim Gentilis marca o ponto culminante destes debates com a colônia italiana. Uma pronta retratação salvou a vida de Gentilis; mas, atormentado pelos seus arrependimentos, Gentilis viria, alguns anos mais tarde, a atacar novamente as ideias do reformador; os bernenses levaram-no à morte, enquanto os seus amigos de Genebra foram condenados ao exílio.

O período que decorre de 1541 a 1555 é, na vida de Calvino, singularmente fecundo em escritos. Em 1541, é impresso em Genebra, em francês, o Pequeno tratado da santa ceia; em 1542, o Catecismo da Igreja de Genebra por perguntas e respostas (em francês e em latim); em 1543, a Humilde exortação ao imperador Carlos V e à dieta de Espira para que queiram seriamente pôr a mão na restauração da Igreja (em latim); um tratado dogmático contra Alberto Pighius, Defesa da santa e ortodoxa doutrina sobre a servidão e o alforriamento da vontade humana (em latim); o Advertimento muito útil do grande proveito que reverteria à cristandade se fosse feito inventário de todos os corpos santos e relíquias que estão tanto na Itália como na França, etc.

(em francês, depois em latim); o Pequeno tratado mostrando o que deve fazer um homem fiel que conhece a verdade do Evangelho quando está entre os papistas (em francês); em 1544, a Desculpa aos senhores nicodemitas sobre a queixa que fazem do seu excessivo rigor (em francês, depois em latim, 1545); a Breve instrução para armar todos os bons fiéis contra os erros da seita comum dos anabatistas (em francês); em 1544 e 1545, o escrito intitulado: Aos ministros de Neuchâtel contra a seita fanática (na edição de 1545 fanática torna-se fantástica) e furiosa dos libertinos que se dizem espirituais (em francês); em 1545, os Escólios sobre a admoestação paternal de Paulo III ao imperador Carlos V (em latim); a Defesa de Farel e dos seus colegas contra as calúnias do teologastro Caroli (em latim).

Os anos 1546-1555 viram publicar todos os comentários de Calvino sobre o Novo Testamento; em 1546 e 1547, as duas Epístolas aos Coríntios; em 1548, Epístolas aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses e as duas a Timóteo; em 1549, Epístola a Tito e Epístola aos Hebreus; em 1550, Epístola de São Tiago e as duas aos Tessalonicenses; em 1551, Epístolas de São João e de São Judas, e nova edição de todas as Epístolas de São Paulo; em 1552, os Atos; em 1553, os Evangelhos. O Antigo Testamento só veio depois, salvo Isaías, em 1551, e o Gênesis em 1553.

A publicação dos comentários foi várias vezes interrompida por escritos que as circunstâncias reclamavam; em 1547, escreve, em francês, à Igreja de Ruão contra um franciscano da seita dos libertinos; em 1547, contra o concílio de Trento, Acta synodi Tridentinæ cum antidoto (em latim); em 1549, contra o Interim, que ataca no seu Interim adultero-germanum, publicado depois em francês sob o título de: Dois tratados acerca da reforma da Igreja, e o verdadeiro meio de ajustar as divergências que nela existem; no mesmo ano, em francês, Advertimento contra a astrologia a que chamam judiciária, e outras curiosidades que reinam hoje no mundo; em 1550, Tratado dos escândalos que impedem hoje muitas pessoas de vir à pura doutrina do Evangelho e desencaminham outras (em latim); em 1552, Quatro sermões tratando de matérias muito úteis para o nosso tempo (em francês); Tratado sobre a eterna predestinação, e Tratado sobre a vida cristã (em latim); em 1554, Defesa da fé ortodoxa sobre a santa Trindade contra os monstruosos erros de Miguel Servet, onde é mostrado que é lícito punir os hereges (em latim, depois em francês); Breve resposta às calúnias de um certo perturbador (Castellion) sobre a doutrina da predestinação (em latim); em 1555, Defesa da sã e ortodoxa doutrina sobre os sacramentos, o seu valor, a sua eficácia, etc., contra Westphal (em latim).

VI. ÚLTIMOS ANOS DE CALVINO; A SUA INTERVENÇÃO NOS ASSUNTOS RELIGIOSOS DA FRANÇA; AS SUAS ÚLTIMAS OBRAS; A SUA MORTE (1555-1564). — A autoridade de Calvino em Genebra não foi mais contestada após a derrota dos libertinos; consultam-no sobre todas as coisas, assuntos civis, assuntos criminais, assuntos políticos, comerciais, industriais; nenhuma lei se faz, nenhuma decisão é tomada sem ele. Da sua cidadela de Genebra, Calvino pôde aplicar-se ainda mais aos cuidados que as outras Igrejas reformadas reclamavam dele.

Notemos, contudo, que antes de morrer, Calvino viu por duas vezes, em 1560 e em 1563, Genebra ameaçada. Pio IV tinha entrado em acordo, para abater Genebra, com o rei da França, o rei da Espanha e o duque de Saboia. As ambições rivais dos príncipes impediram a execução do seu projeto. Em 1563, os libertinos exilados negociaram com o duque de Saboia um novo empreendimento; Genebra, prontamente colocada em estado de defesa, não foi atacada. Esta situação crítica não impedia Genebra e Calvino de inquietar os seus vizinhos. Em janeiro de 1561, Carlos IX queixa-se vivamente dos tumultos semeados no seu reino pelos pregadores vindos de Genebra e intima o Conselho a chamá-los de volta. Calvino responde, em nome do governo, por meio de uma carta humilde no tom, mas firme e quase insolente no conteúdo; limita-se a dizer que os pregadores são alheios às revoltas e deixa entender que se continuará a enviá-los. Uma carta de Calvino a Bullinger (maio de 1561) mostra-nos como se organizava esta ativa propaganda.

Calvino, no período que precedeu a explosão das guerras civis, exerceu a direção espiritual das Igrejas da França. Em 1557, felicita a Igreja de Paris por continuar a sua caminhada «no meio dos receios e dos assaltos»; consola-a após a prisão de vários membros da assembleia da rua Saint-Jacques; sob a sua instigação, os cantões suíços e os príncipes protestantes da Alemanha intercedem por eles junto a Henrique II; faz chegar ao rei, em nome dos protestantes da França, uma confissão de fé destinada a refutar as calúnias com as quais os sobrecarregam; em janeiro de 1558, nova carta à Igreja de Paris e novo envio de ministros. É sob a inspiração de Calvino que se reúne em Paris, em maio de 1559, a humilde e corajosa assembleia que as Igrejas reformadas da França chamam de seu primeiro sínodo nacional. Ali foram adotadas a sua confissão de fé e a sua constituição disciplinar. Em junho e em novembro de 1559, Calvino dirige ainda duas importantes epístolas aos fiéis da França.

Imediatamente após a morte de Henrique II, os progressos do protestantismo foram rápidos e o protestantismo político organizou-se com os seus chefes aristocráticos. Estes não estavam de disposição para praticar a paciência evangélica; além disso, a maior parte deles era movida apenas pelas suas ambições; viram vir até eles muitos descontentes, em particular a necessitada e turbulenta nobreza do Sudoeste. Os reformados iriam, na sequência, entrar na via da violência e da rebelião. Sobre a linha de conduta a seguir, os seus pastores dividiam-se. A Igreja calvinista de Estrasburgo preconizava o emprego da força, e um banido parisiense, o jurisconsulto Hotman, vangloriava-se de que todos os Guise seriam mortos e que não sobreviveria um rebento varão desta raça maldita. Até lá, Calvino tinha dissuadido os protestantes franceses de recorrer à violência; mas então era evidente que eles eram os mais fracos. Qual seria agora a sua atitude? Ele não aprovou formalmente a conjuração de Amboise, em 1560; mas parece impossível que Teodoro de Beza e os outros doutores que a aprovaram tenham agido contra o parecer de Calvino.

O desmentido que ele fez do complô após o acontecimento não prova nada: os Guise eram vencedores e podiam sê-lo por muito tempo. Foi então que Calvino escreveu a Coligny que, ele também, se tinha resguardado: «Se se espalhasse uma única gota de sangue, os rios escorreriam dela. É melhor que pereçamos todos cem vezes do que sermos causa de que o nome da cristandade e o Evangelho sejam expostos a tal opróbrio.» Contudo, ele admitia a legitimidade da revolta, se todos os príncipes de sangue e os parlamentos se pronunciassem contra o governo dos Guise. Esta concessão abriu, como se disse, a via aos casuístas da insurreição que se contentaram em breve com a aprovação de um único príncipe de sangue; acrescentaram-lhe uma distinção entre os seus direitos como opositores políticos e os seus direitos como cristãos desejosos de fazer avançar o Evangelho; em breve, sobretudo nas províncias do Midi, as paixões desencadeadas fizeram fúria.

Calvino encorajava os chefes do partido; escrevia a Coligny; tinha-lhe dirigido uma primeira carta após a batalha de Saint-Quentin; louvou-o quando na assembleia de Fontainebleau ousou entregar ao rei a Supplication de ceux qui, en diverses provinces, invoquent le nom de Dieu suivant la règle de la piété. Em contrapartida, as variações religiosas e os costumes do rei de Navarra, António de Bourbon, causam-lhe mil preocupações e acabam por provocar a sua indignação; escreve dele que é todo de Vênus, totus est venereus.

Calvino não assistiu pessoalmente ao famoso colóquio de Poissy, em 1561; o Conselho de Genebra recusou deixá-lo partir, «seja, diz Bossuet, Hist. des variations, l. IX, n. 91, que se temesse expor ao ódio público o chefe de um partido tão odioso; seja que ele cresse que a sua honra fosse melhor conservada enviando os seus discípulos, e conduzindo secretamente a assembleia de Genebra, onde dominava, do que se ele próprio se houvesse comprometido.» À solicitação de Coligny, do rei de Navarra e de Catarina de Médici, ele enviou aquele que se começava a considerar como o seu futuro sucessor, Teodoro de Beza. Foi Calvino quem redigiu a resposta do Conselho de Genebra ao rei de Navarra. Numa carta a Coligny, incita-o a aproveitar as disposições favoráveis que manifestava então a regente Catarina de Médici para determiná-la a protestar contra o concílio de Trento com a rainha da Inglaterra, os príncipes da Alemanha e os suíços. O plano de Calvino fracassou; mas a tolerância da rainha-mãe assegurou novos sucessos à propaganda protestante; o príncipe de Condé pôde então reivindicar, em nome de duas mil cento e cinquenta Igrejas, o direito de construir templos; o édito de janeiro de 1562 concedeu de fato aos protestantes a liberdade de consciência e de culto.

Contudo, as violências multiplicavam-se e tudo anunciava a guerra civil; quando ela eclodiu, Calvino desta vez aprovou a resistência armada; quando o príncipe de Condé, ameaçado em Orléans, solicitou o socorro dos protestantes da Alemanha e da Suíça, Calvino apoiou vivamente este pedido; sustentou não menos vivamente um pedido dos protestantes de Lyon; escreveu às Igrejas do Midi para pressioná-las a encontrar o dinheiro necessário ao soldo dos alemães recrutados por d'Andelot. Notemos para sua honra que Calvino censurou os horríveis excessos do barão des Adrets (1562). Após a batalha de Dreux, 19 de dezembro de 1562, Calvino teve de pregar aos protestantes franceses a submissão à vontade de Deus, e escreveu a este respeito uma carta ao governador de Lyon, M. de Soubise.

O édito de pacificação de Amboise (19 de março de 1563), que garantia a todos os reformados a liberdade de consciência, mas apenas à alta nobreza e em certos lugares a liberdade de culto, excitou o seu vivo descontentamento. Tratou o príncipe de Condé de miserável que tinha «traído Deus em sua vaidade». A Reforma assim confinada devia não ter mais do que uma irradiação restrita e aparecer cada vez mais ao povo como a religião da aristocracia. No ano seguinte, 1564, Condé, esquecendo-se do seu partido nos deleites da corte, atraía novamente sobre si as admoestações de Calvino. O reformador chegava então ao fim da sua vida.

Os grandes negócios do protestantismo francês não o tinham absorvido por inteiro. Ele escrevera muito. Alguns de seus trabalhos ainda são gritos de guerra: Réformation pour imposer silence à un certain belître nommé Ant. Cathelan jadis cordelier d’Albigeois (em francês, 1556); 2° défense contre Westphal (1556, em latim); Dernier avertissement au même (1557, em latim); Réponse aux questions de Georges Blandrata (1558, em latim); Félicitation à Gabriel de Saconay (1560, em latim); Réponse aux invectives de Baudoin (1561, em latim); L’impiété de Valentin Gentilis découverte, etc. (1561, em latim).

Além das obras de polêmica, deve-se citar os comentários sobre o Antigo Testamento; em 1557, os Salmos e o profeta Oseias; em 1559, os doze pequenos profetas; em 1561, Daniel; em 1563, o Êxodo, o Levítico, os Números, o Deuteronômio, Jeremias; em 1564, Josué. Muitos desses comentários não foram escritos por ele, mas recolhidos em suas lições públicas por Charles de Jonvilliers, seu secretário, e Jean Budé.

Estes mesmos anos viram também aparecer várias séries de sermões, igualmente recolhidos pelos discípulos de Calvino, mas publicados sob seus olhos. Uma primeira série sobre a Epístola aos Gálatas já tinha aparecido em 1552; a segunda, sobre dois capítulos da 1ª aos Coríntios, é de 1558, assim como a terceira, uma coletânea de discursos sobre diversos temas; em 1562, cinco séries, incluindo uma de sessenta e cinco discursos sobre os três primeiros Evangelhos; em 1563, uma série sobre as duas Epístolas a Timóteo e uma sobre o livro de Jó. Estes últimos discursos tiveram grande reputação; Coligny os fazia ler e reler.

Em seus Comentários e em seus Sermões, Calvino encontrava-se por ter comentado e traduzido, versículo por versículo, uma grande parte da Bíblia; ele se servia do texto de Olivétan e o corrigia; não tinha, contudo, nunca publicado uma tradução francesa nova ou revisada do texto da Bíblia; a ideia veio a um dos editores dos Opera Calvini, o Sr. Reuss, de reunir todas as passagens traduzidas por Calvino e fazer delas o que chamou de Bíblia francesa de Calvino; o trabalho que Reuss preparara foi publicado pelo Sr. Erichson nos t. LVII e LVIII dos Opera Calvini, do Corpus reformatorum.

A Bíblia francesa de Calvino compreende: os cinco livros de Moisés e o livro de Josué, os Salmos, Jó, Isaías, Oseias, os Evangelhos, os Atos e as Epístolas.

Calvino quisera assegurar, após ele, a perpetuidade de seu ensinamento; para esse fim, fundou, em 5 de junho de 1559, a Academia de Genebra, composta por cinco professores, dois de teologia, um de hebraico, um de grego, um de filosofia. No mesmo momento, abria o colégio de Genebra.

A saúde de Calvino estava há muito tempo minada; em 1559, ficou gravemente doente; por volta de meados de 1563, começou a declinar rapidamente; em 6 de fevereiro de 1564, um vômito de sangue fê-lo descer da cátedra para nunca mais voltar a ela; no dia 2 de abril, fez-se levar ao templo e recebeu a ceia das mãos de Teodoro de Beza; nos dias 27 e 28 de abril, despediu-se dos magistrados e dos pastores da cidade; Farel, com quase oitenta anos, veio a Genebra no início de maio para vê-lo uma última vez; Calvino deu o último suspiro em 27 de maio de 1564; ele não tinha cinquenta e cinco anos.

«É uma fraqueza, diz Bossuet, Histoire des variations, l. X, n. 57, querer encontrar algo de extraordinário na morte de tais pessoas. Deus não dá sempre esses exemplos. Visto que ele permite as heresias para a prova dos seus, não é de se espantar que, para concluir essa prova, ele deixe dominar neles até o fim o espírito de sedução com todas as belas aparências com que se cobre; e, sem me informar mais sobre a vida e a morte de Calvino, basta ter acendido em sua pátria uma chama que tanto sangue derramado não pôde extinguir, e ter ido comparecer diante do julgamento de Deus sem qualquer remorso de um tão grande crime.»

Muitos julgamentos foram feitos sobre Calvino que seria interessante reproduzir aqui. Alguns, entre os católicos, acreditaram dever, apesar do sábio conselho de Bossuet, carregar aquele que fez tanto mal à Igreja com todos os pecados de Israel e aceitar, de olhos fechados, as calúnias das quais se era tão pródigo no século XVI e que não pouparam quase nenhum dos personagens envolvidos nas grandes lutas da época; Audin é o tipo deplorável; outros, entre os protestantes, e em particular o último historiador de Calvino, o Sr. Doumergue, tão erudito quanto seja, caíram nos excessos da escola lendária e ingenuamente admirativa que reprovam justamente a certos hagiógrafos católicos: tal um devoto franciscano falando de São Francisco de Assis.

Entre aqueles que não são dominados por preocupações confessionais, Renan, em seus Études religieuses, o Sr. Faguet, em seus Études sur le xvi siècle, o Sr. Brunetière, em sua Conférence de Genève e em sua Histoire de la littérature française classique, expressaram sobre Calvino opiniões muito livres e muito dignas de serem meditadas.

Independentemente dos historiadores de Calvino, cujos nomes se encontrarão na bibliografia, devemos assinalar um interessante artigo do Sr. Rosseeuw Saint-Hilaire na Revue chrétienne de 15 de dezembro de 1862 e um discurso do Sr. de Félice, decano da faculdade de teologia de Montauban, para o tricentenário da morte de Calvino, em 1864. Ao aproximar e comparar esses diversos julgamentos, chega-se a ter uma ideia bastante completa e bastante exata do chefe da Reforma francesa.

A nossos olhos, Calvino foi um homem de reação; não procurou de modo algum conciliar com a doutrina cristã as tendências de sua época para as quais a Igreja católica lhe parecia ter uma complacência culpável; não soube ver na Igreja um organismo vivo, chamado por consequência a se transformar no curso dos séculos, seguindo uma lei; limitou-se a remontar às origens tais como lhe apareciam e pretendeu reformar a doutrina e a disciplina da Igreja sobre o modelo antigo; modificou sob este pretexto, em alguns pontos essenciais, tanto a doutrina quanto a disciplina católicas; então, seguro da infalibilidade de seu julgamento e da excelência de sua obra, para essa doutrina e essa disciplina reformadas, reclamou todos os direitos e todas as prerrogativas que tinham pertencido à antiga Igreja; substituir a Igreja de Calvino pela Igreja do papa, ele não teve outro objetivo.

No fundo, o seu temperamento foi precisamente aquele que os nossos adversários costumam imputar aos católicos que consideram como os mais intransigentes e os mais estreitos; jamais um contemporâneo de Inocêncio III, jamais o intérprete mais extremado do Syllabus proclamou de forma mais absoluta os direitos exclusivos da verdade e dos seus intérpretes autênticos; para Calvino, o Estado está ao serviço da Igreja e da verdade religiosa, dogmática e moral; a sua missão principal é fazê-la triunfar.

Calvino foi um homem de uma vontade enérgica e de uma rara potência de trabalho; não teve o ardor arrebatador de Lutero e, tendo vindo primeiro, não teria, sem dúvida, desencadeado como ele a revolução religiosa na Europa; mas mostrou-se mais penetrante, mais lógico, mais organizador do que o reformador alemão. Não teve tampouco esse lado humano e apaixonado que faz com que, ao condenar Lutero, não se possa recusar à sua fisionomia algo de simpático. Não se quer dizer com isto que Calvino fosse totalmente inacessível aos sentimentos humanos, afeições de família, amizade; provou-se o contrário; mas é preciso reconhecer que esses sentimentos nele foram raros e exerceram pouca ação sobre a sua vida. De resto, será preciso censurá-lo por isso? Um homem que desempenha um papel público da importância do seu tem outra coisa a fazer que não entregar-se aos sentimentos, mesmo os mais legítimos.

Foi desinteressado, simples, sóbrio e severo na sua vida privada; os poucos presentes que lhe fizeram no fim da sua vida os magistrados de Genebra e a propósito dos quais se arquitetaram acusações bastante tolas, provam pelo contrário que ele praticara essas virtudes, que, de resto, Pio IV e Sadolet lhe reconheceram. Em contrapartida, foi orgulhoso, colérico e vingativo.

«Não sei, diz Renan, se se encontraria um tipo mais completo do ambicioso, zeloso em fazer dominar o seu pensamento porque o crê verdadeiro,... tudo (é) sacrificado à vontade de formar os outros à sua imagem. Não vejo quase ninguém além de Inácio de Loyola que possa disputar-lhe a palma destes terríveis arrebatamentos; mas Loyola neles colocava um ardor espanhol e um arrebatamento de imaginação que têm a sua beleza,... enquanto Calvino tem todas as durezas da paixão sem ter o seu entusiasmo.

Dir-se-ia um intérprete juramentado arrogando-se um direito divino para definir o que é cristão ou anticristão.» E ficamos confundidos, acrescentaremos nós, com a audácia orgulhosa deste homem que se substitui assim, tranquilamente e sem remorsos, a uma Igreja tantas vezes secular, aos Padres, aos concílios, aos papas, e que, em nome da sua autoridade de ontem, condena, mata, desencadeia a guerra, tornando-a inevitável, e morre enfim prestando testemunho a si mesmo diante dos ministros reunidos.

Eis o que seguramente é mais grave do que uma aventura escabrosa ou um gosto demasiado pronunciado pelo bom vinho. Calvino teve a alma de um sectário, mais do que a de um apóstolo. Como pensador, esforçar-nos-emos por mostrar o que foi, expondo a sua doutrina no artigo CALVINISMO.

Como escritor, ocupa um lugar distinguido na nossa literatura; pôde dizer-se com razão da sua obra-prima, a Instituição cristã, que com esse livro a língua francesa tinha aprendido a raciocinar e a expressar ideias gerais. As suas obras francesas, fora das cartas e dos sermões, são de resto pouco numerosas. Em latim ou em francês, o estilo de Calvino tem firmeza e vigor; mas é muitas vezes embaraçado, seco, sem cor e sem vida, triste, como disse justamente Bossuet.

Contudo, em certos escritos, sobretudo os de pura polêmica, Calvino não carece de verve, de movimento, e até de pitoresco; é então tão grosseiro quanto Lutero; as invectivas pessoais e as obscenidades abundam sob a pena deste homem grave. Acolhe e repete todas as calúnias, em particular as que tocam aos costumes; os seus panegiristas, que se indignam tão fortemente contra aqueles que lhe retribuíram na mesma moeda, fariam bem em reservar para ele próprio uma parte da sua severidade. Nos seus escritos, não mais do que na prática da sua vida, a caridade e a bondade não são o forte de Calvino.

Tal nos aparece, após um consciencioso estudo, esta personalidade do chefe da Reforma francesa; ao considerá-la humanamente, ela é grande, e, se nunca é amável, é por certos lados digna de ser admirada. Acrescentemos que, face ao Renascimento e às suas tendências pagãs, Calvino teve o sentido cristão; contribuiu para pôr novamente em luz entre os seus contemporâneos a ideia dos direitos de Deus e da miséria original do homem; os seus excessos e os seus desvios doutrinais, como os de Lutero, levaram a Igreja católica a afirmar e a precisar o seu ensinamento sobre estes pontos fundamentais do dogma cristão. Não será por tais motivos que Deus permite o erro e não recusa sempre o génio àqueles que o representam? Reserva-se o direito de os julgar e tanto mais severamente quanto mais tiverem feito mau uso de dons mais preciosos. Necesse est ut veniant scandala; verumtamen vae homini illi per quem scandalum venit. Matth., xviii, 7.

A bibliografia da vida de Calvino é muito rica; não queremos dar aqui senão as indicações mais úteis; aqueles que quisessem ter uma bibliografia completa deveriam consultar: Henry, Das Leben Calvin’s, Hamburgo, 1835; Albert Rilliet, Bibliographie de la vie de Calvin, Paris, 1864; E. Doumergue, Jean Calvin, les hommes et les choses de son temps; appendices et notes, 2 in-4°, Lausanne e Paris, 1899 e 1902; enfim e sobretudo o Catalogue systématique que termina o t. LIX das Œuvres de Calvin no Corpus reformatorum e que conta 880 números. Deixaremos de lado nesta bibliografia o que toca ao calvinismo em geral. Fora das histórias gerais da Igreja, não há infelizmente senão muito poucos trabalhos católicos sobre Calvino. Eles estão aqui marcados com um .

Distinguiremos nesta bibliografia: 1° as coleções e os recueil; 2° as primeiras e antigas biografias de Calvino; 3° as biografias modernas; 4° os trabalhos concernentes a Genebra e Calvino; 5° os principais estudos morais e literários sobre Calvino.

1° Coleções e recueil. — Corpus reformatorum. Joannis Calvini opera quæ supersunt omnia*, édit. G. Baum, Ed. Cunitz, Ed. Reuss, 59 in-4°, Brunswick, 1863-1900; Herminjard, Correspondance des réformateurs dans les pays de langue française, 9 in-8°, Genebra e Paris, 1866-1897; Lettres françaises de Jean Calvin, publicadas por Jules Bonnet, 2 in-8°, 1854; Le catéchisme français de Calvin, com duas notícias históricas e bibliográficas por Rilliet e Dufour, Genebra, 1878; Calvin d’après Calvin, extratos de suas obras francesas por Vignet e Tissot, in-8°, 1864; La France protestante, dos irmãos Haag, 2ª ed., por Henri Bordier, 10 vol., 1877-1892; *Migne, Dictionnaire du protestantisme, Paris, 1858; Lichtenberger, Encyclopédie des sciences religieuses, 13 in-8°, artigos Calvin, Calvinisme, France protestante, Genebra; Bulletin de la Société de l’histoire du protestantisme français (um volume por ano desde 1852; um número muito grande de artigos a consultar).

2° Primeiras e antigas biografias de Calvin. — Théodore de Bèze, Discours contenant en bref l’histoire de la vie et de la mort de maître Jean Calvin, in-8°, Genebra, 1564, na abertura do Commentaire de Calvin sur Josué; 2ª ed. em 1565, muito aumentada por Nicolas Colladon (colega de Th. de Bèze e amigo de Calvin); 3ª ed. em latim, Vita Calvini, com adições e supressões, 1575 (na abertura do t. III das Œuvres de Bèze, escolha das cartas latinas de Calvin); l’Histoire ecclésiastique, dita de Th. de Bèze, que apareceu em 1580, ed. Baum e Cunitz, 1883-1889, acrescenta novas informações à biografia; Bolsec, Histoire de la vie de Calvin, Paris, 1577 (escrita em parte para se vingar de Calvin e, por conseguinte, fonte suspeita); Florimond de Raemond, Histoire de la naissance, progrez et décadence de l’hérésie de ce siècle, Paris, 1605 (obra póstuma editada pelo filho do autor; este é instruído e geralmente digno de fé; M. Doumergue destaca sua autoridade); Jacques Desmay, Remarques sur la vie de Jean Calvin, Ruão, 1621; reimpresso, menos umas trinta páginas do início, nos Archives curieuses de Cimber e Danjou, t. V; estas observações são extraídas em parte dos registros do capítulo de Noyon; Le Vasseur, Annales de l’église cathédrale de Noyon, etc., Paris, 1683 (como Desmay, extraiu dos registros de Noyon o que dizem de Calvin; ele é apaixonado e pouco crítico); Papire Masson, Vita Joannis Calvini, 2 in-8°, Paris, 1558 (contestou-se frequentemente a autenticidade; M.

Doumergue nos parece estabelecê-la por bons argumentos); Drelincourt, La défense de Calvin contre l’outrage fait à sa mémoire, etc., Genebra, 1667 (é uma resposta do célebre ministro protestante de Paris ao tratado do cardeal de Richelieu sobre o meio mais curto de converter os hereges).

3° Biografias modernas. — Henry, Das Leben Calvin’s des grossen Reformators, 3 vol., Hamburgo, 1835-1844 (com uma bibliografia); Audin, Histoire de Calvin, 2 in-12, Paris, 1844 (não tem qualquer valor); Staehelin, J. Calvin’s Leben und ausgewählte Schriften, 2 in-8°, Elberfeld, 1861-1863; Kampschulte e Walter Goetz, Johann Calvin, seine Kirche und sein Staat in Genf, 3 vol., Leipzig, 1869-1899 (Kampschulte morreu velho-católico, no final de 1872; os materiais do t. II quase acabado e do t. III foram remetidos às mãos do professor Cornelius, que publicou nos Mémoires de l’Académie royale de Munich várias monografias eruditas sobre Calvin; Cornelius, igualmente velho-católico, após ter concluído seus estudos preparatórios, foi atingido por um ataque e não pôde terminar a obra, remeteu os papéis de Kampschulte e os seus a Walter Goetz que, em 1899, publicou os t. II e III; é a melhor obra católica que existe sobre Calvin (ver sobre o 4º volume um importante artigo de M. Baguenault de Puchesse na Revue des questions historiques, t. XII, p. 442); Bungener, Calvin, sa vie, son œuvre et ses écrits, in-12, Paris, 1863 (obra interessante, inexata em certo número de pontos, admira Calvin sem restrição); Merle d’Aubigné, Histoire de la Réformation en Europe au temps de Calvin, 8 in-8°, Paris, 1863-1878 (obra considerável, mas pertence à escola lendária; muitos erros); Guizot, La vie de quatre grands chrétiens (Calvin, p. 149-376), Paris, 1873; Abel Lefranc, La jeunesse de Calvin, in-8°, Paris, 1888 (erudito e crítico); A. Pierson, Studien over Johannes Kalvijn (1509-1536), 1881; Nieuwe Studien over Johannes Kalvijn (1536-1541), 1883; Studien over Johannes Kalvijn, derde Reeks (1540-1542), 3 vol., Amsterdã, 1894 (história crítica e original, qualificada de hipercrítica por M. Doumergue, julgamentos pessoais e frequentemente pouco favoráveis a Calvin); E. Doumergue, Jean Calvin. Les hommes et les choses de son temps, t. I, La jeunesse de Calvin; t. II, Les premiers essais, 2 in-4°, Lausana e Paris, 1899 e 1902 (obra completa contará cinco volumes; verdadeira enciclopédia calviniana; o autor sabe tudo o que foi dito sobre Calvin; mas o culto de M. Doumergue por Calvin retira-lhe todo espírito crítico, desde que se trate de uma reprovação qualquer endereçada ao seu santo; há demasiadas digressões e frequentes invectivas contra os católicos; estes defeitos atenuam o alcance científico de uma obra que presta, contudo, grandes serviços e é uma mina preciosa de informações).

4° Trabalhos concernentes a Genebra e Calvin. — Jean-Antoine Gautier, Histoire de Genève jusqu’en 1690 (escrita de 1708 a 1713), seis volumes de oito foram publicados, o I em 1896 e o VI em 1903, em Genebra; Gaberel, Histoire de l’Église de Genève, 3 vol., Genebra, 1868; Amédée Roget, Histoire du peuple de Genève depuis la Réforme jusqu’à l’Escalade, 7 in-12, Genebra, 1870-1883; Fleury, Histoire de l’Église de Genève depuis les temps les plus anciens jusqu’en 1802, 3 vol., Genebra, 1880; Mignet, Mémoire sur l’établissement de la Réforme à Genève, nos Mémoires historiques, 4ª ed., Paris, 1877; Eugène Choisy, La théocratie à Genève au temps de Calvin, in-8°, Genebra, 1897; Dunant, Les relations politiques de Genève avec Berne et les Suisses de 1536 à 1564, Genebra, 1894; Galiffe, Quelques pages d’histoire exacte, isto é, os processos criminais intentados em Genebra contra Ami Perrin, 1862; Nouvelles pages d’histoire exacte, isto é, o processo de Pierre Ameaux, 1863; H. Fazy, Procédures et documents du XVIe siècle (Gruet, Favre, Perrin, Bolsec, Gentilis, Gallo), nos Mémoires de l’Institut national genevois, 1866, 1878, 1886; Emile Saisset, Mélanges d’histoire, de morale et de critique. Michel Servet, sa doctrine philosophique et religieuse. Nouveaux documents sur son procès et sa mort, Paris, 1859; Tollin, Das Lehrsystem Michael Servets, 3 in-8°, 1876-1898; Willis, Servetus and Calvin, Londres, 1878; Buisson, Sébastien Castellion (1515-1563), estudo sobre as origens do protestantismo liberal na França, 2 in-8°, Paris, 1891; Charles Borgeaud, Histoire de l’université de Genève, L’Académie de Calvin (1559-1798), Genebra, 1900. — Para os anos passados por Calvino em Estrasburgo, deverá consultar-se sobretudo: Erichson, L’Eglise française de Strasbourg, Estrasburgo, 1886.

5° Estudos morais e literários sobre Calvino. — Renan, Etudes d'histoire religieuse. Calvin, Paris, 1857; Réaume, La Réforme et les réformateurs, Paris, 1869; Nisard, Histoire de la littérature française, 5ª ed., Paris, 1874, t. 1, p. 306-340; Sayous, Etudes littéraires sur les écrivains français de la Réformation, 2ª ed., 2 in-12, 1881; Philippe Godet, Histoire littéraire de la Suisse française, in-8°, Paris, 1890; Faguet, Etudes sur le XVIe siècle, in-12, Paris, 1894 (Calvino, p. 127-197); Petit de Julleville, Histoire de la langue et de la littérature française, t. III, Théologiens et prédicateurs, por Petit de Julleville e Rebelliau, Paris, 1897, p. 319-354; Brunetière, Histoire de la littérature française classique, L’œuvre littéraire de Calvin, Paris, 1904, t. I, p. 193-230.

Autor original: A. Baudrillart

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