OLIER João Tiago, eclesiástico francês, fundador da Companhia de São Sulpício (1608-1657). I. Vida. — II. Obras. — III. Doutrina.
I. Vida. — Nasceu no sábado, 20 de setembro de 1608, em Paris, na rua do Rei da Sicília, na paróquia de São Paulo. Batizado no mesmo dia com o nome de João, foi, por volta de seus dez anos, chamado João Tiago na família, em memória de seu irmão mais jovem, morto em tenra idade — nome cuja usurpação ele mesmo aprovou, tomando na confirmação o nome de Tiago. Sua família era originária de Chartres, mas, desde o primeiro terço do século XVI, vários de seus membros tinham-se fixado em Paris, na qualidade de mestres das petições e de conselheiros no Parlamento.
Seu pai, Jacques Olier, senhor de Verneuil, mestre das petições, grande audiencieiro da França, unira-se em 1599 a Maria Dolu, de uma família nobre do Berry. A criança tinha apenas 9 anos (1617) quando seu pai foi nomeado intendente em Lyon. Foi no Colégio da Trindade, dirigido pelos jesuítas, que fez seus estudos clássicos. Em 1622, São Francisco de Sales, de passagem por Lyon, o bendisse e dissipou os temores da mãe, assustada com os ímpetos vivos e impetuosos do caráter do filho, que lhe pareciam conciliar-se mal com o estado eclesiástico, ao qual já o haviam destinado pela tonsura e por benefícios: o priorado de São Jorge de Bazainville, e o priorado da Trindade de Clisson. «Deus prepara», disse-lhe ele, «neste bom menino um grande servo para sua Igreja.»
De volta a Paris em 1624, continuou seus estudos no Colégio de Harcourt, onde, durante os dois anos regulamentares, seguiu os cursos de filosofia sob dois célebres professores, Pierre Padet e Jacques de Chevreuil. Foi recebido mestre em artes a 18 de julho de 1627. Inscreveu-se então na faculdade de teologia, onde, durante três anos, foi discípulo de mestres eminentes como André Duval, Pierre Leclerc, Nicolas Isambert, Jacques Hennequin, Jacques Lescot e Alphonse Lemoine. A «tentativa» que sustentou nos primeiros dias de janeiro de 1630 encerrava a série de exames que lhe davam o título de bacharel em teologia. Esses três anos de sérios estudos teológicos prepararam-lhe um sólido fundamento, ao qual pôde depois ligar as vias místicas aprendidas nos autores espirituais ou por suas próprias experiências.
Durante esses estudos, se não houve em sua vida desvios graves, tampouco tinha ainda cuidado de sua perfeição. Em fevereiro de 1629, tendo ido à feira de São Germano com dois de seus amigos, estudantes eclesiásticos, uma santa viúva desconhecida dele, Maria Rousseau, repreendeu-os por se deixarem levar pelos divertimentos e vaidades do século. «Ai de mim!», acrescentou ela, «há tanto tempo que peço a vossa conversão, e vós só me dais motivo de pena!» Essa primeira advertência impressionou-o vivamente, mas não foi de natureza a lançá-lo de corpo e alma no caminho da perfeição. Outras intervenções semelhantes haveriam de seguir-se em breve, para entregá-lo por completo à graça.
Os regulamentos da faculdade impunham, depois do bacharelado, um intervalo de dois anos antes de ser admitido a seguir os cursos de licenciatura; aproveitou essa trégua escolar para uma viagem e uma estada em Roma, com a intenção de estudar ali a língua hebraica. Apenas chegado, uma doença dos olhos impediu qualquer estudo. Tendo-se mostrado inúteis os remédios humanos, resolveu dirigir-se a Loreto para pedir sua cura. Lá, no santuário de Nossa Senhora, recebeu o golpe decisivo da graça que o lançou, desde então, inteiramente no caminho da santidade.
A morte de seu pai, de que soube ao voltar a Roma, trouxe-o de volta a Paris. Os anos de 1631-1632 passam-se nas práticas mais audaciosas, muitas vezes heroicas, do zelo e da caridade, sobretudo para com os pobres. Recebeu o sacerdócio a 21 de maio de 1633. São Vicente de Paulo, que era então seu diretor, secundava os desejos de apostolado que o devoravam. Sua primeira missão foi, na Auvérnia, na região em torno de sua abadia de Pébrac. Preparou-se para ela em Saint-Lazare por um fervoroso retiro, durante o qual foi favorecido com duas aparições da Madre Agnès, prioresa das dominicanas de Langeac, que recebera da Santíssima Virgem o encargo de rezar pelo abade de Pébrac.
Apenas começara sua missão em Pébrac (1634), quando a reputação de santidade da prioresa de Langeac fez-lhe desejar vê-la e conversar com ela. No primeiro encontro, reconheceu nela a santa visitante de seu retiro em Saint-Lazare, e as duas almas uniram-se estreitamente em Deus. Os anos de 1636-1637 foram marcados por uma segunda missão na Auvérnia. Em 1638-1639, o campo de ação foi a Bretanha; nos arredores de seu priorado de Clisson encontrava-se um mosteiro da ordem de Fontevrault, chamado la Régrippière, cujo relaxamento era um escândalo para a região. Ele o trouxe de volta à observância regular e ao fervor.
Esses cinco anos passados nas missões lhe tinham sido reservados pela Providência para que se desse conta, antes da fundação dos seminários, da necessidade que os povos tinham de bons sacerdotes. Mas, para se tornar o instrumento da obra à qual Deus o destinava, era preciso que passasse pela prova. Ele mesmo a pedira, para purificar seu amor. Foi muito rude e durou dois anos (dezembro de 1639-1641). Para purificar sua alma de todo amor-próprio, Deus fez-lhe experimentar a necessidade que temos de seu auxílio na ordem natural como na ordem sobrenatural.
Sentiu Deus retirar-lhe seu auxílio nas ações ordinárias da vida, paralisando até certo ponto os efeitos sensíveis delas. Parecia-lhe sentir as penas interiores da reprovação e do desdém de Deus, com «um contínuo ressentimento do orgulho». Ele mesmo descreveu, em suas Memórias, as fases dessa dolorosa prova, que teve seu reflexo em sua saúde. Seu temperamento, porém, nada tinha de um neurótico, de um neurastênico. A prova, que começara sem que nada a fizesse prever, salvo o próprio pedido feito a Deus, terminou em Chartres no início de 1641, e logo tudo voltou ao equilíbrio, e jamais depois ele sentiu nada semelhante. Mas sua alma estava purificada de toda busca de amor-próprio, e entregou-se inteiramente ao amor divino.
Foi então, em 1641, que se deu uma tentativa infrutífera de seminário em Chartres, após um retiro em Notre-Dame-des-Vertus, onde Nosso Senhor lhe prometeu sua proteção para uma companhia de eclesiásticos destinada a formar sacerdotes. O Sr. Olier, com outros dois discípulos do Padre de Condren, os senhores de Foix e du Ferrier, estabeleceram-se, a 29 de dezembro de 1641, em Vaugirard, com a intenção de aí fundar um seminário, contando que a Providência lhes enviaria discípulos: o que não demorou. Já no mês de janeiro ocorreram as primeiras entradas.
Mas, no decorrer do ano de 1642, o cura de São Sulpício, Julien de Fresque, desesperando de converter sua paróquia, veio oferecer-lhes sua cura, pedindo em troca um priorado próximo de sua terra natal, o priorado da Trindade de Clisson, que o Sr. Olier possuía. Após recusas e hesitações, por conselho de dom Tarrisse, superior dos beneditinos de São Mauro, no mosteiro de Saint-Germain-des-Prés, do qual dependia a paróquia de São Sulpício, a oferta foi aceita e assinada. O Sr. Olier compreendeu então o sentido de um sonho misterioso que tivera duas vezes, numa época de sua juventude em que pensara fazer-se cartuxo. Viu São Gregório Magno num trono, abaixo dele Santo Ambrósio, mais abaixo um lugar de cura vacante e mais abaixo ainda grande quantidade de cartuxos. Deus lhe assinalara, assim, seu lugar na hierarquia e sua vocação.
A paróquia de São Sulpício era então a mais vasta das paróquias de Paris. Compreendia todo o então subúrbio de São Germano, isto é, desde os limites atuais da paróquia de São Sulpício, a leste, toda a margem esquerda do Sena até o Gros-Caillou inclusive, e a oeste o terreno mais ou menos edificado até os territórios das aldeias de Vaugirard e de Vanves. Contava mais de 150.000 habitantes. Essa imensa paróquia era a mais depravada de Paris; a heresia, a impiedade, a libertinagem aí reinavam sem oposição.
Diante de uma tarefa que havia desanimado seu predecessor, o Sr. Olier preparou-se por um retiro em que fez o voto de servidão a Deus e às almas, e Deus lhe fez saber que aquela paróquia, a mais desregrada de Paris, seria de tal modo renovada por sua misericórdia que as paróquias da capital se reformariam a seu exemplo e que ela poderia servir de modelo ainda a outras — predição que então podia parecer inverossímil e extravagante, e que se verificou de maneira incontestável.
Sendo o mal proveniente, antes de tudo, da ignorância religiosa, o novo cura propôs-se a dar a conhecer Jesus Cristo e seus mistérios. Começou por reunir em comunidade os eclesiásticos que deviam secundá-lo, dando-lhes regras de uma vida verdadeiramente evangélica. Não podendo alcançar por si mesmo toda aquela imensa paróquia, dividiu-a em oito bairros, encarregando em cada um deles um sacerdote de velar especialmente pelas almas daquela circunscrição, depois de ter elaborado um levantamento nominal delas.
Para remediar o mal da ignorância, começou pelas crianças, estabelecendo para elas catecismos na igreja de São Sulpício e doze outros em diferentes pontos de sua vasta paróquia. Com seus colaboradores, compôs um catecismo que juízes competentes consideram um dos mais práticos. Teve reuniões para instruir os serviçais, pajens, lacaios, muito numerosos no subúrbio, habitado por senhores da corte ou do palácio de Orléans. Alcançou os homens de ofício enquadrados nas confrarias, muito multiplicadas no subúrbio, mas degeneradas de seu espírito primitivo. Por ocasião de sua festa patronal, instruiu-os, reformou-os e os preparou para se aproximarem dos sacramentos.
Não negligenciou a salvação dos nobres, levando-os primeiro a recusar os duelos, aos quais os impelia então tão frequentemente a tirania da falsa honra, e conduzindo mesmo um bom número até a perfeição, como o marechal Fabert, o Sr. de Renty e outros. As damas de condição, as princesas tiveram suas reuniões, nas quais as formou na sólida piedade. Pode-se julgar do grau de perfeição a que as elevava pelas cartas dirigidas à princesa de Condé. Em suma, todas as classes da sociedade foram alcançadas por seu zelo.
Se teve uma predileção, foi pelos pobres, sobretudo pelos pobres envergonhados, para os quais sua caridade não teve limites — caridade bem ordenada, como se pode ver pelos regulamentos elaborados para socorrê-los. Seu zelo não negligenciou os hereges. Os grupos de huguenotes no subúrbio lhe tinham feito dar o nome de «pequena Genebra». Procurou alcançá-los por conferências públicas e particulares, que confiou aos mais hábeis controversistas, como o célebre Padre Véron. Deus suscitou homens simples, mas cheios de ciência divina, o cuteleiro Jean Clément e o retroseiro Baumais, que trouxeram de volta à fé um número incrível de hereges.
Quando o jansenismo tentou estabelecer-se na paróquia, o vigilante cura opôs-se nitidamente e com sucesso a essa heresia nascente, e, a despeito dos esforços em sentido contrário, estabeleceu e manteve a comunhão frequente. Com a instrução, o grande meio de conversão é a oração. Por isso, quantas orações, de dia e de noite, ele mesmo fez e pediu às comunidades de sua paróquia! Empenhou todo seu zelo em restaurar o culto público.
O centro do culto é a eucaristia: instruiu cuidadosamente os fiéis sobre a devoção ao Santíssimo Sacramento, incitando-os a vir frequentemente à missa e, no domingo, à missa paroquial, à qual deu toda a solenidade possível, convidando-os também a vir às quarenta horas, à adoração perpétua. Reanimou o fervor dos membros da confraria do Santíssimo Sacramento, estabelecida há muito tempo na paróquia. O ofício canonial era cantado todos os dias; sacerdotes, os mais idosos, eram especialmente encarregados dele, estando os outros membros da comunidade frequentemente absorvidos pelas obras do ministério.
Ao lado das obras de piedade, desenvolveu as obras de caridade para todas as necessidades, incitando os fiéis a dar de si mesmos tanto quanto de seus bens, convencido de que elas são tão úteis a quem as pratica quanto a quem é objeto delas. O quadro dessa atividade pastoral serviu de modelo a muitos curas, mesmo em nossos dias. Diante desse zelo, as oposições não faltaram.
Três anos depois de sua entrada na paróquia, em 1644, uma violenta perseguição foi suscitada por pessoas incomodadas com essas reformas, sob pretexto de defender os direitos do antigo cura. O presbitério foi invadido, saqueado, ele próprio arrastado pelas ruas, golpeado; só deveu sua salvação à dedicação de amigos que conseguiram fazê-lo entrar no palácio de Orléans. A ordem foi restabelecida pela autoridade da rainha, e a perseguição só serviu para firmar o bem já começado.
Em 1648-1652, as duas Frondas deram um singular exercício a seu zelo: a paróquia estava então já tão bem formada que, no conjunto, o subúrbio permaneceu fiel ao rei; mas as profundas miserias, causadas por essas lutas, deram-lhe ocasião de multiplicar de modo incrível seu zelo e sua caridade.
Graças a essas diversas obras de instrução, de piedade, de caridade, e à santidade do cura e de seus colaboradores, ao cabo de apenas dez anos a predição que lhe fora feita no início realizou-se: a paróquia tornou-se a mais fervorosa da capital, e o bem então produzido perseverou através do tempo e das revoluções, e ainda dura.
Também lhe fora predito ao Sr. Olier que seria cura apenas por dez anos. Em 1652, nada fazia prever que em breve seria obrigado a interromper seu ministério, quando, de repente, na data indicada, foi atingido por uma febre tão violenta que já não restava esperança ao médico; a 20 de junho, julgou dever apresentar sua demissão, e o Sr. de Bretonvilliers, seu discípulo predileto, foi instalado cura de São Sulpício. No ano seguinte foi atingido por paralisia; sua vida prolongou-se ainda por quatro anos de sofrimento, durante os quais aperfeiçoou a obra do seminário.
— Seminário. A missão principal do Sr. Olier era o estabelecimento do seminário. Mas sua aceitação da cura de São Sulpício fora útil à fundação desse seminário, e, uma vez concluída a fundação, a paróquia ficou junto a ele como uma escola de aplicação dos princípios que ali se recebiam. «Agora que Deus vai estabelecer-nos na paróquia de São Sulpício, ele nos mostra que quer formar neste lugar um seminário aberto a todas as províncias. Por isso Deus quer estabelecê-lo num lugar que não seja limitado nem restringido por nenhuma jurisdição particular, pois esta paróquia não pertence a nenhuma diocese: depende imediatamente do papa. Estando este seminário destinado ao serviço da Igreja universal, convinha que fosse fixado num lugar que não tivesse outros limites ou outra dependência senão a da Santa Sé, à honra da qual ele se consagra inteiramente.»
Estabelecido primeiro na rua Guisarde, detrás do presbitério, foi transferido, em 1645, para a rua do Vieux-Colombier, numa construção nova erguida por Le Mercier, o arquiteto do Louvre. O Sr. Olier deu a esse seminário um regulamento que não era o de um colégio, nem o de um noviciado, mas que devia acomodar-se a seu duplo caráter de casa de estudo e de formação espiritual. Traçou-o dizendo tê-lo tirado dos concílios, dos Padres e das instituições de São Carlos: foi a princípio um esboço, pois deixou ao tempo e à experiência o encargo de precisá-lo e de lhe dar a forma que os antigos regulamentos do século XVII nos conservaram.
O que há de particular é que o método para obter o cumprimento da regra difere do regime de vigilância contínua e bastante desconfiada dos seminários de São Carlos. Conta-se mais com a consciência, com processos de cordialidade e de confiança, com uma disciplina paternal que assegura uma obediência mais espontânea. Além disso, a comunidade de vida entre mestres e alunos é mais completa do que nos outros seminários fundados na mesma época em Paris. Nestes, os diretores, embora morando na mesma casa, têm certa vida separada, vida de congregação. Separadamente da comunidade, fazem parte de seus exercícios, estando um deles, durante esse tempo, encarregado da vigilância.
Em São Sulpício, mestres e alunos seguem a mesma regra, participam dos mesmos exercícios, como a oração mental, o exame particular, os ofícios da capela, as recreações, etc. Tudo se faz em nome da regra, à qual todos estão submetidos. Essa vida comum, esse contato assíduo, esse exemplo diário têm uma virtude particular para fazer aceitar a regra e praticá-la por consciência. O regulamento que dirige mestres e alunos é apenas a armação exterior. O princípio de vida, no pensamento do Sr. Olier, é o próprio espírito de Jesus Cristo. A máxima fundamental do seminário vem inscrita no início do opúsculo Pietas seminarii, redigido pelo fundador: Primarius et ultimus finis hujus seminarii est vivere summe Deo in Christo Jesu.
O seminário não é apenas um lugar de formação nas virtudes e na vida eclesiástica, é também uma casa de estudos. Num escrito sobre a finalidade do seminário de São Sulpício, o Sr. Olier se exprime assim a respeito dos estudos: «Cuidar-se-á que nada falte do que possa servir à instrução dos alunos. Esforçar-se-á, pois, por instruir cada um segundo sua capacidade, na filosofia, na teologia escolástica, moral e positiva, e também nas controvérsias, a fim de que estejam sempre prontos a dar razão de sua fé.»
Os que desejavam obter os graus teológicos iam todos os dias à Sorbonne. Depois de ali escutarem as lições dos professores, de volta ao seminário, tinham repetições ou conferências sobre as mesmas matérias. Para os que não iam à Sorbonne, era mais difícil, sobretudo durante os quarenta ou cinquenta primeiros anos, estabelecer cursos adaptados a um auditório tão variado como o daquele tempo. Ao lado de jovens que acabavam de terminar seus estudos literários e filosóficos, viam-se bom número de pensionistas mais idosos, já sacerdotes, cônegos, curas, que vinham buscar na casa outra coisa que não a ciência teológica, sendo já licenciados ou doutores.
Essa composição do seminário no início explica a parte mais considerável dada, nos regulamentos primitivos, aos exercícios de piedade, oração, recitação em comum do ofício, e também a natureza dos estudos que ocupavam o resto do tempo: casos de consciência, cerimônias eclesiásticas, administração dos sacramentos.
Em benefício dos mais jovens, que não iam à Sorbonne, davam-se conferências sobre teologia dogmática, mas o ensino era antes de tudo prático, visando dar a cada um o que lhe permitisse exercer o santo ministério. Para umas e outras acrescentavam-se conferências sobre a Sagrada Escritura e a história eclesiástica. Após um estágio mais ou menos longo, os alunos do seminário passavam muitas vezes dois ou três anos na comunidade da paróquia de São Sulpício, que permaneceu assim, até quase o fim do século XVII, uma escola de aplicação. (Fénelon passou ali três anos). É isso que explica o número de eclesiásticos que viviam na comunidade da paróquia, que se elevou até 90 na época do Sr. Tronson.
Vários bispos pediram ao fundador de São Sulpício sacerdotes de sua companhia para dirigir seus seminários. Ele não pôde aceitar, e essa era sua inclinação, senão a direção de um pequeno número. Fundou apenas os seminários de Nantes, Viviers, Le Puy, Clermont. Sob seus sucessores, animados do mesmo espírito de prudência e de modéstia, outros seminários vieram pouco a pouco colocar-se sob a direção de São Sulpício. Na época da Revolução, a Companhia de São Sulpício não dirigia senão uma vintena de estabelecimentos. Sua influência não se explica, portanto, pelo número de seminários dirigidos. Saint-Lazare tinha mais sob sua dependência, e Saint-Nicolas-du-Chardonnet quase tantos.
Contudo, São Sulpício teve então, incontestavelmente, uma ação superior sobre o conjunto dos seminários e sobre o clero da França. Essa influência deve-se sobretudo ao seminário de Paris, que recebia sujeitos de todas as províncias e que, exclamava o Sr. Olier, «uma vez formados e instruídos no respeito e no amor que devem a Jesus Cristo na pessoa dos prelados, partem depois para servi-los no estabelecimento e nos empregos dos seminários». Percorrendo as monografias dos diversos seminários da França, impressas ou manuscritas, constata-se frequentemente a ação de antigos alunos de São Sulpício, ou a influência de seus regulamentos e de seu espírito.
Por outro lado, o episcopado saído de São Sulpício contava uma cinquentena de sujeitos no final do século XVII e mais de 200 no decorrer do XVIII. É assim, muito mais do que pela data do estabelecimento, que se realizou a palavra da Madre Agnès de Langeac ao Sr. Olier, em seu retiro de Saint-Lazare: «Deus vos escolheu para lançar os fundamentos dos seminários da França.»
— O Canadá, Montreal. A reforma da paróquia, a fundação do seminário não bastaram ao zelo da alma apostólica do Sr. Olier. Concebeu o projeto de construir, na ilha de Montreal, então ainda desocupada, uma cidade nova, consagrada à Santíssima Virgem, de ali estabelecer famílias escolhidas que, pela integridade de sua fé e pela pureza de seus costumes, dariam nascimento a um povo novo, o da Nova França. A cidade, que deveria se chamar Villemarie (e que se tornou Montreal), deveria servir de barreira às incursões dos selvagens, ser um centro de comércio com suas tribos e a sede das missões chamadas a se espalhar por todo aquele imenso país.
Não se poderia afastar o lado místico dessa empresa sem falsear a história. É a cem léguas de distância, sem se conhecerem, que o Sr. Olier e o Sr. Le Royer de la Dauversière, piedoso fidalgo de La Flèche, concorrem para esse projeto, que ambos consideram como vindo do céu. Cada um deles foi preparado para isso por manifestações do alto. A 2 de fevereiro de 1636, ao ouvir cantar o Lumen ad revelationem gentium da cerimônia da Candelária, o Sr. Olier recebera de Nosso Senhor a garantia de que um dia teria ele também a felicidade de fazer brilhar o facho da fé aos olhos dos gentios.
Logo depois, Deus lhe mostrou sua vocação sob a imagem de um pilar ao qual vinham unir-se duas igrejas, das quais uma era antiga e a outra nova. Era o símbolo das duas grandes obras que deveriam preencher sua vida: uma ação de renovação na Igreja da França, pela reforma da paróquia de São Sulpício e a fundação do seminário, e, por outro lado, o estabelecimento de uma nova Igreja no Canadá.
Ao mesmo tempo, Jérôme de la Dauversière sentia-se vivamente impelido a instituir uma congregação de religiosas hospitaleiras para a ilha de Montreal, onde ainda não havia senão algumas cabanas de selvagens. Vindo a Paris, o Sr. de la Dauversière encontrou o Sr. Olier na galeria do antigo castelo de Meudon. Então esses dois servos de Deus, que jamais se tinham visto e não se conheciam de modo algum, foram impelidos um para o outro por uma inspiração interior que lhes revelava o nome e os pensamentos um do outro sobre Montreal.
O resultado desse encontro foi um projeto de associação que, sob o nome de Companhia de Nossa Senhora de Montreal, se proporia por única finalidade a gloria de Deus pelo estabelecimento da religião naquela parte da Nova França. A concepção desse projeto e sua realização, plena de peripécias emocionantes, formam uma verdadeira epopeia, que o Sr. G. Goyau, em seu relato, muito justamente chamou uma epopeia mística.
A 17 de maio de 1642, os primeiros colonos, recrutados na França em número de 55 e enviados pela Sociedade de Nossa Senhora de Montreal, desembarcaram na ilha, e no dia seguinte o Padre Vimont, jesuíta, vindo com eles de Quebec, celebrava o santo sacrifício naquela terra prometida, onde o Santíssimo Sacramento nunca deixou, desde então, de residir. No ano de sua morte, o Sr. Olier enviou os primeiros missionários sulpicianos, os senhores Souart, Galinier, d'Alet, com o Sr. de Queylus à frente.
Desde então, a obra haveria de, a custo de duros sacrifícios e momentos penosos, prosperar além de toda previsão, e a palavra dirigida aos primeiros colonos pelo Padre Vimont, no dia da tomada de posse da ilha, haveria de ter plena realização: «O que vedes não é senão um grão de mostarda. Não duvido de que esse pequeno grão produza uma grande árvore e faça um dia maravilhas.»
Ao contar esta vida, assinalamos várias manifestações sobrenaturais; convém notar, porém, que uma alma tão mística jamais se resolveu a agir por essas intervenções sobrenaturais, mas sempre se determinou pelas regras da prudência cristã e pelo conselho dos homens mais sábios e mais virtuosos.
Olier via nisso, contudo, uma indicação, plena de consolação e de encorajamento, de que estava bem no caminho querido por Deus. Tudo o que elas lhe tinham anunciado sobre a paróquia, o seminário e Montreal realizou-se à letra. Ele havia posto o Sr. de Bretonvilliers à frente da paróquia, colocado o Sr. Ragnier de Poussé na direção do seminário, enviado outro de seus discípulos, o Sr. de Queylus, a Montreal; e, durante o tempo que lhe sobreviveu, ofereceu suas orações e seus sofrimentos por essas três obras de seu zelo.
Cumprida sua missão, morreu a 2 de abril de 1657, com apenas 49 anos. Bossuet (Mystici in tuto, c. XXX) chama o Sr. Olier, virum praestantissimum ac sanctitatis odore florentem. Em 1730, a assembleia do clero da França, em sua carta ao papa Clemente XI, faz dele este elogio: eximium sacerdotem, insigne cleri nostri decus et ornamentum.
— II. Obras. Suas obras literárias são manifestações de seu zelo como cura ou fundador do seminário. Sua vida as explica.
1° O encargo da cura de São Sulpício levou o Sr. Olier a compor os Reglemens pour la confrairie de la charité establie à Paris dans la paroisse Saint-Sulpice (em 1643), para a visita e o alívio dos pobres doentes; um Règlement pour les mariages; Déclaration faite par un grand nombre de gentilshommes et de militaires (a respeito do duelo); L'ordre établi dans la paroisse Saint-Sulpice pour le soulagement des pauvres honteux. Esses opúsculos, publicados separadamente em 1652, 1662, foram reproduzidos nas Remarques sur l'église et la paroisse de Saint-Sulpice, pelo abade Simon de Doncourt, no tomo II, peças justificativas.
Em colaboração com vários sacerdotes de São Sulpício que serviam à paróquia, compôs o Catéchisme des enfants de la paroisse Saint-Sulpice, publicado em 1665 e nas peças justificativas de Simon de Doncourt. É um dos mais práticos e mais bem adaptados a seu objetivo, no julgamento de vários eminentes catequistas.
2° La Journée chrestienne, por um sacerdote do clero, in-24, Paris, J. Langlois, 1655. No prefácio, explicando o objetivo da obra, ele se exprime assim: «Essa verdade, que devemos viver como Jesus Cristo viveu sobre a terra, em seus costumes e seus sentimentos, deu-me a ideia de formar algumas práticas e de propor diversas intenções para fazer santamente cada uma de suas obras.» A obra divide-se em duas partes: 1° Ações de piedade que se referem particularmente a Deus; 2° Ações comuns que servem à necessidade ou ao alívio da vida. Reedições in-12, 1657, 1661, 1672, 1684, e in-32, 1838, 1857, 1875, 1907, 1925.
3° Catéchisme chrétien pour la vie intérieure, por um sacerdote do clero, in-12, Paris, Langlois, 1656, em duas partes: 1. Do espírito cristão; 2. De um meio principal para adquirir e conservar o espírito cristão (a oração). No início de alguns exemplares, uma belíssima vinheta segundo os desenhos de Le Brun, gravada por Boulenger; a ideia fora fornecida ao célebre pintor pelo Sr. Olier: Jesus Cristo, de pé, instruindo seus discípulos, é representado com a mão esquerda levantada e tendo na direita a cruz e o santo Evangelho. Reedições in-12 em 1657, 1662, 1674, 1692, 1697, 1703; e in-32, 1822, 1825, 1831, 1836, 1837, 1844, 1847, 1851, 1856, 1867, 1872, 1888 — edição precedida de uma introdução pelo Sr. Goubin, sacerdote de São Sulpício, 1922, 1925. Encontra-se no tomo II dos Catéchismes editados por Migne, em dois in-4°, em 1842. Foi traduzido para o flamengo, em 1686, e para o italiano, em 1858.
4° Explication des cérémonies de la grand'messe de paroisse selon l'usage romain, por um sacerdote do clero, in-12, Paris, Langlois, 1656. Essa explicação é no sentido místico. Dom Guéranger (Institutions liturgiques, t. II, p. 140) diz que o Sr. Olier, «um dos últimos escritores místicos da França, recebera do alto a inteligência dos mistérios da liturgia, num grau raro antes dele, diríamos quase desconhecido depois. Foi nisso digno contemporâneo do cardeal Bona.» O manuscrito original, conservado no seminário, tem muito poucas emendas e correções. O autor parece ter escrito por inspiração. Reedições in-32, 1661, 1667, 1687, 1695, 1835, 1858.
5° Introduction à la vie et aux vertus chrestiennes, in-12, Paris, Langlois, 1658. A aprovação do Sr. de Maupas, bispo de Le Puy, é datada de 2 de abril de 1657, dia da morte do Sr. Olier. Reedições in-12, em 1659, 1661, 1672, 1684, 1692, 1698; e in-32, 1828, 1830, 1833, 1837, 1853, 1859, 1875, 1880, 1927. Para essas quatro últimas obras, além das edições autênticas, encontram-se várias contrafações, Lyon, Rouen, Toulouse, Bordeaux, Grenoble, Avignon, etc.
6° Traité des saints ordres par M. Olier, ancien curé de la paroisse Saint-Sulpice, Paris, Langlois, 1676. Publicado pelos cuidados do Sr. Tronson, que enriqueceu a obra com um número considerável de textos latinos, extraídos dos Padres, dos concílios, dos teólogos. Reedições in-12, 1684, 1685, 1817; em 1831, bela edição in-8°; in-12, 1834, 1856, 1861, 1868; in-32, 1873, 1879. A edição de 1896 foi publicada pelo Sr. Branchereau, e desde então, edições 1925, 1928. Tradução para o italiano.
7° Lettres de M. Olier. A primeira edição apareceu em Paris, Langlois, em 1672, in-8°, sob o título de Lettres spirituelles de M. Olier, com um prefácio do Sr. Tronson, que só deixou entrar em sua coletânea um número limitado de cartas (250), e ainda muitas vezes incompletas, sem indicar os destinatários. O objetivo dessa publicação era dar um resumo das disposições espirituais e das máximas do Sr. Olier.
Houve desse volume várias reedições em 1673, 1681, e in-32, 1831, 1851, 1862. Em seus Mystici in tuto, c. XXX, n. 99, Bossuet dá grande importância a essas cartas espirituais e a seu autor. Em 1885, em 2 vols. in-8°, Paris, Lecoffre, apareceu uma edição tão completa quanto o Sr. Gamon, sacerdote de São Sulpício, pudera fazê-la a partir dos autógrafos e das cópias autênticas. Ela compreende 433 cartas. Para a maior parte, indica o nome do destinatário e a data ao menos aproximada do envio. Prepara-se neste momento uma nova edição mais completa.
8° Pietas Seminarii Sancti Sulpitii. Esse pequeno opúsculo, muito conhecido nos seminários de São Sulpício, apareceu pela primeira vez somente em 1819, numa coletânea intitulada Pia exercitia ad usum seminarii Sancti Sulpitii. Desde então foi inserido em coletâneas semelhantes, em 1820, 1839, 1877, 1904.
Editado separadamente, in-32, Desclée, 1928. Uma edição crítica dele foi feita em Bourges em 1879 e reeditada em 1885: Pietas seminarii Sancti Sulpitii, fidem autographi Oleriani, explanatione perpetua et notis auxit F. Labbe de Champgrand.
9° Alguns outros opúsculos foram publicados no Manuel du séminariste de M. Tronson, edição de 1823: Examen sur les vertus chrétiennes et ecclésiastiques e Avis aux ministres du Seigneur. Um pequeno opúsculo de 32 páginas, Sentiments de M. Olier sur la dévotion à Saint-Joseph, foi publicado em 1843; a edição de 1858, in-32, foi muito difundida na França e no Canadá. Tiraram-se dele mais de quarenta mil exemplares. Encontra-se esse opúsculo no fim da última edição da Journée chrétienne e em Pietas Seminarii, última edição. Em 1845, em Lyon, foi impresso um opúsculo contendo, junto com as Maximes chrétiennes et ecclésiastiques de M. Bourdoix, as Maximes sur l'obéissance de M. Olier, reeditado em 1862.
10° Œuvres complètes de M. Olier... réunies pour la première fois en collection... et publiées par l'abbé Migne, vol. grand in-8°, 1856. A palavra "completas" «entende-se de todas as obras editadas em qualquer lugar, em qualquer tempo e em qualquer formato que seja, não das manuscritas que possam existir nos arquivos de Saint-Sulpice.» (Nota do editor.)
11° A partir de escritos autógrafos de M. Olier, M. Faillon tirou dois volumes publicados em Roma: Vie intérieure de la très sainte Vierge, 2 vol. gr. in-8°, 1866. A obra é revestida do imprimatur do Mestre do Sacro Palácio e, além disso, das aprovações de três membros da Congregação do Índex. Contudo, algumas objeções foram feitas contra essa obra. Como os fragmentos são tirados de escritos diferentes em data, em estilo, em finalidade, e muitas vezes não são mais que simples esboços, M. Faillon, ao agrupá-los, pôde facilmente dar-lhes um alcance que ultrapassava o pensamento do servo de Deus. Esse editor respondeu às dificuldades que lhe foram feitas num apêndice impresso, mas não publicado: De quibusdam difficultatibus minoris momenti a RR. censoribus Olerio objectis. Ele se propunha, aliás, a esclarecer as coisas numa nova edição. A morte o impediu de dá-la. Em 1875, M. Icard deu essa edição, mas abreviada, livre das reflexões de M. Faillon e dos textos dos Padres e teólogos que ele havia reunido para explicar e justificar as expressões de M. Olier. Uma nova edição foi publicada por M. Icard em 1880. Dom Pellei, bispo de Acquapendente, perto de Orvieto, extraiu da obra editada por M. Faillon o fundo de um volume que foi traduzido para o francês sob este título: La très sainte Vierge, fondatrice en Jésus-Christ de la sainte Église.
12° Um bom número de outros escritos mais ou menos acabados, alguns simples fragmentos, permaneceram manuscritos; têm por objeto a criação, os sacramentos, a oração, sermões e panegíricos de santos; os mistérios e as festas da liturgia, as virtudes cristãs, esboços ou ensaios relativos ao seminário e à Companhia de Saint-Sulpice. Extratos desses manuscritos entraram na seguinte obra: L'esprit de M. Olier, où sont représentés ses grâces, ses sentiments, ses dispositions, ses pratiques touchant les principaux mystères et les vertus chrétiennes, tirés de ses écrits, de ses entretiens, de sa vie. A obra foi iniciada por M. de Bretonvilliers, continuada por M. Tronson, que não teve tempo de lhe dar o acabamento final. M. Goubin, superior da Solitude, completou-a e publicou-a em 2 vol. in-4°, litografados em cem exemplares. Em 1916, M. Letourneau, cura de Saint-Sulpice, extraiu dela um pequeno volume in-18, Paris, Gabalda: Pensées choisies sur le culte de Notre-Seigneur, de la sainte Vierge, des anges et des saints.
13° Conservam-se também, mas em cópia (não existindo mais os autógrafos), diversos escritos: La vie divine, les attributs divins, les mystères de Notre-Seigneur appliqués à chaque action de la journée, explication du Pater. La retraite d'un curé, opúsculo designado em algumas cópias sob o título Le maître des exercices, título que é o da introdução. Diversos escritos para a direção da paróquia.
14° O primeiro projeto da obra conhecida sob o nome de Examens particuliers de M. Tronson remonta a M. Olier, que começou a realizá-lo com a colaboração de M. de Poussé, colocado à frente do seminário de Saint-Sulpice. Uma carta de outubro de 1648, que o servo de Deus lhe escrevia, mostra que os temas de exames referentes às virtudes já estavam em elaboração. Conserva-se no seminário um exemplar manuscrito em que os exames ainda estão no estado inicial de sua composição. Os temas são em número de 85 e tratados de maneira muito breve, sem os detalhes práticos e as citações dos Padres e dos concílios que M. Tronson lhes acrescentou. Traz o título de Méthode très utile aux ecclésiastiques qui veulent arriver à la perfection de leur état et qui leur enseigne comme ils doivent vivre dans une fonction sublime. A primeira parte trata das virtudes; a segunda versa sobre o que se pratica no seminário de Saint-Sulpice. (Cf. Prefácio da edição dos Examens particuliers, de M. Tronson, edição de 1927.)
15° O catálogo manuscrito da antiga biblioteca do seminário, conservado na biblioteca Mazarine, assinala: J. J. Olier ecclesiae Sancti Sulpitii communis pastoris et seminarii fundatoris loci, in-4°. O n. 3882 da Mazarine é efetivamente o autógrafo de M. Olier. É um repertório ou coletânea de textos por ordem alfabética de assuntos, por exemplo sobre a Sagrada Escritura, santo Ambrósio, as revelações de santa Brígida, Dionísio o Areopagita. São os escritos deste último que mais frequentemente retornam. Os textos estão em francês, em latim, ou até em grego, sempre exatamente acentuados.
— 16° Memórias autógrafas. No escrito que se chama Memórias de M. Olier, há duas partes diferentes: uma parte que é um relato de sua vida passada, espécie de revisão ou confissão geral feita para seu diretor; o tom é simples e se detém nas coisas principais. Outra parte, mais longa, é uma espécie de confidência feita dia a dia. Seu diretor, o P. Bataille, então em Saint-Germain-des-Prés, pediu-lhe que registrasse ali todos os seus pensamentos, seus sentimentos, até o que ele não aceitaria totalmente, o que atravessava seu espírito, sua imaginação, como os sonhos e as fantasias. Encontram-se ali os pensamentos teológicos, místicos que o ocupavam na oração ou no decorrer do dia: ora são visões sublimes, ora esboços imperfeitos lançados ao correr da pena, com sentidos místicos por vezes sutis e até um pouco estranhos. Não escrevendo para o público, mas para seu diretor, ele não se detém em precisar, em explicar. Um dia lança seu pensamento no papel, depois, uma causa exterior o interrompendo, não o termina, e no dia seguinte passa a outra ordem de ideias. Para se ter seu verdadeiro pensamento sobre as questões dogmáticas ou místicas, é preferível ler suas cartas e suas obras impressas ou tratados manuscritos. Aliás, ele não relia os cadernos, que entregava a seu diretor para que este fizesse deles o que julgasse conveniente, os jogasse ao fogo, ou os conservasse se devessem servir à gloria de Deus.
Ao escrevê-los, ele às vezes se detém e se pergunta por que seu diretor o obriga a escrever, e disso se desculpa: «Minha coragem por vezes se abate, vendo as impertinências que escrevo, que me parecem grandes perdas de tempo, e me parece o mesmo para meu caro Diretor, cujas horas lamento que ele deva empregar nisso e que temo aborrecer. Também me parece a toda hora que ele deveria me proibir de escrever, sendo tudo isso tolices insuportáveis.» Mas, enquanto seu diretor não lhe disser para cessar, ele escreverá tudo por obediência, sob a impressão do momento, no estado em que as coisas se apresentam a seu espírito, mesmo incompletamente. «Peço a meu Salvador, escreve ele em 15 de julho de 1642, que não sofra mais que eu perca e consuma meu tempo em outra coisa que não em seu amor.»
M. Olier permaneceu em relações com o P. Bataille até cerca do fim de 1646. A congregação de Cluny, após alguns anos de união com a de Saint-Maur, tendo-se separado, o P. Bataille deixou Saint-Germain-des-Prés e se tornou prior de Saint-Martin-des-Champs (1645-1646). Após sua partida para Cluny, M. Olier se pôs sob a direção de M. Picoté, que parece ter o instado a continuar a anotar seus pensamentos. Todavia, de 1646 a 15 de fevereiro de 1652, as Memórias são dez vezes menos extensas e muito menos pessoais que de 1642 a 1646. Durante os últimos seis anos de sua vida, as Memórias são interrompidas. Depois da morte de M. Olier, os cadernos foram entregues por dom Bataille a M. de Bretonvilliers; alguns se perderam desde então. Reuniram-se depois em 8 volumes muito bem encadernados. Mas foram então em parte dispostos na ordem cronológica dos fatos relatados, em vez de serem deixados na ordem de sua composição. Uma cópia exata deles foi feita, e mais completa que o original atual.
III. Doutrina. A doutrina de J. J. Olier é a da escola francesa, cujos primeiros mestres foram o P. de Bérulle e o P. de Condren. Ver abaixo o art. Oratório. Ele soube exprimir-lhe perfeitamente os princípios e fazer-lhe as aplicações mais práticas. Dirigido durante vários anos pelo P. de Condren, a ele se vincula mais estreitamente: ele mesmo diz que herdou seu espírito. O centro dessa espiritualidade da escola francesa é o Verbo incarnado, do qual o P. de Bérulle mereceu ser chamado apóstolo pelo papa Urbano VIII.
Ao ouvir autores sérios, como o P. Bourgoing ou o P. Amelote, afirmar nesse sentido que o P. de Bérulle teve por missão «fazer conhecer Jesus Cristo ao mundo», que «ele renovou a aplicação dos espíritos a Jesus Cristo», não se deixa de sentir certo espanto. Toda espiritualidade não converge para Jesus Cristo, o Homem-Deus, para o mistério da incarnação? Os místicos da Idade Média amaram singularmente Jesus Cristo, o Verbo incarnado. O estudo e o amor de Jesus Cristo ter-se-iam depois obnubilado entre os cristãos sob a influência do Renascimento pagão, ou as especulações metafísicas dos doutores católicos dos séculos XV e XVI teriam feito esquecer demais Jesus Cristo? Disse-se isso. Contudo, o sucesso do movimento determinado pelos ensinamentos do P. de Bérulle, do P. de Condren, de M. Olier, deve-se sobretudo ao caráter mesmo dessa doutrina espiritual. Cf. H. Bremond, Hist. litt. du sentiment religieux, t. III, p. 46 e segs.
Para melhor compreendê-lo, é preciso remontar à fonte de toda espiritualidade, o Evangelho. Aparece à primeira vista que a doutrina espiritual em são João e em são Paulo apresenta um aspecto diferente do que nos sinópticos. Nestes últimos, ela parece mais simples, mais elementar, como um ensino preparatório em relação a um ensino superior. É «o ensino elementar sobre o Cristo», Hebr., VI, 1, que o considera mais pelo lado exterior e em sua ação externa do que em sua natureza e sua ação íntima. Os sinópticos se mantêm, por assim dizer, no andar de baixo e não sobem ao aposento alto dos mistérios, das coisas celestiais. São as terrena em relação às caelestia. Joa., III, 12.
Nos sinópticos, a vida cristã nos é apresentada como uma imitação da vida do Cristo. É preciso caminhar em seu seguimento, imitar seus exemplos, a humildade, a obediência, o sacrifício de si, etc., que ele fez aparecer nas diversas ações de sua vida. Nas epístolas de são Paulo sobretudo, e no evangelho de são João, a vida cristã não é somente uma imitação de Jesus Cristo, é uma comunhão de vida com ele. Toda a graça está em Jesus Cristo em sua plenitude; é dele que recebemos tudo; e recebemos essa graça para entrar nas disposições mesmas do Cristo, nelas comungar, para participar de seus mistérios e reproduzir em nós os estados deles. É o Cristo que vive em nós. Num corpo, é até mesmo o sangue que circula na cabeça e nos membros, diz são Paulo. É a mesma seiva, diz por sua vez são João, que sobe da videira para os ramos.
As diferentes escolas de espiritualidade insistiram de preferência num ou noutro desses aspectos. Mas a busca particular de um desses aspectos não exclui o outro. A imitação desemboca na comunhão; a comunhão acarreta a imitação; apenas o acento é posto ora na imitação, ora na comunhão.
O primeiro método põe mais em relevo o esforço do homem que caminha para o Cristo e tenta reproduzir o modelo. O segundo faz ressaltar mais a parte da graça. Os obstáculos a essa graça são afastados pela renúncia; e a ela se responde comungando às disposições interiores do Cristo. Em vez de caminharmos para o Cristo, nós o atraímos a nós.
A catequese elementar, conservada nos sinópticos, quase só fala de seguir Jesus Cristo, ao preço mesmo de todos os sacrifícios, de imitar as virtudes das quais ele nos deu o exemplo. É um evangelho de conquista e de primeira formação dos fiéis. São Paulo, depois de ter pregado, como os outros apóstolos ou discípulos do Cristo, a primeira catequese, da qual se encontram traços aqui e lá em suas cartas, dedica-se sobretudo a pôr em relevo o segundo aspecto da vida cristã, mais profundo, mais íntimo, mais místico. O mesmo ocorre com são João.
Segundo os Padres ou os autores espirituais se atenham aos sinópticos ou a são Paulo, eles se apoiam num ou noutro desses dois aspectos da vida cristã. Pode-se dizer que, no século XVI, os Exercícios espirituais puseram o acento no primeiro aspecto. Santo Ignácio é um soldado que conserva as imagens da vida guerreira para descrever a vida cristã. O Cristo é para ele um chefe, que marcha diante de nós com seu estandarte; é preciso segui-lo, imitá-lo. Os Exercícios são uma obra de conquista; como os sinópticos, é preciso trazer à prática da vida cristã a gente do mundo, é preciso arrastá-la a se converter e a servir a Deus. Esse lado mais acessível da vida cristã é posto sobretudo em evidência, ficando o outro em segundo plano.
Buscando mais diretamente conduzir à perfeição as almas já entregues a Deus, Bérulle, Condren, Olier puseram o acento na vida de união, na comunhão com as disposições do Verbo incarnado. Eles se vinculam diretamente a são Paulo, do qual haviam feito um estudo especial. As obras de M. Olier estão todas entremeadas de textos do Apóstolo. Não se quer dizer com isso que não se possa atingir a mais alta perfeição com o primeiro método, que se esclarece mais ou menos conscientemente com as luzes do outro aspecto, mais profundo, da vida cristã, assim como os sinópticos, que foram escritos diretamente para a primeira formação dos fiéis, deixavam entrever, graças à luz dos ensinamentos de são Paulo e de são João, profundezas a princípio insuspeitadas.
O princípio fundamental da doutrina do P. de Bérulle e da escola francesa de espiritualidade é tirado do mais íntimo mesmo do mistério da incarnação. Cf. Pourrat, La spiritualité chrétienne, t. III, p. 510. Em Jesus Cristo a natureza humana não se pertence a si mesma: privada de personalidade própria, ela pertence à pessoa divina do Verbo. «A santa humanidade de Nosso Senhor, escreve M. Olier, Pensées choisies, p. 40, está aniquilada como pessoa; ela não tem interesses particulares e não pode agir por si mesma. A pessoa do Verbo, à qual ela pertence, vê e busca em tudo os interesses de seu Pai. Assim é com o verdadeiro cristão.» Cf. Catéchisme chrétien, parte I, lição XX. Ele só pode ser todo de Deus com a condição de renunciar a si mesmo, deixar por assim dizer de se pertencer.
Daí os dois aspectos da vida cristã: a renúncia e a união ou adesão a Jesus Cristo. «A vida cristã tem duas partes, a morte e a vida. A primeira serve de fundamento à segunda. Isso é reiterado nos escritos de são Paulo, particularmente no capítulo 6 da Epístola aos Romanos... e em mil outros lugares ele repete esses dois membros do estado cristão, de sorte, porém, que a morte deve sempre preceder a vida. E essa morte não é senão a ruína inteira de tudo nós mesmos, a fim de que, estando destruído tudo o que há de oposto a Deus em nós, seu espírito ali se estabeleça na pureza e na santidade de seus caminhos.» Introd. à vida cristã, c. III.
A renúncia impõe-se, pois. Impõe-se ao homem a título de criatura e a título de pecador. A criatura, tirada do nada, tende ao nada por sua condição. É sobre esse nada de natureza, diante da infinita grandeza de Deus, que o P. de Condren insiste particularmente. Em seu Catéchisme chrétien, parte I, lição XI, e em sua Introduction à la vie et aux vertus, c. XI, seç. 8 e 9, falando do amor-próprio, do espírito de propriedade, M. Olier toca esse motivo. Mas ele insiste antes no nada de graça, ou o pecado, seja o pecado original, que depois do batismo deixa em nós tendências ao pecado, seja o pecado atual.
Antes de sua queda, Adão se encontrava estabelecido, pelos dons de Deus, num estado de inocência e de retidão, num perfeito equilíbrio de sua natureza: os sentidos obedeciam à razão e a razão a Deus. O pecado rompeu esse equilíbrio. Daí a oposição entre a carne e o espírito, mais ou menos violenta segundo os temperamentos. Sobre essa oposição, M. Olier, à esteira de são Paulo, insiste fortemente. Catéchisme chrétien, lições XVI-XVIII. O batismo, sem dúvida, reergueu a alma, que não está mais em oposição com Deus. Mas a vida do espírito, que ele comunica à alma, é combatida pela vida da carne. É o duelo entre o homem novo e o velho homem, o qual nunca é inteiramente destruído. A luta permanece mais ou menos viva, segundo a fidelidade às inclinações do Espírito. Daí a necessidade da mortificação.
Ao falar da malignidade da carne, da corrupção da natureza decaída, M. Olier emprega por vezes expressões que, tomadas ao rigor da letra, parecem demasiado absolutas, demasiado pessimistas. É verdade que elas estão no tom de bom número de santos autores de seu tempo, por reação sem dúvida contra os excessos do humanismo do Renascimento. O cardeal Bona, são Vicente de Paulo, são João Eudes têm expressões semelhantes. O mesmo ocorre com os autores místicos de tempos anteriores. Cf. Icard, Doctrine de M. Olier, c. V, e P. Faber, Progrès de l'âme, c. XX, nota. Os autores místicos nem sempre têm, nessa questão, o rigor e a precisão de termos dos teólogos; é que, colocando-se não unicamente do ponto de vista do pecado propriamente dito, mas da perfeição, a simples imperfeição lhes parece, como aos santos, uma enormidade diante da santidade infinita de Deus — de Jesus Cristo.
— União, adesão a. A renúncia, a mortificação não são o fim; não são senão um meio para afastar os obstáculos à verdadeira vida. É preciso despojar-se do velho homem para revestir o novo, que é Jesus Cristo. Essa doutrina do apóstolo é fortemente comentada no Catéchisme chrétien, na Introduction à la vie et aux vertus etc. «Quando nos despojamos de nós mesmos, somos revestidos de Jesus Cristo por uma consagração total a Deus, pois no momento em que a santa humanidade era aniquilada em sua própria pessoa, dava-se-lhe a plenitude da divindade, e uma capacidade infinita para receber as operações do Espírito.» Pensées choisies, p. 40. Revestir Jesus Cristo é ser-lhe conforme, é reproduzir em nós as disposições de Jesus Cristo, participar dos mistérios de sua vida.
— Participação nos mistérios do Cristo. Esses mistérios são os acontecimentos principais da vida do Cristo, como sua incarnação, sua infância, sua paixão, sua morte, seu sepultamento, sua ressurreição, sua ascensão. Todas as ações principais da vida de Nosso Senhor são mistérios. Mas M. Olier, em seu Catéchisme pour la vie intérieure, detém-se nos que acabamos de enumerar, exceto a infância, de que fala em suas cartas. Em suas Memórias, ele menciona o mistério da apresentação de Nosso Senhor no templo, unido ao da purificação da santa Virgem.
Esses mistérios exteriores são «símbolos eficazes da vida cristã, como sacramentos dos mistérios interiores que ele opera nas almas». «Como Nosso Senhor foi crucificado exteriormente, é preciso que o sejamos interiormente. Como ele morreu exteriormente, é preciso que o sejamos interiormente, etc.» E essa vida interior, expressa pelos mistérios exteriores, e as graças adquiridas por esses mesmos mistérios, devem estar em todos, visto que foram merecidas para todos.
Como se vê, é bem a própria doutrina de são Paulo. Com ele, ele vai ainda mais adiante. Devemos também ser conformes ao interior de Jesus Cristo em seus mistérios, de sorte que nossas almas sejam tornadas conformes aos estados, isto é, às disposições e sentimentos interiores que Nosso Senhor tinha nesses mesmos mistérios. É essa propriamente a vida cristã. O cristão deve viver interiormente, pela operação do Espírito, à maneira como Jesus Cristo vivia. Introduction à la vie et aux vertus, c. II e III.
O servo de Deus se complace em expor o efeito, a graça de cada um desses mistérios. No mistério da incarnação, mistério de aniquilamento da humanidade em sua própria pessoa, pertencente à pessoa do Filho de Deus, essa humanidade é totalmente consagrada a Deus. Assim, o mistério da incarnação deve operar em nós um inteiro despojamento e renúncia a tudo o que é nosso, e além disso uma consagração total a Deus. Por esse mistério de aniquilamento diante da infinita majestade de Deus, o Cristo é o único verdadeiro e perfeito adorador de Deus, o religioso de Deus; ele nos faz participar desse estado de adoração. Sendo a adoração, a religião, o principal dever do sacerdote, é em seu Traité des saints ordres e na Explication des cérémonies de la messe de paroisse que M. Olier se compraz em desenvolver essa doutrina. O mesmo sentimento lhe inspirou a admirável oração «pelo santo ofício» na 1ª parte da Journée chrétienne e a maravilhosa carta em que explica o significado do canto da Igreja. Lettres de J. J. Olier, t. II, 1885, p. 587-589. Ver também a bela oração em honra da Santíssima Trindade, que é dada como oração da manhã na Journée chrétienne.
O segundo mistério é o da infância do Cristo, passado em silêncio no Catéchisme chrétien, mas exposto nas cartas CXIV, CXV, CCCLXXII (edição 1885). Essas cartas foram escritas em seguimento à união espiritual, formada pela devoção ao Menino Jesus, entre Margarida do Santíssimo Sacramento, carmelita de Beaune, e o servo de Deus. Foi então que ele manifestou uma maior aplicação a esse mistério. Também em seu Pietas seminarii ele faz dele uma das devoções de seu seminário. As graças desse mistério são: a inocência, a pureza, a simplicidade, a obediência. Um dos discípulos de M. Olier, Jean Blanlo, expôs a doutrina da infância cristã num pequeno volume que se tornou clássico sobre a matéria, intitulado L'enfance chrétienne qui est une participation de l'esprit et de la grâce du divin Enfant Jésus, Verbe incarné, opúsculo repleto de unção e de bom estilo, muito frequentemente reeditado e atualmente ainda reeditado.
— Mistérios da morte. Os mistérios da crucifixão, da morte e do sepultamento do Cristo exprimem os graus da imolação total pela qual devemos crucificar o velho homem, esforçar-nos por fazê-lo morrer e sepultá-lo. O servo de Deus não teve senão que seguir os ensinamentos e as próprias expressões de são Paulo sobre esses mistérios de Jesus Cristo. Somos crucificados com ele (confixus, Gal., II, 19), mortos com ele (commortui, II Tim., II, 11), sepultados com ele (consepulti, Rom., VI, 4; Col., II, 12). Os mistérios da crucifixão, da morte e do sepultamento do Cristo, ao nos darem esse ensinamento, nos comunicam a graça para realizá-los em nós. Catéchisme chrétien, parte I, lição XXI; Pensées choisies, p. 47-48.
— Mistérios da vida. Os mistérios da ressurreição e da ascensão exprimem o desapego perfeito das criaturas, na vida nova e totalmente celeste que devemos levar à esteira do Cristo. Somos vivificados e ressuscitados com ele (convivificavit, conresuscitavit, Ef., II, 5; Col., II, 13), glorificados com ele, assentados com ele no céu e reinando com ele (conglorificemur, consedere fecit, conregnabimus, Rom., VIII, 17; Ef., II, 6; II Tim., II, 12). A ascensão completa o estado da ressurreição e o fixa.
Para honrar não apenas esses mistérios do Cristo, mas também todos os seus estados e disposições interiores, o P. de Bérulle havia instituído a festa da Solenidade de Jesus. Em Saint-Sulpice essa festa foi chamada a festa da vida interior de Nosso Senhor. «Essa vida interior de Jesus Cristo, diz M. Olier, consiste em suas disposições e sentimentos interiores para com todas as coisas, por exemplo em sua religião para com Deus, em seu amor pelo próximo, em seu aniquilamento em relação a si mesmo, em seu horror ao pecado e em sua condenação do mundo e de suas máximas. Catéchisme chrétien, lição III; Introduction à la vie, c. I e II.
Para exprimir essa devoção à vida interior de Nosso Senhor, M. Olier adotou a oração que lhe havia ensinado o P. de Condren e a completou: «O Jesus vivens in Maria.» Faillon, Vie de M. Olier, 4ª edição, t. I, p. 168. Para facilitar a prática da união a Nosso Senhor, não apenas em seus mistérios principais, mas em todas as suas ações, ele compôs a Journée chrétienne, que H. Bremond chama o Gênio do Berulismo e cujo ritmo místico e lírico ele exalta. Hist. litt., t. III, p. 462 e segs. Quem agir e viver assim, em união diária, constante com Jesus Cristo, poderá dizer com são Paulo: «O Cristo é minha vida», e realizará, em suma, a máxima da Pietas seminarii: Vivere Deo in Christo Jesu.
O cristianismo, diz M. Olier, consiste em três coisas: ter Nosso Senhor diante dos olhos, no coração e ao mesmo tempo nas mãos. Isso não é senão, ao mesmo tempo, uma regra de vida, um método de oração: «Olhar a Jesus, unir-se a Jesus, e operar em Jesus.» O primeiro leva ao respeito e à religião; o segundo à união ou à unidade com ele; o terceiro à operação, não solitária, mas unida à virtude de Jesus Cristo que atraímos a nós pela oração. O primeiro se chama adoração, o segundo, comunhão, o terceiro, cooperação.
— Mistério da eucaristia. O «memorial de todos os mistérios do Cristo» é a eucaristia. «O espírito interior que os vivifica está presente nela. Ali ele nos dá como alimento todos os seus mistérios e nos comunica sua vida e sua virtude.» Pietas seminarii, IV, IX. Para M. Olier, a verdadeira formação do sacerdote se opera sobretudo por uma participação no estado de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Sua vocação, sendo formar sacerdotes nos seminários, exigia que ele tivesse uma devoção toda particular ao Santíssimo Sacramento e uma graça especial para comunicá-la. «Orando diante do Santíssimo Sacramento, foi-me mostrado que era preciso formar sacerdotes aos quais se devia inspirar a devoção e o zelo pela gloria do Santíssimo Sacramento para levá-lo a todo lugar. Foi-me posto diante dos olhos um homem sempre orando e, de outro lado, sacerdotes subindo pelas montanhas e levando com zelo aos lugares mais pobres a piedade para com o augustíssimo Sacramento.» Mémoires, I, 75. Ele estava persuadido de ter recebido essa graça de Nosso Senhor.
Em 1642, depois da fundação do Seminário, escreve ele em suas Memórias (III, 72): «Nosso Senhor me fazia ver que duas pessoas já haviam trabalhado para fazê-lo honrar em seus mistérios, a saber: Dom de Bérulle para fazer honrar sua incarnação, o P. de Condren, sua ressurreição, e que ele queria que eu o fizesse honrar em seu Santíssimo Sacramento, e para isso que me queria dar a graça e o espírito desse divino mistério, ensinando-me a viver conforme esse divino mistério e a ensiná-lo ainda aos outros, a saber, como hóstias vivas.» Também o servo de Deus se espanta de que Deus tenha querido fazer dele uma imagem de seu Filho único, de seu Filho, hóstia no Santíssimo Sacramento, fazendo-o experimentar os sentimentos desse divino interior para comunicá-los por meio dele, insensivelmente, às almas. Faillon, Vie de M. Olier, t. II, p. 209.
Para exprimir os deveres que Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento rende a seu Pai, e aos quais devemos comungar, o servo de Deus fez desenhar por Lebrun e gravar por Claude Mellan a imagem de um ostensório sobre o qual se vê o Espírito Santo planando sob a forma de uma pomba, e o Pai estendendo seus braços, e, de cada lado, a santa Virgem e são João em adoração. No centro, a hóstia santa representando um cordeiro imolado e consumido pelas chamas, e emitindo catorze raios, sobre cada um dos quais estão escritos atos religiosos, como adoração, amor, louvores, etc., e sobre um deles: deveres desconhecidos; os quais atos religiosos são: As santas ocupações de Jesus Cristo nesse mistério. Quem quer viver nesse sacramento como o único suplemento de nossos deveres para com seu Pai — assim como está dito na legenda impressa no pé da estampa.
A devoção ao Santíssimo Sacramento do altar, praticada no espírito que acabamos de expor, é para M. Olier a devoção fundamental do seminário, como se pode ver nos 12 primeiros artigos da Pietas seminarii, e no Traité des saints ordres. É a mesma devoção, assim entendida, que ele propagou em sua paróquia. (Cf. Explication des cérémonies de la grand'messe de paroisse). A imagem do Santíssimo Sacramento de que acabamos de falar foi feita originalmente para a confraria do Santíssimo Sacramento em Saint-Sulpice.
À devoção ao Santíssimo Sacramento vincula-se estreitamente a devoção ao estado de hóstia do Verbo incarnado. Mas, para o P. de Condren e M. Olier, esse estado de hóstia não é considerado apenas no sacrifício da cruz ou no da missa. Para eles, esse estado de hóstia resume toda a vida do Cristo na terra e no céu. É pela própria incarnação que o Verbo incarnado foi constituído sacerdote. Sua vida não foi senão um sacrifício único, cujas diferentes partes são compostas de seus diversos mistérios. (Cf. Idée du sacerdoce et du sacrifice de Jésus-Christ do P. de Condren; M. Lepin, L'idée du sacrifice dans la religion chrétienne, principalement d'après le P. de Condren et M. Olier, in-8°, Paris-Lyon, 1897). Jesus foi sacerdote de seu sacrifício e hóstia de seu sacerdócio. Nele, sacerdote e hóstia é tudo uma coisa só. Assim deve ser do sacerdote. Cf. Olier, Traité des saints ordres, passim. P. Giraud, Prêtre et Hostie (2 vol. in-8°), considera o Traité des ordres de M. Olier, «obra-prima de doutrina e de piedade», como a fonte principal de seu trabalho.
— A santa Virgem e os santos. Tudo na Religião se refere a Jesus Cristo. Mas não é honrar Jesus honrar a santíssima Virgem e os santos? É a vida de Jesus que se contempla e se honra neles; é um aspecto dessa devoção sobre o qual a escola francesa, seguindo Bérulle, gosta de chamar a atenção. Maria tem direito a um culto especial, único, porque Jesus viveu nela de maneira única. M. Olier desenvolveu admiravelmente os motivos dessa devoção em várias de suas obras, sobretudo em suas Memórias. Podem-se ver extratos delas nas Pensées choisies, 2ª parte, c. I, II, III, no fim da última edição da Journée chrétienne, no opúsculo La vie de Jésus en Marie. Ver também a Pietas seminarii, art. 10 e 11, e o último capítulo do Catéchisme chrétien da vida interior (cf. a obra indicada mais acima, editada por M. Faillon, Vie intérieure de la très sainte Vierge, 2 vol. in-8°, da qual M. Icard deu uma edição abreviada).
Toda a sua vida o servo de Deus teve uma devoção particular para com a Virgem; ele busca em todo lugar comunicá-la em suas missões, na paróquia, no seminário. A festa da Apresentação foi escolhida como festa patronal do seminário, sendo a Virgem, consagrando-se a Deus, o modelo do clérigo em sua doação ao Senhor. Por sua parte, ele fez, à exemplo de vários santos, o voto de servidão a Maria, o que contribuiu para uni-lo mais estreitamente a Jesus Cristo. «Tenho a felicidade e a gloria de uma servidão a Jesus, por causa daquela que eu havia consagrado à santíssima Virgem», escreve ele em suas Memórias (I).
Da mesma forma que a santa Virgem atrai primeiro todo o mundo a seu amor e a seu serviço, para depois os levar a Jesus Cristo Nosso Senhor, o grande estudo dessa divina Mãe tem em vista a gloria e a honra de seu caro Filho. O que é expresso pelas palavras que ela diz no banquete das bodas de Caná, que representa a Igreja e o próprio céu: «Quidquid dixerit vobis, facite.»
É no mesmo espírito que ele honrava os anjos e os santos. Em suas Memórias e seu Traité des anges, ele os mostra repletos do Espírito de Jesus Cristo e comungando de sua religião para com Deus. Da mesma forma ele honrava os santos como membros vivos de Jesus Cristo, reproduzindo cada um, segundo sua graça, os estados e as virtudes de Nosso Senhor. Fez honrar especialmente no seminário aqueles que tiveram mais relação com Jesus, como são José, são João Batista, os santos apóstolos, particularmente são João, são Pedro e são Paulo; e entre os santos mais recentes, deu como padroeiros ao Seminário são Martinho, são Francisco de Sales. Ver nas Pensées choisies suas visões gerais sobre os santos e aquelas que concernem aos santos que acabamos de citar; Pietas seminarii, art. 11 e 12. No fim da última edição (1928) da Journée chrétienne, Les Grandeurs de saint Joseph.
1° Manuscritos (os n°s 1, 2, 3 conservados no Seminário): as fontes da vida de M. Olier são: 1° suas Memórias autógrafas, das quais se fez uma antiga cópia em 3 vol., contendo até alguns cadernos perdidos do original. 2° La vie de M. Olier, por M. de Bretonvilliers, seu discípulo e sucessor imediato, que viveu quinze anos em sua intimidade, 4 vol. in-4° — existe também uma cópia revista e corrigida pelo próprio M. de Bretonvilliers. 3° L'esprit de M. Olier, obra cujo fundo é de M. de Bretonvilliers (que o tirou dos escritos e das conversações do servo de Deus), mas foi posta em ordem e concluída por M. Tronson, 3 vol. in-4°. Há poucos fatos; trata-se sobretudo das virtudes. 4° Mémoires sur la vie de M. Olier et le séminaire de Saint-Sulpice, por M. Baudrand, cura de Saint-Sulpice. Uma antiga cópia se encontra na Biblioteca Nacional; foi impressa no fim da Bibliothèque sulpicienne de M. L. Bertrand. 5° Mémoires de M. du Ferrier, um dos primeiros companheiros de M. Olier, que as compôs por volta de 1680. Uma cópia se encontra na biblioteca Sainte-Geneviève.
— 2° Impressos. A primeira vida foi composta por M. Leschassier, terceiro sucessor de M. Olier, a partir dos mss. de M. de Bretonvilliers e das Memórias de M. Olier. Composta por volta de 1682, foi inserida pelo P. Giry em Les vies des Saints... et grand nombre de vies nouvelles, etc. Paris, Léonard, 1683-1685, 2 vol. in-fol., t. I, col. 1191-1718, e publicada em separado: La vie de M. Jean-Jacques Olier, s. l., 1687, pequeno in-12. A mesma notícia entrou em 1773 nas Remarques historiques sur l'église et la paroisse Saint-Sulpice, por Simon de Doncourt, t. III, p. 498-570.
Em 1702, o P. Charles de Saint-Vincent publicou na Année dominicaine, La vie de Messire Jean-Jacques Olier, prêtre du tiers-ordre de Saint-Dominique, fondateur et premier supérieur du séminaire de Saint-Sulpice, 20 p., in-4°. Joseph Grandet, amigo de M. Tronson e superior do grande seminário de Angers, escreveu uma vida de M. Olier nas Saints prêtres français, 3ª série, p. 279-395, impressa por M. G. Letourneau em 1897. Ch. Nagot, diretor no seminário de Saint-Sulpice, depois fundador do seminário de Sainte-Marie de Baltimore, compôs em 1790 uma Vida mais extensa, da qual fez várias cópias corrigidas, completadas, impressa em Versailles, Lebel, 1818, in-8°, sob o título Vie de M. Olier, curé de Saint-Sulpice à Paris, fondateur et premier supérieur du séminaire du même nom.
M. Faillon, Vie de M. Olier, fondateur du séminaire de Saint-Sulpice, accompagnée de notices sur un grand nombre de personnages contemporains, 2 vol. in-8°, Paris, Poussielgue, 1842; obra que o cardeal Wiseman considerava como um grandíssimo serviço prestado ao clero e à Igreja. Em 1853, segunda edição. Em 1843, saiu dela um resumo em 1 vol. in-12; Le pasteur modèle ou le salut des peuples, in-12, Aix, 1849, resumo anônimo da obra de M. Faillon, 1841 e 1843. Munido de documentos novos, M. Faillon deu uma edição nova em 3 vol. gr. in-8°. M. Faillon tendo morrido durante a impressão, M. Gamon continuou a corrigir as provas, a acrescentar notas e redigiu o índice. A obra saiu em 1873.
G. M. de Fruges, J.-J. Olier, Essai d'histoire religieuse sur le XVIIe siècle, in-8°, Paris; G. Letourneau, La fondation des grands séminaires de France et la mission de J.-J. Olier, 1906, Paris, Lecoffre, in-12; F. Monier, Vie de Jean-Jacques Olier, t. Ier, Paris, J. de Gigord, 1914 — o autor morreu enquanto corrigia as provas do 1° volume.
— Sobre as obras e suas diversas edições, cf. L. Bertrand, Bibliothèque sulpicienne ou Histoire littéraire de la compagnie de Saint-Sulpice, t. I, Paris, 1900, p. 1-40 e 523-524. — Sobre a doutrina: H.-J.
Icard, Doctrine de M. Olier expliquée par sa vie et par ses écrits, Paris, Saint-Sulpice, 1889, in-8°, VII-418 p.; segunda edição, Paris, 1891, VIII-601 p. H. Bremond, Histoire littéraire du sentiment religieux en France, t. III, Paris, 1921, in-8°, c. IV e V; L. Pourrat, La spiritualité chrétienne, t. III, Les temps modernes, Paris, 1925, c. XIII e XIV.
E. Levesque.
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