ÓDIO — I. Do ódio em geral. II. Do ódio contra Deus, contra o próximo, contra si mesmo.
I. DO ÓDIO EM GERAL. — Noção e caráter moral. O bem nos agrada e nos convém. Nossa vontade inclina-se naturalmente para ele; deseja-o, frui dele ou o lamenta, conforme ele lhe seja apresentado como possível, como presente ou como passado. Em contrapartida, o mal nos desagrada e nos repugna. Nossa vontade se afasta dele quando o encontra. Teme-o quando por ele é ameaçada, sofre quando ele sobrevém, alegra-se quando é evitado ou passado. O movimento da vontade para o bem é o amor; a aversão que ela experimenta pelo mal é o ódio.
O caráter moral do ódio depende da natureza mesma daquilo que é odiado. Se é um mal verdadeiro, como o pecado, a injustiça ou o crime, o ódio é, de si, justo e honesto. Se é um bem, como a justiça, a verdade, a virtude, o ódio é culpável, porque o bem deve ser amado e não odiado. Do ódio ao mal ao ódio às pessoas que são sua causa ou ocasião, a passagem é fácil. Este se encontra em graus diversos: ora fraco e mal percebido, ora violento e exaltado; mas sempre tende a traduzir-se em atos capazes de prejudicar o próximo detestado, ou ao menos no desejo de causar-lhe dano ou de vê-lo sofrer. Assim, pela sua própria natureza como pelo caráter dos atos que inspira, o ódio se opõe ao preceito da caridade, que nos obriga a amar o próximo e nos proíbe de lhe fazer qualquer mal. A importância do mal feito ou desejado é um dos dados que permitirão apreciar o grau de culpabilidade do ódio.
II. DO ÓDIO CONTRA DEUS, CONTRA O PRÓXIMO, contra si mesmo. — 1° Contra Deus. — 1. Possibilidade. — Parece que Deus, que é por essência o bem infinitamente amável e desejável, não possa ser objeto de ódio. Não pode, é verdade, ser odiado por quem o vê em si mesmo na visão beatífica, porque a bondade infinita não pode deixar de ser amada por quem a contempla. Mas na terra só conhecemos Deus per spéculum et in œnigmale, através das criaturas e dos acontecimentos que sua providência dirige. Não vemos os desígnios de Deus na infinita perfeição de sua sabedoria e de sua bondade. Ora, as vontades divinas nem sempre concordam com as vontades depravadas dos homens: pelo Decálogo, Deus põe um freio às paixões humanas; pela temível sanção que reserva ao pecado, atemoriza o pecador; o sofrimento, ao qual submete frequentemente o homem aqui na terra, é para muitos uma prova que não têm a coragem de suportar. Daí, para alguns, um motivo de revolta e de ódio contra Deus.
2. Espécies e moralidade. — Ou bem esse ódio a Deus o atinge unicamente como causa do mal que encontramos: é o ódio de abominação; ou bem se volta diretamente contra a própria pessoa de Deus, não porque as vontades divinas nos desagradem, mas porque ele mesmo nos desagrada e queremos tratá-lo como inimigo: é o ódio de inimizade. Esse ódio de inimizade não é uma quimera. Pode encontrar-se naqueles que, corrompidos pelo vício e tendo tudo a temer da justiça divina, não podem mais senão detestar a Deus quando pensam nele, ou naqueles que, acabrunhados pela adversidade, se revoltam contra o Deus que a permite e se põem a odiá-lo. Encontra-se naqueles que, por uma inconcebível aberração, consideram Deus como o mal e o têm em execração.
O ódio a Deus não constitui apenas uma falta grave: é, de si, o pecado mais grave que o homem possa cometer. Com efeito, diz São Tomás, Sum. theol., IIa II*, q. xxxiv, a. 2, a malícia do pecado consiste essencialmente em afastar o homem de Deus. Quanto mais um pecado afasta de Deus, mais é pecado e mais é culpável. Ora, os pecados que não são o ódio a Deus, aqueles, por exemplo, que se cometem para obter prazeres culpáveis, só afastam de Deus indiretamente e como por via de consequência. O que o pecador quer antes de tudo é o gozo. Para tê-lo, sacrifica o preceito divino, mas não procura diretamente separar-se de Deus. Outro é o ódio a Deus: por ele Deus é diretamente atingido; por ele, afastamo-nos de Deus como de um ser odioso que não merece ser amado, ou como de um ser maléfico digno de ser detestado. É, pois, unicamente e essencialmente aversio a Deo; mais culpável, por conseguinte, do que os outros pecados, nos quais se encontra antes de tudo o amor desordenado das criaturas e, só por concomitância, a aversio a Deo. Ora, semper quod est per se potius est eo quod est secundum quid.
O mesmo princípio permite determinar a gravidade relativa do duplo ódio a Deus: o ódio de inimizade é mais culpável do que o outro, porque se volta diretamente contra Deus, trata-o formalmente como inimigo, ao passo que o outro só vê e só odeia em Deus o autor do mal.
2° Contra o próximo. — 1. Natureza e moralidade. — Odeia-se no próximo, como em Deus, ou sua pessoa ou seus atos. Sua pessoa: é o ódio de inimizade, que o faz detestar por si mesmo e leva a lhe fazer o mal pelo mal. Esse ódio é uma falta mortal de si, porque é evidentemente contrário ao preceito da caridade, que nos obriga sub gravi.
Ela é, aliás, assimilada pela Escritura ao homicídio, e colocada entre os pecados que fazem permanecer na morte ou que tornam digno do inferno. Todavia, ex levitate materiœ, a falta seria apenas venial se o sentimento de ódio fosse apenas superficial e se nos limitássemos a fazer ou a desejar ao próximo que não amamos algum mal sem gravidade.
Se se odeiam no próximo atos que parecem repreensíveis, o caráter moral dessa disposição depende da natureza dos atos detestados: se são intrinsecamente maus, por exemplo, pecados ou vícios, o ódio é justo, pois o mal merece ser odiado. Se se trata de atos que me são nocivos sem serem intrinsecamente maus, tenho o direito de detestá-los, desde que não haja excesso em meu ressentimento, mas uma justa proporção entre o ódio e aquilo que o provoca. Se se trata de atos virtuosos e bons, odiá-los seria, de si, uma falta grave. Esse ódio dito de abominação, que começa pelos atos, pode recair sobre a própria pessoa daquele a quem esses atos são imputados. Nesse caso, há sempre falta contra o preceito da caridade, que nos obriga a amar o próximo, seja ele quem for. Para apreciar a gravidade dessa falta, levar-se-á em conta a natureza do mal que, por ódio, se está disposto a fazer ou a desejar. Recusar absolutamente toda espécie de afeição a uma pessoa sob o pretexto de que ela não merece nenhuma, seria pecar gravemente contra o preceito da caridade.
2. Faltas a que conduz o ódio contra o próximo. — Estão enumeradas e estudadas no art. Caridade, ver t. n, col. 2262-2265.
3° Contra si mesmo. — Ele é implícito ou explícito. Devemos amar-nos a nós mesmos como devemos amar nossos semelhantes, com um amor real e sincero, que nos fará procurar nosso bem e fugir de nosso mal. Por conseguinte, somos obrigados a conservar ou a procurar para nós, conforme a ordem estabelecida por Deus, os bens naturais ou sobrenaturais necessários para a vida presente ou para a outra. Somos obrigados a evitar o que comprometeria a aquisição ou a conservação desses bens necessários. Agir contrariamente à ordem divina seria não se amar verdadeiramente, logo, odiar-se. O mesmo se daria se sacrificássemos os bens eternos por bens temporais, a alma pelas alegrias ou riquezas da terra. De fato, há em todo pecado uma falta de caridade para consigo mesmo, como para com Deus. Queiramos ou não, cometê-lo é odiar-se a si mesmo. É esse princípio que tantas vezes recordam os Salmos, o livro de Tobias e o Evangelho. Amar-se demais, amando-se mal, equivale, pois, a odiar-se. Mas, desse ponto de vista, o dever da caridade para conosco não se distingue das obrigações impostas pelos outros mandamentos.
Em contrapartida, o ódio explícito e formal de si mesmo é uma falta especial contra o preceito da caridade. À primeira vista, parece impossível, porque é absurdo. Existe, porém, seja de maneira passageira, quando a razão, num acesso de cólera, de desespero ou de abatimento, deixa de raciocinar com sensatez; chega-se então a ter horror de si, a odiar-se, a desejar-se ou a fazer-se todo o mal possível; seja de maneira habitual, por uma completa perversão do espírito. O pessimismo, ao declarar que, no estado atual das coisas, a vida é detestável, que o mundo não pode ser pior, que existir, viver e querer são outras tantas palavras que designam o sofrimento e um destino soberanamente digno de piedade e de espanto, conduz naturalmente a isso e desemboca fatalmente em aconselhar o suicídio do indivíduo e a abolição da humanidade. Ver em Franck, Dictionnaire des sciences philosophiques, 2e édit., o artigo consagrado a Schopenhauer. Em ambos os ódios há evidentemente falta grave contra a caridade. O ódio formal é sempre gravemente culpável. Pode haver leveza de matéria no ódio implícito.
O ódio é geralmente estudado a propósito da virtude da caridade. Ver no artigo Caridade alguns dos teólogos que abordaram essa questão. Podem-se acrescentar, entre os moralistas recentes que todos conhecem e que é inútil recordar nominalmente: Didiot, Morale surnaturelle spéciale, Vertus théologales, Paris et Lille, 1897, 2e:::. p. 461-469; Ballerini, Opus theologicum morale, 2e édit., Prato, 1892, t. ii, p. 120-138, que a examinaram mais especialmente.
V. Oblet.
Autor original: V. Oblet
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