NICOLAS D'AMIENS (século XII). Sob o nome de Nicolaus Ambianensis, vários manuscritos antigos, cuja descrição se verá mais adiante, dão uma obra teológica curiosa, intitulada Ars fidei catholicæ, editada atualmente entre as obras de Alain de Lille, P. L., t. CCX, col. 595-618. Ver o que se diz disso aqui, t. I, col. 657.
As pesquisas do sr. Grabmann não deixam quase dúvida sobre a pertença desse escrito a um certo Nicolas d'Amiens, e sobre a falsidade da atribuição ao doutor de Lille. Esse Nicolas d'Amiens é mal conhecido por nós; mas, no fim do século XII, passava por um dos mais ilustres entre os discípulos de Gilberto de la Porrée. No início de um ms. da abadia de Saint-Amand, atualmente na biblioteca de Valenciennes, n. 197, e que contém os comentários de Gilberto sobre os livros da Trindade de Boécio, figura, entre outras efígies dos discípulos do sábio bispo, a daquele de quem se diz: Nicolaus qui pro dignitate sua arcanis Pictaviensis episcopi sentenciis, ut digni intromittantur ad eas, lucem plenae expositionis infudit. A respeito dele e de três outras personagens que figuram com ele, está dito: Magister Gillebertus... altiora theologicae philosophiae secreta diligentibus, attentis et pulsantibus, quorum nomina subscripta sunt, quia digni sunt memoria; e um pouco mais abaixo: Hi tres et hic quartus (é de Nicolas que se trata), intensiore studio attenti, mentis acie perspicacissima et sola veritatis specie tracti, sub Pictaviensi episcopo digni viguerunt — discipuli, quorum animae requiescant in pace.
De fato, a Ars fidei catholicae, dedicada ao papa Clemente III (1187-1191), é inspirada pelos mesmos métodos característicos de Gilberto de la Porrée. Propõe-se defender a fé católica contra a invasão das heresias e do maometismo, e é na dialética que o autor busca exclusivamente suas armas. Em 5 livros, aliás muito curtos, trata da causa primeira, isto é, de Deus uno e trino; depois da criação dos anjos e do homem, da existência do livre-arbítrio; em seguida, da incarnação do Filho de Deus, ordenada ao resgate do homem; dos sacramentos da Igreja, que aplicam o fruto dessa redenção; por último, da ressurreição dos mortos e, mais geralmente, das coisas últimas.
Cada livro começa por séries de definições e de proposições universalmente admitidas, e vêm depois os teoremas que extraem dos princípios estabelecidos os resultados buscados. O todo, de uma secura perfeita e de uma lógica desesperadora e toda matemática: «Não se encontra no século XII nem mesmo outro doutor que tenha caído nesse excesso.» (Hauréau). É propriamente o gênero que Spinoza adotará.
Desse tratado, que põe em prática o método de Gilberto de la Porrée, o sr. Grabmann aproxima um outro escrito ainda inédito, e aliás anônimo, que pensa pertencer também a esse mesmo Nicolas d'Amiens. Trata-se de uma Defensio orthodoxae fidei Gilberti Porretae, praesertim ex auctoritatibus patrum et Boetii libro de Trinitate contexta, que se lê no Val. lat. 561 (século XII), do fol. 176 até o fim, estendendo-se por uma centena de folhas, e que é transcrita na sequência do comentário de Gilberto sobre o De Trinitate de Boécio; o tratado em questão corresponde muito exatamente ao título, pondo em prática numerosas citações patrísticas (S. Agostinho, S. Jerônimo, S. Hilário, S. Ambrósio, S. Atanásio, etc.) para justificar Gilberto das acusações feitas contra sua ortodoxia. Grabmann, que dá o prólogo, não duvida de que se trate aqui do tratado ao qual alude o ms. de Valenciennes antes citado: é bem uma iniciação aos arcanos da filosofia de Gilberto. Assim, Nicolas nos apareceria como um discípulo todo devotado à memória do bispo de Poitiers. A maneira como fala dele o ms. de Valenciennes, sub Pictaviensi episcopo dignus viguit, parece bem aludir a relações de aluno a mestre.
Além disso, diversos mss. latinos, entre outros o Vatic. reg. Suec., n. 454, dão sob o nome de um Nicolas d'Amiens uma Crônica latina, desde a criação até 1204. Essa crônica depende muito estreitamente das obras semelhantes anteriores, e os acréscimos que o compilador aí fez não são de interesse maior; provam ao menos que ele se interessava pelos negócios da região picarda. Esses poucos trechos originais foram reunidos, de uma parte, no Recueil des historiens des Gaules et de la France, t. XIV, p. 21, 23; t. XVIII, p. 701-702; e, de outra parte, nos Monum. Germ. hist., Script., t. VIII, p. 473-474. O cronista registra a data de seu próprio nascimento no ano de 1147; e, como a Crônica se interrompe bruscamente em 1204, essa data poderia estar bem próxima da da morte do autor.
Coisa curiosa a assinalar: o catálogo de Richard de Fournival, chanceler da Igreja de Amiens (por volta de 1250), enumera no n. 103: Nicolai Ambianensis, dicti de Badiando, liber de articulis fidei ad Clementem papam; e no n. 104: Ejusdem Nicolai liber annalium sive chronicorum, describens memorabilia ab initio mundi usque ad tempus suum. L. Delisle, Le cabinet des mss. de la Bibliothèque nationale, t. II, 1874, p. 531.
Por importante que seja esse testemunho, ele se choca com uma dificuldade muito grave. O cronista, nascido em 1147, não pôde ter sido discípulo, no sentido próprio da palavra, de Gilberto de la Porrée, falecido em 1154. Além disso, o ms. de Valenciennes, que é do fim do século XII, fala de Nicolas e de seus três companheiros como de personagens já falecidos: quorum animae requiescant in pace. Resta, portanto, que a identificação do autor da Crônica com o autor da Ars fidei deveria ser abandonada.
Mas subsistiria talvez um outro vestígio do autor da Ars fidei. Uma carta do papa Alexandre III, endereçada ao arcebispo de Reims, Henri, em 2 de julho de 1169, Jaffé, Regesta, n. 11631, ordena a este nomear um certo Nicolas para uma prebenda de Amiens, que já deveria ter-lhe sido dada anteriormente, e de que o arcebispo de Reims pode dispor, porque a sede episcopal de Amiens acaba de ficar vacante. Essa carta, que os antigos críticos atribuíam ao autor da Crônica (que tinha apenas 22 anos em 1169), poderia bem falar do Nicolas autor da Ars fidei, que teria tirado seu sobrenome da prebenda recebida em Amiens.
Quanto a uma carta do mesmo papa Alexandre III, endereçada em 5 de março de 1161 a um mestre Nicolas, Jaffé, n. 10658, para lhe agradecer os serviços prestados por ele à Igreja, e para lhe anunciar que o papa o recomenda aos arcebispos de Sens e de Reims, surpreende que críticos tenham podido atribuí-la ao autor da Crônica, que tinha 14 anos em 1161. Ela foi atribuída com muito mais justiça a Nicolas de Clairvaux (ver seu artigo); não seria ela, antes, endereçada a Nicolas, autor da Ars fidei?
No estado atual das pesquisas, conviria, pois, parece, distinguir dois Nicolas d'Amiens, separados um do outro por cerca de quinze anos, mas cuja memória foi desde cedo confundida. O mais velho seria o autor da Ars e dos comentários sobre a obra de Gilberto de la Porrée; o mais jovem seria o autor da Crônica.
— Texto. A Ars fidei foi publicada por primeira vez em 1721 por B. Pez, Anecdota, t. I b, p. 476-504, sob o nome de Alain de Lille e o título De arte seu articulis catholicae fidei; é essa edição que é reproduzida em P. L., t. CCX, col. 595-618. M. Grabmann, Die Geschichte der scholastischen Methode, t. II, 1911, p. 460-462, dá o levantamento dos diversos mss., classificando-os como segue:
1. Mss. onde a Ars é anônima: Paris, Bibl. nat., lat. 16082; Laon, n. 412; Cambridge, Pembroke-College, 20 I; Florença, Laurenziana, plut. LXXXII, 17; Praga, Universidade, n. 490; Munique, lat. 18971.
2. Mss. onde a Ars é falsamente atribuída: a um papa Clemente (Oxford, Merton-College, n. 140); a S. Agostinho (Cambrai, n. 474, cifra retificada); a Mich. Scot. (Erfurt, F. canon. Ambianens. 6.).
3. Mss. onde a Ars é atribuída a Alain de Lille: Munique, lat. 5844 e 1817; Berlim, Cod. 768.
4. Mss. onde é atribuída a Nicolas d'Amiens: Paris, Bibl. nat., lat. 6506 (Nic. Ambianensis) e 16297; Tours, n. 247; Oxford, Magdal. Collège, n. 192; Dublin, Trinity Collège, n. 275 (Nic. de la Querche); Londres, Brit. Mus., King's Library, 8 C IV; Vaticano, Elect. lat. 4245.
Trabalhos. As notícias da Histoire littéraire de la France por dom Brial, t. XVI, p. 415 (atribuição da Ars a Alain de Lille); Petit-Radel, t. XVII (1832), p. 1-5; V. Le Clerc, t. XXI, p. 659-660. Notícia de Hauréau, em Hoeffer, Nouvelle biographie générale, t. XXXVII (1863), col. 983-986; do mesmo, uma breve nota no Journal des Savants, 1892, p. 237-238; M. Grabmann, Die Geschichte der scholastischen Methode, Friburgo-em-Brisgóvia, 1911, t. II, p. 431-434, 452-476; Cl. Bäumker, Witelo, ein Philosoph und Naturforscher des XIII. Jahrhunderts, em Beiträge zur Gesch. der Philos. des M. A., t. III, fasc. 2 (1908), p. 322 sq., 337 (sobre as provas da existência de Deus em Alain de Lille e Nicolas d'Amiens).
É. Amann.
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