NICOLAS João-Tiago-Augusto (1807-1888), sábio apologista, nasceu em Bordéus, a 6 de janeiro de 1807, de modestos comerciantes. Um apóstolo fervoroso, o abade Dasvin, ocupou-se dele e o fez entrar no liceu, onde foi um aluno mediano. Terminados os estudos, ajudou os pais no comércio deles, mas então foi tomado pelo gosto pelos estudos sérios.
Foi começar estudos de direito em Toulouse; em novembro de 1829, veio a Paris, onde preparava sua licenciatura, quando estourou a Revolução de julho de 1830. Em novembro, encontramo-lo advogado em Poitiers; depois voltou a Bordéus, onde fez estágio na advocacia e se tornou secretário do Sr. Lacoste, a quem haveria de dedicar uma de suas obras; já nessa época era um apóstolo zeloso. Falloux, tornado ministro depois da Revolução de 1848, chamou-o para junto de si, como chefe de divisão, em 1º de março de 1849. Deixou o Ministério dos Cultos em 1º de março de 1854 e foi nomeado inspetor das bibliotecas públicas (1854-1860); em fevereiro de 1860, era juiz no tribunal do Sena (1860-1867), e depois conselheiro na corte imperial de Paris (1867-1877). Por fim, em 7 de janeiro de 1877, aposentou-se e retirou-se para Versalhes, onde morreu em 17 de janeiro de 1888.
Quase todas as obras de Augusto Nicolas se referem à apologética católica, e pode-se dizer que ele foi o grande apologista do século XIX; por isso é útil dar alguns detalhes sobre seus escritos, que foram, quase todos, inspirados pelas circunstâncias e, por conseguinte, indicam os diversos movimentos do pensamento católico durante esse século.
O primeiro escrito de Augusto Nicolas é intitulado Observations soumises à la Cour royale et au tribunal de première instance de Bordeaux, in-8°, Bordeaux, 1833; tem por objeto o restabelecimento da imagem de Cristo nas salas de justiça. Um segundo opúsculo foi publicado, em 1840, sob o título Du tour des enfants trouvés et de l'arrêté de M. le Préfet de la Gironde. Esse escrito atraiu a atenção do público e, nove anos depois, o Ministro do Interior, Dufaure, designou Augusto Nicolas como membro de uma comissão instituída para preparar um projeto de lei sobre o serviço das crianças abandonadas.
Nesse meio-tempo, uma circunstância providencial fez dele um apologista e lhe revelou sua vocação. Algum tempo depois de seu casamento, em 1835, seu cunhado, tendo perdido um filho, escreveu-lhe que desejava voltar à fé de sua infância, e pediu-lhe que resolvesse suas dúvidas e lhe expusesse os fundamentos do espiritualismo e da religião cristã. Nesse momento, não havia apologética séria alguma, e o Génie du christianisme dirigia-se sobretudo aos artistas. Seguindo o conselho de um parente de sua mulher, o abade Buchou, Nicolas decidiu-se, após algumas hesitações, a compor uma apologia.
Nessa época, o P. Lacordaire veio pregar em Bordéus e foi vivamente atacado por um professor de liceu, o Sr. Bersot; Nicolas tomou a defesa do dominicano em artigos muito vivos. Foi então decidida a publicação da obra já composta por Nicolas. Saiu em fascículos e por subscrição; o primeiro fascículo apareceu em junho de 1842, sob o título Études philosophiques sur le christianisme. Esse trabalho fez a reputação de Augusto Nicolas; os fascículos foram reunidos em volumes, dos quais o primeiro apareceu em 1842, o segundo em 1844, o terceiro e o quarto em 1844 e 1845. O sucesso logo se anunciou; as edições se sucederam rapidamente, e a 26ª apareceu em 1885, antes da morte do autor.
Nesse trabalho notável, Nicolas procede por exposição e síntese, muito mais do que por análise e discussão direta da incredulidade, cujos argumentos variam sem cessar com os tempos e os lugares. Esse método explica o sucesso verdadeiramente extraordinário desse escrito, composto por um autor então completamente desconhecido, do qual os jornais e as revistas não falaram a princípio. Le Correspondant só a ele aludiu em 1845, e L'Univers em 1846, quando o sucesso já era surpreendente, e isso só se explica pelo fato de que respondia a uma necessidade da época.
O P. Lacordaire escreveu, em 5 de agosto de 1845, uma carta muito elogiosa, que foi seguida de uma segunda, colocada desde então à frente da obra. Um pequeno escrito satírico, intitulado Les Bordelais en 184[.], por uma exceção muito rara, faz um elogio muito grande ao Sr. Nicolas e às suas Études. É sem dúvida para recompensar o autor que o Sr. de Falloux, tornado ministro, fez conceder ao Sr. Nicolas, em 1849, a cruz da Legião de Honra e o cargo de chefe de divisão no Ministério dos Cultos, em 1º de março de 1849.
Nesse novo posto, no qual permaneceu até 15 de fevereiro de 1854, Nicolas redigiu um grande relatório sobre a restauração das catedrais e o reparo dos edifícios paroquiais; foi também então que Dufaure, em 22 de agosto de 1849, fez nomear Nicolas membro da comissão das crianças abandonadas, para a redação de um projeto de lei que nunca foi discutido.
Entretanto o sucesso das Études continuava; Nicolas era recebido nos salões de Mme Swetchine e da marquesa de La Rochejaquelein; uma romancista inglesa, Lady Georgiana Fullerton, em L'Oiseau du Bon Dieu, atribui à influência do livro de Nicolas a conversão de seu herói; numerosíssimos testemunhos, citados pelo biógrafo Paul Lapeyre, mostram todo o bem produzido pela obra apologética de Nicolas, que foi, desde então, traduzida para o inglês, o polonês, o italiano e o alemão.
A leitura desse escrito converteu um socialista encarcerado, que contou sua história num curioso opúsculo intitulado Quarante jours de cellule, pelo doutor A. Bonnet, Étampes, 1852. A Bibliographie catholique de fevereiro e março de 1845, t. IV, p. 350-353 e p. 490-491, e de janeiro de 1851, t. X, p. 309-312, faz um relato muito elogioso das Études. O papa Pio IX enviou um breve a seu autor, em 16 de novembro de 1852, citado por L'Ami de la religion de 11 de janeiro de 1853, t. CLIX, p. 96-97.
Um novo incidente provocou a publicação de um novo escrito de Nicolas. Em 1851, Guizot, à frente de seu escrito Méditations et études morales, tinha feito um apelo aos católicos como aos protestantes, para convidá-los a se unir contra o socialismo invasor. A. Nicolas percebeu o perigo dessa união, e publicou um volume para mostrar que o protestantismo não era senão uma forma do socialismo contra a Igreja, e que, por conseguinte, o protestantismo era radicalmente impotente para combater o socialismo, que é o protestantismo contra a sociedade. No volume intitulado Du protestantisme et de toutes les hérésies dans leur rapport avec le socialisme, précédé de l'examen d'un écrit de M. Guizot, in-8°, Paris, 1852, Nicolas ataca o protestantismo, não se colocando no ponto de vista religioso, mas do ponto de vista de suas consequências filosóficas, políticas e revolucionárias, subversivas de todo Estado; é, mostra ele, uma forma do socialismo, e tudo isso apoiando-se unicamente nas autoridades e nas confissões tomadas dos próprios protestantes.
Em um artigo do Correspondant, Franz de Champagny contestou com bastante vivacidade alguns detalhes da tese; Nicolas respondeu e, em uma segunda edição, publicada em 2 vol. in-8°, 1854, acrescentou o capítulo VIII do livro II para examinar e discutir as objeções de Champagny; tem por título De l'individualisme et de l'individualité, preuve nouvelle, tirée d'une objection. Nesse livro, Nicolas mostra que só a religião católica dá a verdadeira solução das relações do finito e do infinito. O cônego U. Maynard, que elogiara muito a primeira edição, na Bibliographie catholique de novembro de 1852, t. XII, p. 193-201, acrescenta, ibid., janeiro de 1855, t. XIV, p. 337-343, que a segunda edição melhorou consideravelmente a primeira. Uma terceira edição apareceu em 1869 com um longo Avertissement, em que Nicolas indica as razões que o fizeram adiar, durante quinze anos, essa reedição: as paixões que renascem, na véspera do concílio, o levam a não mais adiá-la.
Os lazeres que lhe proporcionou, em 1851, seu cargo de inspetor das bibliotecas públicas permitiram-lhe compor um novo escrito, que redigiu em seguida a um voto que havia feito a Nossa Senhora de Arcachon pela cura de uma de suas filhas: «Fui tomado pela palavra», escreve ele; sua filha curou-se miraculosamente de uma doença muito grave. Ficou primeiro muito embaraçado para cumprir a promessa que fizera à santa Virgem de compor um escrito em sua honra. Dom de Ségur, a quem consultou, comunicou-lhe um plano traçado pelo sr. Baudry, padre de Saint-Sulpice, futuro bispo de Périgueux, com quem entrou em relações. Assim encorajado, pôs-se ao trabalho e, de oito em oito dias, ia ao sr. Baudry fazer-lhe a leitura do que havia redigido. Foi esse o complemento de suas Études philosophiques, nas quais nada dissera sobre a santa Virgem. Daí o título geral Nouvelles études philosophiques sur le christianisme.
Esse grande trabalho compreende três partes: a primeira forma o primeiro volume, publicado em 1855; tem por título La vierge Marie dans le plan divin. O autor mostra o plano divino em relação à criação, e em relação à queda e às consequências dessa queda: o Verbo é mediador universal de religião e de redenção; nesse duplo papel, o ministério de Maria está intimamente unido ao do Verbo encarnado. O plano divino compreende, como três termos puros: Deus, Jesus, Maria. No início, Maria, criatura; no centro, Jesus, Deus-Homem; no topo, Deus eterno. O cônego U. Maynard constatou logo o sucesso desse primeiro volume num artigo muito elogioso da Bibliographie catholique, fevereiro de 1856, t. XV, p. 357-366; uma terceira edição, revista e aumentada, apareceu em 1857, Bibl. cath., janeiro de 1857, t. XVII, p. 53-55.
O segundo volume, intitulado La vierge Marie d'après l'Évangile, apareceu já nos primeiros dias de 1857 e conheceu o mesmo sucesso; valeu ao autor as felicitações de Dom de Ségur, do abade Isoard, então auditor de rota e futuro bispo de Annecy; o cônego U. Maynard fez dele um relato bem elogioso na Bibliographie catholique de maio de 1857, t. XVII, p. 405-416.
Enfim, os tomos III e IV, La vierge Marie vivant dans l'Église, apareceram em 1860. «É o desabrochar da flor cujo caule mostramos anteriormente no Evangelho e a raiz no plano divino.» Encontram-se nesses dois volumes o estudo dogmático, o estudo litúrgico e o estudo histórico do culto da santa Virgem na Igreja, segundo as expressões do cônego Maynard, Bibliographie catholique, outubro de 1860, t. XXIV, p. 350-356.
Colocou-se, com razão, ao que parece, o escrito de Nicolas sobre a santa Virgem muito acima de suas Études philosophiques sur le christianisme, pela profundidade na concepção geral e pela originalidade no plano. O biógrafo de Nicolas, Paul Lapeyre, escreve: «É o tratado definitivo da doutrina católica sobre a santa Virgem.» O abade Régnier, em seu relato sobre La vierge Marie et le plan divin, faz igualmente grande elogio desse trabalho. Ami de la religion de 22 de abril de 1856, t. CLXXII, p. 193-196.
Auguste Nicolas interrompeu por algum tempo seus estudos propriamente religiosos. Em 1857, apareceu um escrito curioso intitulado Maine de Biran, sa vie et ses pensées, publicado por Ernest Naville. O Journal intime do filósofo pareceu logo a Nicolas como a «contraprova» de suas Études philosophiques sur le christianisme. Para atrair a atenção do público católico para esse escrito, publicado por um protestante numa editora protestante, Nicolas escreveu um pequeno opúsculo intitulado Études sur Maine de Biran d'après le Journal intime de ses pensées; esse trabalho havia sido redigido primeiro para o Correspondant, a pedido de Falloux e de Cochin, mas o comitê de redação da revista não ousou publicá-lo, por causa dos julgamentos severos feitos pelo autor sobre o sr. Cousin: temia-se que os julgamentos do sr. Nicolas atraíssem uma inclusão no índice dos escritos de Cousin, cuja conversão então se acreditava próxima.
O trabalho de Nicolas contém observações muito finas, como notam U. Maynard, na Bibliographie catholique de fevereiro de 1858, t. XIX, p. 103-108, e Ch. Marie em L'Ami de la religion de 22 de maio de 1858, t. CLXXX, p. 454-458. Nicolas publicou também um pequeno Étude sur Eugénie de Guérin.
Nesse escrito, que primeiro aparecera na Revue d'économie chrétienne, o autor analisa o Journal d'Eugénie de Guérin, e propõe-se responder a Sainte-Beuve, que atribuía a mesquinhas preocupações a inquietude de alma de Eugênia, e a refutar as objeções de um escritor católico que reprovava em Eugênia sua tristeza excessiva e seu pavor da morte.
Em 1858, A. Nicolas escreveu um curto prefácio para um livro místico intitulado Le Phénix qui renaît ou La rénovation de l'âme, par la retraite et les exercices spirituels; é uma obra póstuma do cardeal Bona, traduzida por Jules Travers. Em seu prefácio, Nicolas compara esse escrito à Imitação de Cristo: esses dois livros são feitos, em algumas partes, para religiosos, mas, não obstante, «dirigem-se a todo o mundo, porque o religioso é homem e o homem é religioso».
Em 4 de maio de 1861, Nicolas perdeu o segundo de seus filhos, que se chamava Auguste, como ele próprio; por essa ocasião, apareceu em 1865 um opúsculo intitulado Mémoires d'un père sur la vie et la mort de son fils, com a seguinte epígrafe: «O claustro e o mundo disputaram-se esse tesouro, foi o céu que o teve.» Essas Mémoires estão impregnadas de uma ternura requintada por esse filho, que, discípulo de Hippolyte Flandrin, morreu na véspera de seu casamento. Nicolas hesitou muito tempo antes de publicar esse escrito, que apareceu em 1865, sem nome de autor e com uma carta do abade Bougaud e outra do P. de Ponlevoy.
Mas A. Nicolas voltou logo às obras propriamente religiosas. Em 1862, Ernest Renan publicava a Vie de Jésus, que teve grande sucesso de curiosidade e de escândalo. Nicolas empreendeu destruir esse mau romance e seu trabalho apareceu no início de 1864, sob o título La divinité de Jésus-Christ; démonstration nouvelle, tirée des dernières attaques de l'incrédulité. Como ele próprio diz, o título é «uma polêmica e uma demonstração que podem ser consideradas como o complemento das Études philosophiques».
Entre os numerosos escritos que a obra de Renan provocou (encontrar-se-á a lista, aliás incompleta, na Bibliographie catholique de abril de 1864, t. XXXI, p. 296-305), o de Nicolas teve o maior sucesso: teve três edições em 1864. Augustin Cochin, no Correspondant de 25 de janeiro de 1864, t. LXI, p. 211-218, o cônego U. Maynard, na Bibliographie catholique de fevereiro de 1864, t. XXXI, p. 118-122, e Antonin Rondelet, na Revue d'économie chrétienne, fazem um belo elogio da obra de Nicolas.
Já em 1862, Nicolas se colocara uma questão perturbadora: por que tantas pessoas não creem, mesmo depois que seu espírito foi instruído e esclarecido? Foi para responder a essa questão que Nicolas publicou L'art de croire ou Préparation philosophique à la foi chrétienne, 2 vol., in-8°, Paris, 1866. A obra é particularmente bem ordenada: aos que perderam o sentido da fé, Nicolas quer despertar a necessidade de crer; aos que hesitam, desenvolve as razões de crer com os meios de crer; enfim, aos que têm a coragem de se engajar na prática da fé, mostra a felicidade de crer.
Como sempre, Nicolas escreveu essa obra com um fim especial: dirigia essa apologia ao sr. Maximin Lacoste, conselheiro honorário na corte imperial de Bordeaux, que por muito tempo pertencera ao foro de Bordeaux, e de quem o sr. Nicolas havia sido secretário: é a ele que a obra é dedicada, com uma carta toda repleta de emoção. A obra foi particularmente bem recebida pelas Études dos PP. jesuítas, t. XII, da 2ª série, p. 434-439, e pela Bibliographie catholique de janeiro de 1867, t. XXXVII, p. 13-22. Esse escrito, que Paul Lapeyre chama «a obra-prima» de Auguste Nicolas, foi traduzido quase imediatamente para o italiano e para o espanhol, e mereceu verdadeiramente tornar-se clássico.
Nicolas, para conservar a memória de um fiel amigo de infância, redigiu para o Correspondant, 10 de maio de 1870, t. XC, p. 476-525, uma notícia emocionada sobre Aurélien de Sèze, advogado bordalês, irmão do defensor de Luís XVI; fora deputado, em 1848, e se tornara sinceramente cristão de novo, sob a influência do abade Dupuch, futuro arcebispo de Argel. O artigo foi editado sob o título M. Aurélien de Sèze, notice biographique, in-8°, 1870 (Bibliographie catholique de setembro e outubro de 1870, t. XLIV, p. 305-307).
A guerra de 1870 levou Nicolas a estudar a religião cristã do ponto de vista social. Forçado a deixar Paris, começou a redigir um trabalho em que se propunha tratar da Prússia e da invasão alemã, do Império e de sua queda, do abatimento e da regeneração da França, mas esse escrito não foi impresso, pois Nicolas o julgou demasiado estreito e ditado apenas pelas circunstâncias. Retomou sob uma forma nova o exame de um grave problema; aprofundou-o e publicou um escrito cujo título, mais geral, é como um programa de sociologia: L'État sans Dieu, mal social de la France.
O autor busca aí a verdadeira causa do mal público de que sofre a França: depois de apontar a bancarrota da Revolução, Nicolas mostra que o grande mal da França é o seu esquecimento de Deus, que acarreta a negação de toda autoridade e a anarquia. A ausência de religião, diz ele, «desacredita o poder aos olhos do povo, mostrando-o sem fé nem lei, e a religião é desacreditada pelo desprezo que o poder faz dela.» A obra foi honrada com uma carta de Pio IX, de 30 de outubro de 1872. As Études dos PP. jesuítas, t. II, da 5ª série, p. 293-295, e a Bibliographie catholique de setembro de 1872, t. XLI, p. 198-201, fazem belo elogio dessa obra, que foi traduzida para o espanhol e para o alemão, e valeu a seu autor calorosas aprovações, mas também algumas críticas por parte de amigos que lhe permaneciam caros, e, em particular, do sr. de Falloux, com quem trocou cartas um tanto vivas. É preciso dizer, aliás, que o sr. Nicolas nunca aprovou inteiramente as ideias da escola chamada liberal e do Correspondant.
L'État sans Dieu terminava-se com a promessa de indicar, se o tempo o permitisse, «as razões de temer e as razões de esperar», precisando os meios de salvação. Foi essa a origem de La Révolution et l'ordre chrétien, obra complementar de L'État sans Dieu, in-8°, Paris, 1873. Depois de expor as críticas que lhe foram feitas, particularmente pelo sr. de Falloux, o autor empenha-se em destacar o que é preciso combater na obra da Revolução; depois, entre os meios de salvação, preconiza antes de tudo e sobretudo a religião, e em seguida a monarquia, mas não se apega a nenhum partido: escreve mesmo: «Os partidos me enojaram tanto, das causas mais justas, que guardei um fundo de ceticismo e de desconfiança.» A Bibliographie catholique de outubro de 1873, t. XLVIII, p. 319-324, pela pena de V. Postel, e as Études dos PP. jesuítas, t. IV da 5ª série, p. 616-623, louvam muito esse escrito.
Em uma segunda edição que apareceu no mesmo ano, Nicolas acrescentou um apêndice intitulado La monarchie et la question du drapeau; é uma coletânea de dois artigos, publicados um antes, outro depois do manifesto de 27 de outubro de 1873, em que o sr. Nicolas indica, de maneira bem clara, seu verdadeiro pensamento: teriam sido necessários sacrifícios recíprocos, mas sobretudo um sinal de confiança mútua; o entorno do conde de Chambord fez tudo fracassar.
Enquanto publicava esses escritos políticos e sociais, nos quais a questão religiosa, de resto, sempre ocupava o primeiro lugar, Nicolas não esquecia os estudos propriamente religiosos. Em 1875, apareceu um escrito, já esboçado em 1867: Jésus-Christ. Introduction à l'Évangile étudié et médité à l'usage des temps nouveaux, in-8°, Paris, 1875. O apologista quer completar seus escritos anteriores pela meditação de Jesus Cristo em si mesmo, em sua pessoa adorável, e já não em suas obras. A obra compreende duas partes: a ciência histórica de Jesus, onde se trata da preparação histórica e da vinda do Salvador; e a ciência doutrinal de Jesus, onde se encontra o quadro dos doze caracteres de Jesus.
Nicolas prosseguiu o estudo de Jesus Cristo no Evangelho, e reuniu mesmo vários capítulos, que ficaram inéditos, e que, no pensamento de seu autor, deviam formar uma Étude sur l'Évangile médité à l'usage des temps nouveaux. A obra, louvada pela Bibliographie catholique de junho de 1875, t. LI, p. 469-475, não teve, a despeito de calorosíssimas aprovações, o sucesso que merecia; foi traduzida para o espanhol e para o húngaro.
Já no ano seguinte, Nicolas publicava um novo escrito: La raison et l'Évangile, suivi de considérations sur les universités catholiques, in-8°, Paris, 1876. A razão e a fé são necessárias uma à outra. A fé precisa da razão para nascer, desenvolver-se, precisar-se, ampliar-se, aprofundar-se; a razão precisa da fé para se dirigir, firmar-se, prolongar-se e completar-se. O ideal para o homem é, pois, o desenvolvimento simultâneo e o cultivo recíproco da razão e da fé. À confusão e à divisão, que se encontram em todo lugar, devem se opor a distinção e a união.
Depois de estudar as relações recíprocas da razão e da fé nas duas primeiras partes de sua obra, Nicolas consagra uma terceira parte às universidades católicas, que, para restaurar a fé e a razão, apelam para a Igreja e encontram, em seu ensino, o ponto de junção e o terreno de acordo: então «a fé aparece sábia e a ciência se torna crente».
Em 1877, Nicolas fez uma viagem a Roma e redigiu notas, que foram publicadas, mais tarde, na Revue catholique de Bordeaux, de 1º de abril a 16 de setembro de 1882; a princípio não pensou em reunir esses artigos em volume, mas uma carta de Leão XIII, de 17 de outubro de 1882, decidiu-o a publicar Rome et la papauté, in-8°, Paris, 1882, com a carta do papa. A obra é dedicada a Dom de La Rouillerie, coadjutor de Bordeaux, falecido em 8 de julho de 1882, que muitas vezes encorajara Auguste Nicolas.
A publicação dessa obra, que era uma apologia da soberania pontifícia, deu lugar a um incidente que merece ser notado. Nicolas havia feito entregar um exemplar de seu escrito à embaixada da Áustria em Paris, para Sua Majestade, o imperador da Áustria; o embaixador devolveu o exemplar, com um bilhete em que se dizia que Sua Majestade não podia receber essa obra e que, por conseguinte, o embaixador não podia se encarregar de fazê-la chegar a Sua Majestade. A obra foi traduzida para o espanhol e para o italiano; Georges Gandy fez dela um belo elogio na Bibliographie catholique de março de 1883, t. LXVII, p. 231-236.
Os acontecimentos de 16 de maio de 1877, tendo trazido o triunfo de um grupo político oposto à religião, Nicolas voltou às questões sociais em um novo escrito: L'État contre Dieu, em que mostra a evolução lógica da Revolução: o Estado sem Deus, o Estado-Deus, o Estado contra Deus; a despeito de tudo e naturalmente, a Revolução é antirreligiosa e antissocial, em primeiro lugar.
O ateísmo cresce sempre; esse fato impressiona Nicolas, que há muito tempo estudava esse grave problema; já redigira um escrito sob o título Le mal séculaire de la France; mas hesitava a publicá-lo. Fê-lo aparecer primeiro na Revue catholique de Bordeaux. O primeiro artigo apareceu em maio de 1883. Os quatro primeiros capítulos já tinham sido publicados, e nele mostrava que o ateísmo é contrário à própria natureza das coisas, quando morreu o conde de Chambord, em quem Nicolas depositava suas esperanças. Parou e substituiu-o por um capítulo intitulado Du salut de la France. O trabalho só apareceu depois da morte de seu autor, na coletânea dos escritos políticos reunidos sob o título Études sociales sur la Révolution, 2 vol. in-8°, Paris, 1890 (cf. H. Garrelon, nas Études dos PP. jesuítas, parte bibliográfica, 1890, p. 655-657).
Entretanto, já em 1º de fevereiro de 1884, aparecia na Revue catholique de Bordeaux um artigo de Nicolas sobre Deus: era como um quadro do cristianismo antes do Evangelho. O primeiro fragmento que apareceu nessa Revue, em 1º de abril, tinha por título Argument, e tinha por fim mostrar a necessidade de fazer reviver na sociedade moderna a ideia de Deus. O segundo artigo mostrava as ilusões de muitos católicos; depois da publicação dos sete primeiros artigos, Nicolas adoeceu; em seus momentos de saúde, voltou a esse trabalho, mas a parte que redigiu permaneceu manuscrita.
Em 1886, apareceu um escrito cujos diferentes capítulos haviam sido redigidos há muito tempo. Intitulava-se: Étude historique et critique sur le P. Lacordaire; sa première prédication dominicaine à Bordeaux, son œuvre, son école, son libéralisme, in-8°, Paris, 1886.
Nicolas quer lavar o célebre dominicano da acusação de liberalismo; assinala sua obra apologética e monástica. O trabalho devia primeiro aparecer na Revue catholique de Bordeaux, mas só se encontra nessa Revue o que concerne à predicação de Lacordaire em Bordeaux. O cônego Davin, na Revue du monde catholique, o abade Jules Morel, em L'Univers de 23 e 30 de agosto de 1886, e Yves Lebreton, na Bibliographie catholique de novembro de 1886, t. LXXIV, p. 390-394, analisaram e discutiram esse último escrito de Auguste Nicolas.
Paul Lapeyre, Auguste Nicolas, sa vie et ses œuvres d'après ses Mémoires inédits, ses papiers et sa correspondance, in-8°, Paris, 1892; J. Noury, nas Études des PP. jésuites, de 15 de setembro de 1896, t. LXIX, p. 148-160; Edmond Biré, Études et portraits, nouv. édit., in-8°, Paris et Lyon, 1913, p. 289-311; P. Largent, Prédicateurs et apologistes contemporains, no Correspondant de 10 de novembro de 1887, t. CXLIX, p. 425; Kirchenlexicon, t. IX, col. 276-279; Louis Dumolin, Auguste Nicolas, in-8°, s. l. s. d.; Dictionnaire pratique des connaissances religieuses, t. V, col. 18.
J. Carreyre.
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