NICÉTAS DE REMÉSIANA. — (séc. IV-V). A personalidade deste bispo da região danubiana só saiu há relativamente pouco tempo da sombra em que se ocultava. Encontrar-se-á em Schanz, Gesch. der römischen Litteratur, t. IV a, § 964 sq., uma boa exposição analítica das diversas descobertas literárias que, com a ajuda de eruditas confrontações, permitiram identificar a personagem e suas obras principais. Seja permitido aqui, por maior brevidade, expor de maneira sintética, sobretudo segundo J. Zeiller, os resultados certos ou ainda hipotéticos a que se chegou.
Nicétas (ou, mais exatamente, Niceta) já era bispo de Remésiana (hoje Ak-Palanka, a uns trinta quilômetros a sudeste de Niš), na Dácia mediterrânea, em 366 e 367, pois é citado entre os destinatários de uma carta enviada por Germínio de Sirmio (Mitrovica) a todos os bispos daquela região. Ver P. L., t. XIII, col. 573. Além disso, é nomeado numa carta do papa Inocêncio I, Jaffé, n. 299 (P. L., t. XX, col. 520), datada de 402, e é um dos destinatários de outra carta do mesmo papa, de 411, Jaffé, n. 303. Isso representa para Niceta um episcopado de cerca de cinquenta anos.
Pelo menos duas vezes, em 398 e em 401-402, o bispo dácio veio à Itália e foi hóspede, em Nola, do bom São Paulino, que lhe dedicou um de seus poemas, Carm., XVII, P. L., t. LXI, col. 483 sq., e fala dele diversas vezes: Carm. XXVII, 150 sq., ibid., col. 651; XXX; Epist. 14, col. 321. Ignoram-se as razões dessas viagens, suas datas e o itinerário do retorno: no primeiro caso, com paradas em diversas cidades da Macedônia, Cítia ou Dardânia (cf. Paulino, Carm. XVII, 193 sq.), cujos bispos Niceta pôde ver, fazem crer que foram motivadas por assuntos disciplinares que interessavam às Igrejas da Dácia e às províncias vizinhas. Zeiller, p. 551. A descrição que Paulino faz da atividade de Niceta mostra que este desenvolvia seu zelo bem além dos limites da antiga circunscrição episcopal de Remésiana.
As invasões, na região danubiana, haviam destruído diversas sés episcopais; haviam trazido ao país numerosos pagãos que era preciso converter. Niceta empenhou-se ativamente nesses trabalhos, e não é impossível que sua ação tenha por vezes transposto a margem setentrional do grande rio.
Genádio, De vir. ill., n. 21 (22), atribui a Niceta duas obras: a primeira era uma série de instruções aos competentes, isto é, aos candidatos ao batismo; estava dividida em seis libelli, dos quais Genádio dá a análise. A segunda é um outro libellus dirigido a uma virgem que havia pecado: Ad lapsam virginem libellum omnibus laudibus emendationis incentivum (dedit). P. L., t. LVIII, col. 1073.
Da primeira dessas obras, cujo argumento geral recorda as catequeses de São Cirilo de Jerusalém, a crítica moderna acabou por reencontrar certo número de fragmentos, uns minúsculos, outros bastante consideráveis. Do livro I, que Genádio descreve assim: qualiter se debeant agere competentes qui ad baptismi gratiam cupiunt pervenire, restam três fragmentos breves, P. L., t. LII, col. 873-874; Burn, p. 6-7.
Pior sorte ainda coube ao livro II, ibid., col. 875-876; Burn, p. 8, que tratava, segundo Genádio, de gentilitatis erroribus, in quo dicit suo pæne tempore Melcidium quendam patrem familias ob liberalitatem, et Gadarium rusticum ob fortitudinem ab ethnicis esse inter deos relatos (há aqui uma indicação que poderá um dia ou outro ser útil).
O livro III, De fide unicæ majestatis, conservou-se por inteiro, sob a forma de duas pequenas dissertações, separadas na tradição manuscrita: uma, intitulada De ratione fidei, P. L., col. 847-852; Burn, p. 10-18, que trata da divindade do Filho; a outra, sob o título De Spiritus Sancti potentia, col. 853-864; Burn, p. 18-38, que prova de maneira interessante a divindade do Espírito Santo, atacada — diz o autor — pelos macedonianos, col. 853 B.
Do livro IV, Adversus genealogium (genethliologiam), dirigido contra a prática do horóscopo, nada se conservou. Em compensação, parece bem que se tenha por inteiro o livro V, De symbolo, sob a forma de uma Explanatio symboli habita ad competentes, P. L., col. 865-874; Burn, p. 38-54, explicação muito sóbria, mas notável, do símbolo batismal, onde figura (é uma das primeiras testemunhas) o artigo sobre a comunhão dos santos.
O livro VI, segundo o testemunho de Genádio, tratava De agni paschalis victima. Quis-se, mas sem verossimilhança, reencontrá-lo num tratado sobre o cômputo pascal, De ratione paschæ, atribuído ora a Santo Atanásio, cf. P. G., t. XXVIII, col. 1605, ora a São Martinho de Braga, cf. P. L., t. LXXII, col. 49; os dois textos paralelos em Burn, p. 98-111. É melhor, até maior esclarecimento, não insistir nessa identificação, que repousa apenas numa vaga semelhança de estilo.
Quanto ao Libellus ad virginem lapsam, assinalado por Genádio, a primeira ideia foi identificá-lo com um sermão pseudo-ambrosiano de mesmo título, P. L., t. XVI (ed. de 1866), col. 383-400; Burn, p. 112-131. Dom G. Morin, sem insistir aliás nisso, propôs de outro modo reencontrar esse texto numa Epistola ad virginem lapsam, por ele descoberta no Paris, lat. 12097, e publicada na Revue bénédictine, 1897, t. XIV, p. 198-202 (nova recensão em Burn, p. 131-136). A questão não parece resolvida.
Além das informações de Genádio, algumas outras atribuições fornecidas pelos manuscritos permitiram reencontrar diversos opúsculos de Niceta. 1. O breve tratado De divinis appellationibus, que figurava nos manuscritos na sequência do De ratione fidei e do De Spiritus Sancti potentia, foi reivindicado para o bispo de Remésiana. Texto em P. L., t. LII, col. 863-866; Burn, p. 1-5. Quis-se ver nele uma resposta à carta de Germínio de Sirmio mencionada acima: seria, em todo caso, uma obra de juventude de nosso autor.
2. Dois sermões de Niceta referem-se à oração litúrgica: um intitulado De vigiliis servorum Dei; o outro, outrora designado sob o título De psalmodiæ bono, e que C. H. Turner, seu mais recente editor, chama, segundo o testemunho do melhor manuscrito, De utilitate hymnorum.
Niceta aí justifica, contra diversas críticas, certos usos que começavam a se introduzir: o do ofício noturno (pelo menos na noite de sexta para sábado e na seguinte) e o do canto dos salmos e dos hinos. Texto em P. L., t. LXVIII, col. 365-372, 371-376, sob o nome de Nicécio de Trier; Burn, p. 54-82. A nova edição de C. H. Turner deve ser consultada de preferência; os dois tratados são aí apresentados por primeira vez sob uma forma ordenada e inteligível, no Journal of theol. studies, t. XXII, 1920-21, p. 305-320 = De vigil.; t. XXIV, 1922-23, p. 225-252 = De util. hymn., com a introdução ao tratado precedente. É no De util. hymn. que se encontra, por duas vezes, c. IX e XI, a atribuição bem explícita do Magnificat a Isabel.
3. Quanto à atribuição a Niceta do hino Te Deum, ela deu lugar a discussões muito vivas. Fez-se valer em seu favor a indicação fornecida por uma dezena de manuscritos de origem irlandesa, ver a lista e os detalhes em Burn, p. C sq.; e para corroborar esse testemunho invocou-se o interesse que, segundo os dois sermões citados acima, o bispo de Remésiana tinha pelo canto eclesiástico. Mas a última palavra não foi dita. Assim, como observa J. Zeiller, "o conjunto das obras (de Niceta) revela a orientação prática, mais do que teórica, de seu espírito: as que têm caráter dogmático dirigem-se aos catecúmenos, as outras referem-se à liturgia. Tudo isso é conforme ao tipo do bispo missionário que Niceta, em larga medida, realizou." Op. cit., p. 557.
— Textos. Indicamos ao longo do texto os lugares onde encontrá-los comodamente. Eis sua história sumária. Em 1799, o cardeal Borgia publica em Pádua a Explanatio symboli, sob o nome de Nicetas de Aquileia. Em 1802, Denis Miguel dá a conhecer os fragmentos contidos num Ordo de catechizandis rudibus do cod. Palatinus-Vindobonensis 1370 (ver Codices mss theol. biblioth. Palat. Vindob., t. II, 3ª parte, p. 2042 sq.). Em 1827, A. Mai publica seguidamente os três tratados De ratione fidei, De S. S. potentia, De div. appell. e também o De symbolo, sob este título: Sanctorum Nicetæ episc. et Paulini scripta; Roma, repr. in Script. vet. nova collectio, t. VII, Roma, 1833.
Até esse momento, atribuem-se esses diversos textos a Nicetas, bispo de Aquileia (454-485), cuja identificação com o Nicetas de Remésiana de Genádio havia sido acerbamente defendida por P. Braida, Udine, 1810. Ver sua dissertação em P. L., t. LII, col. 875-1134. É Dom G. Morin quem orienta a pesquisa na direção de Niceta de Remésiana: L'auteur du Te Deum, Rev. bénéd., t. VII, 1890, p. 101 sq.; t. XI, 1894, p. 49 sq. e 337; t. XV, 1898, p. 99. É A. E. Burn quem mais contribuiu para estabelecer solidamente a posição atual.
— Trabalhos. E. Humpel, Nicetas Bischof von Rémésiana, eine litterarkrit. Studie zur Gesch. des altkirchl. Taufsymbols (tese), Erlangen, 1895; A. E. Burn, Niceta of Rémésiana, his life and works, Cambridge, 1905, dá numa longa introdução um estudo sobre o autor e suas obras, depois os textos; do mesmo, "The hymn Te Deum and its author", Londres, 1920; A. Patin, Niceta, Bischof von Rémésiana, als Schriftsteller und Theologe, Munique, 1909. Ver também as notícias literárias: O. Bardenhewer, Altkirchliche Litteratur, t. III, 1912, p. 598-605; M. Schanz, Gesch. der römischen Litteratur, t. IV a, 2ª ed., 1914, § 964-966; J. Zeiller, Les origines chrétiennes dans les provinces danubiennes de l'empire romain, Paris, 1918, p. 549-558.
É. Amann.
Autor original: É. Amann.
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