MONETA DE CREMONA, OU SIMONETA

MONETA DE CREMONA, OU SIMONETA

MONETA DE CREMONA, ou SIMONETA, segundo alguns cronistas, frade pregador italiano (século XIII). Moneta fora primeiro mestre em artes na universidade de Bolonha, e adquirira grande renome. Ocupava-se muito pouco de questões religiosas quando um sermão de Reginaldo de Orleans, dominicano que estabelecia em Bolonha a ordem recém-criada dos pregadores, operou sua conversão. Tal é, pelo menos, o relato do piedoso cronista das Vitæ fratrum. Era o dia da festa de Santo Estêvão, e como Reginaldo de Orleans só esteve presente em Bolonha no dia dessa festa em 1218, teria sido pouco depois desse ano que Moneta teria tomado o hábito de São Domingos.

Moneta exerceu então as funções de inquisidor no Milanesado e nas regiões vizinhas. Perseguiu albigenses e valdenses com uma energia de que dá testemunho a anedota, talvez legendária, segundo a qual foi prender, crucifixo na mão e seguido de uma pequena tropa, seu inimigo o cátaro Peraldi, que o esperava em emboscada. Moneta teria tido relações de amizade com o fundador de sua ordem, e foi em sua cela, e mesmo numa túnica por ele emprestada, que morreu São Domingos, de passagem pelo convento de Bolonha, em 1221. Moneta teria depois residido no convento de Cremona em 1228, e depois no convento de Mântua em 1233. Conta-se que ficou cego à força de ler manuscritos e de chorar seus pecados de juventude.

Em todo caso, vivia ainda bastante tarde, por volta de meados do século XIII, como atestam certas passagens de sua Suma contra os cátaros: uma alusão ao nascimento de Cristo data essa obra de 1244 (éd. Ricchini, p. 245); ele faz remontar a «oitenta e tantos anos» a predicação de Pedro Valdo, que é de 1160. Ibid., p. 402. Um manuscrito de Palma, do fim do século XIII, data a obra de 1241.

Em 1243, o mestre em decretos, João de Deus, que dedica seu tratado De dispensationibus aos religiosos mendicantes da universidade de Bolonha, nomeia nessa dedicatória «Mestre Moneta, O. P., doutor em teologia, residente em Bolonha». Moneta é o único assim designado nominalmente, o que faz supor que, nessa data tardia, ele conservava seu antigo prestígio universitário. Cf. J. F. von Schulte, Die Geschichte der Quellen und Literatur des canonischen Rechts, t. i, p. 66-97.

Moneta teria composto, sem dúvida na época em que ainda era mestre em artes, um Compendium logicæ propter minus eruditos e, talvez como dominicano, uma problemática Summa casuum conscientiæ. Mas é sobretudo conhecido por sua Suma contra os cátaros, obra onde ele se nomeia, permanecida muito tempo manuscrita em diversas bibliotecas da Itália, no Vaticano, em Bolonha e em Nápoles, enfim editada com prefácio, anotações e interessante biografia, em 1743, por Thomas Augustin Ricchini, O. P., prior do convento de Cremona, teólogo da Casanatense e depois mestre do Sacro Palácio, sob este título: Venerabilis Monetæ Dominico Patris Cremonensis, O. P., S. P. æqualis adversus catharos et Valdenses libri quinque, xlviii-568 p., in-folio, Roma.

O escrito de Moneta reparte, portanto, em cinco livros toda a matéria da heresia: 1º Deus e o diabo, o mundo, os anjos, o homem, as profecias e milagres; tudo segundo a doutrina do dualismo absoluto; 2º as mesmas questões segundo um dualismo herético mais atenuado; 3º Cristo e o Anticristo, São João Batista, a Santíssima Virgem, o Espírito Santo; 4º os sacramentos, os fins últimos; 5º a Igreja, sua estrutura, sua moral.

Moneta fora um inquisidor hábil e temido, a quem se apelidara «o martelo dos hereges». Foi no exercício de suas funções que adquiriu sua experiência e seu conhecimento das heresias de que trata. Explica também que as estudou nas obras dos doutores heterodoxos. Édit. Ricchini, p. 2, 42, 94.

O valor de sua obra é feito do valor de seu espírito, exato e preciso. Compreendeu a necessidade de responder com argumentos diferentes aos cátaros mais intransigentes, cujo dualismo constitui um maniqueísmo absoluto, e a aqueles cujo dualismo é mitigado. Ibid., p. 5. Não cai, porém, nas inutilidades da erudição de detalhe, e tem o mérito de reduzir, desde o início de seu tratado, as diferentes seitas a duas grandes classes. Rainier Sacchoni, que dá tantas minúcias sobre as particularidades de cada seita, acaba chegando exatamente à mesma constatação. Cf. Martène e Durand, Thesaurus novus anecd., t. v, col. 1759-1776.

A propósito de uma questão delicada como a da origem dos cátaros, vemos ainda quão prudente, judicioso e bem informado é Moneta. Ele não conta o que não sabe, isto é, a pré-história da seita, e sabe limitar-se a dar, numa página bem cheia, os diversos parentescos antigos do pensamento cátaro: pitagorismo, judaísmo saduceu, maniqueísmo, teorias de Taciano, gnose valentiniana. Ricchini, p. 411. Ora, acontece que não conhecemos, por outro lado, nenhuma fonte direta de origem cátara do albigeísmo, a não ser uma versão do Novo Testamento e um fragmento de ritual.

A maioria dos outros documentos de origem católica deixa também muito a desejar. O escrito que se põe sob o nome de Alain de Lille está mal informado e, por exemplo, distingue, contrariamente aos outros testemunhos, os perfeitos cátaros dos consolados cátaros. Ecberto de Schönau é demasiado arrebatado e demasiado violento para ser uma fonte utilizável sem discernimento. Os documentos inquisitoriais, mesmo os relativamente tão completos do meado do século XIII, são necessariamente parciais e não podem senão ignorar o conjunto da filosofia religiosa dos hereges. Ermengaud é resumido demais, e Bonaccorsi ainda mais. Evrard de Béthune, Lucas de Tuy, a Somme des autorités publicada por Mgr. Douais permanecem muitas vezes demasiado vagos. Estêvão de Bourbon é demasiado amigo da anedota e um pouco fabulista. Rainier Sacchoni vale mais, mas sua Suma, que a de Moneta corrobora, está longe de ter a amplitude da obra monumental deste último.

Quando Moneta se encontra com outra fonte séria, mostra-se conforme a ela. Assim é para a exposição da cosmogonia cátara, p. 3, do dualismo, de Deus e do diabo, p. 43, da doutrina cátara sobre São João Batista, p. 225-230, sobre a Santíssima Virgem, p. 230-235, sobre Cristo, p. 232, 240-248, 380-382, sobre o episcopado e seus diáconos, p. 278, sobre as cerimônias do Consolamentum, p. 278, sobre os sacramentos, p. 286-309, sobre a simplicidade do culto e a proibição das imagens, p. 454-461. Além disso, por tudo o que tem de pessoal, Moneta está muito bem informado. Se dois teólogos cátaros, Didier e Tetry, o primeiro dualista mitigado, p. 248, 347-357, o segundo dualista absoluto, p. 71, 79, são conhecidos, é por intermédio do único Moneta, que cita essas fontes.

A bem dizer, embora o título completo de sua obra faça crer que se ocupa tanto dos valdenses quanto dos albigenses, Moneta negligencia um pouco a heresia de Pedro Valdo. O que ele diz a respeito, porém, é exato, e soube discernir os motivos pelos quais os Pobres de Lyon deixaram a Igreja, primeiro simples cisma por escândalo de fracos, depois heresia, em suma divergência bem menos grave do que a que separava da ortodoxia os cátaros propriamente ditos, p. 401-411.

Mas no que concerne a esse albigeísmo, Moneta dá os detalhes mais circunstanciados. Preocupou-se em saber se os cátaros tinham uma metafísica do ser suficientemente desenvolvida para tentar explicar como a infinita perfeição do ser pode se realizar no caso da existência de dois princípios divinos opostos. Sua pesquisa chega a um resultado negativo, p. 9. Seu estudo sobre as teses cátaras acerca da Trindade traz-nos preciosas informações, p. 4, 6, 36: os hereges admitiam a existência das três pessoas, mas formulavam toda espécie de teorias a seu respeito, em particular no que concerne ao Espírito Santo, p. 3, 4, 6. Moneta ensina-nos que, para os cátaros, a Igreja perdeu progressivamente seu caráter sagrado a partir do papa São Silvestre, porque admitiu a busca dos bens temporais, p. 412.

A angelologia cátara é exposta por Moneta até em seus refinamentos, em particular no que concerne ao papel capital do demônio, p. 3, 5, 185, 199, 218. Segundo esse autor, os cátaros admitiam que o homem possui, além da alma e do corpo, um terceiro elemento constitutivo distinto: o espírito, que pode deixar a alma sensível e é a sede da vida especificamente intelectual e moral. Apenas algumas peças da inquisição fazem alusões, certas mas veladas, a essa crença da qual nada saberíamos sem Moneta, p. 4, 105. Cf. Broeckx, Le catharisme, p. 75, 76.

Moneta indica também, apoiando-se no testemunho do herege Didier, que os cátaros haviam estudado o problema moral da luta entre a carne e o espírito. Explicavam-no pelo determinismo que rege o corpo humano, p. 346, 348. De modo geral, Moneta soube destacar a importância do determinismo em toda a teologia dos dualistas absolutos. É, aliás, o único a mostrar o papel importante dessa doutrina filosófica na elaboração do dogma albigense, p. 5, 6, 63, 489-496.

Segundo os cátaros, uma causa age por si mesma, ou sempre para o bem, ou sempre para o mal, e não pode ser simultaneamente causa possível e livre tanto do bem quanto do mal. Por isso, era preciso um primeiro princípio e princípios secundários para o bem, um primeiro princípio e princípios secundários para o mal. Donde se segue que nem Deus, nem as circunstâncias da criação, nem o homem, nem as circunstâncias de sua salvação são livres.

Moneta insiste muito justamente, p. 44-57, sobre esse dogma fundamental dos cátaros mais absolutos: segundo eles, todas as almas se salvam necessariamente, e suas provações, e mesmo suas transmigrações, não são senão episódios, purificações destinadas a chegar a um sucesso garantido. Por esse estudo e pela refutação muito detalhada que o segue, Moneta mostra assim no albigeísmo, onde se vê de bom grado tão grande a parte do mal, um otimismo absolutamente preponderante e até excessivo.

A propósito do uso que os hereges faziam dos textos escriturísticos, o testemunho de Moneta é igualmente de importância capital. Ainda assim, não se deve fazer esse autor dizer o que ele não diz, e E. Broeckx, op. cit., p. 39, exagera quando afirma que, para os albigenses, a liberdade de interpretação das Escrituras é uma espécie de dogma, referindo-se a um texto de Moneta que parece apenas arguir das ilogicidades e talvez da má-fé de certos polemistas da heresia, p. 6.

Em contrapartida, enquanto a maioria dos tratados contra os cátaros negligenciam mencionar as autoridades escriturísticas em que os hereges apoiavam suas pretensões, Moneta é sempre extremamente completo nesse ponto. Põe assim em evidência o caráter, apesar de tudo, cristão e herético dos albigenses, que hoje se tem demasiada tendência a transformar em adeptos de uma religião que já não tem nada em comum com a religião de Cristo.

Por exemplo, Moneta tem o mérito de precisar muito claramente em quais textos da Escritura os cátaros fundavam sua reprovação geral do matrimônio. Tratava-se do conselho evangélico de castidade dado por Cristo e por São Paulo, p. 315-320. Moneta é tanto mais digno de crédito a este respeito quanto as nuances de opinião que assinala entre os cátaros a propósito dessa reprovação do matrimônio, p. 336, estão conformes aos outros testemunhos independentes dele.

Relata também todo um folclore bíblico dos albigenses do qual, por outro lado, só conhecemos fragmentos; sobre o cânon propriamente dito da bíblia cátara, é também mais explícito do que qualquer outro, p. 3, 6, 218. Os cátaros rejeitavam em grande parte o Antigo Testamento e tinham a maior veneração pelo Novo. Moneta explica-lhes habilmente que o Novo Testamento proclama a santidade do Antigo, a justiça de Moisés, de Abraão e dos outros patriarcas: o próprio Cristo vem declarar que não veio abolir a lei antiga, mas aperfeiçoá-la e cumpri-la, p. 166.

Moneta ensina a esse respeito que os albigenses sustentavam que a inspiração do Antigo Testamento é dupla, sendo certas passagens inspiradas diretamente por Deus e outras diretamente pelo diabo, p. 146, 158, 180. Para explicar a existência de dois deuses, um bom e misericordioso, o outro mau e implacável, inspiradores, por fragmentos, do Antigo Testamento, os cátaros haviam mesmo construído toda uma exegese. Ora Deus diz: «Tira as sandálias dos pés, pois o lugar onde estás é lugar santo.» Ora o outro personagem divino diz, ao contrário: «Tereis sandálias nos pés.»

Moneta é excelente em mostrar o encadeamento da dogmática cátara. Sabe-se comumente que existiram conventos entre esses hereges. Mas Moneta explica a importância dessa vida comunitária para gente segundo a qual o homem, se não deve casar-se, ao menos nunca deve viver isolado, p. 278. Aliás, Moneta demonstra a mesma habilidade em mostrar as ilogicidades dessa dogmática albigense.

Sem deixar de precisar o horror conhecido dos albigenses por todo homicídio, e de trazer a esse respeito exemplos circunstanciados do pacifismo cátaro em matéria de guerra e das queixas cátaras contra a conduta considerada guerreira da Igreja romana, p. 436, 513, 523-537, denuncia o falso raciocínio pelo qual esses hereges se arrogavam não obstante o direito de matar os cristãos ortodoxos, seja por astúcia, seja por violência, p. 157, 171. Eis a esse respeito a tese de um deles, Guilherme Belibaste: «O Filho de Deus disse que é preciso arrancar o joio; ora, os falsos crentes são o joio; logo, é preciso matá-los.»

Resumamos, com E. Broeckx, que soube ver a importância de Moneta como fonte da teologia cátara: «Comparai o escrito de Moneta com as outras sumas, não encontrareis nenhuma que possa sustentar a comparação com vantagem, tanto pelo fundo quanto pela forma. Não temos aqui uma breve descrição, uma simples menção do dogma cátaro acompanhada de uma refutação sumária, mas a exposição metódica de todas as doutrinas e de sua importância no sistema... A obra de Moneta de Cremona é a mais importante das que os católicos dirigiram contra a seita cátara... É um arsenal que forneceu aos inquisidores as armas mais preciosas e mais aperfeiçoadas, na guerra contra as doutrinas cátaras.» Op. cit., p. 229, 231.

Depois de ter sido assim outrora precioso para os polemistas, para os convertedores, para os inquisidores, fornece agora aos historiadores seu melhor recurso para estudar a heresia albigense.

Moneta não é apenas um compilador de textos bíblicos; raciocina em seu livro com aquela mestria que fez dele, na juventude, a glória da universidade de Bolonha. Destaca-se em retomar um texto alegado pelo adversário, em dissecá-lo, em dele extrair uma alternativa de dois contrários possíveis em que o adversário é obrigado a escolher, em um e outro caso, contra sua própria tese. Moneta apresenta, mesmo nesse caso, algum interesse para a história da filosofia cristã.

Assim, desenvolve, sobre a eternidade do mundo e as condições de sua criação por Deus, um verdadeiro tratado, p. 477-506, onde leva em conta muito filosoficamente a opinião de Aristóteles, onde pesa o valor dos argumentos do filósofo grego, arrisca conjecturas sobre o alcance que este podia dar em seu espírito a esse tipo de provas, e mostra como, em tal matéria, o teólogo cristão deve ter a primazia sobre o filósofo pagão. Há mesmo, no quinto livro da Suma de Moneta, todo o esboço de uma teologia da Igreja sugerida pelas negações valdenses e albigenses, que seria interessante estudar.

Sobre o estado dos costumes eclesiásticos de seu tempo, Moneta pode ainda fornecer algumas informações, p. 434, 436.

Broeckx, Le catharisme, 1916; Quétif-Echard, Scriptores Ordinis prædicatorum, t. i, p. 123; Hurter, Nomenclator, 3e édit., t. ii, col. 267; Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'Ordre des Frères prêcheurs, t. i, p. 99, 132, 159, 179, 201, 202; Préface de l'édition Ricchini; Villanueva, Viaje literario, t. xxi, p. 206.

M.-M. Gorce.

Autor original: M.-M. Gorce

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