MIGUEL DE SANTO AGOSTINHO

MIGUEL DE SANTO AGOSTINHO

MIGUEL DE SANTO AGOSTINHO, carmelita calçado, autor místico (1621-1684). — I. Vida. II. Obras.

I. Vida. — Miguel de Santo Agostinho, do mundo Van Ballaer ou Van Ballaert, como pretende Cosme de Villiers, Goyers e o catálogo da província flandro-belga de 1680, nasceu em Bruxelas, em 15 de abril de 1621 ou 1622, segundo o P. Jacques de la Passion. Timothée de la Présentation, Jean van Ballaer e Catherine Viert, seus piedosos pais, tiveram a felicidade de ver seus onze filhos se consagrarem a Deus. Desde a mais tenra juventude, Miguel aplicou-se seriamente à prática da virtude e manifestou sempre um gosto particular pela vida interior. Fez seus estudos junto aos agostinianos de Bruxelas, abraçou a vida religiosa à idade de 18 anos (1639) e fez profissão no convento dos carmelitas em Lovaina, em 14 de outubro de 1640. Tornado sacerdote em 10 de junho de 1645, foi nomeado leitor de filosofia e depois se tornou mestre de novicos em Malines.

Miguel de Santo Agostinho foi um verdadeiro contemplativo e um teólogo místico muito original. Deus o escolhera para formar na vida carmelitana e conduzir à mais alta perfeição uma alma de eleição, a extática terciária do Carmo, Madre Maria de Santa Teresa (no mundo Petyt). A direção dessa santa pessoa lhe deu a ocasião de compor seus admiráveis tratados místicos. De fato, a penitente, maravilhada com a beleza e a excelência das alocuções de seu diretor, e desejosa de conservar, para sua própria instrução e edificação, uma doutrina tão eminente, pôs-se a anotar cuidadosamente, mas em segredo, tudo o que o Padre lhe dizia. Depois de um tempo bastante considerável, Miguel teve conhecimento do piedoso artifício de sua penitente; reclamou os numerosos cadernos já escritos; cedendo, porém, às súplicas, não ousou rasgar as anotações de uma doutrina que confessava ser bem mais infusa do que pessoal. Pôs-lhes, então, a última mão e assim começou a edição de suas obras místicas.

Em sua vida interior, ele era exatamente o que seus escritos deixam adivinhar: uma alma contemplativa e privilegiada, que recebeu de Deus grandes graças de santificação. A despeito de suas numerosas ocupações e dos encargos contínuos que exerceu durante quase toda a sua vida religiosa, dedicava-se muito à oração, prolongando sua contemplação até bem adentro da noite. À oração juntava uma mortificação contínua; amava singularmente a santíssima Virgem, praticando com perfeição essa vida de união contínua com Maria que descreve tão excelentemente em suas obras, sobretudo em seu De vita Mariaeformi et mariana in Maria propter Mariam. Graças a essa obra, que apareceu igualmente em flamengo, o P. Miguel propagou não só em sua Ordem, mas também entre os fiéis, essa vida íntima de união com Maria, que é hoje tão louvada e difundida graças às diversas publicações do Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, de Louis Grignion de Montfort, publicado por primeira vez em 1712; e isso antes do nascimento de Louis Grignion de Montfort (1673). Não há que se estranhar vê-lo como que predestinado a servir de instrumento para a reforma dos conventos, e constatar com que pleno sucesso levou a bom termo uma tarefa fecunda em dificuldades de todo gênero.

II. Obras. 1. In-leydinghe tot het landt van Carmelus, Bruxelas, 1659, in-16, xvi-535-xx p.; apareceu depois em latim sob este título: Introductio in terram Carmeli et gustatio fructuum illius, seu introductio ad vitam vere carmeliticam seu mysticam et fruitiva praxis ejusdem, ibid., 1650, in-16. Esta excelente obra constitui o III livro (t. II) dos Institutionum mysticarum libri quatuor, que apareceram em Antuérpia, 1671, em três tomos in-4°. Uma nova edição desta Introductio acaba de ser feita pelo P. Wessels, C. C., Roma, 1926, sob o título de Introductio ad vitam internam et fruitiva praxis vitae mysticae.

2. Het godvruchtigh leven in Christo, Bruxelas, 1661, in-16; apareceu em latim sob o título: Pia vita in Christo, pro incipientibus, proficientibus et perfectis; cum compendio tentationum, et remediorum earundem pro eisdem, ibid., 1663; constitui os l. I e II, ou t. I, das Institutiones mysticae acima mencionadas.

3. Onderwysinghe tot een grondighe verloogkeninghe syns selfs, Malines, 1669, in-16. Esta obra, que contém três tratados, constitui o l. IV ou t. III das mesmas Institutiones mysticae, intitulado De totali abnegatione sui, et creaturarum, omnium ac de adoratione Dei in spiritu et de vita divina mariana. O P. Wessels acaba de dar, Roma, 1926, uma nova edição da De vita Mariaeformi et mariana in Maria propter Mariam.

4. Eensaemheydt van thien daghen (retiro de dez dias), Bruges, 1677, in-12. Segundo Cosme de Villiers e Paquot, outro livro de Exercícios de dez dias teria sido impresso em Ypres, em 1681, in-12°. Além disso, duas biografias: uma do Fr. Arnold de Saint-Charles (†1672 em Malines), outra de sua piedosa dirigida Madre Maria de Santa Teresa; esta última apareceu em Gand em 4 pequenos vols. in-8°, 1683-1684.

5. Segundo Paquot, Miguel de Santo Agostinho teria publicado também uma Collectio decretorum pro exactiori observantia constitutionum reformationis in provincia Flandro-Belgica conditarum a Reverendissimis Joanne Antonio Philippino, et Hieronymo Ari, generalibus in suis visitationibus; tum per capitula et congregationes a RR. PP. confirmatorum, Bruxelas, 1681, in-8°.

6. Segundo o mesmo Paquot, teria ele deixado em manuscrito, em latim, uma filosofia in-4°, e um tratado De jure et justitia in-4°; obras que pereceram no bombardeio de Bruxelas.

Daniel de la V.-M., Vinea Carmeli, Antuérpia, 1662, p. 331-332, n. 620; Speculum carmelitanum, Antuérpia, 1680, t. II, p. 1031, n. 3581 e p. 1111-1112, n. 3937; Catalogus carmelitarum prov. Flandro-Belgicae, 1680 e segs.; Jacques de la Passion, De stralen van de sonne van den H. Vader en Propheet Elias dese loopende eeuwe, verspreydt door de Koning-rycken van Spagnien, Liège, 1684, p. 322-331; encontra-se aí uma vida resumida e o retrato autêntico de Miguel de Santo Agostinho; Timothée de la Présentation, C. C. (†1710), Vita Ven. P. Michaelis a S. Augustino, Roma, 1926; J. F. Foppens, Bibliotheca Belgica, Bruxelas, 1739, t. II, p. 896; Cosme de Villiers, Bibliotheca carmelitana, Orléans, 1752, t. II, col. 446-447, n. 142; Norbert de Sainte-Julienne, C. D., De scriptoribus belgicis ex ordine carmelitano, ms. 16492 da biblioteca real de Bruxelas, fol. 75 v., 76; Paquot, Mémoires pour servir à l'histoire littéraire des dix-sept provinces des Pays-Bas, Lovaina, 1765-1770, t. I, p. 382-383; Jacques Goyers (1719-1809), Correctiones bibliothecae carmelitanae (de Cosme de Villiers), ms. da Biblioteca da Universidade de Gand, t. II, col. 446

e p. 25 do suplemento ms.; Hurter, Nomenclator literarius, 3ª ed., t. IV, col. 312-313, n. 134.

P. Anastase de Saint-Paul.

Autor original: P. Anastase de Saint-Paul

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