MICHAELIS Sebastião, dominicano francês, e célebre reformador de sua ordem, na França (1543-1618).
I. Sua vida, sua reforma. S. Michaëlis nasceu em Saint-Zacharie, pequeno burgo da Provença, então da diocese de Marselha, por volta de 1513. Por volta de 1560, veio a Marselha pedir o hábito no convento dos frades pregadores. Se a ordem de são Domingos podia então se gloriar de sábios mestres (Cano, Soto, Bánez...), de gloriosos missionários que estendiam maravilhosamente sua ação no Novo Mundo (são Luís Bertrand), o estado lamentável de muitas províncias, em particular das províncias da Alemanha, da Inglaterra, da França, não justificava senão demais as tristes palavras de um mestre geral, em 1558: Est haec ætas nostra ferrea simul et lerrea.
Novíço, o frei Michaëlis já abraça resolutamente essa vida religiosa, da qual mais tarde deveria ser o ardente defensor; dedica-se ao estudo das sagradas Letras, aprendendo cada dia, de memória, uma passagem da Escritura, que terminaria por possuir de maneira notável: se algum dia a Bíblia viesse a se perder, dizia-se, o P. Michaëlis melhor que ninguém poderia restabelecer o texto sagrado.
Enviado ao convento de Toulouse (1561-1565), onde é testemunha dos horrores da guerra religiosa de 1562, ali estuda a filosofia e a teologia, distinguindo-se como dialético. Ama muito os Padres e copia as passagens de seus escritos que mais o impressionaram. Pouco depois, faz uma estada no convento de Saint-Jacques em Paris, para completar seus estudos, e segue, ao mesmo tempo, os cursos de hebraico do célebre Génébrard (1537-1597). Em 1568, está no convento de Avignon; em 1570, no de Toulouse, onde ensina primeiro a Sagrada Escritura, depois a filosofia. Promovido mestre em teologia, em 1574, encontra-se vice-inquisidor em Avignon, em 1582. Eleito definidor da Província ocitânica, em 1588, dirige-se, no ano seguinte, 1589, ao capítulo geral da ordem, realizado em Roma, onde o P. Beccaria, mestre geral, acolhe favoravelmente o pedido pelo qual o P. Michaëlis solicita a reforma de sua província. A seu retorno, é nomeado provincial, no capítulo de Avignon (setembro de 1589).
Porém a hora da reforma ainda não chegou; e não será senão no fim de seu mandato (1591) que o provincial poderá começar essa obra árdua, quando lhe foi concedido o convento, quase inteiramente arruinado, de Clermont-de-Lodève (ou Clermont-l'Hérault), para ali tentar um ensaio com alguns religiosos. Humildes mas consoladores começos (1591-1602); árduas lutas (1602-1608), enfim o sucesso (1608-1618): tais são as três etapas pelas quais passou essa obra da reforma, que se identifica desde então com a própria vida do reformador.
Após a tomada de posse de Clermont-l'Hérault (1591), convento logo próspero e de rendimento singularmente fecundo, registra-se sem dúvida um doloroso fracasso, na Provença, no convento da Sainte-Baume, contíguo à gruta, célebre pela penitência de Maria Madalena, e vigariato do grande convento real de Saint-Maximin, então em plena decadência (1597-1598); em contrapartida, o venerável convento de Toulouse, primeira casa da ordem por sua antiguidade, é ganho para a reforma e escolhe mesmo o padre Michaëlis para prior (1598). Em 1600, Albi recebe os religiosos reformados.
Mas logo veio a prova. Em 1602, o P. J. Bourguignon é eleito provincial da Ocitânia. Não tinha gosto algum pela regularidade, nenhuma simpatia pelos observantes; ora, como o capítulo geral de 1600 tinha estatuído que a obra empreendida por Michaëlis deveria permanecer sob a jurisdição do provincial pro tempore, essa oposição poderia ter sido fatal. Por toda uma série de manobras, o provincial tentou fazer passar, aos olhos do mestre geral, o P. Michaëlis por um sedicioso, um esquismático, e conseguiu comover a autoridade contra o reformador.
Levado ao limite, este partiu então para Roma, a fim de restabelecer a verdade. Primeiro mal recebido, Michaëlis conseguiu persuadir o mestre geral da falsidade das acusações e obteve mesmo o convento de Béziers, onde, de volta à França, estabeleceu a reforma (1603). Entretanto, os frades da observância ainda tiveram de suportar muitos contratempos: insinuações do provincial para desviar do papa os religiosos reformados; em suma, obtido «de surpresa», permitindo estabelecer no convento de Toulouse os estudos gerais da província, e, por isso mesmo, introduzir, em meio aos observantes, religiosos não reformados (15 de novembro de 1604); insucesso parcial no capítulo geral de Valladolid (1605).
Tiveram de esperar até 1608. Nessa data, com efeito, Michaëlis já tinha assegurado o apoio do rei da França. Henrique IV, por ocasião de uma visita que lhe fez o reformador, criou-o mesmo prior de seu convento de Santa Maria Madalena em Saint-Maximin (1606); ganhou para sua causa os cardeais franceses, o próprio papa Paulo V; apresenta-se então ao capítulo geral de Roma, 1608, e pede que os conventos de Toulouse, Albi, Béziers, Clermont-l'Hérault, Saint-Maximin, Castres e Montauban sejam erigidos em congregação independente do provincial.
A 22 de setembro de 1608, o Reverendíssimo Padre Galamini, mestre geral, entregava ao Padre Michaëlis cartas patentes instituindo a Congregação ocitânica reformada, e o nomeava ele próprio primeiro vigário geral dessa congregação — todos atos que foram aprovados no capítulo de Paris (1611). Era o triunfo da reforma, à qual seu vigário não deixou desde então de dar incremento, a despeito dos trabalhos de seus diversos cargos; durante nove anos, com efeito, é ao mesmo tempo vigário geral da Congregação ocitânica reformada (1608-1616), prior de Saint-Maximin (1606-1616), inquisidor de Avignon e do Comtat Venaissin (cerca de 1608-1616).
O capítulo geral de 1611 ocupou-se também da reforma do grande e célebre convento de Saint-Jacques de Paris. Pensou-se também em Michaëlis. Mas os religiosos de Saint-Jacques o repeliram com obstinação, e opuseram-se mesmo com todas as suas forças à fundação, em Paris, de uma casa de sua observância. Contudo, a santidade, a erudição, a eloquência de Michaëlis (pregou em Notre-Dame diante de toda a corte e de um auditório dos mais escolhidos, na quaresma de 1612) prevaleceram; e, a 23 de março de 1613, uma decisão do Parlamento concedia o direi de fundar, no bairro de Saint-Honoré, uma casa que foi colocada sob a invocação da Anunciação. Graças à proteção das mais altas personalidades civis e eclesiásticas, o convento adquiriu rapidamente uma importância considerável. O P. Michaëlis foi nomeado prior dele, em 1616, quando voltava a Paris, depois de ter realizado, em Saint-Maximin, o primeiro capítulo de sua congregação e feito nomear o P. Girardel para seu sucessor no vicariato geral.
Não pôde concluir o tempo de seu priorado; morreu a 5 de maio de 1618, mostrando até o fim o zelo mais tenaz pelo estudo, a liturgia, as santas observâncias. Deixou a seus filhos como testamento estas palavras, que resumem tão bem sua vida, seu pensamento, toda a sua obra: Servire Deo assidue; servare constitutiones exacte; solitudinem cellæ et claustri custodire.
II. Consequências doutrinais da reforma do P. Michaëlis. O simples retorno à mais estrita observância das constituições dominicanas não podia deixar de ter importantes consequências, mesmo na ordem doutrinal, dado o lugar de destaque reservado ao estudo na legislação dominicana: «É bastante judiciosamente, observa o Padre Souèges, que viveu com os discípulos imediatos do reformador, que não há província, em toda a ordem, onde se estude melhor do que nas reformadas; pois... como ali se inspira um desejo mais ardente da observância geral das regras, e que a dos estudantes leva a ler ou meditar continuamente, dentro e fora do convento, e a aprender de memória tudo o que se puder, para melhor exercitar a memória, é coisa toda evidente que, na ordem de são Domingos, ser verdadeiramente reformado, ou para falar mais claramente, grande observador de suas regras, e ser sábio, são como dois termos sinônimos, que significam a mesma coisa.»
O P. Michaëlis é ele próprio uma ilustração viva dessa observação. Echard sublinha a excelência de seu saber teológico: Scholasticæ polemicæque atque etiam affectivæ theologiæ præstantia sublimioribus sui ævi doctoribus conspicuus, e acrescenta que era temido pelos hereges. Em todas as discussões públicas com os ministros calvinistas, ele levava grande vantagem por sua ciência das Escrituras, sua vasta erudição, seu conhecimento das línguas hebraica e grega; por isso os huguenotes de Montpellier, com os quais disputou frequentemente e sempre com vantagem durante os anos 1595-1598, tentaram, mas em vão, fazê-lo desaparecer. Acrescentemos que foi um orador poderoso.
Contudo, o principal título de gloria do P. Michaëlis é ter sido, por sua própria reforma, o chefe de um movimento doutrinal, que deu à ordem de são Domingos alguns de seus maiores filósofos e teólogos. Baste nomeá-los; encontrar-se-á para cada um deles notícias mais detalhadas neste dicionário.
João Batista Gonet (cerca de 1616-1681), filho do convento de Béziers, entregue aos reformados em 1603, e erguido de suas ruínas nos anos que se seguiram. Ardente defensor do tomismo contra os ataques de seus adversários, Gonet é sobretudo célebre por seu Clypeus theologiæ thomisticae contra novos ejus impugnatores, e seu Manuale thomistarum. Ver aqui, t. vi, col. 1487-1489.
Vincent Baron (1604-1674) do convento reformado de Toulouse, também ele célebre defensor do tomismo num tempo em que se queria assimilá-lo ao jansenismo e englobá-lo na mesma reprovação. Presente no capítulo geral de 1655, ali ouviu Alexandre VII exortar os teólogos a lutar contra os novos princípios de moral relaxada, introduzidos por certos autores: foi sem dúvida o que levou o P. Baron a trabalhar, sobretudo de 1660 a 1675, nas obras que compôs sobre essa matéria e cuja lista completa se encontrará aqui, t. ii, col. 425.
Vincent Contenson ou Contensous (1641-1674), ganho para a ordem pelas pregações do P. Baron, e do mesmo convento de Toulouse; autor da Theologia mentis et cordis, exposição simples e clara da mais pura doutrina tomista (speculationes) acompanhada de considerações (reflexiones) úteis à vida espiritual como à predicação. Aqui, t. iii, col. 1631-1633.
Antonin Réginald (cerca de 1605-1676), «o flagelo dos adversários de são Tomás», que fez profissão, no convento reformado de Avignon, nas mãos do P. Guillaume Courtet, outro filho do P. Michaëlis, mais tarde missionário no Japão e mártir em 1637. Réginald distinguiu-se primeiro na Universidade de Toulouse e participou das polêmicas que se levantaram entre a Universidade e o jesuíta francês Annat, sobre as questões que tinham sido objeto, meio século antes, da Congregação De auxiliis. Nessa ocasião, compôs várias obras de controvérsia. Mais tarde, está em Roma (1652), onde foi chamado pelo mestre geral da Ordem, para o exame das cinco famosas proposições do Augustinus, que foram condenadas em 1653, por Inocêncio X. Se não teve de intervir diretamente, ao menos traçou nitidamente a linha de demarcação entre a doutrina de Jansênio e a de são Tomás. Sua obra principal é o Doctrinæ D. Thomae Aquinatis tria principia cum suis consequentiis, síntese poderosa da doutrina tomista reduzida a seus princípios, que o autor infelizmente não teve tempo de concluir. Cf. Echard, t. ii, p. 663.
Antonin Massoulié (1632-1706), do convento de Toulouse, homem eminente em doutrina e de vasta erudição, cujo papel nas grandes controvérsias que agitavam a Igreja de seu tempo é bastante conhecido. É sucessivamente consultado pelos pontífices Inocêncio XI, Alexandre VIII, Inocêncio XII, Clemente XI, sobre as questões do quietismo molinosiano, do semiquietismo francês, e a respeito da célebre discussão sobre os Ritos chineses. Ver acima, col. 278.
Antoine Goudin (1639-1695), «um dos professores de filosofia e de teologia mais notáveis da segunda metade do século xvii», filho do convento de Limoges, erguido de suas ruínas pelos reformados. Seu tratado de filosofia, Philosophia juxta inconcussa tutissimaque divi Thomæ dogmata, tom.
IV comprehensa, que já teve numerosas reedições, mereceria, dadas suas qualidades de simplicidade e clareza, sobretudo no que concerne à «Lógica», ser retomado, e poderia voltar a ser o manual clássico dos estudantes de filosofia (alguns anos antes, outro religioso do convento reformado de Toulouse, P. Raymond Mailhat, tinha composto uma Summa philosophiæ, 1652, em 4 tomos, que não teve menos de 18 edições). De Goudin, temos também Tratados de teologia, que não apareceram em vida do autor e puderam ser revisados antes de serem entregues à publicação. Ver aqui, t. vi, col. 1508-1516.
Enfim, mencionemos, como ligados ao mesmo movimento de reforma do P. Michaëlis, teólogos como o P. Girardel (1575-1633), segundo vigário geral da Congregação ocitânica reformada, t. vi, col. 1376; o P. Chalvet (1605-1683) célebre por seu Theologus Ecclesiastes, in tomos distinctus, obra considerável, destinada aos pregadores, imenso comentário da Suma de são Tomás por meio de um tecido de passagens tomadas aos Padres, aos filósofos, até mesmo aos poetas; cf. Echard, t. ii, p. 698; o P. Penon (1623-1699), poeta et orator a natura, utraque ratione semper theologus, Echard, t. ii, p. 748; os PP. Antonin Cloche (1628-1720), que foi mestre geral de sua ordem, 1686-1720; Jean-Baptiste Maderan (†1709) com seu Clypeus doctrinæ moralis, tomus V; Joseph Mayol (†1704), Summa thomisticæ et moralis.
Nomeemos os eruditos, como os PP. François Combéfis (1605-1679) e Jacques Goar (1601-1654), ambos helenistas insignes, que nos deixaram sobretudo, um, edições dos autores gregos, traduzidos e anotados, o outro, trabalhos muito sérios sobre a liturgia e as cerimônias da Igreja grega. Toda uma escola de historiadores, que se chamam Jean de Sainte-Marie, ou de Réchac (1604-1660), Souèges (1633-1698), Quétif (1618-1698) e Echard (1644-1721), os autores com razão famosos dos Scriptores ordinis prædicatorum, provém da mesma estirpe.
Se se pensa agora que a reforma foi, nos séculos xvii e xviii, um viveiro de pregadores e missionários, e que, estendendo-se às monjas, teve ali um sucesso ainda mais considerável, não se poderá senão subscrever esta afirmação de Souèges, «que é verdade que de toda maneira, o P. Michaëlis levantou, não só a observância decaída de sua religião, mas que, por consequência necessária, a tornou muito brilhante, tanto pela santidade quanto pela doutrina.»
III. Escritos do R. P. Michaëlis. 1. Démonstrations évangéliques sur la vraie généalogie de sainte Anne et de ses trois filles, où est prouvé que les trois Maries sont vraies sœurs de Notre-Dame, Lyon, 1592. Sendo teologal em Arles, o P. Michaëlis tinha dedicado suas pregações do advento de 1589 a provar sua opinião sobre essa curiosa questão, que já não se discute hoje. Mais tarde (1602), conversou longamente sobre isso, em Roma, com o sábio cardeal Baronius, que aliás não parece ter conseguido levar a pensar como ele.
2. Première réplique contre les hérésies de Jean Gigord, ministre de Montpellier. 3. Seconde réponse contre le même. 4. Troisième response du P. Michaëlis, au ministre de Montpellier, ou Très docte et très ample confutation des apertes hérésies de Maître Jean Gigord, ministre de Montpellier, contre la vérité de l'eucharistie. Essas 3 obras foram escritas no curso das lutas ardentes travadas pelo reformador contra os calvinistas de Montpellier, durante os anos de 1595-1598. Uma nova edição aparece em Toulouse em 1603.
5. Accord et union de deux fameux prédicateurs catholiques contre la vanité des trophées et fausses suppositions des adversaires de notre foi, où sont mêlez plusieurs beaux points de notre foi et cas de conscience, Aix, 1610. 6. Oraison funèbre faite aux funérailles de très puissant et invincible roi de France et de Navarre, Henri IV, prononcée dans l'église du couvent roïal de la S. Madeleine en la ville de S. Maximin en Provence, le 10 aoust 1610, Aix, 1610.
7. Histoire admirable de la possession et conversion d'une pénitente, séduite par un magicien (Louis Gaufridi) la faisant sorcière et princesse des sorciers au pays de Provence, conduite à la Sainte-Baume pour y être exorcizée l'an 1610, au mois de novembre, Lyon, 1614. Esse caso causou grande rebuliço em seu tempo, e, tendo os protestantes abusado dos rumores espalhados a esse respeito, o P. Michaëlis viu-se na necessidade de fazer imprimir as atas do inquérito. Acompanhou-as de um Prefácio, da Resposta às principais objeções, acrescentou sua Pneumatologie, ou Discours des esprits, e dedicou o livro à rainha-mãe, Maria de Médicis. A obra teve, desde seu aparecimento, um imenso sucesso, e dela se fizeram cinco edições em menos de três anos.
8. Homélies et consolations spirituelles sur les dimanches et festes, depuis Pasques jusques à la Sainte Trinité; avec les sermons tant du jour que de l'Octave de la feste du Saint-Sacrement, Paris, 1617.
9. Conservavam-se ainda, na época de Echard, no convento de Saint-Honoré em Paris, dois discursos, pronunciados pelo P. Michaëlis, o primeiro para a inauguração de seu curso de Sagrada Escritura, em Toulouse, a 12 de setembro de 1570; o segundo para a inauguração de seu curso
Autor original: R. de Parseval
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