MÉLANCHTHON (FILIPE)

MÉLANCHTHON (FILIPE)

MÉLANCHTHON Filipe (1497-1560), amigo e associado de Lutero na obra da Reforma. Como para Lutero, mas de maneira muito mais sucinta, ver-se-á primeiro, I. a vida de Mélanchthon, depois, II. — sua filosofia e sua teologia (col. 505).

I. Vida. Filipe Mélanchthon nasceu em Bretten, pequena cidade do Baixo Palatinado, agora no ducado de Baden, a 16 de fevereiro de 1497. O nome da família era Schwarzerd, Terra negra. Por volta de 1597, João Reuchlin, o célebre humanista, que era seu tio-avô materno, helenizou seu nome : Μέλαινα χθών : Terra negra. A partir de 1531, empregou a forma suavizada Mélanthon. Corpus Reformatorum, t. i, p. cxxxi. Os pais de Mélanchthon eram abastados; fizeram-lhe dar uma forte instrução. Reuchlin também se empenhou nisso. A 16 de outubro de 1507, a criança perdeu o pai. Nos dois anos seguintes (1507-1509), frequentou a escola de Pforzheim, muito renomada na época; desde 1509, a 14 de outubro, foi matriculado na universidade de Heidelberg e, conforme o uso, na faculdade de artes. Aí, e logo em Tubinga, iniciou-se em todos os conhecimentos da época; adquiriu uma ciência particularmente profunda da língua grega. Em 1511, fez seu bacharelado. Em 1512, quis fazer o doutorado; por causa de sua idade opuseram-se a isso. Partiu para Tubinga, onde, a 17 de setembro, fez-se matricular. A 25 de janeiro de 1514, fazia seu doutorado; entre onze candidatos, foi recebido em primeiro lugar. A partir de então começou a ensinar.

A famosa querela em torno de Reuchlin ainda não se extinguira; Mélanchthon tomou partido nela por seu tio-avô, ao que seus próprios gostos também o inclinavam. Em 1518, por recomendação de Reuchlin, foi chamado a Wittenberg, para ali ensinar o grego. Chegou lá a 25 de agosto. Segundo Spalatin, teve logo até 500 ouvintes, e mais tarde até 1500. Rapidamente ligou-se a Lutero. Sob a influência dele, dedicou-se ao estudo da Bíblia, e notadamente de são Paulo. Em 1519, assistiu à disputa de Leipzig entre João Eck e Lutero; nos meses seguintes, escreveu contra João Eck a Defensio contra Iohannem Ekium, C. R., t. i, col. 108 sq. Sob o impulso de Lutero, entregava-se desde então cada vez mais à teologia. Apreciou pouco a teologia do século XV, com suas sutilezas e arguciosidades; seus gostos o levaram antes ao estudo da Bíblia e dos Padres. A 19 de setembro de 1519, havia adquirido o grau de bacharel em teologia: desde então pertenceu à faculdade de teologia. Mas nunca quis conquistar o grau de doutor nessa matéria. C. R., t. iv, col. 811.

A 25 de novembro de 1520, por conselho de Lutero, casou-se com Catarina Krapp, filha do prefeito de Wittenberg. Assim Lutero o prendia para sempre a essa cidade. Catarina devia morrer em 1557; o casal teve quatro filhos. No mês de dezembro de 1521, Mélanchthon fez aparecer seu famoso manual de teologia, os Loci communes rerum theologicarum, seu Hypotyposes theologicae. Esse manual teve um sucesso muito grande. Quanto ao conteúdo, ver adiante, col. 508 sq. Em 1525, os camponeses do Palatinado tomaram Mélanchthon como árbitro entre seu príncipe-eleitor e eles. Ao mesmo tempo que aconselhava ao príncipe a brandura e a clemência, foi muito duro para com os camponeses: "O pedido deles de serem libertados da servidão não tem nenhuma razão válida. Ao contrário, brutais e indisciplinados como são, os alemães já têm liberdade demais. Com sua violência e sua sede de sangue, seria preciso conduzi-los ainda muito mais duramente." Wider die Artikel der Bauerschaft, C. R., t. xx, col. 655, 657.

Em 1528, Mélanchthon publicou Instruction pour la visite des Églises. Em 1529, compareceu à dieta de Spira, e uniu-se aos que protestaram contra o recesso dessa dieta. Em 1530, realizou-se a famosa dieta de Augsburgo. Ainda sob o golpe da condenação lançada contra ele na dieta de Worms (1521), Lutero não pôde comparecer; manteve-se o mais perto que pôde, na fortaleza de Coburgo, que pertencia ao eleitor da Saxônia. Foi, pois, Mélanchthon quem redigiu a famosa Confissão de Augsburgo; a 25 de junho, leu-a diante dos Estados. A teoria da justificação pela fé era a sua alma; por isso, quanto ao fundo dessa Confissão, Lutero deu seu assentimento. Mas "sobre o purgatório, sobre o culto dos santos, e sobretudo sobre o Anticristo de papa", achava-a pouco categórica. Enders, Luthers Briefwechsel, t. ix, p. 133; 21 de julho de 1530. No curso das negociações, Mélanchthon cedeu ainda mais, e muito particularmente numa carta ao legado Campeggio (6 de julho de 1530). C. R., t. ii, col. 168 sq. Essa carta é cheia de fórmulas de submissão; quanto aos desacordos doutrinais, só existiam na aparência: Dogma nullum habemus diversum ab Romana Ecclesia (!) col. 170. Nas semanas seguintes, levou seu partido a insistir apenas em dois pontos: a comunhão sob as duas espécies e o casamento dos sacerdotes.

Depois recompôs-se e escreveu a Apologia da Confissão de Augsburgo (1530-1531); nela é mais categórico do que na própria Confissão. É verdade que, quando a retocou e lhe deu a última mão, já eram vários meses após a dieta. Todos os que haviam vivido as negociações de Augsburgo levavam de Mélanchthon a mesma impressão: suas hesitações doutrinais eram pouco dignas do autor de uma profissão de fé, e suas habilidades eram inconciliáveis com a lealdade. Na Confissão e na Apologia da Confissão, quando fala da justificação pela fé, recomenda-se altamente a santo Agostinho. Era uma mentira formal; desde essa época, sabia muito bem que santo Agostinho não era favorável a essa teoria (acima, artigo Lutero, t. ix, col. 1256). Depois da dieta de Augsburgo, pôde dedicar-se com vagar às suas funções de professor. Em 1532, publicou seu Comentário sobre a Epístola aos Romanos; nele distinguia nitidamente a justificação, sentença exterior de Deus sobre nós, e a santificação ou mudança interior.

Nessa época, recebeu ofertas reiteradas para ir à Polônia, à França e à Inglaterra. Teria sem dúvida aceito dirigir-se a um ou outro desses dois últimos países; mas seu eleitor se opôs. Em 1529, em Marburgo, depois em 1534 em Cassel, encontrou-se com os sacramentários Zuínglio e Bucer; acabou por pender cada vez mais para o lado dos sacramentários (adiante, Relações com Lutero).

Nos anos seguintes, afora suas relações com Lutero (adiante), há poucos pontos salientes a notar em sua vida. Pensou na reunião de um concílio com os católicos, projeto ao qual foi ora favorável, ora contrário, e na realização de sínodos entre protestantes, aos quais era mais favorável que Lutero. Depois da morte de Lutero (noite de 17 para 18 de fevereiro de 1546), Mélanchthon ficou como o chefe do luteranismo, mas chefe frequentemente contestado e assediado. Vários de seus correligionários não cessaram de insurgir-se contra o que qualificavam de apostasias ou de concessões aos católicos: na teoria da justificação; concessões sobre pontos de culto, etc. Cada vez mais, Mélanchthon havia se inclinado à utilidade religiosa das obras. No Interim de Augsburgo (1548), revisto por ele em Leipzig, declaravam-nas necessárias à salvação. Daí os protestos de Nicolau de Amsdorf, de Matias Flácio Ilírico, de Nicolau Gallus, Schnepf, Stolz, Aurifaber e outros.

No Interim, Mélanchthon havia concedido também muitos pontos do culto católico: o uso dos paramentos, dos vasos sagrados, dos círios, o latim, o breviário e os jejuns, os sacramentos da confirmação e da extrema-unção, o da penitência, embora não no sentido católico, a missa, mas sem a crença na transubstanciação, o culto dos santos e das imagens. Considerava esses pontos como indiferentes: adiaphora. "A verdadeira doutrina evangélica", dizia a si mesmo, bastaria para informar o povo sobre o que esses ritos tinham de desagradável. Flácio, Gallus e outros protestaram vivamente contra essa pretensa indiferença. Em 1552, Mélanchthon abandonava o Interim. Todavia, a luta só terminou verdadeiramente com a Fórmula de concórdia de 1577: Solida declaratio, art. 10: cada Igreja recebia o direito de servir-se desses ritos e objetos segundo a sua conveniência. Ao mesmo tempo prosseguia a luta sacramentária. Finalmente, ainda aí, Mélanchthon tentou guardar uma posição intermediária entre Calvino e os luteranos, e naturalmente não conseguiu contentar ninguém. Sob formas diversas, essa luta, como as precedentes, continuou-se até a sua morte.

Aos discípulos de Mélanchthon deu-se o nome de Filipistas. Esse nome lhes veio de Flácio e de outros adversários, e comportava na origem um sentido satírico. Tornou-se de certo modo sinônimo de criptocalvinista. Em 1551, pensou em ir ao concílio de Trento. Com essa finalidade, escreveu a Confissão saxônica, espécie de reprodução suavizada da Confissão de Augsburgo. Foi até Nuremberg; mas no mês de março de 1552 estava de volta a Wittenberg. Cada vez mais, as enfermidades haviam se tornado crucificantes. A morte de sua mulher (1557) e de vários amigos aumentara suas tristezas. Frequentemente, em seus últimos anos, suspirava pela união em sua Igreja; repetia a palavra do Salvador em são João: "Que sejam um como nós somos um." Era querer a quadratura do círculo. Enfim, a 19 de abril de 1560, rendeu o último suspiro. Foi sepultado ao lado de Lutero, na capela do castelo de Wittenberg.

Três grandes pintores nos deixaram o retrato de Mélanchthon: João Holbein, num pequeno medalhão agora no museu de Hanôver; Alberto Dürer, numa gravura em madeira, de 1526; e Lucas Cranach, ou antes os artistas de seu ateliê, em várias réplicas. Sua fisionomia faz pensar um tanto na de Bento Labre. Foi apenas à força de energia, de regularidade e de sobriedade que pôde manter-se em sua vida de trabalho. Era desinteressado e fiel a seus amigos. Em seus escritos e propósitos, há menos abandono do que em Lutero. Aliás, outros lados de seu caráter são muito menos a seu elogio. Antes de tudo, nesse autor de uma famosa Profissão de fé, lamenta-se a instabilidade da crença em pontos importantes da doutrina cristã, e mais ainda a falta de sinceridade. Em Augsburgo, perguntava-se se queria enganar os católicos ou abandonar os protestantes. Cada vez mais, pendeu para os sacramentários, mas escondeu-o com dissimulação. Contudo, suportava muito mal a contradição, e esteve longe de ser sempre de uma doçura perfeita: em 1540, por exemplo, perseguiu com seu ódio e suas injúrias o pobre e brando visionário Gaspar Schwenkfeld. Em resumo, Mélanchthon foi um grande humanista, neurastênico, lançado desafortunadamente sob a influência de Lutero e nas lutas da Reforma.

II. Filosofia e teologia. Mélanchthon abraçou todo o saber de seu tempo. Esse saber, parece possuí-lo sem esforço; comunica-o de maneira fácil e natural. Mas esse saber não tem nem grandes voos, nem vastos horizontes: Mélanchthon não faz pensar além do que sabe, é um bom divulgador. Cum viderem magnas res et necessarias divinitus patefacias esse in nostris Ecclesiis per viros pios et doctos, duxi materias illas in variis scriptis sparsas colligendas esse et quodam ordine explicandas, ut facilius percipi a juvenibus possent. Hanc operam et hoc velut pensum debere me in hoc scholastico munere, quod gero, Ecclesiae judicabam. C. R., t. xxi, col. 341 (1535). Divulgador, Mélanchthon partilhou as ilusões de seu tempo. Acreditou fortemente na astrologia. Em 1558, repugnava-lhe muito acompanhar seu eleitor à Dinamarca: nas estrelas, lera que naufragaria. Finalmente a viagem não se realizou. Como Lutero, acreditava firmemente no fim muito próximo do mundo.

Mélanchthon foi "o Preceptor da Alemanha, Praeceptor Germaniae". Preceptor pelas numerosas universidades que reformou ou fundou: Wittenberg, Rostock, Tubinga, Leipzig, Heidelberg, Frankfurt do Oder, Marburgo, Königsberg, Iena. Preceptor por seus manuais e seus métodos, pelas ideias que divulgou; nas humanidades, na filosofia e na teologia, sua influência domina todo o período da ortodoxia. Em filosofia: no mundo luterano alemão, seus manuais de filosofia prevaleceram até Leibniz e Wolf. Em teologia: codificou e sossegou a doutrina de Lutero; essa codificação durou até o pietismo e além (1550 a 1700). Nesse múltiplo ensino, não é à especulação que visa, é à prática; é essa a característica, característica bastante apagada, que lhe reconhecem todos os seus biógrafos.

Contrariamente a Lutero, Mélanchthon escreve melhor em latim, e mesmo em grego, do que em alemão. Uma dificuldade de fala, uma saúde frágil vedavam-lhe os grandes arroubos de uma eloquência de tribuno. Neste dicionário de teologia, deter-nos-emos nos cinco pontos seguintes: 1. A filosofia de Mélanchthon; 2. Suas ideias sobre a justificação; 3. Suas ideias sobre a Igreja e o poder temporal; 4. Suas relações com Lutero; 5. Suas relações com os católicos.

1° Filosofia. A iniciação de Mélanchthon na filosofia fez-se segundo as duas correntes da filosofia escolástica; em Heidelberg, segundo a via antiqua, isto é, o realismo tomista; em Tubinga, segundo a via moderna, isto é, o nominalismo. Por um momento, em Wittenberg, segue Lutero, e zomba de Aristóteles e da filosofia em geral (1518-1522). Didymi Faventini oratio, fevereiro de 1521, C. R., t. i, col. 301 sq. Adversus theologorum Parisinorum decretum pro Luthero apologia, junho de 1521, C. R., t. i, col. 400 sq. Mas logo se corrige; a 20 de dezembro de 1524, escrevia a Spalatin: Sed heus homo : tu theologus philosophari coepisti! nescis hoc tempore quantum cum philosophia theologis bellum sit? Ego summo labore curaque eam tueor; non aliter atque aras nostras ac focos solemus. C. R., t. i, col. 695. Por volta de 1530, começou a escrever seus manuais de filosofia; em 1528, os Dialectices libri IV, que tiveram rapidamente oito edições, etc. Nessas obras, é aristotélico. De Aristóteles guardou o gosto da observação, da constatação dos fatos; de bom grado estuda a natureza física. De resto, de maneira geral, apreciava as vistas moderadas e a lógica de Aristóteles. C. R., t. xi, col. 282 (1536); col. 423 (1538). De Aristóteles, no entanto, elimina toda a metafísica; viu Aristóteles através de Cícero e de seus tratados práticos de religião e de moral, o De Fato, o De natura Deorum, o De officiis.

Como a doutrina católica, Mélanchthon é pela unidade do saber humano. Hoje há uma tendência a disjungir e mesmo a opor três ordens de verdade: a verdade filosófica, fundada sobre o que se chama a razão, a verdade religiosa, antes verdade teológica, e que se funda na tradição; enfim, a verdade mística, fundada na experiência íntima. Essa disjunção remonta aos nominalistas; no fim do século XIII, Duns Escoto lhe põe as premissas e, na primeira metade do XIV, Guilherme de Occam fê-la ensinar explicitamente. Lutero, seu discípulo, acentuou-a ainda mais; de maneira fogosa, opôs a razão à fé. Dessa teoria, os protestantes modernos tiraram consequências extremas; excederam-se particularmente em dissociar a doutrina contida na Bíblia e os dados da experiência religiosa pessoal. Aristotélico, Mélanchthon não cai nessa dissociação. Na busca da verdade, todas as ciências deviam unir-se, e finalmente contribuir para formar "o homem honesto e o cristão."

2° A justificação. Inclinado a Aristóteles, Mélanchthon era mais do que Lutero levado a interessar-se pela inteligência. É o que se manifesta em seu conceito de fé. Aí também, sem dúvida, caminha no encalço de Lutero; como ele, concebe a fé como uma confiança fiducia misericordiæ divinæ. — Loci communes, ed. 1521, c. De justificatione : Ne quis suspicetur tantum notitiam fidei esse; sed amplius est velle et accipere oblatam promissionem remissionis peccatorum et justificationis. Apologia Confessionis Augustanae, R. 69. Todavia, é antes de tudo o elemento intelectual que Mélanchthon vê na fé: Fides est assentiri universo verbo Dei, nobis tradito, atque et promissioni gratis; est fiducia acquiescere in Deo propter mediatorem. C. R., t. xxiii, col. 455, Explicatio Symboli Niceni, edit. de 1561. Nesse ponto, como em muitos outros, fixou a teologia da ortodoxia luterana (1550-1700).

Humanista, Mélanchthon devia ser levado a crer na bondade nativa do homem. De fato, preza muito a moral de Aristóteles, a dos estoicos e mais ainda a de Cícero. Entre essas morais antigas e a moral cristã não devia perceber diferença apreciável. A grande superioridade da moral cristã, o preceito de tender a Deus pelo amor, não tinha sem dúvida fixado a sua atenção; para ele, a vantagem do cristianismo era a remissão dos pecados. Apologia, R. 62. Por isso, entre o homem decaído e o cristão, não será levado, como Lutero, a ver um abismo. Epitome philosophiæ moralis, 1ª edit., 1538, C. R., t. xvi, col. 21 sq. 2ª edit., 1550, sob o título Ethicæ doctrinæ elementa, C. R., t. xvi, col. 165 sq.

No encalço de Lutero, ensinou primeiro uma sombria predestinação e a negação absoluta da liberdade humana; é a doutrina da primeira edição dos Lugares comuns de teologia: Quando quidem omnia, quæ eveniunt, necessario juxta divinam prædestinationem eveniunt, nulla est voluntatis nostræ libertas. Cap. De hominis viribus adeoque de libero arbitrio. Pouco a pouco, abrandou essa teoria selvagem. Em 1527, em sua Instruction pour la visite des Églises, Deus já não é o autor do pecado, e o homem recebe certa liberdade no que toca à "justiça civil". C. R., t. xxvi, col. 27; ed. de 1528, em alemão, a edição definitiva, C. R., t. xxvi, col. 78. Na segunda edição dos Lugares comuns, em 1535, a liberdade humana é ainda mais afirmada. Sem dúvida, dois anos depois, assina os Artigos de Esmalcalda como "piedosos e cristãos"; ora, nesses artigos, Lutero negava a liberdade. Mas, em seus escritos pessoais, recompunha-se; em 1548, numa nova edição de seus Lugares comuns, chegava a aceitar para a liberdade uma definição talvez semipelagiana: De humanis viribus seu de libero arbitrio; facultas applicandi se ad gratiam. C. iv; acima, artigo Lutero, col. 1290. Nesse ponto capital, será a última expressão de seu pensamento.

Livre, o homem devia ter parte em sua justificação. De fato, na segunda edição dos Lugares comuns (1535), Mélanchthon enuncia três causas da justificação: Verbum, Spiritus sanctus et voluntas, non repugnans sed infirmitati suae, cap. De humanis viribus...

Desde então, ele jamais separará as boas obras da nossa justificação; em 1530, por exemplo, num Comentário ao evangelho segundo são João, diz que elas são uma condição necessária dessa justificação. Daí o nome de Sinergismo que se dará à sua teoria da justificação. Esse ponto de chegada está nos antípodas do de Lutero. Em seus Loci communes de 1535, em seu discurso De Philosophia, de 1536, em seu Epitome philosophiæ moralis, de 1537, ele estuda as relações da filosofia e da teologia. A filosofia é a intérprete da Lei, a teologia, a intérprete do Evangelho. Lutero comprazia-se em opor a Lei e o Evangelho; para Melanchthon, ao contrário, a Lei prepara o caminho para o Evangelho. C. R., t. xxiii, col. 8 sq. (1552). A lei, lumen naturæ, conduz-nos até o conhecimento de Deus. Quanto à religião e à moral, o pecado perturbou e enfraqueceu as forças naturais. Eis por que a revelação teve de promulgar de novo a Lei, notadamente pelo Decálogo. A revelação não é apenas uma nova promulgação da Lei; é o seu complemento e coroamento. C. R., t. xiii, col. 651 (1547), etc. Por isso a filosofia é inferior à teologia e deve estar-lhe submetida. Como se vê, é aproximadamente a doutrina tradicional católica.

Ao contrário de Lutero, Melanchthon condensou suas ideias teológicas num manual didático. C. R., t. xxi; Plitt-Kolde, Loci communes, 3ª edit., 1900. Esse manual teve três edições principais: 1521, 1535 e 1542. Em 1521, ele o intitulou Loci communes rerum theologicarum, seu hypotyposes theologicæ. Em 1535, chamou-o simplesmente Loci communes theologici; é o título que a obra conservou até o fim. Quanto à ordenação das matérias, Melanchthon segue aproximadamente as Sentenças de Pedro Lombardo. Mas as diversas edições sofreram remanejamentos importantes; como acabamos de ver, elas nos dão notadamente um resumo da evolução das ideias do autor sobre o livre-arbítrio e a utilidade das obras. Em 1521, nesses dois pontos, como aliás em todos os outros, ele ensina integralmente a doutrina de Lutero. Invictus libellus, escreverá Lutero em 1525, non solum immortalitate, sed et canone ecclesiastico dignus. De servo arbitrio, ed. de Weimar, t. xviii, 1908, p. 601. Em 1535, ele suaviza sua negação da liberdade e começa a ensinar o que mais tarde se chamará Sinergismo. Em 1548, numa adição à edição de 1542, chega a declarar aceitável uma definição inspirada em Erasmo e que tende ao semipelagianismo (col. 507).

3° A Igreja, diante da Bíblia, das inspirações privadas e do poder temporal. Na origem, Melanchthon também foi pela Igreja invisível. É ainda esse conceito que ele dá em 1535, na segunda edição dos Loci communes: Ecclesia proprie et principaliter significat congregationem justorum, qui vere credunt Christo et sanctificantur spiritu Christi, cap. De Ecclesia. Nunca rejeitou completamente essa doutrina. Mas pouco a pouco, e muito mais ainda do que Lutero, inclinou-se para uma Igreja visível: Ecclesia visibilis est coetus amplectentium Evangelium Christi et recte utentium sacramentis, in quo Deus per ministerium Evangelii est efficax et multos ad vitam aeternam regenerat. C. R., t. xxi, col. 826 (1545). Sente-se, aliás, imediatamente a fraqueza dessa definição: o que é o verdadeiro « Evangelho »? e qual é « o bom uso dos sacramentos »? Esse Evangelho e esse uso variarão com cada protestante; é o mesmo que dizer que cada protestante constituirá a sua Igreja. Na Igreja de Melanchthon, como na de Lutero, todos os verdadeiros cristãos são sacerdotes. C. R., t. xiii, col. 1158 (1553-1555). Nessa comunidade, é verdade, é preciso uma organização; conservar-se-ão, pois, as formas da administração católica, até mesmo o episcopado. C. R., t. iv, col. 627 (9 nov. 1541); t. ix, col. 937 (1º out. 1559). Mas essa hierarquia não vem da instituição de Jesus Cristo; provém unicamente das necessidades da comunidade, e é da comunidade que ela recebe seus poderes religiosos.

Com efeito, Melanchthon, como Lutero, manteve-se sempre na rejeição de uma autoridade doutrinal na Igreja. Para nos transmitir e nos explicar a revelação, Deus e Jesus Cristo tomaram três canais: a Bíblia, a Tradição com a Igreja, as iluminações privadas. Com Lutero, Melanchthon aceita a Bíblia e as iluminações privadas, rejeita a Tradição e a Igreja. É o que ele já dizia em suas teses para o bacharelado em teologia: Quod non sit necesse alios credere articulos, præter quos Scriptura probat. Deinde conciliorum auctoritatem Scripturæ auctoritate vinci. C. R., t. i, col. 138; Plitt-Kolde, Loci, 3ª edit., 1900, p. 251 (19 set. 1519). É o que não cessou de dizer depois, por exemplo, nos Loci communes, 2ª e 3ª edit., cap. De Ecclesia, De Libertate christiana, etc., e no De Ecclesia et auctoritate verbi Dei, C. R., t. xxiii, col. 595 sq. (1539). Em consequência, Melanchthon atribuía singular importância ao conhecimento da Bíblia. Ajudou Lutero em sua tradução e alegrava-se grandemente com esse trabalho. C. R., t. xi, col. 710, 729 (1540). Compreende-se também que tenha sido o pai da teologia histórica e da história dos dogmas; gostava de considerar os dogmas menos em seu lado revelado do que nas diferentes maneiras pelas quais a inteligência humana os havia apreendido.

Como a Igreja de Lutero, a de Melanchthon está sob a dependência do Estado; o príncipe é custos non solum secundæ tabulæ sed etiam primæ. C. R., t. xxi, col. 553 (1535); do mesmo modo, t. xvi, col. 91 (1538). Princeps est custos utriusque tabulæ: essa fórmula célebre permanecerá no luteranismo; o príncipe pode e deve ocupar-se não somente dos sete últimos mandamentos, que dizem respeito às nossas relações com os semelhantes, mas também dos três primeiros, que dizem respeito às nossas relações com Deus. Em 1539 aparecerão os consistórios; ao lado de eclesiásticos, contarão com leigos. Os melhores dos leigos terão até de decidir sobre a doutrina. C. R., t. iv, col. 548, De abusibus Ecclesiarum emendandis (1511). Desde então, que pode significar o artigo 28 da Confissão de Augsburgo: Non commiscendæ sunt potestates ecclesiastica et civilis, R. 38, Müller-Kolde, Die symbolischen Bücher, 11ª edit., 1912, p. 63. Na prática, será uma bela fórmula livresca.

— 4° Melanchthon e Lutero. Já nas páginas precedentes foi muitas vezes questão de Lutero; é impossível escrever uma página sobre Melanchthon sem que a lembrança de Lutero apareça. Contudo, é útil apresentar um resumo de suas relações. Em Melanchthon, essas relações foram do entusiasmo a uma sombria resignação. A 17 de abril de 1520, ele escrevia: « Preferiria morrer a separar-me de tal homem. » C. R., t. i, col. 160. E perto do fim do mesmo ano: « Martinho é mais admirável do que eu saberia dizer. » C. R., t. i, col. 264. Por seu lado, Lutero tinha Melanchthon por um homem admirável, « ou antes, um ser mal retido nos laços da humanidade ». E. L. Enders, Luther's Briefwechsel, t. i, p. 322 (14 dez. 1518). Nos primeiros anos de sua estada em Wittenberg, Melanchthon manteve-se, pois, estreitamente ao lado de Lutero e em sua dependência. Assim, eram dois jovens que dirigiam a Reforma alemã; em 1520, Lutero tinha trinta e sete anos e Melanchthon, vinte e três.

Mas pouco a pouco as divergências apareceram. Primeiro, uma diferença de natureza. Durante a estada de Lutero em Wartburg (maio de 1521-março de 1522), Melanchthon começou a mostrar sua tendência à indecisão e à ansiedade. Depois, por volta de 1523-1524, divergências de pensamento e de inclinação. Em 1525, Melanchthon lamenta vivamente o casamento de Lutero. « É um homem muito leviano, escreve ele então a Camerário, cercado das religiosas que fez sair de seu convento; elas o tomaram em suas redes e o fizeram cair nelas. » (10 de junho de 1525). Em Denifle-Paquier, Luther et le Luthéranisme, t. ii, 1914, p. 119. No mesmo ano, na luta entre Erasmo e Lutero sobre o livre-arbítrio, Melanchthon permaneceu antes espectador; já era menos inclinado ao servo arbítrio, cuja prova Lutero encontrara sobretudo em seus violentos impulsos íntimos. Cada vez mais, como se viu, Melanchthon se inclinou para o Sinergismo, isto é, para a colaboração do homem com Deus na obra da salvação (col. 507).

Ao lado do livre-arbítrio e da utilidade das obras para a salvação, um outro ponto devia separar talvez ainda mais Lutero e Melanchthon: a questão da presença real de Jesus Cristo no Sacramento, em outras palavras, na eucaristia. Com restrições, Lutero era pela presença real; Zuínglio a negava, e sua opinião lembrava a Lutero o nome abominado de Carlstadt, que sustentara a mesma negação. Em 1529, luteranos e sacramentários, Lutero, Melanchthon, Zuínglio, Ecolampádio, Bucer encontraram-se em Marburgo (1-4 de outubro). Nesse primeiro colóquio, Melanchthon ficou completamente do lado de Lutero. Mas, pouco depois da dieta de Augsburgo, razões políticas e doutrinais o fizeram mudar de parecer e colocar-se antes do lado dos sacramentários. É nesse sentido que ele se inclinou em Cassel, em 1534, em seu colóquio com Bucer; em 1536, nas discussões que precederam a Concórdia de Wittenberg. C. R., t. iii, col. 75 sq. Em 1537, numerosas cartas a Camerário, a Veit Dietrich e outros estão cheias de queixas e de tristes pressentimentos. Nesse momento, o desacordo versava ao mesmo tempo sobre as obras e sobre a Ceia. Em 1544, a propósito da Ceia e de seu conteúdo, Lutero chegou a exprimir em voz alta seu descontentamento, e Melanchthon a perguntar-se se não seria obrigado a deixar Wittenberg: Hic quamdiu esse possum ignoro. C. R., t. v, col. 478 (8 set. 1544).

No mesmo sentido, enfim, temos a terrível carta a Carlowitz, de 28 de abril de 1548. Wittenberg e sua universidade haviam caído sob o domínio de Maurício da Saxônia, então aliado do imperador. Nessa situação tão nova, como poderia Melanchthon continuar a ensinar? Oh! responde melancolicamente o professor, saberei guardar silêncio; isso não me será difícil: Tuli etiam antea servitutem pæne decennium... ; deformem, cum sæpe Lutherus magis suæ naturæ, in qua φιλονεικία erat non exigua, quam vel personæ suæ vel utilitati communi serviret. C. R., t. v, col. 880. Fazia mais de dois anos que Lutero morrera; que lembrança no coração de Melanchthon! E recorde-se que temos diante de nós um letrado discreto, para quem uma palavra cortante é um golpe de Estado.

Na aparência, contudo, o acordo subsistira, afirmando-se em circunstâncias importantes e nos escritos públicos. Em 1539, Melanchthon uniu-se a Lutero para permitir a Filipe, landgrave de Hesse, ter ao mesmo tempo duas mulheres legítimas; em Rotemburgo, a 4 de março de 1540, assistiu mesmo à cerimônia do segundo casamento. Alguns meses depois, o caso transpirou. Então, mas fato digno de nota, somente então Melanchthon caiu doente; também para ele, como para Lutero (Luther, t. ix, col. 1178), a própria autorização havia deixado, pois, a consciência bem tranquila. Em 1545, Lutero escrevia um prefácio para a coleção de suas obras latinas; nele celebra ainda os Lugares comuns de Melanchthon, quaisquer que fossem as mudanças que haviam sofrido. Opera latina, varii argumenti, 1865, t. i, p. 15. Por seu lado, a 19 de fevereiro, no dia seguinte à morte de Lutero, Melanchthon dizia a seus alunos: Obiit auriga et currus Israël, qui rexit Ecclesiam in hac ultima senecta mundi. C. R., t. vi, col. 59. Alguns dias depois (22 de fevereiro), pronunciava sua oração fúnebre. C. R., t. xi, col. 726-734. Esse discurso, é verdade, não tem grande calor; mas enfim, por mais amargas que fossem as confidências privadas, de parte a parte os elogios públicos haviam persistido. Além disso, alguns meses após a morte de Lutero, à frente do t. ii de suas obras latinas, Melanchthon publicava a biografia do Reformador.

Aliás, o desacordo teria sido total e profundo? Talvez tivesse atacado os nervos e a sensibilidade mais do que a inteligência e o coração. Se Melanchthon permanecera em Wittenberg, ao lado de Lutero, seria unicamente por causa dos laços de família, de certo hábito e do temor do desconhecido? Ao contrário, acrescentam os panegiristas: « Melanchthon estava fascinado por Lutero. Sob dissentimentos de superfície permanecia um apego profundo ao grande Reformador. » É possível; nessa impossibilidade de escapar, havia talvez não sei que ascendência exercida pelo tribuno sobre o intelectual sem chama, não sei que fascínio físico impondo-se à fadiga do neurastênico.

E sem dúvida também Lutero conservou sempre um resto de apego ao amigo dos dias de luta; jamais em público se lançou contra Melanchthon em ataques violentos como os que dirigiu contra Carlstadt, Münzer, Erasmo e tantos outros. Para Lutero, Melanchthon fora o amigo dos primeiros dias; mais tarde, nunca rompera com ele; são suas cartas que contêm suas queixas, e no conjunto sua correspondência permaneceu ignorada dos contemporâneos. Não é, portanto, de espantar que, após a morte de Lutero, ele tenha sido considerado o sucessor do Reformador e o chefe da Reforma alemã. Compreende-se que Lutero e Melanchthon não se tenham separado; completavam-se maravilhosamente um ao outro. Os Lugares comuns e a Confissão de Augsburgo são o complemento do Apelo à Nobreza alemã e da rejeição da bula Exurge. Em 1521, Lutero exprimia felizmente a tarefa de Melanchthon ao lado da sua: « Nasci para lutar e manter campanha contra os bandos e os demônios; por isso meus livros respiram tempestade e guerra. Devo desarraigar as árvores com seus troncos, podar as sebes com seus espinhos e aterrar os charcos estagnados. Sou o rude lenhador que deve abrir e traçar o caminho em plena floresta. Então mestre Filipe avança discretamente e sem ruído; entrega-se ao prazer de construir e de plantar, de semear e de regar; faz assim valer os dons felizes que Deus lhe repartiu. Ed. de Weimar, xxx b, p. 08-69. Lutero é o torrente que desce das montanhas, Melanchthon, o regato que serpenteia na planície.

5° Melanchthon e a Igreja católica. Muitas vezes os católicos procuraram reconduzir Melanchthon à Igreja. Em 1524, Melanchthon estava em Bretten, em casa de sua mãe; o legado Campeggio, que se encontrava então em Stuttgart, enviou-lhe seu secretário, Frederico Nausea. Essa tentativa não teve nenhum êxito. Em 1528, João Faber, pregador do rei dos Romanos Fernando, ofereceu-lhe um posto na corte imperial, se quisesse abandonar a Reforma. Em 1530, na dieta de Augsburgo, Melanchthon fez ele próprio a Campeggio estranhas propostas, que colocam sua boa-fé em posição desagradável (acima, col. 503). De 1530 a 1537, André Ericius, humanista, amigo de Erasmo e bispo na Polônia, convidou-o várias vezes a ir ter com ele e a abandonar Lutero. Em vão João Cochlaeus, o único católico a quem Melanchthon não pôde enganar, punha Ericius de sobreaviso contra o caráter esquivo de seu correspondente. Melanchthon nunca deu resposta nitidamente negativa. A correspondência só terminou com a morte de Ericius. Nesses mesmos anos (1531-1539), Campeggio, Aleandro, Vergerio, Bracetto multiplicaram diligências do mesmo gênero. Com todos, Melanchthon tinha palavras polidas e untuosas; para enganar um dignitário eclesiástico, muitas vezes não é preciso mais. Na França, desde a sua morte, opôs-se com bastante frequência a sua moderação às violências de Lutero. Bossuet traçara o caminho em sua História das variações, l. V.

Sob essa moderação e essas negociações com os católicos, o que se ocultava? Sem dúvida, o pesar da cisão, talvez o remorso. Ao morrer, o pai de Melanchthon conjurara os seus « a nunca se separarem da Igreja ». Nove dias antes de sua morte, Melanchthon lembrava essa palavra a seu círculo. Protest. Realencyclopädie, 3ª edit., 1903, art. Mélanchthon, p. 531. Conhece-se também a linguagem que teria tido com sua mãe. Sobre esse ponto há duas versões. Uma é de Florimond de Ræmond, L'histoire de la naissance, progrès et décadence de l'hérésie de ce siècle, l. II, c. ix, Rouen, 1629, p. 186, 187. Melanchthon estava em seu leito de morte; sua mãe lhe perguntara qual era a melhor religião, a dos antepassados ou a nova. Melanchthon teria respondido Hæc plausibilior, illa securior; « a nova doutrina é a mais plausível, mas a outra é a mais segura. » Essa versão deve evidentemente ser rejeitada. A mãe de Melanchthon morreu muito tempo antes de seu filho, em 1529; e Florimond de Raemond é um historiador sem crítica. A outra versão é mais plausível; referir-se-ia a uma das duas viagens de Melanchthon a Bretten, em 1521 ou melhor em 1529. Na primavera de 1529, Melanchthon foi de Spira, onde se realizava a dieta, a Bretten, sua cidade natal, onde vivia sua mãe. Sua mãe lhe teria manifestado sua perturbação em meio a todas essas discussões, ao que Melanchthon teria respondido: a que se ater? « continuar a crer e a rezar, como fizera até então, sem se deixar perturbar por todas essas discussões e esses conflitos. » Melchior Adam, Vitae theologorum, 1620, p. 333, em Grisar, Luther, t. III, p. 228.

Mas em Melanchthon a moderação vinha de uma natureza fraca e tímida, de uma saúde esgotada que devia proibir-se os grandes arroubos; a isso se acrescentavam frequentemente preocupações de habilidade política. Quanto às suas reminiscências católicas, não iam além de emoções literárias. No fundo, reprovou sempre o lado « supersticioso » do culto católico e o lado « tirânico » de sua hierarquia. Por isso se pôde dizer com muita razão que, com seus subterfúgios e sua doçura aparente, Melanchthon era mais perigoso do que Lutero. Grisar, Luther, t. II, p. 268. Verossimilmente, a tendência de Melanchthon às posições intermediárias ocultava certa indiferença a respeito do dogma: para que tantas lutas, ainda que sobre ritos, sobre pontos de doutrina! Mais longe, mais profundamente, há a união íntima da alma com Deus; é o único ponto essencial. Avide exspecto illam lucem, in qua Deus erit omnia in omnibus, et procul aberunt sophistica et sycophantica. C. R., t. ix, col. 898 (a Buchholzer, 10 ago. 1559). É essa, ao que parece, a tendência que permite compreender melhor a razão das sinuosidades de Melanchthon; na teologia, esse humanista sempre esteve um tanto deslocado. É também essa tendência que faz apreender melhor a razão de sua oposição profunda à Igreja católica. A Igreja católica não aprecia essa atitude desembaraçada a respeito dos dogmas; por isso, apesar das aparências contrárias, Melanchthon sempre esteve tão afastado quanto Lutero de um retorno ao catolicismo. Contudo, Melanchthon queria a unidade da doutrina e, para mantê-la, pretendia estabelecer meios práticos: profissão de fé e vigilância doutrinal.

Como essas instituições se aliam à indiferença doutrinal que seria sua tendência profunda? La Rochefoucauld responderá: « A imaginação não saberia inventar tantas contrariedades diversas quantas há naturalmente no coração de cada pessoa. » Pela exigência profunda do sentimento religioso, por sua educação católica, Melanchthon sente a necessidade de uma doutrina; pela necessidade de manter um laço de união entre os protestantes, chega à indiferença a respeito dos dogmas, à religião do sentimento. E suas próprias tendências também o conduziam na mesma direção; levavam-no a compreender a religião sob a forma de uma vaga união mística com o divino.

— Obras de Melanchthon. Edições incompletas: Basileia, 1541; Wittenberg, 1562-1634; K. Bretschneider e Bindseil, no Corpus Reformatorum [C. R.], t. I-XXVIII, 1831-1860, publicação incompleta, defeituosa; Leipzig, e ver adiante Supplementa... 1910...; H. Bindseil, Ph. Melanchthonis epistolae, judicia, consilia, etc., Halle, 1874; K. e W. Krafft, Briefe und Dokumente aus der Zeit der Reformation, Elberfeld, 1875; K. Hartfelder, Melanchthoniana paedagogica, Leipzig, 1892. No volume Aus der Schule Melanchthons, 1897, J. Hausleiter tratou das Disputationes de Melanchthon, de 1546 a 1560. G. Plitt e Th. Kolde, Die Loci communes Ph. Melanchthons, in ihrer Urgestalt, 3ª edit., Leipzig, 1900; J. Müller e Th. Kolde, Die symbolischen Bücher der evangelisch-lutherischen Kirche, 11ª edit., Gütersloh, 1912. Numerosas outras peças, publicadas aqui e ali, notadamente nas duas revistas Theologische Studien und Kritiken, e Zeitschrift für Kirchengeschichte. Deve-se assinalar notadamente P. A. Kirsch, Melanchthon's Brief an Camerarius über Luther's Heirath, vom 16 juni 1525, Mogúncia, 1900. Ótima bibliografia em K. Hartfelder, Ph. Melanchthon als Praeceptor Germaniae, 1899, p. 567 sq.

Em 1897, por ocasião do quarto centenário do nascimento de Melanchthon, decidiu-se a publicação de Suplementos à edição do Corpus Réf. (Cf. Theologische Studien und Kritiken, 1897, p. 846.) Em 1910 começou a publicação desses suplementos: Supplementa Melanchthoniana, Leipzig; apareceram 4 volumes; o último se intitula Briefwechsel, 1510-1528, 1926. Esses suplementos ameaçam ser muito volumosos; compreenderão muito verossimilmente seis seções. Desde 1910, afora esses Suplementos, alguns outros documentos foram publicados: Wrampelmeyer, Ungedruckte Schriften Philipp Melanchthons (Beilage zum Jahresbericht des königlichen Gymnasiums zu Klausthal, 1910, 1911) (peças literárias de pouca importância).

II. Trabalhos. Os trabalhos católicos são precedidos de um asterisco. Jo. Camerarius, De Philippi Melanchthonis ortu, totius vitae curriculo et morte, Leipzig, 1566; outra edição com Index, Haia, 1655 (primeira biografia). *Dœllinger, Die Reformation, t. I, Ratisbona, 1846, p. 349-408; trad. Perrot, t. I, Paris, 1848, p. 340-394. G. Ellinger, Philipp Melanchthon, Berlim, 1902. K. Hartfelder, Ph. Melanchthon als Praeceptor Germaniae, Berlim, 1889 (t. VII dos Monumenta Germaniae paedagogica). H. Bremer, Die Entwicklung des Glaubensbegriffs bei Melanchthon, Dissertação, Bonn, 1901. G. Kawerau, Die Versuche Melanchthons zur katholischen Kirche zurückzuführen, Halle, 1902. C. F. Fischer, Melanchthons Lehre von der Bekehrung, Tubinga, 1905. Fr. Loofs, Leitfaden zur Dogmengeschichte, 4ª ed., Halle, 1906. K. Seeberg, Lehrbuch der Dogmengeschichte, t. IV, 1ª e 2ª partes, Leipzig, 1917-1920, sobretudo 2ª parte, p. 420 sq. *H. Grisar, Luther, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1911-1912, 3ª ed., 1924-1925; somente os suplementos diferem; t. I e II, suplemento de 48 p., t. III, suplemento de 15 p. Sobre Melanchthon, — sobretudo t. II, p. 265-315; t. III, p. 211-230. G. Wolf, Quellenkunde der deutschen Reformationsgeschichte, 3 vol., 1915-1923 (muito cuidado). P. Peters, Geschichte der aristotelischen Philosophie in protestantischem Deutschland, 1921, p. 19-108.

J. Paquier.

Autor original: J. Paquier

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