MÁXIMO DE TURIM (SÃO)

MÁXIMO DE TURIM (SÃO)

MÁXIMO DE TURIM (São) (século V). Está-se mal informado sobre o curriculum vitæ deste personagem, que foi bispo de Turim no século V. Genádio, que parece ter de sua obra escrita um conhecimento sério, está menos informado sobre suas personalia, pois o faz morrer sob Honório e Teodósio II, por conseguinte antes de 423, quando muito certamente Máximo ainda vivia em 465. Nessa data, com efeito, o bispo de Turim assina, em primeiro lugar depois do papa Hilário, as atas de um concílio romano. Mansi, Concil., t. vii, col. 965, cf. 959; do mesmo modo, em 451, em oitavo lugar, subscrevia as Atas de um concílio de Milão. Ibid., t. vi, col. 143. Por outro lado, em um de seus sermões, Máximo fala do martírio dos santos Alexandre, Martírio e Sisínio, massacrados em Anáunia (Trento) em 397, como de um acontecimento de que foi testemunha ocular. Serm., lxxxi, P. L., t. lvii, col. 695. É preciso, pois, que tenha nascido entre 380 e 385, e provavelmente nos Alpes réticos. Não sabemos nada mais sobre sua vida; sua obra escrita testemunha um grande zelo em combater, em sua diocese, os restos ainda vivazes das superstições pagãs; mostra também que ele tranquilizou seus fiéis no momento em que a invasão huna ameaçava a Itália. Ela deixa, em suma, a impressão de um pastor inteiramente dedicado ao seu povo e muito consciente de seus deveres.

A obra bastante volumosa de Máximo (compreende todo o t. lvii da P. L.) é exclusivamente oratória. Apesar das divisões artificiais que os diversos editores pretenderam estabelecer nela, as homiliae, os sermones, os tractatus são todos da mesma natureza. São sermões, ou mais exatamente temas de sermão, pois quase nenhum ultrapassa duas pequenas colunas da Patrologia. Esses breves esboços, em que o bispo assinalava as ideias principais que ia desenvolver, não permitem, portanto, formar uma ideia completa do talento oratório de Máximo; dão, ao menos, a impressão de uma grande variedade na escolha dos assuntos, de uma real habilidade em descobrir e explorar os temas populares. Foram divididos, dissemos, pelos editores modernos em três categorias: homilias, sermões e tratados.

As homilias, em número de 118, repartem-se entre o temporal (63) e o santoral (19), em que figuram as festas dos santos Estêvão, João Batista, Pedro e Paulo, Lourenço, Eusébio de Vercelli, Cipriano e os mártires de Turim, Otávio, Adventício e Solutor, a que se acrescentam 36 homilias De Diversis, entre as quais se notarão as sobre a entrega do símbolo (n. 83), sobre as angústias causadas pela invasão huna (n. 86-89), sobre o eclipse da lua (n. 100), sobre os usos supersticiosos de 1º de janeiro (n. 103). Os sermões, em número de 116, repartem-se igualmente entre o temporal (55) e o santoral (38): santa Inês, são João Batista, os santos Pedro e Paulo, Lourenço, Cipriano, os irmãos Macabeus, os mártires de Anáunia e diversos outros mártires, e por fim 23 peças De Diversis, entre as quais se reterão os n. 101 e 102 sobre a permanência de práticas idolátricas. Em seguida vêm três Tractatus sobre o batismo, explicação das cerimônias da iniciação aos neófitos, correspondentes às três primeiras catequeses mistagógicas de são Cirilo de Jerusalém. Os dois tratados que vêm depois e que foram intitulados Contra paganos e Contra Judæos não têm nenhum direito de figurar entre as obras do bispo de Turim; o mesmo se dirá das Expositiones de capitulis evangeliorum, que, como diremos adiante, são da mesma pena que os dois Tractatus precedentes.

Um apêndice, enfim, reúne 31 sermões e 3 homilias cuja pertença a Máximo é considerada duvidosa pelos editores (mesmo o sermão vii, col. 853 sq., figura também entre as obras de santo Ambrósio, aliás erradamente, Explanatio symboli ad initiandos, P. L., t. xvi, col. 1155), enfim dois longos tratados em forma de epístolas dirigidas Ad amicum ægrotum, que estão impressas também entre as obras inautênticas de são Jerônimo, — Epist., vi e vii, P. L., t. xxx, col. 61-105. Por fim, para delimitar mais exatamente a obra de Máximo, convém dela retirar ao menos os seguintes textos: Homil. cviii, P. L., t. lvii, col. 502 (que é de são Pedro Crisólogo, t. lii, col. 339); Serm., ii, col. 533 (reproduzindo santo Agostinho, Quæst. evang., ii, 44, t. xxxv, col. 1357); Serm., lvi, sobre santa Inês, col. 641, cuja pertença a Máximo Tillemont já havia contestado, e que os bolandistas atribuem a santo Ambrósio; Serm., lxxii, sobre são Lourenço, col. 679 (que é de são Leão, Serm., lxxxv, t. liv, col. 435). É verossímil, aliás, que um exame mais atento da produção oratória atribuída a Máximo descobriria ainda outras peças de proveniência estranha ou duvidosa. O conjunto, contudo, não deixa de apresentar um todo homogêneo, e é bem o mesmo estilo, as mesmas ideias gerais, a mesma maneira que se encontram na maioria dos trechos da edição atual.

Não é impossível tampouco que diversos sermões de Máximo estejam ainda dissimulados sob outros nomes, tanto nos manuscritos quanto nas edições. Todavia certas peças recentemente publicadas como sendo de Máximo por C. H. Turner, no Journal of theological studies, t. xvi, p. 161-176; p. 314-322; t. xvii, p. 225-232, revelaram-se, a um exame mais amplo, estreitamente aparentadas aos dois Tractatus contra paganos e contra judœos, e às pretensas Expositiones de capitulis evangeliorum, com os quais figuram aliás no ms. de Verona LI. Em um estudo habilmente conduzido, dom Capelle mostrou que todos esses trechos pertenciam a um mesmo autor, ariano militante, que não é outro senão o bispo Maximino. Un homiliaire de l'évêque arien Maximin, na Revue bénédictine, 1922, t. xxxiv, p. 81-108. Ver o art. Maximino.

Livre de todos esses corpos estranhos, a obra de Máximo de Turim merece reter a atenção do historiador da teologia. Bruni, na segunda parte de seu prefácio, reproduzida na P. L., t. lvii, col. 41-127, reuniu com muita diligência e um espírito suficientemente crítico os testemunhos relativos às instituições, às práticas, aos dogmas cristãos que abundam nesse pregador.

Restaria assinalar tanto as informações fornecidas por ele sobre o estado religioso e moral das populações da Itália em meados do século V, quanto os argumentos que um orador popular julgava acessíveis a elas, e a maneira por vezes muito envolvente com que lhes expunha o ensino cristão. Conviria, enfim, estabelecer um paralelo entre Máximo e seus dois contemporâneos, o papa são Leão e Pedro Crisólogo, e também com Cesário de Arles, que o segue de perto. Com esses diversos autores ele tem muitos traços de semelhança.

1. Edições. — É aos poucos que se produziu a reunião das peças que têm probabilidade de pertencer a Máximo. Schönemann traçou a história complicada das edições deste autor em sua Bibliotheca historico-literaria, t. II, p. 618, reproduzida em P. G., t. LVII, col. 177 sq. A primeira edição separada (várias homilias já haviam aparecido em diversas coletâneas) veio à luz em Colônia, em 1535, na casa de J. Gymnicus; cumpre assinalar também uma edição parisiense de 1618, em que Máximo figura entre são Leão e são Pedro Crisólogo, e as importantes contribuições trazidas por Mabillon no Muséum ital., 1678, t. II, p. 1-31, por Muratori no t. IV dos Anecdota, 1713, p. 1-117; pelos trabalhos dos beneditinos relativos aos sermões de santo Agostinho e de santo Ambrósio. Foi utilizando todos esses trabalhos que Bruno Bruni pôde realizar em 1784, sob o encorajamento de Pio VI, sua magnífica edição; é essa edição que é reproduzida na P. L., t. LVII.

2. Notícias literárias e trabalhos. — A notícia de Genádio, De vir. ill., 40, P. L., t. LVIII, col. 1081, embora errônea no que concerne à data da morte de Máximo, é de primeira importância para a restituição de sua obra; restaria reencontrar a obra indicada por esta frase: Sed et de capitulis evangeliorum et de Actibus apostolorum multa sapienter exposuit, desde que as Expositiones de capitulis evangeliorum passaram para a conta do bispo ariano Maximino. As demais notícias literárias antigas são desprezíveis (Honório de Autun, Tritêmio que copia Genádio, Belarmino, Fabricius). Notícias importantes em Ceillier, Histoire des auteurs sacrés et ecclésiastiques (há interesse em comparar as duas edições, 1ª ed., t. XIV, p. 602, e t. XVIII, p. 98; 2ª ed., 1861, t. X, p. 319-329); em Fessler-Jungmann, Instit. Patrol., t. II, p. 256-276; Bardenhewer, Gesch. der altkirchl. Lit., t. iv, 1924, p. 610-613; Krüger, em Schanz, Gesch. der römischen Lit., t. IV, 2, 1920, § 1217. C. Ferreri, S. Massimo vescovo di Torino, cenni storici e versioni, Turim, 1858.

É. AMANN.

Autor original: E. Amann

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