MAUGIS José (1711-1780), nasceu em 20 de novembro de 1711, fez seus estudos com os jesuítas e, aos 18 anos, entrou como noviço no convento dos ermitães de santo Agostinho, em Rovignes e em Malines; estudou filosofia em Antuérpia e teologia moral em Lovaina; ordenado sacerdote em 1734, ensinou teologia moral em Gand, Bruxelas, Antuérpia e, por fim, em Lovaina. Recebido doutor em 19 de novembro de 1745, tornou-se professor de teologia na Universidade de Lovaina em 1747, e ocupou essa cátedra até sua morte, em 22 de março de 1780.
Os escritos de Maugis, em geral muito curtos, têm quase todos por objeto as controvérsias da época; manteve discussões teológicas com o P. Wautyer, jesuíta (1705-1772), e com o P. Billuart, dominicano (1685-1757). Devem-se citar as Thèses theologicae de peccatis, de legibus et de gratia, 7 août 1743, in-8°, Louvain, e as Thèses theologicae de religione ac divini Verbi incarnatione, cum appendice de gratia per se efficaci ac libertate, 11 août 1747. Nesses dois escritos, Maugis expõe a doutrina dos agostinianos sobre a graça suficiente e a graça eficaz, e procura conciliar esta última com a liberdade. A essas teses, o jesuíta Wautyer opõe as teses molinistas em Responsio ad appendicem de gratia per se efficaci et libertate propugnatam, 11 juillet 1748; Maugis replicou com o escrito intitulado Thèses theologicae de sacramentis in genere et tribus primis in specie, adjuncta refutatione praetensae responsionis ad appendicem de gratia per se efficaci et libertate, 5 juin 1749. Três anos mais tarde, o P. Wautyer respondeu com as Thèses theologicae de gratia et libertate in systemate R. P. Ludovici Molina, S.J., conciliatis, cum inserta nonnullorum isti systemati non recte oppositorum discretione, et adjuncta ad refutationem Lovanii propugnatam responsione, 11 juillet 1752, in-8°, Louvain. Nesse escrito, o P. Wautyer quer mostrar que a doutrina de Molina não é nova, mas que é conforme à dos Padres e, em particular, à de santo Agostinho.
As polêmicas prosseguiram ainda com novos escritos: Thèses theologicae de sanctissima Trinitate et actibus humanis, appendice ad thèses theologicas die 11 julii 1752 propugnatas, 8 août 1752, Louvain. O P. Wautyer retrucou com certa vivacidade, em suas Thèses ad appendicem thesibus Lovanii propugnatis die 8 augusti 1752 annexam, 25 novembre 1752, Louvain. Em sua resposta intitulada Thèses theologicae de gratia per se efficaci et de libertate, 20 janvier 1753, Louvain, Maugis mostra que suas teses nada têm em comum com os erros de Calvino e de Jansênio, e que o P. Wautyer, ao sustentar o contrário, favorece a heresia jansenista. A essa acusação, o jesuíta replica de novo: Thèses theologicae de gratia et de libertate ab objectionibus vindicatae, 31 mars 1753, Louvain. Como a discussão passasse daí em diante a azedar-se, o cardeal Tomás de Alsácia convidou seu amigo, o P. Maugis, a cessar a polêmica; estando pronta a resposta do Padre, ela veio a lume com a carta do cardeal: Thèses theologicae de peccatis, de legibus, de gratia, 7 août 1753, in-8°, Louvain.
Mas um apêndice desse escrito, que parecia encerrar as discussões sobre a graça, suscitou outras sobre um assunto novo; trata-se da contrição; o apêndice intitulava-se De circumstantiis eamdem intra speciem notabiliter aggravantibus; Maugis sustentava aí que, na confissão, era preciso acusar as circunstâncias notavelmente agravantes das faltas. O P. Wautyer sustentou a tese oposta, à qual Maugis respondeu com uma Dissertatio theologica, in qua examinatur utrum attritio mere servilis sufficiat in sacramento poenitentiae, in-8°, Louvain, 1754, e com Thèses de virtutibus theologicis, in-8°, Louvain, 1754. O P. Wautyer não é aí nomeado, mas, persuadido de que era atacado, publicou as Thèses theologicae cum responsionibus ad quaestionem insertam thesibus 1° aprilis 1754, Lovanii in schola augustiniana propugnatis, necnon ad dissertationem theologicam de sufficientia attritionis in sacramento poenitentiae, in-8°, Louvain, 1754. A questão debatida era saber se a atrição puramente servil, nascida do simples temor dos castigos de Deus, bastava para receber a graça do sacramento da penitência. Maugis pretende que a tese afirmativa não é certa e não pode ser seguida com segurança de consciência: é necessário um começo de amor de Deus. A controvérsia ressurgiu em novo terreno até 1761, com algumas digressões laterais Digressio de fide et de potentia Dei... de certitudine sufficientiae attritionis servilis...; sobre essa discussão, ver, no sentido jansenista, as Nouvelles ecclésiastiques du 6 mars 1762, p. 39-40.
O P. Maugis encontrou-se também em desacordo com o P. Billuart que, em 1751, publicara uma Quaestio theologica de relatione operum ad Deum, in-8°, Ypres, 1751, reimpressa em Liège em 1752. Billuart pretendia que, para que nossas ações sejam meritórias, basta que sejam referidas a Deus virtualmente e com uma intenção implícita. O P. Maugis sustentou, ao contrário, que, quando agimos deliberadamente, devemos referir nossas ações a Deus e que, se essa intenção falta, há pecado, embora a ação, boa em si mesma, não seja viciada em seu fundo. Tal é a opinião que Maugis defendeu em sua Dissertatio de relatione operum ad Deum, in-8°, Louvain, 1754, à qual Billuart replicou com Ulterior elucidatio quaestionis de relatione operum ad Deum, in-12, Louvain, 1754. Mas Maugis retomou seus argumentos em sua Dissertatio de relatione operum in Deum ab objectionibus vindicata, in-8°, Louvain, 1755, e Billuart replicou de novo em Epistola expostulatoria et apologetica Ludovici Franc... super Dissertationem secundam de relatione operum in Deum, in-8°, Anvers, 1756. O P. Maugis respondeu ainda em Vindiciae dissertationis de relatione operum in Deum, adversus larvatum auctorem Epistolae expostulatoriae et apologeticae sub adscito nomine Ludovici Franc..., in-8°, Louvain, 1757. O P. Billuart morria em 20 de janeiro de 1757 e o combate cessou, por falta de combatentes. O P. Maugis abordou também uma questão de direito canônico.
Até por volta de meados do século XVIII, os teólogos e canonistas eram quase unânimes em ensinar que o matrimônio, mesmo consumado, entre infiéis, é rompido pela conversão ao cristianismo de um dos cônjuges, quando o outro persiste em sua infidelidade e se recusa a coabitar com o cônjuge convertido, ou quando este, pela coabitação com o cônjuge que permaneceu infiel, pode ser exposto a perder a fé, a ouvir ultrajar seu Deus e sua religião; era o comentário ordinariamente admitido da célebre passagem de são Paulo, I Cor., VII, 10-15. Essa tese começava a ser atacada na Alemanha, nos Países Baixos e na França. O P. Maugis empreendeu defendê-la em sua Dissertatio theologico-canonica : Utrum in casu Apostoli, parti conversae liberum sit ad vota transire?, in-8°, Louvain, 1770. Josse Le Plat, professor de direito canônico na Universidade de Lovaina, atacou a tese do P. Maugis, que replicou com Prosecutio dissertationis theologico-canonicae Utrum in casu Apostoli?, in-8°, Louvain, 1771; Le Plat respondeu e sustentou que as Falsas Decretais eram a origem da opinião comum dos teólogos, quanto à dissolução do matrimônio de um infiel convertido. Nouvelles ecclésiastiques du 21 août 1779, p. 134-136.
O P. Maugis deixou alguns outros escritos que suscitaram ainda polêmicas, mas muito menos graves: Quaestio quodlibetica : Utrum in effectu peccati mortalis existens possit aliquem actum supernaturalem exercere?, in-8°, Louvain, 1764, e a opinião de Maugis foi atacada por Pierre Dens, em umas Animadversiones, in-8°, Louvain, 1764, às quais Maugis replicou com uma Responsio ad Animadversiones, in-8°, Louvain, 1764.
Biographie nationale de Belgique, t. XIV, col. 88-95; Galliot, Histoire de la ville et province de Namur, t. IV, p. 351, Dictionnaire des Pays-Bas, t. II, p. 67; Reussens, Analectes pour servir à l'histoire ecclésiastique de la Belgique, IIe série, t. VI, p. 297-311; Sommervogel, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, art. Wautyer, t. VIII, col. 1006-1010; Hurter, Nomenclator, 3e édit., t. V, col. 242-243.
J. Carreyre.
Autor original: J. CARREYRE
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