MARTINHO DE TOURS (SÃO)

MARTINHO DE TOURS (SÃO)

MARTINHO DE TOURS (São), século IV. — não tem nenhum direito de figurar como teólogo. Se aqui o grande bispo merece ao menos uma breve menção, é como sendo uma das glórias mais puras de nossa Igreja da França.

I. Vida. — Não faltam informações de boa lei sobre os feitos e gestos de Martinho; mas sua biografia não é por isso menos difícil de esboçar. Como diz um de seus mais recentes historiadores, « parece impossível hoje reconstituir sobre bases sólidas a cronologia da vida de são Martinho, sobretudo quanto à sua juventude. Muitos eruditos o tentaram, porém, mas a divergência de suas conclusões autoriza uma reserva um tanto inquieta. » P. Monceaux, Saint Martin, Paris, 1926, p. 19. Apenas algumas datas parecem certas: 4 de julho de 371, consagração episcopal; 385, estada em Tréveris; 8 e 11 de novembro de 397, morte e funerais.

Martinho nasceu em Sabária, na Panônia, de pais pagãos; seu pai era tribuno militar, exposto, portanto, às mudanças de guarnição. Foi assim que o jovem Martinho foi criado em Pavia; por iniciativa própria faz-se inscrever, aos dez anos de idade, entre os catecúmenos; sonha com a vida ascética, pois já circulam no Ocidente maravilhosas narrativas sobre os « Padres do deserto ». Na realidade foi a lei militar que veio apanhá-lo; filho de veterano, devia ser alistado cedo, aos quinze anos, diz Sulpício Severo. Aos dezoito anos fazia-se batizar; nesse intervalo desenrolou-se, às portas de Amiens, a cena do manto, com suas benéficas consequências para Martinho. Alguns anos mais tarde o jovem oficial obtinha sua baixa. Sulpício Severo faz com que parta logo depois para Poitiers, atraído que estava pela fama de Hilário; só pode ser, portanto, por volta do ano 355, visto que no ano seguinte o bispo de Poitiers era exilado na Ásia. Hilário teria querido promover Martinho ao diaconato, mas este se contentou com as modestas funções de exorcista.

Pouco depois, aliás, deixava Poitiers, dirigindo-se à Panônia para tentar converter ali sua família. Sua mãe deixou-se ganhar; seu pai permaneceu inflexível e, por outro lado, a ousadia com que o discípulo de Hilário se ergueu contra o arianismo, então todo-poderoso nas regiões danubianas, atraiu-lhe desagradáveis humilhações. Desventuras análogas o aguardam em Milão: Auxêncio, o bispo ariano, expulsa-o da cidade; Martinho refugia-se na ilha de Galinária, perto da costa da Ligúria, onde leva algum tempo a vida eremítica. Depois fica sabendo do retorno de Hilário ao Ocidente e, tendo-o perdido em Roma, onde contava encontrá-lo, vai reunir-se a ele em Poitiers. Desta vez deverá aceitar o sacerdócio, mas sem renunciar por isso ao seu sonho de vida monástica. Num lugar deserto, ao sul de Poitiers, em torno da cela onde se retira, eis que discípulos afluem, desejosos de colocar-se sob a sua direção, e essa é a origem do mosteiro de Ligugé, o decano de idade de todos os conventos franceses.

É de Ligugé que se espalha, por toda a região, a fama de Martinho, grande santo e já grande taumaturgo, e é ali que, no verão de 371, o povo de Tours virá buscá-lo para fazer dele seu bispo. Se foi aclamada pelo povo e pelas pessoas santas, a eleição de Martinho não é vista com tão bons olhos por alguns prelados mundanos da vizinhança: o eleito tem um aspecto bem lastimável e um porte bem descuidado! Foi preciso, no entanto, ceder ao desejo unânime da população; em 4 de julho de 371, Martinho é consagrado bispo de Tours.

Seu episcopado será, em todo o oeste da Gália, o triunfo do cristianismo sobre a superstição pagã. Em muitas regiões tudo está por fazer; em outras, se Cristo tem nas cidades bom número de adoradores, os campos permanecem muito alheios a uma religião que mal conhecem. É a glória de Martinho ter empreendido a conquista. Demasiado anedóticas, as encantadoras narrativas de Sulpício Severo não permitem dizer se houve, da parte do bispo de Tours, plano concertado ou simples obediência às inspirações do momento; permitem ao menos entrever alguns dos meios empregados. O mais importante é a instituição dos mosteiros. Desde o início de seu episcopado, formara-se às portas mesmas de Tours o convento de Marmoutier, residência ordinária do bispo; fundações análogas vão multiplicar-se, nas quais se formarão clérigos, monges, até bispos para a região. Em suas expedições em país pagão, vê-se ordinariamente Martinho acompanhado de alguns desses monges; são os auxiliares de sua pregação, e também as testemunhas de seus milagres.

Pois é a golpes de prodígios, tanto quanto a golpes de sermões, que Martinho luta contra a superstição e o paganismo; diante dele as árvores sagradas caem, os templos dos ídolos são derrubados, os demônios reconhecem o seu vencedor. À sua morte, Martinho está todo aureolado por uma lenda que se divulga em todos os conventos da Gália e que Sulpício Severo recolhe piedosamente. Poesia ou verdade, que importa! O interessante para o historiador não é captar a forte impressão que exerceu sobre sua época aquele que foi cedo proclamado o taumaturgo das Gálias? O historiador deve notar, por outro lado, que o zelo do bispo de Tours nunca foi fanatismo. Se houve violências durante suas expedições missionárias, foi contra ele que se exerceram, e foi expondo a própria vida, não ameaçando a dos outros, que ele lutou contra as falsas religiões.

Sua intervenção em favor de Prisciliano, de quem certamente não partilhava as ideias, dá a medida de sua largueza de espírito. Sabe-se como, encontrando-se em Tréveris em 385, por ocasião do processo conduzido por Itácio contra o antigo bispo de Ávila, Martinho tentou, em vão aliás, arrancar Prisciliano à morte, e como em seguida só se resignou à comunhão de Itácio e de seus cúmplices para poupar aos priscilianistas novas execuções. Ainda assim sua consciência lhe reprovou sempre esse passo — que ele, contudo, só havia dado por caridade. Vinte e seis anos de um episcopado bem preenchido tinham-lhe merecido a recompensa suprema: ela lhe veio em 8 de novembro de 397, no pequeno burgo de Candes, aonde ele fora restabelecer a paz. Em 11 de novembro seu corpo era trazido de volta a Tours, num verdadeiro triunfo. Logo, sobre suas relíquias, uma capela se ergueria, à espera da grande basílica que redisse à posteridade a glória de são Martinho.

Nenhuma glória póstuma jamais igualou a sua: durante séculos permaneceu o grande santo da França, nosso santo nacional.

II. A profissão de fé de são Martinho. — Sob o nome de são Martinho foi publicada pela primeira vez, em 1511, por Josse Clichtoue, uma Confessio trinæ unitatis et unius trinitatis, que, depois de figurar em diversas coletâneas patrísticas ou conciliares, encontrou finalmente lugar na Bibliotheca veterum Patrum de Gallandi, t. VII, p. 590, cf. p. XXVI, e na P. L., t. XVIII, col. 11 e 12. Esse texto muito curto está, aliás, muito mal conservado; mesmo depois das emendas que lhe fez sofrer Thomas Beaulxamis, que tentou explicá-lo, permanece em certos pontos quase ininteligível. Como uma das peças publicadas recentemente por K. Künstle em seus Antipriscilliania (reproduzida em Denzinger-B., n. 17), começa pelas palavras Clemens Trinitas est una divinitas; esta, ele faz questão de estabelecer que a distinção das pessoas não prejudica a unidade profunda da substância divina: mas poder-se-ia crer que o lugar e o papel do Espírito Santo não estão tão claramente marcados em nosso documento quanto no de Künstle.

É, aliás, muito difícil fundar uma teoria qualquer sobre um texto tão corrompido, e do qual algumas fórmulas são verdadeiramente inquietantes. O mais extraordinário é que essa peça, de ortodoxia duvidosa, tenha podido figurar sob o nome de são Martinho, o qual, com toda a certeza, não se reconheceria nesse amontoado confuso. Mas nada pode espantar em matéria de invenções de copistas. Compreende-se menos que os críticos da Renascença tenham procurado justificar, por um apelo a Sulpício Severo, a atribuição dessa medíocre peça ao bispo de Tours. Sem dúvida o panegirista do santo fala da graça maravilhosa com que Martinho explicava a Escritura, da ciência que mostrava ao falar das coisas de Deus, Vita S. Mart., 25, P. L., t. XX, col. 175; cf. Dialog., III, 17, col. 222. Mas é notável que Sulpício, tão a par de tudo o que toca a seu herói, não diga uma palavra dessa confissão de fé. Dom Ceillier já havia feito a observação; ela é decisiva. A glória de são Martinho nada tem a ganhar com essa singular atribuição.

III. Vida de são Martinho. — Não se poderia pensar em dar uma bibliografia, mesmo sumária, da vida de são Martinho. Ver, para as fontes, a Bibliotheca hagiographica latina dos Bolandistas, n. 5610-5666, p. 823-830; para os trabalhos e as fontes, U. Chevalier, Répertoire, Bio-bibliographie, t. II, col. 3108-3112. A fonte essencial, e a bem dizer única, é Sulpício Severo, que conheceu pessoalmente o bispo de Tours e lhe consagrou o De vita B. Martini; é preciso acrescentar três Dialogi; aos quais é preciso acrescentar dois capítulos da Historia sacra, l. II, c. xlix-l.; tudo na P. L., t. XX, col. 157-222, e melhor na edição Halm do Corpus de Viena, t. 1866.

Recentemente, num livro que causou certo escândalo, E. Babut atacou a sinceridade de Sulpício, Saint Martin de Tours, Paris, 1912 (publicado em artigos: na Revue d'histoire et de littérature religieuse, IIª série, t. II, 1911); ver a refutação da tese paradoxal de Babut por H. Delehaye, nas Analecta Bollandiana, 1920, t. XXXVIII, p. 1-136, e por L. Levillain, na Revue des Études anciennes, t. XXIV, p. 37 sq. e XXV, p. 48 sq., e na Histoire de la Gaule, t. VIII, Paris, 1926, p. 235 sq., 299 sq. Bom resumo da discussão em P. Monceaux, Saint Martin, Paris, 1926, onde se encontrará um estudo sumário, mas muito sugestivo. Ao lado de Sulpício Severo é preciso ainda mencionar Gregório de Tours; na Historia Francorum, l. I, c. XXXVI-XXXVIII, XLVIII, procura fixar a cronologia de são Martinho; o De miraculis S. Martini, em 4 livros, narra sobretudo a glória póstuma do taumaturgo; textos na P. L., t. LXXI, e melhor nos Monum. Germ. hist., Script. rer. merov., t. I, p. 51, 52, e 584-661.

II. Confissão de fé. Publicada em 1511 por Josse Clichtoue, com a Vita de Sulpício Severo, em 1514 por Teodoro Pulmann, foi estudada sobretudo pelo carmelita Thomas Beaulxamis, que deu o texto e o comentário no fim de sua edição da Vita de Sulpício Severo, Paris, 1571. Ver Histoire littéraire de la France, t. XII, 1733, p. 417; dom Ceillier, Histoire des auteurs sacrés et ecclésiastiques, 2ª edição, t. VIII, p. 122-123.

E. AMANN.

Autor original: E. Amann

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