MARCIÃO, herético do século II, fundador da seita que, a partir de seu nome, se chamou o Marcionismo. I. Fontes. II. Vida de Marcião (col. 2018). III. Doutrina de Marcião (col. 2018). — Desenvolvimento histórico do marcionismo (col. 2018).
MARCIONISMO. — Desde o século II, o marcionismo, por sua rapidíssima expansão, não tardou a criar para a grande Igreja um imenso perigo. Sua propaganda não podia deixar tranquilos nem os chefes das comunidades cristãs nem os autores ortodoxos. Mal surgira, e já de todos os lados se produzem refutações; e o marcionismo terá a vida dura, as polêmicas continuarão durante vários séculos, a literatura antimarcionita deve ter formado uma massa muito volumosa, da qual subsiste ainda certo número de restos. Para dizer a verdade, é a nossa única fonte direta para o conhecimento do marcionismo, pois nenhuma das obras compostas, quer por Marcião, quer por seus discípulos, escapou a uma destruição que, a partir de certo momento, deve ter sido sistemática. Assim, só conhecemos o grande herético e sua escola pelas refutações que deles se fizeram, e essa circunstância pode parecer, à primeira vista, particularmente desfavorável. Todavia, a produção antimarcionita permite restituir, até certo ponto, as obras fundamentais da seita. Estudaremos sucessivamente a literatura antimarcionita e as próprias obras de Marcião.
1° A literatura antimarcionita. 1. Escritos perdidos. Uma parte bastante considerável da literatura antimarcionita não escapou ao naufrágio em que soçobraram tantos escritos do período pré-niceno. A mais antiga das refutações do marcionismo é a que fora composta por Justino, segundo o testemunho dele próprio, Apol., xxvi, 8, P. G., t. vi, col. 368. As expressões do autor parecem indicar uma refutação geral de todas as heresias contemporâneas, em que a de Marcião era mais especialmente visada. Mas são Jerônimo distingue um Tratado contra Marcião e outro contra todas as heresias. De vir. ill., 23. Seja como for, a obra de Justino era conhecida de Ireneu, Cont. hæres., IV, vi, 2, P. G., t. vii, col. 987, e de Tertuliano, Adv. Valent., 5, P. L. (édit. de 1844), t. ii, col. 614, que sem dúvida nela beberam. Em contrapartida, nada podemos dizer, nem mesmo por conjetura, sobre os escritos antimarcionitas de Dionísio de Corinto, Teófilo de Antioquia, Filipe, bispo de Gortina, Modesto e Rodon, assinalados com elogio por Eusébio, H. E., IV, xxiii, 1; xxiv; xxv; V, xiii, P. G., t. xx, col. 385, 389, 400; de Melitão de Sardes, ao qual se refere Anastácio o Sinaíta, Hodeg., xiii, P. G., t. lxxxix, col. 229, de Milcíades e de Proclo, que cita Tertuliano, Adv. Valent., 5. O que passou dessa abundante literatura do fim do século II para os escritos posteriores que nos foram conservados, é difícil dizer; mas dessa revista fica a impressão de que os polemistas das épocas seguintes não foram apanhados desprevenidos quando travaram a luta.
2. Os polemistas do fim do século II e do começo do século III. Três escritores católicos, quase contemporâneos, preocupam-se neste momento em lutar contra o marcionismo: Ireneu, Tertuliano, Hipólito. É sobretudo aos dois primeiros que devemos o mais claro de nossos conhecimentos sobre essa heresia. Santo Ireneu, muito preocupado com a propaganda das seitas gnósticas, não deixou de notar as afinidades que os ensinamentos de Marcião apresentam com os dogmas dessas seitas. Depois de expor a gnose valentiniana com a abundância que se sabe, desenha em alguns traços o retrato de Marcião e de sua doutrina. Cont. hæres., I, xxvii, P. G., t. vii, col. 687-689; declara notadamente que procurou obter as Escrituras marcionitas e que se propõe empreender a refutação da heresia com o auxílio desses mesmos textos. Ibid., n. 1; cf. 12, col. 906. O tempo parece ter-lhe faltado para executar esse desígnio; ao menos multiplicou, no curso dos livros seguintes, as alusões de pormenor marcionitas e as refutações. Na falta de uma exposição de conjunto do sistema, esses múltiplos traços permitem fornecer um esboço que tem probabilidade de corresponder à realidade. O levantamento tão completo quanto possível dos textos em questão é dado por A. von Harnack, em sua obra capital sobre a matéria, Marcion das Evangelium vom fremden Gott, dans Texte und Untersuch., t. xlv, 2e édit., 1924, p. 320* sq. Quando citamos simplesmente Harnack, é a essa obra que nos referimos.
Tertuliano, alguns anos depois de Ireneu, preocupa-se também ele em conjurar o perigo marcionita. Já no De præscriptione pensa nisso; cf. vii, 3; xxx, 1, 2; xli-xliii, P. L., t. ii, col. 20-22, 56-60, etc.; depois começa a publicar, a partir de 207-208, uma refutação em regra. Adversus Marcionem, libri V, P. L., t. ii, col. 243-524, o mais volumoso de todos os seus tratados, e a mais importante das obras antimarcionitas. É a ela que devemos, em sua maior parte, o nosso conhecimento das teses marcionitas. Tertuliano, se utilizou os dados fornecidos pelos polemistas anteriores, Justino e Ireneu, nem por isso deixou de fazer obra original, e todas as informações por ele fornecidas merecem ser recolhidas com grande atenção. Acrescentar-se-á a elas bom número de indicações esparsas nas obras do grande polemista. Cf. sobretudo De carne Christi, i-viii, importante para reconstituir a cristologia marcionita; De resurrectione, ii, iv, xiv, lvi; De anima, xxi, P. L., t. ii, col. 754-770, 796, 799, 812, 877, 684.
Hipólito de Roma voltou duas vezes à refutação do marcionismo: no Syntagma e nos Philosophoumena; talvez até, segundo o testemunho de Eusébio, H. E., VI, xxii, P. G., t. xx, col. 576, tenha composto um tratado especial Contra Marcião. Esse livro está perdido; como também o Syntagma, cuja reconstituição, fácil para certas notícias, esbarra aqui em dificuldades particulares. Cf. Harnack, p. 24*, n. 1. Os Philosophoumena falam de Marcião no l. X, c. xix-xxi, P. G., t. xvi, col. 3433-3435, e na recapitulação geral de todas as heresias, l. X, c. xix, ibid., col. 3435.
Infelizmente, essas duas notícias não podem ser utilizadas sem uma séria crítica: de um lado, apresentam certo número de contradições; de outro, a mania de assimilar as heresias cristãs aos erros dos filósofos antigos levou Hipólito a deformar, mais ou menos conscientemente, a exposição do marcionismo.
Se não estudaram e refutaram ex professo o marcionismo, os mestres da escola de Alexandria não deixaram de se preocupar com ele. Clemente discutiu sobretudo as ideias morais e os princípios ascéticos postos em circulação por essa heresia; cf. as numerosas referências em Harnack, p. 322*-324*; e sua polêmica parece repousar em boas informações. Orígenes, mais preocupado com as questões propriamente científicas, estudou de perto a crítica aplicada por Marcião aos Livros santos. Em grande número de passagens de sua obra exegética comparou, quer o texto que ele próprio dá da Escritura, quer as explicações que adianta, ao texto e aos comentários apresentados pelo herético. Harnack p. 227* sq., e também Der kirchengeschichtl. Ertrag der exegetischen Arbeiten des Origenes, dans Texte und Unters., t. xlii, fasc. 3, p. 30 sq., fasc. 1, p. 5 sq. Orígenes fornece assim uma contribuição, que não é sem importância, para a reconstituição dos livros marcionitas, dos quais parece bem que tenha tido conhecimento direto.
3. Polemistas e heresiólogos posteriores. À medida que nos afastamos das origens do marcionismo, parece que os escritores católicos, embora se preocupando em refutar a heresia, têm cada vez menos o cuidado de se informar diretamente sobre a história e as doutrinas da seita que combatem. Contenta-se, muito frequentemente, em tomar emprestado dos primeiros polemistas. Isso não quer dizer que essa literatura seja inteiramente desprezível. Há muito que aproveitar no diálogo De recto in Deum, que seria melhor chamar Libri Adamantii adversus hæreticos numero quinque e que data dos anos 270-280. P. G., xi, col. 1711-1884. Em particular, os dois primeiros diálogos reproduzem uma discussão entre Adamâncio (isto é, Orígenes?) e dois representantes do marcionismo, cujas ideias são aliás bastante divergentes. É dizer que a doutrina exposta é antes a dos marcionitas posteriores do que a do próprio mestre. Embora não bebendo diretamente nas fontes, os diálogos em questão não deixam de fornecer uma séria contribuição ao conhecimento das Antíteses de Marcião.
As Acta Archelai de Hegemônio, edição Beeson do Corpus de Berlim, tão preciosas para o estudo do maniqueísmo, contêm alguns traços de origem marcionita. Harnack, p. 349*, fez notar que a carta de Diodoro a Arquelau, c. 44, p. 64, põe na conta de Mani certo número de Antíteses que provêm com certeza de Marcião. Pode-se abstrair aqui das numerosas alusões às doutrinas marcionitas que foram assinaladas nas obras dos doutores do fim do século IV, sobretudo no Oriente; deter-se-á a atenção somente nos autores que se preocuparam especialmente em refutar a velha heresia. E, em primeiro lugar, um escritor anônimo que, um pouco anterior a santo Efrém, redigiu em siríaco uma Explicação do Evangelho, nitidamente dirigida contra as liberdades exegéticas de Marcião. A obra só se conservou numa tradução armênia, publicada em 1836 pelos mequitaristas, nas Obras de Efrém em armênio, t. II, p. 261-345; ver uma tradução alemã, com comentário, de Schäfer, Eine altsyrische, antimarkionitische Erklärung von Parabeln des Herrn, 1917; os principais textos em Harnack, p. 355*.
Santo Efrém preocupou-se também ele em refutar o marcionismo, quer em seus princípios essenciais (ver a respeito C. W. Mitchell, A. A. Bevan et F. C. Burkitt, S. Ephrem's prose refutations of Mani, Marcion and Bardesanes, t. II, The discourse called of Domnus, Londres et Oxford, 1921, p. xxiii-lxv), quer na aplicação desses princípios à crítica bíblica. Sobre este último ponto, ver Ephrem, Evangelii concordantis expositio, traduzido do armênio por Moesinger, Viena, 1876, onde o doutor sírio alega e discute certo número de explicações marcionitas; alguns exemplos são fornecidos por Harnack, p. 357* sq. Santo Epifânio devia dar, em seu Panarion, um lugar importante à temível seita. Hæres. xlii, P. G., t. xli, col. 696-813. Antes de compor esta notícia, o bispo de Salamina tivera ocasião, ele mesmo nos diz, n. 10, col. 709, de redigir uma dissertação separada sobre o assunto. Tendo-lhe caído nas mãos o Novo Testamento marcionita, anotara cuidadosamente as modificações de várias ordens que Marcião introduzira no texto canônico. Em sua segunda redação, nem sempre se reencontrou em suas notas, de sorte que existe certo número de contradições bastante visíveis na segunda exposição. Outras incoerências provêm também do fato de que Epifânio fundiu informações provenientes do Syntagma de Hipólito, do tratado de Ireneu e, por fim, de um terceiro autor desconhecido, sem bem observar que seus fiadores nem sempre estavam de acordo. Tal qual, contudo, e com todas as suas imperfeições, a notícia do Panarion é de importância capital para a reconstituição das Escrituras marcionitas e muito especialmente do evangelho.
Em contrapartida, a refutação de Teodoreto, Hæretic. fabul., I, xxiv, P. G., t. lxxxiii, col. 372 sq., pode ser negligenciada sem prejuízo, tão dependente é dos polemistas anteriores. Ao contrário, Eznik de Kolb, em seu De sectis, redigido em armênio pouco antes do concílio de Calcedônia (451), consagra todo o seu livro IV a uma exposição e a uma refutação do marcionismo de que convém fazer caso. Embora pareça ter tomado de algum predecessor a sua primeira parte, não deixa de fornecer da doutrina heterodoxa uma exposição muito coerente e bem conduzida. Tradução alemã em J. M. Schmid, Des Wartapet Eznik von Kolb wider die Sekten aus dem armenischen übersetzt, Vienne, 1900, l. IV, p. 172-205; as principais passagens em Harnack, p. 372*-380*. Assim, a literatura heresiológica do Oriente pode fornecer, até meados do século V, informações preciosas para a história do marcionismo e a reconstituição de seus livros canônicos.
Em contrapartida, no Ocidente, onde o perigo marcionita parece ter desaparecido muito mais cedo, os numerosos indícios que se podem colher nas obras do século IV e do século V mostram-se de perfeita insignificância, e não testemunham que os autores tenham tido algum conhecimento vivido da grande heresia do século II.
2° As obras de Marcião. Em toda a lógica, seria preciso começar por elas; põem-se em segundo lugar porque sua restituição (e quão aproximativa para algumas) só é possível com o auxílio das obras acima recenseadas. Estas nos ensinam, com efeito, que Marcião havia redigido, para uso de seus fiéis, de um lado um corpo de Escrituras sagradas, desempenhando em sua Igreja o papel que desempenhavam alhures as Escrituras canônicas, de outro uma composição de gênero mais livre, ao mesmo tempo exegética e polêmica, onde criticava as doutrinas da grande Igreja. Estudaremos sucessivamente essas duas obras, o Instrumentum marcionita e as Antíteses.
O Instrumentum marcionita. No momento em que aparece Marcião, a Igreja católica se acha de posse de livros que considera sagrados, nos quais busca a resposta aos problemas religiosos que se colocam. Esse instrumentum doctrinæ, como dirá logo Tertuliano em sua linguagem de jurista, compreende primeiro os Livros santos transmitidos pela Sinagoga ao cristianismo. A esses livros do Antigo Testamento, como se começa a dizer, juntaram-se no curso do século I escritos que relatam as origens da Economia nova, cartas apostólicas que lhe descrevem os principais traços. Desde cedo habituou-se a render a esses escritos a mesma veneração que aos da Antiga Aliança. Se os contornos desse Novo Testamento permanecem ainda por muito tempo indecisos, nem por isso deixa de ser verdade que a Igreja católica toma depressa consciência de que o instrumentum de sua doutrina é essencialmente bipartido.
Totalmente ao contrário, Marcião. Corta de um só golpe o laço que ligava o cristianismo às suas origens judaicas. Nenhuma relação entre a Economia antiga e a Economia nova; não têm nem o mesmo autor, nem o mesmo fim, nem o mesmo conteúdo. O Novo Testamento basta-se a si mesmo, somente os livros da Nova Aliança terão autoridade para regular a doutrina. Primeira simplificação, e logo em seguida uma segunda. As Escrituras de origem propriamente cristã testemunham a todo instante a estreita dependência do cristianismo em relação ao judaísmo. Será preciso, pois, rejeitar as que ostentam com demasiada clareza essa relação. Em última análise, dos livros sagrados em circulação em sua época, Marcião só guardará um Evangelho e um corpus de epístolas paulinas. Mesmo assim reduzido, o instrumentum precisa de retoque para que desapareça dele todo vestígio da doutrina que Marcião combate por toda parte. Terceira simplificação, que desemboca em constituir definitivamente o instrumentum marcionita: compor-se-á de duas partes, um Evangelho e uma coletânea de cartas apostólicas.
a) O Evangelho marcionita. Em veia de inovações, Marcião poderia ter redigido por conta própria uma narração da vida e dos ensinamentos do Salvador; outros o fizeram antes e depois dele. Mais zeloso da tradição, preferiu tomar como ponto de partida um dos evangelhos canônicos. Sua predileção por são Paulo, em quem vê o grande adversário da Lei, explica que tenha escolhido, para realizar esse desígnio, o evangelho de Lucas, o discípulo e companheiro do Apóstolo. Sem dúvida, nesse livro permanecem ainda muitos vestígios do Antigo Testamento; também vários relatos, como os do nascimento de Jesus, que contradizem certas vistas dogmáticas de Marcião. Far-se-á desaparecer tudo isso, e assim nascerá o Evangelho simplesmente. A ideia mestra do trabalho executado por Marcião é claramente indicada por santo Ireneu. Cont. hær., I, xxvii, 2, P. G., t. VII, col. 688, [III, xi, 7, col. 881; cf. III, xii, 12, col. 906].
Mas é sobretudo por Tertuliano e por Epifânio que podemos formar uma representação bastante exata do evangelho marcionita. O livro IV do Adversus Marcionem é uma crítica contínua desse evangelho, pretendendo Tertuliano mostrar que, mesmo no estado em que o pôs o heresiarca, o evangelho de Lucas contém a explícita refutação do marcionismo. Adv. Marc., IV, vi, P. L., t. II, col. 368, trazendo numerosas passagens do Evangelho. Ele é assim levado a citar o evangelho em uso na seita. Epifânio procedeu da mesma forma, tendo tido ocasião de fazer um exame completo do livro marcionita; cf. Hæres., xlii, 11, 10 sq., P. G., t. XLI, col. 709 sq. Juntando a essas indicações as poucas outras referências alegadas em diversos autores, os críticos chegaram a reconstruir o conjunto do evangelho de Marcião. Esse trabalho, feito primeiro por A. Hahn, em 1823, e reproduzido em Thilo, Codex apocryphus Novi Testamenti, Leipzig, 401-486, foi recomeçado mais recentemente por Th. Zahn, Geschichte des N. T. Kanons, t. II, 455-494, e retomado ainda há pouco por Harnack, p. 183*-240*. Certamente, permanece ainda nessa restituição boa parte de conjeturas; é possível, no entanto, fazer uma ideia bastante exata do texto evangélico elaborado por Marcião.
A narração começava bruscamente pelo relato da pregação de Jesus em Cafarnaum, Luc, iv, 31, e seguia em seguida bastante fielmente o texto, até a última aparição de Cristo ressuscitado e à missão dos apóstolos, Luc, xxiv, 36-53, sem que se possa dizer se a ascensão era narrada. Essa fidelidade não excluía aliás um número bastante considerável de supressões tendenciosas. Assim Luc, vii, 20; viii, 19 (menção da mãe e dos irmãos de Jesus); ix, 31; x, 26; xi, 29-32 (sinal de Jonas); xii, 1-51; xiii, 1-9, 29-35; xv, 11-32 (o filho pródigo); xvi, 16-31 (anúncio da paixão); xix, 29-46 (entrada de Jesus em Jerusalém e expulsão dos vendilhões do Templo); xx, 9-18 (parábola dos vinhateiros homicidas); xxi, 21-24 (profecia da destruição de Jerusalém); e talvez xxii, 16, 35-38, e xxiii, 34, 43; xxiv, 12, 35-43 (cumprimento das profecias em Jesus). Em cada um desses casos é bastante fácil ver as razões que levaram à supressão. Mas, entre as passagens apagadas, havia várias que tinham sido retocadas. Essa última operação não é fácil de pôr em evidência, pois não sabemos com plena certeza de que texto partia Marcião.
Parece, contudo, que tomou como base de seu trabalho o texto dito ocidental, numa recensão de tipo D muito próxima da do ms. (Codex Bezæ), o que provaria que o executou em Roma e não no Ponto. Quanto à questão de saber até que ponto as lições (neutras do ponto de vista doutrinal) da recensão marcionítica passaram para o texto católico do Evangelho, não a trataremos. Ver Harnack, p. 246*-248*, e comparar M.-J. Lagrange, na Revue biblique, 1921, p. 609-611; 1924, p. 268 e a nota. O evangelho marcionita foi certamente redigido desde cedo, em grego; para as necessidades da propaganda, foi traduzido em latim; é muito verossímil que Tertuliano o tenha conhecido e um pouco utilizado sob essa forma. Do mesmo modo foi mais tarde traduzido em siríaco, se se julga pelas citações que faz santo Efrém.
O Apostolicon marcionita. Designou-se desde cedo sob este nome o Corpus das epístolas paulinas reconhecidas por Marcião. A restituição desse Corpus é um pouco mais delicada que a do evangelho. Tertuliano, no livro V do Adv. Marcionem, fornece-lhe os elementos essenciais; Epifânio nos informa muito menos aqui do que sobre o evangelho; Adamâncio, em contrapartida, no livro II do Diálogo, traz algumas citações. Como para o Evangelho, a crítica moderna tentou uma restituição do Apostolicon marcionita: podem-se negligenciar todos os trabalhos anteriores ao de Th. Zahn, Gesch. des N. T. Kanons, II, p. 495-529; Harnack deu a mais recente e também a mais plausível reconstrução, p. 67*-127*. O número das epístolas aceitas por Marcião é conhecido com certeza; o heresiarca só admitia dez cartas, dispostas na ordem seguinte: Gál.; I e II Cor.; Rom.; Laodicenses; I e II Tess.; Colos.; Filip.; Filêmon. Se se leva em conta o fato de que a Epístola dita aos Laodicenses não é outra senão a nossa Epístola aos Efésios (Tertull., Adv. Marc., V, xi, xvii; cf. Epifânio, Hæres., xlii, 9), vê-se que Marcião rejeitava as Pastorais e a Epístola aos Hebreus. Nas cartas paulinas por ele reconhecidas, não se privava tampouco de cortar segundo as exigências de seu sistema doutrinal.
Assinalemos, na esteira de Harnack, as mais importantes dessas supressões. Em Gál., faltava verossimilmente i, 18-24; ii, 1-10; certamente iii, 6-9, 10-12, 14, 15-25; iv, 21-31; v, 1-12, sem contar remanejamentos em iv, 27-30: todas modificações que tinham por objeto eliminar o elogio dos antigos apóstolos e as lições tiradas por Paulo da história de Abraão. I e II Cor. mal tinham sido tocadas. Em Rom. tinham sido suprimidos: i, 17-25 (as obras da criação manifestam o Criador; os pagãos são inescusáveis por terem desconhecido a Deus); iii, 31-iv, 25 (a fé de Abraão); ix, 1-xi, 32 (vocação de Abraão; o verdadeiro Israel; a Lei mostrava Jesus Cristo salvação de uma parte de Israel); xv e xvi (sabe-se aliás que questões textuais se colocam para esses dois capítulos e especialmente o último). I e II Tess. permaneciam quase intactas. Laodicenses (Ef.), poucas mudanças, exceto v, 28-32 (deveres recíprocos dos esposos), profundamente remanejado para lhe modificar o sentido. Colos., a passagem i, 15-17, relativa ao papel criador do Cristo preexistente, fora fortemente retocada; do texto apostólico só restava isto: « O Cristo é a imagem do Deus invisível e é antes de todas as coisas. » Filip. e Filêm. não tinham sofrido modificações.
Como para o evangelho, Marcião se teria servido, para as epístolas paulinas, de uma recensão muito próxima da que é fornecida pelo ms. D (Codex Claromontanus); seu texto aproximar-se-ia, pois, do texto dito ocidental, do qual seria a primeira atestação. Do mesmo modo ainda, certo número de lições marcionitas (aliás neutras do ponto de vista doutrinal) teriam passado para certos mss. católicos; o caso é particularmente interessante para o final da Epístola aos Romanos. Não temos de estudar aqui esses problemas de crítica textual do Novo Testamento. Não tomaremos partido tampouco na questão da origem dos prólogos ditos marcionitas. Designam-se sob esse nome brevíssimas indicações sobre os destinatários e o assunto de cada uma das epístolas paulinas, que figuram em um grandíssimo número de mss. latinos. O primeiro autor que atraiu a atenção sobre eles, dom de Bruyne, julgou discernir em vários deles traços inequívocos de marcionismo, Revue bénédictine, 1907, t. xxiv, p. 1-16, cf. p. 257; essa visão foi aceita por grande número de críticos; cf. Harnack, p. 127*, n. 1; contra os quais se insurge o P. Lagrange, Revue biblique, 1926, p. 161-173. O Apostolicon de Marcião deve ter sido composto não em latim, como pensou Lietzmann, Der Römerbrief, 2e édit., p. 14 sq., mas em grego. Uma tradução latina circulou, todavia, desde muito cedo; foi por ela que Tertuliano conheceu a obra do heresiarca.
2. As Antíteses. Vários dos adversários católicos de Marcião conhecem, ao lado da Bíblia marcionita, outra obra de importância capital, na qual o inovador fazia a crítica do Antigo Testamento. Tertuliano é o único a nos dar o título: Adv. Marc., I, xix; II, xxix; IV, i, iv, vi, P. L., t. II, col. 267, 319, 361, 366, 368; e assinala-a como tendo entre os sectários um valor pelo menos equivalente ao de sua Escritura santa. Sem dúvida não se devem tomar ao pé da letra as expressões do temível polemista, quando chama as Antíteses o summum instrumentum da nova Igreja, Ibid., I, xix. Quer apenas indicar com isso que, em suma, o valor do instrumentum marcionita repousa antes de tudo sobre a crítica do instrumentum católico, e como essa crítica é feita nas Antíteses, é sobre essa última obra que repousa, em definitivo, todo o edifício da nova doutrina. Pelo que diz Tertuliano, podemos concluir o conteúdo do livro. De um lado, nele se punham em oposição as palavras e os atos do Deus que aparece no Antigo Testamento com as palavras e os atos do Cristo; a Lei opunha-se assim ao Evangelho numa vigorosa antítese.
Por outro lado, formulava-se ali o antagonismo entre Paulo e os primeiros apóstolos; insistia-se nas falsificações que a falta de inteligência ou a má-fé destes haviam introduzido na mensagem evangélica; dava-se, enfim, o comentário doutrinal de certas passagens do instrumentum marcionita, sem deixar de discutir e, se necessário, refutar passagens escriturísticas tomadas do Novo Testamento católico. Mas as citações de Tertuliano e as alusões feitas em outros escritos, sobretudo no Adamantius, quase não permitem representar a forma exterior sob a qual essa crítica era formulada. Seriam as Antíteses um comentário contínuo incorporado ao instrumentum marcionita, ou uma obra distinta deste? Esta segunda hipótese parece a Harnack a única admissível; segundo ele, a obra teria sido composta de duas partes: a primeira apresentando-se como uma série de dissertações histórico-dogmáticas em que teriam sido discutidas as relações de Paulo com os antigos apóstolos e as da Bíblia marcionita com a Bíblia católica; a outra, como uma coleção de escólios ou observações exegéticas sobre o novo instrumentum. Tudo isso permanece, naturalmente, muito hipotético. Ainda mais hipotéticas são as poucas tentativas de reconstituição que foram feitas, a começar pela de Hahn, Antitheses Marcionis gnostici, Königsberg, 1823, e a terminar pela do próprio Harnack, loc. cit., p. 256*-313*. Pelo menos este último crítico reuniu com muita diligência todos os textos citados pelos escritores antimarcionitas e que têm alguma probabilidade de haver sido tomados das Antíteses. As doutrinas que ali transparecem serão estudadas mais adiante; é preciso antes dar a conhecer o que sabemos da própria vida de Marcião.
II. VIDA E ATIVIDADE DE MARCIÃO. — As informações dignas de fé não abundam sobre a vida do grande herege; os polemistas católicos tinham mais cuidado em combater suas doutrinas do que em dar a conhecer sua pessoa. Aliás, nunca deixaram de relatar a seu respeito traços desabonadores, mesmo quando não eram de todo seguros. Cruzando seus diversos testemunhos, pode-se contudo chegar a uma reconstituição bastante coerente da vida de Marcião. Deve ter nascido em Sinope, na província do Ponto, na costa meridional do mar Negro, nos últimos anos do século I. Sabe-se que essa região da Anatólia recebera cedo o Evangelho. Cf. I Petr., i, 1. A célebre carta de Plínio, o Moço, a Trajano, dos anos 111-113, revela-nos nessas regiões a existência de um número considerável de cristãos. Seu pai era bispo da cidade; Marcião foi, portanto, criado no cristianismo. Segundo Epifânio, que deve ter encontrado a informação no Syntagma de Hipólito, o jovem teria sido excomungado por seu pai por ter seduzido uma virgem. Hæres. xlii, 1, P. G., xli, col. 696. Suspeitou-se da exatidão da informação, que nenhum outro dos antigos polemistas fornece e que os Philosophoumena não reproduzem. Mas ela nada tem em si de inverossímil; explicá-la alegoricamente, transformando a falta carnal do jovem Marcião num atentado contra a pureza do ensino eclesiástico ainda virgem, parece-nos uma exegese um tanto refinada demais. Seja como for, as desavenças do jovem com seu pai levaram-no sem dúvida a deixar a cidade natal; dedicou-se ao comércio e deve ter amealhado uma fortuna bastante considerável; os textos posteriores o qualificam de nauclerus, isto é, "armador ou proprietário de um navio", e o veremos fazer à comunidade romana o presente de uma soma importante. É sem dúvida na província da Ásia que ele comerciou primeiro. Embora comerciando, não deixava de espalhar as dúvidas que já se precisavam em seu espírito sobre a verdade do cristianismo tal como o ensinavam as Igrejas da região. É, ao menos, o que se concluirá da acolhida que lhe fez, seja em Éfeso, seja em Esmirna, o bispo São Policarpo. Irineu, Cont. hæres., III, iii, 4, P. G., t. vii, col. 853. É verdade que muitos críticos situam em Roma, por ocasião da viagem que o velho bispo de Esmirna ali fez por volta de 154, o encontro deste com Marcião. Mas não é essa a impressão que se depreende do texto de Irineu, onde a anedota do cumprimento ao herege é relatada ao mesmo tempo que um encontro, em Éfeso, de Policarpo com o herege Cerinto.
A primeira propaganda, ainda imprecisa, deve situar-se por volta dos anos 130-140. Clemente de Alexandria diz-nos que a atividade do inovador começou, com efeito, sob Adriano, morto em 138. Strom. VII, xvii, P. G., t. ix, col. 549. Por outro lado, Irineu mostra-nos Marcião agitando-se em Roma sob o pontificado do papa Higino, por volta de 138-142. Essa estada na capital do Império devia ser, para o armador de Sinope, a ocasião de uma evolução decisiva. Irineu, Cont. hær., I, xxvii, 1 e 2, t. vii, col. 687, 688, e, na sua esteira, Tertuliano, Hipólito nos Philosoph. e Epifânio põem nesse momento o inovador em relação com Cerdão. Ver as referências no art. Cerdon, t. ii, col. 2138. Apresentam-no como tendo-se inspirado nas doutrinas deste e lhe tendo sucedido na direção de uma escola, διδασκαλεῖον. Ad. von Harnack, que muito preza a originalidade de Marcião, insurge-se contra este dado, loc. cit., p. 31*-39*; ele nada tem, porém, de inverossímil. Na medida em que se conhece a doutrina de Cerdão, este professava um dualismo e um antinomismo que se encontram em Marcião. Irineu, III, iv, 3, col. 856, representa aliás Cerdão como um espírito hesitante e inquieto, pronto à retratação, tentando por várias vezes reconciliar-se com a comunidade romana. Segundo Tertuliano, nos primeiros tempos de sua estada em Roma, Marcião teria granjeado a benevolência da Igreja por meio de uma larga oferta, 200 000 sestércios. Adv. Marc. IV, iv. De præscript., 30. P. L., t. ii, cf. t. ii, col. 365, 12. Não é lícito imaginar que esse gesto tinha por fim fazer a autoridade fechar um pouco os olhos a atividades duvidosas? Tampouco como Cerdão, o armador de Sinope não queria romper definitivamente com a Igreja romana. Chegou, contudo, um dia em que, de ambas as partes, a ruptura foi julgada necessária. Era em julho de 144, sob o pontificado de Aniceto. Marcião apresentou-se diante do presbyterium.
Tratava-se do passo espontâneo de um homem que, tendo deliberado maduramente, se dá conta da incompatibilidade de suas opiniões com as que professa o grupo religioso do qual faz parte exteriormente, e quer colocar-se fora de toda equivocidade? Ou era, ao contrário, a comparecência perante um tribunal de um acusado cujos atos se tornavam cada vez mais suspeitos e a quem a autoridade responsável intima a dar explicações? Uma e outra hipótese foram sustentadas. O que é certo é que, espontâneo ou provocado, o colóquio foi decisivo. Conservou-se a lembrança de várias das palavras então trocadas. Epifânio, xlii, 2, col. 697. Havia já algum tempo que Marcião se persuadira da incompatibilidade absoluta entre o Antigo e o Novo Testamento, da imperiosa necessidade em que estava o cristianismo de romper todos os laços que o uniam à religião judaica, do dever que se impunha de tirar ousadamente todas as consequências dogmáticas e metafísicas que essa ruptura supunha. Algumas palavras do Evangelho lhe haviam parecido particularmente luminosas; pediu a explicação delas ao presbyterium romano e propôs a sua. "Não há árvore boa, dizia Jesus, que dê maus frutos, nem árvore má que dê bons frutos: cada árvore se conhece por seu fruto." Luc, vi, 43. Examinando a criação com todas as suas misérias e imperfeições, com o mal que nela se mostra por toda parte, como concluir que ela é obra de um criador infinitamente bom e infinitamente poderoso?
Eis quanto ao problema metafísico. E eis quanto à questão histórica: "Ninguém põe um remendo de pano novo em vestido velho, dissera o Cristo, sob pena de ver o remendo novo arrancar o tecido gasto; não se deita vinho novo em odres velhos, que a fermentação corre o risco de fazer estourar." Luc, v, 36-38. É isso, porém, o que fizera a Igreja cristã, com exceção de Paulo. O vinho novo da mensagem evangélica, ela o pusera nos recipientes gastos da velha religião judaica; cosera os ensinamentos sólidos do Salvador aos trapos da sinagoga; era preciso pôr ordem nisso. Os presbíteros romanos tentaram mostrar ao inovador que os textos por ele invocados eram suscetíveis de uma interpretação mais em harmonia com as vistas tradicionais das Igrejas. Marcião não quis ouvir nada; foi excomungado. Devolveram-lhe o dinheiro que outrora depositara na caixa, mas guardaram uma carta sua, de que Tertuliano fala em várias ocasiões, De carne Christi, ii; Adv. Marc., I, i; IV, iv, P. L., t. ii, col. 755, 247, 366. Os críticos discutiram sobre a natureza desse documento que os arquivos da Igreja romana faziam questão de conservar. Podia ser uma profissão de fé, conforme à ortodoxia, assinada por Marcião no momento de sua chegada a Roma, quando procurava granjear a benevolência da comunidade. Harnack quer ver nela, ao contrário, uma peça redigida no momento do conflito e consignando a exposição dos motivos que haviam levado o signatário a mudar de opinião. Cf. loc. cit., p. 21* sq.
A data da ruptura de Marcião com a Igreja romana fora cuidadosamente conservada pelos discípulos do mestre. Tertuliano explica, de maneira um tanto enrolada, que transcorreram entre a aparição do Cristo em Tiberíade, no décimo quinto ano de Tibério (29), e a revelação definitiva de Marcião, 115 anos, 6 meses e 15 dias, Adv. Marc, I, xix, col. 267, o que nos reporta bem a julho de 144. A Igreja marcionita celebrava esse dia como o de sua fundação. Sobre essa data ver Harnack, loc. cit., p. 20*, e também Die Chronologie, I, p. 297 sq., 306 sq. Aliás, essa ruptura é um acontecimento capital tanto para a vida de Marcião quanto para a da Igreja cristã. Diante desta última, não havia até então, no seio do cristianismo, senão pequenos conventículos heréticos, semelhantes antes a lojas de iniciados ou a escolas de ensino esotérico do que a agrupamentos religiosos. É uma verdadeira Igreja que Marcião vai erguer diante do estabelecimento católico. Estamos mal informados, a bem dizer, sobre os meios de propaganda que ele empregou; não o estamos melhor sobre as relações que pôde travar com os doutores gnósticos que então residiam em Roma, como Valentim e Basílides. Em suma, é pelos resultados imediatos que se pode julgar sua atividade: foram consideráveis. Já em 150, Justino denuncia o perigo marcionita, Apol., I, 26, 58, P. G., t. VI, col. 367, 416. Trinta anos mais tarde, Irineu o constata em termos não menos vivos; a violência das invectivas de Tertuliano atesta que o perigo não está conjurado, longe disso, no início do século III, e as múltiplas refutações do marcionismo que se enfileiram desde esse momento mostram bem que ele é premente tanto no Oriente quanto no Ocidente. Ver acima, col. 2009. Nenhuma lembrança se conservou sobre a data precisa da morte de Marcião; em todo caso, não se ouve mais falar dele sob o reinado de Marco Aurélio (161-180).
III. DOUTRINA DE MARCIÃO. — Sobre a doutrina de Marcião não faltam documentos. Mas, se eles permitem reconstituir em linhas gerais o sistema, não deixam de apresentar, em pontos de detalhe, mais de uma obscuridade e de uma incoerência. Sobretudo, correm o risco de falsear a perspectiva, apresentando sob falsa luz as relações entre o marcionismo e a gnose. É este ponto que convém esclarecer primeiro, antes de abordar o detalhe da doutrina.
1° Marcionismo e gnosticismo. — Ao relegar o sistema de Marcião para o fim de seu primeiro livro, onde expõe a "pretensa gnose", depois de ter descrito abundantemente os de Valentim, Marcos, Saturnino, Basílides e Carpócrates, e ao seriar vários desses heterodoxos segundo a data de sua chegada a Roma, III, IV, 3, P. G., t. VII, col. 856 C, Irineu contribuiu, sem querer, grandemente para desorientar os heresiólogos e os escritores posteriores. Deu a impressão de que o heresiarca do Ponto era um epígono em relação aos grandes gnósticos e de que suas doutrinas derivavam de algum modo de seus sistemas. Essa impressão é totalmente inexata, e não é certo que corresponda ao pensamento de Irineu. Quanto à antiguidade de Marcião, Clemente tinha outra ideia, pois escreve Μαρκίων κατὰ τὴν αὐτὴν αὐτοῖς (Basilide, Valentin) ἡλικίαν γενόμενος πρεσβύτης νεωτέροις συνεγένετο. Strom., VII, xvii, P. G., t. IX, col. 549. Concluir-se-á que Marcião, se ainda buscava a expressão definitiva de suas ideias, já tinha, ao desembarcar em Roma, uma visão bastante nítida do essencial de sua doutrina. Se a frequentação de um Cerdão, e talvez de um Valentim, pôde influir no desenvolvimento de seu pensamento, este não deixa de permanecer original; e, aliás, nada sabemos, ou quase nada, de Cerdão, que se apresenta como o mestre de Marcião; nada, a não ser que suas ideias não se aparentam com as da gnose valentiniana.
Na verdade, a verdadeira gnose é a de Valentim, culminação de todo um movimento de ideias que dura há um século e que, apesar de múltiplos desvios, conserva todavia uma mesma direção geral. É, em suma, um ensaio de solução dos problemas metafísicos, religiosos e morais por meio de um apelo tão amplo quanto possível às tradições mais diversas e, ao mesmo tempo, à especulação racional. Insistir-se-á, na definição precedente, no sincretismo bem oriental que constitui o fundo da gnose, no fato de que se recorre às religiões mais heteróclitas, bem como aos sistemas filosóficos mais díspares. Daí vem, certamente, a impressão de incoerência que dá a exposição dos grandes sistemas gnósticos, o sentimento de cansaço que se experimenta ao tentar restituí-los. O marcionismo impressiona, ao contrário, por sua grande simplicidade. Se o problema que procura resolver é o mesmo a que se aplicou a gnose (no fundo é o problema de todas as religiões), o método por ele empregado difere profundamente do que está em honra em todas as escolas gnósticas: nenhum apelo ao sincretismo religioso, nenhum apelo às fantasias delirantes da imaginação, às especulações desordenadas da razão raciocinante. Não é, pois, o mesmo espírito que circula nas escolas gnósticas e na Igreja marcionita. Se soluções análogas se encontram de parte a parte, elas são obtidas por meios diferentes. Parece, portanto, que é preciso cortar o laço fictício que a tradição estabeleceu entre a gnose e o marcionismo.
2° O sistema marcionita. — É absolutamente original, quer se considere seu ponto de partida, quer seus resultados nos diversos domínios.
1. Ponto de partida. — Marcião é primeiro um cristão, isto é, um discípulo de Cristo, persuadido de que o Salvador veio dar aos homens a resposta às grandes questões de origem e de fim. É o Evangelho que se deve escrutar antes de tudo, mensagem inteiramente nova trazida ao mundo, e que constitui, em relação a tudo o que a precede, um fenômeno extraordinário. Paulo foi o primeiro a ter essa intuição; compreendeu que o cristianismo era uma religião nova. Com extraordinária audácia, declarou que a velha lei judaica, com a qual os primeiros apóstolos hesitavam em romper, estava caduca de direito como de fato, e que Jesus viera fundar uma economia nova da salvação. Mas Paulo mostrou-se ainda tímido demais: não ousou cortar os laços históricos que prendiam a economia cristã à religião judaica. Manteve esta como uma preparação divina daquela. Por uma exegese sutil, em que a alegoria desempenha o papel essencial, mostrou no Antigo Testamento as pedras de espera da construção nova. Muito mais audacioso que Paulo, Marcião não hesita em cortar no vivo. Entre as duas economias da salvação, a antiga e a nova, não há absolutamente nenhum laço. Judaísmo e cristianismo são duas entidades absolutamente irredutíveis, que se sucedem no tempo, mas sem que haja nenhuma passagem de uma à outra. Desse dualismo histórico, a que chegou pela meditação do Evangelho, pela comparação de seu conteúdo com o da Lei, Marcião chega ao dualismo metafísico mais absoluto. As duas religiões não têm o mesmo conteúdo; não têm o mesmo fim; não têm o mesmo autor. Retomemos, em ordem inversa, cada um desses pontos.
2. Teologia: o Deus justo e o Deus bom. — Com o mais profundo desprezo pela metafísica, o mais absoluto desdém pela tradição eclesiástica, Marcião dá por fundamento a seu sistema a existência de dois deuses: o que aparece no Antigo Testamento, o que se revela no Novo. As Antíteses exprimiam o melhor possível as diferenças que os separam. O mais antigamente conhecido é o Deus da Antiga Lei, aquele que, desde Abraão, os judeus adoraram e cujas manifestações enchem as páginas da Bíblia israelita. É o criador, ou antes, o organizador do universo, e as múltiplas imperfeições de sua obra não podem deixar dúvida sobre seu caráter imperfeito e limitado. E primeiramente a matéria preexistente de que formou o mundo é por si mesma um princípio de imperfeição e de mal. Incapaz de lhe impor inteiramente suas vontades, o demiurgo só soube produzir uma obra malograda; isso se evidencia especialmente na criação do homem. E mais ainda em sua queda. Carregado de preceitos despóticos que só a inveja e a fraqueza do demiurgo explicam, o homem peca e é duramente punido por isso. O Antigo Testamento não está todo cheio do relato das terríveis vinganças exercidas sobre sua criatura pelo Deus criador? Não digamos que ele é mau por essência, mas reconheçamos que é justo, de uma justiça que chega até a maldade. Essa justiça limitada, que age por solavancos, sujeita a arrependimentos e a recomeços, incapaz de prever ou de impedir o que quer que seja, onde melhor a apreender do que na longa história do povo de Israel? Ainda que tivesse conseguido assegurar-se um pequeno núcleo de adoradores fiéis, o Deus criador teria fracassado, pois de fato permanece ignorado da maior parte dos homens.
Além dos limites deste mundo, naquele terceiro céu em que penetrou por um instante o apóstolo Paulo, vive e reina outro Deus, o Deus todo-poderoso, o Pai infinitamente bom. Para a humanidade, para o mundo, para o próprio Deus criador, esse Deus bom é o desconhecido por excelência, o Deus estrangeiro, pois, com tudo isso, nada tem em comum. Dele nada saberíamos, se um dia não tivesse aparecido na terra, em condições que teremos de precisar ulteriormente, Jesus, que vem revelá-lo. Pois a alegre mensagem trazida pelo Salvador é, antes de tudo, a existência desse Pai que está nos céus.
Este Pai é infinitamente bom, e essa é a sua essência; para tomar emprestada a palavra de Paulo, ele é "o Pai de misericórdia e o Deus de toda consolação". Enquanto o Criador é severo até a dureza, ele não julga nem se irrita; enquanto o Criador é limitado em seu poder como em seu saber, ele é onipotente e onisciente; escruta em particular todo o detalhe dessa criação, obra de seu inferior: conhece-lhe as imperfeições e as fraquezas, de corrupção e também de bondade, o que constitui o fundo de sua natureza. Em cada uma das fases da humanidade enunciam-se os atributos do Deus criador nas Antíteses, que opõem os escritos do Deus da Bíblia judaica, os quais apresentam de Israel um retrato totalmente oposto. Para o detalhe e a demonstração, ver a reconstituição das Antíteses em P. 113, e também p. 87-92, o Messias judeu e o Cristo redentor. Em múltiplos lugares da Bíblia de Israel lê-se a promessa de um Messias que virá repor em ordem os negócios de Deus, comprometidos pela malícia ou pela tolice dos homens. Apesar de suas múltiplas infidelidades, o povo judeu, mantido sob o jugo dos castigos divinos, conservou no mundo a lembrança, o culto, as leis do Criador: deverá pregar às nações o ideal de justiça que ele próprio tem dificuldade em praticar; e seu Deus lhe faz esperar que virá um dia em que o Messias realizará, por força ou por amor, a grande obra da conversão de todos os povos ao Deus dos patriarcas e dos profetas. Esse Messias, segundo Marcião, nada é, mas virá, sem dúvida alguma, pois o Deus criador não parece dar-se conta da inutilidade de seus esforços e da vaidade de seu plano. A bem dizer, nem esse Deus nem seu Messias podem assegurar a ninguém a salvação, isto é, a imortalidade bem-aventurada e definitiva; mal podem proporcionar alguma felicidade temporal.
Do mais profundo de seu céu, o Pai onipotente acompanha os pobres esforços feitos pelo Criador para repor alguma ordem no mundo e dar um pouco de felicidade às criaturas que lhe são fiéis. Sem dúvida poderia desinteressar-se desse universo que nada é para ele; mas sua inefável bondade o impele a intervir nesse domínio inferior, tomado de compaixão pelas criaturas humanas, na miserável condição em que vivem e em que morrem. E Jesus vem à terra, manifestação humana do Deus soberanamente bom. Que é ele em relação a esse Deus supremo? Seu Filho? Sim, certamente; mas muitas vezes mal distinguido do Pai. Tudo está impregnado desse modalismo latente que foi a pedra de tropeço de todas as cristologias populares. Marcião mal faz diferença entre o Deus bom e Jesus; é o Deus bom, homem na aparência, assim como o Deus bom é Jesus despojado da veste emprestada e voltado ao seu primeiro estado. Esse modalismo não vai sem o docetismo que acompanha de ordinário toda cristologia modalista. No décimo quinto ano do reinado de Tibério, Jesus aparece na sinagoga de Tiberíades, homem feito que não conheceu nem as humilhações do nascimento, nem as lentidões do crescimento humano, e eis que começa suas pregações e seus milagres. Sua obra essencial consiste em desfazer a do Criador, em arruinar suas instituições, em substituir seus mandamentos por outros, em arrancar-lhe os homens. É verdadeiramente o Iox da parábola evangélica, Luc, xi, 21, 22, que sobrevém de improviso, derruba a sentinela de guarda no átrio e põe a casa a saque (Cf. Tertuliano, Adv. Marc. IV, xxiii, col. 411b c, que manteve a palavra grega, Quisquis es, eperchomenos; xxv, col. 422 D si eperchomenos tue). Marcião compraz-se em opor, nas Antíteses, seus preceitos aos mandamentos do Criador.
A redenção consiste, porém, em algo mais, e a paixão de Jesus constitui nela, aos olhos de Marcião, como aos da tradição católica, o acontecimento essencial. Perseguido pelo ódio dos representantes do judaísmo, sequazes do Criador, Jesus sofre e morre na cruz. Marcião recua, com efeito, diante do docetismo absoluto, que imaginava suprimir os sofrimentos e a morte do Cristo. A paixão é tão real, nem mais nem menos, quanto as outras ações humanas do Salvador. Assim como comia e bebia, assim pôde suportar os suplícios e finalmente morrer. Morto, desce aos infernos, como queria a antiga Igreja. É aqui que vai cumprir-se o primeiro ato da redenção, o mais importante com certeza, pois o advento do Salvador sobre a terra está, em suma, próximo do fim dos tempos; a grande parte dos homens já terminou sua carreira: está nos lugares subterrâneos onde o Criador mantém encerrados, em moradas distintas, de um lado os justos a quem prometeu uma felicidade ulterior sobre a terra, de outro os malditos já torturados por ele, à espera de castigos mais duros. Nos infernos, Jesus apresenta-se como libertador. É reconhecido como tal pelos malditos da Antiga Lei, gente de Sodoma e do Egito, pagãos de toda nacionalidade. E esse ato de fé lhes vale a salvação; ele os arrasta atrás de si para fazê-los penetrar no reino de seu Pai. Ao contrário, os justos do passado, que puseram sua confiança nas promessas do Criador, não querem reconhecer Jesus e salvar-se pela fé nele. Não resta ao Cristo senão abandoná-los à sua sorte, à espera do ajuste final.
Um escrúpulo, porém, detém Marcião: o ato do Cristo arrancando ao Criador seres que lhe pertencem de pleno direito, e sobre os quais ele próprio não tem nenhum poder, não constituiria um ato de violência, incompatível com o caráter soberanamente bom que lhe é atribuído? Não, diz Marcião. Pois esses homens Jesus não os arranca violentamente ao seu legítimo proprietário; ao contrário, compra-os dele por um contrato em boa e devida forma: os sofrimentos de sua paixão são o preço com que os paga. O marcionismo posterior desenvolveu, numa verdadeira cena mitológica, o encontro entre Jesus vitorioso e o Criador vencido, em que se conclui o negócio. Ver sobretudo Eznik, l. IV, c. i, n. 8, 9, e cf. Rivière, Un exposé marcionite de la rédemption, dans Revue des sciences religieuses, t. i, 1921, p. 185-207; 297-323. Não se encontra vestígio de semelhante encenação nas primeiras testemunhas do marcionismo.
Mas a ideia de uma compra (Marcião não diz um resgate) da humanidade pelo Cristo, paga pelos sofrimentos da cruz, ali se encontra claramente indicada, e transparece até nas modificações que o heresiarca fez sofrer a textos paulinos. (Sobre este ponto, importante para a história do dogma da redenção, ver Tertuliano, De carne Christi, 4; Si (Christus) non ab alio Deo est, magis adamavit (hominem) quando alienum redemit, P. L., t. ii, col. 759 A; Orígenes, In Exod., hom. vi, 9: Hæretici dicunt de Salvatore quia erant sui quos acquisivit; dato enim pretio mercatus est homines quos creator fecerat et certum est, aiunt, unumquemque illud emere, quod suum non est; apostolus enim ait: Pretio empti estis, P. G., t. xii, col. 358; Epifânio, Hæres. XLII, 8, ποίημα γὰρ ἦμεν ἑτέρου, καὶ διὰ τοῦτο ἡμᾶς αὐτὸς ἠγόραζεν εἰς ἑαυτοῦ ζωήν. P. G., t. xli, col. 705. Por outro lado, em Gal., ii, 20, em vez de ler O Filho de Deus me amou, etc., Marcião lê: ἐν πίστει ζῶ τοῦ υἱοῦ τοῦ Θεοῦ τοῦ ἀγοράσαντός με : o Filho de Deus me tem por comprado e entregou-se por mim. Não são apenas os homens que acabaram sua carreira terrestre que o Cristo comprou; direitos lhe são adquiridos sobre todos os que ainda passarão por cá. Mas, naturalmente, só terão parte na salvação os que aceitarem a mensagem do Cristo e puserem nele sua confiança. São em pequeno número, ao que parece, pois não parece a Marcião que a revelação de Jesus tenha tido um êxito triunfal. Depois de algumas tímidas tentativas de escapar ao domínio da lei judaica, os primeiros fiéis recaíram sob o jugo. Foi então que o Cristo ressuscitado se dirigiu a Paulo e, tendo-o arrebatado ao terceiro céu, revelou-lhe o verdadeiro Evangelho, isto é, o anúncio da justificação pela fé sem as obras da Lei. Quem quer que creia verdadeiramente no Cristo será salvo; e a fé basta, o que não quer dizer que se deva autorizar-se dessa máxima para entregar-se à desordem. Com indignação, Marcião repudia toda conclusão imoral do princípio que estabelece na esteira de Paulo. Não deixa, contudo, de insistir na inutilidade de excitar nas almas o temor dos julgamentos do Deus bom; Deus não julga ninguém.
4. Escatologia. — Um dia, porém, que será a consumação dos séculos, o Deus bom fará a partilha entre os que lhe pertencem pela fé e os que não souberam pôr sua esperança na cruz do Salvador. Para os primeiros é a salvação eterna e definitiva, salvação de suas almas somente, bem entendido, pois não poderia haver ressurreição dos corpos; esta só pôde ser prometida pelo Criador, inteiramente rebitado à matéria. Sem dúvida a ressurreição estava claramente indicada em I Cor., xv, mantido por Marcião; mas uma exegese enérgica dava às palavras de Paulo um sentido compatível com a doutrina; e mais tarde, na Igreja marcionita, modificar-se-á o v. 38, que se lerá: ὁ θεὸς δίδωσιν αὐτῷ πνεῦμα καθὼς ἠθέλησεν. Restam os aderentes impenitentes do Criador, com todos aqueles que, por razões diversas, não aderiram a Jesus; recaem sob o império do Deus justo, cujo fogo os consome e os aniquila definitivamente. Terminada essa tarefa, não resta ao Deus criador senão desaparecer também ele. Vindo não se sabe de onde, mergulha de volta não se sabe onde; na verdade, só era Deus na aparência e não na realidade.
5. Moral. A lei de justiça e a lei de caridade. — Toda essa dogmática prepara uma moral que será o oposto da moral judaica. Marcião não procura dissimular seu antinomismo; mas é preciso entender bem o que se designa por Antiga Lei; ele lhe censura seu ponto de partida e seu princípio tanto quanto suas regras. Ela é inteiramente dominada pelo sentimento do terror; aos mandamentos do Criador deve-se submeter pelo temor dos castigos com que ele ameaça os transgressores nesta vida e na outra. A obediência, ao contrário, garante a felicidade cá embaixo e para além da tumba. O Antigo Testamento está todo cheio dessas promessas de felicidade terrena e dessas ameaças de castigos temporais. Por outro lado, os preceitos que promulga são inspirados pelo sentimento da justiça no sentido mais estrito da palavra. "Não faças a outrem o que não queres que se faça a ti mesmo. Olho por olho; dente por dente", tais são as máximas que dominam sua lei. Quanto ao aparato complicado das prescrições cerimoniais e das proibições legais, constitui para as almas um fardo insuportável. Como o Deus bom de quem emana, a Lei nova é essencialmente lei de amor. Funda-se antes de tudo, como vimos, na fé no Cristo, fé que é ao mesmo tempo confiança e caridade. O verdadeiro cristão obedece porque ama, e não pela consideração das penas ou das recompensas. A própria consideração dos castigos está excluída, já que Deus não julga nem pune. E quanto às recompensas que promete, não são desta terra; antes, neste mundo, os verdadeiros fiéis devem esperar misérias e sofrimentos. As "bem-aventuranças" são reservadas aos pobres, aos que têm fome, aos que choram, aos que são perseguidos. Essa lei, cuja observância se funda no amor, faz recair sobre o próximo uma parte da afeição que o fiel dedica a Deus; a misericórdia, a compaixão, a bondade, eis sua primeira e sua última palavra.
Tudo isso não seria muito novo, e a Igreja católica havia percebido desde longo tempo a superioridade dos preceitos de Jesus sobre as prescrições judaicas. Ver sobretudo neste sentido a Carta de Barnabé. Ela havia preconizado igualmente a prática dos "conselhos" evangélicos; o ascetismo era coisa corrente na época de Marcião. Cf. Justino, Apol., I, 29, ἢ τὴν ἀρχὴν οὐκ ἐγαμοῦμεν εἰ μὴ ἐπὶ παίδων ἀνατροφῇ, ἢ παραιτούμενοι τὸ γήμασθαι τέλεον ἐνεγκρατευόμεθα, ver também o fim deste mesmo capítulo. P. G., VI, col. 373. A originalidade do heresiarca consiste em impor a todos, como preceito, o que o Cristo havia aconselhado a alguns, o que Paulo também havia considerado facultativo. I Cor., VII, 25 sq. Marcião lia, com efeito, neste mesmo capítulo, Bonum est homini mulierem non tangere; v. 7: Volo omnes vos esse sicut meipsum; e sobretudo v. 29: Quia tempus breve est, reliquum est ut et qui habent uxores tanquam non habentes sint.
Insistindo nessas passagens, sem levar em conta tudo o que as explicava, fazia da continência absoluta um dever para todos os fiéis. Nisso, é guiado muito menos pela consideração dos textos evangélicos ou paulinos do que por considerações de ordem metafísica, que parecia ter-se aplicado em banir de seu sistema. A matéria preexistente é, para ele, o princípio de todo mal; cf. acima, col. 2020; a carne é má e fonte de todo pecado. O que a multiplica não poderia ser bom; e a obra da carne só serve para perpetuar o mundo mau do demiurgo. Abster-se do casamento é pôr este em xeque. Ver o argumento expressamente indicado em Hipólito, Philos., X, 19, P. G., t. XVI c, col. 3438; em Clemente de Alexandria, Strom., III, III, t. VIII, col. 1113. O casamento é uma violação e uma fornicação, φθορὰ καὶ πορνεία, e na Igreja marcionita só se confere o batismo aos celibatários ou às pessoas casadas separadas de seus cônjuges. Ver o detalhe dos textos em Harnack, p. 277*. Do ponto de vista alimentar, Marcião prescrevia a abstinência perpétua; a carne era proibida, mas não o peixe. Cf. Tertull., Adv. Marc, I, XIV, P. L., t. II, col. 262 B. Reprobas et mare, sed usque ad copias ejus, quas sanctiorem cibum deputas. Jejuava-se absolutamente no sábado. Assim o marcionismo desemboca naquilo que se convencionou chamar encratismo absoluto; sua influência, desse ponto de vista, será muito considerável em todo o mundo cristão desde o fim do século II.
6. A Igreja. — Esse dogma, essa moral perpetuam-se numa comunidade que parece ter-se empenhado em imitar muito de perto a grande Igreja. "Enquanto os gnósticos de todos os matizes não chegavam, como diz L. Duchesne, senão a fundar lojas de iniciados, de alto ou baixo nível, encontrou-se um homem que empreendeu depurar de todo esse amontoado algumas ideias simples..., fundar sobre elas uma religião e dar-lhe como expressão não mais uma confraria secreta, mas uma Igreja." Histoire ancienne de l'Église, t. I, 3e édit., p. 182. Aqui ainda ele vai ao mais urgente, sem se preocupar em ligar de outro modo o estabelecimento eclesiástico que funda com a instituição inaugurada por Jesus, continuada pelos primeiros apóstolos, retomada em sub-obra por São Paulo. Que foi feito em seguida dessa Igreja de Jesus e de Paulo, até o dia em que Marcião tentou voltar à pureza primitiva, o inovador não o pergunta. Seus contraditores terão o belo papel e o triunfo fácil quando o intimarem a exibir seus títulos para suceder ao Apóstolo. Dessas discussões jurídicas, que logo em seguida vão encher a obra dos controversistas católicos, Marcião pouco se preocupa. A legitimidade de sua Igreja ele a prova por seu próprio estabelecimento, pelo cuidado de nela fazer ensinar a pura doutrina de Jesus e de Paulo. Vimos, col. 2012, que a dotou de um Instrumentum que deve fazer lei e constituir a regra suprema da doutrina. Ficaria, aliás, muito embaraçado para estabelecer os princípios em nome dos quais escolhe os Livros santos que quer conservar, abrevia, mutila, e interpreta o texto sagrado. Em que autoridade se funda para empreender esse trabalho? Não parece que tenha apelado, como outros inovadores, um Montano, um Mani, um Maomé, a alguma revelação particular. Parte simplesmente da persuasão de que o Evangelho entregue por Jesus a Paulo foi contaminado pelo uso, e de que as cartas do Apóstolo foram adulteradas. Sobre isso talha, corta, ajusta. É o triunfo do livre exame e da interpretação privada. A obra de adaptação, de ajuste, continuará depois dele, e jamais os discípulos de Marcião considerarão o texto estabelecido pelo mestre como a lição ne varietur.
Tal qual, fundada simplesmente na autoridade de Marcião, a nova comunidade não deixa de apresentar-se como a santa Igreja, nossa mãe. O "reformador" encontra dela clara menção numa passagem da Epístola aos Gálatas, que comenta como segue, Gal. iv, 24 (Os dois filhos de Abraão): são os dois testamentos, um, partido do Sinai e desembocando na sinagoga, gerando servidão, a lei dos judeus, a segundo a lei; o outro, desembocando em algo que está acima de toda autoridade, de todo poder, de toda potência, de todo nome, naquilo que proclamamos a santa Igreja, que é nossa mãe. (Texto grego restituído por Harnack, p. 74*, segundo Tertuliano, Adv. Marc., V, iv, col. 478 A-B: ἄλλῃ δὲ ὑπεράνω πάσης ἀρχῆς γεννῶσα, καὶ δυνάμεως, καὶ ἐξουσίας, καὶ παντὸς ὀνόματος... εἰς ἣν ἐπηγγειλάμεθα ἁγίαν ἐκκλησίαν, ἥτις ἐστὶν μήτηρ ἡμῶν). Nessa Igreja entra-se pelos mesmos ritos de iniciação que na grande Igreja: batismo na água, unção de óleo, apresentação aos neófitos de uma mistura de leite e mel, enfim celebração da eucaristia. Tertuliano, Adv. Marc., I, xiv, col. 262 A. No início, pelo menos, não se rebatizavam os católicos que vinham ao marcionismo; é a razão que invoca o papa Estêvão para proibir que se rebatizem aqueles dos hereges que vêm ao catolicismo: cum ipsi hæretici proprie alterutrum ad se venientes non baptizent sed communicent tantum. P. L., t. III, col. 1010. Quanto à eucaristia, há consagração do pão por palavras de ação de graças; quanto ao cálice, continha apenas água. Epifânio, Hérésies, XLII, 3, P. G., t. XLI, col. 700. O bispo de Salamina observa que os marcionitas que ele conhece praticam vários batismos sucessivos, sendo o 2º e o 3º reservados à expiação das faltas cometidas depois do primeiro, e constituindo como que um rito penitencial. Acrescenta esta observação, a de que os celebram sem nenhum segredo diante dos catecúmenos, o que Tertuliano havia admitido; os próprios pagãos eram admitidos. Cf. De præscriptione, 41, P. L., t. II, col. 56.
Essa grande simplicidade, essa espécie de desleixo que escandalizava os católicos, habituados à disciplina do arcano, não impedia a seita de manter a distinção entre os fiéis. O próprio clero contava diáconos, presbíteros e bispos, e num texto que visa os hereges em geral, mas que deve aplicar-se aos marcionitas, Tertuliano fala de leitores. É verdade que, segundo esse mesmo texto, a distinção entre os diversos ofícios não era tão claramente marcada quanto entre os católicos.
De præscript., 41: Ordinationes eorum temerariae, leves, inconstantes; neophytos collocant, nunc saeculo obstrictos, nunc apostatas nostros, ut gloria eos obligent quia veritate non possunt. Nusquam facilius proficitur quam in castris rebellium, ubi ipsum esse illic promereri est. Itaque alius hodie episcopus, cras alius; hodie diaconus, qui cras lector; hodie presbyter, qui cras laicus; nam et laicis sacerdotalia munera injungunt. A. Harnack faz observar, p. 117, que não se deveriam tomar ao pé da letra as palavras de Tertuliano; havia, entre os marcionitas, uma hierarquia verdadeira: tinha, contudo, uma aparência menos rígida que entre os católicos. Notar-se-á, enfim, que, segundo Tertuliano e Epifânio, as mulheres desempenhavam certas funções litúrgicas, inclusive a administração do batismo. Um último traço completará a caracterização das comunidades marcionitas: é a predominância verossímil dos catecúmenos sobre os fiéis completamente iniciados. Temos aqui um fenômeno análogo ao que se encontrará mais tarde entre os maniqueus. Cf. acima, col. 1881. A profissão do marcionismo integral não ia sem renúncias particularmente penosas, que era difícil exigir da grande massa dos convertidos; não se podia receber o batismo sem fazer voto de continência. Tertuliano o diz expressamente: Adv. Marc., IV, xxxiv, col. 442 C: Nec alibi conjunctos ad sacramentum baptismatis et eucharistiae admittens, nisi inter se conjuraverint adversus fructum nuptiarum. Bom número de pessoas devia, pois, permanecer nas fileiras do catecumenato, onde as prescrições ascéticas não tinham a mesma rigidez. Notemos, aliás, que um fenômeno análogo, embora de menor envergadura, se passava na Igreja católica. Tal é a Igreja marcionita, apresentando exteriormente uma fisionomia análoga à de sua rival. É dessa Igreja que se deve estudar o desenvolvimento ulterior.
IV. DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DO MARCIONISMO. — 1° História exterior. — Nascido em Roma, o marcionismo não tardou a espalhar-se pelas diversas regiões do Império. Apesar da ausência de informações precisas sobre os meios de propaganda por ele empregados e sobre seu êxito, pode-se seguir sua expansão anotando nos escritores católicos os gritos de alarme que lhes arrancam os progressos da seita. Entre meados e fins do século II, é aí que está o imenso perigo para a grande Igreja. Julgar-se-á por isso pelas numerosas refutações que a heresia suscita, desde a de Justino, por volta de 150, até as polêmicas de Tertuliano, nos últimos anos do período. Ver acima, col. 2009. Notar-se-á que a luta é conduzida tanto no Ocidente (Justino, Irineu, Tertuliano, um pouco mais tarde Hipólito) quanto no Oriente, em Corinto, Gortina (Creta), Antioquia, Sardes, um pouco mais tarde Alexandria. É verossímil que, em quase todas as cidades de alguma importância, uma Igreja marcionita se erguesse diante da comunidade católica. Como já se indicou, a aspereza da polêmica manifesta bastante a consciência que os autores eclesiásticos têm da grandeza do perigo; não é apenas em Tertuliano que se a constata, mas em Clemente, em Orígenes, tão acolhedores de ordinário para todas as formas de especulação. Notar-se-á, aliás, que essa polêmica deu aos defensores da tradição católica a ocasião de aprofundar os argumentos de direito e de fato sobre os quais repousavam as verdades ensinadas pela Igreja. Se é paradoxal ao último ponto pretender, com muitos críticos liberais, que os princípios gerais do catolicismo, autoridade da Escritura e da tradição, sucessão apostólica, depósito da fé, valor da Igreja, se formaram, por uma espécie de geração espontânea, em reação contra o marcionismo, é claro, contudo, que desses princípios os escritores católicos foram levados a tomar uma consciência cada vez mais nítida diante dos excessos marcionitas.
Quaisquer que sejam, aliás, os motivos que levaram a esse desenvolvimento extraordinário da seita, parece que, ao menos para o Ocidente, o perigo está conjurado por volta de meados do século III. Os ganhos muito importantes que o catolicismo fez então nas diversas regiões acabaram sem dúvida por lhe dar a preponderância sobre o marcionismo. Os primeiros polemistas haviam feito notar, com muito mau humor, que a propaganda marcionita, bastante pouco preocupada em converter os pagãos, buscava sobretudo seus recrutas no seio da grande Igreja. Esta, fortalecendo-se, tomando mais nítida consciência de sua missão e de seus deveres, menos atormentada pela autoridade romana, parece ter resistido melhor às tentativas de aliciamento. Em todo caso, por volta de 250, o perigo marcionita parece, na África, muito menos inquietante do que meio século antes; São Cipriano, por ocasião da querela sobre o batismo dos hereges, mal fala da seita senão por ouvir dizer, e não parece ter da doutrina marcionita um conhecimento pessoal. Em Roma, a maneira como Novaciano polemiza por ocasião contra ela tampouco indica uma animosidade particular. Os textos estão anotados em Harnack, p. 335* n. 5. As alusões que lhe faz o papa Dionísio em sua carta a Dionísio de Alexandria não implicam mais uma preocupação especial, Ep. adv. Sabell., em Atanásio, De decret. Nic., c. 26, P. G., t. XXV, col. 464 A. Em meados do século IV, não há mais marcionitas no Ocidente; se se fala deles, é por ocasião da polêmica antimaniqueia e antipriscilianista, e porque se notou, lendo os velhos heresiólogos, o parentesco exterior que une as seitas novas à antiga.
Passa-se de outro modo no Oriente, onde a Igreja marcionita conservou por muito tempo bela vitalidade. Conhecera, como a Igreja católica, a perseguição no tempo de Valeriano e depois de Diocleciano, e podia gloriar-se de alguns mártires; aproveitou, como sua rival, a tolerância concedida pelo edito de Milão. Sabe-se que esse edito proclamava a liberdade quase absoluta dos cultos.
Os marcionitas beneficiaram-se dela como todas as outras confissões religiosas; seus lugares de culto puderam mostrar-se à luz do dia, e foi encontrada em Deïr-Ali, a 5 quilômetros ao sul de Damasco, uma inscrição que figurava na fachada da igreja marcionita do local: συναγωγὴ μαρκιωνιστῶν; ela é datada do ano 630 dos Selêucidas, 318-319 da nossa era. Sobre essa inscrição, ver Harnack, p. 341*-344*, que remete a outros trabalhos publicados por ele sobre o assunto. Aliás, é sobretudo na Síria meridional e na Palestina que o marcionismo prosperava. Cirilo de Jerusalém insiste nisso várias vezes em suas catequeses, vi, 16; xvi, 3; xviii, 26, P. G., xxxiii, col. 564, 921, 1048. Em Laodiceia da Síria, o símbolo batismal dirige expressamente seu primeiro artigo contra o marcionismo: Πιστεύομεν εἰς ἕνα θεόν, τουτέστιν εἰς μίαν ἀρχήν, τὸν θεὸν τοῦ νόμου καὶ εὐαγγελίου, δίκαιον καὶ ἀγαθόν. Cf. Caspari, Alte und neue Quellen zur Geschichte des Taufsymbols, Christiania, 1879, p. 20, cf. p. 138 sq. Em Chipre, a cidade de Salamina, segundo João Crisóstomo, era literalmente assediada pela heresia marcionita. Epist., ccxxi, P. G., t. lii, col. 733. Antioquia, a julgar pelas numerosas alusões do mesmo santo, não devia estar em situação muito melhor. Mas sobretudo a densidade do marcionismo e sua influência cresciam quando se penetrava nas regiões de língua siríaca. No fim do século IV, ele constitui, de par com o maniqueísmo, o grande rival da Igreja católica. São Efrém preocupa-se muito com ele e multiplica contra ele os ataques; meio século mais tarde, Teodoreto, bispo de Ciro, na Síria eufratesiana, ainda lutava contra ele e obtinha, entre os seus adeptos, numerosas conversões. Epist., lxxxi, cxiii, cxiv, P. G., t. lxxxiii, col. 1261 C, 1316 C, 1384 C. O lugar que o heresiólogo Eznik de Kolb reserva aos marcionitas em seu De sectis testemunha que na Armênia, por volta de 450, ainda havia motivo para preocupar-se com o perigo.
Não que a autoridade civil tivesse descuidado dos meios de coerção. Sabe-se que a tolerância religiosa universal proclamada em 313 durou muito pouco tempo; tendo adotado o cristianismo como religião de Estado, o Império romano não tardou a tornar a vida dura a quem quer que não se conformasse à ortodoxia oficial. Embora não sejam especialmente visados pela legislação dirigida contra os hereges, os marcionitas, não se pode duvidar, foram por ela atingidos: proibição de chamar suas comunidades de Igrejas; proibição de que seus dignitários tomassem os títulos de bispo, presbítero ou diácono; ordem de destruir seus livros. Ver Código Teodosiano, XVI, tit. i, n. 2 (de 380); tit. v, n. 5 (de 379); n. 34 (de 398). Compreende-se então que, nas grandes cidades, onde a administração zelava pela execução das leis, os marcionitas tenham acabado por desaparecer; os dois historiadores Sócrates e Sozomeno, ambos de Constantinopla, nem sequer pronunciam o seu nome; em Alexandria não se ouve mais falar deles. Nas próprias regiões em que os marcionitas são mais numerosos, é antes nos campos recuados que é preciso procurá-los, onde se sentem ao abrigo das investigações dos bispos católicos e dos magistrados imperiais.
Eles ali perseveraram por muito tempo, pois, no século X, o enciclopedista árabe An-Nadim, ver col. 1853, ainda reserva um lugar aos marcionitas no Fihrist; An-Nadim distingue-os nitidamente dos maniqueus, descreve de maneira bastante exata suas doutrinas, conhece o Evangelho redigido por Marcião e sabe que o seu culto é público. Segundo ele, seriam sobretudo numerosos no Khorassan. G. Flügel, Mani, p. 160. Em contrapartida, os dados fornecidos no século XI por Sharastâni, no XII por Barhebræus parecem puramente livrescos. Se ainda existiam em sua época, nas regiões passadas à dominação do Islã, ilhotas marcionitas, eles não as conheceram. No império bizantino tinham desaparecido havia muito mais tempo, a menos que se queira encontrar seus descendentes nos misteriosos paulicianos do século VII, sobre os quais está longe de ter sido dita a última palavra. Façamos notar apenas, para terminar, que os contatos bastante numerosos que existem entre maniqueísmo e marcionismo bem podem ter levado, em diversos lugares, a aproximações ou mesmo a fusões entre os sectários de Mani e os fiéis de Marcião, de sorte que nem sempre é fácil distinguir as duas correntes.
2° História interna. A doutrina de Marcião se constituíra quase exclusivamente pelo estudo, pela meditação, pela crítica dos dados da Bíblia. Mas pretender edificar um ensino coerente sem recorrer a outra coisa que não a Bíblia só pode ser uma aposta temerária; há um mínimo de metafísica que se impõe a todos os exegetas e que não se poderia pôr de lado sem perigo; e, se é fácil falar mal da especulação teológica, é mais difícil dispensá-la. Aliás, a doutrina, tal como saía do pensamento do inovador, estava longe de apresentar perfeita coerência e, em suma, colocava tantos problemas quantos resolvia. Não podemos dizer se, ainda em vida do heresiarca, sentiu-se a necessidade de especular sobre os fundamentos filosóficos do sistema; mas é certo que, pouco tempo depois de sua morte, começavam as discussões e também as divisões. Sem dúvida permaneceu-se fiel, no conjunto, a um certo número de postulados fundamentais: rejeição do Antigo Testamento e do Deus criador; necessidade da fé no Deus redentor; necessidade da ascese. Todos esses pontos se encontram nas descrições heresiológicas, por mais distantes que estejam das origens. Mas, quanto ao fundo mesmo do sistema, as divergências não faltaram e a especulação escolástica, se ousamos dizê-lo, acabou por desembocar em verdadeiros cismas.
O primeiro produziu-se desde o último terço do século II; sabemo-lo por Rodão, um asiático vindo a Roma, que compôs um livro contra a heresia de Marcião. Eusébio, que teve o livro em mãos, cita dele alguns extratos. H. E., v, xiii, P. G., t. xx, col. 464 ff. Rodão, diz-nos ele, conta que em seu tempo a seita se dividia em diferentes opiniões; cita os autores dessa dissensão e refuta com exato cuidado as falsas alegações imaginadas por cada um deles.
E Eusébio cita um texto de Rodão, segundo o qual, em suma, três tendências já se faziam notar desde esse momento. Apeles, de um lado, só reconhecia um único princípio, contentando-se em atribuir as profecias ao demônio (mia archê, omologeî, mê... pneuma tou enantion). Em outros termos, Apeles voltava ao monismo, e só se desfazia do Antigo Testamento atribuindo-o a um espírito criado. Sobre Apeles e o cisma que ele criou, ver t. I, col. 155. Sobre Lucano ou LUCIANO, ver t. IX, col. 1002, 1003. Outros, continua Rodão, na esteira do próprio Marcião, introduzem dois princípios; destes são Síneros e Basílico. Eles também seguiam o Pontino, e como não encontravam, não mais do que ele, a divisão das coisas, tên diairesin tôn pragmatôn, safaram-se com destreza e declararam seus dois princípios simplesmente e sem prova. Entenda-se que essa escola postulou simplesmente o dualismo do Deus criador e do Deus redentor, sem buscar nenhuma demonstração dessa enormidade metafísica. «Outros, diz enfim Rodão, afastaram-se ainda deles para ir a algo pior; estabeleceram não apenas duas, mas três naturezas... seu chefe e presidente é Síneros, conforme afirmam os que atacam a sua escola.» Quais eram os três princípios afirmados aqui? Dois deuses, de um lado, e, verossimilmente, ao lado deles a matéria incriada, cuja existência Marcião havia postulado sem se preocupar em saber se era preciso equipará-la aos outros dois princípios que ele põe em ação; a menos que se trate de um espírito mau assimilável, até certo ponto, ao Criador e ao Redentor.
Partidários de dois ou de três princípios, se não se uniram do ponto de vista eclesiástico, nem por isso deixaram de continuar a brigar entre si. O diálogo dito de Adamâncio, cf. acima, col. 2011, expõe de maneira muito precisa o antagonismo das duas escolas. Dois interlocutores de Adamâncio, o primeiro, pelos três princípios. Ele dava o Deus bom, pai de Cristo, que é o Deus dos cristãos; o demiurgo, que é o Deus dos judeus; enfim um princípio mau, que é o Deus dos pagãos. Dial., I, P. G., t. XI, col. 1717 B. Marcos, ao contrário, reconhece apenas dois princípios, independentes, eternos, coexistentes, tendo cada um a sua criação, um bom, o outro mau; a palavra πονηρός, empregada por Marcos para caracterizar o Deus do Antigo Testamento, não deve enganar: trata-se bem do mesmo «Deus justo» de Marcião; é assim chamado por comparação com o Deus bom. Mas onde Marcos parece separar-se nitidamente de Marcião é quando descobre no homem uma centelha de vida que provém não do Criador, mas do Deus bom: Creator, cum plasmavit hominem et eum insufflavit in perfectione explicare. Videns autem desuper bonus Deus voluntatem creatoris et palpitare misit ex proprio spiritu et vivificavit hominem. Dial., II, ibid., col. 1772 A. Esse dado, que se encontra em numerosos gnósticos, e em termos próprios em Saturnino, e que é também um dos princípios fundamentais do maniqueísmo, constituía uma deformação importante do marcionismo primitivo.
Seria difícil dizer qual das duas tendências, a de Marcos (dois princípios) ou a de Megécio (três princípios), prevaleceu. É notável, em todo caso, que a partir de meados do século III as testemunhas católicas falam, o mais comumente, dos três princípios (τρεῖς ἀρχαί, às vezes τρεῖς ὑποστάσεις, às vezes τρεῖς φύσεις) do marcionismo. Ver a indicação dos textos em Harnack, p. 166. Observar-se-á somente que, entre as testemunhas que falam de três princípios, umas entendem três princípios pessoais, ao passo que outras, ao lado do Deus criador e do Deus redentor, põem a matéria. Gregório de Nazianzo é muito preciso neste último sentido: οἱ τρεῖς φύσεις τιθέντες οὐ κινουμένας, τὴν πνεύματος, χοός τε, τὴν τ’ ἀμφοῖν μέσην. De seipso, vers 1181 P. G., t. XXXVII, col. 1109. Não nos surpreenderemos, pois, de ouvir falar às vezes de quatro princípios, a saber: as três pessoas do Deus bom, do demiurgo e do espírito mau, e ao lado delas a matéria. Cf. Hipólito, Philosoph., X, xix, P. G., t. XVI c, col. 3435. Seria de mau tom censurar nas testemunhas católicas essas aparentes contradições que existem entre elas. É nas divergências das diversas escolas que elas encontram a sua explicação, e testemunham, à sua maneira, a ausência de doutrina metafísica nas próprias origens do sistema. A partir do dia em que o maniqueísmo vier somar-se ainda, como causa de contaminação, a essa razão essencial, poderá tornar-se muito delicado fazer a partilha entre o que, em certos textos, cabe à doutrina de Marcião e o que é propriamente a doutrina de Mani.
Afora esse ponto capital, assinalaram-se em alguns pontos de detalhe divergências apreciáveis. A exposição toda mitológica que Eznik dá da criação do homem segundo os marcionitas é certamente alheia ao pensamento do marcionismo primitivo. Dir-se-á o mesmo da cristologia que santo Hipólito atribui a um marcionita de origem aramaica, vindo a Roma por volta de sua época e que ele chama Prépon. O Cristo, segundo ele, é um princípio intermediário entre o princípio bom e o princípio mau. Philosoph., VII, xxxi, col. 3334. Epifânio deve estar pensando em alguma teoria análoga quando declara que, segundo certos marcionitas, o Cristo teria sido filho, não do Deus bom, mas do demiurgo, mas que, tendo-se tornado mais misericordioso que seu pai, o teria abandonado para subir às regiões superiores, rumo ao Deus bom, de onde teria voltado depois a este baixo mundo para julgar seu próprio pai e destruir suas leis e seus decretos. Hæres., XLII, 13, P. G., t. XLII, col. 813. Assinalar-se-á enfim o ar todo antropomórfico que assume, em Eznik, a doutrina da redenção. Mas, embora tudo isso nos afaste consideravelmente, na aparência, do marcionismo primitivo, permanece verdadeiro que, até o seu desaparecimento, a Igreja de Marcião permaneceu fiel ao pensamento essencial do mestre.
Ela continuou a ver no cristianismo uma religião que bastava a si mesma, na mensagem evangélica uma revelação súbita que absolutamente nada havia preparado, nos ensinamentos de Jesus uma doutrina tão nova que se achava em oposição absoluta com os dogmas do passado, em seus preceitos uma moral que era impossível harmonizar com a do Antigo Testamento. Era o erro capital, do qual todos os outros decorriam, a começar pelo monstruoso ditéismo que ninguém, fora Apeles, se aplicou a corrigir. Que uma concepção religiosa tão contrária à lógica tenha podido seduzir bom número de almas sinceras, é sinal de que, desde o século II, muitos pensadores haviam notado as dificuldades que levanta a conservação, pela Igreja, da Bíblia judaica tomada em seu conjunto. Dessas dificuldades uma exegese vigorosamente alegórica fez desvanecer, pouco a pouco, as principais. Desde o dia em que esta deixou de ser possível, um discernimento mais exato das etapas sucessivas da revelação, um conceito mais preciso do progresso insensível das ideias religiosas permitiram eliminá-las de outra maneira. O mal-estar, contudo, que provoca, em espíritos libertos de todas as autoridades tradicionais, a consideração desses problemas explica a simpatia com que se acaba de falar, em certos meios, da ofensiva marcionita contra o Antigo Testamento. Os verdadeiros cristãos julgarão de outro modo; advertidos tanto pela tradição eclesiástica quanto pelo senso da história, só poderão considerar vã e inoperante uma concepção do cristianismo que não o ligue às suas mais longínquas origens, ao Deus dos patriarcas e dos profetas, que «depois de ter falado muitas vezes e de diversas maneiras, falou-nos nestes últimos tempos por seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por quem também criou o mundo.» Hebr., i, 1, 2.
I. Fontes. Elas foram brevemente recenseadas no corpo do artigo. O inventário mais completo é fornecido pelo trabalho capital de A. von Harnack, Marcion: Das Evangelium vom fremden Gott. Eine Monographie zur Geschichte der Grundlegung der katholischen Kirche, 1ª edição 1921; 2ª edição 1924 = Texte und Untersuchungen, t. XLV. A obra é dividida em duas partes com paginações diferentes; a primeira, simples exposição, a segunda dando in extenso os documentos em que se funda a narração. É nesta parte que se devem buscar, com a reconstituição dos livros marcionitas (Apostolicon, p. 40* sq., Evangelho, p. 177* sq., Antíteses, p. 256* sq.), os testemunhos relativos, de um lado, à pessoa de Marcião, p. 3* sq., de outro, à doutrina e à Igreja marcionita, p. 314*-400*. Os últimos documentos, p. 401* sq., referem-se a Lucano, Apeles, ao neomarcionita Patrício. Esse trabalho magistral deixa muito atrás de si as empresas análogas.
II. Trabalhos. 1° Trabalhos gerais. A questão marcionita situa-se na confluência de vários problemas importantíssimos: formação do texto e do cânon bíblico, organização antiga da Igreja, valor respectivo da tradição, da autoridade e do raciocínio, formação dos dogmas. Não nos surpreenderemos, pois, de encontrar nela alusões mais ou menos importantes seja nas Introduções ao Novo Testamento, seja nas Histórias gerais da Igreja, seja nas Histórias dos dogmas. Entre estas últimas é preciso citar particularmente a de A. Harnack, Lehrbuch der Dogmengeschichte, que, já em sua 1ª edição, 1885, dava uma orientação inteiramente nova às pesquisas, separando nitidamente o marcionismo do gnosticismo; esse ponto de vista foi adotado por L. Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, t. I, por J. Tixeront, Histoire des dogmes, t. I (1ª edição, 1905), e por de Faye. Em contrapartida, as antigas histórias dos dogmas ou das heresias geralmente dão lugar ao marcionismo na descrição do gnosticismo. Bousset, por sua vez, Hauptprobleme der Gnosis..., 1907, liga o marcionismo ao maniqueísmo. Ver os principais trabalhos enumerados no art. Gnosticismo, t. VI, col. 1467.
2° Trabalhos especiais. Podem-se negligenciar quase inteiramente as antigas monografias (são bastante numerosas); só haveria interesse em recenseá-las se se quisesse escrever uma história da questão marcionita. Assinalaremos algumas das mais características. No século XVIII, Loeffler (na realidade Wegener), Marcionem Pauli epistolas Lucæ evangelium adulterasse (tese), Trajecti ad Viadrum (Frankfurt an der Oder). No século XIX, alguns trabalhos importantes de Aug. Hahn, Dissert. de gnosi Marcionis antinomi, Königsberg, pars I, 1820, pars II, 1821; Antithèses Marcionis gnostici liber deperditus, nunc quoad ejus fieri potuit restitutio, Königsberg, 1823; Marcionis antinomi, pars I, 1824, pars II, 1826; todos esses finos opúsculos contribuíram para colocar no bom caminho. H. Rhode, Prolegomena ad quæstionem de evangelio apostoloque Marcionis denuo instituendam, Breslau, 1834; A. Ritschl, Das Evangelium Marcion's und das kanonische Evangelium des Lucas, Tubinga, 1846; fiel às concepções de Baur, Ritschl faz do Evangelho de Marcião a fonte de Lucas! D. Harting, Quæstionem de Marcione Lucani Evangelii ut fertur adulteratore, collatis Hahnii, Ritschelii aliorumque sententiis, novo examini subjecit, Utrecht, 1849. A. Hilgenfeld, Kritische Untersuchungen über die Evangelien Justin's, der clementinischen Homilien und Marcions, Halle, 1850. G. Volckmar, Das Evangelium Marcion's, Text und Kritik, mit Rücksicht auf den Evangelien des Märtyrers Justin, der Clementinen und der apostolischen Väter, Leipzig, 1852, ver p. 1-23, um copioso estado da questão na data em que foi escrito o livro. H. U. Meijboom, Marcion en de Marcionieten, Leida, 1887. Ver também os artigos de G. Salmon, no Dict. of Christian Biography, t. III, 1882, p. 816-824; de G. Krüger, na Protest. Realencyclopädie, 3ª edição, t. XII, 1903, p. 266-277. A monografia de A. von Harnack cujo título é dado acima teve por ponto de partida um trabalho de juventude redigido em 1870, e que sempre permaneceu em andamento até 1920. O aparecimento do livro em 1921 suscitou críticas de diversos gêneros, às quais o autor respondeu em Neue Studien zu Marcion, em Texte und Untersuchungen, t. XLIV, fasc. 4.
É. Amann.
Autor original: E. Amann
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