MARCHANT Pedro (1585-1661), recoleto, irmão do precedente, era também ele originário de Couvin (diocese de Namur). Um de seus tios, o P. Jacques Marchant, fora provincial da observância, e foi sem dúvida o seu exemplo que o atraiu à ordem seráfica, em 1601, ano em que a reforma dos recoletos acabava de ser introduzida nos Países Baixos. O P. Marchant haveria de tornar-se um dos seus mais firmes esteios e uma das suas mais jovens figuras. Ainda jovem, começou como lente, depois chegou aos primeiros cargos; acompanhamo-lo sucessivamente como provincial, definidor e comissário geral das províncias da Alemanha, da Bélgica e da Grã-Bretanha. Em 1628, dividiu a província de Flandres em duas: o país flamengo, que se tornou a província de São José, e a Valônia, que conservou o antigo título.
Apesar de todas as suas funções, o P. Marchant encontrou tempo para escrever numerosos opúsculos e obras, dos quais mencionaremos os que entram no quadro do dicionário. Muito devoto do patriarca são José, não pudera ver sem emoção um cônego de Tournai, Claude Dausque, atacar a opinião emitida por Gerson, retomada por João Eck e sustentada mais recentemente pelo franciscano João de Cartagena, sobre a santificação de são José no seio de sua mãe. Publicou, para defendê-la, um opúsculo intitulado Sanctificatio S. Josephi sponsi Virginis, nutritii Jesu, in utero asserta, pro R. P. F. Joanne Carthagena, ord. s. Francisci... contra R. D. Claudii Dausquii... calumnias, Bruges, s. d. (1630). O cônego respondeu ao seu contraditor por um escrito dedicado a Urbano VIII, Sancti Josephi sanctificatio extra uterum, seu binoctium adversus F. Marchantii inanias... item aplysiarum FF. Minorum Audomarensium spongia... in-8°, Lyon, 1631. A segunda parte era dirigida contra o opúsculo Institution de la sodalité du bienheureux S. Joseph érigée en l'église des frères mineurs de l'observance de Saint-Omer. A réplica não tardou, sob o título Fastus dies illustrans Sponsi Mariae, ab nutritii Jesu gratiosam sanctificationem in utero, eo quem Pater sanctificarit et misit in mundum, contra R. D. Cl. Dausquii... binoctium, in-8°, Gand, 1632; em seguida, o autor reproduzia o seu primeiro opúsculo. Desta vez a resposta veio de Roma: um decreto do Índice, publicado a 19 de maio de 1633, promulgava a condenação do opúsculo do P. Marchant, pronunciada a 21 de abril do ano precedente, e a do Institution de la sodalité.
Durante essa controvérsia, o provincial dos recoletos editara uma obra que assegurava ao seu nome uma notoriedade sempre atual na família franciscana: era a sua Expositio litteralis in regulam S. Francisci, juxta declarationes summorum Pontificum Nicolai III et Clementis V ac sanctorum expositorum clare et distincte quaestionibus ac dubiis distributa, in-12, Anvers, 1631, 2e édit., ibid., 1648, Venise, 1715. Mais tarde fez aparecer uma obra mais importante como volume, mas mais esquecida, Fundamenta duodecim ordinis fratrum minorum : fundamentis duodecim apostolorum S. Francisci civitatis Jerusalem superaedificata, ipso summo angulari lapide Christo Jesu. Accedit ad calcem brevis explicatio Testamenti S. P. Francisci et chronologia generalium ordinis, in-fol., Bruxelles, 1657.
Durante os quarenta anos de sua vida consagrados ora aos estudos, ora ao ensino, o P. Pedro Marchant lamentara muitas vezes a falta de uma Suma de teologia moral para uso dos confessores. Para supri-la, compôs a sua obra principal, Tribunal sacramentale et visibile animarum in hac vita mortali, tomis duobus explicatum quorum primus : universam materiam quae ad tribunal sacramentale paenitentiae spectat... sex tractatibus comprehendit. Secundus omnia peccata omnesque causas duodecim tractatibus reducit, 2 in-fol., Gand, 1642-1643. Mais tarde publicou o Tertius tomus tribunalis sacramentalis, complectens omnium statuum, graduum, officiorum naturam, obligationes, peccata, sive speculum totius hominis christiani, Anvers, 1650, a obra completa, Anvers, 1655, Cologne, 1672, em 3 in-fol.; e na edição de 1655, o autor acrescentara Resolutiones notabiles variorum casuum et quaestionum, a multis hactenus desiderata, publicadas igualmente à parte.
Nesta obra, escreve o P. Dirks, o tratado do probabilismo é luminoso e completo... A opinião provável, para tornar-se prática, não deve contradizer nem o dogma, nem a lei, nem as verdades geralmente admitidas na Igreja, nem um princípio evidente; é preciso que se apoie em bons motivos e não contradiga o ensino dominante dos doutores. Depois de defender o autor contra toda suspeita de jansenismo, o P. Dirks termina lamentando que o Tribunal sacramentale não seja mais conhecido, pois, com seus raciocínios sólidos e sua casuística fundada no bom senso e na experiência, apresenta um espécime perfeito da teologia escotista adaptada às condições da Igreja católica — depois das grandes perturbações do século XVII ». Citemos ainda um tratado canônico, Baculus pastoralis, sive potestas episcoporum in religiones exemptas ab originibus suis explicata, in-8°, Bruges, 1638, no qual o P. Marchant examina com perfeita moderação a origem e os limites da isenção dos religiosos.
Como obras de espiritualidade, temos dele uma Expositio mystico-litteralis sanctissimi incruenti sacrificii Missae, in-12, Anvers, 1653, Gand, 1660; L'image du vray chrestien sur le pourtrait de la règle du Tiers-Ordre de N. R. P. S. François, in-8°, Gand, 1638; Académie ou exercitations spirituelles, sur les trois dévotions principales pratiquées en terre par la B. V. Marie, mère de Dieu, in-12, Gand, 1657, a mesma traduzida em flamengo pelo P. Laurent Le Schepper, ibid.; Des excellences de la grande et sacrée indulgence de la Portioncule, Gand, 1660, traduzida igualmente em flamengo, ibid., e Bruges, 1840. No tocante às obras oratórias do P. Marchant, cita-se apenas a Oratio funebris in exequiis serenissimae Elizabethae, Clarae, Eugeniae Austriacae, Hispaniarum Infantis, in-4°, Milan, 1634, pronunciada no convento de Ara Cœli, na presença de Urbano VIII. Depois de sua morte, um de seus confrades, o P. Roger Van der Cruycen, editou fragmentos e lembranças de sermões sob o título Cophini duodecim fragmentorum panis Verbi Dei collecti ex concionibus R. P. F. Petri Marchant, in-4°, Gand, 1665. O piedoso e sábio religioso morrera no convento de Gand, a 11 de novembro de 1661. O P. Alexis de Lannoy pronunciou o seu elogio fúnebre, Oratio de laudabili vita R. P. P. Marchant, Gand, 1661.
Greg. Cleary, Marchand P., dans The Catholic Encyclopedia, t. ix, p. 642; Servais Dirks, Histoire littéraire et bibliographique des frères mineurs de l'observance en Belgique, Anvers, 1885; Doyen, Bibliographie Namuroise, Namur, 1884-1885; Biographie universelle, Besançon, 1844; Foppens, Bibliotheca belgica, Bruxelles, 1739; Hurter, Nomenclator, 3e édit., t. iii, col. 1202; Lamy, Biographie nationale de Belgique, t. xiii, p. 117; Ubald d'Alençon, Couvin, Notice historique sur les récollets, Couvin, 1903; Wadding-Sbaraglia, Scriptores Ord. minorum, Rome, 1906-1921.
P. Edouard d'Alençon.
Autor original: P. Edouard d'Alençon
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