MARCA (PEDRO DE)

MARCA (PEDRO DE)

MARCA (Pedro de) (1594-1662) nasceu em Gan, no Béarn, em 24 de janeiro de 1594; em 1615, era conselheiro do Conselho soberano de Pau, quase inteiramente composto de calvinistas; conduziu-se com tanta inteligência que Luís XIII, em 1621, erigiu esse Conselho em Parlamento, e Marca foi nomeado seu presidente. Conselheiro de Estado e Mestre das Petições em 1639, casou-se nessa data, mas, tendo perdido a esposa, entrou nas ordens e foi ordenado sacerdote em 2 de abril de 1642; logo foi nomeado para o bispado de Couserans, mas não pôde então obter suas bulas de Roma, por causa de seu livro De concordia, do qual uma parte havia aparecido em 1641; atenuou suas opiniões num escrito publicado em Barcelona, em 1647; Urbano VIII concedeu-lhe enfim suas bulas, e Marca foi sagrado bispo em 20 de dezembro de 1648. Depois da conquista da Catalunha por Luís XIII, Marca agiu com muita habilidade; por isso, para recompensá-lo, nomearam-no para o arcebispado de Toulouse, em 1652. Combateu aí o jansenismo, e foi ele quem redigiu o primeiro Formulário contra as proposições de Jansênio. Foi nomeado arcebispo de Paris em 1662, mas morreu antes de tomar posse de sua nova sé, em 29 de junho de 1662, no próprio dia em que recebia suas bulas, para grande alegria dos amigos de Port-Royal.

As obras de Marca são numerosas e muito importantes do ponto de vista religioso; muitas só foram publicadas após sua morte, por seu secretário Baluze, ou permanecem ainda manuscritas. A primeira em data, a que permaneceu mais célebre, tem por título: De concordia sacerdotii et imperii seu de libertatibus Ecclesiae gallicanae dissertationum libri quatuor, 2 vol. in-4°, Paris, 1641; a obra foi reeditada, em 1663 e 1669, com numerosos acréscimos, mas a edição mais completa compreende oito livros em 2 vol. in-fol., Paris, 1704 e 1705, e foi publicada por Baluze (Journal des Savants de 12 janv. 1704, p. 1-15, e Mémoires de Trévoux de outubro de 1704, p. 1641). A edição de 1641 era dedicada ao cardeal duque de Richelieu, e foi objeto de um decreto de 1º de abril de 1641; a segunda edição de Frankfurt, in-fol., 1708, contém mais dissertações que haviam sido compostas por Marca, e Observações do editor, Justo Bohmer, sob este título: Selectae observationes ad ecclesiasticas dissertationes P. de Marca... illustrantes et studio juris ecclesiastici instructae. É sobre essa edição que foram feitas as de Rovereto, 1742, de Veneza, 1763, in-fol., de Nápoles, 6 vol. in-4°; esta última contém algumas notas do cardeal Firminiani, que se encontram na edição de Bamberg, em 6 vol. in-4°, 1788-1789.

A obra fora composta a pedido de Richelieu contra o Optatus Gallus de cavendo schismate; mas a refutação do escrito é sobretudo indireta. Marca quer mostrar que as liberdades da Igreja galicana, bem explicadas, fornecem o verdadeiro meio de estabelecer a concórdia entre os dois poderes; quer provar que a) o fim das liberdades galicanas é reconhecer a autoridade da Sé apostólica e prestar-lhe os deveres que lhe são devidos; b) os papas sempre temperaram seu poder a respeito das Igrejas da França, de sorte que os direitos do reino e da Igreja jamais sofreram; c) a França observou religiosamente essas máximas. O segundo fundamento das liberdades galicanas é a autoridade soberana dos príncipes, que são os protetores da Igreja: não podem fazer leis eclesiásticas propriamente ditas, mas devem fazer observar os cânones da Igreja e manter a religião e a paz. As liberdades da Igreja galicana consistem na observância dos antigos cânones e do direito canônico completado pelas decretais; todas essas leis devem ser aplicadas; se são violadas, os recursos como por abuso são legítimos e remontam aos primeiros tempos da Igreja. A autoridade dos concílios provinciais e nacionais apoia-se no mesmo fundamento, a eleição dos bispos, que, diz ele, pertence aos metropolitas e aos bispos da província, os quais, reunidos na Igreja vacante, escolhem um sujeito na presença do clero e do povo, podendo este aprovar ou desaprovar a eleição.

Baluze, em sua edição, acrescentou uma Vida de Marca e publicou uma Carta de Marca ao papa Inocêncio X, de 26 de setembro de 1646; no fim do t. II, dá duas obras que podem apoiar as teses de Marca: Liber de chorepiscopis et dignitate atque officio eorum de Raban Maur; Liber de reverentia filiorum erga patres et subditorum erga reges... ad Ludovicem Imperatorem. Pouco depois da publicação desse primeiro escrito, Marca comentava a Epistola decretalis Vigilii papae pro confirmatione Vae Synodi oecumenicae, graece nunc primum edita, cum interpretatione latina et dissertatione... Accessere epistolae Eutychii ad Vigilium cum Vigilii rescripto et anathematismis Vae Synodi, in-8°, Paris, 1642. Em Roma, desaprovaram-se as teses de Marca, que foram postas no Índice; os dois escritos seguintes atenuam essas teses: Dissertatio de primatu Lugdunensi et aliis primatibus, in-4°, Lião, 1644, e o Libellus quo editionis librorum de concordia sacerdotii et imperii consilium exponit, opus Apostolicae Sedis censuras submittit et reges canonum custodes, non vero auctores esse docet Petrus de Marca, in-4°, Barcelona, 1646; em seguida a esse escrito encontra-se uma carta ao cardeal Barberini sobre a doutrina de seu livro. Esse Libellus foi acrescentado desde a segunda edição do De concordia e obteve de Roma as bulas que Marca esperava desde 1642.

Por outro lado, Marca publicou obras de história [O texto apresenta aqui segmentos faltantes ou corrompidos no original]. Histoire de Béarn, contenant l'origine des rois de Navarre, des ducs de Gascogne, marquis de Gothie, princes de Béarn, comtes de Carcassonne, de Razès et de Bigorre, avec diverses observations historiques, in-fol., Paris, 1640. O Sr. Dubarat deu uma nova edição muito aumentada, 2 vol. in-4°, Pau, 1889, com uma longa notícia sobre a vida de Marca; do escrito de Marca pode-se aproximar os Anticritiques, escrito inédito da Biblioteca nacional, publicado e precedido de uma notícia sobre a vida do autor, pelo Sr. G. Bascle de Lagrèze, in-8°, Pau, 1846. Marca abordou a questão jansenista no escrito seguinte: Relation de ce qui s'est fait sur les constitutions de N. S. P. os papas Inocêncio X e Alexandre VII, pelas quais são declaradas e definidas as cinco proposições de fé, entre os Breves e as cartas dos cardeais e bispos deste reino; juntamente com as Declarações de Sua Majestade e as cartas dos cardeais e bispos ao papa e aos bispos do reino, com as da assembleia de 1661 a Sua Santidade sobre o assunto das ditas proposições e das deliberações, decretos do Conselho, e geralmente tudo o que se passou a respeito das traduções do Missal romano em francês, in-4°, Paris, 1661.

Já anteriormente, Marca havia publicado à parte a Relation de ce qui s'est fait depuis 1653 dans les assemblées des évêques au sujet des cinq propositions de Jansénius, in-4°, Paris, 1657; essa relação se encontra na Collection des Procès-verbaux des assemblées du Clergé, t. IV, peças justificativas, p. 29-68; foi vivamente atacada por Nicole, no Belga percontator, in-12, Paris, 1667, e na IVe Mémoire sur la cause des quatre évêques, Œuvres d'Arnauld, t. XXIV, p. 2. Arnauld, por sua vez, critica Marca e o põe em contradição consigo mesmo em várias passagens. Cf. Les justes plaintes des théologiens, c. X-XIII, nas Œuvres d'Arnauld, t. XXII, p. 149-169; Défense de la lettre irénique des quatre évêques, ibid., t. XXIV, p. 430-435; Histoire du Formulaire, ibid., t. XXV. Em sua relação, Marca mostra que a paz só pode subsistir no reino pela obediência sincera às decisões da Igreja e às ordens de Sua Majestade para sua execução; para proporcionar essa paz tão necessária, publicou-se, em 1677, uma nova edição que dará um conhecimento verdadeiro e seguro de tudo o que foi feito a respeito das cinco proposições, tiradas do livro de Jansênio. O Sr. Gazier pintou em cores inteiramente negras o papel de Marca nos assuntos do jansenismo e, em particular, na questão do Formulário, Histoire générale du mouvement janséniste depuis ses origines jusqu'à nos jours, 2 vol. in-8°, Paris, 1922, t. I, p. 116.

Numerosos escritos de Marca só apareceram depois de sua morte, ou pelo menos foram reunidos em escritos póstumos. Deve-se citar primeiro as Dissertationes posthumae sacrae et ecclesiasticae, quorum quaedam lingua gallica scriptae fuerunt, epistolae D. Baluzii, occasione harum dissertationum scriptae, cum responsis F. de Marca ad easdem, in-12, s. l., editadas pelo abade Paul Faget, que teve discussões muito violentas. Nesse escrito, Faget dá primeiro uma longa notícia em latim sobre a vida de Marca, quatro dissertações sobre a eucaristia, o sacrifício da missa, a instituição do patriarcado de Constantinopla e, por fim, a origem do céu e da terra; depois três dissertações francesas sobre os sacramentos da eucaristia (distinta da precedente), da penitência e do matrimônio, no qual Marca sustenta que o sacerdote é o ministro do matrimônio; a matéria constituída pelas consequências do mútuo consentimento dadas pelos esposos, e a forma consistindo nas palavras cheias de orações e de bênçãos pelo sacerdote. Em seguida são colocadas as cartas de Baluze, que acusa Faget de ter massacrado as dissertações impressas às escondidas, de ter feito alterações posteriormente, e de ter escrito tão mal e posto tantas tolices e faltas contra o bom senso e tantos absurdos, que é lamentável que um tão grande nome encontre um mau escritor.

O próprio Baluze publicou várias obras de Marca, no escrito intitulado Opuscula Petri de Marca, archiepiscopi Parisiensis, nunc primum edita, in-12, Paris, 1681. Há treze opúsculos, dos quais os mais interessantes são os seguintes: De stemmate Christi, de adventu Magorum ad Christum et an reges fuerint? (os Magos vinham da Arábia e eram reis), de singulari Petri primatu, de discrimine clericorum et laicorum juris divini forma regiminis a Christo in Ecclesia instituti, de veteribus collectionibus canonum, de origine et progressu cultus Beatæ Mariæ Virginis in Monteferrato exhibiti, de theca reliquiarum sancti Joannis Baptistæ qua servantur in ecclesia dominicanorum Perpinianensium. Já em 1669, Baluze havia reeditado, com notas, alguns escritos de Marca, sob o título: Illustrissimi viri Petri de Marca archiepiscopi Parisiensis dissertationes tres, Stephanus Baluzius Tutelensis in unum collegit, emendavit, notis illustravit et appendicem adjecit actorum veterum, in-12, Paris, 1669; as três dissertações anotadas são as do papa Vigílio, do Primaz da Igreja de Lião, de que já falamos, e a Epistola ad clarissimum virum Henricum Valesium de tempore quo primum in Galliis suscepta est Christi fides, que o próprio Marca publicara, em agosto de 1658, para mostrar que os apóstolos haviam enviado à Gália Lucas e Crescente, que são Paulo talvez tivesse passado pela Gália ao ir para a Espanha, e que, por conseguinte, a Gália fora evangelizada desde o século I.

Além desses escritos publicados por ele ou por Faget e Baluze, Marca deixou grande número de manuscritos que se encontram em diversos depósitos. Na Biblioteca nacional, há, no fundo Baluze, n. 118, um Recueil du jansénisme, Mémoire contenant les affaires de Pierre de Marca; n. 119, f° 30 sq. Traité de l'autorité ecclésiastique et séculière sur les mariages; n. 121: de la main de Pierre de Marca. Nos Manuscritos do fundo francês, 10.553: Traité de l'origine de la régale; e nouv. acq. 2095: Traité de M. de Marca sur les empêchements dirimants de mariage; n. 17.614: Mémoires sur une thèse soutenue en 1661, au Collège de Clermont, touchant l'infaillibilité du pape; n. 17.615: Papiers de Pierre de Marca, autographes, sur les Conciles nationaux et provinciaux, l'origine de la régale, les indults de la Cour de Rome, sur les libertés de l'Église, sur le livre de la Fréquente communion, sur la nullité des mariages des princes contenant; n. 17.750: Mémoires divers. Na Biblioteca do Arsenal, ms. 2248: De l'autorité ecclésiastique et séculière, f° 1-17; ms. 2249: Trois arguments pour concilier la nullité des mariages des princes du sang et du roi, f° 173-665. Na Biblioteca Santa Genoveva, ms. 1601: Remarques sur le livre de M. de Marca intitulé: De concordia; ms. 1602: Écrit de M. de Marca sur le libelle intitulé: Optatus Gallus; ms. 1991: De l'autorité ecclésiastique et séculière sur les mariages (à l'occasion du second mariage de Monsieur, frère unique de Louis XIII, avec la Princesse de Lorraine); ms. 1998: Papiers de Pierre de Marca sur les sacrements de mariage et de pénitence. Na Biblioteca Mazarine, ms. 1120: Mémoire contenant l'examen d'une thèse sur l'infaillibilité du pape; ms. 2358 e 4392: Mémoire de Marca concernant la nullité du mariage du duc d'Orléans, 1634; ms. 1248: Harangue au roi, au nom de l'Assemblée du clergé, touchant la détention du cardinal de Retz, 9 janvier 1655.

Michaud, Biographie universelle, t. xxvi, p. 445, 446; Hoefer, Nouvelle biographie générale, t. xxxiii, col. 376-378; Moréri, Le grand dictionnaire historique, édit. de 1759, t. vii, p. 194-195; Feller, Biographie universelle, édit. Perennès, 1842, t. viii, p. 134, 135; Richard et Giraud, Bibliothèque sacrée, t. xvi, p. 90-100; Chaudon et Delandine, Dictionnaire universel, historique, critique et bibliographique, 5e édit., 1810, t. xi, p. 89-91; Barral, Dictionnaire historique littéraire et critique, 4 t. en 6 vol. in-8°, Avignon, 1758-1762, t. iii, p. 329, 330; Ladvocat, Dictionnaire historique et bibliographique portatif, t. ii, p. 208, 209; Niceron, Mémoires pour servir à l'histoire des hommes illustres, t. xii, p. 313-351; Rapin, Mémoires, édit. Aubineau, 3 vol. in-8°, Lyon et Paris, 1863, t. ii, p. 205-212, 494-505 et t. iii, p. 112, 120, 176-182; abbé Faget, Vie de Marca, en tête des Opuscules; Baluze, Vie de Marca, en tête des dissertations posthumes, et dans Epistola ad Samuelem Sorberium, 1663; abbé Rompart, Éloge de M. de Marca, in-8°, Paris, 1768; J. Doujat, De Petri de Marca moribus et rebus gestis, in-4°, Paris, 1664; abbé Dubarat, Notice sur Pierre de Marca, en tête de la nouvelle édition de l'Histoire du Béarn, in-4°, Pau, 1889; E. du Pin, Bibliothèque ecclésiastique des auteurs du XVIIe siècle, IIe part., p. 105; La France pontificale, Fisquet, Paris, p. 414-419; Biographie toulousaine, 2 vol. in-8°, Paris, 1823, t. ii, p. 18-20; Kirchenlexicon, t. viii, col. 642-648; Encyclopédie des sciences religieuses (prot.), t. viii, p. 654, 655.

J. Carreyre.

Autor original: J. CARREYRE

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