MARANDÉ (LEONARDO DE)

MARANDÉ (LEONARDO DE)

MARANDÉ (Leonardo de). — Eclesiástico francês (século XVII). Pertencia a uma família originária do Berry e nasceu nos primeiros anos do século XVII. Primeiro escrevente na secretaria da Corte dos Auxílios, entrou no estado eclesiástico e tornou-se mais tarde conselheiro e esmoler de Luís XIII e de Luís XIV. Atacou o livro De la fréquente communion; por isso os jansenistas o julgam sempre com severidade excessiva. Quase todas as obras de Leonardo de Marandé se referem à controvérsia religiosa, e ele tomou nitidamente posição contra o jansenismo. Esses numerosos escritos são geralmente difusos, mas apresentam ainda um verdadeiro interesse.

Deve-se citar Le théologien français, 3 vol. in-4°, Paris, 1641, no qual, segundo a ordem da Escola, se trata dos princípios e propriedades da teologia, dos atributos, da visão, ciência, predestinação e vontade de Deus, da Trindade, dos Anjos e das leis. Tal é o título do primeiro volume, dedicado a Jesus Cristo; o segundo, dedicado à santíssima Virgem, estuda a encarnação, a graça, o pecado e as virtudes teologais; por fim, o terceiro volume estuda os sacramentos em geral e em particular. Nesta obra de teologia, cada livro é dividido em tratados e cada tratado é subdividido em discursos. As Morales chrétiennes du théologien français, 4 vol. in-fol., Paris, 1643, são divididas em sete partes e seguem aproximadamente o plano de São Tomás; no início do t. II faz-se um grandíssimo elogio de São Tomás e de seus escritos.

Le Jugement des actions humaines, revu, corrigé et de nouveau augmenté des discours du mouvement de la terre et de l'astrologie judiciaire, in-4°, Paris, 1635, é muito mais pessoal; nesse escrito, dedicado ao cardeal duque de Richelieu, encontram-se estudos bastante curiosos sobre a vaidade, os sentidos, a opinião, as paixões, a felicidade, a virtude moral; o autor fala do movimento da terra e da astrologia judiciária porque a vaidade e a fraqueza do homem não aparecem em parte alguma mais nitidamente do que na ordem de nossos raciocínios, que chamamos ciência. Citemos por fim La clef des philosophes ou abrégé curieux et familier de toute la philosophie, in-16, Lyon, 1647, Paris, 1654 e Lyon, 1662.

A partir de 1652, Marandé aborda a questão jansenista, e doravante todos os seus escritos visarão mais ou menos diretamente essa controvérsia. O primeiro escrito, Antiquité touchant l'ancien usage des sacrements, in-12, Paris, 1652, parece ter por finalidade responder a La fréquente communion de Arnauld; depois a Pénitence publique d'un illustre janséniste, dirigida ao Sr. Arnauld, in-12, Paris, 1653, e Inconvénients du jansénisme, dirigidos ao Sr. Arnauld, in-12, Paris, 1653. Les raisons de l'État procédant du jansénisme avec la réfutation du Mars français de M. Jansénius, in-4°, Paris, 1654, são dedicadas ao rei e à França. Marandé mostra que a novidade do jansenismo é perigosa para o Estado, mais ainda do que para a religião, pois a falsidade perverte os súditos e corrompe os costumes; o jansenismo é uma seita de Estado mais que uma seita de religião; na refutação do Mars français, diz que a razão principal pela qual o rei deve proscrever o jansenismo é que seu autor, Jansênio, foi um dos mais temidos inimigos da França e de seus monarcas. Pascal fala desse escrito em sua IVª carta provincial, a respeito dos Monita jansenistas (cf. Gazier, Histoire générale du mouvement janséniste depuis ses origines jusqu'à nos jours, 2 vol. in-8°, Paris, 1922, p. 95, 96 e Mémoires, t. I, G. Hermant, t. II, p. 354).

Marandé publicou, pouco depois, uma Réponse à la première lettre de M. Arnauld (trata-se da Lettre d'un docteur de Sorbonne à une personne de condition), in-4°, Paris, 1655; ela é seguida de uma Réponse à la seconde lettre de M. Arnauld, ensemble les cinq propositions censurées, extraites du livre de Jansénius par les jansénistes eux-mêmes, in-4°, Paris, 1655. Marandé, para responder aos jansenistas que pretendem que as cinco proposições condenadas por Roma não se encontram no Augustinus, lembra-lhes que os doutores jansenistas, muito particularmente Arnauld, antes da condenação, haviam sustentado que essas proposições estavam em Jansênio e que eram católicas. Marandé replica ainda a Arnauld numa Réponse à l'écrit que M. Arnauld a fait présenter aux docteurs assemblés en Sorbonne pour la censure de la seconde lettre, in-4°, Paris, 1655 (trata-se das Réflexions sur la censure que les docteurs de la sacrée Faculté de théologie assemblés en Sorbonne ont faite de la seconde lettre de M. Arnauld).

Marandé atacou de novo o jansenismo nas Considérations sur un libelle de Port-Royal intitulé : Défense de la Constitution d'Innocent X, sur la retraite des docteurs jansénistes, sur la protestation de M. Arnauld et sur les lettres qu'il a fait courir dans Paris, depuis la censure de la Sorbonne, in-4°, Paris, 1656 (as cartas de que se trata são as Provinciais); Marandé, nesse escrito, examina sucessivamente a conduta dos jansenistas e critica as quatro primeiras Cartas provinciais. O autor retoma o estudo dessas controvérsias em seu próprio princípio, nas Règles de saint Augustin pour l'intelligence de sa doctrine, avec la réfutation des principes de Jansénius par eux-mêmes et par saint Augustin, in-4°, Paris, 1656. Marandé mostra ali os perigos do jansenismo e contesta-lhe o direito de apelar à autoridade de Santo Agostinho; para provar sua tese, diz: a) é preciso distinguir o que está contido nos escritos de um Padre; b) é preciso distinguir o que é propriamente um dogma; os sentimentos particulares de um Padre não formam lei na Igreja; e nenhum Padre é infalível em seus sentimentos particulares; somente a Igreja ou a Cátedra de Pedro pode determinar o que há de fé nos escritos dos Padres; tudo o que Santo Agostinho não retratou em suas Obras deve servir de regra para mostrar os verdadeiros sentimentos desse Padre; é preciso ler Santo Agostinho como ele queria ser lido e entendido.

Numa segunda parte, Marandé refuta os princípios de Jansênio a respeito da graça em geral e da graça suficiente em particular, da possibilidade dos mandamentos de Deus, do livre-arbítrio e da morte de Jesus Cristo por todos os homens; apoia-se num trabalho aparecido alguns anos antes, Recueil des seules autorités de S. Augustin contre la nouvelle théologie de ce temps, in-12, Poitiers, 1652. Marandé persegue o jansenismo em suas diversas nuances.

La question de fait et de droit touchant Jansénius, traitée par le fait et le droit, avec la réponse à tous les libelles de Port-Royal qui ont paru depuis deux ans, in-4°, Paris, 1661. O escrito é dividido em três partes: a) a questão de fato é tratada pelo direito, com uma análise de numerosos documentos antigos; b) a questão de fato é tratada pela confissão dos próprios jansenistas antes da condenação; as cinco proposições se encontram em Jansênio e Marandé indica os lugares onde se encontram; c) resposta a um libelo de Port-Royal intitulado Éclaircissement du fait et du sens de Jansénius et du schisme; a outro escrito intitulado: De l'hérésie.

Marandé responde ainda a Port-Royal na Défense de l'Église contre un écrit de Port-Royal intitulé Lettre sur la constance et le courage qu'on doit avoir pour la vérité, où l'on démontre aussi que les cinq propositions sont dans Jansénius, qu'elles ont été condamnées au sens propre de cet auteur et quel est le sens condamné, in-4, Paris, 1663. Numa primeira parte, Marandé mostra que os santos Padres que exortaram os fiéis a sofrer o martírio pela defesa da fé de modo algum favorecem os desígnios do Sr. Arnauld e de todos os seus sectários, os quais não manifestam senão o orgulho da heresia; na segunda parte, o autor refuta a tese dos jansenistas que pretendem que se pode não obedecer ao rei e ao papa em matéria de fé; por fim, na terceira parte, mostra quais são os pretensos perseguidos que se queixam na Lettre sur la constance e quais são os perseguidores a quem se chama caridosamente "culpados, incorrigíveis, infiéis, judeus, hereges, demônios, serpentes...".

No fim desse escrito encontra-se a Réponse aux deux libelles de MM. de Port-Royal contre les Réflexions sur la lettre de M. l'évêque d'Angers au roi. Esses dois libelos têm por título Avis sur un libelle contre Mgr d'Angers : et éclaircissement sur le différend d'entre Jean d'Antioche et saint Cyrille dont il est parlé dans la lettre de Mgr l'évêque d'Angers (Œuvres d'Arnauld, t. xxi, p. 399, 400).

O último escrito de Marandé volta a São Tomás; certas partes desse trabalho são bastante antigas, pois se encontra uma aprovação datada de 22 de março de 1614. O escrito tem por título La théologie de saint Thomas, ou La clef de sa Somme, contenue dans sa Somme sur toute sa Théologie, 10 vol. in-12, Paris, 1668-1670. O autor segue as teses de São Tomás, mas modificou por vezes a ordem das matérias, para melhor adaptá-las ao espírito e ao gosto franceses.

Michaud, Biographie universelle, t. xxvi, p. 113; Moreri, Le grand dictionnaire historique, edição de 1759, t. vii, p. 320; Feller, Biographie universelle, edição Pérennès, 1842, t. viii, p. 123; Richard e Giraud, Bibliothèque sacrée, t. xlv, p. 19; Hurter, Nomenclator, 3ª edição, t. iv, col. 621.

Autor original: J. Carreyre

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