MALDERUS (JOÃO)

MALDERUS (JOÃO)

MALDERUS, João, teólogo, 5º bispo de Antuérpia. Nascido em Leuw-Saint-Pierre, perto de Bruxelas, a 14 de agosto de 1563, Malderus, cujo verdadeiro nome era Malder ou van Malderen, fez seus primeiros estudos sob a direção de seu tio, João van Malderen, que era pároco de Leuw. As relações do tio com o cardeal de Granvela não foram sem dúvida inteiramente alheias à carreira do sobrinho. Aliás, pelo poder de sua inteligência, assim como pela firmeza de seu caráter e seu senso da realidade, Malderus havia de mostrar-se digno de seu destino. Sua vida se divide em dois períodos de duração sensivelmente igual: um período universitário e um período episcopal.

Depois de ter feito suas humanidades em Bruxelas e sua filosofia na universidade de Douai, foi seguir em Lovaina as lições de teologia dadas na universidade por João de Lens e João Clarius, e no colégio dos jesuítas por João Lanietius e Leonardo Lessius. Encarregado ele próprio, por volta do ano de 1586, de ensinar filosofia na pedagogia do Porco, obteve o doutorado em teologia em agosto de 1594, no mesmo ano em que Filipe II decidiu criar em Lovaina uma cátedra de teologia para a explicação do texto de São Tomás (18 de dez. de 1594). Quando esse desígnio tomou corpo, o rei nomeou como primeiro titular da nova cátedra João Malderus, a quem seus cursos de filosofia aristotélica haviam particularmente preparado para a inteligência do tomismo (1º de agosto de 1596). Cf. P. Martin, O. P., L'introduction officielle de la Somme théologique dans l'ancienne université de Louvain, na Revue thomiste, 1910, t. XVIII, p. 230-239. Dois anos mais tarde, a 7 de agosto de 1598, Malderus recebeu a direção do seminário estabelecido por Filipe II na sequência do sínodo de 1570; e, em 1604, tornou-se reitor da universidade.

Como fruto de seu ensino, deixou longos comentários sobre as duas primeiras partes da Suma teológica de São Tomás. Ele mesmo empreendeu a publicação deles durante seu episcopado, não sem os ter enriquecido e por vezes remanejado. Um primeiro volume in-fólio, intitulado In virtutibus theologicis et justitia et religione, commentaria ad 1a-2ae D. Thomæ, apareceu em Antuérpia, na casa de Plantin, em 1616. Detém-se na questão 48 da IIa-IIæ. O t. II, que tem por objeto a Ia-IIæ, apareceu em 1623 sob o título In I-IIæ commentaria de fine et beatitudine hominis, de actibus humanis, de virtutibus, vitiis et peccatis, de legibus, de gratia, de justificatione et meritis. O III, Commentaria de S. Trinitate, creatione in genere, et de angelis, ad Iam partem Divi Thomæ, refere-se à Ia. Foi publicado somente em 1634, depois da morte do autor. Independentemente mesmo das ideias que nela são expressas, essa obra não carece de interesse para a história do ensino teológico.

Malderus parece ter hesitado quanto à maneira de compreender sua tarefa de comentador e quanto às liberdades a tomar em relação ao texto de São Tomás. No t. I, a propósito das virtudes teologais, imita manifestamente Belarmino, que comentou São Tomás no colégio dos jesuítas de Lovaina de 1570 a 1576. Cf. o art. Bellarmin, t. II, col. 586, 587. Segue exatamente a ordem das questões e dos artigos da Suma, entrecortando-os de Dubia e de Disputationes que desenvolve de maneira toda pessoal e por vezes muito longamente. É assim que trata do sumo pontífice, p. 25-51; da Igreja, p. 51-61; dos concílios, p. 61-80; das tradições, p. 80-83. Passando em seguida ao estudo das virtudes de justiça e de religião, muda bruscamente de método. «Para ser mais breve», deixará de lado, diz ele, o texto da Suma e resumirá em alguns tratados as questões que nela são estudadas (p. 277). Esses tratados, em número de dez, subdividem-se em capítulos e em questões.

As preocupações de atualidade nele são manifestas. Compreender-se-á, por exemplo, que consagre longas páginas à magia, p. 763-804, se nos lembrarmos da ordenança publicada por Filipe II, em 1592, contra a feitiçaria, dos múltiplos processos que se seguiram, do desenvolvimento extraordinário que as práticas de magia tomaram na diocese de Antuérpia durante o primeiro quartel do século XVII e do grito de alarme dirigido ao próprio Malderus, a 5 de fevereiro de 1621, por párocos e superiores de conventos. Cf. Laenen, Heksen-Processen, Antuérpia, 1914, p. 36; De Ram, Synodicon, t. III, p. 172 sq.

A mesma preocupação de atualidade e a mesma liberdade de andamento manifestam-se nos comentários sobre a Ia-IIæ. Seguindo a ordem dos artigos da Suma e explicando-os brevemente, Malderus expõe, em cem Disputationes, seu pensamento sobre a matéria das 21 primeiras questões. Faz assim um estudo muito aprofundado do ato humano e insere entre os art. 6 e 7 da q. xix todo um tratado da consciência, p. 148-165. Para as questões seguintes, contenta-se com uma explicação, à qual mistura, aqui e ali, Dubia. Apesar de algumas teorias que lhe são inteiramente pessoais (ver o artigo Messe), seu pensamento flexível e matizado reflete, no conjunto, a doutrina e o espírito de São Tomás, que ele defende, quando ocorre, contra São Boaventura, Escoto, Pedro d'Ailly, Gabriel Biel e sobretudo contra os protestantes.

Desde 1602, o arcebispo de Malines havia proposto Malderus, concorrentemente com João Lemire (Miraeus), para ocupar a sé episcopal de Antuérpia. Cf. Analectes pour servir à l'hist. eccl. de la Belgique, 1864, t. I, p. 215. Lemire foi escolhido; mas, depois da morte deste, o arquiduque Alberto apressou-se em nomear Malderus, a 10 de fevereiro de 1611. A diocese de Antuérpia, que se estendia entre o Mosa e o Escalda, não tivera, desde sua fundação em 1559, senão bispos notáveis; Sonnius, Torrentius, Miraeus a haviam organizado, em meio a dificuldades incessantemente renascentes. O sucessor de Miraeus, penetrado da importância, da excelência, do mérito do ministério pastoral, vai continuar as tradições de zelo de seus predecessores, apesar de todas as dificuldades de uma situação que a trégua de Antuérpia, em 1609, não pacificara completamente. Além dos empreendimentos das seitas protestantes, não se contenta em recorrer aos meios de coerção; ele mesmo vela pela defesa direta de seu rebanho: por sua ação sobre o clero e sobre os fiéis, ou por seus escritos, que multiplica conforme as necessidades. Se a pregação lhe é interditada, em razão da fraqueza de seu peito, Malderus toma ao menos todas as medidas úteis para que o povo seja solidamente esclarecido e defendido em sua fé.

O primeiro escrito entregue por ele a seu amigo Plantin para ser impresso é um pequeno catecismo em língua vulgar, que tornou obrigatório em sua diocese: Catholyck onderwys tot versterkinge der crancken in 't geloove, Antuérpia, 1613, in-12. Quando a assembleia episcopal da província decidiu substituir o catecismo de 1609, longo, obscuro e incompleto, foi ele quem revisou a redação do catecismo em 41 lições do jesuíta Guilherme de Pretere, cuja edição flamenga apareceu em 1623, e a francesa em 1628; cf. Claessens, Hist. des archevêques de Malines, 239. Ao mesmo tempo, ocupa-se da construção das escolas e do sustento dos mestres, enquanto os bispos da província suplicam ao arquiduque que obrigue, sob pena de multa, as crianças a frequentar os catecismos. Synodicon, t. I, p. 457 sq.

Suas cartas pastorais revelam também o interesse que ele dedica à instrução do povo, pois não se limita a baixar decretos contra os blasfemadores (1616) e contra os que não comungam na Páscoa ou não observam o preceito dominical: faz a todos uma obrigação grave de ouvir as pregações (1622). Preocupa-se, aliás, com a maneira como estas serão feitas, como o mostram a vigilância que exerce sobre os estudos e a formação espiritual de seus seminaristas, a ordem que dá, com seus confrades da província, a todos os clérigos in sacris de possuir a Instructio sacerdotum de Antônio Molina (1627), as modificações que propõe ao projeto de instrução para os pregadores redigido pelo bispo de Ypres (1629). Synodicon belg., t. I, p. 489, 495, 502.

Mas ele mesmo toma da pena em diversas ocasiões para defender seu rebanho contra os erros protestantes. Deplora a falta de firmeza de que se deu prova para com Lutero na origem de seus erros: «se as raposas demolem hoje a vinha, escreve ele, é porque não foram apanhadas quando eram pequenas; é preciso apoderar-se delas e exterminá-las». Não são, contudo, senão ameaças de professor e de guerreiro. Apanham-se, prossegue, quando se as «refuta bem, o que é fácil aos sábios. As raposas, segundo os antigos, têm tocas com duas saídas; é preciso, pois, encerrar os hereges em dilemas.» In cantic. canticor., c. II, 15.

É nesse sentido que ele tira partido da querela entre remonstrantes e contrarremonstrantes. Conhece-se esse caso. Apesar da morte de seu chefe, os arminianos persistiam em sustentar que era oportuno suavizar a doutrina rígida de Calvino sobre a predestinação e fazer a salvação depender da vontade dos homens. Reclamavam uma revisão do catecismo da Igreja reformada da Bélgica. Os gomaristas, ao contrário, entrincheiravam-se obstinadamente em sua regra de fé aprovada como conforme às Escrituras. Após o insucesso dos colóquios de Haia em 1611 e de Delft em 1613, o gomarista Maurício de Nassau mandou convocar na Holanda, em novembro de 1618, os calvinistas de todos os países; mas os arminianos só compareceram a esse sínodo como réus, e logo seu chefe, Episcopius, deposto e banido, retirou-se para Antuérpia, enquanto os gomaristas triunfantes prosseguiam seu sínodo até maio de 1619.

A moderação das ideias de Episcopius, a doçura de seu caráter, a dura injustiça com que fora tratado por seus adversários tornavam-no simpático; era de temer que, graças a esse sentimento, suas doutrinas se espalhassem nos meios católicos da diocese, tanto mais que o vencido de Dordrecht escrevia, para sua defesa, duas obras que certamente encontrariam muitos leitores: o Antidotum continens pressiorem declarationem propriae et genuinae sententiæ quæ in synodo nationali Dordracena adserta est et stabilita, e a Confessio seu declaratio sententiae pastorum, qui in foederato Belgio remonstrantes vocantur, super praecipuis articulis religionis christianae. Malderus, sabendo que as pessoas não advertidas se deixam facilmente enganar e não notando sempre o bastante que o que se opõe ao erro nem sempre é verdadeiro, empreendeu mandar embora, costas com costas, os dois partidos que se haviam defrontado em Dordrecht, e publicou para esse fim sua Antisynodica, sive animadversiones in decreta conventus belgae, quem vocant synodum nationalem, de quinque doctrinae capitibus inter remonstrantes et contra-remonstrantes controversis, Antuérpia, 1620, in-8°.

Tira argumento da própria oposição deles, insurge-se contra esses doutores, cada um dos quais interpreta as Escrituras a seu bel-prazer; depois, sobre cada um dos cinco pontos contestados entre eles, expõe claramente as ideias dos remonstrantes, as dos contrarremonstrantes e as suas próprias, que apoia no ensino da Igreja e dos Padres. Depois dessa refutação de conjunto, examina em detalhe, nos capítulos seguintes, as principais proposições admitidas pelo sínodo de Dordrecht, para mostrar-lhes a falsidade: os fiéis devem crer que seus filhos são eleitos pelo próprio fato de terem nascido de pais fiéis; pode-se ter aqui embaixo a certeza da própria salvação; somente os eleitos recebem a graça justificante; a conversão é irresistível; os justos perseveram necessariamente e estão seguros de sua perseverança. Obra de circunstância, a Antisynodica tem toda a solidez de uma obra longamente amadurecida, e os próprios protestantes reconheceram sua perfeita objetividade.

Não contente com refutar os hereges, Malderus tinha a peito arrancar-lhes as armas. Pensava neles quando publicou seu Tractatus de restrictionum mentalium abusu, Antuérpia, 1625, in-12, e seu Tractatus de sigillo confessionis sacramentalis, Antuérpia, 1626, in-8°. Os protestantes espalhavam-se em calúnias a propósito das restrições mentais; muitos católicos usavam dessas restrições, em grande detrimento das consciências, e ásperas discussões os dividiam entre si a esse respeito; eis por que o bispo julgou dever intervir. Seu tratado sobre o abuso das restrições mentais está estabelecido sobre a base de uma vasta investigação histórica. Estuda sucessivamente os textos da Escritura, a doutrina dos Padres, as opiniões dos teólogos escolásticos; depois, com grande clareza, faz a partilha entre o que é certo e o que permanece duvidoso nessas matérias; quanto a ele, toma uma posição média, conforme, julga ele, à dos Padres e dos antigos escolásticos.

Minhas preferências vão para a opinião daqueles segundo os quais: a restrição mental só é permitida se for manifestada exteriormente, seja por palavras, seja pelas circunstâncias ou pelos usos, p. 26. Dá, em consequência, regras muito precisas para o emprego da restrição mental; mas não esconde que o silêncio é sempre preferível e que melhor seria ater-se sempre a ele, seja por amor da perfeição, seja para não se expor ao perigo de pecar ou de dar escândalo.

A confissão também era objeto dos sarcasmos dos calvinistas e, com demasiada frequência, sacerdotes e religiosos davam, na administração do sacramento da penitência, o flanco à crítica. Sabe-se que Gregório XV publicou, em 1622, bulas disciplinares sobre esse assunto. Cf. art. Grégoire XV, t. vi, col. 1818; mas elas estavam longe de ser suficientes, pois, a 1º de novembro de 1624, Malderus pedia ao arcebispo de Malines que assinalasse a Roma vinte abusos não relevados pelo papa; carta publicada em Synodicon belg., t. i, p. 118 sq. É para reagir contra esses abusos que o bispo escreveu, em 1626, seu tratado sobre o selo da confissão; e sua mão se reconhece facilmente na Instructio danda confessariis in provincia mechliniensi, que foi mais tarde aprovada pelos bispos da província reunidos em Antuérpia. Texto em Synodicon, t. i, p. 494-497.

As últimas publicações de Malderus são obras de espiritualidade. Meditando o Cântico dos Cânticos, encontrou nele advertências tão úteis aos pastores e aos fiéis que empreendeu comentá-lo num in-8° intitulado In Canticum Canticorum Salomonis commentarius, Antuérpia, 1628. Coloca-se aí num ponto de vista exclusivamente místico e prático. Salomão, escreve ele em seu prefácio, quer recomendar não só a vida contemplativa, mas a vida ativa, pois o verdadeiro Salomão veio exercer o encargo pastoral e morrer por suas ovelhas. Adota em consequência a divisão de Arnoldo Cathius em três estados: estado dos principiantes, que vivem no temor; estado dos perfeitos, que vivem no coração da vida contemplativa; estado dos perfeitos que se dedicam ao cuidado das almas; e termina com conselhos sobre a maneira de preparar-se para a morte. Sua obra é erudita; nela se veem citados Padres e teólogos, entre os quais São Anselmo, Beda, São Bernardo, São Tomás ocupam o primeiro lugar; mas visa sobretudo a ser útil por numerosas aplicações à vida espiritual e aos deveres de estado.

Ao comentário sobre o Cântico, é preciso aproximar as Meditationes theologicae, universae theologiae summam complectentes, tribus partibus distinctae et in 21 dies distributae, Antuérpia, 1630, in-8°, e uma obra póstuma, o Judicium de ecstasi perpetua, sive partis spiritualis ab animi abstractione et id genus anagogicis exercitiis, Pharus spiritualis, que Libert Fromond, deão da colegiada de São Pedro e professor na universidade, publicou em Lovaina, em 1652, na sequência de seu Brevis commentarius in Canticum Canticorum. Uma 2ª edição do Brevis commentarius, aparecida em 1660, contém, sob a mesma paginação, o Pharus spiritualis datado de 1659. Este é, na realidade, um parecer sobre um livro que trata do êxtase. Malderus mostra-se aí, em princípio, indulgente para com os místicos: não se pode, diz ele, pesá-los com o rigor dos escolásticos; é porque o fizeram que João Eyck e Gerson condenaram, um, Tauler, o outro, Ruysbroeck. Mas a tolerância teve efeitos funestos sob a capa da linguagem mística: favoreceu a difusão de erros indesculpáveis, como os dos Begardos alemães, da seita dita do «Livre Espírito», da Theologia germanica, dos Iluminados que a inquisição espanhola condenou em 1623: por isso convém seguir, na prática, os conselhos da prudência. »

Ao mesmo tempo que pastor vigilante e homem de doutrina, Malderus foi um administrador. Regulamentou com cuidado o procedimento da cúria episcopal, por seu Modus procedendi in curia episcopali, Antuérpia, 1619, in-12; estabeleceu a partir de 1612 reuniões de deãos que se realizaram todos os anos até 1621, depois em 1624, 1627, 1630, 1631, 1632, e cujas atas dizem bastante sua fecunda atividade; instalou por toda parte párocos instruídos e zelosos, organizou as escolas dominicais para as quais publicou, em 1615, um regulamento, erigiu canonicamente a confraria da doutrina cristã, em 26 de janeiro de 1618, favoreceu a instituição dos montes de piedade proposta por Venceslau Coeberger e aprovada pela assembleia episcopal de 1617, prosseguiu a reconstrução das igrejas destruídas e o embelezamento das que haviam sido despojadas de seu mobiliário.

As ordens religiosas encontraram junto dele um apoio inteligente; durante seu episcopado, viram-se estabelecer-se na diocese, em 1611, as carmelitas, em 1612 os mínimos, em 1618 os carmelitas descalços, em 1619 as carmelitas inglesas, em 1621 as agostinianas, as dominicanas, as franciscanas. Vigiando de perto sua atividade, recorreu largamente ao concurso dos dominicanos, dos franciscanos, dos jesuítas sobretudo, cuja nova igreja ele mesmo benzeu, a 12 de set. de 1621. Assim Malderus contribuiu, por sua parte, e muito largamente, para o grande movimento de restauração religiosa que prosseguiu nos Países Baixos católicos sob os arquiduques Alberto e Isabel.

Os resultados de seus esforços estão consignados nos relatórios de visita ad limina que ele foi exato em enviar a Roma de quatro em quatro anos. O primeiro, o único que foi publicado, afirma que, desde 1615, o catolicismo fazia progressos sensíveis na cidade e na diocese de Antuérpia, com exceção dos dois decanatos do norte. Infelizmente, um retorno das perturbações veio entravar o exercício de seu zelo e entristecer seus últimos anos. Numa carta de 19 de agosto de 1631, em que se desculpa por não poder assistir à reunião episcopal de Bruxelas, por causa de suas enfermidades crescentes, queixa-se de não poder apascentar em paz seu rebanho invadido pelos lobos: a presença de dois exércitos desola a diocese, muitos de seus sacerdotes fugiram, dois foram feitos prisioneiros. Sente-se que está cansado; mas a hora do repouso está próxima: a 26 de julho de 1633 escreve seu testamento, pelo qual funda na universidade de Lovaina o colégio teológico que leva seu nome: Collegium Malderi, e morre em Antuérpia a 21 de outubro seguinte.

Foi sepultado no coro de sua catedral, onde um epitáfio celebra sua piedade, sua bondade, sua vigilância, sua fidelidade; e no museu real, um retrato, pintado por Van Dyck, recorda aos antuerpianos a clara inteligência e a doce firmeza daquele que foi seu quinto bispo.

Às obras de Malderus, assinaladas acima, cumpre acrescentar uma carta dirigida por ele a seu antigo colega Guill. Fabricius, a 18 de março de 1619, sobre a graça suficiente. Foi publicada por Lievin de Meyer, S. J., em suas Historiae controversiarum de divinis gratiae auxiliis... libri sex, in-fol., 1705, p. 54, 55. Os relatórios dirigidos a Roma pelo bispo em 1615, 1619, 1623, 1628 e 1632 estão conservados nos Arquivos da visita ad limina. Ver A. Pasture, Les archives de la visite ad limina pour les deux anciennes provinces ecclésiastiques des Pays-Bas, Malines et Cambrai (1589-1800), no Bulletin de la commission royale d'Histoire, t. LXXXIII, 1919, p. 281 sq. Somente o relatório de 1615 foi publicado nos Analectes pour servir à l'histoire ecclésiastique de la Belgique, 1864, t. I, p. 98 sq.

O Synodicon belgicum, sive acta omnium ecclesiarum Belgii a celebrato concilio Tridentino usque ad concordatum anni 1801, empreendido por J.-F. Van de Velde e continuado por P.-Fr.-X. De Ram, contém, nos t. I e II, Malines, 1828-1829, com as Atas dos sínodos da província de Malines, cartas e memórias de Malderus relativas a essas assembleias, e no t. III, Lovaina, 1858, as atas das reuniões decanais de Antuérpia, as instruções pastorais e os regulamentos publicados por Malderus, assim como diversas cartas do bispo. Na falta dessa grande obra, podem-se consultar os sumários que dela deram os autores: J.-F. Van de Velde, Synopsis monumentorum collectionis proxime edendae conciliorum omnium episcopatus mechliniensis, 3 vol., Gand, 1831; P.-Fr.-X. De Ram, Synopsis actorum ecclesiae antwerpiensis et ejusdem dioeceseos status hierarchicus, Bruxelas, 1856.

As mais antigas biografias de Malderus são as de Valério André nos Fasti academici studii generalis lovaniensis, Lovaina, 1650, e de J.-Fr. Foppens na Bibliotheca belgica, t. II, Bruxelas, 1739, p. 753 sq. Cumpre acrescentar C. Visschers, Gedenkschrift over den hoogwaerdigen en geleerden Joannes Malderus vyfden bisschop van Antwerpen, Antuérpia, 1858, in-8°, que reproduz em apêndice a genealogia publicada pelo mesmo autor no ano anterior sob o título Geslacht boom der famille Van Malder-Walraven, Antuérpia, 1857, in-8°; Paquot, em Mémoires pour servir à l'histoire littéraire des 17 provinces des Pays-Bas, t. II, Lovaina, 1768, p. 5 sq.; Ch. Piot, artigo Malderus na Biographie nationale de Belgique, t. XIII, col. 223-226; Hurter, Nomenclator, 3ª ed., t. III, col. 882. Encontrar-se-ão informações de ordem mais geral e uma bibliografia abundante em J.-C. Diercxsens, Antverpia Christo nascens et crescens, Antuérpia, 1773; Dict. d'hist. et de géogr. ecclés., art. Anvers; P. Claessens, Histoire des archevêques de Malines (1559-1881), 2 vol., Lovaina, 1881; A. Pasture, La restauration religieuse aux Pays-Bas catholiques sous les archiducs Albert et Isabelle (1596-1633), Lovaina, 1925.

E. Vansteenbergh.

Autor original: E. Vansteenberghe

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