MAGNI (VALERIANO)

MAGNI (VALERIANO)

MAGNI Valeriano, frade menor capuchinho (1586-1661). Esta personagem é, sem contestação, uma das figuras marcantes da história religiosa dos diversos Estados que compunham o Sacro Império, na primeira metade do século XVII. Sua história não foi escrita e a tarefa seria delicada, por causa de suas conhecidas desavenças com os membros da Companhia de Jesus, dos quais alguns forneceram a Pascal os elementos de sua décima quinta Carta Provincial. Não temos de discuti-las aqui e nos limitaremos à simples exposição dos fatos, na medida em que for necessário. O P. Magni teve defeitos que não procuramos negar. Suas qualidades eminentes eram estragadas por um sentimento excessivo de sua personalidade, que lhe fazia buscar os elogios e não lhe permitia aceitar o insucesso, a contradição. Homem eminentemente superior, teve pequenos lados, e se os volumosos dossiês que lhe dizem respeito nos arquivos da Propaganda e do Vaticano encerram grande número de belas páginas, conservam infelizmente muitas outras, que se quereria apagar pela honra de sua memória. Foi exaltado além da medida e rebaixado mais do que convinha; a verdade estaria num justo meio que somente um escritor imparcial poderia estabelecer. O papel político do P. Magni não entra no quadro do Dicionário, só temos de ocupar-nos do filósofo e do teólogo. Foi sobretudo um valente adversário dos protestantes, e os ataques de que foi objeto da parte deles demonstram que não o tinham por um adversário de mínima importância.

I. VIDA. — Maximiliano Magni nasceu em Milão, a 15 de outubro de 1586, de uma família nobre, originária do Friul. Era ainda criança quando seu pai se transferiu para Praga, aonde o chamavam interesses de família. Adolescente, frequentava o convento dos capuchinhos e, dois anos depois, a 25 de março de 1602, vestia o hábito franciscano e tomava o nome de Valeriano de Milão. Uma vez sacerdote, é enviado a Viena, na qualidade de lente de filosofia e de pregador de língua italiana; logo se fala dele na corte e o imperador deseja ouvi-lo. Em 1616, Sigismundo III pede capuchinhos para estabelecê-los na Polônia. O P. Valeriano é escolhido para essa missão, e o rei fica tão satisfeito que, no ano seguinte, o envia a Roma, para tratar em seu nome dos meios de assegurar a defesa da fé, pela cooperação na cruzada contra o Turco, da qual seu confrade, o P. José du Tremblay, era o apóstolo. A guerra vem contrariar os projetos do monarca e ele só poderá realizá-los dez anos mais tarde; por isso, o padre retoma em Viena o curso de suas lições.

A questão das passagens da Valtelina não tarda a perturbar as relações dos Estados que pretendiam ter direitos sobre elas (1621), e o imperador delega nosso capuchinho a Paris para negociar esse assunto, cuja solução se fará esperar. De volta, é colocado em Linz como mestre de noviços, depois novamente em Praga, onde ensina filosofia. O arcebispo, que será logo o cardeal d'Harrach, escolhe-o para confessor e faz dele seu conselheiro e seu teólogo. Em 1624, é eleito provincial de sua ordem para a Boêmia, a Áustria e a Morávia, mas, ao cabo de dois anos, renuncia ao cargo, por desejo da Congregação da Propaganda, que o estabelece superior da missão contra os protestantes na Boêmia e o liga ao cardeal de Praga, para trabalhar na reforma de seu imenso diocese. Nesse meio tempo, consagra-se com ardor à pregação e à conversão dos protestantes, e é com esse fim que publica seu primeiro tratado, De catholicorum regula credendi, Praga, 1628.

Nessa época surge uma nova questão que ameaça a paz da Europa, a da sucessão de Mântua e da posse do ducado de Monferrato. É ainda o P. Valeriano que o imperador envia a Pignerol, onde se encontra, no mês de abril de 1630, com Richelieu e o P. José; alguns meses mais tarde, os dois religiosos se reencontrarão no célebre congresso de Ratisbona, em seguida ao qual Fernando teria dito, falando do capuchinho francês, que, por mais estreito que fosse seu capuz, soubera fazer caberem nele seis barretes de eleitores. Magni, por um ou outro dos príncipes eleitores, o P. Valeriano voltará muitas vezes a Ratisbona, por ocasião das dietas do Império. Estava em Praga, por volta do fim de 1631, quando a cidade foi cercada pelas tropas protestantes do duque da Saxônia, e empenhava-se com êxito em manter o moral dos católicos. No ano seguinte, trabalhava para assegurar a coroa da Polônia a Ladislau IV, filho de Sigismundo; por isso o novo rei o convidava às festas de sua coroação e obtinha, a 3 de julho de 1634, que ele viesse gastar-se em seu reino.

Em recompensa de seus serviços, Ladislau pedia para ele ao papa o chapéu de cardeal, por uma carta que aquele a quem dizia respeito teve a pequenez de deixar imprimir (despacho do núncio em Varsóvia, 7 de abril de 1636, ms. Barber. lat. 6596), com a relação que enviara à Propaganda dos acontecimentos de Praga durante a ocupação Epistola... in qua narratur status fidei catholicae in civitate Pragensi, quo tempore occupabatur a Duce Saxoniae, in-4°, s. l., 1636. Pretende-se que um pouco mais tarde, depois que negociou o seu casamento com uma filha do imperador, 1637, Ladislau tenha renovado seu pedido, que apoiaram o imperador e o rei da Espanha; mas sem maior sucesso, motivando o papa sua recusa no fato de que o P. Magni não era súdito do rei da Polônia. Tendo o arcebispo de Praga o reclamado, voltara a essa cidade em 1636, para retornar em seguida à Polônia por instâncias do rei, a quem o concediam por um ano, no mês de janeiro de 1638. Durante esse ano, vai até Dantzig, onde prepara a conversão de um ministro famoso, Bartolomeu Nigrinus, que se declarará católico três anos mais tarde, após novos colóquios com Valeriano. De volta à sua província, aproveita seu repouso para redigir as respostas aos ministros, que atacaram seu tratado sobre a regra de fé. Teria querido não ter outra ocupação senão a da composição de suas obras de filosofia, que, escrevia ele a 23 de março de 1641, causariam tamanha admiração que cresceria em autoridade para o seu ministério apostólico.

Várias vezes já viera a Roma, e teria desejado retirar-se para lá, mas tudo o que obtinha era fazer ali uma estada de cerca de um ano, 1642-1643, ao cabo da qual devia voltar à Áustria e à Boêmia, onde o vemos qualificado de missionário apostólico na Saxônia Eleitoral, na Hesse, na Marca de Brandemburgo e em Dantzig. De 1646 a 1648, está na Polônia, onde manda imprimir várias obras. Nos anos seguintes, reencontramo-lo em Viena, e é de lá, por volta do fim de 1651, que uma ordem da Propaganda o envia às margens do Reno para trabalhar na conversão do landgrave de Hesse, que o pedia pessoalmente. Na festa da Epifania, o landgrave e sua mulher faziam sua abjuração pública na catedral de Colônia. No mesmo dia, o príncipe escrevia ao papa, implorando sua bênção, e à Propaganda, para agradecer-lhe por lhe ter enviado o P. Valeriano. Este iniciara então um sistema de controvérsias por escrito, que julgava infalível, e continuou-as durante todo o ano, até que o núncio lhe ordenou que as interrompesse, não as aprovando o papa nem a Propaganda. Publicou ainda alguns opúsculos, dos quais um bastante infeliz, que provavelmente não deixou de influir no decreto da S. Congregação, de 6 de dezembro de 1655, que proibia aos missionários publicar qualquer obra que fosse sem a sua autorização. O ardente polemista, que declarava não poder passar sem a imprensa, ego sine usu praeli inermis sum, viu nesse decreto uma medida que o visava especialmente e considerou-se vítima de seus adversários.

De volta à Áustria e reduzido a só poder defender-se por meio de curtos manuscritos, acabou por não mais se conter, e faz aparecer sua Apologia contra imposturas jesuitarum, pois, pensa ele, são eles a causa de todas as suas desgraças. Logo ela está em Roma, para onde ele mesmo a enviou, no mês de outubro de 1660. O resultado não foi talvez o que esperava. No começo do ano seguinte, partira para Viena, a fim de justificar-se junto ao núncio. Este recebia a ordem de prendê-lo e, não permitindo sua idade avançada transferi-lo para Roma, de interná-lo. Na tarde de 1º de fevereiro, o auditor da nunciatura apresentava-se ao convento e, com a ajuda do braço secular, conduzia-o à prisão chamada Hospital do Imperador. Seus irmãos na religião e seus amigos intervieram junto ao imperador e ao núncio, seus parentes ofereceram-se como fiadores, e foi-lhe permitido retirar-se para o convento de sua ordem em Salzburgo. É na liteira imperial que ele ali é transportado; o príncipe-arcebispo lhe faz o mais benevolente acolhimento, mas o abalo fora violento demais e a gota, de que sofria havia anos, subindo ao coração, não tardou a derrubar o intrépido justador. Depois de protestar não guardar rancor contra quem quer que fosse, o P. Valeriano morreu piedosamente beijando seu crucifixo, a 29 de julho de 1661, no septuagésimo quinto ano de sua idade e no sexagésimo de sua vida religiosa.

II. ESCRITOS. Apesar dessa vida errante e cheia de contrastes, o P. Valeriano escreveu muito.

1° Obras filosóficas. Em suas cartas, fala com bastante frequência de suas obras filosóficas, nas quais teria desejado poder trabalhar à vontade. Em 1641, escrevia que dois anos antes, aproveitando um tempo de repouso, empreendera uma obra paene immensae difficultatis sistema scilicet omnium scientiarum, quae sub latiore vocabulo philosophiae et theologiae numerantur (Judicium de catholicorum regula credendi, p. 4). O plano era vasto, e aquele que o concebera parece ter sido incapaz de seguir algum. Nos primeiros escritos em que expõe sua filosofia, philosophia Valeriani, ataca Aristóteles. Para ele, o Estagirita é um tirano, tyrannus est, qui premit genus humanum perniciosius ullo heresiarcha, ullove hominum quos tulerit aetas ulla (De atheismo Aristotelis). Por isso, revolta-se contra essa tirania da qual quer libertar a filosofia cristã. Ao combater o aristotelismo, o P. Magni apenas seguia as tradições da escola franciscana, mas nem por isso pertencia a ela. Aliás, não se reclama de nenhuma, e antes se põe como autodidata e independente; diz sempre minha filosofia. Não satisfazendo seu espírito curioso a que lhe haviam ensinado, procurou durante dez anos um sistema, antes de entrever um pouco de luz e de perceber que, para chegar à verdade, lhe era preciso libertar-se da autoridade que lhe impunham.

Deu um primeiro vislumbre dessa independência num pequeno tratado que Wadding, um de seus examinadores, qualifica magis mysticus quam philosophicus e que em outro lugar chama opus peregrinum et obscurum, haud omnibus pervium. Tinha por título De luce mentium et ejus imagine, in-12, Roma, 1642, ( ? ), Viena, 1645. Não podemos fazer melhor do que citá-lo: Sentio ac dico Lucem mentium, seu rationis esse Deum benedictum... Quod autem lux mentium se ipsa sit intelligibilis ab homine, ut ego sentio ac dico, id negatur ab omnibus paene theologis; cum enim ponam lucem mentium esse homini per se notam eamque esse Deum, sequitur Deum esse homini per se notum; quod negatur ab omnibus, si paucos excipias theologorum. Cf. Tendo sido seu opúsculo fortemente atacado, publicava um segundo, De luce mentium et ejus imagine, ex sanctis patribus Augustino et Bonaventura, in-12, Viena, 1646, onde dá simplesmente os textos desses santos doutores, nos quais se apoia, e que no precedente estavam apenas brevemente indicados. É sob esse título inexato que, numa obra tendenciosa, o De luce mentium era reeditado, com um Appendix, quaenam sentienda sit de doctrina Valeriani Magni, por um anônimo, Bolonha, 1886.

Valeriano volta muitas vezes a esse princípio em seus outros escritos filosóficos, nos quais, diz ainda Wadding, multa contra communes peripateticorum opiniones ostentat. Os primeiros são do ano de 1647 e apareceram na sequência de suas experiências sobre o vácuo. Sem ter ouvido falar disso, afirma ele, e não temos motivo para não crer nele, havia renovado a experiência do tubo de mercúrio, já feita por Torricelli em Florença e Roma. Aproveitava a ocasião para escrever Demonstratio ocularis loci sine loco, corporis sine lumine, nulli corpori motui vacuo, inhaerentis, in-8°, Viena, 1647.

Relata aí a sua experiência, feita na presença da corte da Polônia, e conclui opondo-a à doutrina de Aristóteles, pois seu fim ao proceder era procurar uma prova de fato contra o peripatetismo. Contradizem-no; ele repete a experiência diante de uma reunião de teólogos e escreve ainda algumas páginas, Altera pars demonstrationis ocularis de possibilitate vacui, 12 de julho e 12 de setembro. O primeiro opúsculo já chegara a Paris, e Gilles Personne de Roberval acusava o capuchinho de não ser senão um plagiário, De vacuo, narratio ad nobilem virum P. Mersenne, de 20 de setembro. Este se justificou, De inventione artis apologeticae, 9 de novembro. Respondia ainda a um certo João Broscius, que no Peripateticus Cracoviensis defendia Aristóteles. Outros ainda tomaram da pena para combater as conclusões de Valeriano contra os peripatéticos. Citaremos um professor anônimo do Colégio Romano, Sonnino, que replica Magno an vacuo vacuum : experimenta vulgata probare, sed plenum et antiperistasim stabilire. Roma, 1648; João Fanturzi, professor no colégio de Bolonha, Eversio demonstrationis ocularis loci sine locato..., Bolonha, 1648; Tiago Pierius, médico e professor de filosofia, De experientiam nuperam vacuum, circa vacuum. R. P. Valeriani Magni demonstrationem ocularem... responsio ex peripatetici philosophiae principiis desumpta, 1648; o P. Kolalowicz, s. j., sob o pseudônimo de Peripateticus Vilnensis: Oculus rationis correptus, id est demonstratio ocularis cum admirandis de vacuo per demonstrationem rationis rejecta, Vilna, 1648.

Quanto ao P. Valeriano, havia reeditado seus opúsculos num volume, Admiranda de vacuo et Aristotelis philosophia, in-8°, Varsóvia, 1647, acrescentando-lhe algumas páginas dirigidas ao P. Mersenne, De atheismo Aristotelis, datadas de 19 de novembro. No ano seguinte, descrevia seus Experimenta de incorruptibilitate aquae, 15 de março de 1648, e, dizia ele, essa só incorruptibilidade da água derruba toda a física de Aristóteles. Ao mesmo tempo que se entregava a essas experiências, vigiava a impressão de sua obra Valeriani Magni, fratris capuccini, philosophia... pars prima, in qua tractatur de peripatu, de logica, de per se notis, de syllogismo demonstrativo, in-8°, Varsóvia, 1648. Esses tratados não estão, como o título pareceria indicar, reunidos num só volume, mas formam outros tantos livretos separados, muito difíceis de encontrar. Nos prolegômenos do primeiro, anunciava três outras partes. Na segunda, dizia, contemplabimur Deum ejusque artem aeternam in qua cernitur mentaliter mundus intelligibilis... Postquam demitto aciem mentis ad considerationem mundi existentis instar idem. primae huic parti tertia succedit quarta et postrema, qua exhibet peculiarem Dei providentiam erga genus humanum. Haec pars philosophiae nuncupatur theologia.

Em vez de seguir esse programa, publicava em seguida Valeriani Magni... principia et specimen philosophiae... in 4°, Colônia, 1652. Nesse volume, encontram-se tratados novos, Axiomata ad unicam philosophiam, De luce mentium, que difere do primeiro opúsculo publicado sob esse título; são seguidos da reedição dos Admiranda de vacuo e da Decas prima Soliloquiorum ad ladislaum quartum, já impressa em Varsóvia, 1648. Na maior parte dos exemplares falta uma folha adicional, na qual o autor protesta contra as faltas insuportáveis, errores intolerabiles, cometidas pelo impressor, que bagunçou a ordem dos tratados sobre o vácuo. Faz precedê-los de uma breve resposta a uma objeção que talvez lhe tivessem feito, Quid si haec prima lumen productum in vacuo detrahant creationem Deo et miracula sanctissimo eucharistiae sacramento ?

É a seus caros estudos filosóficos que o P. Magni consagrava os lazeres forçados dos últimos anos de sua vida e que pedia um derivativo para suas preocupações de todo gênero. Oferecera a seu sobrinho, o barão Francisco Magni, conde de Straznitz, o manuscrito de sua Lógica, que este mandou imprimir. Prometia-lhe então escrever, para ele, sua filosofia e, com efeito, alguns anos mais tarde entregava-lhe o manuscrito, do qual pelo menos uma boa metade foi publicada sob este título: Opus philosophicum Valeriani Magni, in-f°, Leitmeritz, 1660. Nessa obra, desconhecida dos bibliógrafos, como a edição da Logica, reeditava, mas modificando-os profundamente quanto à forma, os opúsculos que indicamos. Está dividida em duas partes: I. Synopsis philosophiae Aristotelis; II. Philosophia Valeriani Magni. A primeira se compõe de dois tratados: 1. Sententia Aristotelis de Deo et mundo; 2. Sententia Valeriani de doctrina Aristotelis. No começo do segundo, propõe este argumento: Philosophia ignorat Deum causam efficientem mundi. Eum qui ignorat Deum esse causam efficientem mundi est impossibile habere scientiam de Deo et mundo. Ergo philosophia Aristotelis non habet scientiam de Deo et mundo. É o desenvolvimento da menor que forma o assunto do tratado.

A segunda parte, Philosophia Valeriani Magni, encerra numerosas divisões e subdivisões: Logica, Metaphysica, Rudimentum mathematicae, Physica, Pansophiae, mas o volume só contém a Lógica e a Metafísica; esta compreende três partes, Apparatus ad metaphysicam universamque philosophiam, Deus, Ens creatum. Nesse volume, temos ao todo vinte e dois dos trinta e nove tratados que, dizem, compunham toda a obra. Os outros apareceram? Pensamos que se deve ver no Opus philosophicum De Dei in se et creaturis cognitione aquilo que, em 1658, pedia para poder imprimir. Esse título, com efeito, resume o sistema filosófico do P. Valeriano. Seu ponto de partida é a ideia do ser perfeito que se apresenta a nós, desde que começamos a refletir sobre o que existe. É o conhecimento desse ser perfeito, ens perfecta, ens qua ens, ens non factum, que é a luz, graças à qual nossa inteligência chega ao conhecimento do ser imperfeito, ens creatum, pois é pelo conhecimento da perfeição que temos o da imperfeição, como pelo da luz chegamos ao das trevas, que são a sua privação. Ele vai nos dar a indicação do que considera o assunto da filosofia.

Si, Théophile, mentem tuam extendas ad contemplandum id omne quod est, deprehendes Deum et mundum : deprehendes, inquam, unicam causam intelligibilem ex consideratione sui effectus. Ita ut Deus sit objectum intelligibile in suo effectu ; Deus, inquam, in mundo creato. Porro Deus creando mundum respicit in ideam intelligibilem, quapropter cognitio mundi idealis plurimum differt a cognitione mundi existentis realiter. Philosophia consistit in intellectione mundi idealis, exactior vero cognitio mundi existentis non omnino spectat ad philosophicam sed ad historiam rerum naturalium (Philosophia Valeriani, p. 3). Algumas linhas antes, ele havia dito: Intelligebam meum philosophari quam ordinem mediorum esse nil aliud assequi illum in fines naturae, quem noreram praeconceptum a primo intellectu. Se lhe perguntam qual é o seu método, responderá: Adhibeo methodum compositivam, exorsus mea ad ratiocinia a per se notis, et inde progredior ad occulta, occultiora et occultissima, p. 7. Nas quinhentas páginas deste volume, ele não cita nenhum autor, por medo de que lhe censurassem não o haver compreendido; por isso é preciso ser filósofo para ver as suas relações com as escolas. Contemporâneo de Descartes, terá lido as suas obras e será seu tributário? João Cristiano Wolf, na sua Psychologia empirica, pars I, sect. II, c. 2, 76, ed. Verona, 1736, p. 27, escreve que Leibniz, que multum tribuit acumini Valeriani Magni, serviu-se de um e de outro. Ele é, sem dúvida alguma, o Valerianus que, numa carta a Arnauld, o filósofo alemão enumera entre «os autores cristãos conhecidos por terem escrito com mais liberdade do que os outros» e que diz ter lido com curiosidade. Em Migne, Démonstrations évangéliques, t. IV, col. 1137, Paris, 1843.

Que nós saibamos, a filosofia do P. Magni não foi objeto de nenhum estudo especial; as suas obras tornaram-se mais que raras e o seu nome caiu no esquecimento. Mereceria, contudo, fixar a atenção de algum crítico. Num trabalho recente, o P. Romualdo Bizzarri, capuchinho da província da Toscana, fundando-se unicamente no tratado De luce mentium, apresentava-o como um precursor de Rosmini, Tre cappuccini precursori del Rosmini, em Rassegna nazionale, Roma, agosto de 1924.

2° Obras teológicas. Embora em menor grau, encontramos a mesma confusão nas obras teológicas do P. Valeriano, consagradas sobretudo à controvérsia com os protestantes. Em 1628, como já dissemos, ele havia feito aparecer o seu primeiro tratado, De acatholicorum credendi regula judicium, no qual estabelece que, sem a autoridade da Igreja, a Bíblia sozinha não pode bastar para ser a regra de fé dos cristãos. Insiste nesse dilema: aut redeundum ad Ecclesiam romanam, aut recedendum a Christo. Caramuel, seu contemporâneo, que tivera ocasião de frequentá-lo em Praga, onde foi vigário-geral do cardeal d'Harrach, emitia este juízo sobre o referido opúsculo: quem qui legerit esse lutheranum aut etiam calvinianum non possit. Theologia moralis fundamentalis, fundam. 46, edit. 2a, t. II, p. 14, Roma, 1656.

Um ministro da igreja de Iena, João Major, tentou uma refutação que não pudemos encontrar. Valeriano respondeu-lhe com a reedição do seu opúsculo, seguida de observações sobre o escrito que lhe fora oposto, De acatholicorum... judicium nec castigatum nec confutatum a Johanne Majore Jenensi superintendente, in-12, Praga, 1631. Um filho desse pastor, chamado João como o pai, publicou em defesa deste um escrito do qual só encontramos o título, Apologeticus pro parente adversus Valerianum Magnum. Nos anos seguintes, outros ministros e professores escreveram contra o tratado de Valeriano; foram eles Tiago Martini, de Dresden, Vindiciae Ecclesiae lutheranae Dei gratia ab absurdis superstitionis pontificiae opinionibus liberatae, contra absurdas consequentias capuccini Valeriani Magni, et sententiam ejus de regula credendi, in-8°, Wittemberg, 1631; João Botsac, de Rostock, Antivalerianus, sive religio papistica probatur non esse vera, quia regula credendi falsae innititur, contra Valeriani Magni judicium, Leipzig, 1631; um dos três irmãos Stegmann, provavelmente Joaquim, que publicou sem apor o seu nome, Brevis disquisitio, an et quomodo vulgo dicti evangelici pontificios ac nominatim Valeriani Magni de acatholicorum credendi regula judicium solide atque evidenter refutare queant? Eleutheropolis (Amsterdã), 1633, Londres, 1650; enfim Conrado Bergius, decano da igreja de Bremen, Praxis catholica divini canonis contra quasvis haereses et schismata, seu de fide catholica et christianorum quorumvis circa illud consensu vel dissensu. Dissertationes novem... Bremen, 1639.

Nesta obra, Bergius ataca não somente Valeriano, mas Belarmino e Francisco Véron. A cada um deles o P. Magni dirigia uma resposta separada, que se encontra na sua volumosa obra Judicium de acatholicorum et catholicorum regula credendi, in-4°, Viena, 1641. Como o título indica, ela compõe-se de duas partes; na primeira, Valeriano responde aos seus adversários e, na segunda, estabelece a regra de fé dos católicos. Há infelizmente nesse tratado argumentos de pouco valor, que deram margem aos ataques dos protestantes. Sabemos, por uma das cartas do Padre, de 23 de março de 1641, que um novo convertido de Holstein, Teodoro Simons, havia publicado em sua defesa: Joh. Johannis Botsacci antivalerianus andabata, isto é, explica ele, que combate às cegas. Não encontramos dele nenhuma outra menção.

Mais tarde, sob o pseudônimo de Ulrico de Neufeld, João Comenius editava Judicium de judicio Valeriani Magni super catholicorum et acatholicorum credendi regula, sive absurditatum echo, in-8°, Amsterdã, 1644; e no ano seguinte, Judicium Ulrici Neufeldii de fidei catholicae regula catholica ejusque catholico usu. Ad Valerianum Magnum omnesque catholicos. O P. Valeriano respondeu publicando por sua vez Echo absurditatum Ulrici de Neufeld, demonstrante Valeriano... in-8°, Cracóvia, 1646. Comenius reeditou, sob o seu nome, as duas obras com este título De regula fidei judicium: Magno duplex: I. Qualiter a Valeriano constructa fuit; II. Qualiter ex intentione Dei et Ecclesiae usu construenda venit, in-8°, Amsterdã, 1658. O P. Magni é ainda tomado a parte, com o P. Josse Kedd, S. J., num escrito de J. Micraelius, reitor do colégio real de Stettin: Erörterung des Bekenntnüsses der Wahrheit allgemeiner uralten Kirchen, aber in der That Abfalls vom seligmachenden Glauben II. Ehrardts Graff Truchsess von Wetzhausen. Nebst Antwort auf seine 4 Fragstücke, als auf die 12 propositiones Jod. Kedii, S. J., und Sophismata Valeriani Magni, in-4°, Alt-Stettin, 1652, da qual existe uma tradução latina da mesma época, Diatribe de C. Ehrardi... Truchsess de Wetzhausen... recognitione Ecclesiae universalis antiquae, Viennae, anno 1652 facta. Esse conde Truchsess havia feito imprimir nesse mesmo ano um escrito intitulado Veritas antiquae Ecclesiae, que o P. Sommervogel atribui ao P. Kedd. Ao mesmo tempo, João Conrado Dannhauer, professor na universidade de Estrasburgo, fazia aparecer o seu Gorgias Leontinus sophista in Valeriano Magno... redivivus, sive analysis judicii de acatholicorum et catholicorum regula credendi producti a Valeriano Magno... in-4°, Estrasburgo, 1652. Um de seus alunos, João Cristóvão Artopaeus, fazia dele o assunto de sua tese de doutorado, Gorgias sophista in Valeriano Magno capucino redivivus.., ibid.

Por seu lado, o P. Magni publicava um opúsculo, ao qual dava por título Organum theologicum, seu regulae argumentandi humano ex testimonio, Salzburgo, 1652, depois sucessivamente Methodus revocandi acatholicos ad Ecclesiam catholicam, in-4°, Ratisbona, 1653; Lux in tenebris lucens quam tenebrae non comprehendunt, Straubing, 1654. Esse ano de 1654 foi ainda ocupado pela sua controvérsia com Hermann Conringius, professor em Helmstedt, que tinha a merecida reputação de ser o homem mais sábio da Alemanha; ele havia publicado um opúsculo Fundamentorum fidei pontificiae concussio. In-4°, Helmstedt. Instado a dar o seu juízo sobre esse escrito, o P. Magni publicou: Fundamentorum Ecclesiae catholicae jacta ab H. Conringio examinata et retorta in acatholicos, Straubing, 1654. O professor replicou com H. Conringii responsio ad Valerianum Magnum, pro sua concussione fundamentorum fidei pontificiae, Helmstedt. Por sua vez o capuchinho escreveu uma Epistola ad perillustrem... D. J. F. de Boineberg... de responsione H. Conringii, Munique, 1655, que provocou Conringii responsio altera... ad epistolam nuperrimam, Helmstedt, 1655.

Ao mesmo tempo, Samuel Desmarets, pastor da igreja reformada de Groninga e professor na faculdade dessa cidade, escrevia contra os últimos tratados que acabamos de mencionar dois escritos em francês: Valeriani Magni capuccini Methodus ἀμέθοδος et ignis fatuus, sive, I. examen theologicum novae methodi ab ipso nuper profusae ad retrahendos protestantes sub jugum Pontificis. II. Brevis refutatio libelli alterius quem postea sub titulo Lucis in tenebris lucentis emisit, in-4°, Groninga, 1651. A grosseria dos ataques do pastor francês ultrapassa em muito a de seus correligionários alemães. Já havia ele tomado o P. Valeriano a parte no seu Munimen orthodoxiae et perseverantiae evangelicae, contra tentationes et scandalum defectionis ad papismum, cujus lugubre exemplum, parario Valeriano Magno capuccino, non ita pridem in principe magni nominis Germaniae vidit, in-4°, Groninga, 1652. O príncipe de que se trata é o landgrave de Hesse, convertido, como dissemos, em seguimento de controvérsias das quais nos resta falar.

No decurso do ano de 1650, esse príncipe, achando-se na corte imperial, desejara conhecer o P. Magni e, a fim de esclarecer as suas dúvidas sobre a confissão protestante, conversar com ele acerca das questões religiosas. Em seguimento a essas conversas, convidava-o, no ano seguinte, a tomar parte numa controvérsia pública, que teria lugar em Frankfurt, para a qual convidava os príncipes vizinhos, e na qual teria por opositores três dos mais famosos ministros: João Crocius de Marburgo, vice-reitor da Academia de Hesse, e Pedro Haberkorn, professor na academia de Giessen. Os príncipes se escusaram e, dos três ministros, o primeiro pretextou a sua idade para não se deslocar, prometendo responder por escrito, o segundo enviou uma carta insolente ao landgrave, o terceiro veio ao encontro marcado. A sede da conferência fora transportada para o castelo de Rheinfels, onde se encontraram Haberkorn, assistido por dois ministros, com Valeriano e dois de seus confrades. Segundo o método imaginado por este último, a controvérsia devia fazer-se por escrito. Em sua carta de convite, o príncipe havia proposto as primeiras questões às quais deviam responder os adversários; as outras eram apresentadas à medida que se prosseguia. Começada em 1º de dezembro de 1651, essa controvérsia terminou no dia 21, tendo-se retirado os adversários.

Encontram-se as atas nos volumes publicados de uma e de outra parte. O P. Magni editou as Acta disputationis habitae Rheinfelsae, apud Valerianum Magnum Capuccinum S. inter missionarium apostolicum et magnificum D. Petrum Haberkornium, theologiae doctorem et academiae ss. Giessensis professorem, cum eorundem collegis... in-4°, Giessen, 1652, da qual existe uma tradução alemã, Die Acta der Disputation, Augsburgo, 1652. O ministro fez aparecer Vera et candida relatio actionum illarum, quae Rheinfelsae, in disputatione privata inibi instituta inter D. Petrum Haberkornium, superintendentem et professorem theologiae in academia Gissena, et Valerianum Magnum capuccinum, missionarium pontificium, cum eorundem occurrerunt, Giessen, 1652. Logo depois, publicava um Anti-Valerianus, i. e. refutatio duorum tractatuum Valeriani Magni..., papistæ, quos vocat Judicium de acatholicorum et catholicorum regula credendi, a que se segue um Appendix actorum Rheinfelsanorum et Anti-Valeriani, id est confutatio offuciarum quas Valerianus Magnus paucissimis illorum scriptorum assertionibus in actionibus noviter emissis inepte admodum opponere voluit, in-4°, ibid., 1652.

Fala-se nesse título de novidades editadas pelo P. Valeriano: é que a discussão continuava por escrito e encontram-se teses impressas, Theologorum catholicorum ex capuccinorum, actio II, III, IV, in 4°, Colônia, 1652, aos ministros que nomeamos. As enviadas a Calixto foram reunidas com as respostas dele num volume publicado por seu sobrinho: Acta inter serenissimum principem... Ernestum Hassiae Landgravium... et Georgium Calixtum, in-4°, Helmstedt, 1681. Quanto a Crocius, imprimia: Christiana et sincera responsio ad Ernesti Hass. Landgravii litteras ad theologos Francofurtum ad colloquium evocatos iteratas consignata et in lucem edita, in-4°, Cassel, 1651.

Existe uma edição alemã, Crocius... Handlung... Der papistischen Theologen... andere, ibid., 1652. Um autor, que não saberíamos indicar, tomou o partido dos teólogos católicos e fez aparecer um trabalho que não reencontramos: Ostensio Crocianae pravitatis sive vindiciae contra defensionem Crocii, Mogúncia, 1652. O ministro retomou a pena e escreveu: Justa defensio christiana et sincera responsionis... contra quorumdam novellus capucinorum patronus pro actione illorum secundo, ejusdem considerationem, veritate invita debutaverat, breviter expenduntur atque confutantur, ibid., 1652.

No começo do ano de 1653, o P. Valeriano, vendo a inutilidade dessas discussões, com adversários que se esquivavam das questões concretas, interrompeu-as; aliás, fora advertido de que Roma não as aprovava. Todavia, para que delas restasse algo além de cadernos de algumas páginas, reunia tudo numa obra que intitulava: Acta propria disputationis Rheinfeldensis continuata ex DD. Haberkornio, Georgio Calixto et Joanne Crocio. Ao volume já aparecido acrescentava as diferentes Actiones com cada um dos ministros, dando igualmente as suas respostas. A terceira parte, referente a Crocius, que na Justa defensio procurara ridicularizar, a propósito da Catholicorum regula credendi, onde ele relata fatos singulares, contados por Boverius nos seus Anais dos menores capuchinhos, intitula-se Porcus evangelicus productus in spectaculum Christi fidelibus, pois, escreve ele, para justificar esse título: quod Crocius in se moquant de ces miracles, id egit eventurum iis qui mittunt margaritas ante porcos. Vê-se por aí a que tom descera a polêmica.

Antes de autorizar a impressão de uma cópia, a Propaganda quis ter o manuscrito, tal como existe nos seus arquivos (Lettere antiche, vol. 334). Para grande pesar de Valeriano, a autorização não veio; aliás, outros fatos haviam ocorrido e diminuído o crédito de que ele gozara durante longos anos. Numa carta de 8 de fevereiro de 1652 a Jorge Calixto, o landgrave nomeia vários ministros que lhe haviam dirigido missivas inconvenientes, em seguimento à sua conversão e à publicação de uma obra na qual dava os motivos dela, Motiva conversionis ad fidem... Ernesti landgravii Hassiae..., in-4°, Colônia, 1652. Nomeia dois em particular, Guilherme Hulsius e Hermann Ewichius. Um anônimo lhes replicava com o Cibus quadragesimalis ex responsionibus H. Ewichii et W. Hulsii..., in-4°, Frankfurt, 1652 (Fasten-Speise H. Ewichii und W. Hulsii, ihren Antworten vorgestelt, in-4°, Colônia, 1652). No seu Munimen orthodoxiae, p. 59, não sabemos com que fundamento, Desmarets atribui esse escrito ao P. Valeriano; em contrapartida, e com bom motivo, contesta-lhe a Epistola peremptoria ad G. Calixtum, in-8°, Colônia, 1654, publicada sob o nome do landgrave, que lhe é atribuída pelo sobrinho desse mesmo Calixto. Quando apareceu, diz ele, esse capuchinho, já não tinha o favor do príncipe, que se dera inteiramente aos jesuítas, e a Paraenesis votiva pro ejusdem anima Calixti, ne pereat in schismate, que se segue à carta, P. Rosenthalii paedagogismum sapit.

Cumpre-nos explicar essa reviravolta a que o ministro alude. Na actio secunda da discussão de Rheinfels, o P. Valeriano havia escrito: candide fatemur non extare argumentum quod catholicum ex sacro textu inferat hanc thesim (de primatu Pontificis Romani). Algumas linhas abaixo, corrigia o que essa concessão podia ter de excessivo: hanc thesim non quimus inferre ex sacro textu, siquidem in bibliis nulla fit mentio Pontificis Romani. Limitando-se à primeira passagem, os ministros protestantes, João Crocius entre outros, tiravam dela vantagem para combater o primado do papa. Vendo isso, o novo convertido pediu ao seu confessor, o P. Rosenthal, S. J., que pusesse as coisas nos devidos termos. Ele o fez por um opúsculo, impresso às pressas, sem nome de autor nem lugar de impressão, Zwolff Betrachtungen uber den beständigen Baw auff den Felsen, und nicht auff den Sand, nebens zwolff Betrachtungen uber etliche der Uncatholischen Strophen oder Betrigereyen, Colônia, 1653.

O P. Valeriano não era ali nomeado, mas era fácil reconhecê-lo. Viu nisso uma vingança dos jesuítas, cuja exclusão das conferências de Rheinfels ele exigira, sob ameaça de retirar-se ele próprio? Pode-se supô-lo. O certo é que se ofendeu com essa publicação, na qual era representado como tendo escrito de modo diverso do que convinha, ex ignorantia, vel inconsiderantia, aut alio ex defectu. Dirigiu, pois, uma carta indignada ao seu confrade, o P. Boaventura de Ruthen, que já tomara a sua defesa num escrito satírico, hoje introuvável, pois todos os exemplares foram apreendidos e queimados em praça pública, por ordem do núncio: Zwolff Lehr-Jungen Bau : dencken eines in der Kunst, uber zween Meister derselbigen Kunst, einen alten Griechen und einen jungen Creter, Colônia, 1653. Na sua Epistola Valeriani Magni... ad R. P. Bonaventuram Ruthenum... de questione utrum primatus Romani Pontificis super universam Ecclesiam probari possit ex solo sacro textu, in-8°, Ratisbona, 1653, cuja impressão, feita à sua revelia, dizia ele, não lhe desagradara, queixava-se do procedimento de que era vítima e justificava a sua tese, tal como a estabelecera.

O caso talvez tivesse ficado por aí se, pouco depois, não tivesse aparecido um volume, sob o pseudônimo de Jocosus Severus Médius, Vertraulich Gespräch zwischen vier Papstischen scribenten als Jodoco Kedd, einem Jesuiten, Valeriano Magno, einem Capucciner, Elia Schillern doctore, und dann Paulo Segero Flandro, in-12, s. l., 1653. Com pouca verossimilhança, visto que o P. Kedd, S. J., ali era atacado, Valeriano acusou o P. Rosenthal de ser o seu autor, ao passo que, como só mais tarde se soube, fora publicado por João Sebastião Mittemacht, reitor do colégio protestante de Gera. Esse novo ataque renovou todos os seus antigos agravos contra a Companhia; remontavam ao começo de sua carreira apostólica, e para sua defesa compôs um infeliz opúsculo, Commentarius de homine infami personato, in-12, Viena, 1653. Dois anos depois, reeditava-o em Praga com um Appendix e uma Appendicula não menos lamentáveis.

Foi ele que motivou em grande parte o decreto da Propaganda de 6 de dezembro de 1655. Dissemos o resto. Sua Apologia contra imposturas jesuitarum acabara de alienar-lhe, assim como a seus irmãos, a benevolência do landgrave, já bastante diminuída pelos escritos precedentes, nos quais se falava muitas vezes dele. Julgou-se, portanto, no dever de defender-se e, com esse fim, compôs um opúsculo Mann muss auch den andern Theil hören oder Abschrifft eines Schreibens, welches eine zu Endt unterschriebene hochfürstl. Person, der Schutz-Schrifft, welche Valerianus Magnus... wider die bey sich eingebildete Betrugereyen der Jesuiten aussgehen lassen, entgegen gesetzt, in-12, s. l., 1661. Embora o autor tenha escrito em alemão, existem nessa língua dois textos completamente diferentes, um dos quais parece ser uma tradução da edição latina, feita por um secretário do príncipe Hermann Beernklaw, que apareceu ao mesmo tempo, Audiatur et altera pars, seu copia cujusdam litterarum R. P. Valeriano Magno... contra imaginatas sibi imposturas jesuitarum. No fim está a data de 17 de junho de 1661.

Assim que a impressão foi concluída, escrevia pouco depois o landgrave, enviou um exemplar latino ao príncipe-arcebispo de Salzburgo; mas tudo faz crer que este poupou essa pena suprema ao seu amigo, chegado ao fim da carreira, pois morria a 29 de julho. «Não sei se ele o viu», dizia esse príncipe, que não exprime nenhum outro pesar. As edições não se contam, pois foram verossimilmente multiplicadas por aqueles que nisso encontravam a sua vantagem. Pascal, cuja carta é de 25 de novembro de 1656, só havia utilizado o Commentarius in homine infami: os adversários da Companhia não tardaram a explorar os últimos escritos. Sob o pseudônimo de Theophilus aparecia logo uma Defensio pro Valeriano Magno, in qua exponitur Ecclesiæ romano-catholicæ scandalum, id est jesuitarum hæresis seu atheismus... contra librum Audiatur et altera pars. Homo politicus accessit integer, in-12, s. l., 1661. Pouco depois, Cristiano Kortholt publicava Valerianus confessor, hoc est solida demonstratio quod Ecclesia romana non sit vera Christi Ecclesia, deducta ex Valeriani Magni... apologia, in-16, s. l., 1662.

Essas publicações odientas só podiam prestar um mau serviço à memória do P. Valeriano, que merecia, contudo, uma reabilitação. Ela apareceu sob o título Responsio apologetica pro R. P. Valeriano Magno... et sociis ejus capuccinis, ad libellum anno 1661 a celsissimo principe Ernesto Hassiæ landgravio editum... cui titulus erat Audiatur et altera pars, in-12. Monopoli, 1662. O autor anônimo era o procurador-geral da ordem dos menores capuchinhos, o P. Marco Antônio Gallizio, que defendia a ortodoxia do P. Valeriano na sua tese de Rheinfels, e a de seus confrades, que o landgrave punha sob suspeita, e, em outros pontos, opunha documentos às asserções dele. À sua apologia acrescentava a Relatio veridica de pio obitu R. P. Valeriani Magni, já publicada nos dias que se seguiram à sua morte, assim como a inscrição muito elogiosa que, sob o título de Epitaphium, lhe dedicara o príncipe-arcebispo de Salzburgo. Fez-se silêncio, e o Valerianus redivivus, Colônia, 1683, do P. Carlos de Hildesheim, não é senão uma explicação da Regula credendi.

1° Fontes. — Arquivos do Vaticano, Borghèse, i, 99, 912; ii, 7, 74, 419; iii, Lettere dei Principi, 62, 64, 71; Lettere del Vescovi, 36. — Arquivos da S. C. da Propaganda, i, 3-17, 57, 59, 61, 63, 66, 67, 69, 70-72, 74-85, 87, 89, 122, 125, 214-217, 318, 323, 324, 328, 330, 332-336, 338. — Biblioteca Vaticana, ms. Barb. lat., 6631, 6596, 6660, 6949, 7002, 7052. — Paris, Bibl. de l'Arsenal, ms. 931. 2° Estudos. — Ardinghelli, Congeminata pax turturis, Appendix, p. 38, Nápoles, 1633; Argelati, Bibliotheca scriptorum Mediolanensium, t. ii, col. 833, 2003, Milão, 1745; Bayle, Dictionnaire historique et critique, Amsterdã, 1740; Bernard de Bologne, Bibliotheca scriptorum ord. f. m. capuccinorum, Veneza, 1717; Bullarium ord. min. capuccinorum, t. iv, p. 181-207, Roma, 1748; Caramuel, Primus calamus, t. ii, éd. 2ª, p. 514, Campagna, 1668; The catholic encyclopedia, t. ix, Nova York, 1910; B. Duhr, Geschichte der Jesuiten in den Ländern deutscher Zunge, t. ii, p. ii, Friburgo em Br., 1913; P. Freher, Theatrum virorum eruditione clarorum, Nuremberg, 1688; Henri de S. Ignace (Liberius Candidus), Tuba magna mirum clangens sonum, t. ii, 3e éd., Estrasburgo, 1717; Hurter, Nomenclator, 3e éd., t. iii, col. 1000; Jean de S.-Antoine, Bibliotheca universa franciscana, Madri, 1732; Kirchenlexikon, t. iv, p. 830, t. viii, p. 478; W. Kratz, Landgraf Ernst von Hessen-Rheinfels und die deutschen Jesuiten, Friburgo-em-B., 1914; Lefèvre Honoré (Fabri), Apologeticus doctrinæ moralis Societatis Jesu, 2e éd., Colônia, 1672, t. i, p. 435-486; A. Mansuy, Le monde slave et les classiques français aux XVIe et XVIIe siècles : La question Pascal en Pologne, Paris, 1912; Moréri, Le grand dictionnaire historique, Paris, éd. de 1746, t. vi; Pélerin de Forli, Annali dei fr. min. cappuccini, Milão, 1883, t. ii; Richard et Giraud, Dictionnaire universel des sciences ecclésiastiques, éd. de Paris, 1825, t. xv; Roch de Cesinale, Storia delle missioni dei cappuccini, Roma, 1872, t. ii, c. xi; Sommervogel, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, t. vii; F. Strowski, Pascal et son temps, Paris, 1907; Vladimir de Bergame, I cappuccini Milanesi, Crema, 1898; Wadding-Sbaraglia, Scriptores ordinis minorum, Roma, 1806; Th. White (Albius), Exestasis scientiæ requisitæ ad censuras in scientiis theologicis inferendas, s. l., 1662; Zeumer, Vitæ professorum theologiæ... qui in academia Ienensi vixerunt..., Iena, 1711.

P. Edouard d'Alençon.

Autor original: P. Edouard d'Alençon

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