MACÁRIO DO EGITO

MACÁRIO DO EGITO

MACÁRIO DO EGITO (Macário, o Grande, ou Macário de Scété, monge egípcio, século IV). As duas fontes das informações que se possuem sobre Macário são, de um lado, a História Lausíaca de Paládio, c. xvii, edição Butler, p. 43-47, e, de outro, a Historia monachorum, c. xxviii, edição Preuschen, p. 86-90, cujo original grego foi traduzido em latim por Rufino; são duas fontes independentes. Da primeira derivam os dados fornecidos por Sozomeno, H. E., vi, 20, P. G., t. lxvii, col. 1068 e 1341, e por Sócrates, H. E., iv, 23, e deles passaram a diversos historiadores do monaquismo, antigos e modernos, que é inútil recensear aqui. Macário cabe em poucas linhas da lenda do Alto Egito. Pôde nascer nos primeiros anos do século IV, tornou-se membro dessas colônias monásticas que povoavam o deserto de Scété, no Delta; discípulo, ao que parece, de santo Antão, foi notado por sua santidade precoce, que lhe valeu o apelido de jovem ancião (paidariogeron); por volta dos quarenta anos foi elevado ao sacerdócio, quando já possuía os carismas da cura e da profecia. Gozava na colônia de um ascendente considerável, sem que se possa falar, a bem dizer, de uma autoridade administrativa.

Os milagres mais extraordinários lhe são atribuídos por Paládio, que ele mesmo se dá conta de que sua narração é, ao menos um pouco, inverossímil. Assinalar-se-á o da mulher transformada em égua por um feiticeiro e restituída por Macário à sua forma primitiva. Segundo Sócrates, vi, 20, foi, com outros chefes do monaquismo nitriano, vítima das perseguições dirigidas contra os niceanos fiéis, depois da morte de santo Atanásio, pelo bispo ariano de Alexandria, Lúcio, por volta de 374. Mas essa perseguição durou pouco. Macário morreu com mais de noventa anos, portanto nos últimos anos do século IV. Já estava morto há algum tempo quando o redator da Historia monachorum visitou, em 397 ou 398, o deserto de Scété. Genádio, que na segunda metade do século V escreve o De vir. ill., conhece Macário, mas não lhe atribui, em matéria de obra literária, senão uma carta a jovens monges: unam tantum ad juniores professionis suae epistolam. De vir. ill., 10, P. L., t. lviii, col. 1065. Nem Paládio nem a Historia monachorum falam de escrito algum, e nenhum dos escritores antigos conhece qualquer produção literária desse piedoso personagem.

Ao presente, porém, a Patrologia grega lhe consagra um volume quase inteiro, o t. xxxiv. Encontram-se aí: 1° Quatro cartas, das quais três em latim e uma bastante longa em grego, col. 405-446; 2° Uma oração em grego de algumas linhas, col. 445-447; 3° Cinquenta homilias em grego, expondo os princípios da vida espiritual, col. 449-822; 4° Uma série de opúsculos ascéticos em grego: 1. De custodia cordis, col. 821-841; 2. De perfectione in spiritu, col. 841-852; 3. De oratione, col. 853-865; 4. De patientia et discretione, col. 865-889; 5. De elevatione mentis, col. 889-908; 6. De charitate, col. 908-936; 7. De libertate mentis, col. 936-968. Seria preciso acrescentar a isso, entre os Apophtegmata sanctorum senum publicados por Cotelier, e entre os Apoftegmas coptas publicados por Amélineau, um certo número de ditos e propósitos atribuídos, com razão ou sem ela, a Macário.

Subentende-se que não se pode levar toda essa herança à conta do abade de Scété senão a benefício de inventário. Primeiro, no que toca aos Apophtegmata, é demasiado claro que é impossível reivindicar para Macário a propriedade absoluta deles. Essas anedotas, essas conversações eram, por assim dizer, um bem comum a todos os grandes solitários. Quanto aos 7 opúsculos ascéticos editados primeiramente sob o nome de Macário, revelaram-se, num exame mais atento, como extratos mais ou menos arranjados das homilias. Um dos mss., o Vindobon. 104, dá-os expressamente como compilados por Simeão, o Logóteta (século XI): Κεφάλαια τοῦ ἁγίου Μακαρίου μεταφρασθέντα παρὰ Συμεὼν (sic) τοῦ Λογοθέτου.

Restam as homilias e a longa carta grega. Sua pertença a um mesmo autor parece verdadeira, dada uma suficiente afinidade de fundo e de forma entre os dois escritos. A questão da origem macariana não está resolvida do mesmo modo. A atribuição das cinquenta homilias a Macário repousa, em suma, sobre a simples afirmação de mss. relativamente recentes, e os critérios internos não a garantem de maneira absoluta. Já no século XVIII, Oudin e Semler haviam negado essa autenticidade; seus argumentos foram retomados e examinados muito recentemente por Flemming, que conclui de maneira firmíssima contra a atribuição a Macário. Esses argumentos são de valor muito desigual e não parece que a maioria dos críticos a eles se tenha até agora associado.

O mais grave, em nossa opinião, tem em conta o ideal monástico que é apresentado pelo autor das homilias. Trata-se, evidentemente, de uma regra proposta a monges que vivem em uma comunidade muito fechada, ao passo que, se nos reportarmos à História Lausíaca, Macário presidia a estabelecimentos totalmente diferentes. Vivendo em celas dispersas a grandes distâncias, os monges de Nítria só se reuniam, em suma, para o ofício do domingo. Não é a anacoretas desse gênero, mas a cenobitas do tipo pacomiano que parece dirigir-se o autor das homilias.

Restaria, portanto, a Epistola sancti Macharii ad filios Dei, publicada pela primeira vez [ill. quidem] por Floss em 1850, incip. In primis quidem si cœperit, P. G., loc. cit., col. 405-410; ela corresponde de maneira exata à descrição que dá Genádio, Macharius... scripsit epistolam in qua loc. cit. : docet illum perfecte posse Deo servire qui conditionem creationis suæ cognoscens ad omnes semetipsum inclinaverit labores, ut luctando atque Dei auxilium adversum omne quod in hac vita suave est implorando, ad naturalem quoque perveniens puritatem, continentiam velut naturæ debitum munus obtinuerit. Isso prova ao menos que, desde o início do século V, ela circulava no Ocidente sob o nome de Macário, o Grande. Seja como for das questões de autenticidade, as obras espirituais postas sob o nome de Macário merecem certamente reter a atenção dos teólogos.

Tentou-se, nos últimos tempos, precisar a parte que convém fazer nela às influências estoicas e peripatéticas, estabelecer os fundamentos sobre os quais repousa a doutrina espiritual e ascética do autor, as tendências de que esta última dá testemunho, a demonologia que nela transparece e que é bastante diferente da da História Lausíaca. A influência desses escritos, cuja origem permanece bastante obscura, deve ter sido considerável sobre a formação da mística oriental; é este último ponto que mereceria ser estudado.

1° Edições do texto. A edição princeps das Homilias foi dada por João Pic, ΜΑΚΑΡΙΟΥ ΤΟΥ ΑΙΓΥΠΤΙΟΥ 1559 e em tradução latina: Patrii Macarii Ægyptii homiliæ quinquaginta interprete I. Zaccaria Ponthenio. Joanne Pico, Paris, 1562; depois por Macarii homiliæ spirituales, Frankfurt, 1594; por Georges Pritius, S. P. Macarii opuscula, Leipzig, 1714, de onde passaram a Gallandi, Veter. Patr. Bibliotheca, t. VII, 3 sq., e daí à P. G., t. XXXIV, col. 449-822. Os opuscula ascetica, editados primeiro por P. Poussines, Thésaurus asceticus, Toulouse, 1684, passaram a Pritius, op. cit., depois a Gallandi e à P. G. As cartas, etc., foram publicadas por M. Floss, Macarii Ægyptii epistolæ, homiliarum libri, preces, Colônia-Bonn-Bruxelas, 1850, reproduzidas na P. G., loc. cit.: sobre dois fragmentos que Floss havia publicado no programa da Universidade de Bonn de 3 de agosto de 1850, cf. dois opúsculos de J. Gildemeister, Ueber die von J. Floss in der Bonner Universitätsbibliothek entdeckten neuen Fragmente des Macarius, Bonn, 1866 e Elberfeld, 1867. Os apophthegmata, reunidos segundo diversas coleções, na P. G., tom. cit., col. 232-284, serão completados pelos apoftegmas publicados em copta e traduzidos por E. Amélineau, em Annales du Musée Guimet, 1894, t. XXV, p. 203-234.

2° Fontes da vida de Macário do Egito. 1. Paládio, História Lausíaca, XVII, ver a edição de dom C. Butler, em Texts and Studies, t. VI, fasc. 1, Cambridge, 1898, fasc. 2, 1904, e a adaptação francesa na coleção Hemmer-Lejay, Textes et documents. 2. A Historia monachorum, da qual Butler demonstrou que o texto original é grego, que não é de Rufino, e que Rufino é apenas o autor da tradução latina; ver esse texto grego em E. Preuschen, Palladius und Rufinus, ein Beitrag zur Quellen-Kunde des ältesten Mönchtums, Giessen, 1897. 3. Amélineau publicou também, loc. cit., p. 40-117, uma Vida de Macário de Scété, e p. 118-202, Virtudes de são Macário, em copta (com tradução francesa); a primeira dessas compilações se apresenta como escrita por um monge chamado Sarapamon; pode remontar ao fim do século IV, o que não quer dizer que sua veracidade esteja acima de toda contestação.

3° Notícias literárias e estudos de pormenor. Acta Sanct., janeiro, t. II, p. 1005-1015; Tillemont, Mémoires, t. VIII, I, Comm. p. 574-625, 805-811; C. Oudin, de scriptoribus Ecclesiæ antiquis, Frankfurt, 1722, t. I, p. 474-480; Semler, Spécimen examinis critici Operum quæ ita feruntur Macarii, Halle, 1745, e Spécimen animadversionum in aliquot opuscula græca Macarii, ibid., 1746; essas duas breves dissertações são reproduzidas na P. G., tom. cit., col. 263-284; J.-A. Fabricius, Bibliotheca græca, edição Harles, Hamburgo, 1802, t. VIII, p. 361-366; e sobretudo o longuíssimo estudo de Floss, op. cit., p. 1-188, reproduzido integralmente na P. G., tom. cit., col. 1-175. Entre os numerosos estudos doutrinais modernos, citemos somente G. B. Lindner, De Macario dissertatio: 1846; J. Stoffels, Die mystische Theologie Makarius des Ägypters, Bonn, 1908; C. Flemming, De Macarii Ægyptii scriptis quæstiones, Göttingen, 1909; esse autor anunciava que a continuação de seu estudo apareceria nos Neue Studien zur Geschichte der Theologie und Kirche, publicados por Bonwetsch e Seeberg; ela ainda não havia aparecido em 1914. Uma enumeração mais completa de trabalhos modernos, em particular dos de J. Stiglmayr, em O. Bardenhewer, Gesch. der altkirchl. Litteratur., t. III, 1912, p. 92.

E. Amann.

Autor original: E. Amann

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