MACÁRIO DE MAGNÉSIA (CERCA DE 400)

MACÁRIO DE MAGNÉSIA (CERCA DE 400)

MACÁRIO DE MAGNÉSIA (cerca de 400). Sob o nome de Macário Magnes, isto é, de Magnésia, cf. G. SCHALKHAUSSER, Zu den Schriften des Makarios von Magnesia, em Texte und Untersuchungen, t. xxxi, fasc. 4, Leipzig, 1907, p. 1-3, chegou-nos uma apologia do cristianismo, extremamente preciosa, mas cuja origem e história permanecem para nós envoltas em mistério. A mais antiga menção que se encontra dessa apologia data do patriarcado de Nicéforo I (806-815). Os iconoclastas contra os quais este tinha de lutar opunham-lhe, com efeito, extratos que intitulavam τοῦ ἁγίου Μακαρίου ἐκ τῆς τετάρτης βίβλου τῶν ἀποκριτικῶν. A obra e o autor eram igualmente desconhecidos do patriarca Nicéforo: após longas pesquisas, conseguiu descobrir um exemplar do precioso escrito, com este título: Βίβλος Μακαρίου Μάγνητος ἱεράρχου; estudou-o, descobriu que a obra fora redigida mais de 300 anos depois do tempo dos apóstolos, que era dedicada a um certo Teostene, e que encerrava as refutações de questões postas por um aristotélico desconhecido. Fez então dela extratos próprios para refutar os iconoclastas: esse florilégio é o Apocriticus liber de Macario Magnete, que foi editado pelo cardeal PITRA, no Spicilegium Solesmense, t. i, Paris, 1852, p. 302-335.

Mais tarde, uma passagem da apologia de Macário foi copiada por João de Antioquia (1081-1118), em seu livro περὶ τῶν ἀφάντων καὶ θείων μυστηρίων; cf. K. KRUMBACHER, Geschichte der byzantinischen Literatur, 2ª edição, Munique, 1897, p. 156. Essa passagem relativa à eucaristia figura em um número bastante grande de mss. que são enumerados por G. SCHALKHAUSSER, op. cit., p. 6 sq. Em 1491-2, Janos LASKARIS assinalava a presença de dois mss. de Macário na Itália, um em Corigliano, outro no mosteiro do Monte Sardo. Esses dois mss. desapareceram sem deixar vestígios. No século seguinte, o sábio jesuíta Francisco TORRÈS (TURRIANUS), morto em 1584, pôde utilizar, em várias de suas obras, outro ms. de Macário, que havia encontrado em Veneza: em muitas ocasiões teve oportunidade de citar, o mais das vezes em tradução latina, por vezes no texto original, fragmentos mais ou menos longos da apologia de Macário; cf. SCHALKHAUSSER, op. cit., 18-21. Entre os infelizes manuscritos, o ms. de que se servira TORRÈS desapareceu depois do século XVIII, foi impossível descobri-lo, e nunca se soube o que foi feito dele.

Foi com alegria que o mundo douto soube, no século XIX, da descoberta de um novo ms. de Macário pelo erudito francês C. BLONDEL, que o havia encontrado em Atenas. O ms. era incompleto; começava no meio de uma palavra no capítulo v do livro ii e terminava no meio de uma palavra no capítulo xxx do livro iv. Os livros i e v e os 4 primeiros capítulos do livro ii haviam, portanto, desaparecido. BLONDEL pôde, contudo, preparar uma edição, a primeira, da obra, e essa edição apareceu após a morte do sábio, aos cuidados de P. FOUCART: Macarii Magnetis quæ supersunt ex inedito codice edidit C. BLONDEL, Paris, 1876. Esse mesmo ms. de que se servira BLONDEL foi perdido, de sorte que hoje só conhecemos a obra de Macário Magnes pelo texto impresso.

A apologia de Macário compreende cinco livros que são consagrados a reproduzir a discussão do autor com um filósofo pagão. Este opõe a seu adversário uma série de passagens do Novo Testamento, tomadas sobretudo dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos. A crítica, ora séria, ora jocosa, é sempre penetrante; o cristão se esforça por responder às objeções e por mostrar que os livros do Novo Testamento não encerram contradições, e expõem uma doutrina digna de ser aceita mesmo pelos sábios deste mundo. O título mais completo da obra parece ter sido o seguinte: Μακαρίου Μονογενοῦς Μάγνητος Ἀποκριτικὸς πρὸς Ἕλληνας ἢ λόγον ἐν τῇ καινῇ Διαθήκῃ ἀντιθετικῇ. Indica, portanto, que este escrito faz parte da riquíssima literatura das Quæstiones et responsiones. Cf. G. HEINRICI, Zur patristischen Aporienliteratur, nas Abhandl. der k. sachs. Gesellsch. der Wiss., philol.-hist. Klas., t. xxvii, Leipzig, 1909, p. 841-860.

O termo μονογενής apresenta, contudo, dificuldade. O. BARDENHEWER estima que a parte perdida da obra podia explicar-lhe o sentido. Patrologie, 3ª edição, Friburgo, 1910, p. 368. Mais razoavelmente, A. HARNACK, Kritik des neuen Testaments von einem Griechischen Philosophen des III Jahrhunderts, em Texte und Untersuchungen, t. xxxvii, fasc. 4, Leipzig, 1911, p. 7, 8, observa que os títulos antigos são frequentemente concebidos de modo a aguçar a curiosidade dos leitores, e que aqui se poderia traduzir: Resposta de Macário, ou antes de Monogene (ele mesmo) respondendo aos gregos. A época em que foi composto o Apocriticus é verossimilmente o fim do século IV. No livro iv, o pagão observa que o Salvador anunciou a vinda de falsos cristos, mas que há 300 anos e mais não se viu nenhum. Essa data imprecisa nos conduz apenas ao século IV. Por outro lado, a obra nos mostra que o monaquismo está por toda parte difundido no Oriente e exerce grande influência, que há maniqueus no mundo inteiro e que constituem um perigo para a Igreja, iii, 13; iv, 15, que o paganismo ainda está de posse da influência intelectual.

A teologia trinitária do autor é a dos Capadócios. Há, com efeito, uma só οὐσία em Deus e as três ὑποστάσεις; cf. a passagem: τῷ θεῷ... ὑποστάσεσιν εἴτε καὶ ὀνόμασιν ἀπρεπέσι, Apocrit., iv, 25, p. 209; cf. iii, 11, p. 91; iii, 11, p. 97. Observaram-se ainda certas semelhanças entre sua doutrina cristológica e escatológica e a de são Gregório de Nissa; cf. MÖLLER, na Theolog. Literaturzeitung, 1877, col. 523. O país em que viveu Macário deu lugar a uma discussão: Duchesne, De Macario Magnete et scriptis eius, Paris, 1877, p. 11, pronuncia-se pela vizinhança de Edessa. A maioria dos historiadores inclina-se para a Ásia Menor. Conhece-se precisamente, no fim do século III e no início do século IV, um certo Macário que foi bispo de Magnésia, sem que seja aliás possível precisar se se trata de Magnésia da Cária ou de Magnésia da Lícia. Esse Macário, segundo Fócio, Bibliotheca, cod. 59, P. G., t. ciii, col. 105, figurou no concílio do Carvalho, em 403, como acusador do bispo Heráclides de Éfeso, o amigo de são João Crisóstomo.

Nada mais sabemos a seu respeito. Mas não é inverossímil que esse personagem tenha podido escrever o Apocriticus. Sem dúvida, T. W. CRAFER, Macarius Magnes a neglected apologist, em The Journal of theological studies, t. viii, p. 401-423, 546-570, não aceita essas conclusões: estima que Macário deve ter escrito já no fim do século III ou durante os primeiros anos do século IV. Não se poderia insistir aqui numa tese que tem a seu favor muito pouca verossimilhança.

O que faz sobretudo o interesse da apologia de Macário são as objeções a que ela responde. Essas objeções supõem, da parte do filósofo pagão que as exprime, um conhecimento muito sério do Novo Testamento. Ora, não são imaginárias, e não foram inventadas pelo escritor para as necessidades de sua causa. Foram tomadas textualmente de uma obra de polêmica antricristã; de sorte que, graças a Macário, possuímos ainda importantes fragmentos de um desses livros que a Igreja, por ocasião de seu triunfo, pôs tanto cuidado em fazer desaparecer. Pensou-se em identificar esse adversário do cristianismo com Hierocles, que havia redigido uma obra Ad christianos e que foi um dos partidários mais encarniçados da perseguição de Diocleciano, Lactâncio, Div. Instit., V, ii, 12, P. L., t. VI, col. 555; cf. Eusébio, Adversus Hieroclem, P. G., t. XXII, col. 795-868. Tal é a opinião de L. Duchesne e de T. W. Crafer. J. Geffcken, Zwei griechische Apologeten, Leipzig e Berlim, 1907, p. 301-304, recusa pronunciar qualquer nome; crê somente que o controversista desconhecido escrevia em meados do século IV e utilizava sobretudo os livros de Porfírio contra os cristãos.

É também a Porfírio que se filia A. Harnack. Este escreve, aliás, que Macário não tinha em mãos a obra autêntica do filósofo, mas que só possuía dela extratos, agrupados no início do século IV, e que refutou esses extratos sem sequer suspeitar que tinha de fato que ver com o célebre adversário do cristianismo. A. Harnack, Kritik des neuen Testaments von einem griechischen Philosophen, p. 137-141; Porphyrius « Gegen die Christen » 15 Bücher; Zeugnisse, Fragmente und Referate, nas Abhandlungen der kgl. Preuss. Akad. der Wissensch., philos. hist. Kl., 1916, fasc. 1. Apoiada numa argumentação detalhada, a opinião de Harnack parece dever ser definitivamente retida.

Sob o nome de Macário, possuímos alguns fragmentos de homilias sobre o Gênesis; esses fragmentos foram editados por L. Duchesne, De Macario Magnete, p. 39-43, e por J.-B. Pitra, Analecta sacra et classica, Paris, 1888, part. I, p. 31-37. G. Schalkhausser, que deles fez um exame aprofundado, op. cit., p. 113-185, mostrou que não eram autênticos, de sorte que não há necessidade de insistir neles aqui.

A teologia de Macário de Magnésia nada oferece de particular. O Apocriticus não é uma obra de teologia, nem de exegese; é um escrito apologético. Macário tem diante de si um grego, que encontra em certo número de passagens da Escritura um pretexto de zombaria ou de incredulidade. Como o filósofo interpreta o Novo Testamento no sentido mais literal, é muito natural que Macário seja levado a propor explicações alegóricas. Aliás, deve-se acrescentar que a alegoria ocupa um lugar tão grande em sua resposta que é evidentemente conforme ao feitio de seu espírito, à sua educação, à sua maneira de pensar. De um modo geral, o autor do Apocriticus mantém-se na linha traçada pelos Capadócios.

Pode-se apenas deter a atenção numa passagem consagrada à eucaristia, Apocr., III, 23, p. 103 sq.: « O Cristo, tomando o pão e o cálice, disse: Isto é o meu corpo, ou a figura (τύπος) do corpo, ou a figura do sangue, como certos inconsideradamente supuseram, mas o corpo e o sangue em verdade. » Vê-se aí que Macário recusa admitir a palavra τύπος, que havia sido, no entanto, aceita por autores muito bons, e mesmo que conhece a existência de um erro eucarístico de que esse termo teria sido o pretexto. Cf. P. Batiffol, L'Eucharistie, 7ª edição, Paris, 1920, p. 390, 391.

O texto do Apocriticus é editado por C. Blondel, Μακάριος Μάγνητος ἀποκριτικός, Monogenes, Macarii Magnetis quae supersunt ex inedito codice edidit C. Blondel, Paris, 1876. Sobre a tradição manuscrita, ver a obra exaustiva de G. Schalkhausser, Zu den Schriften des Makarios von Magnesia, em Texte und Untersuchungen, t. XXXI, fasc. 4, Leipzig, 1907. Sobre a composição da Apologia: L. Duchesne, De Macario Magnete, Paris, 1877; T. W. Crafer, Macarius Magnes, a neglected apologist, em The Journal of Theological studies, t. VIII, p. 401-423; 546-570. Sobre o adversário de Macário: J. Geffcken, Zwei griechische Apologeten, Leipzig e Berlim, 1907, p. 301 sq.; H. Hauschildt, De Porphyrio philosopho Macarii Magnetis apologetae christiani in libris ἀποκριτικός auctore, Heidelberg, 1907; A. Harnack, Kritik des Neuen Testaments von einem griechischen Philosophen des 3. Jahrhunderts, em Texte und Untersuchungen, t. XXXVII, fasc. 4, Leipzig, 1911. G. Bardy, Les objections d'un philosophe païen d'après l'Apocriticus de Macaire de Magnésie, no Bulletin d'ancienne littérature et d'archéologie chrétiennes, t. III, 1913, p. 95-111; A. Harnack, Porphyrius Gegen die Christen 15 Bücher, Zeugnisse, Fragmente und Referate, nas Abhandl. der kgl. preuss. Akad. der Wissensch., philos. hist. Kl., 1916, fasc. 1.

G. Bardy.

Autor original: G. Bardy

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