LUXO

LUXO

LUXO. I. A modéstia no trajar, em geral. II. A toilette das mulheres. O termo luxo desperta no espírito uma ideia de despesas suntuárias. No presente artigo designa antes as coisas que lhe são a matéria e nas quais é fácil cair em excessos. São as vestes, adornos, móveis, joias, etc., ou o que se convencionou chamar de aparato exterior. Embora nada disso faça parte de nós mesmos, esses diversos objetos servem, contudo, ao culto da pessoa. Não são, absolutamente falando, nem virtude nem vício, mas só se permanece isento de pecado se deles se usa com medida, em conformidade com as justas exigências da razão. São Tomás trata disso na Suma teológica, IIa-IIæ, q. clxix, a. 1 e 2, sob este título: De modestia in exteriori apparatu. O santo doutor considera, no primeiro artigo, a moderação no trajar e nos ornamentos, enquanto é um dever para todos, e depois, no artigo seguinte, onde se pergunta se não são gravemente culpados, detém-se nos abusos da toilette das mulheres.

I. A modéstia no trajar em geral. — Antes de tudo, o vício não está nas coisas exteriores que nos servem, mas no uso imoderado que o homem delas faz. A moderação pode aqui faltar de duas maneiras: ou quando se usam vestes que não são aceitas no meio, contrárias aos costumes e usos que ali reinam, ou quando se adorna com objetos de luxo por algum sentimento desordenado. Segundo santo Agostinho, acontece com bastante frequência que os dois casos se encontram juntos: « A licença não somente abusa gravemente de um costume reinante, mas ainda transborda sobre ele e faz explodir em criminosas erupções sua vergonha, que a barreira dos bons costumes encobria. » De Doctrina christ., III, 18, 19, P. L., t. xxxiv, col. 73.

A desordem dos sentimentos, por modo de excesso, produz-se de três maneiras. Uns têm o culto exagerado das vestes preciosas, acima mesmo de sua condição, e sacrificam à vanglória. O mau rico que o Evangelho nos mostra, vestido de púrpura e de linho fino, é a sua imagem. Outros procuram as roupas delicadas por amor da voluptuosidade e para lisonjear o corpo. Uma terceira categoria de pessoas, sem outra má intenção, tem um cuidado excessivo dos ornamentos exteriores, que as distrai das ocupações mais sérias da vida. São Tomás, na esteira de Andrônico de Rodes, opõe a essas desordens três virtudes, que servem para conter em justos limites o culto exterior da pessoa: a humildade, que exclui o desejo de brilhar, não exagerando nem as despesas nem os preparativos; a moderação (per se sufficientia), contrária à busca apaixonada do prazer e cujo próprio é ensinar a contentar-se com o necessário, a determinar o que convém à vida, segundo a palavra de são Paulo a Timóteo: Habentes alimenta et quibus tegamur, his contenti simus, I Tim., vi, 8; enfim a simplicidade, que bane todo cuidado, toda preocupação exagerada com as coisas tão pouco importantes que são os objetos e os ajustes do luxo.

Há desordem também, não mais por excesso mas por falta, em descuidar-se demais nas vestes, ou por um sentimento de vanglória às avessas, ou por falta de cuidado e de esforço em adaptar-se às conveniências. Uns lembram aqueles homens de quem Aristóteles falou, acusando-os de moleza, e que deixavam suas vestes arrastarem pelo chão, porque não queriam dar-se o trabalho de levantá-las. Outros pensam distinguir-se por um trajar negligente e vestes sórdidas, como aquele filósofo que se valia de seu manto furado e rasgado, e que atraiu esta espirituosa réplica: « Vejo teu orgulho pelos buracos de teu manto. » Santo Agostinho diz que « a jactância se aloja não somente na limpeza e na pompa das coisas corporais, mas até na sujeira ou no luto das vestes. » De sermone Domini in monte, l. II, n. 41, P. L., t. xxxiv, col. 1287. A ilusão é tanto mais de temer quanto essa forma de jactância pode produzir-se sob a aparência de servir a Deus. Sum. theol., ibid., a. 1.

Em suma, há desordem em adornar-se demais ou menos do que se deve, tendo em vista os lugares, os tempos, as conveniências e as qualidades das pessoas; e é a razão de ser da virtude da modéstia, que ensina a todos e a cada um a guardar um justo meio, a vestir-se e a adornar-se tanto quanto é decoroso e conveniente. Ibid., ad 1um. Julga-se ainda do excesso ou da falta em matéria de aparato exterior levando em conta a situação excepcional das pessoas. Àqueles que são constituídos em dignidade, que têm um alto cargo, ou mesmo que exercem funções sagradas, é permitido usar vestes suntuosas, ornamentos de grande preço, não para sua satisfação própria, mas para honrar seu cargo eminente ou significar as grandes e sublimes coisas que tratam. Ao contrário, não se pode sempre taxar de negligência ou de rusticidade aqueles cujas vestes são mais rudes e mais grosseiras do que comporta sua condição. Se as usam assim por tola vaidade ou por um falso culto de si mesmos, caem numa espécie de superstição; mas se é para domar a carne e humilhar-se em espírito, observam uma temperança virtuosa. Àqueles que são inspirados a pregar a penitência em palavras e em obras, cabe sobretudo vestir-se dessa maneira, à imitação dos antigos profetas. Ibid., ad 2um. Resulta, em suma, que o culto exterior de nossa pessoa revela nossa condição, seja pessoal, seja social; por esse lado, a modéstia no trajar se liga à virtude da veracidade. Ibid., ad 3um.

II. A toilette das mulheres. — A doutrina geral da modéstia no trajar e nos ornamentos aplica-se às mulheres como aos homens, mas a questão da toilette feminina merece ser estudada à parte, por causa de sua grande importância e porque os homens nela encontram ocasião de lascívia. Ver Prov., vii, 10. É permitido a uma mulher casada adornar-se a fim de ganhar e reter a afeição de seu marido. A toilette que faz com o fim de agradar-lhe e de impedi-lo de apegar-se a outras é não somente isenta de falta, mas ainda digna de elogio. A mulher casada, diz o apóstolo são Paulo, tem o cuidado das coisas do mundo, procura agradar a seu marido, I Cor., vii, 34.

As outras mulheres que não têm marido, ou que não querem tê-lo, ou mesmo que não estão em condição de se casar, não têm o direito de provocar a atenção por meio da toalete. Se, portanto, se enfeitam com o fim de atrair os olhares dos homens e de ser cobiçadas por eles de modo desonesto, são gravemente culpadas; carregam, além disso, a responsabilidade das faltas mortais que fazem cometer. Contudo, se, apaixonadas pela toalete, agem antes por leviandade, por vaidade ou por certa jactância, sem intenção de outro modo má, podem ser escusadas de falta grave, mas não de falta venial. Algumas poderiam mesmo ser consideradas isentas de falta, se nisso apenas seguissem a moda, sem nenhum arrebatamento de vaidade. O apóstolo São Paulo, I Tim., ii, 8, nos dá a entender suficientemente que uma toalete sóbria e moderada, conforme às conveniências de sua condição, não é proibida às mulheres. «Que as mulheres estejam em trajes decentes, se enfeitem com pudor e simplicidade, sem tranças, ouro, pérolas ou vestes suntuosas», diz ele. Ele condena, em suma, apenas os ornamentos supérfluos e demasiado preciosos, um vestir sem recato, lascivo, per quod datur intelligi quod sobrius et moderatus ornatus non prohibetur mulieribus, sed superfluus et inverecundus et impudicus. Ibid., ad 1um.

Que pensar dos decotes e outras nudezes que uma moda inconveniente introduziu na toalete feminina? Os bispos católicos, em muitas dioceses, protestaram contra os trajes imodestos, proibiram a entrada nas igrejas e sobretudo o acesso à mesa santa às mulheres e jovens que se apresentavam em trajes ofensivos ao lugar santo, escandalosos, com os braços e os ombros nus, o peito mal coberto ou velado por leves transparências. O mínimo que se pode dizer dessas toaletes sem pudor é que nada têm de estético. Mas elas excitaram um pouco por toda parte, entre as pessoas sérias, uma viva repulsa, e a opinião é severa para com uma moda que considera um renascimento pagão, um ultraje aos bons costumes. Por isso dificilmente se escusaria de falta mulheres inteiramente livres de sua pessoa, a quem o arrebatamento geral da moda não cega, e que fossem vistas aceitando, para si mesmas e para aquelas de que têm o encargo, os trajes imodestos do dia.

São Cipriano em seu livro De habitu virginum, P. L., t. iv, col. 439 sq., e santo Agostinho em sua carta a Possídio, Epist., ccxlv, P. L., t. xxxiii, col. 1060, e muitos outros Padres também censuraram, não só nas jovens e nas viúvas, mas ainda nas mulheres casadas, a pretensão de refazer em si a obra de Deus, visando dotar a natureza de uma beleza artificial pelo uso de cosméticos de todo gênero. São Tomás, muito mais severo que santo Agostinho, declara que essa prática nunca é sem pecado, ao menos venial, por causa da espécie de engano e da vaidade que ela revela. Ela só se tornaria falta grave se se lhe juntasse alguma lascívia ou um desprezo de Deus. Outra coisa, porém, é o vão desejo de arremedar uma beleza que falta, outra o desejo legítimo de dissimular alguma fealdade natural, os vestígios de uma doença ou qualquer outra desvantagem. Ibid., ad 2um.

Como foi dito no artigo precedente, o aparato exterior deve estar em relação com a condição da pessoa e conforme ao uso recebido. Daí resulta que o empréstimo das vestes de um sexo pelo outro sexo é um vício intolerável, sobretudo porque isso se torna causa de busca sensual ou de lascívia. Às vezes, contudo, esse travestimento se dá sem culpa, por uma necessidade e utilidade verdadeira, ou o desejo de escapar a inimigos, ou porque não se tem outras vestes, ou alguma outra razão do mesmo gênero. Ibid., ad 3um.

Que pensar dos artesãos ocupados em confeccionar e vender os artigos de toalete, ornamentos de luxo, trajes e diversos adereços preciosos? Os operários cuja arte se limita a fabricar coisas de que não se pode usar sem pecado, como imagens e outros objetos de um culto idolátrico, são absolutamente repreensíveis e tidos por responsáveis pelas faltas que contribuem para fazer cometer. Quando os artigos de sua fabricação são objetos de que se pode usar bem ou mal, não respondem de modo algum pelo uso que deles se faz, não mais do que um armeiro participa do crime de um assassino. O exercício de sua arte, nesse caso, dá-se sem pecado. Se os produtos que esses artesãos preparam se prestam a numerosos abusos, nem por isso são ilícitos. Ora, como as mulheres têm o direito de se enfeitar quanto convém à sua condição, ou mesmo de ultrapassar um pouco essa medida, a fim de agradar a seus maridos, e de maneira geral, como as vestes e os ornamentos de luxo podem ser empregados bem ou mal, os artesãos que os preparam e os comerciam não pecam de modo algum. Só seriam censuráveis se, empregando os recursos de sua arte, inventassem novas vaidades, curiosidades mais ou menos lascivas.

São Tomás, Summa theologica, IIa-IIae q. clxix; Bail, La théologie affective, t. iii, p. 425-428, Paris, 1855; A.-D. Sertillanges, La philosophie morale de saint Thomas d'Aquin, Paris, 1916, p. 527-530.

A. Thouvenin.

Autor original: A. Thouvenin

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