LUDOLFO DA SAXÔNIA, — primeiro dominicano, depois cartuxo (1295-1377). Nasceu por volta de 1295; aos dezoito anos, entrou na ordem dos frades pregadores e, segundo alguns autores, permaneceu nela cerca de 26 anos, ou 30 segundo o sentimento de outros escritores. Nela se distinguiu por sua doutrina e sua piedade. Em 1340, passou ao noviciado dos cartuxos de Estrasburgo, onde fez profissão e permaneceu até 1343, época de sua eleição ao priorado da cartuxa de Coblença. Desejando viver a vida tranqüila e recolhida do claustro, demitiu-se em 1348 e retirou-se para a casa de Mogúncia, que deixou em seguida para voltar à cartuxa de Estrasburgo, onde faleceu em 10 de abril de 1377 (e não 1378), como está assinalado na crônica desse mosteiro. O capítulo geral de 1378 testemunhou a estima que a ordem dos cartuxos tinha por Ludolfo, concedendo-lhe o raro benefício de um trintenário particular. Morreu com reputação de santidade.
Possuímos dele: 1. Vita Domini nostri Jesu Christi ex quatuor evangeliis; obra célebre que imortalizou o nome de Ludolfo. 2. Expositio in Psalterium Dauidis, tirada dos comentários de são Jerônimo e de santo Agostinho, assim como de Cassiodoro e de Pedro Lombardo, aparecida primeiro em Paris, 1491, e em Espira, no mesmo ano; muitíssimas vezes reeditada, por último em Montreuil-sur-Mer, 1891. 3. Super III et IV Sententiarum, obra ms in-fol., conservada na biblioteca da Universidade de Basileia, B. V. 25. Esse ms. faz presumir que Ludolfo escreveu também comentários sobre os dois primeiros livros das Sentenças, mas ignora-se se o seu trabalho existe em alguma parte. 4. Ludolfo deixou sermões e alguns tratados ascéticos conservados religiosamente na cartuxa de Estrasburgo, até o início do século XVII, e em seguida na casa dos cartuxos de Molsheim, na Alsácia. Há em Florença, na Bibl. Laurenciana, um ms. in-4°, de 1428, compreendendo alguns sermões de Ludolfo, sobre o Magnificat, sobre os mortos, sobre a Conceição da Santíssima Virgem, etc. Cf. Migne, Dict. des mss., col. 502, n. 7. 5. De remediis contra tentationes spirituales novissimi temporis. Obra provavelmente perdida, da qual existe uma tradução alemã publicada por volta de 1570, in-8°, numa coletânea de opúsculos de diversos autores e traduzidos por A. Valasser. 6. Em várias bibliotecas públicas, encontram-se diversos tratados ascéticos, em latim ou em língua vulgar, atribuídos a Ludolfo, mas o mais das vezes esses pretensos tratados não são senão extratos da Vita Christi.
A opinião de vários escritores que colocam Ludolfo no número dos autores presumidos da Imitação de Cristo não tem fundamento sério. Cf. Puyol, L'Auteur du livre de Imitatione Christi, Paris, 1899, in-8°, p. 327 sq. Echard, tratando de Ludolfo, nos Scriptores O. P., t. i, p. 568, assinalava um opúsculo latino sobre a missa feito por um cartuxo para um de seus confrades, Documenta circa missæ officium, digno de poder ser atribuído a Ludolfo e acrescentado em seguida ao t. 1 da Vita Christi conservado na Bibl. Coislin. Um tratado semelhante intitulado Ludolphus Carthus. Expositio super canonem missæ encontra-se num ms. do século XV pertencente hoje à cartuxa de Parkminster, no condado de Sussex, na Inglaterra; confrontado com outro ms. do mesmo século conservado igualmente nos arquivos dessa casa, permite dizer que os copistas atribuíram a Ludolfo as meditações sobre o cânon da missa compostas por dom João von Braunschweig, † 1401, que foi prior da casa de Estrasburgo em 1381.
Ludolfo é justamente célebre por sua grande Vida de Jesus Cristo, que permanece ainda como o melhor comentário dos santos Evangelhos coordenados e fundidos numa só narrativa. A voga dessa obra é imensa. Mesmo antes da invenção da imprensa, estava difundida por toda parte e fornecia aos sacerdotes e aos fiéis piedosos uma mina preciosa e superabundante de instruções e de meditações espirituais baseadas na Escritura e nos Padres. Impressa pela primeira vez pelos cuidados dos cartuxos de Estrasburgo, possuidores do texto autógrafo, no recinto de seu mosteiro, em 1474, foi reeditada desde então nas principais cidades da Europa, e sempre com sucesso. Uma bibliografia do texto integral desde a edição princeps até a última aparecida em Paris, em 1880, na casa Palmé, em 4 volumes, in-8°, não conta menos de oitenta e oito edições, em diversos formatos. Hain, Repertorium, n. 10 302, 10 303, assinala duas edições de um resumo latino publicadas antes de 1500, in-fol., e Panzer, Annales, t. ix, p. 183, n. 229, faz menção de outra edição aparecida, depois de 1501, também in-folio. Publicou-se várias vezes a coletânea de todas as orações com que o piedoso Ludolfo termina os seus capítulos, e que são um resumo substancial da doutrina e dos fatos contidos em cada capítulo, Veneza, 1557, in-12, Colônia, 1578, in-16, etc. Manuels d'oraisons et prières dévotes sur la vie de Jésus-Christ..., Antuérpia, Plantin, 1580, 1588, in-16.
Há diversas traduções francesas da Vita Christi. A primeira parece ser a de um anônimo, da qual existem dois exemplares mss.: um, de 1467, está na Biblioteca pública de Cambrai, proveniente da antiga abadia do Santo Sepulcro, em três tomos in-folio, n. 813-815 (alias 720); o outro encontra-se na Bibl. nacional, mss. franceses, n. 177. Outra tradução anônima, igualmente inédita, feita por volta da mesma época, é conhecida pelos dois tomos que ainda restam, mss in-fol., e que fazem lamentar os outros dois volumes complementares hoje perdidos. Provêm da biblioteca da princesa Luísa de Saboia, mãe de Francisco I, e encontram-se também na Bibl. nacional de Paris. Cf. Paulin Paris, Manuscrits français de la Bibl. du Roi, n. 7017, 7018. Na Bibl. do Arsenal, em Paris, conserva-se a tradução francesa feita no século XV « par Jehan Mansel, notable clercq loy, demourant à Hesdin en Artois », 2 tomos mss. in-fol., n. 16 B. T. F. Guilherme Le Menand, religioso franciscano, traduziu também em francês a Vita Christi de Ludolfo, e a publicou várias vezes. Há uma edição in-fol., sem indicação do ano em que foi feita; a segunda (?) é certamente de Lyon, 1487, 2 vol., in-fol., com gravuras em madeira; a terceira é de 1488 segundo os RR. PP. Quétif e Echard.
As seguintes são de Paris, 1490; Lyon, 1493; Paris, 1503, 1521, 1530, 1536, 1544, in-fol. João Langlois, senhor de Fresnoy, conselheiro no Parlamento, publicou uma nova tradução, em Paris, em 1580 e 1582, 2 t. in-fol., reimpressa (e talvez revista) por René Benoist, em Paris, em 1599, 2 t. in-fol. Em nossos dias, C. Dillet, editor em Paris, fez aparecer primeiro, em 1864-1865, uma tradução nova e completa feita por dom Maria-Próspero-Agostinho, em seis volumes, in-8°; dirigiu-se em seguida à ordem dos cartuxos e conseguiu que um filho de são Bruno se encarregasse de fazer uma tradução mais cuidada. Eis o título dessa última versão: La grande Vie de Jésus-Christ par le Chartreux Ludolphe. Nouvelle traduction intégrale avec préface et notes par le P. dom Florent Broquin, religieux du même ordre, Paris, 1870-1899 (ou 1900?) 7 vol. in-8°. Um extrato dessa tradução por Mons. Ricard foi publicado sob este título: Homélies sur les Évangiles de tous les dimanches de l'année liturgique, Paris, C. Dillet, 1885, e 1888, in-8°.
Há um velho resumo da grande Vida « vu et corrigé par Maistre Jehan Petri, gardien du couvent des Minimes de Paris », Paris, Jehan Treperel, 1507, petit in-4°. Rouen, 1509, in-4°. O resumo feito pela condessa Costa de Meauregard apareceu em 1848, em Paris, 2 vol. in-12, e foi reimpresso várias vezes, 1860, 1870, 1873, 1881, 1896 (?), etc. Tradução italiana, Bolonha, 1867, 2 vol., in-16. Em 1876, Lecoy de la Marche publicou uma Vie de Jésus-Christ composée au XVe siècle d'après Ludolphe le Chartreux, in-4°. É provavelmente um resumo da tradução francesa de João Mansel com acréscimos tirados das antigas lendas sobre Jerusalém, Judas, Pilatos, etc.
J. G. Siber, De illustribus Alemannis, præsertim Magdeburgis, Leipzig, 1710, in-4°; Trithemius; Arnoldus Bostius, De Viris illustr. S. Cartus. Ord., Cologne, 1609, c. xi, p. 19-21; Theodorus Petrejus, Bibliotheca cartusiana, p. 233, 234; dom Le Couteulx, Annales Ord. Cart., t. v; dom Le Vasseur, Ephemerides Ord. Cart., t. i, p. 440; Altamura, Biblioth. dominicana; Quétif et Échard, Scriptores Ord. Præd.
S. Autore.
Autor original: S. Autore
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